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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Mar21

Sem vacinas, sem liderança, sem fim à vista: como o Brasil se tornou uma ameaça

Talis Andrade

Atendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de CovidAtendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de Covid-19. Foto Mister Shadow/Estadão 

Na sexta-feira (19), 16 dos 26 estados brasileiros estavam com ocupação de leitos de UTI de 90%, o que significa que esses sistemas de saúde entraram em colapso

 

por Matt Rivers /CNN /Estados Unidos
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A temperatura era de 35 graus Celsius na terça-feira (16), mas a umidade fazia com que parecesse ainda mais quente. Em meio ao calor sufocante do final do verão carioca, Silvia Silva Santos acalmou sua mãe de 77 anos enquanto as duas caminhavam em direção ao portão da clínica.

“Já viemos aqui duas vezes, mas ela não conseguiu se vacinar”, contou Silvia. “Ela fica na fila, daí não tem mais vacinas e a gente tem que ir embora”.

No portão, Silvia perguntou ao guarda se poderia vacinar a mãe. Consciente da presença das câmeras da CNN, ele rapidamente a conduziu para dentro.

Cerca de cinco minutos depois, mãe e filha voltaram com as más notícias estampadas em seus rostos.

“Acho isso muito errado”, disse a filha, claramente irritada e frustrada. “Agora teremos que descobrir novamente quando vai ter vacina, e na verdade não dá para saber quando".

A mesma frustração se espalhou pela multidão de idosos quando as doses foram negadas a todos. O estado do Rio de Janeiro suspendeu a campanha de vacinação porque seu estoque de doses havia acabado.

“É um desastre, um desastre total”, disse uma mulher à CNN após ter sua vacina negada. “Quem é o culpado por tudo isso? Acho que são os nossos líderes, nossos políticos não prestam”.

A tempestade perfeita

A crise da Covid-19 no Brasil está pior do que nunca. Quase todos os estados brasileiros têm uma taxa ocupação de leitos de UTI de 80% ou mais, de acordo com uma análise da CNN de dados estaduais. Na sexta-feira (19), 16 dos 26 estados estavam com ocupação de 90% ou acima, o que significa que esses sistemas de saúde entraram em colapso ou estão em risco iminente de fazê-lo.

As médias de sete dias de novos casos e novas mortes estão mais altas do que nunca.
Nos últimos dez dias, cerca de um quarto de todas as mortes por coronavírus no mundo foram registradas no Brasil, de acordo com análises da CNN.

“São sinais claros de que estamos em uma fase de aceleração muito crítica da epidemia e é algo sem precedentes”, disse o epidemiologista brasileiro Jesem Orellana.

Se as vacinas são a melhor saída para essa pandemia global, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para sua superação.

Até sexta-feira, menos de 10 milhões de pessoas no país de cerca de 220 milhões de habitantes haviam recebido pelo menos uma dose, de acordo com dados federais de saúde. Apenas 1,57% da população foi totalmente vacinada.

Esse é o resultado de um programa de vacinação lento que tem sido atormentado por atrasos. Durante o anúncio de seu plano de distribuição no início de fevereiro, o governo prometeu que cerca de 46 milhões de doses de imunizantes estariam disponíveis em março. O governo foi forçado a diminuir esse número repetidas vezes, e agora estima apenas 26 milhões no final do mês.

A produção nacional – que os governos dizem que será de centenas de milhões de doses da vacina da Oxford-AstraZeneca – acaba de começar. As primeiras 500 mil doses foram entregues e celebradas por autoridades do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro esta semana, apesar do atraso de meses.

“[Não há] vacinas em uma quantidade que realmente cause um impacto no momento”, afirma a microbiologista brasileira Natalia Pasternak. Segundo ela, vai demorar até o segundo semestre para que doses suficientes estejam disponíveis para ter um impacto significativo na epidemia.

Se as vacinas continuarem escassas no futuro próximo, as únicas maneiras de controlar o crescimento exponencial da epidemia no Brasil são os métodos que o mundo já cansou de ouvir: distanciamento social, nada de grandes reuniões, movimentos restritos e boa higiene.

Mas, em muitos lugares do Brasil, isso simplesmente não está acontecendo. No movimentado Rio de Janeiro, é fácil encontrar multidões sem máscara andando pelas ruas, conversando de perto.

Embora as famosas praias da cidade estejam fechadas neste fim de semana, restaurantes e bares ainda podem ficar abertos até as 21h, e muitos provavelmente ficam lotados.

Muitos estados impuseram restrições bem mais severas, incluindo toques de recolher noturnos, mas os líderes locais estão lutando contra a liderança federal, ou a falta dela, que está determinada a manter tudo aberto.

O presidente Jair Bolsonaro, um cético da Covid-19 que zombou da eficácia das vacinas e não as tomou publicamente, anunciou na quinta-feira (18) que entraria com uma ação judicial contra certos estados no Supremo Tribunal Federal, alegando que a única pessoa que pode decretar toques de recolher é ele – algo que  prometeu nunca fazer.

Apesar da morte de milhares de pessoas diariamente por causa do vírus, Bolsonaro afirma que a verdadeira ameaça vem dos danos econômicos que as restrições provocadas pelo vírus podem impor.

Milhões de seus apoiadores estão seguindo seu exemplo, desafiando abertamente os regulamentos locais de distanciamento social e uso de máscaras.

Tudo isso por si só já seria preocupante, mas é exacerbado por uma realidade profundamente preocupante: a disseminação das variantes do Covid-19.

O perigo da P.1

variante P.1 foi descoberta pela primeira vez no Japão. As autoridades de saúde japonesas detectaram a mutação viral em viajantes que vinham do Amazonas, um estado isolado no norte do Brasil repleto de floresta tropical.

