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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

20
Abr23

A farsa Adélio-PCC e o papel da Folha de S. Paulo numa armação perigosa

Talis Andrade
www.brasil247.com - Jair Bolsonaro e Adélio Bispo
Jair Bolsonaro momento da facada e Adélio Bispo preso incomunicável e com advogados bolsonaristas porta de cadeia (Foto: Reprodução | Ricardo Moraes/Reuters)

 

Jornal  do golpe de 1964 dá curso a plano de Bolsonaro de forjar ligação da facção criminosa a Lula e ao PT

 

por Joaquim de Carvalho

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O evento de Juiz de Fora que decidiu os destinos do Brasil entre 1o. de  janeiro de 2019 e 1o. de janeiro de 2023 ainda tem muitos pontos de interrogação e um jornal do tamanho da Folha de S. Paulo, em vez de dar respostas, coloca mais dúvida. 

Poderia ser apenas mau jornalismo, mas, pela reincidência, parece cumplicidade. No caso de Juiz de Fora, a dúvida interessa a quem procura construir a narrativa de crime encomendado. Bolsonaro é declaradamente um desses.

Aos fatos: o jornal publica nesta quarta-feira (19/04) reportagem com o título "Apuração da PF cita elo entre PCC e Adélio, mas direção vê tese furada". O texto longo não chega a lugar nenhum, mas serve como adubo a quem quer propagar desinformação.

Um advogado da banca de Zanone Júnior recebeu R$ 315 mil de empresas usadas pela facção criminosa para patrocinar defesas jurídicas, e, com base em informações frágeis, o jornal dá curso à tese de que a facção criminosa poderia estar por trás da ação de Adélio.

A reportagem ainda elogia o autor da tese, o delegado Martin Bottaro Purper, chamado de "um dos principais especialistas em PCC na PF", que passou a presidir o inquérito sobre o episódio de Juiz de Fora depois que o delegado Rodrigo Morais caiu para cima no governo Bolsonaro.

Resistente à pressão para jogar a fumaça do crime encomendado no caso de Juiz de Fora, Morais foi nomeado para um cargo no exterior em janeiro de 2022, no ano em que Bolsonaro tentaria a reeleição. Para o seu lugar, foi escolhido Martin Bottaro, que já havia trabalhado em casos que envolvem o PCC.

Bottaro era a peça que se encaixava à perfeição na narrativa de Bolsonaro. Durante a campanha eleitoral, o então presidente foi multado e teve que excluir postagens que tentavam associar Lula à facção criminosa. 

Durante a campanha de 2022, Bottaro tentou tomar um novo depoimento de Adélio, na Penitenciária Federal de Campo Grande. O delegado pediu também acesso ao laudo psiquiátrico sobre Adélio de agosto de 2022. Mas o juiz Luiz Augusto Iamassaki Fiorentini negou o pedido, feito às vésperas do segundo turno.

A Folha, sempre ela, noticiou que Martin Bottaro pediria autorização da Justiça Federal para tomar depoimento de Adélio, mas esse pedido nunca foi protocolado, serviu apenas para manchete a poucos dias antes do segundo turno da eleição de 2022.

E, claro, alimentou a desinformação na rede social, o que atendia ao interesse de Bolsonaro. Gerou a fumaça que o antigo delegado do caso, Rodrigo Morais, sempre evitou.

Antes de deixar o inquérito, em janeiro de 2022, Morais e integrantes de sua equipe estiveram duas vezes com Bolsonaro, em Brasília. A missão deles era mostrar ao então presidente como estava o inquérito. 

Bolsonaro não pediu nada, mas a simples convocação já indicava que ele queria alguma coisa, sobretudo porque a presença dos policiais no palácio era antecedida de manifestações dele sobre o episódio, tentando associar o evento de Juiz de Fora à oposição política.

Em julho de 2021, Rodrigo Morais foi indicado pelo então diretor-geral da PF, Paulo Maiurino, para ocupar um posto na Diretoria de Inteligência. Era uma nomeação que exigia que a documentação passasse pela Casa Civil, mas esta não deu andamento.

Antes disso, na segunda apresentação sobre o inquérito, um policial da equipe de Morais comentou na sala em que estava Bolsonaro que havia tido a oportunidade de conversar com Gustavo Bebianno  – que morreu em 14 de março de 2020.

Era blefe, mas a reação de Bolsonaro surpreendeu a todos na sala. "Foi a primeira vez que vi Bolsonaro se desconcertar", comentou um dos presentes.

Bebianno, como se sabe, havia manifestado estranheza quanto à presença de Carlos Bolsonaro em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018. 

No programa Roda Viva, depois que foi demitido da Secretaria Geral da Presidência, Bebianno mencionou que era a primeira vez que o filho de Bolsonaro participava de um ato de campanha.

E disse mais: Carlos Bolsonaro ficou o tempo todo no carro, comandando um drone, cujas imagens foram usadas como peça de propaganda na internet, logo depois do evento envolvendo Adélio. 

Bebianno disse ainda que, nos primeiros dias de governo, Carlos Bolsonaro pediu a ele para nomear quatro policiais federais para a Abin. Nas palavras de Bebianno, seria uma "Abin paralela". 

Bebianno recusou, com o argumento de que aquelas nomeações poderiam levar ao impeachment de Bolsonaro. No Roda Viva, Bebianno não disse por que a nomeação era tão prejudicial aos interesses do governo, e também se recusou a revelar quem eram esses policiais.

Hoje se sabe que, naquele mesmo ano, depois da queda de Bebianno, foram nomeados para a Abin três agentes da PF que atuaram na segurança de Bolsonaro em Juiz de Fora, além do delegado Alexandre Ramagem, que assumiu a direção-geral da Agência.

