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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

02
Jan21

Vejam o homem que Bolsonaro é!

Talis Andrade

bolsonaro feminino.jpg

 

por Ane Cruz /Sul 21

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Jair Messias Bolsonaro, Presidente do Brasil, é um homem, branco, heterossexual, machista, racista, fascista, homofóbico, misógino, péssimo gestor público e extremamente perverso. Portanto, é assim que deve ser visto pela sociedade brasileira.

E porque não é assim que o vimos externado nas piadas em formas de “memes”?

Ora, se ele é um homem, porque tentam desqualificá-lo expondo sua imagem como uma mulher? Pelo simples fato de vivermos em uma cultura machista e que a nossa sociedade se ocupa em reproduzir.

Roberta Gregoli [1], do Blog Subversivas, abordou em 2012 no artigo “Machismo disfarçado de humor”, algumas questões sobre o que estamos levantando agora. Gregoli já alertava para o fato de que as piadas machistas, “naturalizam o desrespeito através da ridicularização. E o desrespeito simbólico é o primeiro passo para a violência real”. Segundo ela “não existe humor inofensivo. Ou se está transgredindo, ou reforçando o status quo”.

O único objetivo desses memes/piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categorização em forma de piada do papel das mulheres, apesar de parecer uma brincadeira, justifica atitudes machistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós mulheres.

A Filósofa Simone de Beauvoir, já em 1949, abordava no livro O Segundo Sexo o pensamento de que “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Esta expressão define, segundo elaque “nenhum destino biológico, psíquico e econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade”. Em outras palavras, Beauvoir defende a distinção entre sexo e gênero. Sexo é um fator biológico, ligado à constituição físico-química do corpo humano. Gênero é construído pela sociedade, ou seja, ser homem ou ser mulher não é um dado natural, mas algo performático e social — ao longo da história, cada cultura criou os padrões de ação e comportamento de determinado gênero. E eis que chegamos ao século 21 para vivermos a era dos “memes”, ou seja, piadas transformadas em humor, que retratam uma realidade em forma de brincadeira. Uma das brincadeiras que tem sido corriqueira é de igualar o Presidente Bolsonaro à uma figura feminina, de mulher. E como tal, a ninfeta, a louca, a mal amada, a largada pelo marido, a prostituta (e aqui vista como um sujeito de quarta ou quinta categoria por esta sociedade pseudo-moralista e hipócrita), a velha ou a loira burra.

São tantos os “memes” que colocam o atual Presidente no papel de uma mulher, com o único propósito, simplesmente, de “desqualificá-lo” enquanto mandatário do maior cargo de uma República.

O fato de relacionarem o Presidente com uma mulher traz à tona mais uma vez o quão machista e patriarcal é nossa sociedade. Já tivemos uma mulher Presidenta do Brasil [2], a qual foi impedida de completar seu mandato por um Parlamento e um Poder judiciário machista e misógino juntamente com o poder de uma mídia de espetáculo e inescrupulosa.

A historiadora Joan Scott [3] chama a atenção para a necessidade de se entender o gênero enquanto a relação entre os sexos, de como é assegurado um significado para os conceitos de homem e mulher e as práticas pelas quais os significados da diferença sexual são definidos.

O gênero dá significado às distinções entre os sexos, ele “transforma seres biologicamente machos e fêmeas em homens e mulheres, seres sociais”. Mas a diferenciação entre os sexos pressupõe a definição do que são as características que formam a identidade do masculino e do feminino. Para Scott, “não apenas as mulheres aprendem a ser femininas e submissas, e são controladas nisto, mas também os homens são vigiados na manutenção de sua masculinidade”. E é isto que os “memes” fazem ao equiparar o desqualificado presidente à uma mulher. Ora, as mulheres são “incapazes”, “só fazem bobagens” portanto “não sabem governar” e por isso comparam Bolsonaro à uma mulher. Porque os “memes” não trazem efetivamente um homem, a imagem do masculino, do macho incapaz? Do gestor incompetente. Do homem corrupto e perverso? Do patriarca que faz desmandos na sua família?

Precisamos refletir urgentemente sobre isso.

Do contráriom estaremos fortalecendo a cultura machista que determina lugar e papéis para homens e mulheres. O ano de 2020 é um ano eleitoral (se a pandemia deixar), então precisamos fortalecer as mulheres nesse processo. A cultura machista, misógina e patriarcal além de não dar espaço para as mulheres, ainda proporciona a falta de tempo para estas se dedicarem às atividades da esfera pública, há também um impedimento causado por sentimento de “não pertencimento”. Já está enraizado na sociedade há séculos que “não é designado às mulheres esse papel político”, é difícil convencê-las do contrário.

Os estudos de gênero mostraram ainda como as diferenças entre os sexos, estabelecidas de maneira hierárquica, são construídas historicamente e como as noções de masculino e feminino são igualmente históricas.

Beauvoir levou tanto tempo para ser compreendida assim como Scott tenta explicar estas definições e em um “meme” só, o sexismo, o machismo, o patriarcado conseguem traduzir a mais perfeita ignorância sobre este assunto e o completo desrespeito pelas mulheres ainda nos dias de hoje. Homens e mulheres têm a mesma capacidade.

Parem de comparar as fraquezas, os erros, as incompetências, as tolices e sandices de homens com imagens de mulheres. Se os homens são incapazes, loucos ou fracos, façam memes mostrando homens assim! 

 

Notas

[1] Roberta Gregoli é doutoranda na Universidade de Oxford, onde estuda as representações de gênero e sexualidade no cinema popular brasileiro. Formada em Letras pela Unicamp, possui mestrado (com honra e louvor) pelo programa Erasmus Mundus Crossways in Humanities nas Universidade de Sheffield (Inglaterra), Perpignan (França) e Nova de Lisboa (Portugal).

[2] Dilma Roussef, Presidenta reeleita em 2014, sofreu um processo de impeachment no ano de 2016.

[3]Joan Scoot. Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1988).

[Publicado em 2 de junho de 2020/ Sul 21]

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