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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

12
Mai22

Entidades criticam derrubada de monumento a 28 mortos em operação policial no Jacarezinho; organizações avaliam recorrer à Justiça

Talis Andrade

Policiais da Core destruíndo o monumento que ficava sobre uma ponte da comunidade

 

por Rafael Nascimento de Souza /Extra
 

Movimentos sociais protestaram contra a derrubada de um memorial – inaugurado na última semana na Favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio – em memória aos 28 mortos em uma operação da Polícia Civil no ano passado. Na tarde desta quarta-feira, agentes da 25ª DP (Engenho Novo) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) usaram picaretas e um veículo blindado para pôr abaixo a estrutura erguida por entidades como o LabJaca e o Instituto de Defesa a Ação Negra. Em nota conjunta, instituições como Associação Juízes para a Democracia (ADJ), Casa Fluminense, Instituto Marielle Franco, Voz das Comunidades, Federação de Favelas do Rio, Observatório Cidade Integrada e Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) criticaram a ação policial e destacaram que receberam “com surpresa” a derrubada. Elas deverão acionar a Polícia Civil na Justiça.

Um ano depois: MP denuncia 2 policiais por mortes de 2 homens no Jacarezinho em operação mais letal do RJ

Veja a derrubada do memorial em homenagem aos 28 mortos em ação policial no Jacarezinho

De acordo com trecho do comunicado, “o memorial foi uma ação concreta para lembrar as 28 vidas perdidas durante a chacina, sejam elas de civis ou policiais, vítimas da política de violência que os governos do estado do Rio vêm aplicando contra a população de favela, em sua maioria composta por pessoas negras”. Ainda de acordo com o documento, “a violência não pode ser o único caminho para o estado se fazer presente nas favelas”.

O advogado de várias das vítimas Joel Luiz Costa, que morou na comunidade, destacou que “não basta banalizar o derramamento de sangue, eles ainda tripudiam da nossa resistência”.

Operação letal: Polícia produziu laudo após fim da investigação para defender agentes sobre mortes no Jacarezinho

Segundo a Federação das Associações de Favelas do Rio (Faferj), “não existe apologia a nada, pois há liberdade de expressão”. Ainda de acordo com a instituição, “os 28 mortos na chacina no Jacarezinho, sequer foram julgados ou condenados. Apenas executados com aval do estado”.

Para justificar a derrubada, a Polícia Civil afirma que o monumento faria apologia ao tráfico de drogas, já que "27 mortos tinham passagens pela polícia e envolvimento comprovado com atividades criminosas, além do fato de que a construção do mesmo não tinha autorização da prefeitura do Rio de Janeiro".

Ainda de acordo com a justificativa da Polícia Civil, o nome do policial civil André Leonardo de Mello Frias, também morto na operação, foi incluído no memorial sem a autorização da família, e isso teria sido mais um motivo para a ação.

Em nota, a assessoria da Polícia Civil reforça que o memorial é ilegal:

"Investigação da 25ª DP comprova que o memorial era ilegal, pois além de não ter autorização da prefeitura, e nem da família do policial morto, também fazia apologia às drogas. Essa apologia é comprovada com a própria frase estampada no memorial, que afirmava que o tráfico local era 'apenas um comércio varejista de drogas', quando é sabido por todos que o Jacarezinho era comandado pela maior facção criminosa do estado e que os 27 criminosos mortos em confronto com a polícia tinham envolvimento comprovado com o tráfico.

O programa Cidade Integrada, que retomou o território para o estado, não admite nenhum tipo de nova construção sem as autorizações necessárias, como é exigido em qualquer área formal da cidade. Além disso, o Cidade Integrada comprova o tamanho da quadrilha do Jacarezinho, pois desde o início do projeto o prejuízo financeiro ao tráfico já é da ordem de R$ 60 milhões".ImageImageImage

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19
Mar22

Manuela D’Ávila: Sementes de Marielle florescem e são esperança de outro país

Talis Andrade

 

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A vice-presidenta nacional do PCdoB protestou pelo fato de, até hoje, o mandante do crime não ter sido apontado

 

por Priscila Lobregatte /Vermelho

A vice-presidenta nacional do PCdoB, Manuela d’Ávila, homenageou, nesta segunda-feira (14) pelas redes sociais, a vereadora carioca do PSol, Marielle Franco, e seu motorista, Anderson Gomes, assassinados há exatos quatro anos. E protestou pelo fato de, até hoje, o mandante do crime não ter sido apontado.

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“Quatro anos da morte de Marielle e nosso país ainda exige saber quem mandou matá-la! Sua execução e de Anderson e a profanação permanente de seu corpo — com a quebra de placas, fake news asquerosas e piadas nefastas — foram os sinais mais claros daquilo que nosso país passou a viver nesses últimos quatro anos”, declarou Manuela. 

Ela colocou ainda que “da mesma maneira, as sementes de Marielle florescendo são esperança de que podemos ser um país mais próximo daquilo que ela sonhou e lutou”. 

Fazendo referência a uma foto de Marielle, Manuela salientou: “Eu olho para essa imagem e penso em Dona Marinete, em Anielle, em sua filha Luyara. Penso nas mesas de domingo com a imensidão de sua ausência. Penso em Monica. Desejo que meu carinho e solidariedade chegue até cada uma delas”.