Os agentes da Abin são Luíz Felipe Barros Félix, Marcelo Araújo Bormevet e Flávio Antonio Gomes. Para fazer o documentário "Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil", censurado pelo YouTube, procurei os agentes, mas eles não retornaram ao meu pedido de entrevista.

Se a Folha quer, efetivamente, investigar jornalisticamente o caso de Juiz de Fora, pautas não faltam, sobretudo neste momento, em que o isolamento de Adélio apresenta as primeiras fissuras.

Em 30 de março, depois de quatro anos e meio, a dona de casa Maria das Graças Ramos de Oliveira visitou o irmão. O 247 acompanhou e fez uma videorreportagem. Na última segunda-feira (17/04), a titular da 2a. Vara de Família e Sucessões, Cíntia Xavier Letteriello, esteve na Penitenciária Federal de Campo Grande, para entrevistar Adélio.

 

A magistrada é responsável pelo processo em que Maria das Graças pede a curatela do irmão, diagnosticado como inimputável no processo sobre o evento de Juiz de Fora.

A juíza já tinha ouvido Maria das Graças em audiência, e causou boa impressão, ao demonstrar que tratará o processo como todos os outros em sua jurisdição, sem atentar para os aspectos políticos que poderiam envolver o caso.

Ao mesmo tempo, a Defensoria Pública da União, representada pelo defensor Welmo Rodrigues, tem travado uma luta dura por justiça no caso de Adélio, que, sendo doente mental, não poderia ficar trancado em cela isolada na penitenciária com Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).

O último laudo psiquiátrico, de agosto do ano passado, aponta a piora do estado de saúde dele, que, desconfiado, evita tomar medicamentos. A irmã contou que Adélio acredita que há um desejo de que ele morra na prisão.

Adélio reclamou do advogado que assumiu seu caso logo depois do episódio em Juiz de Fora, o criminalista Zanone Júnior. "Ele me trancou aqui e jogou a chave fora", disse à irmã. 

A pedido de Zanone é que Adélio foi trancado na penitenciária federal, declarado inimputável e processado com base na Lei de Segurança Nacional, que fez seu caso permanecer na Justiça Federal, em vez de transitar pela Justiça Estadual de MInas Gerais, onde responderia por lesão corporal e, certamente, já estaria em liberdade.

No final de 2019, Adélio enviou carta de próprio punho à Defensoria Pública da União em que pediu a remoção do advogado.

Zanone deixou de atuar na causa como advogado, mas, estranhamente, foi nomeado curador processual, embora Adélio tivesse família em Montes Claros. 

O juiz que nomeou Zanone disse que tomou a decisão para que o processo não perdesse agilidade, já que a família de Adélio é pobre e mora distante.

Apenas uma das muitas cartas que Adélio escreveu para a família chegou a Maria das Graças. Nela, Adélio pedia empenho para que pudesse ser transferido para perto da família.

Mesmo afastado do processo como advogado e na condição de curador processual, Zanone nunca deixou de se empenhar para manter Adélio na penitenciária.

A Folha, sempre ela, publicou entrevista em que ele falava da melhora do estado de saúde de Adélio na Penitenciária, uma vez que estaria sendo atendido por equipe médica, o que era mentira.

Continuava sendo apresentado como advogado e, em agosto do ano passado, nomeou assistente técnico para acompanhar a junta médica que elaborou o segundo laudo.

A Justiça Federal em Campo Grande não aceitou o psiquiatra indicado por Zanone e, a pedido da Defensoria Pública Federal, o removeu da condição de curador.

Quem ficou com a função foi a própria Defensoria, o que faz sentido, até que a Justiça Estadual em Mato Grosso do Sul decida sobre o pedido de Maria das Graças.

A Defensoria também atua em outra frente, a da transferência de Adélio para um hospital psiquiátrico perto da família ou, na ausência de vaga, para a residência da irmã.

O juiz Bruno Savino, de Juiz de Fora, se manifestou contra, e a decisão cabe a ele, já que o STF julgou que compete ao juiz da origem do fato decidir em que estabelecimento o sentenciado deve cumprir medida de segurança.

A decisão do STF foi relatada por Kássio Nunes Marques, o primeiro ministro indicado por Jair Bolsonaro.

Foi em 2020, quando a Justiça Federal em Campo Grande entendeu que Adélio não poderia continuar na penitenciária, Bruno Savino (e Zanone) se manifestou contra. 

Estabeleceu-se à época um conflito de competência, que foi parar no STF.

Nunes Marques entendeu que o presídio é "estabelecimento adequado" para cumprimento de medida de segurança, conforme o artigo 96 do Código Penal.

Diante do último laudo psiquiátrico, o de agosto do ano passado, que mostra um quadro de deterioração mental de Adélio, a Defensoria Pública da União entende que esse argumento caiu por terra.

Por isso, recorreu da decisão da Justiça Federal em primeira instância. O recurso está no gabinete do relator do Tribunal Regional Federal da 3a. Região, para ser levado a julgamento.

A Defensoria postula a transferência de Adélio para um hospital ou, na ausência de vaga, para a casa da família, para que receba tratamento em ambulatório. 

O Ministério Público Federal concorda com a transferência para hospital, mas é contra a ida para a casa da família e o consequente tratamento ambulatorial. 

O juiz Bruno Savino estendeu a medida provisória até agosto de 2024.

Na visita virtual da irmã, em fevereiro deste ano, quando perguntado sobre o que ocorreu em 6 de setembro de 2018 em Juiz de Fora, Adélio respondeu: "Não vem ao caso".

Sem as grades de ferro, Adélio se sentiria mais à vontade para falar?

