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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

19
Ago21

A senilidade dos generais de Bolsonaro

Talis Andrade

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O Brasil do atraso e do golpe

 

Internautas reagiram com humor e também críticas ao ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, que defende abertamente um golpe de estado. Segundo o militar, a intervenção das Forças Armadas pode ocorrer falseando o artigo 142 da Constituição. O gal criou o Dia do Foda-se. 

Leandro Demori
Heleno acaba de dizer em um programa de rádio que, devido à experiência do nosso Exército no Haiti, eles estão prontos pra nos colocar no prumo atuando como “poder moderador”.
General, fiquei com uma dúvida aqui: depois disso vocês vão evitar que soldados sob o comando do Exército estuprem nossas mulheres ou vai ser como foi no Haiti?

Os filhos abandonados da ONU no Haiti

Vivi Reis
A "experiência" do Brasil no Haiti: denúncias de corrupção, violência, estupros e 265 crianças haitianas deixadas para trás por seus pais, alguns deles militares brasileiros.
Rodrigo_Moraes
Haitianos pedem indenização da ONU por estupros na época em que general Heleno comandava forças de paz.
14
Jun21

Zuzu Angel, o filme, 15 anos depois

Talis Andrade

Zuzu Angel - Filme 2006 - AdoroCinema

 

por Urariano Mota

Nestes dias, melhorou muito a crítica ao filme Zuzu Angel, de Sergio Rezende. Podemos até mesmo ler no jornal O Estado de Minas:

“Com certeza, muita gente ainda se lembra dessa mulher, principalmente porque, em 2006, sua história foi relembrada em um belo filme no qual a atriz Patrícia Pillar e o ator Daniel Oliveira fazem o papel de Zuzu e Stuart, ambos com interpretações magistrais.”

Agora, por força da heroica Zuzu Angel, e do respeito à obra de um cineasta digno, o filme se tornou belo e com interpretações magistrais. Salve! Mas em 2006 não foi nada assim. Recupero o que publiquei no Observatório da Imprensazuzu angel: quem é essa mulher?

Zuzu Angel em NY no início dos anos 70, (© Acervo Instituto Zuzu Angel).

 

Se pudéssemos construir um texto somente a partir de citações, assim começaríamos um artigo sobre Zuzu Angel, a mais recente direção de Sérgio Rezende:

‘O filme conta a história de Zuzu Angel, uma estilista de sucesso internacional, que se vê diante dos horrores da ditadura e da tristeza de ter o filho, Stuart Angel, torturado e morto pelo regime militar.’ (Das primeiras notícias na imprensa.)

E sem comentário, saltaríamos para o que a crítica de cinema publicou depois sobre o filme na imprensa brasileira:

Zuzu Angel troca fala por discurso – Ao desenhar a personagem, Rezende e o co-roteirista Marcos Bernstein acentuam esse traço, o do chamado ao qual mãe nenhuma diria não. Cabe a Patrícia Pillar desempenhar quase sozinha o papel que coube, na Argentina, a movimentos de mães e avós de desaparecidos: assinalar a brutalidade do regime, expor o rosto das vítimas e cobrar providências… Quando o filme começa, Zuzu teme pela morte e escreve uma carta que atribui ao governo a responsabilidade por algo que lhe aconteça –encenação extremamente solene, por sinal…. A opção pelas idas e vindas no tempo, em oposição à reconstituição linear, serve ao clima de suspense que já havia em O Homem da Capa Preta e Lamarca. Aqui, no entanto, os saltos às vezes se assemelham a solavancos, como se a história de Zuzu precisasse ser revivida de acordo com uma estrutura preconcebida’ (Sérgio Rizzo, Folha de S.Paulo, 4/8/2006)