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Marielle e Anderson foram assassinados no centro do Rio de Janeiro, após um carro emparelhar com o da vereadora; vários tiros foram disparados contra o banco de trás, onde ela estava. Ambos morreram no local.

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Marcas de bala no carro de Marielle

O Ministério Público denunciou Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz como os assassinos de Marielle e de Anderson. Os ex-PMs, presos em penitenciárias federais fora do Rio de Janeiro, vão a júri popular, ainda não marcado. Mas a polícia e o MP ainda buscam outras respostas como: “Quem mandou matar Marielle?”; “Por que ela foi morta?”; “Teve motivação política?”; “Onde está a arma do crime?”.

15
Mar22

Quem matou Marielle tem muitos cúmplices (vídeo)

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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O quarto aniversário do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, hoje, é um dia de vergonha.

A proximidade das milícias do Rio de Janeiro com o aparelho policial e com a família Bolsonaro, o que seria um escândalo demolidor em qualquer país civilizado, é verdade, não os incrimina diretamente, mas deveria ser razão para um empenho ainda maior em esclarecer a autoria e a ordem para o crime.

E não são, ao contrário.

Há mais: o Ministro da Defesa, Walter Braga Netto, foi nomeado interventor federal na segurança do Rio de Janeiro um mês antes de se executar a tiros a vereadora. Correu, portanto, sob sua responsabilidade a apuração de um crime de repercussão mundial, durante 11 meses.

Nenhum progresso foi feito na apuração e ele, agora, é um ambicioso e provável candidato a vice de Bolsonaro nas eleições.

Delegados e procuradores vão e vêm no caso, omissos ou amedrontados, na maioria das vezes, talvez pelos sinais de que há uma garantia superior para a impunidade.

Quando o governador do Estado e seus candidatos a deputado posam com placas com o nome de Marielle, quebradas em um vilipêndio debochado, como não imaginar tal proteção aos assasssinos e mandantes?

A esperança que resta é que as urnas que jogaram trevas sobre este caso, desta vez, possam jogar luz.

E que a gente não tenha de completar o quinto aniversário da morte de Marielle sem respostas sobre quem a mandou matar.

14
Mar22

Escandalosamente ordinário

Talis Andrade

Ilustração: Conde Baltazar.

 

“O GNV vai bater em oito reais, um monte de gente com fome e diz que a guerra é lá na Ucrânia”

 
11
Fev22

Chico Bento, traficante alvo de ações policiais que somam 36 mortes em menos de 1 ano

Talis Andrade

Traficantes que ofereceram R$ 1 milhão a policiais estão livres - Eu, Rio!

Chacina de hoje mata 8 negros

 

A operação conjunta das polícias Militar e Rodoviária Federal na Vila Cruzeiro, no Rio, que resultou em 8 mortos nesta sexta-feira (11), e a ação da Polícia Civil no Jacarezinho, em maio do ano passado, com 28 óbitos, têm um ponto em comum: ambas tinham como alvo principal o traficante Adriano Souza de Freitas — conhecido como Chico Bento. Juntas, as ações somaram 36 mortes.

O Rio de Janeiro é uma zona de guerra. Metralhar oito negros não é nada, não é nada, negro bom é negro morto. 

 

No G1 relatos de moradores:

 

“Só quem mora em comunidade sabe o que é o pânico nesse tipo de situação!”

"Muito tiro na Vila Cruzeiro e localidades, apavorado!! Sem condições de sair para trabalhar nessa chuva de balas!”
 

“Acordei com tiroteio às cinco da manhã e tem helicóptero sobrevoando na Vila Cruzeiro e muito tiro! Moro em Olaria!”

“Muitos tiros aqui na Vila Cruzeiro! Só peço a Deus que protejam os inocentes!”

“Muitos tiros na Vila Cruzeiro desde as 5h! Não consigo ir trabalhar!”

“Muitos tiros nos fundos da Vila Cruzeiro, se escuta na Pedreira de Inhaúma, no Morro do Alemão!”

“Estamos apavorados!”

“Aqui na Vila Cruzeiro estamos pedindo paz!”Image

 

31
Dez21

Necropolítica: Bolsonaro veta passaporte de vacina em escolas e universidades

Talis Andrade

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O governo espera à Herodes, um massacre de inocentes para iniciar a vacinação de crianças. 

Leia nota da OAB sobre vacinação obrigatória de crianças.

A consulta pública sobre vacina da Covid 19, mais uma palhaçada mortal do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para agradar o negacionismo, o obscurantismo de Bolsonaro, o governo das Quatro Bestas do Apocalipse, a fome que mata, a morte pelas doenças do Terceiro Mundo - tuberculose, hanseníase, verminoses como a ancilostomíase e esquistossomose, malária, doença de Chagas, leishmaniose e tracoma são algumas das doenças da pobreza e estão associadas às más condições de higiene e saneamento-, o genocídio da pandemia da covid-19, a ameaça da epidemia da gripe H3N2, as chacinas nas favelas, zonas de guerra das milícias, do tráfico, da polícia que mata - a prática nazista de um militar morto vale a vida de dez civis. 