 

09
Abr23

Quando vão matar Adélio que deu uma fakeada em Bolsonaro?

Talis Andrade
www.brasil247.com - Jair Bolsonaro e Adélio Bispo
Jair Bolsonaro e Adélio Bispo (Foto: Reprodução | Ricardo Moraes/Reuters)

 

Mais de quatro anos preso, em uma penitenciária federal de segurança máxima, como louco, e nunca recebeu visita de parente, de médico, de advogado. Sobrevive sob tortura. Na escuridão do isolamento, sem poder contatar sequer outros prisioneiros

 

Publica 247: "Querem me ver morto", diz Adélio à irmã, que o visitou na penitenciária (vídeo). Joaquim de Carvalho seguiu os passos de Maria das Graças Oliveira em Campo Grande, onde, além de visitar o irmão, esteve com a juíza que deve ouvir Adélio num caso de interdição. Um contato possível porque acabou o mando de Bolsonaro

 

por Joaquim de Carvalho

A dona de casa Maria das Graças Ramos de Oliveira visitou o irmão, Adélio Bispo, na Penitenciária Federal de Campo Grande. Foi a primeira visita presencial, e o 247 acompanhou (veja vídeo abaixo).

"Querem me ver morto", disse Adélio, segundo a irmã. Adélio acusou o antigo advogado, Zanone Júnior, de ter atuado contra os interesses dele. "(O advogado) pediu medida de segurança, me trancou aqui dentro e nunca veio me visitar, saber como estou", afirmou.

Maria das Graças também acusou o advogado de não ter atendido ao pedido da família para visitar o irmão. "Nem atende aos telefonemas do meu menino (filho)", declarou.

No entanto, o advogado se tornou curador processual de Adélio, depois de ser afastado a pedido dele. E é entrevistado pela imprensa corporativa como se ainda fosse responsável por sua defesa. Disse que Adélio estava sendo medicado na penitenciária e, por isso, opinava que ele não deveria sair de lá.

Não é verdade. Adélio disse à irmã que não toma remédio, porque não sabe o que lhe está sendo entregue. E também porque estaria se sentindo bem. 

O último laudo psiquiátrico sobre sua situação de saúde, de julho do ano passado, confirma que ele não é medicado, e recomenda sua transferência para um hospital psiquiátrico, o que a Justiça ignorou.

Dois advogados, Edna Teixeira e Alfredo Marques, assumiram a causa da irmã de Adélio e, além da visita, deram entrada na Justiça com uma ação para que Maria das Graças tenha a curatela do irmão, o que afastaria Zanone Júnior e permitiria à família ter acesso aos autos, além de pleitear sua transferência para tratamento ambulatorial, residindo em casa.

A juíza Cíntia Xavier Letteriello, da 2a. Vara de Família e Sucessões de Campo Grande, aceitou a ação e disse que ouvirá Adélio, conforme determina o Código de Processo Civil, em caso de interdição.

Como Adélio escreve cartas e tem plena consciência de sua situação jurídica, ele poderia ser considerado capaz ou semi-incapaz, o que provocaria uma reviravolta no caso.

Na hipótese de que seja considerado incapaz, também poderia haver repercussão no processo que ainda tramita em Juiz de Fora – o inquérito foi reaberto, e assim permanece.

É válida a procuração que um incapaz passa para um advogado? A princípio, não. Nesse caso, ele teria sido sentenciado à medida de segurança – quando o autor de um crime é considerado insano e não pode ser condenado – sem ter tido, efetivamente, defesa.

A juíza Cíntia Letteriello recebeu Maria das Graças no Fórum de Campo Grande. Os advogados também participaram da audiência, por acesso remoto. A magistrada disse que Maria das Graças deveria ficar tranquila porque o caso será tratado como todos os outros em sua Vara, sem levar em conta os aspectos políticos que envolvem o episódio.

 

 

29
Jan23

Por que Carlos Bolsonaro não prestou depoimento no inquérito sobre o evento de Juiz de Fora?

Talis Andrade
www.brasil247.com - Carlos Bolsonaro esteve em clube de tiro nos mesmos dias que Adélio
Carlos Bolsonaro esteve em clube de tiro nos mesmos dias que Adélio

 

Os dois estiveram próximos duas vezes. Em Florianópolis, quando Adélio fez curso de tiro. E em Juiz de Fora, quando Carlos se tranca no carro ao ver Adélio

 

por Joaquim de Carvalho

- - -

Uma das lacunas da investigação sobre a facada ou suposta facada em Juiz de Fora é a presença de Carlos Bolsonaro em Florianópolis no mesmo dia em que Adélio Bispo de Oliveira fazia o curso de tiro no .38, em 5 de julho de 2018.

O inquérito não faz referência se Carlos frequentou o .38 naquele dia, mas sua ida à cidade tinha o objetivo de ir ao local, de que era associado fazia três anos e ao qual prestou homenagem, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, conforme mostra o diploma afixado na parede da recepção.

Quando fiz o documentário "Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil", perguntei ao .38 se Carlos Bolsonaro esteve no local naquele dia e se havia imagens das câmeras de segurança. Um relações públicas do clube me atendeu, pediu que formalizasse a solicitação por e-mail, o que fiz e não recebi resposta.

Dois representantes do .38 prestaram depoimento no inquérito, o instrutor de tiro e um proprietário, mas não foram questionados sobre a presença de Carlos Bolsonaro. Um deles disse que, nesse dia, Adélio, à certa altura, ficou sentado na poltrona, mexia no celular e olhava sempre para a porta de entrada.

Adélio estava fazendo o curso, pelo qual receberia certificado, e pelas aulas recebidas teria pago três vezes o valor do aluguel do quarto onde vivia. Adélio não tinha arma. Em 7 de setembro, um dia depois do evento em Juiz de Fora, o Jornal Nacional publicou reportagem com entrevista da porta-voz do clube.

