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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

16
Fev24

Não vote em candidato homicida, em serial killer

Talis Andrade

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Bancada da Bala vai às urnas com todas as armas

 

por Márcio Santilli

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A Frente Parlamentar da Segurança Pública, mais conhecida como “Bancada da Bala”, cresceu na atual legislatura, chegando a uma centena de integrantes, surfando na onda armamentista promovida pelo governo passado. A maioria é de deputados egressos de carreiras policiais e militares, filiados a partidos de direita e extrema-direita, como o PL.

As principais linhas de atuação da bancada são: facilitar a posse, o porte e o comércio de armas, defender vantagens corporativas para policiais e militares, fragilizar a defesa dos direitos humanos e criminalizar usuários de drogas. Ela não aprofunda investigações e debates sobre o crime organizado, por exemplo. Parte dos seus eleitores é arregimentada por milícias e grupos radicais.

Em dezembro, às vésperas do recesso legislativo, a bancada conseguiu derrubar, na última rodada de votações da reforma tributária, um dispositivo que faria incidir o imposto seletivo sobre armas e munições. Para conseguir votos suficientes e beneficiar a indústria bélica, o grupo adotou demandas de outras frentes parlamentares, como o “marco temporal”, para limitar a demarcação de terras indígenas, e a isenção de imposto sobre rendas recebidas por pastores evangélicos.

A frente parlamentar finge que ignora que a facilitação da venda de armas fortalece os arsenais do crime organizado. Instituições policiais e militares existem para impor as leis e prover a segurança, sem que os cidadãos sejam levados a fazer justiça com as próprias mãos. É contraditório defender vantagens para policiais e militares expondo-os a criminosos melhor armados.

Candidatos e investigados

Apesar da retórica bélica contra a criminalidade comum, alguns dos membros da bancada estão atolados nela. O deputado federal Delegado da Cunha (PP-SP), por exemplo, está sendo investigado, em Santos (SP), por violência doméstica contra a própria esposa. Ele também responde a inquérito pelo uso político ilegal, por meio das suas redes sociais, de imagens produzidas pela Polícia Civil em operações oficiais.

Nem só de crimes comuns vive a bancada. O deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), que é delegado da Polícia Federal e foi diretor da Abin (Agência Brasileira de Informações) no governo passado, foi alvo de uma operação de busca e apreensão realizada pela PF, sob a suspeita de ter sido um dos principais responsáveis pela atuação da “Abin paralela”, constituída no governo passado para investigar, nos moldes dos regimes ditatoriais, adversários e desafetos do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos seus familiares.

Jair Bolsonaro cumprimenta Alexandre Ramagem na sua posse na direção da Abin, em 2019 | Valter Campanato / Agência Brasil

 

Com a condenação do general Braga Neto à inelegibilidade, pelo TSE, Ramagem passou a ser a aposta do PL e de Bolsonaro para a disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro nas eleições de outubro. Ele tem o apoio do governador Cláudio Castro para impedir a reeleição de Eduardo Paes (PSD), que tem o apoio do presidente Lula.

É improvável que Ramagem seja impedido de se candidatar em decorrência das investigações, mas ele teme a divulgação dos nomes das pessoas ilegalmente monitoradas pelo esquema, e a inclusão, entre eles, de alguns dos seus principais apoiadores. Estamos falando de crime político.

Ramagem formará dupla com o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), que integra a bancada sem ser ex-policial ou ex-militar, é o atual líder da oposição na Câmara e será o candidato do PL à prefeitura de Niterói, também no Rio. Jordy também foi alvo de uma operação da PF, de busca e apreensão, sob a suspeita de ter sido sido um dos líderes ocultos da tentativa de golpe de Estado ocorrida em 8/1/23. Crime político.

Integrantes da frente parlamentar também pretendem disputar prefeituras em outras regiões. O deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM) quer ser candidato a prefeito de Manaus (AM) e disputa a indicação pelo PL e a preferência de Bolsonaro com o Coronel Menezes, que só não integra a bancada porque não conseguiu se eleger senador nas últimas eleições. E a bancada tem outros pré-candidatos Brasil afora.

Insegurança

O coordenador do grupo, deputado Capitão Augusto (PL-SP), foi eleito vice-presidente nacional do PL e pretende ser candidato à presidência da Câmara na sucessão de Arthur Lira (PP-AL). Em campanha, ele tem distribuído anéis de prata para os colegas que apoiam a criação de uma nova frente parlamentar, em defesa dos colecionadores de armas. Augusto não quer saber dos inquéritos que envolvem integrantes da bancada e não vai tomar providências para evitar abalos nas respectivas reputações. Ele alega que, mesmo havendo inquéritos diferentes, trata-se, apenas, de perseguição política.

O deputado Carlos Jordy nega participação em tentativa de golpe | Bruno Spada / Câmara dos Deputados

 

Os integrantes da bancada têm o privilégio de andarem armados pelo Congresso, sem serem obrigados a se submeter aos detectores de metais, como ocorre com as demais pessoas. Flávio Dino, ex-ministro da Justiça e atual ministro do STF, recusou-se a atender uma convocação da Comissão de Segurança Pública da Câmara, alegando risco de vida. É uma galera da pesada!

Não cabe fazer, aqui, uma análise exaustiva das implicações criminais dos que integram a bancada. Assim como não cabe generalizar: deve haver parlamentares sérios, honestos, comprometidos com a segurança pública. Mas a sua postura coletiva diante dos envolvimentos criminais dos seus pares evidencia o seu desvio de função. A bancada tem muito de bala, e nada de Segurança Pública. O seu nome poderia ser: Frente Parlamentar da Bala e da Insegurança Pública.

Aflige aos cidadãos ver parcelas crescentes do território ‒ da Amazônia às metrópoles brasileiras ‒ sob o domínio de narcotraficantes, piratas e milicianos, enquanto a bancada, que deveria estar mobilizada para enfrentá-los, acovarda-se diante do que rola abaixo do seu nariz.

De Márcio Santilli leia mais 

Bancada dos falsos profetas

Os casos de desvios de conduta são cada vez mais frequentes, mas a bancada e suas igrejas não os condenam publicamente e, com frequência, os mantém como pastores

 

Ruralistas e a mesma vontade de sempre

Suas prioridades se sobrepõem às dos demais setores da sociedade, seja restringindo direitos indígenas, afetando a saúde de vizinhos e de consumidores, ou ignorando as mudanças climáticas

05
Fev24

Toffoli cobra dados sobre a parceria corrupta da Transparência Internacional com a Lava Jato

Talis Andrade

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Ministro do STF diz ser preciso investigar se recursos públicos foram parar na ONG de propaganda de Moro e Dallagnol e quadrilha de procuradores e delegados. Da Petrobras os bandoleiros sacaram mais de 2 bilhões e 500 milhões que foram depositados num fundo sujo da Liga da Justiça da mau falada República de Curitiba

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli mandou investigar se a Organização Não-Governamental (ONG) Transparência Internacional recebeu e administrou parte dos valores obtidos com multas pagas em acordos firmados pela Operação Lava Jato. 

