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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

14
Ago22

André Mendonça um minuto depois da meia-noite

Talis Andrade

Image

 

A votação do caso Francischini no plenário virtual do STF foi aberta à meia-noite. André Mendonça, como quem põe um fio do implante capilar, pediu vista à meia-noite e um

 

por Hugo Souza

Jornalistas cheios de fontes, esguichos e chafarizes cravavam de celulares nervosos em punho que, apesar da tentativa de manobra de Kassio Nunes Marques, jogando o caso Francischini para a segunda turma do STF, o plenário do “Pretório Excelso” iria, sim, dar um veredito para o caso.

 

Delegado Francischini - Veja a entrevista do Delegado Francischini,  pré-candidato ao Senado pelo Paraná, no Bem Paraná.  https://www.bemparana.com.br/noticia/minha-intervencao-militar-chama-se-jair-bolsonaro-diz- francischini | Facebook

Vale tudo para salvar um golpista, inimigo da Democracia, da Liberdade, da Fraternidade, um delegado da morte, da necropolítica de Bolsonaro

 

Pois na virada de segunda para terça, assim que aberto o julgamento no plenário virtual do Supremo, André Mendonça, como era previsível, vem e pede vistas, sem prazo para liberar a matéria da cassação de Fernando Francischini, mantendo suspensas as claras jurisprudências criadas oito meses atrás sobre as consequências de dar azo em redes sociais a mentiras deslavadas sobre o processo eleitoral.

A volta do voto em papel

01
Abr22

'Golpe de 1964 é vergonhoso e deve ser execrado', declaram partidos de oposição a Bolsonaro

Talis Andrade

bolsonaro por bira ditadura militar democracia .jp

 

"A ditadura militar ainda manchou o solo com sangue de brasileiros e brasileiras que lutaram por democracia"

 

A Bancada da Minoria na Câmara divulgou nesta quinta-feira (31) nota em que repudia a Ordem do Dia, divulgada pelo Ministério da Defesa, que minimiza o Golpe e a Ditadura Militar que se instalaram no Brasil no dia 31 de março de 1964. 

"Reforçamos que não há caminho fora do Estado Democrático de Direito. Não se pode reescrever a história, não houve um “movimento que refletiu os anseios e aspirações da população da época”. O que ocorreu foi um golpe orquestrado pela alta cúpula das Forças Armadas com apoio de setores da elite nacional e subsídio dos Estados Unidos da América, que financiava ditaduras em toda a América Latina", diz a nota, assinada por nove partidos de oposição ao governo. 

 

 

Somos democratas e jamais aceitaremos a defesa e exaltação da ditadura militar que matou e torturou tantos brasileiros e brasileiras

 

ditadura militar_eder 1964 comemoração.jpg

 

 

A História é um carro alegre

Cheio de um povo contente

Que atropela indiferente 

Todo aquele que a negue

Milton Nascimento e Chico Buarque – 

Canción Por La Unidad de Latino America

 

 

Repudiamos com veemência a Ordem do Dia publicada nesta quarta (30) pelo ministro da defesa, general Braga Netto, e endossada pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, em alusão aos 58 anos do golpe que deu início à ditadura militar no Brasil.

É inaceitável que ministros de estado eleitos no período pós-ditadura militar e comandantes das Forças Armadas profiram ataques contra o regime democrático no país. Somos democratas e jamais aceitaremos a defesa e exaltação da ditadura militar que matou e torturou tantos brasileiros e brasileiras.

As Forças Armadas servem ao país e não a governos. Devem se postar em defesa da soberania nacional e não se intrometer na vida política/partidária do nosso povo, muito menos tentando fraudar a história.

Mais uma vez, como já é de costume, o governo de Jair Bolsonaro ataca a democracia e nega o triste episódio de nossa história que perdurou de 1964 a 1985. Mais do que afrontar o acesso da população à verdade, a atual presidência da República desrespeita a memória e gera sofrimento às famílias dos mais de 400 mortos e desaparecidos, vítimas de um regime violento que cerceou os direitos humanos e a liberdade civil.

O texto assinado pelo ministro e pelo comando das Forças Armadas reflete mais um momento crítico para o país, que vive uma nova ameaça democrática promovida pelo próprio presidente, sua equipe e apoiadores radicais, com constantes ataques às instituições. Não à toa, a nota que chama o golpe de 1964 de “um marco histórico da evolução política brasileira” foi publicada no mesmo dia em que Bolsonaro voltou a questionar o Poder Judiciário sobre possíveis resultados das eleições e que um deputado federal se nega a cumprir uma determinação judicial, utilizando o espaço da Câmara dos Deputados como refúgio.