“Ele chegou aqui, fez um cadastro, foi acompanhado, após fazer um cadastro e dar a identidade dele, como todo e qualquer cidadão que vem aqui, por um instrutor para a prática de tiro. Esse instrutor fica junto no momento em que a arma é escolhida. Fica junto a todo instante”, disse Júlia Zanata, que, mais tarde, seria nomeada por Jair Bolsonaro para um cargo regional da Embratur em Santa Catarina.

Nas redes sociais, Júlia Zanata se destacou como militante bolsonarista e recorreu à Justiça para tentar tirar o documentário do YouTube, mas não conseguiu. A censura viria por iniciativa do próprio YouTube, alguns meses antes da eleição no ano passado.

O delegado da Polícia Federal Rodrigo Morais, que investigou o caso, disse a membros de sua equipe que havia dificuldade para investigar o entorno de Bolsonaro, mas, em junho de 2021, quando apurávamos o evento de Juiz de Fora, considerava a hipótese do auto atentado "plausível".

Na época, o Tribunal Regional Federal da 1a. Região analisava a possibilidade de reabertura do inquérito para, em princípio, analisar o celular e o computador apreendido no escritório de Zanone Júnior, que foi o advogado de Adélio.

Ele dizia que, se o caso fosse reaberto, avançaria na investigação, não apenas analisar os arquivos de Zanone. O delegado cogitava pedir autorização do Supremo Tribunal Federal para uma perícia médica em Bolsonaro.

"Ninguém é obrigado a produzir prova contra si, mas eu pediria, para saber se o que provocou o ferimento", disse a dois agentes da Polícia Federal. 

Quando o caso foi reaberto, Rodrigo Morais acabou promovido para um cargo nos Estados Unidos, e quem assumiu a investigação foi o delegado Martin Bottaro Purper, que tinha investigado a facção criminosa PCC.

Algumas semanas depois, o jornal Metrópoles publicou reportagem sobre a linha de investigação: Purper estaria buscando verificar se havia ligação de Adélio com a facção criminosa.

Nunca mais a Polícia Federal tocou no assunto publicamente, mas a notícia gerou barulho na internet. A militância bolsonarista tentava ligar Adélio ao PCC e o PCC a Lula. Puro delírio, mas em época de campanha o barulho poderia ter efeito junto aos eleitores.

Carlos Bolsonaro é chave para eliminar as lacunas do inquérito sobre o evento de Juiz de Fora. Um vídeo publicado no documentário "Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil" mostra que Adélio tenta se aproximar de Carlos na tarde de 6 de setembro de 2018, logo após a chegada de Bolsonaro ao Parque Halfeld, início da caminhada pelo calçadão.

Ao vê-lo, Carlos Bolsonaro entrou no carro e se trancou. Em entrevista a Leda Nagle, Carlos falou sobre essa aproximação, que ele não poderia negar, já que as imagens tinham se tornado públicas.

"Tem um determinado momento da gravação do meu pai em Juiz de Fora em que eu saio do carro e o Adélio vem na minha direção, e eu, por um acaso, volto no carro e, quando eu entro no carro novamente, ele recua porque viu que não conseguiria chegar até mim. Tem essa gravação. É público, todo mundo consegue ver. Então, eu voltei para o carro e dez minutos depois aconteceu o que aconteceu", afirmou.

Se, ao se trancar no carro, desconfiou do homem que usava jaqueta preta apesar do calor na cidade, deveria ter alertado os seguranças.

Sobre a presença em Florianópolis no mesmo dia em que Adélio fazia o curso, contou que, naquele dia, não esteve no clube de tiro.

"Esse cidadão chamado Adélio esteve no clube de tiro .38 no mesmo dia em que eu estava em Florianópolis. Por um acaso, naquele dia, eu não fui ao clube de tiro. (...) Aloprei com um amigo meu que temos mais ou menos a mesma personalidade. 'Não vou praí, vou pro hotel e dane-se. Não fui'", disse, na mesma entrevista a Leda Nagle.

Se o clube de tiro tivesse atendido à minha solicitação para ver imagens daquele dia, seria eliminada a dúvida sobre o que diz Carlos Bolsonaro: se não esteve mesmo no clube de tiro naquele dia.

Se a Polícia Federal tivesse examinado o deslocamento de Carlos Bolsonaro a partir de seu celular, também se saberia por onde andou em Florianópolis. 

Mas, como não investigava a hipótese de auto atentado, o delegado Morais não requisitou as imagens do clube nem examinou o celular de Carlos Bolsonaro.

A Leda Nagle, Carlos Bolsonaro sugere que poderia ser alvo de Adélio, o que não faz sentido. Examinando a rede social dele, é possível verificar que Adélio só começou a atacar Bolsonaro alguns dias depois do curso no .38.

Entrou na própria página de Jair Bolsonaro no Facebook e o ameaçou. Foi a partir daí que também passou a criticar as propostas de Bolsonaro, e reproduziu entrevista antiga, em que Bolsonaro defende guerra civil no Brasil, com a morte de 30 mil pessoas.

São postagens muito diferentes daquelas que vinha fazendo antes de realizar o curso de tiro, em que defende um projeto de lei apresentado por alguns deputados, entre eles Bolsonaro, para a redução da maioridade penal.

Também era favorável ao serviço de militares em projetos de lazer e educação para jovens. Atacou o projeto de lei que criminaliza a homofobia, apoiado por Jean Wyllys, então deputado pelo PSOL, que os bolsonaristas tentariam ligar a ele.