‘Cinemão para emocionar – Se nos anos 60 diretores como Ruy Guerra e Glauber Rocha apostaram no cinema como lugar de reflexão e crítica, nestes anos 2000 o que predomina é a tentativa de fazer filmes moldados ao mercado e bem-aceitos pelo público que vive à frente da tevê e adora Hollywood. Zuzu Angel, que estreia na sexta-feira 4, é mais um projeto saído do forno que tenta criar blockbusters brasileiros. Co-produzido pela Warner e apoiado pela Globo Filmes, o título, dirigido por Sergio Rezende, é forte candidato a sucesso de bilheteria. Seus trunfos: Patrícia Pillar, muito bem como a estilista Zuzu, a forte história da mãe que passa a lutar contra a ditadura depois de ter o filho assassinado por militares, nos anos 70, e a bem cuidada reconstituição de época. Seus problemas: um roteiro esquemático (qualquer referência ao passado é ilustrada por flashback e a narrativa apóia-se numa cômoda narração em off) e uma estrutura melodramática que sempre sobrepõe a relação mãe e filho às questões políticas’. (Ana Paula Sousa, CartaCapital, 4/8/2006)

‘Zuzu Angel esbarra em uma chaga que assola quase toda a nossa cinematografia: a dramaturgia. Roteiros ultratrabalhados, diálogos afinados a ponto de não permitir improviso, tudo passa por meticuloso tratamento antes da câmera começar a rodar. E o que falta é justamente a invenção do momento, saber se emancipar, visualmente falando, daquilo que está escrito no script. Falta, antes disso, saber traduzir texto em imagem…. O mesmo aconteceria com Zuzu se Patrícia Pillar não tivesse tanta felicidade em se encontrar dentro da personagem. Ela se supera. Mas escola de bons atores é outra coisa que não falta ao Brasil. O problema ainda é o roteiro’. (Marcelo Hessel, site Omelete, 4/8/2006)

O leitor já vê que um artigo assim não se escreve. Pega mal. Se ao menos adotássemos o recurso de citar sem aspas, copiar e colar, colar e copiar, mas com o cuidado de citar sem os incômodos sinaizinhos gráficos, um bom artigo para as folhas de todos os dias estaria escrito. Como a um ser humano ainda não foi dada a visão de mosca e de águia de uma só vez, o leitor sempre toma como leitura original o que se repete em diferentes órgãos, de imprensa. Plano geral e zoom, em um só indivisível instante, ainda não é possível. Mas pela compreensão bem que podemos organizar o que os olhos não alcançam. Acompanhem-nos, por favor.

Importa-nos aqui a coincidência, a unanimidade de um ponto de vista. Das mais às menos conservadoras publicações, parece ter havido um acordo prévio, uma comunicação pelo telefone móvel, em que os críticos de cinema concertaram e se acertaram em uma só corrente. Que é, em diferentes graus de lentes e letras: o filme Zuzu Angel é ruim, mau cinema, filme de oportunidade e apelação. Adotado esse ponto de vista, tudo o mais é complemento, vem como água de correnteza – basta seguir o movimento. Ainda que contra a corrente, nos vêm as perguntas:

1. Teria havido neste caso, como parece ocorrer à primeira vista, uma expressão pura e simples da verdade, nada mais que a verdade, no espírito de corpo de toda a crítica?

2. Ou, de modo mais simples, aqui triunfa a ideologia mais simples de aceitação do status quo, de recusa a um mundo que se deseja ver submerso, para todo o sempre e nas profundas submerso?

Se nos permitem a expressão, vejamos. Mirem.

Um dos pontos comuns dos críticos é que o filme Zuzu Angel – supondo, claro, que o tomem como um filme – não se realiza como obra artística. E por quê? Aqui vamos do acessório ao momento parcial, que se deseja confundir com o específico. No que é exterior, acessório: trata-se de uma produção da Globo Filmes e da Warner, embora nada se escreva sobre em quê essa conjura de maus elementos haja determinado o conteúdo e a realização da obra. O princípio implícito é: dize-me quem te financia, que eu te direi quem és. Ou dito de outra maneira, essa arte industrial, que chamamos de cinema, pode até ser boa, a depender da fonte de financiamento.