Para justificar a decisão, o ministro afirmou ser "duvidosa" a criação e fundação de uma entidade privada para gerir recursos públicos que vieram de pagamento de multa às autoridades brasileiras.

São assinantes do acordo do fundo os procuradores

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A ong foi criada inclusive para receber da ''vítima'' Petrobras mais de 2,5 bilhões. Dallagnol, inclusive, procurou um juiz que se sentisse ''confortável'' em patrocinar a safadeza. E bem que achou

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Quem chama a Petrobras de ''vítima'' é o procurador ladrão Deltan Dallagnol, hoje empresário e latifundiário. E a juíza Gabriela Hardt se prestou a ser avalista do ''negócio'' sujo da autodenominada Lava Jato com a Petrobras.

A dinheirama foi depositada sim na conta de Dallagnol. Ele malandra e safada e cinicamente confessou

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Publica Daniela Lima que a decisão de Toffoli tem como base uma notícia-crime apresentada pelo deputado federal Rui Falcão (PT-SP), representado pelos advogados Marco Aurélio Carvalho e Fernando Hideo.

O acordo previa que a empreiteira pagasse R$ 8,512 bilhões (US$ 2,543 bilhões, no câmbio da época) ao governo federal, estados, municípios e a autoridades dos Estados Unidos e da Suíça, em até 23 anos. Esses recursos deviam ser aplicados em investimentos sociais.

Agora, Toffoli cobra que sejam apresentados dados sobre como a Transparência Internacional atuou neste período e se geriu parte dos recursos. O ministro determinou que o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) participem da investigação.

Sobre a dinheirama da Petrobras dizem que Alexandre de Moraes destinou um bilhão para educação, outro bilhão para combater a .Covid. Isso aconteceu mesmoQue autoridades receberam a dadivosa grana sem dono?! De qualquer maneira ficam faltando mais de 500 milhões dados de mão beijada e escarrada pela Petrobras sem mando e dono.

 

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26
Nov23

FBI envia documentos a PF que afunda Bolsonaro no caso das joias

Talis Andrade
 
 
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Em um novo desdobramento para o ex-presidente Jair Bolsonaro, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, revelou à CNN que documentos do FBI corroboram a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do governo de extrema-direita. A declaração surgiu durante as investigações sobre um esquema ilegal de venda de joias da Presidência […]

 

Mídia O Cafezinho

Em um novo desdobramento para o ex-presidente Jair Bolsonaro, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, revelou à CNN que documentos do FBI corroboram a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do governo de extrema-direita. A declaração surgiu durante as investigações sobre um esquema ilegal de venda de joias da Presidência da República.

Rodrigues destacou que parte das informações do FBI já chegou ao Brasil, enquanto outras estão a caminho, enfatizando a lentidão do processo devido às autoridades centrais dos dois países. A colaboração do FBI busca impulsionar as investigações, iniciadas após a PF acionar a agência norte-americana em agosto deste ano.

“Recebemos as primeiras documentações e informações que corroboram os depoimentos e a colaboração premiada, fortalecendo nossas provas”, afirmou Rodrigues.

O escândalo envolve a venda irregular de joias destinadas ao acervo da União, omitidas dos registros oficiais, incorporadas ao estoque pessoal de Bolsonaro e negociadas para enriquecimento ilícito.

Sabendo que Bolsonaro enviou antes da reunião as mensagens "Moro, Valeixo sai esta semana. Está decidido” e que Moro só respondeu “Presidente, sobre esse assunto precisamos conversar pessoalmente. Estou ah disposição para tanto", veja recados na reunião. (https://t.co/aL04UZfp9E) pic.twitter.com/amrnHU0Lrp

— Felipe Moura Brasil (@FMouraBrasil) May 24, 2020

Documentos do FBI, segundo a GloboNews, indicam que o advogado Frederick Wassef recomprara um relógio Rolex dado a Bolsonaro, contradizendo sua versão. Wassef, que alega não conhecer o general Lourena Cid, pai de Mauro Cid, minimiza as informações do FBI.

Mauro Cid, em delação, admitiu entregar dinheiro da venda das joias a Bolsonaro, considerando a ação imoral, não ilegal. A PF identificou movimentações financeiras ilegais, e os participantes serão responsabilizados após as investigações.

O escândalo das joias conecta-se a denúncias de Cid sobre fraudes nos cartões de vacina e o “gabinete do ódio” no Palácio do Planalto.

Na entrevista, o diretor-geral da PF acusou Bolsonaro de interferir politicamente, ressaltando a instabilidade causada por mudanças frequentes no comando da PF, comprometendo suas atividades.

“Refiro-me especialmente à instabilidade e à interferência política em nossa instituição”, enfatizou Rodrigues, ecoando preocupações anteriores de Sergio Moro ao deixar o cargo de ministro da Justiça. Durante o mandato de Bolsonaro, houve quatro mudanças no comando da PF, destacando-se a saída de Maurício Valeixo em meio a disputas com Moro. Em 2020, Bolsonaro afirmou que faria as alterações desejadas na PF.

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21
Nov23

A lógica da empresa pública e da privada

Talis Andrade
 
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A regra é simples: serviços essenciais, em setores sem competição, tem que ser entregues a empresas públicas

09
Nov23

A jogada suja de Netanyahu e Bolsonaro para afrontar Lula e a Justiça

Talis Andrade
 
 
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por Moisés Mendes

A reunião de Bolsonaro com o embaixador de Israel, na Câmara dos Deputados, não teria acontecido se o anfitrião já estivesse preso ou pelo menos se sentisse sem cara e sem forças para aparições públicas.

Mas Bolsonaro anda por aí com desenvoltura e apareceu de terno e gravata para o encontro, dentro do Congresso, com suporte de gente da bancada de extrema direita. Foi assim que deu exposição cerimoniosa ao evento.

Bolsonaro e o embaixador afrontaram Lula, o governo, o Itamaraty, toda a diplomacia, o Ministério Público, o Judiciário, o Congresso, as instituições e o Brasil. Tudo com roteiro e liturgia e numa sala do Parlamento.

Uma afronta com um detalhe só aparentemente insignificante. Assessores e fotógrafos fizeram registros protocolares e foram retirados da sala, porque o resto ninguém poderia ver.

O Bolsonaro moribundo, que frequenta rodas de conversa no PL, cultos e entrevistas, agora se encontra em reunião fechada no Congresso com o embaixador de um país empenhado em destruir um povo.

A afronta cumpre seu objetivo de desafiar a autoridade de Lula e também o de mostrar que Bolsonaro é um fora da lei avariado, mas ainda vivo e temeroso.

A diplomacia de guerra de Daniel Zohar Zonshine ajuda na sobrevida de Bolsonaro, que se oferece como escada para que Israel tente colocar o dedo na cara de Lula.

Podem dizer que não faz sentido, se Bolsonaro não tem mandato e foi derrotado em duas tentativas de se manter no governo, numa eleição e num golpe tabajara.