Outra puxa -saco é o ministro da Educação Milton Ribeiro, que decidiu proibir as Instituições Federais de Ensino de exigir a vacinação contra covid-19 como condicionante ao retorno das atividades educacionais presenciais.

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Nota pública sobre vacinação obrigatória de crianças (OAB/SP)

 

Diante das notícias largamente veiculadas na imprensa sobre a queda no índice de imunizações de crianças, do surto de doenças e da detecção do aparecimento de enfermidades que estavam erradicadas no Brasil como sarampo, poliomielite, dentre outras e ainda, considerando o teor das dúvidas apresentadas por pais, guardiães e educadores à Comissão Especial de Direitos Infantojuvenis da Seção Bandeirante da Ordem dos Advogados do Brasil vem a público prestar os seguintes esclarecimentos:

    • É dever de todos os pais (e/ou eventualmente guardiães) submeter os filhos menores ao calendário de imunização visando preservar a sua integridade física, a qual é indisponível, ou seja, não se trata de uma faculdade, mas sim de uma obrigação legal;
    • A Constituição Federal de 1.988 em seu Artigo 227 assevera de forma clara a fundamental importância do papel da família juntamente com a Sociedade e o Estado na preservação dos direitos dos infantes, sendo que em 1989, com a promulgação da Lei nº 8.069 (ECA) foi o legislador categórico ao acrescentar dentre os deveres inerentes ao poder familiar a obrigatoriedade de vacinação de crianças nos casos determinados pelas autoridades sanitárias, conforme o calendário de vacinação definido pelo Ministério da Saúde (art. 14, §1º);
    • A institucionalização de políticas públicas voltadas a imunização contra enfermidades ocorreu com o advento da Lei nº 6259/75 e tem por escopo, dentre outras nuances, disponibilizar gratuitamente à população brasileira acesso a vacinação preventiva de enfermidades, em sua grande maioria recomendadas pela Organização Mundial da Saúde;
    • A não submissão a determinação legal além de deixar a criança vulnerável a enfermidade, torna-a vetor de risco para proliferação de moléstias junto a sociedade;
      • Em caso de inobservância da norma existe a possibilidade de aplicação de multa aos pais (de 03 a 20 salários mínimos) que pode ser dobrada em caso de reincidência (Art. 249 ECA), não obstante podemos ter a decretação de reflexos restritivos no exercício do poder familiar, decretação de medidas de proteção e até mesmo a configuração de crimes previstos no código penal como abandono, tentativa de homicídio, homicídio, além de delitos contra a saúde pública;
      • O Poder Público tem o dever de manter campanhas de vacinação e manter todas as vacinas obrigatórias em postos de saúde. Na falta de atendimento na sua cidade, avise imediatamente ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público ou a Subsecção mais próxima da Ordem dos Advogados do Brasil;
      • É dever de todos informar as autoridades públicas sobre a ocorrência de tais casos, em especial, o Conselho Tutelar de sua localidade para adoção das medidas cabíveis; e
      • Caso os pais desejem submeter o filho a um processo de imunização distinto da forma tradicional, tal pedido deverá ser submetido ao Poder Judiciário e, somente após a obtenção de uma manifestação favorável do Juízo competente, devidamente embasada em perícia e argumentos científicos, poderemos ter uma exceção à regra que assegure a manutenção de uma vida saudável ao infante.
      •  

      Ricardo de Moraes Cabezón
      Presidente da Comissão Especial de Direitos Infantojuvenis

    •  

09
Dez21

Série Pistoleiros: os sucessores do Escritório do Crime e a guerra sem fim do jogo do bicho

Talis Andrade

Leonardo Gouveia da Silva, o Mad ou Paraíba, preso em Vila Valqueire — Foto: Reprodução/TV Globo

Leonardo Gouveia da Silva, o Mad ou Paraíba, preso em Vila Valqueire — Foto: Reprodução/TV Globo

 
Por Rafael Soares /Extra

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A Praça Miguel Osório, no Recreio, Zona Oeste do Rio, estava vazia quando o PM reformado Anderson Cláudio da Silva, o Andinho, abriu a porta de seu BMW preto. Era noite de 10 de abril de 2018, e Andinho, que era dono de uma empresa de segurança, tinha acabado de sair de uma reunião de negócios que teve com sua sócia num prédio próximo. Ele não conseguiu dar a partida no veículo para ir para casa: seu carro foi alvo de dezenas de disparos de fuzil e pistola, e o PM morreu na hora.

A primeira linha de investigação apontava para uma cena de execução: homens encapuzados teriam passado num carro atirando na vítima. No entanto, provas coletadas no local causaram uma reviravolta no inquérito. Peritos da Delegacia de Homicídios (DH) concluíram que ali também aconteceu um tiroteio: dois grupos diferentes de pistoleiros foram executar Andinho ao mesmo tempo, no mesmo local. E, como um bando não sabia do outro, os dois acabaram trocando tiros entre si.