Se assim não se expressam de modo tão brutal e claro, insinuam, de passagem, como quem nada quer – ora, esses artistas que são pagos pela Coca-Cola, esses artistas que não têm dinheiro próprio para construir um filme de larga distribuição… Deveríamos responder a isso: destruam, por motivo de origem de recursos, toda a produção do cinema dos últimos 50 anos, e depois vivam felizes com as obras de arte do super 8. Mas nada dizemos, porque outro impedimento se alevanta.

No elenco de Zuzu Angel existem atores da televisão, se é que são atores, da telenovela, da TV Globo, o que, o caso bem olhado, deve ser uma imposição da Globo Filmes, tudo a ver. Uma insinuação dessas sequer merece resposta, quando não nos sai da cabeça o patrimônio cultural de nome Fernanda Montenegro. E a própria Patrícia Pillar, como viemos a aprender. Mas não podemos correr sem anotar, de passagem: atores comem, atores bebem, atores precisam viver. Incriminá-los a partir do papel dos patrões, é o mesmo que confundir o bancário com o banqueiro.

E aqui entramos no reino dos sábios do cinema. Eles não se contentam em comentar, fazer uma crítica ao conjunto, ao produto final da empresa infame, digamos assim. Não. Os bons críticos passam a ensinar, apontar o dedo, como consultores indignados, porque o idiota do diretor não lhes seguiu os conselhos.

Mirem. O diretor Sérgio Rezende não sabe fazer flashbacks, porque “um dos principais problemas do filme reside em sua estrutura equivocada, que atira flashbacks aparentemente ao acaso ao longo da história, quebrando o ritmo da narrativa”, como lhe apontou um dos sábios. “A opção pelas idas e vindas no tempo, em oposição à reconstituição linear… Aqui, no entanto, os saltos às vezes se assemelham a solavancos”, segundo o crítico de cinema da Folha de São Paulo. Talvez, quem sabe, o diretor devesse advertir, sempre com um aviso na tela, como nos tempos do cinema mudo, em um quadro negro: ‘Flashback’. E recuava no tempo, para mais adiante voltar com a informação: ‘No presente’. E entre parênteses: (‘Presente de 1971’). Então todos compreenderiam, porque os avisos à margem do caminho sempre anunciam os buracos, que geram em um carro os solavancos.

Um ponto nevrálgico, no entanto, mais se torna agudo, conforme as lições publicadas pelos senhores críticos. É o roteiro, o guia e guión do filme. A falha vem apontada por gradações. Se na crítica de Sérgio Rizzo esse crucial defeito é mencionado de modo oblíquo, nas dos demais, não. No comentário da CartaCapital, o roteiro é esquemático e possui uma “estrutura melodramática que sempre sobrepõe a relação mãe e filho às questões políticas”. Na crítica do Omelete a coisa quase descamba para o perigoso reino da galhofa. “Zuzu Angel esbarra em uma chaga que assola quase toda a nossa cinematografia: a dramaturgia. Roteiros ultratrabalhados, diálogos afinados a ponto de não permitir improviso, tudo passa por meticuloso tratamento antes da câmera começar a rodar”.

Por Deus, se se fala sério, então é um escândalo. Pois o que falta justamente ao cinema brasileiro, o que é uma cruz que carrega somente aqui e ali solucionada, e perdão pela lembrança de O Pagador de Promessas, é justamente a crença dos nossos criativos diretores, que pensam que a imagem é tudo, ou quase tudo, que das lentes brotam magníficos filmes! Daí que a maioria dos novos bárbaros se torna apedeuta, com as honrosas exceções de sempre, Nelson Pereira dos Santos, Walter Salles, Lúcia Murat, Sérgio Rezende, Marcos Bernstein, e tememos possuir mais dedos que cineastas cultos.