Reforçamos que não há caminho fora do Estado Democrático de Direito. Não se pode reescrever a história, não houve um “movimento que refletiu os anseios e aspirações da população da época”. O que ocorreu foi um golpe orquestrado pela alta cúpula das Forças Armadas com apoio de setores da elite nacional e subsídio dos Estados Unidos da América, que financiava ditaduras em toda a América Latina.

O golpe empresarial-militar de 1964 pôs fim ao mandato do presidente João Goulart – que propôs reformas de base que não conseguiram ser implementadas -, além de diversos outros políticos democraticamente eleitos, como o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes e do então deputado Leonel Brizola. Nos anos seguintes, instaurou a censura, exilou patriotas, dissolveu o Congresso e aumentou a desigualdade.

Não obstante, a ditadura militar ainda manchou o solo com sangue de brasileiros e brasileiras que lutaram por democracia, além de instaurar a crueldade da tortura como uma prática corriqueira do Estado contra seus opositores.

O golpe de 1964 é, sem dúvida, um dos episódios mais vergonhosos de nossa história recente e deve ser execrado para que nunca mais ocorra. Por verdade, memória e justiça!

Dep. Alencar Santana Braga, líder da Minoria na Câmara

Dep. Wolney Queiroz, líder da Oposição na Câmara

Dep. Arlindo Chinaglia, líder da Minoria no Congresso

Dep. Reginaldo Lopes, líder do PT na Câmara

Dep. Bira do Pindaré, líder do PSB na Câmara

Dep. André Figueiredo, líder do PDT na Câmara

Dep. Sâmia Bomfim, líder do PSOL na Câmara

Dep. Renildo Calheiros, líder do PCdoB na Câmara

Dep. Joenia Wapichana, líder da Rede na Câmara

 

 

19
Dez21

Vinicius por Maria Lucia Rangel

Talis Andrade

vinicius 150 frases.jpeg

 

 

por Gustavo Krause

- - - 

Lucia Rangel brindou os brasileiros com um generoso presente de Natal: Vinicius por Vinicius - um retrato em 150 frases. Companhia de Letras -São Paulo - 2021.

Um refrigério. Não falta assunto chato, repetitivo e trágico.

Em respeito à pausa gregoriana – Natal e Réveillon – resolvi pegar leve: compartilhar com o leitor o regalo natalino.Livros - Maria Lucia Rangel na Amazon.com.br

Conselho da autora: “Curtam. E aprendam. Pois, além de ser sincero e moleque, Vinicius foi um sábio”. E, digo eu, quem não gosta/adora Vinicius bom sujeito não é.

A nossa quase aposentada Academia Pernambucana Da Boemia tinha Noel, Antonio Maria, Vinicius e Maisa como patronos. Na entronização dos patronos o ritual era o seguinte: 45 minutos de abstinência alcoólica; palestra sobre a biografia do novo “Boêmico”; depois, entornar. Fui sorteado para falar sobre Vinicius. Ponderei: – Pô, não tenho conhecimento literário/musical para saudar um cara genial.

– Você se vire! ordenou um amável ex-trotskista. A salvação foi a fascinante biografia de José Castello, O Poeta da Paixão. Expus roteiro bem-humorado da trilha matrimonial dos nove casamentos e das frases imortalizadas pelo senso de humor/amor do poeta.

Seleção por minha conta e risco.

“Eu sou um labirinto em busca de uma saída”. “Eu acho que sou um desses gatos boêmios e noturnos que ficam passeando pelos telhados das casas”. “O lirismo, para mim, faz parte do ar que respiro. Mas tem que ser real”. “O amor horizontal é melhor e não faz mal […] Beijos de amor constantes. As bocas mais beijadas são mais lubrificadas”. “Há uma grande crise de orgasmo na atualidade, uma grande deficiência orgástica no mundo”. “A mulher é um ser indispensável. Não posso viver sem mulher". “Difícil é separar. Casar é facílimo”. “O material do poeta é a vida com tudo o que ele tem de sórdido e sublime”. "Liberdade é poder cagar de portas abertas”. “Nunca vi boa amizade nascer em leiteria”. “Pixinguinha é o melhor homem do mundo”. “Eu sou o branco mais preto do Brasil”. “Eu sou o Vinicius de todos os vícios”. “O uísque é o melhor amigo do homem. O cachorro é o uísque engarrafado”. “O defeito de São Paulo é que a gente anda, anda, e não chega em Ipanema”. “O carioca é um sujeito que por princípio acorda tarde e chateado”. “Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu (Antonio) Maria, pois, por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia”. “Creio mais na vida do que na arte. Para mim é muito mais importante viver plenamente do que ser artista mesmo um Shakespeare”. "Banho de banheira, morno, é para mim uma volta ao útero materno”. “Fui salvo pela mulher”.

