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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

16
Jul22

Caricaturas políticas

Talis Andrade
Damien Hirst, Monumento aos Vivos e aos Mortos, 2006
 
 
O que é Bolsonaro senão um Dick Vigarista que anda de moto e que tem muitos “seguidores”

 

 

por DANIEL BRAZIL /A Terra É Redonda

 

Houve um tempo em que o teatro ocupava o imaginário das pessoas com fantasias, ídolos e exemplos de bem e de mal. Não só os arquétipos gregos, até hoje lembrados, mas os personagens de Shakespeare, Moliére ou Rostand, no século XVII, também criaram modelos de comportamento que se refletem até nossos dias. Era comum nos séculos seguintes as pessoas serem classificadas, de acordo com seu comportamento, aparência ou algum feito inusitado, como Romeus, Julietas, Tartufos, Dons Juans ou Cyranos de Bergerac (este um personagem real, celebrizado pela peça de Rostand).

A literatura tornou-se o veículo ideal para a disseminação de personagens que acabam tornando-se modelos comparativos de comportamento. Figuras como o sonhador Quixote, a insatisfeita Emma Bovary, o ciumento Bentinho ou o dividido Raskolnikov ainda são lembradas pelos mais cultos ao se depararem com figuras reais que emulam aqueles comportamentos.

O cinema, arte do século XX, introduziu novos parâmetros culturais, absorvendo e adaptando os exemplos teatrais e literários, mas também criando novos personagens paradigmáticos. Muitos homens tentaram imitar Humphrey Bogart, Errol Flynn ou John Wayne, em seus papéis mais famosos, enquanto as mulheres queriam ser Olivia de Havilland, Vivian Leigh ou Rita Hayworth. Ou melhor, as personagens que viveram nas telas.

O cinema falado é o grande culpado de promover esta sutil alteração na construção de modelos. Introduz personagens sem passado. Não têm história, não têm vivência, surgem feitos e morrem – quando morrem – como surgiram, sem alterar suas características. Personagens-síntese, modelos, arquétipos, que têm seu epítome nos heróis de histórias em quadrinhos e desenhos animados.

E o grande público foi se acostumando – ou sendo acostumado – a isso: a não precisar de história, de construção psicológica e histórica, contentando-se com ações e aparências. É uma espécie de regressão intelectual, se compararmos com o público do teatro grego ou elisabetano, com as românticas leitoras de folhetim do século XIX, com os leitores do século XX. A televisão, como mais poderoso meio de comunicação de nosso tempo, exerce papel fundamental nesse status quo. Não é à toa que os roteiristas mais espertos de cinema e quadrinhos perceberam isso, procurando construir um passado psicologicamente mais elaborado para alguns personagens, como Batman, Coringa ou Homem-Aranha.

Já os desenhos animados, teoricamente destinados a um público infantil, dispensam este aprofundamento. A criança quer ver ação e conhecer as qualidades e defeitos presenciais de seus heróis e vilões, dispensando seu passado. É comum, e natural, vermos crianças assumir gestos e comportamentos de personagens de animação. O preocupante é ver cada vez mais jovens e adultos fazerem o mesmo.

Um forte sintoma de que a humanidade se adaptou bem a essa infantilização cultural é o fato de que os protagonistas do cenário político mundial cada vez mais se assemelham a personagens de desenho animado. Pinochet, Ulstra, Boris Johnson, Trump, Bozo, são caricaturas do mal. Seres de biografia obscura, que se firmam no imaginário popular mais pelo aspecto grotesco que por algum conteúdo humano.

Alguns dirão que o Papa, Mandela ou Lula também são caricaturáveis. Bem, todos nós somos, mas nem todos somos caricaturas. A diferença é que o ex-presidente tem uma biografia conhecida, construída em termos sociais e humanísticos, desde que era um líder operário, assim como Bergoglio ou Madiba. Quem conhece de fato a biografia de Trump? Ou de Dória, Musk ou Moro? O que é Bolsonaro senão um Dick Vigarista que anda de moto e cujos golpes acabam dando errado, e que mesmo assim tem muitos “seguidores”?

Mas embora esse retrato raso (e também caricatural) se encaixe bem em ambições eleitorais e outras atividades escusas, é preciso frisar sempre que representam mais que isso. São fantoches, mas manipulados por interesses maquiavélicos e totalitários, que sufocam cada vez mais a cultura, o conhecimento e a história, buscando um novo período de trevas. Para estes, o ideal é um mundo onde a política seja reduzida a um filme de má qualidade, para ser assistido no sofá, comendo pipoca, enquanto devastam o planeta.

Sávio Barbosa - Dick Vigarista e sua corrida maluca no Planalto Central.

