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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

07
Mar22

Nazistas atacam em Natal centro de cidadania LGTB e terreiros de Iemanjá

Talis Andrade

Nova Imagem de Iemanjá Praia do Meio 7Iemanjá Praia do Meio 6

A nova e a antiga escultura. Foto José Aldenir

 

Os nazistas ameaçam a cidade libertária de Natal. A cidade que aprendi a amar lendo e andando pelas ruas com Woden Madruga, Berilo Wanderley, Newton Navarro, Márcio Marinho, Sanderson Negreiros, Zila Mamede, Mirian Coeli, Walflan de Queiroz,  Cascudo, Veríssimo de Melo. Andanças pelos bares e reisados de Djalma Marinho e Djalma Maranhão. 

Os nazistas ousam profanar os terreiros de Iemanjá. Ameaçam, com uma longa noite escura, uma longa noite das facas longas os gays.

Os nazistas precisam ser processados e presos. São psicopatas. Têm sede de sangue. Urge contê-los, antes que apareça um serial killer. Ou um tarado tipo Mamãe Falei, deputado Arthur do Val, candidato de Sergio Moro a governador de São Paulo, que discursa: “se ela cagar, você limpa o c* dela com a língua”. Um autêntico caso de coprofagia.

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A deputada federal Natalia Bonavides acionou o Ministério Público denunciando os ataques dos grupos neofacistas contra o Centro Municipal de Cidadania LGTB de Natal. 

"Que as ameaças sejam investigadas o mais rápido possível", exige a parlamentar. "Não passarão!", promete.

 

Vandalismo em Natal levanta debate sobre a cor de Iemanjá

 
por Cláudio Oliveira /Tribuna do Norte
 
 
Depois de ter sido pintada de preto, sem autorização, a estátua de Iemanjá, instalada na Praia do Meio, zona Leste de Natal, esteve mais uma vez no centro de uma polêmica. O questionamento é sobre a cor da pele da divindade. Representantes dos povos tradicionais de matriz africana em Natal dizem que o ato foi criminoso e que não representa nenhum “protesto construtivo” para que a imagem da orixá (divindade africana) represente melhor sua origem negra. Mais que isso, eles acreditam que esse discurso  gera a aprovação do ato de vandalismo, semelhante ao que ocorreu outras vezes, sem que ninguém seja responsabilizado e fazendo com que a intolerância religiosa ganhe força.
 

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Representantes de terreiros apontam que membros de comunidades tradicionais respeitam representação branca de Iemanjá. Foto Alex Régis

 
A imagem de uma mulher magra, de pele clara, cabelos longos e pretos, com vestido azul, braços abertos e pairando sobre as ondas, rodeada de rosas, certamente é a imagem mais popular e que permeia o imaginário dos brasileiros quando se fala em Iemanjá. Ela se popularizou em meados do século passado no Brasil através da Umbanda, religião brasileira que adotou elementos do catolicismo ou espiritismo, da cultura africana e indígena, no fenômeno conhecido como sincretismo religioso. Essa mesma imagem passou a servir como referência no culto afro-brasileiro em várias partes do mundo, incluindo a própria África. Porém, a Iemanjá dos ancestrais africanos não difere somente na cor.
 
“Uma mulher negra, quartuda, careca ou com pouco cabelo feito cocó, seios avantajados. Essa é nossa visão dentro de uma versão de africanidade. Porém, também falamos de uma divindade numa essência divinal, que obrigatoriamente, não tem a essência da cor em si”, explica o Babá Cláudio de Oxalá (Pai Claudinho), do Movimento dos povos tradicionais de Matriz Africana.
 
Ele é do Candomblé, religião afro-brasileira formada a partir de tradições religiosas de povos iorubás e que reconhece Iemanjá como uma mulher negra, mas não impõe essa versão. “Sou de candomblé e existe um diálogo da possibilidade da construção de uma estátua com os vestígios negros. Mas também dialogamos que, dentro da visão do movimento, independente da estrutura da estátua, existe toda uma luta, respeitando o trabalho da Umbanda, dos nossos irmãos que trabalham dentro da visão de uma Iemanjá americanizada”, reforça o Pai de Terreiro.
 