E aqui sentimos ter que lembrar um lugar-comum, quando nos referimos certa vez à qualidade do cinema argentino:

“Dizer que o filme se apoia em um roteiro, e que o cinema argentino tem roteiros, bons roteiros, que se apoiam na fabulação da literatura, quando não realizam uma literatura no cinema; dizer que cinema não é só imagem, não é só uma câmera na mão, e que o caminho autoral, do diretor, passa pelo aprendizado também da leitura que não é cinema – tudo isto foi bem e melhor dito, escrito, em mais de uma oportunidade. Repetir esta trilha seria repetir a vereda-caminho-percurso trajeto e itinerário de um tedioso lugar-comum’. (La Insígnia)

Pelo visto, teremos que repetir ao infinito, porque cresce e prospera como erva daninha a crença de que a criatividade chega a prescindir de qualquer guia, o guión. Para os novos gênios, quanto mais genialidade sem letras, melhor. Câmeras, ação, nunca foi tão próprio dizer-se.

Todos os críticos, todas as críticas, se inclinam a dizer que, apesar da direção frágil, apesar das grandes falhas do filme, apesar de você, Sérgio Rezende, apesar de você, Marcos Bernstein, que teve o erro de cometer esse roteiro depois do magnífico Central do Brasil, apesar de tudo, dois artistas se salvam. Um é Chico Buarque, pela canção Angélica, que ele compôs em homenagem a Zuzu Angel após o assassinato dessa mãe sem medo. Uma composição bela, inolvidável, que cai em nossos ouvidos como o filho de Zuzu Angel, lançado ao mar. O outro é Patrícia Pillar, por sua representação, que cresce e toma conta do filme, apesar de. Nas palavras do crítico da Folha, ela chega a “desempenhar quase sozinha o papel que coube, na Argentina, a movimentos de mães e avós de desaparecidos: assinalar a brutalidade do regime, expor o rosto das vítimas e cobrar providências…”. (Vocês nos perdoem, mas somos obrigados a transcrever novamente tal sandice.)

Mas aqui, bem sabemos, é adotada a fórmula brasileira de elogiar contra. Acreditem, assim como o pau-de-arara da tortura, esta é uma invenção nacional. A saber: quando elogiamos muito Lima Barreto, isso quer apenas dizer que Machado de Assis é um mulato envergonhado. Quando elogiamos muito a letra do ‘poeta’ Chico Buarque, isso quer apenas dizer que sua melodia, sua música, é uma coisa menor. Ou seja, erguemos ao céu alguém para matar por aproximação quem lhe fica abaixo, muito abaixo.

E assim ocorre com o brilhante desempenho de Patrícia Pillar. Deseja-se com o elogio apenas ressaltar: é uma pena que tenha trabalhado com um diretor tão medíocre, em um filme tão abaixo do talento de uma grande atriz. Mas aqui o insulto, a injustiça, volta-se contra quem o faz como um bumerangue. Numa última citação, permitam por favor transcrever um genial crítico, que jamais encontraria lugar em nossa imprensa de todos os dias:

“Nesse ponto ouço distintamente uma pergunta dos meus inevitáveis adversários: – E se tivermos uma tomada de cena de longa duração, onde um ator representa, sem interrupção, sem cortes de montagem? A atuação dele cessará de impressionar? Não será o desempenho de um grande ator que causa impressão? Respondo: seria errado imaginar que a pergunta traz um golpe mortal à noção de montagem. O princípio desta última é muito mais vasto. É falso acreditar que um pedaço de filme onde o ator interpreta sem que o diretor tenha tocado na película seja uma composição ‘fora de montagem’. Absolutamente falso! Nesse caso é preciso procurar a montagem em outro lugar: na própria representação”.

Essa reflexão traz uma luz. Se isso se aplica a uma parte de um filme, o que diremos de todo o conjunto? A interpretação de Patrícia Pillar somente avulta porque há uma direção madura, porque existe um roteiro que imaginou as cenas, porque em Zuzu Angel existe um diretor que montou os seus vários momentos e nos deixa na retina uma imagem que não se olvida. Elementar.