07
Ago21

Os “facilitadores” no governo Bolsonaro

Talis Andrade

 

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por Cristina Serra

- - -

A maior concentração de vigaristas por metro quadrado da Esplanada gravitou (gravita?) em volta do ministério da Saúde no momento em que mais precisávamos de gente séria e especializada para salvar as nossas vidas e as de nossos parentes e amigos. 

Os holofotes da CPI da Covid no Senado jogaram luz sobre novos personagens, mostrando como se conectam as engrenagens de um submundo de crimes e trambiques em torno das grandes compras e aquisições do governo Bolsonaro. Constata-se que havia um ministério subterrâneo, operado por “facilitadores”, autodefinição de Airton Soligo, assessor do então ministro Eduardo Pazuello. 

Soligo – que tem o sugestivo apelido de Cascavel – atuou durante dois meses sem nomeação oficial, sem agenda pública, sem assinatura de atos. Uma atuação clandestina e muito conveniente para quem não quer deixar rastro nem prestar contas a ninguém, a não ser ao chefe.

Outro “facilitador” é o reverendo Amilton Gomes de Paula, que abria portas com impressionante facilidade e rapidez para negociar vacinas de vento. O repórter Lúcio de Castro, da agência de jornalismo SportLight, mostrou que Amilton tem conexões com uma complexa rede de entidades fantasmas. 

Uma delas, aberta na Flórida, nos EUA, registrou como diretores Bolsonaro, seu vice, Hamilton Mourão, o ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva e um certo tenente coronel capelão Roberto Cohen. Tem todo jeito de ser picaretagem. A presidência deve explicações, mas até agora não se manifestou.

O enredo de terror tem ainda mais um militar, o coronel Marcelo Blanco, que deixou o ministério, criou uma empresa de representação na área médica e também facilitou um atalho para o notório cabo Dominguetti. Tais personagens ajudam a explicar como chegamos a ter quatro mil brasileiros mortos por dia de Covid. Hoje, ainda choramos mil mortes diárias. É como se quatro aviões caíssem todos os dias. Sem nenhum sobrevivente. 

vacina-x-bozo.jpg

 

13
Jun21

Bolsonaro e o gabinete da morte

Talis Andrade

Vídeo reforça a tese da CPI da Covid sobre a existência de gabinete  paralelo no Planalto para tratar de pandemia | Jornal Nacional | G1Decidiam e mandavam Pazuello fazer', diz Omar sobre gabinete paraleloMédica que atua em CG participou de reunião do "gabinete paralelo" com  Bolsonaro | Paraíba JáGOVERNO GENOCIDA COLOCA EM RISCO A VIDA DA CLASSE TRABALHADORA - Sintsprev  MG

por Cristina Serra

- - -

Desde o começo da pandemia, Bolsonaro fez o que pôde para que os brasileiros acreditassem na cilada da cloroquina e continuassem saindo às ruas, como gado a caminho do matadouro. A aposta foi na imunidade de rebanho. Nada de parar a economia ou planejar a compra de vacinas. Novas provas desse crime surgiram nos últimos dias em vídeos de conteúdo estarrecedor.

Para que o intento criminoso fosse bem sucedido, seria preciso arregimentar um bando de vigaristas que desse credibilidade à fraude do “tratamento precoce”. É exatamente isso que o vídeo publicado pelo site Metrópoles comprova, ao mostrar uma reunião do tal “gabinete paralelo”, que, mais apropriadamente, deveria se chamar “gabinete da morte”.

Na reunião, o virologista Paolo Zanotto fez ressalvas às vacinas, recomendando que Bolsonaro tivesse “cuidado enorme” com elas. Foi dele também a sugestão para que os membros do grupo não fossem expostos à “popularidade”. Deveriam agir à “sombra”. Nessa ocasião, ofertas de vacinas da Pfizer jaziam sem resposta em computadores da Esplanada. 

Em outro vídeo que circula em redes sociais, Arthur Weintraub, ex-assessor de Bolsonaro, se vangloria de ter recebido do presidente a missão de formar o gabinete paralelo. Foi assim: “Magrelo, você que é porra louca (…) vai lá e estuda isso daí [ a pandemia]”. Ele conta, ainda, como informava o chefe: “Mando [artigos] no zap”. Outro médico que prestou serviços ao covil do Planalto foi Luciano Azevedo que, segundo Weintraub, tem uma “networking” da hidroxicloroquina, conforme vídeo divulgado nesta Folha.

Arthur Weintraub é um tipo tão reles quanto o irmão mais famoso, Abraham, ex-ministro da Educação. Delirante, disse em rede social que não gosta de usar máscara porque é um “broche do partido comunista”. O “gabinete da morte” reuniu o que há de pior na medicina para conspirar contra o povo brasileiro. Sua atuação configura formação de quadrilha e permite caracterizar com clareza o comando desse genocídio.

 

 

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