Ele defende que o sincretismo, que transformou a Iemanjá africana em uma mulher branca, ajudou na sobrevivência das tradições dos povos tradicionais. “Precisamos entender que durante todo o tempo, os nossos povos se mantiveram vivos graças ao sincretismo e a Umbanda aderiu a essa branquitude que nós respeitamos. Por mais que entendamos que Iemanjá é negra, respeitamos esse ponto de vista, assim como respeitamos o Jesus dos cristãos, que a gente sabe que não é branco dos olhos azuis, mas, sim, negro e nem por isso a pessoa tem o direito de entrar nas igrejas e depredar as imagens dele, pintando-as de preto”, destacou o Babá Cláudio de Oxalá.
 
Para a Juremeira Suely Costa, do Terreiro de Jurema Mestre Aroeira, de Pai Aurino, o respeito pela tradição umbandista deve prevalecer sobre a cor da divindade. Ela relembra que a religião de matriz chega ao Brasil com a escravidão e representatividade negra e a Umbanda é criada depois, com influência europeia e não apenas na tendência africana. “Há o misticismo do orixá com o santo católico. E, antes de tudo isso existir, já existiam as vertentes indígenas, entre elas a Jurema Sagrada que já estava no Brasil quando tudo isso chegou”, aponta Suely Costa.
 
A questão da cor também é algo que para o Pai Freitas, do Instituto Cultural e Religioso Mestre Benedito Fumaça, não deveria sobrepor o debate em torno do respeito ao culto das religiões afro-brasileiras. “Essa é a única imagem de Orixá genuinamente umbandista e a qual devemos boa parte da popularização de Iemanjá. Aquela estátua não foi feita negra, mas baseada na tradição umbandista que respeitamos e admiramos. Acho que tem que permanecer da forma que estava, respeitando essa tradição”, sugere o religioso.
 
 
Imagem continuará branca
 
A cor da pele da estátua de Iemanjá, na Praia do Meio,  permanecerá em tons claro, como era antes de pintarem de preto sem autorização. O trabalho deve começar nos próximos dias e vai custar R$ 3 mil ao Município.
 
“Nós já solicitamos a abertura do processo para autorização do serviço. Agora é só tramitação, apenas a burocracia que é necessária: análise jurídica, análise da Comissão de Controle Interno, autorização e assinatura do secretário e depois segue para o financeiro que faz a ordem cronológica de pagamento. É o tempo que o artista deverá levar para providenciar o material e inciar os trabalhos”, disse a diretora da Fundação Capitania das Artes (Funcarte).
 
O artista será o próprio escultor, Emanoel Câmara. Ele diz que será preciso remover toda a tinta preta através de um processo cuidadoso de raspagem, para depois refazer partes danificadas, como a mão direita da imagem, a estrela na cabeça e parte do seio que sofreram danos com a ação dos vândalos. Depois disso, a peça receberá nova tintura sem precisar removê-la da praia.
 
 
Terreiros apontam crime e cobram segurança
 
Os dirigentes de Terreiros frisam que interpretar o ato de, sem autorização, pintar de preto a estátua de Iemanjá, como sendo um ato de protesto para corrigir a cor original da orixá, pode ser uma forma de disfarçar o ato de vandalismo e preconceito, quando o debate deveria ser em torno da falta de segurança para aquele patrimônio público.
 
“Na minha visão o mais importante ao invés da questão da cor é a segurança pelo patrimônio. Não é a primeira vez que a imagem sofre ataques. Se observar, poderia ter uma praça, um gradeado para o culto das pessoas deixarem suas flores, realizarem suas orações e proteger a imagem”, diz a juremeira Suely Costa, do Terreiro de Jurema Mestre Aroeira de Pai Aurino.
 
Ela também é bacharel em Direito e destaca que a câmera instalada na Avenida Café Filho, em frente à estátua, não está funcionando, de modo que não foi possível identificar os autores da ação. “Isso mostra a vulnerabilidade da estátua. A câmera deveria sinalizar atos de vandalismo e intolerância, mas há tempos que está quebrada”, reclama a juremeira.
 
Sobre ser ou não um ato de protesto, ela ressalta que, se houver esse interesse, pode-se fazer de uma forma não agressiva. “De qualquer maneira, a forma que foi feita é um ato de vandalismo. Pode juntar um grupo, reivindicar, até aproveitar agora o ato de restauração e se a maioria das casas de terreiro achar que deve ser reformada na cor negra, tudo bem”, sugere.
 