A reunião executa o plano de jogar para a torcida e mantê-la acordada, ao mesmo tempo em que Benjamin Netanyahu manda dizer que seu emissário conversa com Bolsonaro.

Foi uma troca. Israel contribui para a sensação de normalidade na vida de Bolsonaro, e o sujeito lhe oferece a vitrine para o desaforo. Netanyahu mandou dizer que Bolsonaro ainda tem poder interno e de interlocução internacional.

Como foi alcançado até agora apenas pela Justiça Eleitoral, Bolsonaro é o elefante que qualquer um enxerga como quiser, apalpando isoladamente a tromba, a orelha, a barriga, o Pix ou o rabo.

Não se tem ideia do conjunto e da sua utilidade política. O que Bolsonaro ainda é capaz de fazer? O sistema de Justiça não o alcançou pelos crimes que cometeu. A inelegibilidade é um dano, mas ainda falta imobilizá-lo criminalmente.

Bolsonaro poderia estar morto politicamente, depois da eleição e da invasão de 8 de janeiro, se já tivesse sido submetido ao código penal, e não só ao código eleitoral.

A punição eleitoral é o que temos para as circunstâncias, porque a base para decisões mais drásticas é tão nebulosa quanto o poder real de Bolsonaro. Ainda não há lastro na sociedade para que ele seja condenado e contido numa prisão.

Por isso combinaram a reunião. Para que uma autoridade estrangeira também dissesse que Bolsonaro vive e circula à vontade, cumprindo compromissos, com terno e gravata, desta vez com a diplomacia de um país mergulhado no sangue de crianças palestinas.

Duas expressões do que existe de pior no mundo hoje confraternizam, numa reunião que parece não ter sentido, pela só aparente impossibilidade de efeitos práticos imediatos.

O efeito é este: o embaixador decidiu dizer aqui, como andam dizendo em outros lugares, que Israel vai manter o massacre e mantém por quanto tempo quiser os reféns brasileiros no sul de Gaza.

Judeus progressistas podem admitir que é constrangedor ver um embaixador de Israel sentado ao lado de uma figura que já tirou fotos com nazistas e tem parte do entorno e da base social com conexões comprovadas com essa gente.

Mas hoje nada mais constrange ninguém. A afronta está feita. O embaixador afrontou o presidente da República e as instituições brasileiras. E Bolsonaro apenas continuou afrontando o Ministério Público e o Judiciário.

Embaixador de Israel se reúne com Bolsonaro

08
Nov23

O contexto da ocupação israelense

Talis Andrade
 
 
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A des-historicização do que está acontecendo ajuda Israel

a seguir políticas genocidas em Gaza.

 

por Ilan Pappe 

Tradução Pedro Paulo Zahluth Bastos

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Em 24 de outubro, uma declaração do Secretário-Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, causou uma forte reação de Israel. Ao se dirigir ao Conselho de Segurança da ONU, o chefe da ONU disse que, embora condenasse com veemência o massacre cometido pelo Hamas em 7 de outubro, queria lembrar ao mundo que ele não ocorreu em um vácuo. Ele explicou que não se pode dissociar nossa preocupação com a tragédia que ocorreu naquele dia e os 56 anos de ocupação israelense de territórios.

O governo israelense não demorou a condenar a declaração. Autoridades israelenses exigiram a renúncia de Antonio Guterres, alegando que ele apoiou o Hamas e justificou o massacre. A mídia israelense se juntou ao movimento, afirmando, entre outras coisas, que o chefe da ONU “demonstrou um grau impressionante de falência moral”.

Essa reação sugere que um novo tipo de alegação de antissemitismo pode estar surgindo. Até 7 de outubro, Israel pressionava para que a definição de antissemitismo fosse ampliada para incluir críticas ao Estado israelense e questionamentos sobre a base moral do sionismo. Agora, contextualizar e historicizar o que está acontecendo também pode provocar acusação de antissemitismo.

A des-historicização desses eventos ajuda Israel e os governos do Ocidente a adotar políticas que eles evitavam no passado devido a considerações éticas, táticas ou estratégicas.

Assim, o ataque de 7 de outubro é usado por Israel como pretexto para praticar políticas genocidas na Faixa de Gaza. É também um pretexto para os Estados Unidos tentarem reafirmar sua presença no Oriente Médio. E é um pretexto para alguns países europeus violarem e limitarem as liberdades democráticas em nome de uma nova “guerra contra o terror”.

Contudo, há vários contextos históricos para a situação atual em Israel-Palestina que não podem ser ignorados. O contexto histórico mais amplo remonta a meados do século XIX, quando o cristianismo evangélico no Ocidente transformou a ideia do “retorno dos judeus” em um imperativo religioso milenar e defendeu o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina como parte do caminho que levaria à ressurreição dos mortos, ao retorno do Messias e ao fim dos tempos.

A teologia tornou-se política no final do século XIX e nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial por dois motivos. Em primeiro lugar, ela serviu aos interesses daqueles que, na Grã-Bretanha, desejavam desmantelar o Império otomano e incorporar parte dele ao Império britânico. Em segundo lugar, repercutiu entre os membros da aristocracia britânica, tanto judeus quanto cristãos, que se encantaram com a ideia do sionismo como uma panaceia para o problema do antissemitismo na Europa Central e Oriental, que havia produzido uma onda indesejada de imigração judaica para a Grã-Bretanha.

Quando esses dois interesses se fundiram, eles levaram o governo britânico a emitir a famosa – ou infame – Declaração de Balfour em 1917.

Os pensadores e ativistas judeus que redefiniram o judaísmo como nacionalismo esperavam que essa definição protegesse as comunidades judaicas do perigo existencial na Europa, focando na Palestina como o espaço almejado para o “renascimento da nação judaica”.

No processo, o projeto cultural e intelectual sionista transformou-se em um projeto de colonização por povoamento, cujo objetivo era judaizar a Palestina histórica, desconsiderando o fato de que ela era habitada por uma população nativa.

Por sua vez, a sociedade palestina, bastante pastoril naquela época e em seu estágio inicial de modernização e construção de uma identidade nacional, produziu seu próprio movimento anticolonial. Sua primeira ação significativa contra o projeto de colonização sionista ocorreu com a Revolta de al-Buraq, em 1929, e não cessou desde então.

Outro contexto histórico relevante para a crise atual é a limpeza étnica da Palestina em 1948, que incluiu a expulsão forçada de palestinos para a Faixa de Gaza a partir de vilarejos em cujas ruínas foram construídos alguns dos assentamentos israelenses atacados em 7 de outubro. Esses palestinos desenraizados faziam parte dos 750.000 palestinos que perderam suas casas e se converteram em refugiados.

Essa limpeza étnica foi percebida pelo mundo, mas não foi condenada. Como resultado, Israel continuou a recorrer à limpeza étnica como parte de seu esforço para garantir o controle total da Palestina histórica com o menor número possível de palestinos nativos. Isso incluiu a expulsão de 300.000 palestinos durante e após a guerra de 1967 e a expulsão de mais de 600.000 da Cisjordânia, de Jerusalém e da Faixa de Gaza desde então.