Série Pistoleiros: a caminhada em busca das histórias de assassinos

Um dos grupos foi descoberto e teve seus integrantes presos: o Escritório do Crime. Já o outro não foi identificado até hoje. O quinto e último episódio de Pistoleiros, um podcast original Globoplay produzido pelo GLOBO, mostra que, após prisões e mortes de todos os chefes do Escritório do Crime, novos grupos especializados em matar seguem sendo recrutados. Ao longo de cinco capítulos diários, a série — resultado de um trabalho de um ano e meio de apuração — revelou histórias inéditas sobre o submundo da pistolagem carioca. O primeiro episódio conta a história de Ronnie Lessa, principal suspeito de assassinato de Marielle Franco. Já o segundo, fala sobre o capitão Adriano, chefe do Escritório do Crime. O terceiro, conta a história de Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano, e o quarto, a de Mad, sucessor de Batoré no cargo de principal matador do Escritório do Crime.

Série PistoleirosTranscrição do Episódio 5

Dois carros na cena do crime

As marcas de tiro encontradas no BMW de Andinho e nos outros carros que estavam estacionados na praça na noite da execução levantaram a suspeita dos peritos: havia marcas em várias direções — um sinal de que havia acontecido um confronto. Só que a pistola que Andinho portava estava travada e municiada, o que levou a perícia a concluir que o PM não teve tempo para reagir. Como ele havia ido sozinho à reunião, a polícia começou a acreditar que o crime envolvia dois grupos de atiradores.

A suspeita virou certeza quando os agentes da DH descobriram que havia dois carros na cena do crime. Um deles era um HB20 vermelho, que foi abandonado por um dos grupos de pistoleiros na mesma noite a 1 km de distância. O veículo foi deixado no local porque um dos atiradores havia sido baleado: o ex-PM David Soares Batista, que foi preso em flagrante naquela noite porque portava ilegalmente uma pistola 9mm. Após abandonarem o carro e o ferido, os outros quatro homens renderam um motorista que passava, roubaram outro carro e fugiram. A vítima do roubo afirmou que todos os homens portavam fuzis.

Série Pistoleiros: Conheça a Patamo 500, patrulha que formou Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle Franco

Já o carro usado pelo outro bando era um Honda Fit prata. O veículo foi descoberto depois que os peritos levaram para análise um fragmento de vidro, quebrado no tiroteio e apreendido no local do crime. O código FZ201308 impresso no vidro levou a polícia a concluir que ele pertencia a um Honda Fit que havia sido roubado meses antes do crime. Para o Ministério Público, esse foi o carro usado pelo Escritório do Crime para executar Andinho.

Grupo ainda não descoberto

As provas contra o consórcio de matadores chefiado pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega foram encontradas pelos promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na internet. Nas contas de e-mail de um dos integrantes do grupo, o MP encontrou um dossiê sobre Andinho, com dados pessoais, endereços da casa e de trabalho, informações sobre suas empresas, referências aos filhos, veículos, e fotos do PM e de fachadas de imóveis relacionados a ele.

Série Pistoleiros: Adriano, o prodígio da turma de galáticos do Bope que virou matador de aluguel

Dados das contas também revelaram que os pistoleiros sob comando de Adriano seguiram os passos de Andinho nos meses anteriores ao crime e chegaram até a filmar a fachada de sua casa. Além disso, a presença do Escritório do Crime na praça foi comprovada por uma prova pericial: cartuchos encontrados no local foram disparados pelo mesmo fuzil usado pelo grupo em outro homicídio um mês antes: o assassinato do bicheiro Marcelo Diotti.

Essas provas foram apresentadas pelo MP à Justiça em junho de 2020, quando Leonardo Gouvêa da Silva, o Mad, teve a prisão decretada. Mad era braço direito de Adriano e o sucedeu na chefia da quadrilha de matadores, depois que o ex-capitão foi morto na Bahia, em fevereiro de 2020. Hoje, Mad está preso e responde pelo homicídio de Andinho. Já o outro grupo, integrado pelo ex-PM David Batista e que usou o HB20 vermelho para o ataque, ainda não foi descoberto. Nenhum dos outros integrantes foi identificado e não há informação sobre outros crimes que eles tenham cometido.

Série Pistoleiros: Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano

Para o MP, Andinho foi assassinado em meio a uma guerra entre herdeiros do espólio criminoso do capo Castor de Andrade. Uma testemunha revelou à polícia que o PM era segurança do genro de Castor, Fernando Iggnácio, um dos postulantes aos pontos de jogo. De acordo com o depoimento, Andinho sabia que estava com a cabeça a prêmio porque cumpriu uma ordem de Iggnácio para “quebrar máquinas caça-níqueis na comunidade de Vila Vintém, as quais seriam pertencentes ao contraventor Rogério Andrade”, sobrinho de Castor e rival de Iggnácio.Juíza que soltou Rogério Andrade manda bicheiro comprovar trabalho lícito |  Rio de Janeiro | O DiaSTF suspende prisão preventiva do bicheiro Rogério Andrade

Ainda de acordo com o depoimento, a quebra das máquinas “deixou Rogério Andrade furioso, a ponto de elaborar uma emboscada para tentar matar Anderson”. O mandante do crime, entretanto, ainda não foi denunciado à Justiça. Policiais que investigaram o crime acreditam que o mesmo mandante enviou dois grupos diferentes ao local, sem avisá-los da existência um do outro.