O Pai Claudinho, do Movimento dos povos tradicionais de Matriz Africana, discorda da idéia de que se tratou de uma reivindicação. “O pensamento de que é protesto reveste o ato criminoso de opinião. Se for uma pessoa de comunidade tradicional ela sabe a importância que aquela estátua tem, não pela questão da pedra, mas pelas pessoas que ali vão, pedem, rogam, pelo envolvimento sagrado independente da cor. Uma pessoa que tem conhecimento tradicional jamais praticaria esse tipo de crime”, disse ele.
 
Além de vandalismo, o Pai Freitas, do Instituto Cultural e Religioso Mestre Benedito Fumaça, interpreta o ato como racismo. “A intenção foi racismo e preconceito porque se tivesse sido posta uma imagem negra teriam pintado de branco. Já arrancaram a mão e fizeram outros atos. É uma perseguição que não é de hoje”, pontuou.
 
De acordo com a Secretaria Municipal de Defesa Social (Semdes), tanto a Polícia Militar quanto a Guarda Municipal mantém o patrulhamento na área. Além disso, uma investigação está sendo realizada pelo setor de Inteligência da Guarda Municipal e outra deve correr na 2ª Delegacia de Polícia de Natal, onde foi registrado um Boletim de Ocorrências, para identificar os autores da pintura preta na estátua.
 
 
Estátua tem sido alvo de vandalismo
 
Os fatos comprovam o quanto a intolerância tem perseguido o monumento à Iemanjá ao longo dos anos. A estátua anterior, construída em 1999 pelo escultor potiguar Etewaldo Santiago (já falecido), também sofreu vários ataques. Alguns marcaram a história daquele espaço de oração à orixá. Em 2012, na véspera do Dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, a escultura teve as duas mãos arrancadas.  Em março de 2014, arrancaram-lhe o braço esquerdo. Já no dia da orixá, em 2015, danificaram a estátua no pescoço e parte do busto. A Polícia não definiu se esse ataque foi a tiros ou pedradas.
 
Em junho de 2018, os vândalos arrancaram mais uma vez o braço direito. Em 2019 a Secretaria de Cultura de Natal (Funcarte) decidiu remover a estátua do local e substituir pela atual que foi inaugurada no dia da deusa, em 2020. O trabalho custou R$ 18 mil, mas recebeu fortes críticas nas redes sociais sobre os traços fortes do rosto, fazendo com que a escultura fosse considerada esteticamente “feia”, em comparação com a antiga. A reação do público fez com que o escultor Emanoel Câmara fizesse ajustes para suavizar as expressões da deusa.
 
A estátua, feita de pedra calcária, tem 3,5 metros de altura e pesa quase 4 toneladas.
10
Jan22

A escrita e a banda de Woden

Talis Andrade

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O Ano Novo começa com cartas, bilhetes, imeios, mensagens virtuais, mas sem os tradicionais e clássicos cartões de Natal que enfeitavam as caixas do correio de antigamente. Cartões quase todos coloridos, neve na paisagem e papai Noel passeando no seu trenó. Entre as cartas que caíram na minha bacia das almas no findar de 2021 tem uma que fala, exatamente, sobre o desaparecimento dos “Cartões de Natal e do Ano Novo”. É assinada pelo amigo Hortêncio Pereira de Brito Sobrinho, seridoense do Acari, há muitos anos vivendo em Goiás, o mesmo chão de Cora Coralina, J.J. Veiga, Carmo Bernardes, Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Élis, Gilberto Mendonça Teles, Maria Abadia Silva, nomes que enriquecem a literatura brasileira.

 

Chuva e Poesia

 

Além da cachacinha comemorei a chegada das chuvas recorrendo à poesia feminina no Rio Grande do Norte, leitura que molha a alma. Começo com Myrian Coeli:

 

“A água explode na convulsão das chuvas/guardada nos torreões das nuvens/e inunda os vales onde acampam os mares, os rios e os lagos. /Um hálito multiplica os gens nas primeiras emanações da vida. / Um frêmito percorre o móvel corpo fecundado” (Poema “Ode à Água”, do livro “Vivência sobre Vivência”).

