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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

16
Out18

O que predominou foi a mentira no WhatsApp, diz Haddad sobre campanha de Bolsonaro

Talis Andrade

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RFI - O candidato à presidência, Fernando Haddad, acusou seu adversário de extrema-direita, Jair Bolsonaro, favorito nas pesquisas, de fomentar "a violência" e "a cultura do estupro", além de difundir mentiras via WhatsApp.

 

Entrevista exclusiva à AFP

 

"Meu adversário fomenta violência, inclusive a cultura do estupro, ele chegou a dizer para uma colega do parlamento que não a estuprava porque não o merecia. Você quer uma sinalização mais violenta do que essa em relação à sociedade?", alertou Haddad em uma entrevista exclusiva para a AFP em São Paulo.

 

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Bolsonaro, que obteve no primeiro turno 46% dos votos, contra 29% de Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), propõe liberalizar o porte de armas para combater a criminalidade, um dos temas mais controversos da campanha.

 

Para Haddad, o escolhido do ex-presidente Lula para substituí-lo na corrida à presidência enquanto cumpre pena de prisão em Curitiba, trata-se de uma resposta com limitações.

 

"Ninguém suporta bandidagem. A questão é que as propostas do Bolsonaro, que são pouquíssimas, inclusive na área em que ele se diz especialista, não vão resolver", disse o ex-prefeito de São Paulo, de 55 anos.

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"Armar a população não vai resolver”

 

"Armar a população não vai resolver. Quem tem que prestar o serviço de segurança publica é o Estado. E, se o Estado não está prestando o serviço corretamente, nós temos que adequar o serviço. A minha proposta é que o governo federal, que hoje cuida pouco da segurança, passe a cuidar e a assumir parte das responsabilidades, sobretudo em relação ao crime organizado", acrescentou.

 

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Bolsonaro, de 63 anos, do Partido Social Liberal (PSL), começou o segundo turno com a ampla vantagem de 58% das intenções de votos, contra 42% para Haddad, segundo a pesquisa do Datafolha.

 

Além da vantagem nas intenções de voto, o ex-capitão conta com o apoio das bancadas da Câmara vinculadas ao agronegócio, às igrejas evangélicas e aos defensores do porte de armas, o que poderá viabilizar a governabilidade.

 

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Haddad, por outro lado, obteve o apoio tímido da centro-esquerda, incluindo o candidato Ciro Gomes, do PDT, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 12,5% dos votos, e de quem esperava maior engajamento na reta final da campanha.

 

 

"Acredito que a determinação do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e do PSB (Partido Socialista Brasileiro) foi decisiva. Eu espero um apoio muito mais firme do PDT (Partido Democrático Trabalhista). Espero, inclusive do Ciro. Mas o apoio foi dado. O engajamento na campanha é uma coisa que depende de outras variáveis. Agora toda a centro-esquerda está unida em torno da minha candidatura, inclusive o movimento social", ressaltou.

 

No entanto, Haddad, que é professor de Ciência Política e Políticas Públicas, acredita que Bolsonaro perderá a eleição e que ele encontrará canais de diálogo com o Legislativo.

 

"Um professor tem muita mais chance de abrir um diálogo do que alguém como meu adversário, que nunca vi chamar ninguém para dialogar, que nunca aprovou nada relevante em 28 anos de mandato", afirmou.

 

Haddad ressaltou que Bolsonaro "sempre incitou a violência"

 

"Imagina uma pessoa que tem como herói um dos maiores torturadores do continente. Essa pessoa é que lidera as pesquisas, mas vai perder", declarou.

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 Coronel Brilhante Ustra, torturador e assassino de presos políticos na ditadura militar de 64, que teve o apoio de Bolsonaro como terrorista da extrema direita

 

“Mentiras” via WhatsApp

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O candidato do PT criticou ainda a forma como Bolsonaro, conhecido por sua retórica misógina, homofóbica e racista, faz campanha, sobretudo por meio do aplicativo de mensagens Whatsapp.

 

 

"Acho que o que predominou foi a mentira, não foi o WhatsApp. Se ele tivesse usado o WhatsApp para falar a verdade eu não teria nenhum problema com a campanha dele. O problema é que nós já entramos com não sei quantas ações judiciais para tirar do ar os vídeos que a campanha dele produz falando mentiras a respeito de mim e da minha vice (Manuela d'Ávila). O trabalho de desfazer uma mentira é muito maior do que de falar a verdade", reclama.

 

"Não sei de onde vem tanto dinheiro para tanta mensagem de WhatsApp, porque ele não declara os custos disso, dando a impressão de que é tudo voluntário", questiona.

 

"Erros" do PT

 

Outra estratégia eleitoral de Bolsonaro é vincular Haddad à perpetuação da corrupção, já que o PT foi um dos partidos mais atingidos pela operação Lava Jato.

 

Haddad reconheceu que seu partido cometeu "erros" quando esteve no poder, mas lembrou que nesses 13 anos de governo Lula e Dilma fortaleceram os órgãos de combate à corrupção que permitiram à polícia e à justiça avançar nas investigações.

 

"Se você perguntar qual foi o governo que mais equipou o Estado para combater a corrupção, foi o nosso. Nosso governo não botou nada para baixo do tapete".

 

"Eu compartilho a mesma visão da sociedade de que a corrupção é uma coisa intolerável, mas Bolsonaro em 28 anos no Congresso federal não fez nada, em área nenhuma. Ele só grita contra as coisas, mas o que ele propõe não tem consistência nenhuma", disse.

 

 

(Da AFP)

 

15
Out18

“Me estranha que quem lutou pela democracia fique neutro diante de alguém que apoia a ditadura”

Talis Andrade

Querer o retorno da extrema direita deixa pasmo qualquer brasileiro que viveu ou estudou os tempos de tortura de presos políticos, pelo coronel Brilhante Ustra, herói e amigo do capitão Jair Bolsonaro e do general Hamilton Mourão. Os tempos de chumbo da ditadura militar. Das conduções coercitivas e desaparecimentos de presos políticos. 

 

É um momento de assombramento para os brasileiros. A frase de perplexidade “me estranha que quem lutou pela democracia fique neutro diante de alguém que apoia a ditadura” é do candidato do PT, Fernando Haddad, destacada hoje pelo principal jornal da Espanha, o EL PAÍS. Porque as propostas de Jair Bolsonaro vão piorar a violência no campo e nas cidades.