Esse comportamento, sobretudo as contradições, devem ser investigadas, se o que se busca, no caso de Juiz de Fora, é a verdade factual.

 

 

05
Jan22

A justiça e a polícia de Bolsonaro isolaram o torturado Adélio Bispo

Talis Andrade

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Adélio Bispo permanece proibido, pelo ministro da Justiça e da Segurança Pública, de falar com os irmãos, os tios, os sobrinhos, os primos, com os médicos, com os enfermeiros e, principalmente, com a imprensa. Inclusive com outros presos, porque a loucura, para a família Bolsonaro, uma doença mais transmissível que a covid, que a influenza.

 Detento incomunicável, em presídio de segurança máxima do governo federal, Adélio não pode responder nenhuma correspondência, é a ordem presidencial.

Para curar Adélio Bispo, doente da cabeça, o melhor remédio a tortura psicológica. O isolamento em uma pequena cela, uma gaiola fechada com porta de ferro.

Adélio, proibido de sair do cubículo, da geladeira, para tomar sol, ou banho de lua, sofre de constante dor de cabeça, de insonia e ansiedade, e dores atípicas, continua sem tomar qualquer medicamento. Assim se faz desnecessária a tão mal falada tortura física da ditadura militar: pau-de-arara, cadeira de dragão etc

 O delegado particular de Adélio foi passear nos Estados Unidos. Gostou tanto que vai ficar lá dois anos se... Se Bolsonaro for reeleito. 

Para substituir o delegado da mais alta confiança, a Polícia Federal escolheu um outro muito melhor. Que investigou o PCC (Primeiro Comando da Capital). Um comando que persiste, que agora se estende por todo Brasil e outros países. 

O novo delegado vai dar continuidade ao inquérito. Arrancar uma versão que ajude a eleger Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. 

Martin Bottaro Purper, que está há 17 anos na corporação, foi designado. Caberá a ele buscar informações que possam esclarecer se Adélio Bispo de Oliveira cometeu o atentado sozinho ou contou com a ajuda de alguém, informa a Folha de S.Paulo. De algum filiado do PT. 

A Justiça considerou Adelio doente mental e, por isso, inimputável. Bolsonaro,  um negacionista convicto, não acredita na ciência médica.

Polícia científica constitui aberração. 

Informa o portal 247:

Bolsonaro insiste na tese de que a PF não fez uma investigação correta e de que houve um mandante. O objetivo é político, levantar a bandeira de que foi vítima de um atentado a mando da esquerda.

A narrativa sobre a facada volta ao cenário da disputa eleitoral de 2022. 

Ao ser internado na segunda-feira (3) com dores abdominais, Bolsonaro e seus apoiadores voltaram a abordar o assunto.

Em novembro passado, com base em um pedido do coiteiro de Fabrício Queiroz,  Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro, o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) determinou, prontamente, a reabertura do caso, ocorrido em Juiz de Fora, MG, em 2018. 

O tribunal autorizou que a PF vasculhe o conteúdo do celular apreendido em poder do advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, um dos defensores de Adélio. Um advogado imposto, que Adélio tem ojeriza, aversão. Cada doido com sua mania. 

As conversas telefônicas podem revelar quem custeou os honorários advocatícios, o que, para Bolsonaro e aliados, levará a polícia ao suposto mentor da suposta facada.

Ora, ora, é só quebrar os sigilos bancários e fiscais dos advogados verdadeiramente contratados pelo Adélio, que foi treinar tiro na academia dos Bolsonaro, mas preferiu usar uma arma fria. 

carlos bolsonaro e adélio .jpg   

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Leandro Malósi Dóro - "Charges - A verdade nua e crua" | Facebook

26
Nov21

Campanha eleitoral de 2022: PF reabre inquérito sobre ‘facada’ em Bolsonaro

Talis Andrade

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247 - A Polícia Federal reabriu o inquérito sobre a facada ou suposta facada em Jair Bolsonaro, episódio que ocorreu em Juiz de Fora (MG) em setembro de 2018, informa a coluna Painel, da Folha de S.Paulo. O episódio ocorreu durante a campanha presidencial, tirando o então candidato do PSL dos debates.

A investigação terá como foco o autor do suposto atentado, Adélio Bispo, que está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande. 

A retomada do caso vem após o Tribunal Regional Federal da 1ª Região autorizar a investida contra o advogado de Adélio, Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que terá o celular analisado. A PF também poderá analisar documentos e imagens de câmeras de segurança de um hotel frequentado pelo advogado.

Palavra do advogado

Zanone Manuel de Oliveira Júnior disse que a chance de a Polícia Federal encontrar em seu celular qualquer informação que leve a quem pagou pela defesa do autor da facada ou suposta facada em Juiz de Fora é zero, informou o jornalista Joaquim de Carvalho, que entrevistou o advogado para o documentário “A máquina de fakeadas da extrema direita no Brasil”, que será lançado na próxima semana pela TV 247.

Na entrevista, Zanone contou que tem por hábito usar celulares por pouco tempo e depois destruí-los.  O celular apreendido com ele em dezembro de 2018, três meses depois do episódio em Juiz de Fora, já não era o que ele usava quando teria sido contratado para assumir a defesa de Adélio.

Todo crime fadado a ganhar manchetes da grande imprensa sempre conta com os advogados doidos pelos holofotes da imprensa, notadamente os de porta de cadeia. 

26
Nov21

Polícia política reabre inquérito sobre facada em Bolsonaro e vai analisar celular do advogado de Adélio Bispo

Talis Andrade

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As reportagens de Joaquim de Carvalho desmoralizaram a trama da prisão incomunicável de Adélio Bispo de Oliveira.

