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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

12
Jun20

Tem uma tristeza coletiva porque está morrendo muita gente

Talis Andrade

Votos bolsonaristas são votos ressentidos

pandemia Se-todos-morrerem-Bolsonaro.jpg

 

 

III - Coronavírus: Falta de empatia de Bolsonaro com mortes por covid-19 parece psicopatia

 
Juliana Gragnani entrevista Maria Rita Kehl
 
 

BBC News Brasil - A sra. escreveu um livro sobre ressentimento. Existe ressentimento na ascensão da extrema direita?

Kehl - O ressentimento tem esse "re" porque é um sentimento requentado, digamos assim. É uma disposição psíquica de alguns sujeitos quando eles não querem aceitar consequências dos seus gestos errados. Não aceita que é responsável por algo que o prejudicou. Então fica procurando um culpado. Depois passa o resto da vida remoendo isso: esse é o ressentimento.

Me parece que alguns votos bolsonaristas são votos ressentidos. É muito difícil saber do que se ressentem. De terem sido coniventes com a ditadura e vem Comissão da Verdade e mostra os horrores todos que aconteceram?

Ou o ressentimento de classe de quem no Brasil durante tanto tempo teve todas as prerrogativas… E veja, ninguém perdeu. Os ricos enriqueceram mais, só que os pobres tiraram o pé da lama. As prerrogativas dos ricos no Brasil são tão de exclusividade que geraram esse ressentimento.

Claro que tem ressentidos que votaram no Bolsonaro, mas tem gente que já era antipetista desde sempre e tem gente que apostou nesse plano econômico do Paulo Guedes, que é um plano para favorecer quem já é favorecido.

 

BBC News Brasil - Nesta semana, o ex-presidente Lula criticou os manifestos suprapartidários em defesa da democracia e se recusou a assiná-los. Existe também ressentimento por parte dele?

Kehl - O Lula é político até o último fio de cabelo. E não político no sentido de que queira ser candidato de novo. Eu não sei que ele está certo ou errado. Sinceramente, acho que ele tinha que aderir a esse movimento. Mas eu acho que o cálculo dele é político, não é porque ele é ressentido contra o Marcelo Freixo ou o Guilherme Boulos, por exemplo. Mas não sei julgar se esse cálculo político é certo ou errado.

Ressentimento é quando você se encolhe, não faz o que tinha que fazer e depois culpa o outro. Eu também não perdoo pessoas que apoiaram o impeachment da Dilma - que foi um golpe. Isso não é ressentimento. Eu acho que o Lula deveria fazer essa denúncia, mas assinar, porque o nome dele tem muito peso, mas eu entendo. O impeachment da Dilma foi um golpe que abriu a porteira para isso que tá aí agora. E não considero que toda essa revolta seja um ressentimento. Ao contrário, a revolta é o contrário do ressentimento. Ressentimento é remoer, revolta é dizer: "Com vocês não falo mais".

 

BBC News Brasil - Estamos vivendo um luto coletivo durante pandemia?

Kehl - Há um luto por parte das pessoas de bem. Porque sabem que há uma pandemia, que ela está sendo minimizada, que atitudes cientificamente comprovadas para diminuir o contágio não estão sendo tomadas, sabem que essa pandemia combinada com escalada da pobreza no Brasil está misturando quem morre de covid-19 com quem morre de fome, de gripe, de desnutrição.

É um sentimento de enorme tristeza. Não é questão de direita e esquerda, é solidariedade humana básica.

É um luto coletivo e uma indignação coletiva, vamos lembrar isso. Tem uma tristeza coletiva porque está morrendo muita gente. Cada dia a gente vê nos jornais, estamos agora com mais de mil mortos diários. Claro que tem tristeza enorme com isso, mas tem também uma indignação. A pandemia talvez não fosse evitável, mas com algumas políticas públicas simples e de contenção, ela podia não ser tão catastrófica. E aí um presidente que diz "Ah, todo mundo morre, e daí?"... Como se as mortes fossem naturais. Não, são mortes por descaso.

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