Série Pistoleiros: Mad e a execução de Haylton Escafura num hotel na Barra da Tijuca

Sete meses depois do segurança, o chefe foi executado: Fernando Iggnácio foi morto num heliponto na Barra da Tijuca, em novembro de 2020. Com o Escritório do Crime fora do mapa, um novo bando de pistoleiros foi recrutado a jato para a missão. Seus integrantes foram identificados, e todos eles estavam fora do radar da polícia; nunca haviam sido apontados como matadores. Hoje, Rogério Andrade responde pelo crime.

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08
Dez21

Série Pistoleiros: Mad e a execução de Haylton Escafura num hotel na Barra da Tijuca

Talis Andrade

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por Rafael Soares /Extra

Era madrugada quando um carro com pelo menos três ocupantes embicou na entrada do estacionamento do Hotel Transamérica, na frente da praia da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Um funcionário fez um sinal com o polegar para o motorista, e a porta da garagem se abriu. Lá dentro, dois homens encapuzados e armados com fuzis desembarcaram do veículo e foram em direção à escada. Subiram oito andares e se encaminharam, sem sequer olhar o número, para um dos quartos. A porta foi arrombada a chutes e tiros e, lá dentro, novas rajadas foram disparadas. Os hóspedes, que foram alvo de mais de 20 tiros e morreram na hora, eram um bicheiro e uma policial militar: Haylton Escafura, herdeiro de um dos clãs que dominam pontos de jogo ilegal no Rio, e sua então namorada, a soldado Franciene de Souza.

Depois da execução, os atiradores saíram do quarto, desceram as escadas e fugiram do hotel pela garagem, sem serem incomodados. O crime aconteceu em 14 de junho de 2017 e, até hoje, ninguém responde por ele. No entanto, o Ministério Público encontrou, espalhados na internet, rastros que apontam para a participação da segunda geração do Escritório do Crime no assassinato.

Série Pistoleiros: a caminhada em busca das histórias de assassinos

O quarto episódio de Pistoleiros, um podcast original Globoplay produzido pelo GLOBO, revela que o homicídio no hotel marca uma transformação no consórcio de matadores de aluguel criado pelo ex-capitão Adriano da Nóbrega. Com os antigos capangas mortos ou foragidos, o ex-caveira passou a recrutar numa das milícias mais antigas do Rio a mão de obra que precisava para renovar sua quadrilha. Ao longo de cinco capítulos diários, a série — resultado de um trabalho de um ano e meio de apuração — vai revelar histórias inéditas sobre o submundo da pistolagem carioca. O primeiro episódio conta a história de Ronnie Lessa, principal suspeito de assassinato de Marielle Franco. Já o segundo, fala sobre o capitão Adriano, chefe do Escritório do Crime. O terceiro, conta a história de Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano.

Série PistoleirosTranscrição do Episódio 4

Segunda geração

No dia 3 de fevereiro de 2017, quatro meses antes do crime, Leonardo Gouvêa da Silva, o Mad, fez buscas no Google por “Haylton Escafura”. Ele sabia quem estava procurando, afinal acertou a grafia incomum do primeiro nome. Já em 17 de abril daquele ano, Mad — que quer dizer “louco” em inglês — procurou, num aplicativo de mapas, a rota até o Hotel Transamérica, local onde o crime aconteceria dois meses depois. Os dados fazem parte de um relatório do MP obtido com exclusividade pelo GLOBO.

O homem por trás das buscas, segundo o MP do Rio, é o chefe da segunda geração do Escritório do Crime, o matador de aluguel que virou o braço direito de Adriano a partir de 2017. Para policiais que investigaram o crime, ele era um dos dois encapuzados que subiram as escadas do hotel naquela madrugada. Esse homicídio, inclusive, marca o início da atuação de Mad como homem de confiança do chefão do consórcio de pistoleiros.

Até então, cabia ao ex-PM Antônio Eugênio de Souza Freitas, o Batoré, a função de número dois do grupo. Batoré e Adriano se conheciam, há décadas, da Polícia Militar e, de acordo com o MP, cometeram dezenas de homicídios juntos entre 2007 e 2017 — a primeira fase do Escritório do Crime. Ao final desse período, no entanto, Batoré seria afastado das ações do grupo. Em abril de 2017, ele foi alvo de uma operação da polícia — não por sua atuação como pistoleiro, mas sim por ser chefe de uma quadrilha que extorquia motoristas de vans — e virou um foragido da Justiça. Com o rosto do comparsa estampado nos jornais e TVs, Adriano precisou procurar novos matadores, criminosos que estivessem fora do radar da polícia.

E Mad se encaixava perfeitamente no perfil: na época, ele era um ilustre desconhecido para a polícia. No submundo do crime, porém, ele tinha alguma fama graças à sua atuação como um dos mais ativos soldados da milícia de Campinho, na Zona Norte. Mad era chefe de seu próprio grupo de mercenários, que agia a serviço do grupo paramilitar e, por vezes, também atuava como “freelancer”, recebendo “serviços” de outros interessados. Foi assim que o nome de Mad foi parar nos ouvidos de Adriano. Começava, então, a segunda fase do Escritório do Crime.