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Fernando Haddad (São Paulo, 1963) chega à sala aparentando imensa exaustão. Senta em uma cadeira, de costas para uma janela enorme com vistas para um sobrado que, na fachada, exibe uma bandeira do Brasil desbotada e um cartaz que exalta seu oponente, Jair Bolsonaro. No local onde recebeu o EL PAÍS para uma entrevista, na tarde deste sábado, agora funciona seu sóbrio comitê de campanha, que não tem qualquer menção ao candidato petista do lado de fora. Antes, o prédio era parte da sede do Instituto Lula, de quem ainda se guarda um grande retrato em uma das paredes. Ao lado da foto, um cartaz anuncia a senha do Wi-Fi para os visitantes: #foratemer.

 

 
 

Pergunta. Como avalia o crescimento de Bolsonaro, um candidato de extrema direita, no Brasil?

Resposta. Estamos vivendo a crise do neoliberalismo. Eu escrevi um texto no final dos anos 1990, auge do neoliberalismo, em que eu dizia que quando viesse a crise, que seria financeira, o mundo se dividiria, mas buscando soluções conservadoras. Quando viesse a crise financeira, o mundo desenvolvido protegeria sua riqueza e deixaria a periferia à deriva e à base da violência. Estamos vivendo esse momento, de desagregação pelo fim do neoliberalismo. A crise eclodiu em 2008 e seus efeitos estão sendo processados. O Brexit tem a ver com isso, o [Donald] Trump tem a ver com isso, assim como o fenômeno Bolsonaro. Só que é neonazismo lá e neofascismo aqui.

 

P. Há a percepção fora do país, e alguns intelectuais se manifestaram neste sentido, de que há um risco à democracia brasileira. Você concorda?

R. O Bolsonaro tem a vantagem de que ao longo de 28 anos como deputado não mentiu. Ele está mentindo agora. [Antes] ele falou que fecharia o Congresso se fosse presidente, que não precisaria impedir os filhos de casarem com uma afrodescendente porque ele os educou bem e o filho não se misturaria, que pessoas LGBT são desprezíveis e precisam ser jogadas no lixo. Ele nunca escondeu suas próprias opiniões. Agora, na campanha, ele está calibrando um pouco, mas ele é isso.

 

P. Mas isso significa que há risco para a democracia brasileira, na sua opinião?

R. Eu acredito que há.

 

P. E qual seria esse risco? De golpe militar?

R. Olha, as instituições não estão bem há cinco anos, pelo menos. Já não estão sólidas. E com uma figura como ele à frente do Executivo, tudo pode acontecer. Inclusive ele ser expelido do sistema. Nada disso está excluído.

 

P. Mas essa percepção, ainda que pareça mais consolidada no exterior, não parece ser a que há dentro do país. O próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não parece tão peremptório quanto você está sendo agora. Falou “Bolsonaro, não”, mas não apoiou você. Por que acha que essa percepção aqui é diferente?

R. Quem está fora às vezes vê com mais clareza do que quem está dentro. Quem está dentro às vezes está pensando com o fígado e não com a cabeça e com o coração, que é o que devia pautar as eleições. Mas me estranha que pessoas que lutaram pela redemocratização fiquem neutras diante de uma pessoa que manifestadamente apoia a ditadura e a tortura. Uma pessoa que fala que não estupra uma colega porque ela não merece. O que isso simboliza? Que tem mulheres que merecem ser estupradas? Qual o sentido dessas expressões? É muito complicado o que está acontecendo no Brasil, mas o risco é evidente.

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P. Você já falou que a sua candidatura não é uma candidatura do PT, e sim, pela democracia. Isso envolveria trazer outras forças políticas para dentro desta candidatura. Fez algum esforço para ter o apoio do Fernando Henrique, ligou para ele? Ligou para o Ciro Gomes, que viajou para a Europa após as eleições?

R. Essa semana eu me dediquei a compor a unidade do campo a que eu pertenço, que é o campo progressista: PDT, PSB, PSOL, centrais sindicais, líderes progressistas, movimentos da sociedade civil. Eu me importei menos neste momento com partidos políticos, sobretudo os de centro-direita. Inclusive esperando um posicionamento deles para saber qual é a expectativa que eles têm, mas a centro-direita preferiu ficar neutra.

 

P. E qual a expectativa deles? Isso chegou a você?

R. A declaração dele [Fernando Henrique] foi muito rápida no sentido de neutralidade, de que nenhum dos dois lados [da disputa presidencial] interessa. Não foi de que havia um risco ao país.

 

P. A mensagem que o bolsonarismo passa é a do medo do PT voltar ao poder, citando escândalos de corrupção e a crise econômica. Que parcela de culpa o PT tem na construção dessa mensagem, do anti-petismo?

R. Eu respondo por mim, neste caso. Em várias ocasiões eu falei de erros na política econômica no primeiro mandato da Dilma, por exemplo, das desonerações, do combate à inflação pela administração de preços públicos. Fiz menção a isso, mas não deixei de reconhecer que depois da sua reeleição, o seu Governo passou a ser sabotado. O que foi reconhecido por um ex-presidente do PSDB em entrevista pública [Tasso Jereissati afirmou ao Estado de S. Paulo que seu partido errou ao questionar o resultado eleitoral após a vitória de Dilma e ao votar contra princípios básicos do PSDB na economia “só para ser contra o PT”]. Ele disse que o PSDB passou a sabotar o Governo Dilma com vistas à sua substituição pelo Temer com uma agenda própria, que deu no que deu, no desmanche da economia nacional. Também deveríamos ter feito a reforma política em 2003, para evitar essas frestas que foram usadas por indivíduos para se locupletar. Não é o partido, são pessoas, que usaram para enriquecer aqui e ali. E de todos os partidos, porque essas frestas valiam para todos os partidos. Hoje a gente sabe que era muito mais sistêmico do que parecia à primeira vista.

 

P. Mas e a cota de responsabilidade do PT?

R. Estou dizendo: houve falha de condução da política econômica no final do primeiro mandato da Dilma seguido de sabotagem da oposição, do Eduardo Cunha e do Aécio Neves. Temos uma cota. Na reforma política, devíamos ter feito em 2003, para fechar as frestas que os indivíduos usam para financiar suas próprias campanhas e até de enriquecer, como aconteceu em alguns casos. Agora, o que eu defendo? Continuar fortalecendo os órgãos de combate à corrupção, porque foi isso que eu fiz no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo.

 

P. Faltou o PT pedir desculpa em relação ao envolvimento de seus membros com a corrupção?

R. Quem se locupletou está pagando. E está pagando por uma legislação que nós aprovamos. Por um fortalecimento das instituições que nós promovemos. Eu sempre gosto de olhar o todo porque senão as pessoas vão imaginar que hoje, por exemplo, não existe corrupção no Brasil. E não é verdade. Se você conversar em off com um empresário honesto ele vai dizer: tem mais corrupção hoje no Brasil do que dez anos atrás.