A CNN tratou da região no final de janeiro, quando uma segunda onda brutal de Covid-19 dizimou a cidade de Manaus.

Quase dois meses depois, mais pesquisas apontam para a variante P.1 como um fator crucial não apenas no surto de Manaus, mas na crise nacional que o Brasil enfrenta hoje.

Um estudo do início de março feito pela principal fundação de pesquisa médica do Brasil, a Fiocruz, descobriu que, dos oito estados brasileiros pesquisados, as variantes da Covid-19, incluindo a P.1, eram prevalentes em pelo menos 50% dos novos casos.

A variante é amplamente aceita como sendo mais facilmente transmissível, até 2,2 vezes, de acordo com um estudo recente. Isso significa que ela é mais transmissível do que a amplamente discutida variante B.1.1.7, identificada pela primeira vez no Reino Unido, que é até 1,7 vezes mais transmissível, de acordo com um estudo de dezembro.

A mesma pesquisa também descobriu que as pessoas têm 25% a 65% mais probabilidade de escapar da imunidade protetora existente de infecções anteriores que não tenham sido causadas pela P.1.

Por fim, ainda existem preocupações de que as diferentes vacinas possam não ser tão eficazes contra a variante P.1.

Embora um estudo recente do Reino Unido tenha descoberto que as “vacinas existentes podem proteger contra a variante do coronavírus brasileiro”, a CNN conversou com vários epidemiologistas que continuam preocupados.

“O mundo não acordou para a terrível realidade potencial que a variante P.1 pode representar”, afirmou o doutor Eric Feigl-Ding, epidemiologista. ‘As pessoas não perceberam o quanto a P.1 é pior”.

Ameaça global

Em meio à disseminação não mitigada do vírus no Brasil, encontram-se duas ameaças adicionais distintas.

A primeira é a exportação mais fácil da variante P.1 existente para o exterior. Ela já está presente em pelo menos duas dezenas de países e as viagens internacionais de e para o Brasil ainda estão abertas para a maioria dos países.

A segunda é que, se a variante P.1 foi criada aqui, outras também podem surgir.

“O fato de a pandemia estar fora de controle no Brasil causou a variante”, disse Natalia Pasternak, a microbiologista brasileira. “E vai causar mais variantes. Vai causar mais mutações porque é isso que acontece quando você permite que o vírus se replique livremente”.

De acordo com as leis da evolução viral, novas variantes são criadas para tentar permitir que o vírus se espalhe mais facilmente. Ao longo da trajetória, iterações mais perigosas podem ser criadas.

“Mais variantes significam que há uma probabilidade maior de que uma delas possa de fato escapar de todas as vacinas, por exemplo", disse Pasternak. “É raro, mas pode acontecer”.

Segundo a microbiologista, isso torna o Brasil um perigo global, não apenas para os países vizinhos, mas para outros ao redor do mundo.

“Tudo isso junto deve aumentar o alarme em todos os países do mundo de que devemos ajudar o Brasil a conter P.1, para que todos não sofram o mesmo destino do colapso do sistema hospitalar brasileiro”, detalhou o doutor Feigl-Ding.

Com a falta de vacinas e um governo relutante em tomar as medidas necessárias para evitar que isso aconteça, não está claro como as coisas vão melhorar tão cedo no Brasil.

O jornalista Eduardo Duwe contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

14
Mar21

Até quando o Exército Brasileiro se prestará ao papel de biombo?

Talis Andrade

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A ‘cortininha’

Cinco ex-militares – Jair Bolsonaro, Braga Neto, Luiz Eduardo Ramos, Fernando Pimentel e Eduardo Pazuello – reuniram-se ontem em um hotel militar em Brasília.

Poderia ser um inofensivo joguinho de baralho de senhores aposentados, entremeado por recordações da caserna, tremoços e goles de cerveja, mas era uma reunião de cúpula do governo brasileiro, pois aqueles senhores são o presidente e os ministros da Casa Civil(!?), de Governo, da Defesa e da Saúde.

Do que se tratou ali, porém, não se sabe, pois na versão oficial foi “um encontro informal”.

De perceptível, apenas o fato de que, a partir do momento em que se percebeu o olhar da câmara de televisão, ordenou-se que militares fizessem uma “cortininha” para ocultá-los.

Informações supostamente vazadas do encontro – se a turma do “serviço secreto” quiser saber quem foi, procure o general Ramos, o mais falastrão de todos – dizem que trataram da vacinação.

Mas não de obter vacinas. O que estaria em pauta era a “comunicação da vacinação”, que seria a responsável pelo desgaste do governo na opinião pública.

Lamento informar que não é, muito antes pelo contrário.

A comunicação, com a ajuda de uma mídia incompetente e primária, tem sido excelente para que o povo brasileiro não foque sua atenção na incapacidade do governo de gerir a crise sanitária.

Se as imagens de hospitais lotados são dramáticas, horas e horas de reportagens cândidas sobre os idosos que se vacinam – e, natural, sobre sua alegria, suas esperanças e manifestações de que “tudo vai dar certo” – edulcoram o fato de que, até agora, dois meses depois de iniciada a vacinação, nem chegamos à faixa dos 75 anos.

O problema da vacinação é a falta de vacinas, ponto.

E não vai ser resolvido com anúncios ribombantes de compra de vacinas que não têm data, não tem registro para uso, não tem plano para serem aplicadas.Image

Se o russo Gamaleia tem 37 milhões de doses para entregar aos governadores do Nordeste (e estes entregarem ao SUS) , porque não as têm para vender e entregar ao governo brasileiro. Como é que o governador do Rio de Janeiro anuncia a compra de 5 milhões de doses e não se sabe de quem e para quando?

