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19
Abr20

'Vi corpos trazidos em uma caçamba': a trágica história dos indígenas hostilizados por deputado em Roraima

Talis Andrade

indio aldeia.jpg

Hoje, os índios Waimiri-Atroari são apenas 2.009 pessoas em seu território original

 

por Caio de Freitas Paes

BBC News

- - -

No fim dos anos 1960, os militares elaboraram ambiciosos planos de integração nacional. A rodovia BR-174 foi uma das concebidas à época, para conectar a Amazônia ao resto do país, e hoje é a única ligação de Roraima ao Brasil.

Ao longo de 123 quilômetros, seu trajeto passa por dentro da terra indígena Waimiri-Atroari, na fronteira com o Amazonas, com postos de controle de tráfego em Presidente Figueiredo (AM) e Rorainópolis (RR).

Foi no trecho que fica em Roraima que, em 28 de fevereiro, o deputado Jeferson Alves vandalizou, com alicate e motoserra, o bloqueio que impede o acesso à terra indígena entre 18h e 6h.

No ato, transmitido pela internet, Alves diz que vai livrar seu Estado da corrente, que restringe o acesso entre as cidades de Manaus (AM) e Boa Vista (RR).

"Se depender de mim essa corrente nunca mais vai deixar meu Estado isolado", afirma no vídeo. São os indígenas que fazem a manutenção diária do bloqueio, necessário para evitar acidentes com animais e pessoas dentro da reserva.

As hostilidades entre poder público e a etnia, entretanto, datam de muito antes. Segundo o Comitê Estadual da Verdade do Amazonas, a região contém centenas de vítimas da ditadura enterradas clandestinamente.

Os Waimiri-Atroari quase desapareceram durante a abertura da rodovia BR-174: de pouco mais de 3.000 indivíduos nos anos 1960, segundo dados da Funai, a população caiu drasticamente para 332 indígenas em 1982, de acordo com Stephen Baines, que percorreu todas as aldeias no início da década.

Hoje, são 2.009, segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA).

Na década de 1970, o posto do Jundiá, em Rorainópolis, era parte de uma região conhecida como "Terraplanagem" — graças à técnica usada ali na construção da BR-174.

Manoel Paulino foi chefe de campo da Funai durante a abertura do trecho: suas memórias revelam o que a BR-174 esconde no local.

"Eu vi corpos dos índios trazidos em uma caçamba e serem jogados no buraco da terraplanagem [em Jundiá, Rorainópolis]. Vi cinco caçambas com índios. Eu vim embora porque adoeci e pedi para ir embora", disse Paulino ao Comitê Estadual da Verdade do Amazonas, em 2012.

O comitê teve acesso a relatórios da Funai que reforçam a hipótese. Só entre 1972 e 1975, na primeira fase das obras, pelo menos 10 aldeias Waimiri-Atroari teriam desaparecido entre Santo Antônio de Abonari e as margens do rio Alalaú. (Continua)

 

 

 

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