 

P. Se você chegar à presidência vai haver um indulto para o ex-presidente Lula?

R. O caso Lula é um caso específico, que até o [Comitê de Direitos Humanos da] ONU já se manifestou. Se você consultar vários juristas, criminalistas, você vai verificar que a maioria vê uma fragilidade enorme nesse processo... Mas eu confio nos recursos. Tem dois tramitando, um para o STF e um para o STJ. E eu confio que as cortes superiores, sobretudo depois da eleição, vão ter a serenidade de avaliar o processo com mais isenção, pelo menos.

 

P. Ou seja, você descarta o indulto?

R. Ele não pede. É engraçado vocês me pedirem para me posicionar sobre algo que o presidente não está pedindo. Ele está pedindo um julgamento justo.

 

P. E qual o papel dele em um eventual Governo seu?

R. O presidente Lula, na minha opinião, foi o maior presidente da história do país. Neste sentido, a opinião dele importa pra mim. Como importa a opinião de outras figuras ilustres da República. Esses dias fui encontrar o [o ex-ministro do Supremo] Joaquim Barbosa [que condenou o PT no caso Mensalão], para perguntar para ele se o nosso plano de Governo poderia ser aperfeiçoado na questão de combate à corrupção. Ele tem 40 anos de serviço público nesta área, como promotor, procurador e ministro do Supremo. Talvez muita gente tenha ficado chateada que eu fui ouvi-lo. Mas eu fui pelo que reconheço nele. Isso significa que ele acertou em tudo na vida? Não. Significa que ele é uma figura importante, que ele pode ajudar o Brasil na próxima etapa. Eu considero ele um patriota, uma pessoa que quer o bem do país. Independentemente de uma opinião dele ser divergente da minha, eu reconheço nele uma autoridade na questão.

Qual o problema de consultar pessoas que têm experiência? Eu nunca vou negar o meu vínculo com o presidente Lula. Eu estou nessa eleição a convite dele. Não vou ficar iludindo o eleitor de que eu não tenho vínculo com o Lula. Eu tenho. Fui ministro dele. Vou ouvi-lo quando eu achar conveniente. É assim que se constrói um Governo: ouvindo. E ele é um interlocutor.

 

P. Mas neste momento da campanha vocês mudaram o slogan “Haddad é Lula”, o logo deixou de ser vermelho para ser verde e amarelo. Por que tomaram essa decisão?

R. No segundo turno tem que ampliar. Não tem como ganhar a eleição. Hoje o Congresso Nacional está ainda mais fragmentado. Como alguém vai dizer que vai fazer um Governo de um só partido com um país totalmente fragmentado como o Brasil hoje? Tem que apelar para questões gerais ou as pessoas não vão se unir em torno de um projeto

 

Venezuela

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 Ustra, torturador e assassino de presos políticos, "herói" de Bolsonaro e Mourão

 

 

P. Nesta semana se noticiou a morte de um vereador opositor do Governo Maduro em uma delegacia e o Governo venezuelano disse que foi suicídio. Há muitas evidências de problemas graves no regime da Venezuela e também na Nicarágua. A propaganda de Bolsonaro liga o PT a Maduro...

R. Isso é uma fantasia. O PT governou 13 anos este país, expandindo liberdades. Olha só, estou concorrendo com um cara que não só apoiou a ditadura como o estupro na ditadura. E sou eu que estou tendo que responder, com uma vida inteira dedicada à democracia?

 

P. Estamos perguntando sobre a posição do PT em relação à Venezuela.

R. Qual o sentido disso? Estou concorrendo possivelmente com o maior carrasco que esse país já teve. Ele verbaliza isso com a maior naturalidade e a imprensa agora naturalizou o Bolsonaro. É “Bolsonaro paz e amor”. O que está se passando na cabeça das pessoas? Com 26 anos, em 1989, lancei meu primeiro livro, que é uma crítica da primeira à última página aos regimes autoritários de esquerda. Faz quase 30 anos, não é de agora que eu resolvi assinar manifesto pela democracia. Bolsonaro é o contrário. Desde que ele se conhece por gente, defende a ditadura. Aí cria o fantasma Venezuela para virar o sinal do jogo. Eu não tenho compromisso com nenhum regime autoritário.

Agora, não vou declarar guerra à vizinho. Não vou permitir a instalação de base militar americana aqui. Os EUA estão pouco se lixando para a democracia no mundo. O foco deles é petróleo. Essa bagunça aqui tem muito a ver com a descoberta do pré-sal. Colocar o Brasil e a Venezuela em oposição, que são os dois países com maiores reservas petrolíferas do subcontinente? Você vai deixar criar conflito armado em dois países que podem se entender? Podemos ajudar a Venezuela a sair dessa confusão. Inclusive, se for necessário repreender, nós temos o Grupo do Mercosul que pode ser usado. Brasil e Argentina têm muito peso no subcontinente. Temos que ajudar a Argentina também, diga-se de passagem. O Brasil é líder. Lula evitou uma intervenção militar americana na Venezuela na época do Chávez. O próprio Fernando Henrique atuou no sentido, com os Amigos da Venezuela, de encontrar caminhos para sair da crise que não é de hoje. Nós temos liderança suficiente para tirar a Venezuela dessa situação econômica e política, mas não é tomando partido lá. Não é ingerindo nos assuntos internos. É partindo de uma perspectiva externa, com o apoio da ONU, da OEA, dos Amigos da Venezuela para organizar uma saída democrática.

 

P. A minha pergunta vai no sentido de que a sua posição é diferente da do PT.

R. Mas o presidente da República vou ser eu. Não fui escolhido à toa, por sorteio. Fui escolhido por causa do meu perfil. O Brasil está precisando de uma pessoa que converse, que saiba conciliar. Sou seguramente uma das pessoas do país mais bem relacionadas.. Converso na academia com todas as escolas de pensamento, eu sou respeitado pelos meus pares, na classe política eu sou uma pessoa que transita por todos os partidos. Eu tenho meu posicionamento. Sou uma pessoa de centro-esquerda. A minha missão de vida é combater a desigualdade no Brasil. Sou seguramente a pessoa que mais dialoga com as outras forças políticas democráticas.

 

P. O senhor falou do fantasma que foi criado pelo bolsonarismo em relação à Venezuela. Às vezes os fantasmas crescem quando as comunicações não são precisas. Não falta clareza nas posições do PT? Dizer: a gente errou, se desculpa e vai reforçar o controle da corrupção, por exemplo?