Mas não podemos terminar sem o nome do criminoso das linhas citadas acima. Trata-se do cineasta e teórico de gênio chamado Serguei Eisenstein. Que, como se sabe, apesar do terrível defeito de ser socialista, realizou alguns filmes de atores magníficos.

 

 

 

 

16
Mar21

Alguém acha que se Bolsonaro perder as eleições contra Lula irá passar a faixa pacificamente? Por Juan Arias

Talis Andrade

 

A única coisa que preocupa o capitão desde que foi eleito é assegurar sua reeleição no ano que vem. Contra isso, é capaz de atropelar liberdades e voltar a acariciar seu sonho de uma nova ditadura militar

No El País

A possível foto do capitão Bolsonaro passando pacificamente a faixa presidencial ao ex-presidente Lula percorreria o mundo. E é isso que o presidente tentará evitar. Já recém-eleito em 2018 começou imediatamente a colocar em dúvida a legitimidade das urnas e exigiu o voto impresso. Chegou a dizer que se os votos não fossem manipulados ele teria vencido no primeiro turno e que tinha provas disso, mas nunca as apresentou. E desde então deixou claro que se perder o próximo pleito e ainda mais agora com a possibilidade de que Lula seja o vitorioso, não aceitará pacificamente os resultados.

Não por acaso, desde que surgiu de surpresa a possibilidade de que Lula possa disputar as eleições, Bolsonaro tem afirmado que só ele pode impor o estado de sítio no país. Falou novamente da possibilidade de um golpe, de que ele conta com “seu Exército”.

Bolsonaro nunca apareceu tão nervoso e agressivo ao mesmo tempo em que se apresentou de repente como o defensor da vacina, enquanto abre uma guerra contra os governadores aos que acusa de ser os responsáveis pela tragédia da pandemia por permitirem medidas restritivas para tentar conter o drama da covid-19 cada vez mais perigosa e agressiva.

A única coisa que preocupa o capitão desde que foi eleito é assegurar sua reeleição no ano que vem. Contra isso, o presidente é capaz de atropelar todas as liberdades e de voltar a acariciar seu sonho de implantar uma nova ditadura militar. Não é por acaso que a cada dia seu Governo aparece mais militarizado e que no boletim do Clube Militar do Rio de Janeiro tenha se defendido que a maioria dos brasileiros “tem saudade da ditadura”. Algo que todas as pesquisas nacionais desmentem mostrando que 70% dos brasileiros são favoráveis à democracia.

Bolsonaro voltou esses dias à cínica filosofia de que “a liberdade é mais importante do que a vida”. Só que ele falar de liberdade soa a sarcasmo. Pelo contrário, para ele o conceito de liberdade não existe. A primeira vez que ele falou de liberdade significou liberdade para infringir as leis restritivas contra o avanço da pandemia. Bolsonaro não entende de filosofia e não sabe o que é um silogismo e um sofismo. Seu forte não é o raciocínio e a reflexão e sim a impulsividade das armas e a exaltação da violência em todas as suas vertentes.

Quando o presidente defende que a liberdade vale mais do que a vida não está fazendo uma reflexão filosófica. Está só pensando na liberdade que suas hostes negacionistas pedem para desobedecer às normas impostas pela ciência e a medicina em meio à maior tragédia sanitária da história do Brasil.

Bolsonaro tem pavor de perder votos de suas hostes se apoiar as medidas necessárias não só para prevenir o contágio pessoal, como também para impedir o dos outros. Chega a defender que é melhor morrer e expor os outros à morte do que impedir as pessoas de burlar essas normas ao bel-prazer. Sua única obsessão é a de poder perder as eleições e por isso despreza a vida dos outros para salvar seu poder.