A verdade que Adélio é portador de transtorno delirante persistente. E vem sofrendo tortura psicológica e tortura física, inclusive proibido de receber o devido tratamento psiquiátrico, e os medicamentos receitados antes do atentado e detenção em presídio de segurança máxima do governo federal.

Adélio sofre de insônia, e não recebe nenhum sonífero. Tem uma permanente dor de cabeça, mas a polícia política de Bolsonaro proíbe que receba analgésico. Um Melhoral. Uma simples Aspirina.

Fernando Zuba, TV Globo, publica hoje: A Polícia Federal reabriu o inquérito sobre a facada em Jair Bolsonaro e vai analisar o celular do advogado de Adélio Bispo. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) autorizou no começo do mês a análise de dados bancários e do material reunido em busca e apreensão realizada contra Zanone Manuel de Oliveira Júnior.

Adélio já pediu o afastamento de Zanone, que pegou, na marra, a defesa de Adélio, a mando da mãe dele que já morreu faz tempo. Há décadas.

O material está com o delegado Rodrigo Morais Fernandes, que vai analisar também as informações fiscais de Zanone. Imagens do circuito interno de TV do escritório de advocacia também serão parte do inquérito.

O acesso aos dados do advogado tinha sido suspenso provisoriamente, por meio de um recurso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Por 3 votos a 1, os desembargadores do TRF-1 rejeitaram a ação.

A defesa de Bolsonaro argumenta que o material pode ajudar a esclarecer se Adélio Bispo agiu de fato sozinho ou teve algum tipo de auxílio, como financiamento, e considera que decisão do TRF-1 viabiliza a reabertura da apuração.

Zanone ainda não se manifestou sobre a abertura de inquérito. Muito menos Adélio, proibido de falar com a imprensa e familiares, irmãos e sobrinhos. 

Se o Zanone participou de alguma trama assassina, que seja devidamente julgado e preso, inclusive proibido de exercer a profissão.  

Se a justiça fosse séria, Adélio estaria internado em um hospital psiquiátrico. Não continuaria no inferno do Presídio Federal de Campo Grande. 

 

 

 

 

 

17
Nov21

Por que a justiça brasileira faz que não sabe da tortura que Adélio Bispo de Oliveira sofre?

Talis Andrade

PF Adelio-Bispo-de-Oliveira.jpg

 

 

O caso Adélio Bispo de Oliveira desmoraliza a justiça brasileira. Primeiro que pagaram advogados para servir de carrascos. Advogados e juiz de custódia, se for o caso, ou juiz responsável pela Penitenciária Federal de Campo Grande fazem vista grossa para a punição que sofre Adélio nas mãos dos cruéis carcereiros nomeados por Jair Bolsonaro.

Melhor seria Adélio fosse executado -  a pena de morte criada exclusivamente para ele, do que sofrer tortura diária em uma cadeia de segurança máxima do governo federal. Preferível a morte do que padecer cada interminável segundo de solidão, cada imutável minuto sem falar com nenhuma alma viva ou morta.

Desde que deu uma suposta canivetada em Bolsonaro, Adelio passou a ser um preso incomunicável, sem noção de quando é noite e de quando é dia. E fazendo jejum, comendo o pão que o diabo amassou, e sem os medicamentos que deveria tomar para amenizar os transtornos mentais de insônia, de ansiedade, de tensão, de medo das visagens. Fanático religioso, o medo do demônio, do inferno.

Que custa um comprimido para a constante dor de cabeça? Um telefonema para amenizar a saudade dos parentes, afastado que está das coisas, dos bichos e das pessoas?

Nem advogado Adélio tem. Apareceu um advogado de porta de cadeia. 

Nenhum preso sofre mais a fome, a falta de tratamento médico psiquiátrico, a solidão, o apartamento, a separação, a incomunicação que Adélio. 

A tortura que padece um castigo pelo crime que praticou ou medo de que ele fale. Por que preferiu usar uma arma branca depois de treinar tiro ao alvo na escola dos filhos de Bolsonaro? 

 

Adélio está hoje visivelmente insano

adelio.jpeg

 

por Joaquim de Carvalho

O advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que defendeu Adélio Bispo de Oliveira, disse que a chance da Polícia Federal encontrar em seu celular qualquer informação que leve a quem pagou pela defesa do autor da facada ou suposta facada em Juiz de Fora é zero.

Como o advogado Saul, da série Breaking Bad, ele contou que tem por hábito usar celulares por pouco tempo e depois destruí-los. 

O celular apreendido com ele em dezembro de 2018, três meses depois do episódio em Juiz de Fora, já não era o que ele usava quando teria sido contratado para assumir a defesa de Adélio.

Eu entrevistei Zanone para o documentário “A máquina de fakeadas da extrema direita no Brasil”. A entrevista durou cerca de 20 minutos.

A certa altura, quando perguntava sobre detalhes do processo, Zanone disse que estava recebendo ligação de uma assessora, desligou e não atendeu mais a meus telefonemas.

“Eu destruo os celulares para proteger meus clientes, para que ninguém saiba o que converso com eles”, disse.

Outros pontos da entrevista serão publicados no documentário, que está em fase de finalização.

Zanone entrou no caso de maneira surpreendente.

No dia da facada ou suposta facada, ele agiu rápido para assumir o caso. Como tem escritório em Belo Horizonte, pediu a um ex-estagiário, que tem escritório em Barbacena, que fosse até a sede da Polícia Federal em Juiz de Fora e assumisse o caso, em nome próprio e também dele.

Em entrevista ao UOL, esse advogado, Pedro Possa, deu a versão de que foram contratados por um líder religioso que teria assumido o caso por “amor ao próximo”.

Cascata. Repito: cascata.