R. Hoje [sábado] está no noticiário uma declaração minha sobre isso. Eu falei: Olha, nós criamos controles internos muito efetivos nos ministérios. Gerenciei cem bilhões de reais por ano sem problema nenhum. O ministro tem que ser honesto, mas os controles têm que funcionar. Se não, a corrupção acontece sem que ele saiba. Os mesmos controles internos a gente vai ter que adotar nas estatais, porque ali os controles não atuaram tão fortemente. Isso é uma maneira de dizer o que foi feito de errado, e apontar uma solução. Porque não adianta nada se eu não apontar a solução. Vou ser presidente para que? Para resolver os problemas.

 

P. Os cientistas políticos projetam uma superbancada do PSL de Bolsonaro. Como governar com um Congresso ainda mais fragmentado e conservador e com uma rua inflamada com sua eventual eleição? Especialmente em um clima de ensejar desconfiança das urnas eletrônicas. Bolsonaro repete isso o tempo todo...

R. Como ele não é um democrata, ele diz que só aceita a vitória, não aceita a derrota [Bolsonaro depois voltou atrás nesta declaração]. Ele não é um democrata, simples assim. Na cidade de São Paulo eu tinha 55 vereadores na Câmara e só 11 votavam comigo. Aprovei até o Plano Diretor da cidade com 42 votos, um plano duríssimo contra a especulação imobiliária, reconhecido pela ONU como o melhor das Américas. Como eu consegui isso? Você ouviu falar de algum toma lá, dá cána minha gestão? Zero. Só com base no diálogo e mobilização social. Contei muito com o movimento de moradia. Não é verdade que você não consiga aprovar bons projetos. Você precisa explicar para a sociedade e dialogar olho no olho com as lideranças do Congresso. Se tivermos um bom projeto de reforma tributária, que seja mais justo, por que não vamos aprovar? Um bom projeto de reforma bancária: alguém concorda em pagar 100% de juros ao ano no cheque especial? Todo mundo é contra. A bancada evangélica vai ser a favor [do projeto]. Eles não gostam de juros extorsivos para a população.

 

P. A reforma da Previdência é prioritária? Qual é o modelo de Previdência que você defende e qual o prazo para fazer a reforma?

R. Nós fizemos duas reformas da Previdência. Aliás, as mais profundas. Não foi ninguém de direita. Quem fez reforma da Previdência no Brasil? Lula e Dilma. Só que fizeram de forma pactuada. É isso que eu pretendo. Sempre disse que os regimes próprios inspiram cuidados imediatos, porque os Estados não vão ter condições de pagar salário se continuarem com as contas do jeito que estão. Reforma da Previdência dos regimes próprios vamos enfrentar no primeiro ano. Depois, a convergência dos regimes público e privado. Minha posição é fazer a reforma dos servidores no primeiro ano do país todo e buscar convergência com o regime geral gradualmente. Quem quiser buscar Previdência complementar, é um direito. Mas o regime tem que ser um só. Isso é um ideal a ser construído. Vamos começar pelo mais importante e depois fazer a migração. Temos que sentar à mesa e ver qual é o arranjo mais adequado, mas sem empurrar goela abaixo. Consenso não vai ter, mas você tem que ter uma boa base de apoio, para todo mundo se sentir confortável em dar esse passo. Alguém vai perder, os privilegiados vão perder.

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Economia

 

P. Você tem dito que quem responde pela economia é você.

R. Até a nomeação do Ministro da Fazenda.

 

P. Que será...

R. Assim que eu tiver chegado à conclusão, eu anuncio. Sou da área, conheço economistas interessantes e estou conversando com eles. Mas perfil de ministro é outra coisa, é um líder também. Tem que ser uma liderança que entenda de economia.

 

P. Marcos Lisboa, Josué Alencar...

R. Não vou citar nomes, mas gostaria de alguém que tivesse a preocupação com geração de emprego. Um banqueiro não está no meu horizonte. Porque banqueiro está preocupado com outra coisa. Não está preocupado em geração de emprego.

 

P. Para onde se vai na economia num eventual governo seu: Lula 1, com um aceno mais claro ao mercado ou ao centro, ou Dilma?

R. Eu não separo Lula 1 de Lula 2, mas separo Dilma, sobretudo depois de 2012. Nos dois últimos anos da Dilma foram tomadas medidas que eu não tomaria. As desonerações eu não faria, decisões sobre a conta petróleo eu não tomaria... Mas eu diria para você que de 2003 a 2012 houve uma política muito consistente que seguiria. Disse isso por escrito, inclusive, em ensaios publicados.

 

P. Mas isso não aparece no programa do PT.

R. O programa do PT é um programa, não é um balanço. O balanço eu mesmo fiz em entrevistas, na revista Piauí.

 

Violência

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P. A escalada da violência é um clamor nacional, um problema que se agravou nos anos do PT no poder. Parte das pessoas que votam em Bolsonaro dizem buscar uma solução para a violência. Qual o seu plano?

R. Bolsonaro não tem nenhuma proposta de segurança pública. Absolutamente nenhuma. O que ele está querendo mudar é inconstitucional. O Supremo vai barrar. É cláusula pétrea. O que ele pode fazer é armar a população. Todos os estudos que eu conheço das mais respeitadas revistas científicas sobre segurança pública dizem que vai piorar a situação se você armar a população. Quem tem que prestar o serviço é o Estado. Se o Estado não está presentando o serviço, cabe ao presidente da República chamar à responsabilidade que hoje é exclusiva dos governadores. É o Estado que tem de prestar o serviço de segurança pública. Quem tem que estar armado é o policial bem treinado. Se o Estado não está dando conta, e eu concordo que não está, meu programa prevê que a Polícia Federal assuma parte das responsabilidades da segurança pública, sobretudo em relação ao crime organizado. Sempre defendi que os prefeitos tivessem atuação planejamento territorial da segurança. Hoje você vai na periferia e não passa viatura. Não tem policiamento. É assim que se faz no mundo: um planejamento territorial da segurança pública.

 

P. O senhor deu uma declaração dura chamando de “charlatão” Edir Macedo, dono da TV Record e líder da Igreja Universal, que também apoiou os Governos do PT, e agora apoiou publicamente Bolsonaro...

R. Uma Igreja não pode ter pretensões de poder. O que ele está fazendo agora é uma coisa completamente diferente do que ele fez. Ele tem pretensões de poder. Talvez por ter eleito o sobrinho dele lá no Rio de Janeiro [Marcelo Crivella] acho que ele se animou e resolveu ter um projeto de poder. Um livro dele chama Plano de Poder. O Estado tem que cuidar de todas as crenças. O Estado não pode ser prisioneiro de uma igreja. O Estado tem que garantir a liberdade religiosa, o que significa dizer abraçar todos os brasileiros independentemente de sua crença: se é judeu, é judeu, se é de matriz afro bem, se é muçulmano bem, se é cristão... não importa a confissão. O Estado não pode ser tomado por uma visão de mundo. Se não, nós vamos estar comprometendo justamente o que eu defendo, que é a democracia. Democracia é dizer: alto lá, o Estado é de todo mundo. Quando a gente diz que o Estado é laico, as pessoas têm que entender: não é repudiar as religiões. O Estado que abraça todas as religiões é laico. O Estado que abraça uma é teocrático. Plano de poder, não...

