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O CORRESPONDENTE

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12
Jan20

Tudo pode ser escrito

Talis Andrade

Romance publicado em 1799 tem tradução lançada no Brasil

 

O filósofo, crítico literário, poeta e tradutor alemão Friedrich Schlegel escreveu, em 1799, seu único romance, Lucinde, que só agora chega por aqui em tradução acurada de Constantino Luz de Medeiros.  

Na época do lançamento a crítica foi negativa, pois “a aparente ausência de enredo, o jogo inusitado de vozes narrativas, a mistura de formas literárias, a profusão de imagens alegóricas advindas da tradição literária, assim como uma espécie de sensualidade espiritual (ou espiritualidade sensual) na relação conjugal entre mulher e homem […]”, como afirma Medeiros, no prefácio de sua tradução, rompiam com os paradigmas literários de seu tempo.
 

Lucinde é um romance epistolar heterogêneo, pois se oferece ao leitor também como uma forma de confissão polifônica, atribuída ora a Julius ora a um narrador desconhecido. Em razão desse hibridismo (cartas e dois diários), Schlegel o considerava um texto único em seu gênero, sem precedentes literários.

No romance, Julius pede que sua musa seja “insaciável” e revela que ele próprio perdeu as “regras da razão e da moralidade”. No depoimento seguinte, diz que a amada não deve esperar “a moral gentil do amor” e, à sua pergunta, “Como se pode escrever o que mal é permitido dizer, aquilo que só se deveria sentir?”, ele responde: “o que se sente é preciso querer dizer, e o que se quer dizer deve-se também poder escrever”. Schlegel defendia o espírito livre, assumindo que tudo pode ser dito e escrito. Mas “do mais elevado, por ser inexprimível, só se pode falar de maneira alegórica”, em forma de parábola, como ele afirma em seu ensaio clássico Conversa sobre poesia.

A alegoria é usada em Lucinde não só para falar do “inexprimível”, mas para se aproximar de outras questões importantes, como a “opinião pública”, comparada pelo filósofo a um monstro que de repente salta diante dele “inchado de veneno”, “os intestinos retorcendo-se feito vermes” e rastejando “com a mobilidade asquerosa de seus inúmeros pequenos pés”. De perto, entretanto, esse mostro não passava de um “sapo comum”.

Outras discussões atuais vêm à tona no livro, como a do “homem moderno” que, bocejando e indo embora, saúda os presentes dizendo: “Vós sois verdadeiramente medíocres, e eu estou entediado”.

Lucinde faz também um elogio ao silêncio, que seria a verdadeira passividade: “falar e dar forma são apenas questões secundárias em todas as artes e ciência, pois o essencial é pensar e poetizar, o que só é possível através da passividade”.

Schlegel teria colocado em pé de igualdade homens e mulheres ao enaltecer o espírito feminino que, graças a sua ousadia inata, estaria “acima de todos os preconceitos da cultura e das convenções burguesas”. Hoje, contudo, são questionáveis afirmações que relacionam a “coerência das mulheres” a algo que não seria “fria e rígida concordância de princípios ou preconceitos calculados, mas a fidelidade perseverante de um coração materno”.

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