 

Zila Mamede: “Nessas horas de exílio, o pensamento/vara as janelas grávidas de chuva/ e se antecipa longe, e se projeta/ uma gaivota ansiosa em pleno vôo // O dorso do horizonte é uma promessa/ negando a intensidade dessas águas/ tardias, rudes águas fatigadas”. (Poema “Chuva”, do livro “Salinas”).

 

 Diva Cunha: “Uma chuva fina/ balança a cortina/ que desaba no chão // aflitas virgens/ abrem felizes/ o seu roupão”. (Poema “Uma chuva fina”, no livro “Armadilha de Vidro”).

 

 Rizolete Fernandes: “No longo inverno de tua ausência/ chove além do que meu peito absorve // São os olhos do tempo/ chorando goteiras/ sem teu aconchego/ frio de geleiras/ Oro e sonho finda a inclemência/ até que o outro dia o contrário prove”. (Poema “Por quem a chuva cai”, do livro “Vento da Tarde”).

 

Anchiella Monte: “Está chovendo/ meu sangue oceânico se inclina para a chuva/ deslizo para a janela/ sacudindo as cortinas em ânsia”. (Poema “Chuva”, do livro “Peso e Penas”).

 

Jeanne Araújo: “Ando triste, permissiva, / com a dor lancinante. / Ontem, pus os pés/ no tacho de cobre / e meu pensamento/ na beira do abismo. / Sapos coaxam à noite. / Eu reviro a madrugada/ com pensamentos ruins. / Mas no dia em que chove / eu quase chego a amar. ” (Poema “Correnteza”, do livro “Monte de Vênus”).

 

Iracema Macedo: “Acabei o namoro com teus olhos/ O que esperar da luz entre treliças? / Chove a cântaros em Vila Rica/ e a janela está fechada há séculos” (Poema “Treliças”, do livro “Invenção de Eurídice”).

 

Para completar o coral, convoco Lisbeth Lima, poetisa paraibana com Doutorado em Literatura Comparada pela UFRN: “No telhado, chove. / Pingos esparsos formam a música/ que vai se acumulando com as águas. // A luz entra com a goteira. / Claro de sol no meio da noite. ” (Poema “Chuva”, do livro “Vasto”).

 

[Gostoso ler Woden. Eu tinha uma foto de Woden e  Márcio Marinho recrutas fardados na caserna. Vivi uns tempos na casa de Woden, quando ele era solteiro. Eu retirante na querida Natal. Ele tinha um palacete na Praça das Mães. Idem saudades da vivência com Myrian e Zila] 

02
Jul17

Tempos de ouro em Natal

Talis Andrade

PELO JORNAL DE WODEN MADRUGA E SUBSTANTIVO PLURAL

 

woden-3.jpg

 No Jornal de WM (foto):

 

 

Navegando pelas águas da internet me ancorei, ontem, no cais do Substantivo Plural, saite de Tácito Costa, em cujas páginas o leitor encontra boas novidades do mundo cultural desta aldeia de Poti mais esquecida e também de outras partes do tal planeta terra. Lá estava uma palavra (muitas palavras) do poeta Talis Andrade para o poeta Oreny Júnior. Oreny, aqui em Natal, Talis no Recife. Na conversa, Talis vai enfileirando as saudades do tempo em que viveu por estas bandas natalenses, coisas dos anos 50, 60 pegando começo dos 70. Como poeta dirigiu o Suplemento Cultural de A República (governo Dinarte Mariz) e como jornalista dirigiu o próprio jornal (governo Cortez Pereira). Um agitador cultural sangue puro, autor de 13 livros e mil coisas mais jogando nos meios literários de Natal e Recife, para onde voltou em 1970. Este ano ele entra no time dos octogenários.

 

 

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Manoel Onofre Jr 

 

 

Bom, passamos a palavra para Oreny Júnior, como está no Substantivo Plural:

 

- Conversando com Talis Andrade, onde passei os contatos de Manoel Onofre Jr, que deseja falar com ele, tendo em vista não se falarem há algum determinado tempo, eis a resposta de Talis Andrade:


"Oreny, li sua mensagem hoje. Saudades de Onofre. Saudades de um tempo sem volta. Saia de noite do jornal A República para a casa de Cascudo. Ele fazia uma pausa nas leituras ou escritos. Fumava um charuto. Era um ritual. Imagine os fotogramas em câmara lenta. Pegava o charuto. Amaciava com os dedos. Cortava a ponta. Mergulhava em um cálice com conhaque. Cheirava e lambia a parte molhada. Depois acendia. Para gostosas e fumacentas baforadas.