Quando Joe Biden anunciou que haveria 100 milhões de norte-americanos vacinados ao fim de seus 100 primeiros dias de governo, muitos duvidaram. Já são 105 milhões de doses aplicadas, não porque tenham um sistema de saúde público capilarizado, mas porque têm centenas de milhões de doses de vacina.

A “mesa de biriba” de ontem só nos revela a metáfora que há em enfileirar soldadinhos para que com eles se encubra os jogadores que movimentam ali número de corpos sem vida como fichas de suas apostas insanas.

Até quando o Exército Brasileiro se prestará ao papel daqueles pobres soldados que ali estavam, perfilados, a servir de biombo a incompetentes que se acharam e se acham ungidos para exercer o poder porque instalaram um psicopata na Presidência do país?

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Nota deste correspondente: Velho quem tem 60 anos. Idoso, 65 anos. Ancião, depois dos 70. 

O Brasil ainda não terminou de vacinar os anciãos. 

12
Jan21

Idosos, cuidadores e a lei

Talis Andrade

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Um dos graves problemas para idosos de famílias pobres e da classe média consiste na falta de instituições públicas municipais destinadas a lhes proporcionar abrigo, alimentação, assistência à saúde, lazer e acompanhamento adequado

 

por Almir Pazzianotto Pinto

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Como é sabido a Constituição promete mais do que pode assegurar. No artigo 230 garante à pessoa com idade superior a 65 anos "sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhe o direito à vida". A única promessa concretizada foi a do transporte urbano gratuito, prevista no parágrafo 2º.

As normas constitucionais estão regulamentadas no Estatuto do Idoso e dispositivos do Código Civil relativos ao contrato de prestação de serviços (arts. 593/609) e às relações de parentesco (arts. 1.591/1.694). Quem se detiver na leitura dos artigos 2º, 3º e 4º do Estatuto dos Idosos chegará à conclusão de que o Poder Legislativo é integrado por nefelibatas movidos por incontrolável populismo.

Um dos graves problemas para idosos de famílias pobres e da classe média consiste na falta de instituições públicas municipais destinadas a lhes proporcionar abrigo, alimentação, assistência à saúde, lazer e acompanhamento adequado. A omissão sugere duas soluções, ambas ruins: onerosa internação em casa particular, ou dispendiosa contratação de cuidadores.

Razoável número de homens e mulheres chega a 70, 80, 90, 100 anos de idade. A velhice, contudo, cobra elevado preço em doenças típicas da ancianidade. Muitos são viúvos ou viúvas cujos filhos, sobrecarregados por encargos de família, não reúnem condições de arcar com as necessidades mínimas dos pais. O problema assume proporções dramáticas entre membros da classe média e os pobres. Como assegurar à mãe, ao pai ou a ambos, idosos e desprovidos de recursos, a preservação da dignidade, do bem-estar, da saúde e os cuidados necessários garantidos na Constituição e Código Civil? Poucos dispõem de recursos pessoais. São aposentados pelo INSS ou pelo serviço público, que não acumularam fortuna. Os filhos, pequenos empresários, profissionais liberais, comerciários, bancários, operários, proprietários rurais, impotentes para lhes oferecer a assistência exigida.

A empregada doméstica é amparada por legislação especial. Trabalha oito horas diárias. Cuida da casa e não dos donos da casa. Vítima de depressão, osteoporose, acidente vascular cerebral, mal de Parkinson, Alzheimer, falência do sistema renal, artrose generalizada, demência senil, cardiopatia grave, o idoso exige atenção constante. Desde o momento em que acorda necessita de alguém que o levante, conduza ao sanitário para a higiene diária, lhe dê alimentação três vezes ao dia, ministre medicamentos, troque de roupa, coloque na poltrona ou cadeira de rodas, leve para tomar sol, à noite o ponha de volta à cama e o agasalhe para dormir.

Se lhes aplicarmos a Consolidação das Leis do Trabalho ou a legislação da doméstica, serão necessários quatro ou cinco cuidadores em regime de revezamento. O leitor já percebeu que só a elite econômica teria recursos suficientes. As relações entre cuidador e idoso não pertencem ao amplo círculo da legislação do trabalho, mas aos dispositivos concernentes ao Direito das Obrigações e da Família do Código Civil. Ser idoso e inválido não é profissão da qual alguém tire proveito. Resulta da longevidade e natural vontade de sobreviver. É errado enquadrar como empresário ou profissional liberal quem não exerce atividade econômica ou sem fins lucrativos.

A realidade a tudo se impõe. Em nome da proteção do cuidador, não se pode relegar ao abandono homens e mulheres aos quais o Estado nega a assistência programada na Constituição e na Lei. Estamos diante de gravíssimo problema social potencializado pela pandemia. Os idosos, integrantes da camada mais vulnerável da população, exigem medidas de defesa específicas.

Surgem as primeiras reclamações trabalhistas ajuizadas por cuidadores. Reivindicam registro em carteira, reconhecimento de vínculo empregatício, pagamento de horas extraordinárias, descanso semanal remunerado, férias mais um terço, décimo terceiro salário, Fundo de Garantia. Para muitos idosos isto significa o risco de perda do apartamento ou da casa em que residem, o único bem acumulado durante a vida.

O Poder Judiciário do Trabalho deve compreender que as relações entre cuidador e idosos e idosos e parentes em linha reta não se resolvem com aplicação da CLT ou da legislação da doméstica. O mundo jurídico se defronta com desafio ético e moral: como assegurar aos pais e avós idosos dignidade e assistência se o Poder Judiciário lhes impuser obrigações insuportáveis? A solução passa pela incidência da Constituição e do Código Civil. Não se pode deixá-los morrer à míngua de assistência, por falta de recursos.