— A gente não sabe precisar quando nem como, mas o Mad é cooptado pelo Adriano e passa então a se tornar um matador do grupo dele, com características bem profissionais de atuação. O Mad é um peixe fora d'água, porque é um dos poucos não-policiais que a gente vê realmente galgando posições na hierarquia do grupo do Adriano — explica Marcelo Pasqualetti, policial Federal que investigou o Escritório do Crime.

Série Pistoleiros: Adriano, o prodígio da turma de galáticos do Bope que virou matador de aluguel

Carros clonados e celulares trocados

O período em que o consórcio de matadores foi encabeçado por Mad se caracterizou pela sofisticação das ações. Mesmo sem nunca ter sido policial, ele sabia como a polícia investigava crimes, e o que fazer para não ser pego. O bando só usava carros clonados, seus integrantes trocavam de celular todo semana e passavam meses monitorando suas vítimas. Mas as buscas que Mad e seus comparsas faziam na internet acabariam conectando a nova geração do Escritório do Crime a vários homicídios.

No caso do assassinato no hotel — que é apontado como o primeiro crime dessa fase do grupo —, não foi só Mad que procurou por informações sobre a vítima: outros dois integrantes do bando também fizeram buscas por fotos de Haylton Escafura. Um deles é o irmão de Mad, Leandro Gouvêa da Silva, o Tonhão, que é acusado de ser seu braço direito, e procurou reportagens sobre o crime poucas horas após a execução. Além dos indícios que apontam para Mad como executor, o Ministério Público também tem pistas sobre o que motivou o homicídio.

Série Pistoleiros: Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano

Num depoimento que deu no presídio federal de Mossoró durante a investigação do caso Marielle, o miliciano Orlando Araújo, o Orlando Curicica, forneceu várias informações sobre homicídios que teriam sido cometidos pelo Escritório do Crime. Um deles foi o de Haylton Escafura. Segundo Curicica, a execução foi encomendada a Adriano e Mad por um dos capos do jogo do bicho no Rio, Rogério Andrade, sobrinho de Castor de Andrade. De acordo com o relato, o interesse de Andrade seria dominar a área sob controle de Haylton — bairros da Zona Norte, como Cascadura e Madureira —, já que ele era o único herdeiro de um outro chefão do bicho, José Caruzzo Escafura, o Piruinha.

“Um dos motivos da morte do Haylton é justamente isso: Haylton é o herdeiro do (José) Escafura. Com a morte do Haylton, o Escafura não tem herdeiros… Então a intenção do Rogério foi de botar, de arrendar a área do Escafura. E com o poder que ele tá, ele vai arrendar. Só vai aumentar o poderio dele”, disse o miliciano. O inquérito sobre o crime ainda está em andamento.

Atualmente, Mad está preso. Em junho de 2020, ele foi alvo da operação Tânatos — referência ao deus da morte da mitologia grega —, que foi gerada a partir da investigação do caso Marielle. Mad e seus comparsas respondem, na Justiça, por dois outros homicídios que sucederam a ação no hotel: a execução de um bicheiro, Marcelo Diotti, no estacionamento de um restaurante, na Barra da Tijuca; e a de um PM, Anderson Claudio da Silva, o Andinho, também ligado a contraventores, no Recreio dos Bandeirantes.

06
Dez21

Série Pistoleiros: conheça a Patamo 500, patrulha que formou Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle Franco

Talis Andrade

 

 

A Patamo 500, grupo que Ronnie Lessa integrou
A Patamo 500, grupo que Ronnie Lessa integrou 
 
por Rafael Soares /Extra
 

Em outubro de 2018, cinco meses antes de ser preso pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, o sargento da PM Ronnie Lessa enviou uma foto a um amigo policial pelo WhatsApp. Na imagem, aparecem oito PMs fardados na frente de um parque infantil. Lessa é o segundo da esquerda para a direita e, ao lado dele, está o tenente-coronel — na época, capitão — Cláudio Luiz Oliveira, que atualmente cumpre pena de 30 anos de prisão por ser o mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli. Anos antes de seus nomes frequentarem manchetes de jornal e serem conhecidos nacionalmente, os dois homens apontados como autores dos dois crimes de maior repercussão da história recente do Rio trabalhavam juntos, numa mesma viatura, como comandante e comandado.

Série PistoleirosTranscrição do primeiro episódio

A foto foi descoberta no celular de Lessa, apreendido pela polícia no dia de sua prisão, em março de 2019. Ela é um registro raro dos integrantes da Patamo 500 — uma patrulha que, ao mesmo tempo em que virou uma lenda dentro da PM, provocava terror nos moradores de favelas da Zona Norte do Rio no fim dos anos 1990. Em cinco anos, Lessa, Oliveira e seus colegas participaram de ocorrências que terminaram em pelo menos 22 mortes, duas vítimas feridas após uma sessão de tortura e o desaparecimento de um homem, após ser colocado no xadrez da viatura.

A trajetória de crimes de Ronnie Lessa na PM é reconstituída em detalhes no primeiro episódio de “Pistoleiros”, um podcast original Globoplay produzido pelo GLOBO. Ao longo de cinco episódios, a série — resultado de um trabalho de um ano e meio de apuração — vai revelar histórias inéditas sobre o submundo da “pistolagem” carioca.