 

"Outras vezes ia me encontrar com Ticiano lá na frente da estação de trem, no bar restaurante do pai de Tarcísio Pereira, que foi meu aluno de jornalismo na Católica, e dono da Livro 7, aqui no Recife, a maior livraria do mundo. Tempos de ouro de Natal. Nunca mais vai aparecer tanta gente linda pra uma noite de boemia: Navarro, Sanderson, Woden, Veríssimo, Walflan, Berilo, Márcio Marinho, Francisco Fausto, Myrian branca e tímida como um anjo deslocado, Zila, Dorian, Expedito Silva que dormia bêbado na redação, e um dia acordou do porre para casar e logo morreu na lua de mel. Onofre, Djalma Marinho, Djalma Maranhão apareciam e sumiam e levavam Myriam e Zila que não poderiam ficar, que a madrugada sempre foi má companhia apesar da brisa do Potengi e da Maresia do Forte dos Reis Magos.

 

"Oreny, esse Natal que eu vivi fica doendo em mim na saudade".

02
Jul17

A poesia e a morte de Zila Mamede

Talis Andrade

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MONIÇÃO. No sono, estando desprendido da matéria e atuando como Espírito, acontece do Espírito pressentir a sua morte. Também sucede ter plena consciência dessa época, o que dá lugar a que, em estado de vigília (acordado), tenha intuição do fato. Por isso é que algumas pessoas prevêem com grande exatidão a data em que virão a morrer. Leia mais 

 

Parece que esta a crença de Antonio Fabiano ao selecionar os poemas de Zila Mamede. Que faleceu em 1985, enquanto nadava na Praia do Meio, costa litorânea, próxima ao Forte dos Reis Magos, em Natal, Rio Grande do Norte. 

 

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ELEGIA

 

Não retornei aos caminhos
que me trouxeram do mar.
Sinto-me brancos desertos
onde as dunas me abrasando
tarjam meus olhos de sal
dum pranto nunca chorado,
dum terror que nunca vi.

 

Vivo hoje areias ardentes
sonhando praias perdidas
com levianos marujos
brincando de se afogar,
com rochedos e enseadas
sentindo afagos do mar.

 

Tudo perdi no retorno,
tudo ficou lá no mar:
arrancaram-me das ondas
onde nasci a vagar,
desmancharam meus caminhos
– os inventados no mar:
depois, secaram meus braços
para eu não mais velejar.

 

Meus pensamentos de espumas,
meus peixes e meu luar,
de tudo fui despojada
(até das fúrias do mar),
porque já não sou areias,
areias soltas de mar.
Transformaram-me em desertos,
ouço meus dedos gritando
vejo-me rouca de sede
das leves águas do mar.

 

Nem descubro mais caminhos,
já nem sei também remar:
morreram meus marinheiros,
minha alma, deixei no mar.

 

Pudessem meus olhos vagos
ser ostras, rochas, luar,
ficariam como as algas
morando sempre no mar.

 

Que amargura em ser desertos!
Meu rosto a queimar, queimar,
meus olhos se desmanchando
– roubados foram do mar.
No infinito me consumo:
acaba-se o pensamento.
No navegante que fui
sinto a vida se calar.

 

Meus antigos horizontes,
navios meus destroçados,
meus mares de navegar,
levai-me desses desertos,
deitai-me nas ondas mansas,
plantai meu corpo no mar.
Lá, viverei como as brisas.
Lá, serei pura como o ar.
Nunca serei nessas terras,
que só existo no mar.

 

CANÇÃO DO AFOGADO

 

Nos olhos de cera
dois pingos de vida,
nas marcas de vida
a noite pisou.
A face tranquila
bordada de sombras
– são restos de estrelas
que o céu apagou.
Os dedos lilases
não pedem mais sol;
e os lábios desfeitos
perderam seus gestos,
calaram seus sonhos
que a morte levou.
Cabelos de musgos
lavados de espumas
caminha o afogado
que o mar conquistou.

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