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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

06
Set18

Um aluno de 10 anos atirou na professora e depois se matou com um tiro na cabeça

Talis Andrade

 

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Um aluno de 10 anos atirou na professora e depois se matou com um tiro na cabeça, na tarde desta quinta-feira, em uma escola em São Caetano do Sul, no ABC paulista. Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Caetano, David Mota Nogueira, aluno do 4º ano C da Escola Municipal Alcina Dantas Feijão, fez o disparo contra a professora por volta das 15h50m, logo após o intervalo do lanche, em sala de aula.

 

Segundo o capitão Robinson Mastropil, porta-voz da Polícia Militar, o menino provavelmente entrou com o revólver calibre 38 escondido na mochila. A arma, de acordo com a PM, pertence ao pai do garoto, que é guarda civil em São Caetano do Sul.


Em entrevista coletiva, secretário municipal de Segurança Pública da cidade, Moacyr Rodrigues, negou que a arma pertence à corporação. O revólver foi adquirido no ano passado e registrado no nome do pai do garoto. Segundo Rodrigues, não há registro de que o menino sofria qualquer tipo de transtorno ou bullying. De acordo com os professores, ele era uma criança tranquila e não tinha problemas de indisciplina.

 

De acordo com o capitão Robinson Mastropil, o estudante pediu para ir ao banheiro e quando voltou já estava com a arma em punho.

 

- Ele acertou a professora na região lombar. Em seguida, ele saiu da sala, desceu uma escada e disparou contra a cabeça - explicou o policial.

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Bolsonaro ensina criança a imitar uma arma, durante agenda eleitoral em Goiânia - Mais Goiás

 

 

Certamente os candidatos da família Bolsonaro não debaterão essa tragédia. Recentemente, em um comício, Jair Bolsonaro ensinou a uma criança de colo a imitar arma com a mão

 

“A arma, mais que a defesa da vida, é a garantia da nossa liberdade”, justificou Jair Bolsonaro candidato a presidente.

 

Eduardo Bolsonaro, candidato a deputado federal, reforçou o tom bélico. “Presidente tem que meter bala em vagabundo e não formar quadrilha com eles”, disse.

 

Flavio Bolsonaro, candidato a senador pelo Rio de Janeiro, evangelizou: "Quando a arma que mata defende a liberdade e o direito de viver, os anjos choram... mas não condenam"

 

Bolsonaro e seu estranho Deus das armas

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Misturar o divino com o profano, a Igreja com o Exército e a fé com as urnas é preparar o terreno para novas guerras

 

 

por Juan Arias

El País/ Espanha

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O ex-paraquedista Jair Bolsonaro, de extrema direita, candidato a presidente, considera como “uma missão de Deus” que o Brasil tenha um Governo formado por militares. Assim manifestou dias atrás no Fórum da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), em São Paulo. “No meu ministério terei, sim, muitos militares”, afirmou. E seriam de primeira divisão, “atacantes como Neymar”. Pensa portanto, se ganhar as eleições, em colocar nas mãos desses generais do Exército os ministérios-chaves do seu Governo. E tudo isso por fidelidade a Deus.

 

Bolsonaro justifica um possível Executivo composto por militares argumentando que, se os presidentes anteriores escolheram como ministros “guerrilheiros, terroristas e corruptos”, como diz polemicamente, por que não poderia ele convocar generais do Exército? O ex-paraquedista quis unir em um só abraço, hábil e eleitoreiramente, as duas instituições que aparecem nas pesquisas como as mais bem avaliadas pelos brasileiros: o Exército e a Igreja. Pretende fazer um governo de militares como algo que Deus lhe pede. Desse modo, conseguiria o milagre, ou a aberração, de que o Exército pudesse governar o país sem ter que dar um golpe militar.

 

Ascanio Seleme retratou em uma de suas colunas no O Globo essa conjunção de Bolsonaro entre a Igreja e os militares durante a convenção que sacralizou sua candidatura à presidência: “Em alguns momentos, a convenção parecia um culto de uma grande igreja evangélica (…). Em outros momentos, a sensação era de que se estava dentro de um quartel”.

 

Bolsonaro é um personagem que sabe, além do mais, usar a falácia de querer resolver problemas complexos com receitas simplistas. Uma delas é a de querer tirar o país da crise política, econômica e moral que o castiga com uma equipe de governo formado por membros do Exército. Demonstrou que leva a sério esse projeto ao escolher como vice o general Mourão, que já tinha insinuado, meses atrás, a necessidade de uma intervenção militar frente à crise política e institucional que agita o Brasil.

 

Trata-se de um militar defensor da ditadura e da tortura, que se permitiu em seguida arriscar palpites culturais ao afirmar, com tons racistas, que os brasileiros sofrem da “indolência dos indígenas” e da “malandragem dos africanos”. Sua função de vice-presidente o coloca constitucionalmente, além disso, na possibilidade de chegar à presidência se, por algum motivo, o titular tiver que abandonar o cargo, algo quase já normal neste país.

 

Desde antes de Lula chegar ao poder foi criado o ministério da Defesa ocupado por civis, mas agora teríamos com Bolsonaro a anomalia de um Governo em democracia formado por generais. O Brasil apresentaria, nesse caso, uma série de problemas que poderiam comprometer gravemente a democracia. Os militares, cuja função é a de defesa do Estado, estariam governando, e isso poderia arrastar as demais instituições à confusão. É como se alguém quisesse criar um governo de juízes. Seria a morte do Estado de direito, que se funda na divisão de poderes. E tudo isso amalgamado na ambiguidade religiosa de Bolsonaro e seus acólitos, que já revelaram mais de uma vez querer governar com a Bíblia mais do que com a Constituição.

 

Não sei que estranho Deus das armas inspirou Bolsonaro a formar um Governo com o Exército para resolver os problemas do país. Não pode ter sido o Deus cristão, o dos evangelhos, cuja fé o militar professa, já que esse é um Deus de paz – “Todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mateus, 26,52) –, de perdão e não de vingança, de respeito pelos diferentes, e defensor de todas as liberdades – “A verdade vos livrará” (João, 8,31) –, o Deus que condena a ambiguidade, que pediu a seus discípulos que respeitassem as instituições sem as confundir: “Deem a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César” (Mateus, 17,24ss), respondeu Jesus aos fariseus que buscavam tentá-lo, confundindo Deus com o Estado.

 

Misturar o divino com o profano, a Igreja com o Exército e a fé com as urnas é preparar o terreno para novas guerras como as que a humanidade já sofreu no passado, muitas delas realizadas em nome desse Deus militar que hoje parece inspirar Bolsonaro. Pastores evangélicos e cristãos em geral começam a questionar se podem, sem trair sua consciência, votar num candidato cujo Deus é mais o das metralhadoras e da morte que o dos ramos de oliveira da paz, que são o coração do cristianismo ainda não poluído pelo poder profano.

 

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