Bolsonaro falar da liberdade mesmo à custa de colocar em perigo a própria vida é risível e soa mais à fraude. Se há hoje no Brasil um político que despreza a liberdade é o presidente cujo vocabulário está repleto de palavras como golpe, ditadura, guerra contra a liberdade de expressão e perseguição dos direitos humanos. De guerra contra a liberdade das pessoas de escolher suas preferências sexuais e de negar que os diferentes tenham direito à sua liberdade de sê-lo.

A palavra liberdade na boca do negacionista e genocida já nasce podre e corrompida.

A única forma de liberdade para ele é justamente a de perseguir as liberdades que forjam uma sociedade verdadeiramente democrática onde não existe valor maior do que a vida.

presidente alardeia o uso de Deus para seus planos de poder e para ganhar os votos da grande massa dos evangélicos. Ele, que gostaria de trocar a Constituição pela Bíblia, deveria se lembrar que nos textos sagrados Jesus define a si mesmo como “o caminho, a verdade e a vida” (João, 14,16).

Bolsonaro despreza exatamente esses três conceitos. Em vez de ser o caminho, ou seja, o guia de uma sociedade justa e livre, é o motor da confusão e do desgoverno. Em vez de ser o representante no país da verdade é o semeador da mentira, cultor da nova moda das fake news. E em vez de ser o defensor da vida chama de covardes os que se protegem do vírus e fazem sacrifícios para continuar vivos.

Não existe no presidente que está conduzindo o país a uma catástrofe um só instinto de vida. Seu abecedário é o da morte e da destruição como revela sua paixão pelas armas, expressão da morte e da violência. Que Bolsonaro coloque um falso conceito de liberdade como mais importante do que a vida é a melhor constatação do que já havia confessado: “Eu não nasci para ser presidente. Minha profissão é matar”.

Bolsonaro poderá um dia ser levado aos tribunais internacionais acusado de não ter impedido com sua negação da pandemia e seu desprezo pela vacina encher os cemitérios de mortos. A única verdadeira liberdade que ele pratica é a de abandonar o país a sua própria sorte para não perder o poder.

O certo e cada vez mais indiscutível é que o Brasil, desde o fim da ditadura e volta à democracia, nunca esteve tão perto de uma nova tragédia política. A espada de Dâmocles de um novo golpe militar não é algo hipotético e sim algo bem próximo. E ainda mais com a chegada inesperada de Lula e a deterioração cada dia maior das instituições que deveriam velar pelos valores democráticos como o Congresso e o Supremo onde está ocorrendo uma verdadeira guerra campal entre os magistrados que deveriam colocar todos os seus esforços na defesa da democracia ameaçada.

Por sua vez, os militares que se comprometeram abertamente com o Governo Bolsonaro e suas loucuras antidemocráticas dificilmente aceitarão aparecer como derrotados. E certamente não permitirão perder essa guerra.

As grandes tragédias dos países começam por ser consideradas como catastrofistas e acabam sempre se realizando quando já não há mais tempo de detê-las.

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Cuidado Brasil!

Quem mandou matar Marielle?

Hoje, 14 de março, completam-se três anos do atroz assassinato da jovem ativista negra vinda da favela, Marielle Franco, e sobre sua tumba continua ameaçador o silêncio sobre quem foram os mandantes de sua morte. Escrevi em outra coluna que Marielle morta poderia acabar sendo mais perigosa do que viva. Talvez seja necessário uma mudança no Governo de morte de Bolsonaro para que por fim saibamos com certeza quem matou a jovem e por quê. E então o Brasil poderá, por fim, fazer justiça da bárbara execução.

Para isso será preciso que chegue um presidente não comprometido com o submundo das milícias do Rio e que chegue um Governo realmente democrático que descubra o mistério de sua morte e, por fim, faça justiça levando aos tribunais os culpados hoje escondidos nos porões sombrios do poder.

