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O CORRESPONDENTE

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14
Abr20

Um necropresidente e o holocausto brasileiro à vista

Talis Andrade

 

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por Carlos Tautz

O necropresidente Jair Bolsonaro manifesta inépcia política e administrativa, agressividade e até falta de decência para lidar com um momento histórico em que se amalgamam crise e depressão econômicas com o rápido agravamento da pandemia de coronavírus/COVID-19. Até aqui, nenhuma novidade. 

O problema é que a pior Presidência da história do Brasil manifesta-se em toda a sua descompostura e perversidade justamente quando um verdadeiro tsunami está a poucos dias de atingir o País. A partir de meados de abril, começa o primeiro pico da exaustão do sistema nacional de saúde e a consequente mortandade produzida pelo coronavírus. Já se sabe que no Brasil, a exemplo dos Estados Unidos, a letalidade desse patógeno atingirá especialmente a população pobre e negra de regiões precarizadas. 

Os resultados sociais são imprevisíveis porque à mortandade anunciada se somam a crise econômica e o desemprego crescente que já enfrentamos desde 2015. 

O “balanço do barco”

Em tal cenário, não passa de recurso discursivo a recente suavização do negacionismo de Bolsonaro sobre a COVID-19. Em verdade, continua a plena carga a estratégia bolsonarista de contrarrevolução preventiva. Como vê o professor Eduardo Pinto, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que se dedica a estudar as Forças Armadas, trata-se de um permanente “balanço do barco”. 

Em outras palavras, é uma compulsão de Bolsonaro simular diariamente crises e soluções para desnortear nossos sentidos e ocultar a total ausência de qualquer planejamento estratégico de seu governo que não seja destruir ou privatizar o patrimônio público. 

Para se manter, Bolsonaro fia-se no apoio, na lógica, na visão de mundo e nas armas dos militares. Ainda que as indivíduos das Forças Armadas pontuem contradições com o “estilo” do necropresidente, a vinculação de mérito entre Bolsonaro a elite da tropa (que ocupa bem remunerados postos de comando no primeiro escalão e em outros 2.500 cargos da estrutura do Estado brasileiro) indica a convergência de projetos e, o mais perigoso, de disposições para a realização de ações.

Bolsonaro não está isolado, como afirma uma imprensa que perdeu a capacidade analítica por não praticar a checagem de campo. Ele continua a ter muito mais respaldo do que todos do campo democrático gostaríamos que ele tivesse – inclusive entre a classe média branca e histérica que mantém escatológico apoio ao ocupante do Palácio do Planalto. 

Por sua vez, ele, sempre que necessário, reafirma a aliança férrea com as cúpulas das Forças Armadas, que no atual governo manobram orçamentos militares entre os mais altos da história da República e acumulam vantagens funcionais substantivas. Por exemplo, através das reformas da Previdência e trabalhista, a alta oficialidade distanciou-se salarialmente da baixa oficialidade  (de sargentos e de praças) – e adentrou a elite nababesca do funcionalismo, onde antes pontificavam juízes e procuradores.

Sabendo de que, para manter o apoio social, também necessita aliar-se à base da tropa e de suas famílias (que juntas a policiais e seus entornos sociais alcançam perto de 5 milhões de votos), Bolsonaro conferiu a esses grupos vantagens menores, embora importantes para a sobrevivência em tempos de crise. Entre outras migalhas, possibilitou-lhes a contratação, pela Previdência Social, de militares aposentados/da reserva para diminuir a fila de dois milhões de pessoas que tenta se aposentar – fila que se formou desde 2017 sob os golpistas Michel Temer e Bolsonaro. 

Assim consolidou-se entre Bolsonaro e os militares uma aliança férreaque se baseia em dois pilares. Do lado militar, o fornecimento de quadros para gestão do Estado que a partir de experiências acumuladas, se “pós-graduaram” em termos de intervenção durante a campanha da ONU no Haiti (Minustah), iniciada em 2004, em papel subserviente ao serviço secreto dos EUA. Esses quadros militares ainda fizeram um estágio prático no Rio de Janeiro em 2018, quando o General de Exército Braga Neto, atual ministro da Casa Civil, chefiou a intervenção federal no Estado. 

Todos os comandantes brasileiros no Haiti, e também Braga Neto, que retém importantes informações sobre o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco (ocorrido menos de um mês após ele tomar posse como interventor), integram hoje os primeiros escalões do governo federal. (Continua)

 

 

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