 

P. Acredita que ainda é possível virar o cenário?

R. Eu saí de 4% para 42% em 30 dias. Não acho nada impossível a gente chegar em 50% em mais 15 dias. É possível, sobretudo se os brasileiros tiverem a percepção, e que nós temos a obrigação de comunicar, dos riscos de eleger uma pessoa com uma visão de mundo que a [política francesa de extrema direita] Marine Le Pen considerou extremista. A Marine Le Pen disse “Bolsonaro não dá”. E a pessoa mais extremista que eu conheço é Marine Le Pen. Ela achou um exagero o Brasil chegar a esse ponto. Temos 15 dias de trabalho pelo bem do Brasil.

                         

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09
Out18

Herói de Bolsonaro, Ustra matou 60 inocentes e torturou outros 500

Talis Andrade

Idolatrado por Bolsonaro tornou-se o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador durante a Ditadura

 

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“Ele me tirou da cela puxando pelos cabelos e me batendo na cara. Aí eu fui sendo arrastada por ele ali no corredor das celas, apanhando. Antes de subir as escadas, eu perdi a consciência e acordei na sala da tortura toda urinada”.  O triste depoimento é de Crimeia Schmidt, na época grávida de sete meses e uma das centenas de vítimas de Carlos Alberto Brilhante Ustra,  ex-coronel chamado de herói pelo candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL).

 

O radical, que “homenageou” o torturador durante seu voto em favor do golpe de 2016 e cometeu crime de incitação à violência na ocasião, define da seguinte forma a sua relação com o primeiro militar condenado pela Justiça pela morte de 60 inocentes e a tortura de ao menos outras 500 vítimas.

 

“Conheci e fui amigo do Ustra. Sou amigo da esposa dele, sou uma testemunha viva de toda essa história do que queriam fazer com nosso país (…) O coronel recebeu a mais alta comenda do Exército, é um herói brasileiro. Se não concordam, paciência”, disse Bolsonaro em discurso na sessão do Conselho de Ética da Câmara em 2016.

 

Não chega a causar espanto as declarações do candidato, que já afirmou em entrevista que o grande erro da ditadura “foi torturar e não matar” e que os militares deveriam ter “fuzilado uns 30 mil naquela época”. Mas é conveniente lembrar o quão cruel e criminoso foi Ustra para entender (e evitar) o projeto de país que o deputado almeja para o Brasil.

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Nascido em Santa Maria (RS) em 1932, Ustra teve ascensão rápida como militar até ganhar notoriedade a partir do golpe de 64. Chefe do centro de investigações conhecido como Operação Bandeirante (Oban), criada em São Paulo em 1969, ficou rapidamente conhecido por “inovar” nas  técnicas de tortura aplicadas contra todos aqueles que lutavam contra o regime autoritário imposto aos brasileiros. “Você vai conhecer a sucursal do inferno”, costumava dizer Ustra às suas vítimas.

 

Espancamentos, choques, afogamentos dividiam espaço com sadismos como colocar ratos e baratas nas vaginas das mulheres. Ustra também causava pânico quando aparecia de surpresa e levava os interrogados para os “passeios”: abraçava o detento e o levava a uma sala onde havia o corpo de um militante. “Se você não falar, vai acabar assim”, dizia. Além de não ter piedade nem com uma grávida, Ustra também se divertia levando os filhos para ver as mães serem torturadas.

 

Com o fim da ditadura militar na década de 1980, centenas de relatos começaram a manchar a imagem do “herói” de Bolsonaro.  Mas somente em 2008 o militar foi condenado pelos seus crimes.  Por decisão em primeira instância do juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível de São Paulo, o coronel Ustra tornou-se o primeiro oficial condenado em ação declaratória por sequestro e tortura, mais de trinta anos depois de fatos ocorridos entre 1964 e 1985.

 

Ustra morreu em 2015 sem pagar pelos seus crimes. Infelizmente, o criminoso segue ameaçando as instituições democráticas por meio de seus súditos. Mesmo que historiadores revelem o quão cruel foi a Ditadura Militar no Brasil, Jair Bolsonaro adora dizer que o seu único livro de cabeceira é “A Verdade Sufocada”, obra delirante do coronel Ustra e cujo título ainda ironiza suas milhares de vítimas ao remeter a uma das técnicas de tortura utilizadas por ele. A esperança precisa vencer o ódio.

 

07
Out18

Bolsonaro é conhecido por suas frases agressivas, vulgares, racistas, misóginas e homofóbicas, diz Le Monde

Talis Andrade

O povo esquece Bolsonaro comandou o golpe que derrubou Dilma, botou Temer no poder, votou na reforma trabalhista e aprovou a intervenção militar no Rio

 

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por Paloma Varón 

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RFI - “Brasil, a extrema-direita às portas do poder” é a manchete do vespertino francês Le Monde desta sexta-feira (5), que traz uma matéria de três páginas sobre Bolsonaro. “O candidato, conhecido por suas tiradas racistas e homofóbicas, ganha espaço graças à exasperação da população face à violência e à corrução”, diz o jornal.

 

A correspondente do Le Monde em São Paulo, Claire Gatinois, traça um perfil do candidato do PSL em que o classifica como um nostálgico da ditadura militar e diz que ele encarna o descontentamento de um país esgotado pelos escândalos de corrupção e pela crise econômica.

 

Ao citar a homenagem que o candidato, então deputado federal, fez ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um torturador da ditadura militar de 1964-85, na sessão que votou pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, o perfil escrito por Gatinois o descreve como “um homem ávido por notoriedade e por polêmicas, zombado por ser inculto e conhecido por suas frases agressivas, vulgares, racistas, misóginas e homofóbicas”.

 

Em seguida, a jornalista cita algumas das falas mais célebres de Bolsonaro, como “O erro da ditadura foi torturar e não matar” ou “Eu não te estupro porque você não merece”, dirigida à colega deputada Maria do Rosário (PT), entre outras.

 

Sobre os apoiadores de Bolsonaro, o texto cita os evangélicos, as forças de ordem (“às quais ele promete a anistia de seus crimes”) e diz que o candidato é a “coqueluche dos fazendeiros, a quem ele promete liberar o porte de armas e autorizar o uso indiscriminado de pesticidas”.

 

Mercado financeiro

 

 

Segundo o jornal, o discurso ultraliberal em matéria de economia de seu conselheiro Paulo Guedes seduz tanto os influentes das igrejas evangélicas quando o mercado financeiro.