Saúde e Paz!!

 

18
Ago21

O Capanema é dos brasileiros

Talis Andrade

Governo gera revolta ao anunciar venda do Palácio Capanema, no Rio

 

por Cristina Serra

- - -

O amigo Rubem Braga estava na Itália, como correspondente de guerra, e Vinicius de Moraes escreveu-lhe em carta: “… está no tempo de caju e abacaxi, e nas ruas já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que tem havido poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões à solta. Digam-lhe especialmente do azul da tarde carioca, recortado entre o Ministério da Educação e a ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Não creio que haja igual mesmo em Capri.”

O poeta falava da sede do Ministério da Educação, o Palácio Capanema, que foi – e ainda é – um manifesto de modernidade ética e estética num país arcaico. A construção é uma síntese do talento brasileiro e condensa um projeto de futuro, saído das mentes brilhantes dos arquitetos Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira e Ernani Vasconcelos. Tem jardins de Burle Marx, painéis de azulejos e afrescos de Cândido Portinari, esculturas de Bruno Giorgi e Celso Antônio de Menezes.

Carlos Drummond de Andrade, chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, que encomendara o prédio, registrou as qualidades da obra: “Dias de adaptação à luz intensa, natural, que substitui as lâmpadas acesas durante o dia; (…) Das amplas vidraças do 10º andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios. Lá embaixo, no jardim suspenso do Ministério, a estátua de mulher nua de Celso Antônio, reclinada, conserva entre o ventre e as coxas um pouco da água da última chuva, que os passarinhos vêm beber, e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. Utilidade imprevista das obras de arte”. 

Paulo Guedes pretende leiloar o Capanema que, aliás, é tombado desde 1948. Seu plano estúpido e obscurantista é fazer do Brasil um país que não mais se reconheça, banido do seu próprio rosto, sem memória nem medida da nossa singularidade criativa. Que o simples, belo e elegante Capanema seja o símbolo da nossa resistência e da nossa sobrevivência.

Notícia: Restauro do Palácio Capanema valoriza ícone da arquitetura moderna  - IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

09
Out20

Papa Francisco cita Vinicius

Talis Andrade

vinicius.jpg

 

O papa Francisco fez uma referência ao Samba da Bênção durante sua fala deste domingo, em Roma. "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida", repetiu a frase feita por Vinicius de Moraes para o samba de Baden Powell, lançado no álbum do poeta de 1967, durante a leitura de uma forte encíclica batizada 'Todos Irmãos'. Sua fala defendeu o direito às migrações, cobrou uma reforma da Organização das Nações Unidas e do sistema financeiro mundial. 

Vinicius e Baden estariam sorrindo de satisfação, não apenas pela deferência eclesiástica de Francisco com a citação da música para falar sobre a importância de se aprender a viver na diversidade racial e cultural, mas também pelo poder de expansão territorial de um samba de terreiro. Ao ser citada no Vaticano por um papa, a figura mais importante no catolicismo depois do próprio Jesus Cristo, Samba da Bênção sai das giras para entrar na missa 53 anos depois de sua criação.

Francisco se ateve ao verso mais, digamos, ecumênico. Não é preciso nem ter religião para entender o que Vinicius quis dizer com sua frase sobre encontros e desencontros. Mas, cuidado santidade. Se a tropa de choque dos conservadores que caminha a seu lado sonhando com sua deposição for mais à fundo, vai acusá-lo de quebra de decoro religioso ao descobrir que Samba da Bênção tem os dois pés no Candomblé. Vejamos o que diz o poeta Vinicius alguns versos adiante, quando chega o momento de se pedir bênção a torto e a direito: "A bênção, meu bom Cyro Monteiro você, sobrinho de Nonô / A bênção, Noel, sua bênção, Ary / A bênção, todos os grandes sambistas do Brasil / Branco, preto, mulato / Lindo como a pele macia de Oxum."