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08
Jan21

Há 30 milhões de idosos. Grande parte deles em situação de pobreza ou miséria

Talis Andrade

ILC BRASIL – Português

Carta Aberta ao Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa - CNDI

A pandemia Covid-19 traz para o centro da cena aqueles cidadãos que têm estado por tanto tempo invisíveis para a sociedade: as pessoas idosas. Elas representam o grupo mais vulnerável às complicações da doença, inclusive o óbito. Envelhecer em um país com alto índice de desigualdade social intimamente ligada às questões de raça, etnia e gênero, e com grandes dificuldades para assumir o envelhecimento como uma prioridade política, representa o maior desafio ao qual o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI) é instado a responder.

O CNDI tem como missão fundamental supervisionar, acompanhar, fiscalizar, avaliar e propor diretrizes para a Política Nacional do Idoso e para as políticas de interesse da pessoa idosa. Até junho de 2019 sua composição incluía 28 membros, paritariamente distribuídos entre conselheiros de diferentes pastas ministeriais e da sociedade civil representativa e organizada.

A partir da dissolução arbitrária do CNDI pelo decreto n°9.893 de 27 de junho de 2019, o colegiado passou a ter um presidente exclusivamente escolhido pelo Ministério a que está subordinado, sem maior articulação com outros órgãos do Governo, que dirá com organizações da sociedade civil. Assim, o CNDI restou completamente descaracterizado de sua relevância e de seu papel de diálogo junto aos demais Conselhos.

Diante deste vazio político deixado pelo CNDI, mais do que nunca, cabe à sociedade civil se organizar e agir em defesa dos direitos das pessoas idosas e das pessoas que cuidam delas. À luz das evidências científicas e das recomendações da OMS, a orientação pela Presidência da República do Brasil de restringir as medidas de isolamento apenas às pessoas idosas e mais frágeis deixará estes grupos ainda mais expostos à epidemia do coronavírus, que está longe de atingir seu ápice.

Não basta o Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa apelar com um "ajude-nos", essencialmente direcionado apenas aos idosos institucionalizados. Muito embora estes estejam entre os mais vulneráveis, eles representam menos de 1% da população idosa brasileira. Há 30 milhões de idosos no Brasil que vivem na comunidade. Grande parte deles já estava cronicamente desassistida, em situação de pobreza ou miséria, totalmente dependentes de serviços públicos de saúde e sociais que sofreram cortes substanciais em seus orçamentos nos últimos anos.

Muitos dos idosos brasileiros vivem sós, grupo este composto predominantemente por mulheres, que já os coloca em uma situação precária face ao isolamento social, essencial para deter a propagação rápida do coronavírus. Muitos outros são a única fonte regular de renda de toda a família com quem vivem - alguns, dependentes de cuidados, outros provedores deles para outros membros da família. Preservar suas vidas não é apenas um ato humanitário; é também uma forma de preservar uma cultura do cuidado que impacta suas famílias e as comunidades onde vivem.

Assim sendo, o ILC-BR, em seu papel de advocacy, vem alertar as autoridades e a sociedade em geral quanto ao risco indefensável e desumano de assistirmos a um gerontocídio em nosso país.

Nossa primeira orientação é: FIQUEM EM CASA. TODOS.

A segunda oreintação dirige-se ao CNDI e à Secretaria Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa Idosa: proponham ações essenciais, articuladas e urgentes que incluam órgãos do Governo e da sociedade, com a a definição de estratégias e intervenções multisetoriais para responder a áreas prioritárias, especialmente:

- Na Educação:

- Divulgar informação qualificada e de fácil compreensão que explique a necessidade das medidas tomadas para conter a pandemia e que reforce a importância dos mais velhos na sociedade;

- Na Seguridade Social:

- Reforçar a Atenção Primária à Saúde visando cuidados continuados, começando pela detecção precoce e pelo reforço às medidas preventivas;

- Criar estratégias de monitoramento remoto sobretudo dos que vivem só;

- Garantir insumos de sobrevivência (água, alimentos, renda mínima e medicamentos)

- Oferecer suporte a ILPIs – com a garantia de transferência de recursos para as entidades conveniadas ao Sistema Único de Assistência Social e de natureza filantrópica, bem como de diretrizes claras e exequíveis para os cuidados;

- Dar especial atenção aos idosos mais vulnerabilizados pelas condições adversas como envelheceram – em particular aqueles que vivem em situação de rua;

- Oferecer Cuidados Paliativos – diretrizes claras que garantam qualidade técnica e abordagem humanitária;

- Prover suporte instrumental e psicológico a idosos que cuidam de outros familiares idosos.

Mais que nunca é necessário abraçar uma cultura do cuidado. Isso implica também em cuidar dos cuidadores, a maioria mulheres, muitas delas também carentes, com doenças crônicas e necessitando de suporte emocional. Se o cuidado, formal ou informal ruir, o impacto da pandemia será imensurável tanto do ponto de vista econômico como social.

 

08
Jan21

Covid-19: pessoas idosas precisam de atenção especial

Talis Andrade

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Em tempos de pandemia do Covid-19, cumpre-nos alertar para um público que permanece espantosamente invisível: as pessoas idosas. Ainda que os mais velhos sejam sabidamente os mais vulneráveis, muito pouco é dito em relação a como abordá-los, como apoiá-los e como cuidar deles de modo integral e equânime, como preveem os princípios do SUS. As famílias e pessoas cuidadoras encontram-se perdidas em meio a uma avalanche de informações inespecíficas e contraditórias.

+ Acesse o documento em PDF

Outra vez, subjazem questões transversais – de nível socioeconômico, de raça/cor e de gênero que não foram contempladas. Outras permanecem sem ser respondidas: Em que ponto da rede de saúde as pessoas idosas com síndrome gripal serão identificadas? Quando suas especificidades serão contempladas? Qual é a porta de entrada que está apta a recebê-las? Como alcançar os subgrupos mais vulneráveis, entre eles os que vivem sozinhos, aqueles com declínio da capacidade cognitiva, os mais frágeis e dependentes? Onde vivem? Onde buscarão ajuda em caso de agravamento de uma condição respiratória? Onde encontrarão cuidados integrais, inclusive, os paliativos, caso indicado?