Há também o contexto da ocupação israelense da Cisjordânia e de Gaza. Nos últimos 50 anos, as forças de ocupação impuseram uma punição coletiva contínua aos palestinos nesses territórios, expondo-os à perseguição constante dos colonos e das forças de segurança israelenses, e prendendo centenas de milhares deles.

Desde a eleição do atual governo fundamentalista messiânico israelense em novembro de 2022, todas essas políticas severas atingiram níveis sem precedentes. O número de palestinos mortos, feridos e presos na Cisjordânia ocupada disparou. Ainda por cima, as políticas do governo israelense em relação aos locais sagrados cristãos e muçulmanos em Jerusalém se tornaram ainda mais agressivas.

Por fim, há também o contexto histórico do cerco de 16 anos a Gaza, onde quase metade da população é composta por crianças. Em 2018, a ONU já estava alertando que a Faixa de Gaza se tornaria um lugar impróprio para humanos até 2020.

É importante lembrar que o cerco foi imposto em resposta às eleições democráticas vencidas pelo Hamas após a retirada israelense unilateral de Gaza. Ainda mais importante é retroceder à década de 1990, quando a Faixa de Gaza foi cercada por arame farpado e desconectada da Cisjordânia ocupada e de Jerusalém Oriental após os Acordos de Oslo.

O isolamento de Gaza, a cerca ao seu redor e o aumento da judaização da Cisjordânia foram uma indicação clara de que, aos olhos dos israelenses, Oslo significava uma ocupação por outros meios, não um caminho para a paz genuína.

Israel controlava os pontos de entrada e saída do gueto de Gaza, monitorando até mesmo o tipo de alimento que entrava, às vezes limitando-o a um determinado número de calorias. O Hamas reagiu a esse cerco debilitante lançando foguetes em áreas civis de Israel.

O governo israelense alegava que esses ataques eram motivados pelo desejo ideológico do movimento de matar judeus – uma nova forma de nazismo – desconsiderando tanto o contexto da Nakba quanto o cerco desumano e bárbaro imposto a dois milhões de pessoas e a opressão de seus compatriotas em outras partes da Palestina histórica.

O Hamas, em muitos aspectos, foi o único grupo palestino que se comprometeu a retaliar ou responder a essas políticas. No entanto, a maneira como ele decidiu reagir pode levar à sua própria ruína, pelo menos na Faixa de Gaza, e também pode fornecer um pretexto para uma maior opressão do povo palestino.

A selvageria de seu ataque não pode ser justificada de forma alguma, mas isso não significa que não possa ser explicada e contextualizada. Por mais terrível que tenha sido, a má notícia é que não se trata de um evento que mude o jogo, apesar do enorme custo humano de ambos os lados. O que isso significa para o futuro?

Israel permanecerá um Estado estabelecido por um movimento de ocupação colonial, que continuará a influenciar seu DNA político e a determinar sua natureza ideológica. Isso significa que, apesar de seu autorretrato como a única democracia do Oriente Médio, ele continuará sendo uma democracia apenas para seus cidadãos judeus.

A luta interna em Israel entre o que se pode chamar de Estado da Judeia – o Estado colonizador que deseja que Israel seja mais teocrático e racista – e o Estado de Israel – que deseja manter o status quo – que movimentou Israel até 7 de outubro, entrará em erupção novamente. De fato, já há sinais de seu retorno.

Israel continuará a ser um Estado de apartheid – conforme declarado por várias organizações de direitos humanos – independentemente do desenrolar da situação em Gaza. Os palestinos não desaparecerão e continuarão sua luta pela libertação, com muitas sociedades civis a seu lado, ao mesmo tempo em que seus governos apoiam Israel e lhe concedem uma imunidade excepcional.

A saída continua a mesma: uma mudança de regime em Israel que traga direitos iguais para todos, do rio ao mar, e permita o retorno dos refugiados palestinos. Caso contrário, o ciclo de derramamento de sangue não terá fim.

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08
Nov23

Palestinos relatam cheiro de morte, cirurgias sem anestesia e valas comuns após um mês de bombardeios de Israel contra Gaza

Talis Andrade
 
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05
Nov23

Israel na Palestina - 2

Talis Andrade
 
 
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Façam o que puderem. Isto não pode continuar…

 

por Gilberto Lopes

 

A mais grave? Talvez, mas basta olhar para a história e descobrir que, vez ou outra, ela se repete. Em julho de 2014, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas reuniu-se em Genebra para discutir uma nova incursão israelense em Gaza, a chamada operação “Margem de Proteção”. De acordo com várias estimativas, entre 2.125 e 2.310 moradores de Gaza foram mortos (1.492 civis, incluindo 551 crianças e 299 mulheres) nesta operação. Quase onze mil ficaram feridos, e 66 soldados e cinco civis israelenses (incluindo uma criança) também perderam a vida.

A ONU denunciou que os ataques do exército israelense a Gaza poderiam constituir “crimes de guerra” e aprovou uma investigação, enquanto a Palestina solicitou ajuda internacional para obrigar Israel a cessar uma agressão que denunciou como “uma catástrofe humanitária”.

A resolução foi aprovada no Conselho de Direitos Humanos por 29 votos a favor e 17 abstenções. O único voto contra foi o dos Estados Unidos. Os Estados Unidos consideraram a resolução “destrutiva” e que não contribuiria para a interrupção das hostilidades. Israel qualificou a decisão de “farsa”. Seu embaixador no Conselho, Eviatar Manor, acusou o Hamas de cometer “crimes de guerra” e afirmou que Israel “destruiria sua infraestrutura militar”. Em 24 de julho, o Dr. Mads Gilbert, do Hospital Al-Shifa de Gaza, cidadão norueguês, publicou uma carta aberta no jornal britânico The Independent, à qual já fizemos referência.

“Os rios de sangue continuarão a correr na próxima noite. Já ouço como ajustam seus instrumentos de morte. Por favor. Façam o que puderem. Isto não pode continuar”, implorou. Dizia que “a última noite foi extrema. A invasão terrestre de Gaza produziu dezenas de veículos cheios de corpos mutilados, destroçados, sangrando, tremendo e agonizando… Palestinos feridos de todas as condições e idades, todos civis, todos inocentes”. “Depois, a orquestra da máquina de guerra israelense recomeça sua sinfonia macabra. Neste exato momento: as salvas de artilharia dos navios da marinha ancorados ao largo da costa, o rugido dos F-16, os drones repugnantes (em árabe, ‘zennanis’, ‘beija-flores’) e os Apaches. Tudo construído e pago pelos Estados Unidos”.