01
Out20

“Espero que a mídia pare de assassinar a história brasileira”, diz Hildegard Angel entrevista (vídeo)

Talis Andrade

 

 

Jornal GGN – O negacionismo diante do obscurantismo da ditadura militar perdurou por mais de 40 anos na vida da jornalista Hildegard Angel, tempo que lutou para que a Justiça pudesse reconhecer o Estado como responsável pelo assassinato de sua mãe, a estilista Zuzu Angel. Ela conta ao Cai na Roda, programa tocado pelas mulheres da redação do GGN, exibido no Youtube, a luta pelo reconhecimento da história de sua família.

A família de Hildegard foi mais uma na mira da violência dos militares nos anos de chumbo. Desde que o militante Stuart Angel foi preso pelo regime, Zuzu se dedicou na busca do filho e, também, passou a ser perseguida.

Stuart foi dirigente do grupo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e preso por agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) em maio de 1971, na região da Vila Isabel, no Rio de Janeiro. 

Em 1976, Zuzu denunciou o desaparecimento do filho ao então senador Edward Kennedy e entregou relatos sobre a prisão de Stuart ao então Secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger. Logo em seguida, a estilista morreu após seu carro capotar na saída do Túnel Dois Irmãos, também no Rio. Na época, o caso foi tratado como um acidente de “causas desconhecidas”.

Hildegard, então, lutou para que a história de sua mãe fosse contada de forma verdadeira. “Nós entramos com o processo buscando esse reconhecimento, foi um trabalho muito árduo”, comenta a jornalista ao GGN. “O Brasil inteiro sabia que a Zuzu Angel tinha sido assassinada, mas a gente precisou fazer isso [recorrer à Justiça e a mídia]”, desabafa.

Só em 1998 que a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, após Hildegard ir até a TV denunciar o assassinato e um advogado paraibano relembrar que presenciou o acidente e escrever um artigo sobre sua memória, decidiu ouvir novas testemunhas e concluir que a estilista foi vítima de um atentado.

“Eu falei nas câmeras das televisões que me procuraram, havia um grande interesse da mídia a esse respeito, muito maior do que é agora, mas havia e ainda há, e a repercussão incomodou muito os membros da Comissão [de Mortos e Desaparecidos]. Com essa minha apresentação na televisão, uma pessoa da Paraíba escreveu num jornal que sabia como que Zuzu angel morreu, era um antigo estudante da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica). Junto com um jornalista também da Paraíba, ambos estudavam [juntos na época] e moravam no único prédio que havia em São Conrado [no Rio de Janeiro]. Eles estavam tomando sua ‘cervejinha’ de madrugada na varanda, quando ouviram o barulho, o estrondo de um carro e correram pra olhar o que tinha acontecido e viram o carro da mamãe [Zuzu Angel] e o carro da patrulha. Eles correram, eles calcularam que, em três minutos, estavam no local. Em três minutos já estavam no local o carro da imprensa nacional, o rabecão (que era o único rabecão de todo o estado do Rio de Janeiro) e havia agentes policiais no local”.

“Posteriomente nós descobrimos uma foto de um agente do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] que teria sido o articulador daquela emboscada e assim essa história pode ser recontada e os membros da Comissão me procuraram… e então trabalharam sigilosamente, sem me dizer, e foram feitas entrevistas na Paraíba com essas pessoas, refizeram toda a parte pericial, comparando o laudo policial da morte dela, as fotos do automóvel e tudo concordava. Todos os elementos acordavam que o acidente havia sido efetivamente provocado e eles reconheceram o assassinato”.As imagens do acidente que matou Zuzu Angel - Jornal O GloboDoodle do Google celebra 94 anos da estilista Zuzu Angel; veja homenagem |  Notícias | TechTudo

No entanto, somente em 2019, Hildegard por meio de um mandado judicial pode emitir as certidões de óbito reparadas da mãe e do irmão. E, mesmo com todas as evidências, a grande mídia exitou em contar a verdade história de Zuzu Angel.