 

Paulo Guedes é apresentado como “um economista ultraliberal, um ‘Chicago Boy’ anti-Estado e adepto das privatizações em larga escala, o que permitiu aos militares, antes nacionalistas, conseguirem a adesão dos mercados”.

 

Em outra página do mesmo jornal, o repórter Nicolas Bourcier, enviado especial ao Rio de Janeiro, entrevista evangélicos neopentecostais da favela Varginha, que recebeu a visita do Papa Francisco em 2013, mas que tem maioria de evangélicos (são 55% no Estado do Rio). Ele entrevista Irene Silva, que diz ter votado em Lula em 2002 e 2006, mas agora vai votar em Bolsonaro “porque o pastor indicou”.

 

A matéria cita o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record, a segunda emissora do país, como pertencente à franja mais conservadora da direita brasileira e apoiador de Bolsonaro.

 

“Unidade evangélica”

 

Atribui-se a ida às preces de domingo o recente aumento da rejeição de Fernando Haddad (PT), que subiu dez pontos percentuais, e o aumento das intenções de voto em Bolsonaro, diz o jornal. O candidato de extrema-direita também recebeu o apoio do pastor Silas Malafaia, chefe espiritual da Assembleia de Deus, a igreja de Irene.

 

O deputado articulou a sua candidatura à presidência como sendo “o candidato da unidade evangélica” e vem colhendo os frutos, com a influência de pastores em todo o Brasil sobre os seus fiéis e a recomendação estrita no voto ao candidato do PSL.

 

Segundo o jornal francês, os evangélicos representam 1/3 da população brasileira e 48% deles dizem apoiar Bolsonaro contra 18% de apoio a Haddad.

 

“Os erros da esquerda e do PT foram muitos. Falar da família para a esquerda é visto como conservador, deixando o tema para a direita. É verdade que o PT fez políticas sociais, mas o partido se distanciou culturalmente dos pobres”, declarou ao jornal francês o pastor evangélico Henrique Vieira, ex-vereador de esquerda.

 

“O executivo virou o alvo dos grupos evangélicos, que antes tinham como estratégia ocupar as câmaras de deputados estaduais e federais”, explica ao Le Monde o professor, teólogo e pastor carioca Valdemir Figueiredo.

 

 

 

 

18
Set18

LULAÇO, O POVO SEM LAÇO

Talis Andrade

 

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A cada Lulaço

o de Moro fica

torando aço

 

A cada Lulaço

dos gorilas

de Bolso

a ameaça

 

de puxar o laço

do golpe

da ditadura

e tortura

 

nos calabolços

de Moro

de Ustra

de Fleury

 

os heróis

de Mourão

de Bolsonaro

de Vilas Boas

 

os generais

de Temer

que prometem

ao povo

 

a reforma agrária

da desova

em sete palmos

de cova

 

nos cemitérios

clandestinos

o espasmo a agonia

cruel destino

 

Ah dá para cantar

espantar os males

as aves agourentas

expulsar os inimigos

 

e cantar olê olê olá

é Hadad amigo

o povo de novo

olê olê olá

Lulá

 

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16
Set18

Grupo ‘Mulheres Unidas Contra Bolsonaro’ publica carta contra o fascismo

Talis Andrade

O tratamento desrespeitoso dirigido às mulheres, aos negros, indígenas, homossexuais, o culto à violência, a agressão contra adversários, a defesa da tortura e de torturadores, constituem manifestações que devem ser combatidas por aqueles que acreditam nos princípios civilizatórios que possibilitam a existência de uma sociedade democrática e plural

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Grupo 'Mulheres Unidas Contra Bolsonaro', organizado na rede social Facebook, publicou carta 

 

CARTA DAS BRASILEIRAS EM DEFESA DA DEMOCRACIA, DA IGUALDADE e RESPEITO À DIVERSIDADE

 

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O Brasil vive um momento especialmente dramático de sua história. Nas eleições mais conturbadas após o fim da Ditadura civil militar, assistimos à perigosa afirmação, por um dos candidatos à Presidência, de princípios antidemocráticos, expressos num discurso fundado no ódio, na intolerância e na violência.

 

Se a posição deste candidato era pública, tendo sido reiteradamente manifesta ao longo dos 27 anos em que vem atuando na Câmara Federal, causa perplexidade a adesão a tais princípios por parte significativa da sociedade brasileira.

 

O tratamento desrespeitoso dirigido às mulheres, aos negros, indígenas, homossexuais, o culto à violência, a agressão contra adversários, a defesa da tortura e de torturadores, constituem manifestações que devem ser combatidas por aqueles que acreditam nos princípios civilizatórios que possibilitam a existência de uma sociedade democrática e plural.

 

Neste contexto, nós, mulheres, vítimas de agressões e desqualificações por parte deste candidato, viemos à público expressar nosso mais veemente repúdio aos princípios por ele defendidos, conclamando a população brasileira a se unir na defesa da democracia, contra o fascismo e a barbárie.

 

Somos muitas, para além de UM MILHÃO que integra este grupo. Defendemos candidatos e candidatas distintas, dos mais diferentes matizes político- ideológicos. Temos experiências e visões de mundo diversas, assim como são distintas nossas idades, orientações sexuais, identidades étnico- raciais e de gênero, classe social, regiões do país em que vivemos, posições religiosas, escolaridade e atividade profissional.

 

Na verdade, nos constituímos como coletivo a partir de uma causa comum, expressa nesta carta: a rejeição à prática política do candidato e aos princípios que a regem. Nos constituímos nas redes sociais, unidas numa corrente crescente e ativa, pela necessidade de tornar pública nossa posição no exercício da cidadania e participação, a partir da identidade feminina que nos congrega.

 

Nós, mulheres, historicamente inferiorizadas e marginalizadas, sujeitas a toda sorte de violência e desrespeito, recusamos hoje o silêncio e a submissão, herdeiras de uma luta há muito travada por mulheres que nos antecederam.

 

Somos aquelas que constituem a maioria do eleitorado brasileiro, ainda que sub-representadas na política partidária. Somos aquelas que, gestando e alimentado novas vidas, defendemos o direito de todos e todas a uma vida digna. Somos aquelas que, temendo pelas nossas vidas, pelas vidas de nossos filhos, filhas, companheiros e companheiras, diante da violência que assola e corrói a sociedade brasileira, somos contra a liberação do porte de armas, que só irá piorar o já dramático quadro atual.

 

Somos aquelas que, recebendo salários inferiores, com menor chance de contratação e progressão nos espaços de trabalho, entendemos que cabe aos governantes, à semelhança do que já ocorre em muitos países, construir políticas de igualdade salarial entre homens e mulheres.