 

Um investimento inteligente

Tudo construído e pago pelos Estados Unidos!, disse o Dr. Gilbert. Na quinta-feira, 19 de outubro, Joe Biden dirigiu-se aos norte-americanos (e ao mundo) de sua Sala Oval da Casa Branca sobre os conflitos na Palestina e na Ucrânia. Os terroristas do Hamas desencadearam a maldade no mundo. São eles – e Putin – que pretendem acabar com a democracia e com seus vizinhos, afirmou. Se não pagarem um preço, o custo e as ameaças contra os Estados Unidos continuarão aumentando. Se colocarmos tudo em risco, se abandonarmos a Ucrânia e Israel, nossa liderança e nossos valores estarão em risco. É por isso que amanhã pedirei recursos urgentes para financiar nossas necessidades de segurança nacional, disse Joe Biden.

E pediu ao Congresso 106 bilhões de dólares: 60 bilhões para a Ucrânia e 14 bilhões para Israel. O restante para outras despesas. “É um investimento inteligente que gerará dividendos por gerações para a segurança dos Estados Unidos”, disse ele. Nestes dias de guerra, as necessidades urgentes de Gaza, cujos pouco mais de dois milhões de habitantes não tinham água, alimentos ou eletricidade, cortados por Israel, nem recursos para seus hospitais, foram estimadas em cerca de 270 milhões de dólares.

O pacote que Joe Biden enviaria ao Congresso apontava para outra direção. É um compromisso sem precedentes com a segurança de Israel, que garantirá sua vantagem militar, disse ele, acrescentando que Israel precisava operar de acordo com as leis da guerra, para proteger os civis “da melhor maneira possível”. Biden acredita que é a liderança norte-americana, seus valores, que mantém o mundo unido. Que os Estados Unidos é a nação indispensável, essencial para construir o arsenal da democracia e defender a causa da liberdade. “Não deixaremos que terroristas como o Hamas, ou tiranos como Putin, vençam. Não o permitirei”. “Somos os Estados Unidos da América!”, afirmou. Comentando o discurso, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, afirmou: “Antes, diziam que se tratava de uma luta pela liberdade e pela democracia. Agora, verifica-se que é apenas um cálculo”.

 

E as regras?

Há quem procure justificar suas posições sobre o conflito entre palestinos e Israel do ponto de vista da “ética”. Como se o problema da ética já não estivesse resolvido desde sempre, nas opções econômicas e políticas que, como a história mostra, foram tomadas há mais de 70 anos. Outros falam de “terrorismo”. Mas, transformado em arma política para desqualificar os inimigos, o “terrorismo” perdeu seu valor analítico. Utilizado como qualificativo, torna impossível qualquer tentativa de compreensão dos problemas.

E as regras? A relação israelo-palestina mostra que, há muito tempo, não há regras. Nenhuma das resoluções da ONU é cumprida. Nenhum acordo é respeitado, nem os de Oslo, nem os de Minsk, no caso da Ucrânia. Também não se fala da bomba atômica de Israel, um debate que é impossível dissociar de outros, mais atuais, sobre a bomba da Coreia do Norte ou do Irã. São outras as regras que se aplicam a estes casos?  Não podemos deixar de pensar que não faltam pessoas que queiram transformar o mundo em outro Hospital Al-Ahil. Não deveria ser feito algum esforço para evitar isso?

 

Essa história foi falsificada

“Ainda há muitos franquistas na Espanha”, disse o maestro Daniel Barenboim ao jornal espanhol El País em setembro de 2020. Aos nove anos, Barenboim partiu da Argentina para Israel com seus pais. “Meus avós maternos, especialmente a minha avó, eram grandes sionistas. Ela mais do que meu avô. A mulher era a que mandava em casa. Meu pai também não estava convencido. Digamos que minha mãe e sua sogra o contagiaram. O Estado de Israel foi criado em 1948 e meus avós partiram em 1951. Depois nós chegamos”. “Sentia falta da Argentina?”, perguntaram-lhe. “Não me lembro”, diz ele. “E agora?”. “Agora, sim, por várias razões. Porque, com o passar dos anos, voltamos à nossa infância e porque o que está acontecendo em Israel me machuca muito”.

“Como era aquele país nascente?” “Outra coisa radicalmente diferente daquilo em que se converteu. A escalada militar, que é compreensível, afetou sua bondade. O fervor diminuiu. Não se pode ocupar militarmente outros povos com nossa história, com séculos de perseguição. O sionismo começou com a ideia de um povo para um país sem povo, uma ideia poética e belíssima, mas falsa: no início do século XX, a memória histórica foi falsificada ali. Não se podia dizer que era um território sem povo. Já tinha gente antes: no início do século XX, tinha apenas 9% de judeus. Não é que não tinha ninguém. Tinha 91% que não o eram. Mas isso foi ocultado, essa história foi falsificada”, disse Daniel Barenboim.

Como sabemos, os rios de sangue continuam fluindo. A verdade é que isto não pode continuar!

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05
Nov23

O suicídio de uma nação e o extermínio de um povo

Talis Andrade
 
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O Hamas não será destruído porque tem um sócio que precisa dele para sobreviver, e é Benjamin Netanyahu

 

por Vladimir Safatle 

 

Existe um filme de Luis Buñuel que se chama O anjo exterminador. Nele, vemos um grupo de burgueses que vai para uma espécie de salão de recepção e simplesmente não consegue mais sair. Não há nenhum impedimento físico, nenhuma restrição, a não ser aquela vinda de suas próprias vontades. Quando tentam sair eles subitamente param, perdem a força de vontade e permanecem paralisados. A impotência vai até o desespero, cenas de violência e degradação aparecem, até que, da mesma forma como foi natural entrarem no salão, eles saem.

Existe um sintoma fundamental na ordem geopolítica mundial. Trata-se do conflito palestino. Ele é como o filme de Buñuel: diante dele todos param e preferem nada fazer, até que explode algo terrível, como os ataques perpetrados pelo Hamas semana passada, e seguem-se ações que têm, no fundo, um só objetivo, a saber, continuar a não fazer nada de real, continuar a não procurar abrir caminho algum para resolver o conflito. A reação consiste apenas em mobilizar porta-aviões, exército, discursos de força, catástrofes humanitárias para esconder o dado elementar: a comunidade internacional não está disposta a resolver problema algum na Palestina.

Façamos um exercício elementar de projeção. O que acontecerá depois das ditas “ações militares” israelense em Gaza? O Hamas será destruído? Mas o que significa exatamente “destruição” aqui? Ao contrário, não foi exatamente assim que o Hamas cresceu, a saber, depois das ações inaceitáveis de punição coletiva e de indiferença internacional? E mesmo se os líderes do Hamas forem mortos, não aparecerão outros grupos alimentados pela espiral cada vez mais brutal de violência?

Seria importante partir do dado histórico de que todas as tentativas de aniquilar militarmente o Hamas só aumentaram sua força, pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos de grande parte dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação. Quer dizer, só há uma maneira de vencer o Hamas e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isso possa significar.

Permitam-me colocar claramente o que penso e que venho escrevendo há quase vinte anos na imprensa nacional: o Hamas não será destruído porque ele tem um sócio que precisa dele para sobreviver, e esse sócio é Benjamin Netanyahu. As ações feitas por Benjamin Netanyahu e seu governo de extrema direita, com o beneplácito de potências internacionais, só têm um efeito possível: fortalecer os sentimentos que alimentam o Hamas. Um pouco de sensatez e de análise histórica do conflito nos levaria rapidamente a essa conclusão. A solução está em outro lugar.