“Posteriormente a isso [o reconhecimento do assassinato pelo Estado] nunca, qualquer órgão da imprensa dizia que a Zuzu Angel tinha sido assassinada, diziam que ela morreu por causas desconhecidas, em um acidente de causas desconhecidas”, explica.  

Para Hildegard, a imprensa não se convenciam porque existia um “medo atávico, um ranço de medo de desafiar as autoridades e mais, um ranço de medo de processos”. Mas sua esperança é que a história de sua mãe não seja mais omitida. “Eu espero que os veículos parem de assassinar a história brasileira e permitam que a Zuzu Angel tenha sido assassinada”, diz.

 

 

17
Mar18

A execução de Marielle não foi só crime de gênero ou crime racial, as nove balas atingiram a nossa Democracia

Talis Andrade

 

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por Hildegard Angel

 


O momento é da maior gravidade. Abrem-se as cortinas da tragédia anunciada. Não podemos restringir a execução de Marielle a mais um crime de gênero ou mais um crime racial. Sua dimensão é ainda mais abrangente. Foi sobretudo um crime político, de cerceamento de opinião. Um tiro fatal na liberdade, nove balas UZZ-18 em nossa agonizante Democracia.

 

O tiro no Calabouço, em 1968, levou embora o secundarista Edson Luís, mas despertou a massa humana, que desde 1964 se mantinha passiva observadora dos fatos. Nessa era da internet, tudo acontece em maior velocidade. Do golpe de 2016 ao despertar das multidões entorpecidas e da consciência nacional, neste 15 de março de 2016.

 

As panelas emudecidas e as camisetas da Seleção não quiseram compactuar com o sangue dessa cilada grotesca. Entenderam o quanto foram e têm sido manipuladas em nome de interesses que não são os do povo. As balas que mataram Marielle foram vendidas para a PF de Brasília. Houve uma conspiração muito bem planejada, envolvendo dois carros, um deles clonados.

 

Executaram Marielle para calar sua militância. Assim como executaram minha mãe, Zuzu Angel  para emudecer suas denúncias e a exposição enlutada de sua dor, com a perda do filho torturado e morto pela ditadura. Da mesma forma como se deu com Marielle, minha mãe foi seguida em seu trajeto, pelo veículo de seus executores, até o local pretendido para a eliminação. Tudo de acordo com os manuais técnicos da maldade. Duas décadas depois, as investigações dos Conselhos de Desaparecidos e Comissões da Verdade jogaram luz sobre o que se tentou fazer passar por “acidente”, e esclareceram que houve uma emboscada para exterminar Zuzu. Bem como, inicialmente, quiseram fazer a execução de Marielle passar por mais um assalto entre tantos na cidade. Não colou.

Zuzu-Angel-.jpg

 

 

O efeito dessa campanha desmoralizadora logo se fez sentir. Hoje, em minha hidroginástica frequentada por pacatas senhoras do bairro, uma delas, enfurecida, bradava contra os “direitos humanos” que Marielle defendia. Na campanha em circulação, eles maliciosamente a comparam a uma médica não militante, que morreu num assalto e não teve as mesmas glórias na morte. Propaganda cheia de obviedades, para atingir mentes desprevenidas.

 

E de repente me vi, não mais na piscina azul da academia, porém numa piscina de sangue. O sangue que o pensamento fascista já verteu no Brasil e poderá fazer ainda jorrar muito mais. O sangue de minha mãe, em 1976. O sangue de Stuart, de Sônia, de Maria Helena, de Vlado, de Rubens Paiva e muitas centenas, nos Anos de Chumbo. O sangue de Marielle neste 2018. O sangue de Anderson Gomes, a vítima errada na hora inadequada. O sangue de muitos outros que precisarão ser emudecidos.

 

A Democracia está sangrando por Marielle, por Anderson, por nossos filhos, por todos aqueles que não se calam.

 

 

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  65. D
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