A entrevista foi publicada na sexta-feira passada, dois dias depois do Brasil 247 publicar artigo de minha autoria que relatava a conversa do perito José de Ribamar de Araújo e Silva com o ativista de direitos humanos Marconi Burum.

Nessa conversa, transmitida pelo Canal Resistência Contemporânea, Ribamar contou que entrevistou Adélio numa visita ao presídio federal em Campo Grande (segurança máxima). 

Segundo ele, Adélio está hoje visivelmente insano, o que contrasta com seu estado de saúde em 7 de setembro de 2018, quando falou em audiência de custódia à Justiça Federal em Juiz de Fora.

Segundo ele, Adélio vive em condições análogas à tortura, como denunciaram outros presos do presídio.

Há mais de três anos, ele vive isolado em uma cela, de onde sai apenas num intervalo de duas horas, para banho de sol.

Adélio também nunca recebeu visita da família. Há duas semanas, um dos sobrinhos dele, Jeferson Ramos de Souza, mandou mensagem ao advogado Zanone, para tentar agendar uma visita.

O advogado respondeu em áudio que providenciaria o deslocamento, mas não deu nenhuma data. Parentes de Adélio contam que ele sempre dá essa resposta — “visita em momento oportuno” —, mas nunca toma nenhuma providência.

O perito Ribamar relatou que Adélio reclamou muito da falta de contato com os parentes. 

“Ele disse que tem três irmãos, com quem se dava muito bem, e um sobrinho, com quem também se dá muito bem, mas que nunca foi visitado por eles, e ele sente falta desse contato”, destacou Ribamar, na conversa transmitida pelo canal Resistência Contemporânea.

Na hipótese de que Adélio tenha mesmo o transtorno mental grave que o tornou inimputável, Adélio deveria ser tratado em hospital psiquiátrico ou, na ausência de vaga, permanecer junto de familiares e receber atendimento médico adequado na rede pública.

Na entrevista ao UOL, o advogado Pedro Possa afirmou que Adélio é medicado no presídio. “Acredito que o tratamento tenha surtido efeito e ele esteja melhorando a consciência”, afirmou.

Não é possível dizer a que interesse atende essa declaração veiculada num site de grande audiência, mas com certeza não é a interesse público, já que a situação de Adélio é vista pelo defensor público Valber Rondon como uma grave violação de direitos humanos.

No ano passado, o defensor recorreu à Justiça para que Adélio fosse transferido a um hospital psiquiátrico em Minas Gerais.

O juiz de Campo Grande responsável por acompanhar a execução penal no presídio federal determinou a transferência, mas o magistrado responsável pelo caso em Juiz de Fora negou.

Estabeleceu-se um conflito de competência, que acabou no Supremo Tribunal Federal. Kássio Nunes Marques negou liminar para a transferência, e a ação foi julgada, em caráter definitivo em agosto, pela Segunda Turma do STF, que confirmou por unanimidade a decisão do ministro indicado por Jair Bolsonaro.

Para o defensor público Valber Rondon, o caso deveria ser denunciado a cortes internacionais de direitos humanos, da ONU ou OEA, já que Adélio é o único caso de inimputável que cumpre medida de segurança em presídio federal, onde 90 por cento dos presos tomam remédio psiquiátrico para suportar o isolamento e as regras de segurança máxima.

Valber foi trnsferido para Brasília há cerca de um ano. Segundo ele, a transferência não tem relação com o caso Adélio. 

Seu sucessor em Campo Grande, efetivado há pouco tempo, ainda não tomou nenhuma providência nesse sentido.

A entrada de Zanone no caso é vista nos bastidores de Justiça como uma estratégia de advogados para assumir um caso de repercussão e, com isso, ganhar publicidade.

Pedro Possa, o advogado mobilizado por Zanone na tarde da facada ou suposta facada, esteve com Adélio no mesmo dia.

Para abordar o possível cliente, ele teria dito que tinha sido enviado pela mãe de Adélio. 

Policiais que acompanharam a abordagem contam que Adélio riu e contou que a mãe tinha falecido fazia tempo.

Pedro Possa tentou se corrigir e afirmou que, na verdade, era uma tia. Adélio respondeu que não tinha proximidade com nenhuma tia.

Mesmo assim, assinou procuração no dia seguinte para Zanone,  Pedro Possa e outros dois advogados para que assumissem sua defesa.

Uma questão importante: se Adélio já era portador de transtorno mental grave, essa procuração teria valor? 

Mais tarde, outro criminalista entraria no caso, Alfredo Mejia, que é do Rio Grande do Sul e, a exemplo de Zanone, tem vasta experiência em direito penal, inclusive com livros publicados. Este, como Zanone, também não tem um patrocinador conhecido.

Zanone foi o primeiro a dar ao caso um encaminhamento que não é próprio de quem quer exposição midiática positiva.

Ele poderia ter defendido o Tribunal do Júri para Adélio, por tentativa de homicídio. 

Mas, desde a primeira hora, propôs que o caso fosse enquadrado na Lei de Segurança Nacional então vigente, por inconformismo político; que Adélio fosse declarado inimputável; e que fosse transferido para presídio federal, longe de Minas Gerais.

A estratégia de Zanone pode ser vista como contrária aos interesses do cliente, já que, no Tribunal do Júri, ele não teria uma pena por tempo indeterminado (como, na prática, ocorre agora) e ficaria mais claro a motivação de Adélio para a ação em Juiz de Fora.

O que se sabe é que Adélio, ao contrário do que ele mesmo disse, não era um militante de esquerda — portanto, não tinha uma “ideologia diametralmente oposta à de Bolsonaro”. 