O nome pelo qual o grupamento de Lessa e Oliveira ficou conhecido vem de “Patrulhamento Tático Móvel”, o jargão policial usado para nomear o conjunto de agentes, armados com fuzis, responsável por atuar em casos de maior gravidade, como assaltos a bancos. O número 500 era o que estava estampado na viatura usada pelos PMs. Até hoje, Lessa tem saudade do período de pouco mais de cinco anos em que serviu na patrulha chefiada por Oliveira: “Patamo 500. Formação original, 1997. Das antigas”, escreveu o sargento, num tom saudosista, ao enviar a foto ao amigo.

 

Chacina de Vigário

A história da patrulha tem início em janeiro de 1997, quando o então capitão Cláudio Oliveira foi transferido para o 9º BPM, em Rocha Miranda, quartel responsável por policiar uma área que, à época, cobria mais de 30 bairros e mais de 20 favelas, sendo três complexos de comunidades: Chapadão, Pedreira e Serrinha — dominados por três facções diferentes. O batalhão já tinha um histórico de violência policial: antes da Patamo 500, o quartel teve os Cavalos Corredores, grupo de PMs que participou da Chacina de Vigário Geral, em 1993. Na ocasião, 21 pessoas foram mortas numa incursão na favela, em represália à morte de quatro policiais. Quatro anos após o massacre, Oliveira, formado pelo Bope, chegou ao 9º BPM com a missão de criar uma equipe especializada em confrontos.

O objetivo inicial era fazer uma ocupação na Favela de Acari. E, para isso, o oficial foi buscar seus homens de confiança para integrar a patrulha. Lessa, considerado um de seus “pupilos” no Bope, foi uma escolha óbvia.

Os demais selecionados foram os PMs Guilherme Tell Mega, Roberto Luiz de Oliveira Dias, Marcelo Ferreira Rodrigues e Floriano Jorge Evangelista de Araújo — todos eles policiais operacionais, egressos de unidades que atuavam em áreas conflagradas, como o próprio Bope, a Companhia de Cães e o 16º BPM (Olaria), responsável por patrulhar o Complexo do Alemão.

Juntos, Lessa e Oliveira trilharam uma trajetória de homenagens na Patamo 500. Entre 1997 e 1998, os elogios nas fichas funcionais de ambos chegaram à média de um por mês. A atuação da dupla na patrulha rendeu moções de aplausos e congratulações da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) — propostas pelo então deputado Pedro Fernandes, que tinha sua base eleitoral na área do batalhão.

Uma política pública que apostava nos confrontos como estratégia para combater o crime praticamente deu carta branca para a atuação da Patamo 500: a “gratificação faroeste”, como ficou apelidada a premiação por bravura criada pelo governador Marcello Alencar (PSDB) em 1995. Na prática, a medida concedia bonificações salariais a policiais envolvidos em ocorrências com mortes. Lessa e Oliveira viram seus salários aumentarem, respectivamente, 40% e 90% em 1998. A gratificação gerou uma explosão nos homicídios em operações e, por isso, foi derrubada pela Alerj três anos após sua criação.

 

Ascensão meteórica

Os integrantes da Patamo 500 não ganharam só bonificações, mas também progrediram na carreira dentro da PM graças às ocorrências com mortes e apreensões. Antes de entrar na patrulha, Lessa era soldado. Em menos de um ano, teve uma ascensão meteórica: foi promovido por bravura duas vezes e, no fim de 1997, já era sargento. Em dezembro daquele ano, aliás, todos os integrantes da Patamo foram promovidos: Oliveira virou major, e os demais passaram de cabos a sargentos. Os boletins da PM mencionavam “a dedicação à causa pública, o preparo profissional, moral e o cometimento de atos não comuns de audácia e coragem” de Lessa e seus colegas.

Ao mesmo tempo em que era premiada pelo governo, a Patamo 500 deixava um rastro de sangue. Um levantamento feito pelo GLOBO em documentos internos da PM — sindicâncias, boletins e fichas funcionais dos agentes — contabilizou pelo menos 22 mortes durante operações da Patamo 500 entre 1998 e 2002. Numa só incursão, em 21 de julho de 2001, na Favela Faz-Quem-Quer, em Rocha Miranda, sete homens foram mortos. Os policiais da Patamo 500 ganharam elogios internos pela ocorrência: “demonstraram irrepreensível formação profissional, pois aplicaram um golpe contundente contra a criminalidade”. Foram identificadas ocorrências com mortes nas favelas do Chapadão, Guaxindiba, Acari, Morro da Caixa D’Água, Serrinha, Fubá e Parque Colúmbia.

 

‘Injusta agressão’

Na maioria dos registros, a dinâmica se repete: os agentes afirmam que “foram recebidos com disparos de arma de fogo pelos marginais e revidaram a injusta agressão”. As justificativas dos agentes eram aceitas, e os casos acabavam arquivados. Só três inquéritos contra PMs da Patamo 500 chegaram à Justiça e, até hoje, não há condenação.