Acima de tudo, a voz do idoso não está sendo ouvida. Deveria caber ao Conselho Nacional de Direitos das Pessoas Idosas (CNDI) o papel de coordenação, monitoramento e elaboração de propostas. No entanto, há no CNDI a necessidade de mais voz nesse debate e de articulação com as organizações da sociedade civil, com os demais conselhos de direitos e de políticas e com
instituições acadêmicas com credibilidade para apoiá-los.

A Abrasco conclama as autoridades sanitárias – Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde – e as organizações da sociedade civil voltadas para a defesa dos direitos humanos, do direito à saúde e dos direitos das pessoas idosas a desenvolverem, com a urgência e o cuidado necessários, ações específicas de proteção às pessoas idosas, ao tempo em que se coloca à disposição para colaborar, em especial, por meio de seu Grupo Temático Envelhecimento e Saúde Coletiva.

Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO
Grupo Temático Envelhecimento e Saúde Coletiva

+ Confira essas e outras notas no Especial Abrasco Coronavírus
+ Confira a página do Grupo Temático Envelhecimento e Saúde Coletiva

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04
Dez20

Enfermeiras, para o devido julgamento

Talis Andrade

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Atenção associações, sindicatos, universidades, faculdades e cursos de graduação, mestrado e doutorado de enfermeiras, o Danilo Gentili não sabe:

enfermagem é uma ciência cujo objetivo é a implantação do tratamento de doenças e o cuidado ao ser humano, individualmente, na família ou em comunidade de modo integral e holístico. No Brasil, a profissão é exercida por auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem e por enfermeiros, profissionais com formações e funções distintas dentro de uma mesma área.

Que o sujeito continue a leitura para aprender aqui 

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24
Nov20

PLANO VIDA E RENDA SÃO PAULO

Talis Andrade

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Combate de verdade à pandemia

A gestão Bruno Covas fracassou no combate à pandemia e seus efeitos na vida das pessoas.

A Prefeitura se limitou a atuar à sombra do governo João Doria sem tomar medidas que pudessem reduzir o impacto da doença nos bairros mais pobres.

São Paulo falhou na hora que as pessoas mais precisavam. Fracasso que custou milhares de vidas. Fracasso que deixou o futuro ainda mais incerto.

Descolada da realidade do povo, a gestão municipal se resumiu à hashtag FiqueEmCasa. Uma tentativa de impor o distanciamento social, porém sem ver que a maior parte da população nunca teve a escolha de fazer a quarentena.

Enquanto a Prefeitura tentava tapar o sol com a peneira, muitos foram perdendo emprego e renda. A maioria precisava sair para trabalhar, enfrentando ônibus lotados e toda sorte de risco de contaminação. O mais grave: levando o novo coronavírus para casa e expondo familiares do grupo de risco.

O novo normal, na periferia, era conviver com duas ameaças: a doença e a fome. Realidade ignorada pela Prefeitura e sua estratégia ineficaz e irresponsável de apostar no cômodo #FiqueEmCasa.

O resultado é desastroso. A cidade mais rica da América Latina também está entre aquelas com os maiores indicadores de contaminação e mortes.

Fracasso de gestão que não ficou restrito à saúde pública e se espalhou para a falta de perspectiva e futuro, queda na renda familiar e a precarização ainda mais aguda das condições de trabalho.Image

A cidade precisa reagir e virar o jogo

São Paulo tem a missão de combater, de verdade, a pandemia. Preparar-se para a segunda onda – e eventual terceira - da doença.

Para isso, colocaremos em prática, a partir de primeiro de janeiro, o Plano Vida e Renda São Paulo. Porque só hashtag não salva vidas, não dá um teto para morar e nem coloca comida na mesa de ninguém.

O Plano, desenhado para ser executado nos primeiros 180 dias de gestão, reúne uma série de ações e investimentos - na saúde pública, na geração de emprego e renda e na moradia e cidadania.

Pela primeira vez em muitos anos, a prioridade é cuidar de toda cidade, proporcionando a mesma dignidade para todas e todos.

O Renda e Vida São Paulo está dividido em três eixos, descritos a seguir.

1. Saúde Pública 

• Contratação emergencial e abertura de concurso para médicos especialistas e de família.

• Intensificar os atendimentos não presenciais por Centrais de Teleatendimento, com identificação de caso, orientações emergenciais e assistência remota para garantir consultas virtuais ou domiciliares;

• Abertura de novos leitos hospitalares e de UTI nas unidades hospitalares já existentes. • Caso a taxa de ocupação de leitos volte a subir, instituir a fila única do SUS para administração das vagas de UTI, unindo redes pública e privada da cidade.

• Ampliar o programa de testes do tipo PCR e sorologias para o novo coronavírus.

• Com a criação da vacina, implementar programa de vacinação gerido pelo município, dando prioridade aos cidadãos que se enquadram nos grupos de risco, trabalhadores de serviços essenciais e população de baixa renda.

• Se necessário, abrir novos hospitais de campanha na periferia, descentralizando o atendimento à população.

• Distribuir cestas de higiene nos bairros menos assistidos pela Prefeitura.

• Reverter o desmonte da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) do município para maior controle e ação frente à pandemia.

