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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

08
Jan21

Teje Preso

Talis Andrade

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Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar! De nenhum modo físico eu estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para minha alma. Todos os olhares para onde olho estão tão escuros de lhes bater esta luz empobrecida do dia para se morrer sem dor.”

Fernando Pessoa no Livro do Desassossego

 

O respeitado site de informação UOL traz hoje uma notícia que chamou muito a atenção: a Deputada britânica Margaret Ferrier foi presa na Escócia depois de admitir que viajou de trem – de Londres a Glasgow, na Escócia – sabendo que estava infectada com Covid-19. Tal ato irresponsável foi objeto de indignação na Inglaterra e na Escócia e a Deputada foi suspensa do Partido. É claro que foi levado em consideração, para esta medida extrema, o efeito deletério que causa a notícia no sentido de que, quem tem a responsabilidade de um cargo público, está agindo de maneira leviana, imprudente ao colocar em risco outras pessoas.

Imagine, para efeito somente de argumentação com liberdade ficcional, que em um determinado país, hipotético, o Presidente da República afrontasse diariamente todas as normas sanitárias da OMS, negasse a existência do vírus, a letalidade da doença e pregasse a necessidade de confrontar as mais comezinhas regras de cuidado para evitar a propagação da doença. Que este Presidente se negasse a usar máscara, mesmo quando infectado, que fizesse lives desdenhando da obrigatoriedade da máscara. Que pregasse que o uso da máscara diminui a oxigenação no sangue!

Para coroar o absurdo, já que a fantasia é livre, que o Presidente da República deste triste país fizesse pregação pública, usando os aposentos oficiais, de drogas que não têm comprovação científica, sabe-se lá com qual propósito. E mais. Que desdenhasse da dor de milhões de pessoas que perderam entes queridos e amigos afirmando que: “não sou coveiro”, “todo mundo morre um dia”, “esta doença é para maricas”, “eu sou atleta, se pegar será só uma gripezinha”….

Como se não bastasse, para sair do trágico e incursionarmos no mundo teratológico, das monstruosidades, se este Presidente entrasse numa politização do vírus e trabalhasse abertamente contra a vacina, usando não apenas o seu poder como Presidente mas a estrutura do Estado para inviabilizar a vacinação, inclusive se posicionando contra a vacina, criando notícias falsas no sentido de que a vacina pode transformar pessoas em animais, e pregando que a melhor vacina é se infectar, é pegar a Covid-19!

Em um país presidencialista, a força simbólica do cargo de Presidente é muito significativa. Imagine por absurdo, neste país ficcional, o desastre, a tragédia para os cidadãos ter um Presidente que cultua a morte, despreza a ciência, ridiculariza a dor e humilha as pessoas que tentam ser solidárias. E se este Presidente tivesse a ousadia de não ter um Ministro da Saúde técnico no meio desta grave pandemia e que, não satisfeito em insurgir-se contra a vacina, também não se preparasse para a vacinação, não se preocupando sequer em ter as necessárias seringas em estoque.

Claro que tudo é ficcional! Mas imagina o efeito se este irresponsável, este genocida, fosse preso em nome da ciência, em respeito à vida, em solidariedade a todos que sofreram  com os mais de 200 mil mortos, em homenagem aos agentes e aos trabalhadores da saúde que se expõem há meses numa luta desesperada pela cura dos infectados. Eu, como advogado criminal, jamais defendo a prisão, mas como é tudo uma ficção, eu me permito perguntar. Claro que não pode existir um país com um Presidente assim! Seria muita tragédia e ele já teria sofrido impeachment antes de ser preso. Como disse a grande Clarice Lispector:

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

 
 
 
 
 
 

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