Na rede social e em pregações em igrejas, Adélio promovia bandeiras bolsonaristas, como a redução da maioridade penal (projeto do próprio Bolsonaro e de seu filho senador, Flávio) e o combate ao projeto que criminaliza a homofobia.

Adélio só começou a fazer ataques a Bolsonaro depois de 5 de julho de 2018, quando dividiu o mesmo espaço com Carlos Bolsonaro no Clube de Tiro .38, onde fez um curso de três dias.

Encerrado o processo em Juiz de Fora que considerou Adélio inimputável, Zanone passou a dividir a defesa dele com a Defensoria Pública da União.

O órgão, criado pela Constituição de 1988 para atuar em casos em que o réu ou condenado não tenha condições financeiras para bancar a defesa, só entrou no caso depois que recebeu uma carta manuscrita de Adélio, em que ele pedia o afastamento de Zanone.Trecho da carta em que Adélio pede o afastamento de Zanone

Trecho da carta em que Adélio pede o afastamento do indesejado Zanone. Um afastamento que a Justiça cúmplice não concede. Até um doido sabe quando um advogado não serve. Suspeito não é Zanone ter um suposto contrato. Suspeito é ele teimar em ser advogado de um preso na marra...

 

Hoje Zanone é, formalmente, curador processual do autor da facada ou suposta facada em Juiz de Fora, mas ainda dá as cartas no caso, como mostra a resposta que forneceu há duas semanas ao sobrinho de Adélio sobre a visita no presídio federal.

Pode ter havido facada em Juiz de Fora? Sim. Pode ter sido um autoatentado? Sim. O episódio é marcado por uma série de lacunas, que só uma investigação independente pode preencher.

Enquanto isso, Bolsonaro viaja para Dubai e dá declarações que, à primeira vista, parecem soar insanas, como a de que discutiu lá a troca de “presos políticos”.

Adélio não é um preso político, pelo menos formalmente, mas o desdobramento de uma investigação independente poderia gerar, efetivamente, acusados por agirem politicamente num caso que foi decisivo para a ascensão da extrema direita no Brasil.

 

 

10
Nov21

Adélio vive em condições análogas à tortura, denuncia perito que o visitou no presídio do governo federal em Campo Grande (vídeo)

Talis Andrade

presidio de segurança máxima campo grande.png

campo grande presídio.jpeg

 

O Presídio Federal de Campo Grande é a Prisão de Guantánamo brasileira

 

 

José de Ribamar de Araújo e Silva integra o Mecanismo Nacional de Prevenção à Tortura, entidade criada por acordo do Brasil com a ONU, e esteve no estabelecimento onde Adélio vive isolado. Nem os parentes podem visitá-lo.

José de Ribamar de Araújo e Silva furou a proibição federal por representar a ONU. 

De acordo com o art. 136, § 3.º, IV, da Constituição Federal, o preso não poderá ficar incomunicável. No entanto, pode ser decretada por decisão fundamentada do juiz a requerimento da autoridade policial ou do Ministério Público, segundo art. 21, § único do Código de Processo Penal, não poderá exceder a três dias.

A incomunicabilidade é, sim, uma tortura. Mas com as ciências da Psiquiatria, do Comportamento, novos meios foram criados, além da Santa Inquisição.  

A tortura existe sempre para arrancar informações. Adélio já discursou tudo que tinha de falar. Contou tantas histórias, que terminou com atestado de louco, assinado por psiquiatras e psicólogos. 

Portanto, torturar Adélio visa a morte. Que seja suicídio ou 'suicidado' tanto faz. 

Para conhecer mais leia aqui "A incomunicabilidade do preso: Teoria e prática", por Jairo Souza.

Escreve o jornalista Joaquim de Carvalho:

O perito José de Ribamar de Araújo e Silva visitou Adélio Bispo de Oliveira no presídio federal de Campo Grande, que tem regras mais duras do que qualquer outro estabelecimento penal de segurança máxima.

Segundo o relato dele, dado ao ativista de direitos humanos Marconi Barum, ao chegar no presídio para verificar se havia tortura, pessoas do presídio disseram para ele falar com Adélio. E ele falou.

Adélio cumpre medida de segurança no local, por ter sido considerado inimputável pela Justiça Federal em Juiz de Fora.

O perito conversou com o ativista de direitos humanos Marconi Barum, do canal Resistência Contemporânea. Marconi é formado em letras e tem especialização em Direito Público.

A Defensoria Pública da União, que entrou no caso depois de receber uma carta de Adélio reclamando do advogado Zanone Manuel De Oliveira Júnior, entrou na Justiça para que ele fosse transferido a um hospital psiquiátrico.

O juiz de primeira instância em Campo Grande determinou a transferência. A Justiça Federal em Juiz de Fora foi contra. E estabeleceu-se um conflito de competência.

Em agosto, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, depois do caso passar pelo Tribunal Regional Federal da 1a. Região e STJ, confirmou liminar do ministro Kássio Nunes, indicado por Jair Bolsonaro, e autorizou a permanência de Adélio no presídio, onde sua rotina, segundo Ribamar, é comparável à de tortura.

O defensor que entrou com a medida para que Adélio deixasse o presídio federal me disse que o caso deveria ser remetido às cortes internacionais dos direitos humanos.

O defensor público da União é Valber Rondon Ribeiro Filho e sua declaração foi dada antes do relato do Ribamar se tornasse público e sem que tivesse conhecimento dessas informações.

"Adélio é um caso único, escandaloso, que precisa ser denunciado", disse o defensor público.

Ele não recorreu às cortes internacionais por ter sido transferido a Brasília. Segundo ele, a transferência não tem relação com o caso Adélio.

Veja o vídeo com os principais trechos da entrevista do perito José de Ribamar de Araújo e Silva.

 

 

 

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