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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

28
Jan24

ORAÇÃO PARA FECHAR O CORPO

Talis Andrade

Alonzo_Chappel.jpg

 

                       Seja teu nome

                       Ghandi ou Guevara

                       o corpo permaneça

                       guardado fechado

                       a todos os inimigos

                       encarnados descarnados

 

                       O corpo permaneça

                       invisível à mira

                       na tocaia dos fuzis

                       à bala quente

                       explodindo o cérebro

                       de Kennedy

                       à pontaria no peito

                       que matou Luther King

                       o anjo negro da paz

 

                       Indivisível permaneça

                       à faca fria

                       que cortou a mão

                       de Victor Jara

                       à lâmina pesada

                       que rolou por terra

                       a cabeça

                       de Thomas Morus

 

                       O corpo permaneça

                       livre do destino

                       do poeta Lorca

                       que depois de morto

                       esconderam o corpo

                       preservado permaneça

                       do fogo das grelhas

                       que assaram Atahualpa

                       do fogo ateado

                       ao corpo de Joana

                       reduzido a cinzas e carvão

                       do fogo que queimou

                       o coração de Bruno

                       nos porões da santa

                       Santa Inquisição

 

                       Preservado permaneça

                       da mutilação

                       que dilacerou em quatro

                       o índio Tupac Amaru

                       da corda no pescoço

                       e do facão que separou

                       em pedaços

                       o cadáver de Tiradentes

                       a cabeça pregada num mastro

                       braços e pernas

                       espalhados pelos caminhos

                       dos inconfidentes

          

                       Fecha o corpo

                       com rezas               

                       coisa feita

                       fecha o corpo

                       a sete chaves

                       a sete cadeados

                       e joga as chaves

                       na secreta

                       encantada cova

                       de Salomão

          

                       Fecha o corpo

                       em copas

                       toda cautela

                       é pouca

 

- - -

O Enforcado da Rainha, A Sinistra Mão, Talis Andrade

Inca, Alonzo Chappel

12
Set23

Documentário: ”Vozes do silêncio. Nem perdão nem esquecimento”. Assista, legenda em português

Talis Andrade

 

Jair de Souza traduziu e legendou o documentário ”Vozes do silêncio: Nem perdão, nem silêncio”, da RT. A legendas em português podem ser acionadas no canto inferior direito, em configurações.

 

Vozes do silêncio: Nem perdão, nem esquecimento

por Jair de Souza

VioMundo

- - -

Estamos chegando ao dia 11 de setembro.

Para os mais jovens, queria retroceder 50 anos na história, pois exatamente neste mesmo dia no ano de 1973, a América Latina e o mundo sofreram um dos mais destruidores golpes de parte das forças mais retrógradas, mais anti-humanas, mais pró-imperialistas que a humanidade já tinha tido o horror de conhecer: o golpe militar comandado por Augusto Pinochet que derrubou o governo socialista de Salvador Allende no Chile.

Foi o marco de uma nova etapa da monstruosidade do grande capital no intuito de extirpar pela raiz toda e qualquer ameaça proveniente das maiorias populares que pudesse ameaçar os privilégios das classes dominantes.

Foi a primeira iniciativa orquestrada pelas instituições capitalistas a nível planetário de implantar o neoliberalismo de maneira organizada e permanente.

Depois de muitos anos de sofrimento e luta, o povo chileno ainda está engajado numa luta ferrenha na busca de sanar as mazelas que os anos de ditadura cravaram em sua sociedade.

Como lição muito importante, precisamos entender que os efeitos nocivos deixados pela passagem de um governo deste tipo não se limitam aos anos em que essas forças permanecem visivelmente no comando do aparelho de Estado.

Até hoje, as maiorias populares do Chile estão padecendo as agruras surgidas com a tomada de poder pelos militares em 1973.

As forças democráticas chilenas estão empenhadas na luta para que os crimes cometidos por essa ditadura não venham a ser esquecidos e, muito menos, os criminosos perdoados.

Esquecer e perdoar fatos e criminosos que tantas desgraças causaram significa abrir a porta para a repetição dos mesmos.

Para nós brasileiros o documentário acima, Vozes do silêncio: Nem perdão, nem esquecimento,  tem um valor adicional, pois ele nos remete à nossa própria realidade e aos nossos embates com as forças do bolsonarismo. Conforme os próprios próceres bolsonaristas deixam patente, o modelo pinochetista lhes serviu de inspiração em nosso país.

Em outras palavras, o pinochetismo é a fonte de inspiração para o bolsonarismo.

Assim, entender bem o que está por trás do pinochetismo nos leva a compreender melhor nossa própria realidade.

No documentário Vozes do silêncio: Nem perdão, nem esquecimento vamos observar que as classes dominantes recorrem a forças de extrema direita do tipo do pinochetismo e do bolsonarismo naquelas fases da história em que eles sentem que as estruturas de dominação tradicionais já não estão dando conta de manter os movimentos populares subjugados.

O pinochetismo não vacilou em matar para se fazer impor, assim como o nazismo também não.

E, devemos ter clareza, o bolsonarismo é fruto da mesma árvore. Em outras palavras, tanto o pinochetismo como o bolsonarismo se inspiraram sempre em seus antecessores da Alemanha hitlerista.