Oxum, a orixá das cachoeiras, a entidade que reina sobre as águas doces, é considerada a senhora da beleza, da fertilidade, do dinheiro, da sensibilidade e do poder feminino. Mamãe Oxum. Vinicius, que se intitulava "o branco mais preto do Brasil" e Baden, convertido no final da vida a uma igreja evangélica, estavam com todos os santos das religiões de matrizes africanas à flor da pele. Um ano antes de criarem os versos citado pelo papa, haviam lançado o antológico álbum Os Afro-Sambas, calma Vaticano, com Canto de Ossanha, Canto de Xangô, Bocoché, Canto de Iemanjá, Tempo de Amor, Canto do Caboclo Pedra-Preta, Tristeza e Solidão e, atenção, Lamento de Exu, uma figura que muitos sacerdotes juram ainda ser, equivocadamente ou estrategicamente, o próprio diabo.

O papa Francisco levou para os metros quadrados mais reverenciados da Igreja Católica os versos de uma canção de matriz afro-religiosa. Pecado? Jamais, diriam os progressistas. Do lado dos terreiros, ninguém sai dizendo para ninguém cantar música gospel ou hinos católicos. Afinal, como disseram Vinicius de Moraes e Baden Powell em 1967, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida." O mundo de Francisco encontrou o mundo de Vinicius.

Samba da Bênção

 
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
 
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
 
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí?
Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão
 
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
 
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
 
Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida
Cuidado, companheiro
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu e assinado embaixo
Deus, e com firma reconhecida
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
 
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
 
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
 
Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinícius De Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha, tu que choraste na flauta, todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antônio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido, que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra, parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento e ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo, que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos como
Tantos como o meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá, a bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
 
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
 
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
 
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração
08
Set19

Dia 7 de preto na rua, dia de luto pelo Brasil

Talis Andrade

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Fotos: / Mídia NINJA

 

Ato de hoje em São Paulo, dando o recado de que não vamos nos calar diante das atrocidades do governo.

 

Ato em São Paulo, em defesa da educação e da Amazônia. Foto: Nacho Lemus / TeleSUR

 
 

,o que há a celebrar? Democracia ameaçada, Amazônia queimando, indígenas assassinados, direitos sendo retirados.

 

Dia 7 de Setembro todos nas Ruas de preto.

 

Mais aula de história nas ruas! Os caras-pintadas voltaram!

 
21
Jul17

Vinícius de Moraes hoje

Talis Andrade

cd-vinicius-de-moraes-em-portugal.jpg

cd-vinicius-de-moraes-em-portugal-1969-selo-festa.

 

 


por Urariano Mota

 

Para estes dias de novo golpe no Brasil, vale a pena esta evocação e invocação de Vinícius de Moraes.

 

O crítico literário José Castello, numa entrevista, contou certa vez que o poeta maior Vinicius de Moraes apresentava um show em Lisboa em 13 de dezembro de 1968. Esse foi o dia em que os militares do Brasil acabavam de dar um golpe dentro do golpe com o Ato Institucional número 5. E o que lhe acontece? À saída do teatro, militantes da Juventude Salazarista, todos vestidos de terno e gravata, ficaram esperando a saída do poeta para hostilizá-lo. Eles relacionavam Vinicius à esquerda e ao comunismo. Mas o poeta não se deixou intimidar, e contrariando a orientação recebida, que evitasse o enfrentamento, eis que o poeta encarou os manifestantes recitando de improviso todo o seu poema Pátria Minha. Que vale a pena retomar:

 

Pátria minha

 

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

 

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

 

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

 

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

 

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

 

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

 

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

 

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

 

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

 

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
‘Liberta que serás também’
E repito!

 

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

 

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

 

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
‘Pátria minha, saudades de quem te ama...

Vinicius de Moraes’ "

 

Segundo José Castello, então se deu uma cena incrível: os jovens salazaristas tiraram seus casacos e fizeram um tapete para que o poeta passasse.

 

A isso ligo o Vinícius no Portugal salazarista a estes pesados dias no Brasil. Antes como agora, o nos salva é a literatura. Assim, copio a seguir uma referência ao poeta em um trecho do meu próximo romance “A mais longa duração da juventude”. No livro, o personagem Zacarelli, quando está numa praia diante da jovem por quem está apaixonado, deste modo se declara a ela nos anos da ditadura:

 

“- Quem fala bem sobre o amor, fala bem da revolução. É claro, mesmo que não queira, todo poeta é comunista. Mas quando expressa bem o amor, ele é um revolucionário em essência. Vinícius de Moraes tem uma composição que é sublime. Aquela que fala ‘ó minha amada de olhos ateus, teus olhos são cais noturnos cheios de adeus”. Todo grande poeta socialista assinaria’.

 

Creio que o Vinícius em Lisboa concordaria.

 

juventude revolucao.jpg

 

 

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