E, bem, aqui escreve alguém (e isto é fácil de checar via internet) que nunca deixou de criticar o Hamas e seu projeto. Não tenho ilusão alguma a respeito do que são os interesses de grupos fundamentalistas religiosos. Falei em mais de uma vez que os palestinos têm dois problemas para resolver: um é a política colonial do Estado de Israel, o outro é o Hamas. Continuo pensando o mesmo. Mas, como no filme de Buñuel, a saída desertou da vontade de quem pode resolver o conflito, a saber, a comunidade internacional com seu sistema de pressão.

 

Um problema extremamente complexo?

Durante anos fomos massacrados com a eterna ideia de que este era um conflito “extremamente complexo” ou de que suas causas deveriam ser procuradas em alguma espécie de “ódio milenar entre povos semitas” e coisas do gênero. No entanto, não há nada de complexo no conflito palestino. O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de “território ocupado”, ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de cinquenta anos.

Ou seja, Israel deve respeitar a lei internacional e devolver os territórios ocupados. Como se não bastasse, há os Acordos de Oslo, que definem um caminho claro para a paz e a resolução do conflito. Israel deve respeitar tais acordos internacionais, o que até agora não ocorreu. Inclusive, o atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nunca escondeu sua recusa em aceitá-lo.

No entanto, os palestinos efetivamente se engajaram nessa via. Durante décadas, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) levou a cabo ações diretas, inclusive ataques a civis, e manteve um discurso claramente contrário à partilha que criaria dois Estados na Palestina histórica. E, no entanto, há mais de 30 anos, a OLP abriu mão das ações armadas, mostrando a disposição dos palestinos a uma solução negociada para o conflito. Há de se entender esse ponto: os palestinos que se engajaram em um processo pacífico de negociação foram traídos. Se os Acordos de Oslo fossem respeitados, não haveria Hamas. Qualquer solução começaria por mostrar aos palestinos que a via diplomática pode trazer resultados efetivos.

E aqui seria importante recuperar a verdadeira razão pela qual esse processo de paz fracassou. Ele fracassou porque o então primeiro-ministro de Israel, Itzak Rabin, foi assassinado, não por um membro do Hamas, não por um palestino, mas por um colono judeu. Enquanto Itzak Rabin e o então líder da OLP, Yasser Arafat, tentavam colocar em prática o plano, colonos afrontavam o exército israelense em processos de desocupação de assentamentos, rabinos ultraconservadores faziam discursos incendiários contra o governo e víamos na televisão campanhas publicitárias feitas por organizações judaicas fundamentalistas que conclamavam os judeus do mundo, com armas em punho, a impedirem a entrega de terras aos palestinos. O final deste processo foi o assassinato de Itzak Rabin.

Desde então o processo de paz acabou. Pois havia um problema de difícil resolução, esse sim um problema extremamente complexo. Há uma ambiguidade maior no cerne da concepção israelense de nação. Por um lado, ela é assentada na criação de um Estado moderno e laico onde haveria espaço inclusive para os árabes (embora em número controlado).

Mas, de outro lado, a concepção israelense de nação é assombrada por fantasmas religiosos e comunitaristas no interior dos quais um messianismo redentor se mistura perigosamente com a tentativa de criar vínculos orgânicos entre nação, Estado e povo. O resultado é o paradoxo gritante de um Estado que se pretende moderno e tem um bizantino Ministério das Questões Religiosas, com suas cortes rabínicas, seu Departamento de banhos rituais e sua Divisão de assuntos sobre enterros. Na verdade, um espectro ronda o Estado de Israel: o espectro do teológico-político.

Do lado de Israel, ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível por meio de uma confrontação com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isso seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos. Para ela, continuar o processo de paz seria levar o país a uma guerra civil. Tratava-se então de adiar o processo de paz ad infinitum. E a melhor maneira para isso era alimentando a popularidade de um grupo fundamentalista islâmico. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo de Itzak Rabin. Um precisa do outro para existir.

Por isso, não há outra forma de descrever o que o governo de Benjamin Netanyahu faz agora a não ser como um experimento suicida. Pois ele acredita que a única coisa capaz de unificar o país é a guerra. Mas para funcionar, essa guerra deve ser infinita, sem fim, criando uma situação de exceção permanente. Uma sociedade fraturada como a israelense encontra na guerra um ponto forçado de união. Através da guerra permanente, toda voz contestadora é constrangida, a crítica dura ao apartheid de fato, à política tipicamente colonial do Estado israelense para com os palestinos é associada, de forma desonesta, ao antissemitismo. O que não significa ignorar expressões de antissemitismo real que aparecem em situações de guerra e que devem ser combatidas.

Eu insistiria que estamos diante de um experimento suicida porque guerras dessa natureza não podem ser vencidas, elas servem apenas para militarizar a sociedade em todos seus poros (como denunciou de forma precisa a socióloga israelense Eva Illouz no caso de sua sociedade), destruindo sua substancialidade. A única possibilidade de realmente vencer a guerra seria através do puro, simples e impensável extermínio de fato dos palestinos. Pois eles simplesmente nunca aceitarão serem tratados como um povo inexistente ou que deve ser deslocado completamente para o leste do Rio Jordão.

Tentar aprofundar nessa via significará colocar o mundo inteiro em risco, levar as populações dos países árabes à ebulição, com o aumento generalizado da insegurança mundial. Há uma ilusão colonial típica que está sendo mais uma vez atualizada aqui. Terra e liberdade são elementos completamente conjugados. Os povos sabem que não há autonomia sem autoctonia. Não há comunidade humana que aceite seu próprio desterro de maneira passiva.

Pode-se dizer que o conflito palestino é mais complexo que uma situação colonial clássica, porque há uma contestação sobre quem tem direito à autoctonia. No entanto, o direito internacional, mais uma vez vale a pena lembrar, é claro: a autoctonia dos palestinos na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental não tem nenhuma possibilidade de ser contestada e a comunidade internacional tem a obrigação de defendê-la e pressionar para sua efetivação imediata.

No entanto, não me escapa o fato de que o mundo caminha para uma situação na qual só se governa através da generalização de situações de crise. Uma verdadeira vontade de resolução do conflito passaria por uma intervenção da ONU e o uso de força militar internacional como elemento mediador, mas sequer um comunicado conjunto o Conselho de Segurança é capaz de aprovar. A tentativa do governo brasileiro foi louvável, embora serviu apenas para mostrar o fim de fato da ONU. Desde a invasão norte-americana no Iraque, feita sem acordo da ONU, a única instituição capaz de mediar conflitos bélicos deixou de existir.