2. Trabalho e Renda

• Criar o Programa de Renda Solidária, reestruturando e ampliando o programa existente para garantir que nenhuma família vulnerável em São Paulo fique sem uma renda mínima;

• Implementar Frentes de Trabalho com contratação de mão-de-obra direta ou por meio de cooperativas, visando:

• Serviços de limpeza urbana;

• Serviços de saneamento básico;

• Cuidado a idosos;

• Reflorestamento e reparação de danos ambientais, como conservação de jardins e de áreas verdes públicas de pequena extensão;

• Serviços de zeladoria a partir das subprefeituras;

• Obras de moradia e infraestrutura; Produção agrícola orgânica para merenda escolar e outras políticas públicas de segurança alimentar;

• Confecção de uniformes escolares e outros uniformes de serviço público, como equipamentos de proteção individual (EPIs para hospitais) e Guarda Civil Metropolitana.

• Abertura de canais de financiamento e crédito para pequenos comerciantes, indústrias e cooperativas da economia solidária.

• Apoiar a manutenção de postos de trabalho através da recuperação de empresas em crise por seus trabalhadores organizados em autogestão.

• Criar Centros Públicos de Economia Solidária em cada subprefeitura para apoio direto a cooperativas e trabalhadores informais.

• Ampliar e fortalecer cooperativas de catadoras e catadores de material reciclável.

3. Moradia e cidadania

* Retomada dos Mutirões da Erundina para moradia popular.

• Implementar o programa de locação social para abrigar famílias em situação de rua em unidades hoteleiras ou moradias nas regiões onde vivem.

• Construção de Casas Solidárias integradas à política de geração de trabalho e renda e de assistência social, ampliando o atendimento à adolescentes e jovens;

• Adequar os centros de acolhida para pessoas em situação de rua conforme tipificação nacional do SUAS, atendendo às diversas demandas dos setores que vivem nas ruas;

• Criar o cartão de cidadania para identificação de migrantes residentes na cidade, reduzindo vulnerabilidades advindas da ausência de documentação nacional e facilitando o acesso a serviços públicos.

• Incluir os migrantes nos planos municipais emergenciais de enfrentamento às consequências socioeconômicas da pandemia de Covid-19.

• Ampliar os equipamentos e equipes dos Consultórios na Rua.

• Ampliar o acesso à internet banda larga para alcançar o percentual de 40% de domicílios, garantindo que nenhuma subprefeitura possua percentual inferior a 17%.

(Transcrevi a segunda parte do "Programa de Governo Boulos Erundina 2020. Hora de Virar o Jogo em São Paulo". Continua )

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03
Jul20

Denúncias de abuso contra idosos aumentaram 500% durante pandemia

Talis Andrade

 

 

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III - “Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice"

Julia Dolce entrevista Mirian Goldenberg

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Pública - O posicionamento negacionista do governo Bolsonaro em relação à Covid-19 vem alarmando o mundo todo. Em diversas ocasiões o presidente deu a entender que não havia o que ser feito por parte do governo para frear a pandemia e que “quem tem que morrer vai morrer”. Como você acha que isso afeta o comportamento da sociedade em relação aos idosos?

Eu tenho acompanhado tudo que está acontecendo no mundo, ouvindo rádio e vendo televisão do mundo todo. O que tenho visto aqui no Brasil é diferente de alguns países onde a pandemia foi encarada com mais responsabilidade, com mais cuidado e mais preocupação com a vida de todas as idades. Esses países, de certa forma, conseguiram que toda a população encarasse o desafio com mais senso de coletividade.

Isso funcionou? Não sabemos ainda, porque vamos ver outras ondas do vírus, e também as sequelas físicas, econômicas, psicológicas e mentais. Mas, neste momento, o fato de você ter posturas das autoridades que mostram que a intenção e a luta é para salvar vidas deu a cada um esse sentimento de coletividade e responsabilidade.

Aqui no Brasil nós assistimos horrorizados inúmeras autoridades e até não-autoridades negando não só a pandemia, mas a necessidade de salvar, se possível, todas as vidas, sem classificar hierarquicamente quem vale e quem não vale. Isso provoca mais impotência, sofrimento e insegurança, porque percebemos que nossa vida ou de quem a gente ama vale menos.

Por outro lado, há uma reação dizendo que todas as vidas merecem ser vividas e que temos que fazer tudo para que não só sobrevivam, mas que não sofram tanto.

Então acho que já mudou a visão social sobre a velhice. A forte reação contra discursos velhofóbicos mostra que já mudou, mas infelizmente não há pesquisa sobre isso. E acho que essa minoria gerou reação tão forte que não pode mais ser pega falando esse tipo de coisas.

 

Acredita que esses posicionamentos podem afetar políticas públicas para idosos para além da pandemia?

Com certeza isso vai refletir em políticas públicas. Já existiam milhares de iniciativas lindas, além do Estatuto do Idoso, em todos os níveis. Mas agora se multiplicaram tanto, desde crianças ligando para idosos que estão sozinhos para contar histórias e ouvir histórias. Não sou otimista, não consigo enxergar nada de bom nesse momento trágico. Mas também não posso deixar de enxergar quem está fazendo o que pode para salvar vidas.

 

Alguns relacionam a noção de que apenas idosos e pessoas doentes vão morrer, e que, “essas pessoas já morreriam de qualquer forma” com uma ideologia eugênica. Você acredita que o comportamento do governo beira à eugenia?

Acho que o governo não está mais falando assim, a sociedade reagiu a esse discurso, então o governo não está podendo adotar esse discurso como uma política de extermínio. Agora, que existem em vários setores da sociedade e do governo discursos de extermínio, existem.

Mas ele está sendo tão combatido que não existe mais a possibilidade de expressar isso publicamente sem uma reação violenta.

Principalmente no início da pandemia, toda a justificativa era econômica. Vamos isolar só os mais velhos, só o grupo de risco, para a economia funcionar. Mas a realidade da pandemia mostrou que isso não funcionava.