Neste muro, está escrito: ‘Mesmo que os passos toquem este local por mil anos, não vão apagar o sangue dos que aqui caíram’. Entre eles, o do compositor, músico e ativista político chileno Victor Jara, que aí foi fuzilado, em 16 de setembro de 1973. Fotos: Reprodução de imagem do documentário ”Vozes do silêncio” e Wikipedia

 

Muitos argumentam que não é correto equiparar bolsonarismo e pinochetismo com o nazismo, o qual teve seus campos de concentração e suas câmaras de gás. O que podemos responder quanto a isto é que se o bolsonarismo não chegou a tanto foi porque não encontrou condições para ali chegar.

Não há limites de tipo humanitário para as tropas de choque do grande capital.

Aqueles que diante da morte de mais de 700.000 pessoas não se sentem perturbados já que não são coveiros não teriam nenhuma reticência em aplicar métodos similares de extermínio aos de seus inspiradores germânicos. Não tenhamos dúvidas disso.

Espero que aproveitemos a comemoração (comemorar não é celebrar) deste novo aniversário da tragédia chilena para estudar e tirar lições desse acontecimento.

Foi com este espírito que me dediquei a traduzir e legendar este vídeo-documentário, que considero uma das peças mais bem-feitas para retratar em pouco tempo o significado daquele trágico acontecimento.

12
Set23

‘Nunca mais’: milhares de mulheres passam a noite em vigília nos 50 anos da ditadura chilena

Talis Andrade

Com velas nas mãos, elas simbolizaram solidariedade e protestaram contra a impunidade dos crimes cometidos durante a ditadura

Vigília junto ao Palácio La Moneda, no Chile. Foto: Karin Pozo/EPA

 

Milhares de mulheres vestidas de preto se reuniram na noite de ontem, 10, em torno do histórico Palácio La Moneda, no Chile, para lembrar o 50º aniversário do bombardeio do palácio durante o golpe de Estado liderado por Augusto Pinochet, que depôs o socialista Salvador Allende. Com velas nas mãos, as mulheres simbolizaram solidariedade e protestaram contra a impunidade dos crimes cometidos durante a ditadura.

A vigília destaca a persistência das chilenas em buscar justiça e manter viva a memória dos horrores do passado. O regime de Pinochet deixou um legado de milhares de torturados e mortos em 17 anos de governo, uma ferida profunda que ainda afeta a sociedade chilena.

A manifestação também teve como objetivo iluminar o caminho daqueles que foram afetados pela ditadura e exigir justiça. Muitas manifestantes expressaram sua frustração com a falta de responsabilização, uma vez que Augusto Pinochet deixou o governo em 1990 e morreu em 2006 sem enfrentar condenações por seus crimes.

Sob o lema “Nunca Mais”, a vigília ocorreu em silêncio, interrompido ocasionalmente por palavras de ordem emocionadas. As mulheres presentes eram mães, esposas e filhas de presos, desaparecidos e mortos durante a ditadura, carregando o peso da dor causada por esses eventos traumáticos.

 

Condenações

O Chile avança na responsabilização dos envovidos em desaparecimentos e assassinatos durante os anos da ditadura Pinochet. Em uma decisão unânime, em agosto deste ano, o Tribunal do Chile condenou sete militares da reserva por seu envolvimento no sequestro e assassinato do renomado cantor e compositor Víctor Jara, assim como do ex-diretor de prisões Littré Quiroga.

Jara, uma das vozes mais proeminentes da música popular da América Latina, foi torturado e morto com 44 tiros após ser detido na Universidade Técnica do Estado.

Por Planeta Ella, com informações da Lusa

 

 

 

30
Ago23

Ex-militares chilenos são condenados pelo assassinato de Victor Jara

Talis Andrade
Victor Jara é um dos principais músicos e compositores da América Latina e se tornou uma figura lendária, símbolo de luta e poesia
 

Supremo Tribunal do Chile decidiu condenar sete ex-oficiais do Exército a penas de 8 a 25 anos de prisão pelo assassinato de Jara

12
Mai18

Oração para fechar o corpo

Talis Andrade

benze.jpg

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dona_da_dores_benzedeira.jpg

 

Seja teu nome

Ghandi ou Guevara

o corpo permaneça

guardado fechado

a todos os inimigos

encarnados descarnados

 

O corpo permaneça

invisível à mira

na tocaia dos fuzis

à bala quente

explodindo o cérebro

de Kennedy

à pontaria no peito

que matou Luther King

o anjo negro da paz

 

Indivisível permaneça

à faca fria

que cortou a mão

de Victor Jara

à lâmina pesada

que rolou por terra

a cabeça

de Thomas Morus

 

O corpo permaneça

livre do destino

do poeta Lorca

que depois de morto

esconderam o corpo

preservado permaneça

do fogo das grelhas

que assaram Atahualpa

do fogo ateado

ao corpo de Joana

reduzido a cinzas e carvão

do fogo que queimou

o coração de Bruno

nos porões da santa

Santa Inquisição

 

Preservado permaneça

da mutilação

que dilacerou em quatro

o índio Tupac Amaru

da corda no pescoço

e do facão que separou

em pedaços

o cadáver de Tiradentes

a cabeça pregada num mastro

braços e pernas

espalhados pelos caminhos

dos inconfidentes

 

Fecha o corpo

com rezas

coisa feita

fecha o corpo

a sete chaves

a sete cadeados

e joga as chaves

na secreta

encantada cova

de Salomão

 

Fecha o corpo

em copas

toda cautela

é pouca

 

 

 

===

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps. 93/96

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