Cada vez mais, entramos na era do medo como afeto político central. Estados procuram, na verdade, perpetuar as ditas ameaças terroristas como forma de consolidar uma política de contínua vigilância, de intervenção policial extensa e de bloqueio de contestações efetivas. Isto é um fenômeno mundial de mudança de paradigma de governo que vem sendo denunciado há pelo menos duas décadas de forma sistemática por todos os lados. Com esse conflito e seus desdobramentos, ele poderá ainda ser mais aprofundado.

05
Nov23

Israel na Palestina - 1

Talis Andrade
 
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Uma guerra entre os que defendem sua terra e os que lha querem tirar

 

“Já ouço como ajustam seus instrumentos de morte. Por favor. Façam o que puderem. Isto não pode continuar”
(Dr. Mads Gilbert).

 

por Gilberto Lopes

- - -

“A última noite foi extrema. Já ouço os instrumentos de morte. Os rios de sangue continuarão a correr na próxima noite”, disse o Dr. Mads Gilbert, do Hospital Al-Shifa, em Gaza, em 24 de julho de 2014. Esse hospital ainda existe? Terá acontecido algo melhor para ele do que para o Hospital Al-Ahli, destruído por um bombardeio na semana passada. Fui verificar. Sim, segue existindo. É o maior hospital de Gaza. Com capacidade para atender 700 pessoas por dia, recebe atualmente 5.000. Estava à beira do colapso. “Quando chega o bombardeio, o inferno inteiro se desmorona sobre Al-Shifa”, disse Alejandra Pataro, jornalista do Clarín.

A voz do Dr. Gilbert continua ressoando, mas as razões dessa tragédia continuam por esclarecer. Temos que tentar compreender…

A guerra na Faixa de Gaza desviou a atenção da Cisjordânia, o outro território com o qual deveria ser formado um Estado palestino. “Esta falta de atenção”, afirma a jornalista israelense Amira Haas, no jornal Haaretz, “permitiu que os colonos judeus, apoiados pelo exército, pela polícia e pelas forças paramilitares, atacassem novamente os agricultores e pastores palestinos da Cisjordânia, com um objetivo claro: expulsar as comunidades de suas terras e de suas casas.

O Haaretz ilumina aspectos de uma realidade que passou a segundo plano em Israel e que o resto do mundo praticamente ignora. A frente militar desta guerra está sendo travada novamente em Gaza, com suas consequências dramáticas, mas, mesmo assim, é difícil decidir qual dos dois cenários – Gaza ou Cisjordânia – é o mais cruel.

Há pouco mais de dez anos, em maio de 2013, o colunista do Haaretz Bradley Burston escreveu sobre o “verdadeiro segredo” de Israel. “Não é a bomba atômica”, afirmava, mas o orçamento que o Estado destinava aos assentamentos judeus na Cisjordânia. Ninguém sabe quanto dinheiro é distribuído para os assentamentos. Ninguém! Nunca! Bradley Burston referia-se a uma reportagem da rádio do exército israelense sobre os recursos destinados a legalizar estes assentamentos e a criar incentivos para atrair milhares de novos moradores para além das fronteiras da Cisjordânia, estabelecidas pela “Linha Verde”. “A pobreza em Israel é boa para os assentamentos e ótima para a ocupação”, acrescentou. Quando a construção dos assentamentos começou na década de 1980, diz Bradley Burston, os governos do partido conservador Likud de Benjamin Netanyahu “já tinham começado a desmantelar as redes de seguridade e bem-estar social”, base da economia e da sociedade de Israel desde a sua fundação em 1948. À medida que as privatizações avançavam, muitas pessoas dos povoados e bairros periféricos de Israel eram deixadas para trás. O governo financiou então a criação de subúrbios com moradia a preços acessíveis, que atraíram milhares de compradores. Financiou escolas e transporte, de modo que a ocupação do território palestino se tornou uma realidade, fileira após fileira. Depois, surgiram bases militares em todas as direções “para proteger os colonos”.

Dez anos depois do artigo de Bradley Burston, Ofer Aderet publicou, também no Haaretz, outros detalhes do plano, revelados em documentos dos arquivos estatais, graças a um projeto do Taub Center para estudos israelenses, da Universidade de Nova Iorque, que mostram como a ocupação dos territórios palestinos na Judeia e Samaria foi cuidadosamente planejada. “O estabelecimento de assentamentos judeus nos territórios ocupados foi o maior empreendimento nacional do último meio século, mas atraiu muito pouca pesquisa acadêmica”, lê-se no site do Taub Center.

Os documentos tornados públicos revelavam que, primeiro, tentaram expropriar as terras agrícolas dos palestinos, sob o pretexto de que as transformariam numa zona de treinamento militar. Se os habitantes se recusavam a sair, os soldados sabotavam suas ferramentas ou utilizavam seus veículos para destruir as plantações. Como último recurso, envenenavam as terras, pulverizando-as com produtos químicos tóxicos, letais para os animais e perigosos para os seres humanos. Essas medidas, aplicadas na cidade de Aqraba em 1972, durante o governo da primeira-ministra Golda Meir, são um exemplo de como, nessa questão, a mesma política foi promovida de forma semelhante pelos diversos partidos israelenses.

Em 21 de setembro, um relatório da ONU denunciou um êxodo sem precedentes de colonos palestinos na Cisjordânia. Mais de 1.100 foram obrigados a abandonar suas propriedades desde 2022 devido à violência dos colonos judeus, que obrigaram os palestinos a desalojar completamente cinco comunidades. Outras seis viram metade de seus habitantes partir, e, em algumas outras, partes menores de sua população. “Sinto-me como se fosse um refugiado aqui e os colonos são donos de nossa terra”, disse Ali Abu Kbash, um pastor que deixou sua propriedade na aldeia de Al-Qabun, na Cisjordânia, com seus quatro filhos e 60 ovelhas para se instalar nas encostas rochosas de uma aldeia vizinha.

A onda de abandono da chamada “Área C” da Cisjordânia (com 60% do território sob controle do exército israelense, de acordo com os acordos de paz de Oslo dos anos 90) intensificou-se. “A expulsão de palestinos em meio à crescente violência dos colonos atinge uma magnitude nunca antes documentada”, segundo Andrea de Domenico, coordenadora do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários no Território Palestino Ocupado. Os colonos instalam postos avançados em terras palestinas, soltam suas ovelhas nas terras de pastores palestinos e queimam suas casas, com o apoio das autoridades e dos militares.

Em setembro de 2020, os tribunais israelenses ordenaram a expulsão de uma dúzia de palestinos de suas terras em dois casos distintos: num deles, para entregar as terras a uma associação de colonos; no outro, a uma empresa de propriedade de ativistas de extrema-direita.

Netanyahu, lutando por sua sobrevivência política nas eleições de setembro de 2019, anunciou sua disposição para apropriar-se de até um terço da Cisjordânia. Ministros árabes das relações exteriores, reunidos no Cairo, consideraram isso um “plano perigoso” que viola o direito internacional. O ministro das relações exteriores turco considerou-o “racista e incendiário”. A ilegalidade destas ações foi reiterada pelas mais diversas instâncias. A política de construção e expansão dos assentamentos, incluindo Jerusalém Oriental, é ilegal de acordo com o direito internacional. A União Europeia afirmou que não reconhecerá qualquer anexação unilateral do Vale do Jordão por parte de Israel, segundo a porta-voz do serviço diplomático europeu, Maja Kocijancic, em resposta ao plano anunciado por Benjamin Netanyahu.