Primeiro, os jovens desempregados foram para a casa dos mais velhos. Os velhos não estão sozinhos, tem muitos que estão com os filhos, com os netos, e não porque estão sendo cuidados, mas porque estão cuidando dos filhos e dos netos.

Os jovens também dependem dos velhos. Como fariam, colocar todos dentro de asilos para todos se contaminarem e morrerem, como aconteceu em muitos lugares do mundo? [Quase metade das mortes causadas pelo coronavírus na Europa foi registrada em asilos, segundo a OMS].

 

Você pesquisa o envelhecimento há mais de 15 anos. Nos últimos três passou a fazer parte da faixa etária considerada “idosa” no Brasil.Você acredita que é preciso criar uma divisão entre sexagenários e pessoas mais velhas no Brasil, pensando em direitos e políticas públicas?

Isso já existe no mundo inteiro. Já está sendo discutida [a existência de] “jovens idosos” e idosos mais velhos. Antes as pessoas não viviam até os 100 anos, e muitas não chegavam aos 90. É a faixa etária que mais cresce. E em poucos anos vai ter mais velhos do que jovens no Brasil, que a gente pensa que é um país de jovens.

As pessoas percebem que não dá para falar de velhos como uma coisa só e que não dá para pensar neles com a imagem do século passado. Esses velhos são os mesmos jovens que fizeram a revolução comportamental no século passado e mudaram tudo, então não dá para falar de “velhice” no singular. Depende de tantos critérios financeiros, educacionais, familiares, sociais.

E por isso que lutar contra uma velhofobia é lutar pela nossa própria velhice e dos nossos filhos e netos. Sempre escrevo que no século passado tivemos a revolução das mulheres e neste século teremos a revolução dos velhos, porque foram eles que fizeram as revoluções passadas.

Não acho que a questão é ter uma divisão mais clara formalmente, o mais importante é enxergar e fazer políticas públicas, privadas e individuais percebendo que a velhice não é uma coisa só, investindo para que a velhice seja, para a maior parte dos brasileiros, uma fase da vida com felicidade, liberdade, projetos, para todos.

 

A depressão é uma das doenças mentais que mais atinge os idosos, mas também uma das mais negligenciadas pela população em geral. Há um senso comum de que pessoas idosas são inerentemente tristes?

É uma mentira [esse senso comum], todos os meus nonagenários que estão em ativa, saudáveis, e hoje tenho mais de 100 entre o grupo que pesquiso. Todos têm uma alegria a viver que é contagiante. O problema é pensar quais as condições de vida e sociais que provocam a depressão. As condições sociais, a violência, o abuso, o desrespeito, a crueldade com eles que provocam a depressão. Dentro das casas principalmente.

Esse momento agravou tudo, piorou tudo o que já existia. Escancarou aquilo que era invisível para a sociedade. Muitas violências estão se agravando, contra mulheres, contra crianças, muitos sofrendo mais do que já sofriam.

Por isso eu digo sempre em todos os meus artigos que dentro dos limites que nós temos hoje, o que podemos fazer de concreto dentro e fora de casa? Temos que cuidar da gente para ter uma atitude positiva em relação a uma velhofobia que sempre existiu.

O que mais falta e os mais jovens podem fazer é escutar, escutar, escutar, compreender, compreender, compreender. Eu falo quase 80% do meu tempo no telefone, porque alguns são muito conectados por redes sociais, mas muitos não. Você ligar para uma pessoa, mostrar que ela é importante para você, que você ama essa pessoa e que ela se cuidar bem é ela cuidar de você.

Então acho que o que cada brasileiro pode fazer é ter uma atitude que não é generosa, é obrigatória, para fazer o que pode para cuidar pelo menos de quem ama. E isso é cuidar de si 

 

 

30
Jun20

“Estigmatizar os velhos como os únicos atingidos pelo coronavírus é uma mentira que os dados no Brasil comprovam”

Talis Andrade

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II - “Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice"

Julia Dolce entrevista Mirian Goldenberg

 

Você acredita que houve uma mudança no comportamento social em relação aos idosos nessa pandemia?

O que eu chamo de “velhofobia” são esses preconceitos, abusos psicológicos, estigma que os velhos sofrem desde sempre. Eu acabei de escrever um artigo dizendo que de acordo com o Disque 100, se multiplicou por cinco o abuso de idosos dentro de casa de março a maio [de 2020]. Isso, quem denuncia. Porque a maior parte não consegue denunciar por medo, por não querer falar que são os filhos que estão cometendo a violência, roubando o dinheiro da aposentadoria, destruindo os bens dos velhos.

Essa situação me apavora, porque isso já acontecia antes, e agora se agravou muito. Será que não está acontecendo um verdadeiro “velhocídio” dentro das casas? Isso do ponto de vista da violência física. Mas existe toda uma série de violências acontecendo que estamos testemunhando, horrorizadas. Discursos e comportamentos.

Acabou de ter uma autoridade dentro do Ministério da Economia que vazou um vídeo de uma mulher dizendo que vai ser bom para a Previdência ter esses velhos morrendo. E outros empresários falando “só vão morrer velhinhos doentes, vamos fazer a economia continuar”. Isso do lado mais gritante.

Mas também um monte de brincadeirinhas, memes, “velhinho teimoso”, velhinho saindo de casa, uma grande mentira, porque a maior parte dos velhos está se protegendo e cuidando não só deles mas também dos filhos e netos.

Obviamente existe, sim, uma reação bem evidente da maior parte da sociedade contra a velhofobia. Porque todos nós somos velhos, ou seremos amanhã, ou temos um velho que amamos. Então existe um horror da maior parte da sociedade em relação a esses discurso. Mas o que me preocupa é a quantidade de pessoas que realmente acredita que os velhos são descartáveis, inúteis, improdutivos e que podem morrer.

