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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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10
Mai18

Uma outra história: a iconografia de um país nada cordial

Talis Andrade


Exposição em cartaz no IMS, em SP, abrange 75 anos de conflitos mostra país longe de ideia conciliadora

degola revolução federalista.jpg

 

Simbólica da violência dos conflitos brasileiros, imagem mostra a degola de um revoltoso durante a Revolução Federalista, guerra que durou cerca de dois anos no Rio Grande do Sul, entre 1893 e 1895

 

por André de Oliveira

 

 


Quando olha para as disputas, conflitos e violências atuais, o Brasil tem muitas vezes dificuldade em entender de onde partiu a centelha do conflito, exatamente. Afinal, o retrato do brasileiro como um povo cordial, pacífico e conciliador abunda tanto na historiografia, quanto na iconografia. As grandes imagens do Brasil falam, muitas vezes, de um país icônico: jangadas ao mar, religiões afro-brasileiras, novas cidades sendo erigidas em meio ao cerrado. Oferecer uma outra representação, que ilustre os conflitos e violências constantes que fizeram e fazem parte da história do país, é o que pretende a exposição Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, que, depois de uma temporada no Rio de Janeiro, chega ao Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo nesta terça-feira, dia 8.

 

Cobrindo um período de 75 anos, as cerca de 400 imagens que compõem a exposição fazem um percurso através de revoltas populares, rebeliões, guerras civis, golpes de Estado e tentativas de revolução que se deram a partir da proclamação da República, em 1889, até o golpe militar de 1964. O grande período abarcado pela mostra e as especificidades de cada evento – são 19 ao todo – têm em comum o fato de que todos os conflitos retratados tiveram, de alguma forma, o envolvimento do Estado e foram parte de um processo maior de disputa política.

 

Na exposição, capítulos menos e mais conhecidos da história brasileira ganham, através das imagens, uma materialidade que permite uma compreensão maior de suas reais dimensões e reverberações, como a Guerra de Canudos (1896-1897) e o Tenentismo, que durou boa parte da década de 1920. A primeira foto que abre o percurso de eventos retratos, por exemplo, mostra um homem sendo degolado durante a Revolução Federalista (1893-1895), conflito pela disputa do poder do Rio Grande do Sul. Na época, a cruel degola era um evento corriqueiro desde, pelo menos, a Guerra do Paraguai (1864-1870), por motivos tão fúteis quanto a economia de munição e afirmação de superioridade. Chocante, contudo, a imagem é simbólica de uma prática disseminada não só naquele Brasil, mas também neste – quando se lembra das atuais rebeliões e disputas de facções em presídios.

 

Em conversa com o EL PAÍS, a curadora da exposição, Heloísa Espada, ressalta o fato de que, se por um lado, a mostra é um resgate de acontecimentos marcantes da vida nacional, também serve como uma pequena história da fotografia documental e do fotojornalismo no Brasil.

 

 

“Toda imagem realizada num conflito é interessada e abordá-la é abordar também os fatores que moldam seus significados”, diz Espada na abertura do livro catálogo – que pode ser lido e comprado separadamente. Por isso, segundo ela, o material serve ainda como um registro de como e por quem foi contada a história das violências brasileiras. Na elaboração de Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964, foram gastos cerca de quatro anos, entre pesquisa e confecção do material, em que a curadora contou com o apoio de uma equipe de pesquisadores. A socióloga Angela Alonso, que participou do processo, escreve também no livro: “Se você aprendeu na escola que este é um país pacífico e conciliador, vai desaprender. Aqui se descortina uma sociedade de faca, tiro e bomba. Não pense que se fala de um mundo à parte, o dos 'marginais'. É do coração da República que se trata”.

 

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