 

Somos aquelas que , vítimas de assédio, estupro, agressão e feminicídio, defendemos o direito à liberdade no exercício da vida afetiva e sexual, demandando do Estado proteção e punição aos crimes contra nós cometidos.

 

Somos aquelas que protestam contra a perseguição e violência contra a população LGBTQ, porque entendemos que cada ser humano tem direito a viver sua identidade de gênero e orientação sexual.


Somos aquelas que se insurgem contra todas as formas de racismo e xenofobia, que defendem um país social e racialmente mais justo e igualitário, que respeite as diferenças e valorize as ancestralidades.

 

Somos aquelas que combatem o falso moralismo e a censura às expressões artísticas, que defendem a livre manifestação estética, o acesso à cultura em suas múltiplas manifestações.

 

Somos aquelas que defendem o acesso à informação e a uma educação sexual responsável, através de livros, filmes e materiais que eduquem as crianças e jovens para o mundo contemporâneo.

 

Somos aquelas que defendem o diálogo e parceria com escolas, professores e professoras na educação de nossos filhos e filhas, sustentados na laicidade, no aprendizado da ética, da cidadania e dos direitos humanos.

 

Somos aquelas que querem um país com políticas sustentáveis, que respeitem e protejam o meio ambiente e os animais, que garanta o direito à terra pelas populações tradicionais que nela vivem e trabalham.

 

Somos muitas, somos milhões, somos:

#MULHERES UNIDAS CONTRA BOLSONARO
CONTRA O ÓDIO, A VIOLÊNCIA E A INTOLERÂNCIA

 

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14
Set18

Mourão defende Constituinte sem povo

Talis Andrade

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O general Mourão, que se autoclassificou como "profissional da violência", e considera o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra um "herói", não confia em um Congresso eleito pelo povo, o mesmo povo a quem hoje pede votos para se eleger vice-presidente na chapa do capitão Jair Bolsonaro (PSL). 

 

Mourão (PRTB) defendeu, nesta quinta-feira, 13, que o Brasil precisa de uma nova Constituição elaborada por “notáveis” e aprovada em plebiscito pela população, sem a eleição de uma Assembleia Constituinte.

 

O candidato disse que a elaboração da última Constituição brasileira, de 1988, por parlamentares eleitos, “foi um erro”, e defendeu que a nova Carta deveria ser criada por “grandes juristas e constitucionalistas”. As declarações foram feitas em palestra no Instituto de Engenharia do Paraná, em Curitiba.

 

“Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo. Já tivemos vários tipos de Constituição que vigoraram sem ter passado pelo Congresso eleitos”, defendendo que esse tipo de documento, sem a participação de eleitos, já esteve em vigor em períodos democráticos do País, não apenas durante a ditadura.

 

Mourão acrescentou que defende pessoalmente essa opinião, que não representaria as ideias de Bolsonaro. “Teria que partir para a reforma de todas as reformas. Teríamos que ter uma nova Constituição, mas, no momento, julgo que isso é uma coisa muito difícil de a gente conseguir. Então, a regra é clara: partir do mais fácil para o mais difícil.”

 

Para o candidato, essa “nova” Constituição deveria ser mais “enxuta” que a atual, parecida com a norte-americana, contendo apenas princípios e valores gerais para reger o País. “O restante, como o horário de trabalho do bancário, o juro tabelado, essas coisas, isso (deve estar) em lei ordinária, porque muda de acordo com os valores e o tempo”, afirmou Mourão.

 

De acordo com o constitucionalista Luiz Guilherme Arcaro Conci, professor da PUC-SP, porém, a Constituição de 1946, a que se referiu o candidato, foi, sim, feita pelo Congresso. Questionado posteriormente pela reportagem, Mourão afirmou que pode ter se confundido ao citar a Constituição de 1946. Os textos que não passaram por representantes eleitos pela população foram os de 1824, 1937 e 1969, que não coincidem com regimes democráticos no Brasil.

 

Para Mourão, a atual Constituição, de 1988, deu início à crise pela qual passa o país.
"Tudo virou matéria constitucional. A partir dela, surgiram inúmeras despesas. A conta está chegando, está caindo no nosso colo. Chegou o momento em que temos que tomar uma decisão a respeito", afirmou.

 

14
Set18

Profissionais da violência

Talis Andrade

A reação de Mourão, o vice “faca na caveira” de Bolsonaro, aponta como o Brasil será governado em caso de vitória da chapa de extrema direita

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por Eliane Brum

El País/ Espanha

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“Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”. A frase é do general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL). Foi dita à revista Crusoé, após o ataque à faca contra o candidato na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 6 de setembro. É uma frase para se prestar toda atenção.

Os vices com frequência têm chegado à presidência no Brasil. Mas o mais importante é o que a declaração nos conta sobre a chapa que, sem Lula, está em primeiro lugar nas intenções de voto para a disputa presidencial das eleições de outubro. O que significa um candidato a vice-presidente se anunciar como “nós” e como “profissional da violência” num momento de tanta gravidade para o Brasil?

 

Abalado pela brutalidade do episódio, Mourão poderia ter escolhido pelo menos duas variações que mudariam a intenção: “os profissionais da segurança” ou “os profissionais da proteção”. Palavras como segurança e proteção levariam à ideia de amparo e de defesa —e não à ideia de ataque, de retaliação e de confronto. Mas não. Mourão usou um “nós”— e usou “profissionais da violência”. Ao ser perguntado quem era o “nós”, o general disse que se referia “aos militares e ao uso da força pelo Estado”.

 

Mourão declarou ainda: “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”. No mesmo dia, o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo: “A guerra está declarada”.

 

Mourão trata as Forças Armadas do Brasil como se fossem sua milícia pessoal

 

É bastante revelador que um general da reserva, hoje político e candidato, se considere no direito de falar em nome do Estado, em plena campanha eleitoral para se tornar governo. A declaração de Mourão mostra que ele acredita falar pelos militares, como se os representasse e os comandasse. E como se os militares fossem uma força autônoma, uma espécie de milícia de Bolsonaro e de Mourão. E não o que a Constituição determina: uma instituição do Estado, paga com recursos públicos, subordinada ao presidente da República.

 

Ao fazer essa declaração, Mourão trata as Forças Armadas como se fossem a sua gangue e o país como se fosse a sua caserna. Alguém machucou o meu amigo? Vou ali chamar a minha turma para descer o cacete. E faz isso na condição de político e de candidato, como se o processo democrático fosse apenas uma burocracia pela qual é preciso passar, mas que pode ser atropelada caso se torne inconveniente demais.