Não é uma doença de velhos, é uma doença que atinge todas as idades. Estigmatizar os velhos como os únicos atingidos por essa doença é uma mentira que os dados no Brasil comprovam diariamente. Estão morrendo velhos e doentes, mas também jovens, saudáveis e crianças.

E quem não está morrendo está sendo afetado pelo resto da vida, com sequelas, sem contar as sequelas psicológicas, da alma. Quantas pessoas não estão tendo problemas, infarto, depressão e até suicídio? Ou perdendo a vontade de viver em função dessa situação que é mundial mas que adquire contornos muito cruéis e desumanos aqui no Brasil.

 

Em uma de suas colunas, você escreveu que homens e mulheres mais velhos “já experimentam uma espécie de morte simbólica” sendo considerados “inúteis, desnecessários e invisíveis” pela sociedade. Como esse preconceito afeta os idosos e como podemos mudar essa visão?

Essa crueldade está influenciando mentalmente e emocionalmente todos os brasileiros que têm o mínimo de humanidade, sensibilidade e amor no coração. Alguém está totalmente alienado desse sofrimento e dessa crueldade?

O meu primeiro pânico e desespero era pensar no que ia acontecer com essas pessoas que eu amo tanto, todos nonagenários, saudáveis, ativos, produtivos, alegres, com projetos, e que todos os dias saíam, iam ao supermercado, ao banco, à farmácia encontrar os amigos.

O horizonte de vida delas, que são quase centenárias, não é o mesmo que o meu ou o seu. Para elas, cada dia é saboreado. Elas sabem que o horizonte delas não é tão longo.

E eu entrei em pânico pensando como eles iam viver dentro de casas, como uma prisão, ouvindo notícias, lendo e assistindo noticiários com essa carga de tragédia. E sem esperança, cada dia estão perdendo mais a esperança. Me ligam desesperados dizendo que só veem caixão, morte, me perguntando se isso vai terminar. Por que, para eles, será que vai terminar?

Acabei de ter um grande amigo meu de 97 anos que ficou 15 dias com a doença e já não tem mais o vírus, mas as sequelas físicas e emocionais são irreparáveis. Ele não tem mais vontade de viver assim como está vivendo.

Acho que é um trauma social, nossa geração vai ficar traumatizada com esse sofrimento. As pessoas falam de um “novo normal”, mas não acredito nessa possibilidade. Somos uma geração traumatizada por essa tragédia.

O que eu tenho tentado fazer é minimizar essas sequelas e esse sofrimento. Então todos os dias passo 10 horas do meu dia fazendo atividades com essas pessoas de mais de 90 anos. Eu escuto que elas estão sofrendo e busco com elas alternativas para elas passarem por tudo isso da melhor forma possível.

Não tem como não sofrer, não ter pânico, não ter depressão. Eu acho que a única saída que temos é tentar fazer alguma coisa construtiva para que as pessoas que a gente ama sobrevivam física e mentalmente. [Continua]

 

 

27
Jun20

“Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice”

Talis Andrade

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por Julia Doce/ Pública

 

O melhor amigo da antropóloga Mirian Goldenberg, 63 anos, é José Guedes, um nonagenário de 97 anos, alegre, animado e fã dos versos de Luís de Camões. Eles se falam todos os dias ao telefone. No dia 15 de março, Guedes ligou para a amiga desesperado com as notícias da pandemia na Itália. Eles então fizeram um pacto, quando Goldenberg, também assustada com o prognóstico mundial, respondeu que embora o amigo não pudesse mudar a situação da pandemia, se ele se dedicasse a conversar com ela todos os dias, estaria cuidando dela. E vice-versa.

“Eu descobri que a única saída para ter o mínimo de equilíbrio e saúde mental seria dedicar meu tempo, energia e criatividade para cuidar das pessoas que eu mais amo”. Desde então, Goldenberg conta que passa pelo menos 10 horas por dia entrando em contato por telefone com seus amigos idosos, desenvolvendo atividades e jogos com eles, e assim, ajudando-os a passar pelo período de isolamento.

Aquele pacto foi uma epifania para a antropóloga, mas o contato com nonagenários já vem de anos. Autora de livros como “A bela velhice”, “Corpo, envelhecimento e felicidade”, e “Liberdade, felicidade e F#da-se!”, há cinco ela pesquisa essa faixa etária, e há pelo menos vinte atua na área da gerontologia, o estudo do envelhecimento.

Em suas palestras e coluna no jornal Folha de S. Paulo, a chamada “velhofobia”, Goldenberg sempre denunciou o preconceito e abusos contra idosos. Porém, ela conta que nunca viu a situação tomar a proporção atual. No Disque 100, canal que recebe denúncias de violações de direitos humanos, o abuso contra idosos quintuplicou entre março e maio deste ano, desde que a Covid-19 chegou ao Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar algumas vezes que não “existe motivo para pânico” porque, segundo acreditava, iriam morrer apenas idosos e pessoas com deficiência. “Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer. Se tiver um com deficiência, pegou no contrapé, eu lamento. Minha mãe tá com 92 anos de idade, se pegar nela qualquer coisa, coitada. Mas não podemos deixar esse clima todo que está aí”, declarou, em entrevista ao Programa do Ratinho realizada no dia 20 de março.

Goldenberg ressalta que a sociedade vem reagindo em diversos países contra discursos que ela considera “genocidas”. “O que era invisível para a sociedade se escancarou”, diz.

Grande parte dos idosos está cuidando de seus filhos e netos nessa pandemia, e não o contrário, diz ela. São pessoas que tiveram que voltar para a casa dos mais velhos, principalmente por uma questão de renda. Para ela, ainda falta escuta e compreensão por parte dos mais jovens. “Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice”, resume [Continua]

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