No início de 2003, a equipe foi dissolvida e seus integrantes, promovidos. Lessa acabou sendo emprestado para a Polícia Civil, o que era um prêmio à época. Os “adidos”, como eram chamados os PMs que trabalhavam em delegacias, tinham prestígio, ganhavam bonificações salariais e não precisavam se subordinar à hierarquia da Polícia Militar. Já Oliveira chegaria a cargos de subcomandante e comandante de mais de um batalhão.

Nas décadas seguintes, todos os integrantes da Patamo 500 acabariam sendo mortos ou presos sob diferentes acusações de ligação com o crime organizado — de recebimento de propina de traficantes a desvio de armas. O sargento Marcelo Rodrigues foi executado a tiros de fuzil, em Jacarepaguá, na Zona Oeste, em 2004. O caso nunca foi solucionado.

O sargento Guilherme Tell Mega foi um dos alvos, em 2006, da Operação Tingui, da PF, que investigou a ligação de PMs com traficantes da Favela do Muquiço, na Zona Norte. Mega foi solto no ano seguinte e absolvido em 2011. Já os subtenentes Floriano Araújo, o Xexa, e Roberto Luiz Dias, o Beto Cachorro, foram presos em 2011 na Operação Guilhotina, que teve como alvo PMs que trabalhavam cedidos à Polícia Civil e eram acusados de receber propina e desviar armas apreendidas. Ambos também foram absolvidos.Blog do Garotinho - Exclusivo! A história do “cala a boca” que Beltrame e  Cabral deram ao delegado Allan TurnowskiBlog do Garotinho - A Operação Guilhotina na imprensa do Rio

06
Dez21

Série Pistoleiros: a caminhada em busca das histórias de assassinos

Talis Andrade

Rafael em frente à casa onde o ex-PM Adriano da Nóbrega foi morto, em Esplanada, na Bahia: um olhar novo sobre personagens conhecidos

Rafael Soares em frente à casa onde o PM Adriano da Nóbrega foi morto, em Esplanada, na Bahia: um olhar novo sobre personagens conhecidos. Foto Fernando Lemos 

 

por Gabriel Sabóia

Extra - Um ano e meio após ter começado a desarquivar processos, sindicâncias e boletins da PM que foram utilizados no podcast “Pistoleiros”, o jornalista Rafael Soares consegue fazer, hoje, um balanço do produto final do seu trabalho.

— O nosso principal objetivo sempre foi contar como o mercado dos matadores de aluguel se formou e mostrar como esses personagens foram sendo moldados com a anuência do Estado, que chegou a incentivá-los a matar, enquanto trabalhavam para as forças de segurança. Contar as suas histórias é explicar como o quadro atual da segurança pública se formou. A escolha pela política do enfrentamento trouxe resultados que podem ser vistos hoje — explica.

Em cada uma das reportagens publicadas ao longo desta semana, o repórter trará mais detalhes sobre as histórias contadas no podcast original da Globoplay, produzido pelo GLOBO. Durante a apuração, Rafael esteve na Bahia, no local onde o ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega — um dos personagens — foi morto.

Por meio de nomes como o do policial militar reformado Ronnie Lessa, preso pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, o trabalho investigativo descreve uma linha do tempo, na qual as políticas de segurança pública foram mudando, mas mantendo em comum o reconhecimento por bravura a policiais que tinham como característica a truculência nas operações.

— Os personagens da série são verdadeiros fenômenos do submundo. Por anos, foram desconhecidos da população, mas participaram de alguns dos principais crimes da cidade. Não se trata de uma biografia sobre cada um dos matadores de aluguel, mas de um apanhado de histórias que descrevem o quadro de violência visto ao longo dos últimos 25 anos. A série parte de uma história peculiar, descrevendo a atuação da Patamo 500, na qual trabalharam juntos Ronnie Lessa e Cláudio Luiz Oliveira, que atualmente cumpre pena de 30 anos de prisão por ser o mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli. Os dois, envolvidos nos maiores crimes recentes do Rio, já patrulharam as ruas da cidade e foram reconhecidos por “serviços prestados” — ressalta.

Premiado internacionalmente por seu trabalho investigativo, Rafael confessa o “frio na barriga” ao se aventurar em um podcast:

— Eu nunca tinha feito uma locução, o que foi uma experiência ótima e nova. Do ponto de vista prático, o podcast também impõe alguns desafios únicos: precisei convencer pessoas a participar do trabalho, tive de trazer vozes e relatos para esse trabalho. Muitos dos convidados tiveram medo, mas outros tantos toparam o desafio e deram forma ao produto final.

De frente para o microfone, o jornalista contou com o apoio da diretora do podcast, Marianna Romano, que o acompanhou no estúdio e soube conduzi-lo para que o trabalho ganhasse um quê de coloquialidade:

— A diretora me entrevistou sobre os temas apurados para que eu explicasse, em tom de conversa, cada um dos pontos apurados. Com esse material em mãos, juntamos as entrevistas feitas e montamos um podcast. O resultado ficou incrível.

Além da direção, Marianna Romano assina montagem, trilha sonora e roteiro — este último, com o próprio Rafael e Edu Araujo. A supervisão do projeto é de Alexandre Maron. A produção executiva é de André Miranda e Alan Gripp.

 

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