 

Pobreza endémica

É impossível, num artigo de jornal, contar a história de sete décadas. Mas há inúmeras notas, de várias fontes, que resumem a situação que tentamos descrever. Em dezembro de 2004, a BBCentrevistou Peter Hansen, diretor da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio, também conhecida pela sigla UNRWA. A entrevista pode ser vista aqui. “As estatísticas de morte, destruição e pobreza não conseguem transmitir o verdadeiro sofrimento das pessoas nos territórios ocupados. Bairros inteiros (…) foram arrasados. Nas nossas escolas, toda uma geração está crescendo num ambiente de violência aterradora. A maldição da pobreza endêmica atinge agora dois terços da população”, disse Peter Hansen à BBC.

Em novembro (2004), a UNRWA pediu fundos para alimentar 1,6 milhões de palestinos nos territórios ocupados. “São pessoas que, não fosse a UNRWA, não teriam nada para comer?”, pergunta o jornalista. “Isso mesmo”, disse Hansen. “Desde o início da Intifada (setembro de 2000), quase todas as possibilidades de emprego para os palestinos em Israel desapareceram. Antes da Intifada, havia 130.000 palestinos trabalhando em Israel. Estamos falando de 130.000 famílias, quase um milhão de pessoas, porque as famílias são numerosas”, explica.

“Um relatório do Banco Mundial de novembro de 2004 afirma que 50% dos palestinos vivem na pobreza, com menos de dois dólares por dia. A UNRWA denunciou que uma em cada cinco crianças nos territórios ocupados sofre de desnutrição”, afirma o jornalista. “Estamos neste programa de emergência há quatro anos. Devido à falta de recursos, tivemos que baixar o nível da ajuda alimentar de 80% das necessidades de uma família para 60% e, atualmente, para 40%, porque simplesmente não temos dinheiro suficiente para fazer melhor”. “Quer dizer”, perguntaram-lhe novamente, “que as famílias recebem apenas 40% dos alimentos de que necessitam para sobreviver?”. “Isso mesmo. Terão que encontrar o resto em outro lugar”.

As relações de Washington com os palestinos tinham-se tornado difíceis. Em 6 de dezembro de 2017, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos reconheciam Jerusalém como a capital de Israel. O secretário de estado Mike Pompeo e a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas Nikki Haley (atualmente pré-candidata presidencial pelo Partido Republicano) defenderam a medida, argumentando que o programa era responsável pela pobreza na Palestina.

O líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Mahmoud Abbas, condenou a decisão. “Esta medida deplorável e inaceitável compromete deliberadamente todos os esforços de paz”, afirmou Mahmoud Abbas. Para o Hamas, a decisão “abria as portas do inferno para os interesses dos Estados Unidos na região”. Em agosto de 2018, Donald Trump cancelou os recursos destinados pelos Estados Unidos ao programa de ajuda aos palestinos. Uma medida que Joe Biden reverteu em abril de 2021, anunciando 150 milhões de dólares para a UNRWA e outros 75 milhões de dólares para assistência econômica e humanitária na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

 

O muro

A UNRWA também denunciou o muro que estava sendo construído por Israel na Cisjordânia. Apesar de sua importância, a grande imprensa pouco (ou nada) diz sobre este muro. Ainda que não esteja totalmente concluído (e, por razões políticas, talvez nunca venha a sê-lo), suas consequências são devastadoras para os palestinos, como indicava Hansen. “O muro passa por alguns lugares que separam a população das instalações que temos para educação e saúde”. “Há problemas para que cheguem aos hospitais, porque a maioria dos hospitais fica em Jerusalém, que está sendo totalmente fechada”.

Uma estrutura complexa que se estende por mais de 500 km, com cerca de 30 km de muros de concreto de até sete metros de altura e quatro metros de profundidade, complementada por barreiras, grades e torres de vigilância que circundam a Cisjordânia e Gaza. Barreiras que os palestinos têm que cruzar através de postos de controle, dos quais, até o ano passado, onze estavam abertos diariamente, enquanto outros estavam abertos em determinados dias da semana ou apenas em determinadas épocas de colheita. E onde a passagem era sempre uma decisão arbitrária, e muitas vezes humilhante, dos agentes de segurança.

Uma pessoa que vive perto de Jerusalém e tem que ir ao hospital, em vez dos quinze minutos que levava antes, agora são três horas. Tem que fazer um percurso muito longo até o sul de Jerusalém e voltar pelo norte. Para pessoas idosas e doentes, isto está longe de ser o ideal. “Um obstáculo que vai muito além do impacto físico óbvio: é a dor da família separada, o desamparo diante da casa confiscada ou demolida, a angústia do agricultor que não irriga sua terra e perde seu sustento, a fúria das viagens prolongadas para percorrer o desvio, a humilhação dos postos de controle militar para atravessar, a expectativa dos fiéis que anseiam por rezar em Jerusalém, a melancolia de um pôr do sol roubado”, contou a jornalista Carmen Rangel num artigo publicado no Huffington Postem 26 de junho do ano passado.

Israel começou a construir um muro em junho de 2002 e previu estendê-lo posteriormente por cerca de 700 km, a um custo de mais de 3,5 bilhões de dólares. Os palestinos denunciaram a expropriação de novos territórios com a construção do muro, que não segue a fronteira da Linha Verde. O Tribunal Internacional de Justiça de Haia decidiu, em 2004, que a estrutura é ilegal porque grande parte de seu traçado atravessa os territórios autônomos palestinos.

Em 23 de dezembro de 2016, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 2.334, reafirmando que “o estabelecimento de assentamentos por Israel nos territórios palestinos ocupados desde 1967, incluindo Jerusalém Oriental, não tem validade legal e constitui uma violação flagrante do direito internacional”. Reiterou sua exigência para que Israel cessasse “imediata e completamente” todas as atividades de assentamento nos territórios palestinos ocupados e apelou à adoção de medidas para prevenir quaisquer atos de violência contra civis. Como sabemos, nada disto aconteceu.

A Autoridade Palestina, o organismo palestino que administra parte do território ocupado e que surgiu nos Acordos de Oslo em 1993, viu sua autoridade diminuída pela divisão do território da Cisjordânia em três áreas: A, B e C. Os Acordos de Oslo deixaram nas mãos de Israel o controle total da economia palestina, bem como dos assuntos civis e de segurança em mais de 60% da Cisjordânia, designada por Área C.

Insatisfeitos com esta situação, desde 2005, os palestinos elegeram o Hamas e sua política de resistência armada à ocupação como seu representante em Gaza, cujo ataque à população no sul de Israel, no início de outubro, deu início à mais grave escalada militar do conflito israelo-palestino.

 
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