 

Mais tarde, Mourão baixaria o tom, segundo ele a pedido do próprio Jair Bolsonaro. Uma orientação curiosa para um candidato que divulgou uma foto sua na cama do hospital fazendo com as mãos o sinal de atirar. No dia seguinte à agressão, durante entrevista à Globo News, o vice de Bolsonaro afirmou que, em caso hipotético de “anarquia”, pode haver um “autogolpe” do presidente, com o apoio das Forças Armadas.

 

Ao comentar a convocação à violência por ele e outras pessoas da campanha, Mourão afirmou: “Realmente subiu um pouco o tom (no início), mas temos que baixar, porque não é caso de guerra”. Disse ainda que, se forem eleitos, vão “governar para todos, e não apenas para pequenos grupos”.

 

Diante da crise, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil bota gasolina na fogueira que deveria conter

 

As declarações do vice de Bolsonaro no primeiro momento dão pelo menos duas informações sobre ele que vale a pena registrar. Mourão decide baixar o tom depois de elevar (muito) o tom. Poderia se pensar se é esse tipo de reação passional que se espera de um general, uma pessoa numa posição de comando ocupando o posto máximo da hierarquia do Exército, cujas ordens podem afetar milhares de vidas humanas. Pela trajetória de Mourão, a dificuldade de agir com racionalidade em momentos de tensão não parece ter afetado a sua carreira.

 

Neste momento, porém, Mourão é um político e candidato a vice-presidente. Diante da crise, representada pela agressão a Bolsonaro, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil explode, confunde o seu lugar e o lugar das Forças Armadas, e bota gasolina na fogueira que deveria conter. E deveria conter não apenas por ser candidato, mas por responsabilidade de cidadão.

 

É importante que Mourão tenha finalmente entendido que não se trata de uma guerra e tenha parado de encontrar inimigos entre as faces da população. Mas as declarações irresponsáveis já produziram um efeito cujas consequências são difíceis de prever. Como ele mesmo lembrou, “há um velho ditado que diz: as palavras, quando saem da boca, não voltam mais”.

 

Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?

 

O que Mourão faria com poder real diante das tantas crises que esperam um governante? Como governará essa dupla, caso eleita, um que invoca mais violência em palavras e outro que, recém operado após sofrer uma agressão, faz sinal de atirar? Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?

 

A segunda informação que emerge das declarações é a rapidez e a leviandade com que Mourão julga e condena. De imediato ele responsabilizou o PT pela agressão à faca. Não havia —e não há— um único indício de que o autor da facada tenha qualquer ligação com o PT ou faça parte de um plano do partido. Adelio Bispo de Oliveira afirma ter agido sozinho e “a mando de Deus”. Declarar publicamente uma “fake news” ou mentira, num momento de tanta gravidade para o país, também pode ter consequências imprevisíveis. Não adianta voltar atrás depois de ter afirmado uma mentira como “certeza” justamente na hora em que os ânimos estavam mais acirrados.

 

É importante observar como esse protagonista se comporta diante da crise, já que governar um país é lidar com várias crises todos os dias. Se sem poder de governo ele encontra culpados, para além do culpado que já está preso, e invoca publicamente a violência como reação imediata, o que fará caso tenha poder de governo e a possibilidade de convocar o que Mourão chama de “profissionais da violência” e a Constituição chama de “Forças Armadas”? Se, quando precisam convencer eleitores de que são a melhor escolha, os homens de Bolsonaro invocam a guerra dentro do próprio país, o que farão quando já não precisarem convencer ninguém?

 

É importante observar o que dizem quando já não são capazes de se conter

 

É importante observar que não conseguem refrear seus instintos nas horas mais duras, mas também é importante acreditar no que dizem quando não são capazes de se conter. Tanto Bolsonaro quanto Mourão têm se esforçado para mostrar que são “profissionais da violência”. Ao pregarem que a população deve se armar, como se esta fosse a melhor estratégia para enfrentar a questão da segurança, é assim que se apresentam.

 

As declarações contra as mulheres, contra os negros, contra os indígenas e contra os LGBTs também são um exercício da violência que revela uma visão de mundo e a fortalece entre aqueles que dela comungam. Semanas atrás, Mourão chamou os negros de malandros e os indígenas de indolentes. Desta afirmação que saiu da sua boca ele não se arrepende. Como disse Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do candidato: “Tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”. Botaram.

 

No dia seguinte ao atentado, quando segundo ele mesmo o tom deveria baixar, o vice de Bolsonaro enalteceu o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar (1964-85). “Os heróis matam”, justificou ele na TV.

 

Sempre vale lembrar ao menos um episódio entre as tantas mortes e torturas ordenadas ou executadas pelo “herói” de Bolsonaro e de Mourão. O torturador Ustra levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos infligidos em várias partes do seu corpo e também nos seios e na vagina. Este é o farol de Bolsonaro e Mourão, em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência do Brasil, o que diz bastante também sobre os eleitores.

 

Armar-se é uma das principais plataformas da campanha de Bolsonaro-Mourão, o capitão da reserva e o general da reserva. E é preciso levá-los a sério. Não só porque Bolsonaro e Mourão lideram as intenções de voto, mas porque é legítimo que os eleitores queiram votar em “profissionais da violência” para governar o Brasil. É possível discordar de quem aposta em “profissionais da violência”, mas o direito de escolher uma pessoa que invoca a violência é legítimo numa democracia.

 

Há muita gente clamando por “civilização” contra o que nomeiam de “barbárie” que atravessa o Brasil, às vésperas de uma eleição em que o candidato em primeiro lugar nas pesquisas está na prisão e é proibido pelo judiciário de se candidatar e o candidato em segundo lugar leva um facada durante um evento de campanha e precisa passar por uma cirurgia.

 

Mas o que chamamos de civilização tem sido sustentado pela barbárie cotidiana contra os negros e os indígenas. A civilização sempre foi para poucos. A novidade que uma chapa Bolsonaro-Mourão apresenta é a suspensão de qualquer ilusão. Não é por acaso que alicerçam sua prática antiga, tão velha quanto o Brasil, nas redes sociais, o espaço onde toda a possibilidade de mediação foi rompida e os bandos se fecham em si mesmos, rosnando para todos os outros.

 

A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos. O que Bolsonaro e Mourão dizem, como “profissionais da violência” que são, é que já não é preciso fazer de conta. Neste sentido, rompem o mesmo limite que a internet rompeu, ao tornar possível que tudo fosse dito. E também ao dar um valor ao dizer tudo, mesmo que este tudo seja o que nunca deveria poder ser dito, já que é necessário um pacto mínimo para a convivência coletiva e o compartilhamento do espaço público.

 

A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos

 

Ao representar a velha boçalidade do mal expressada na novidade das redes, Bolsonaro-Mourão são os representantes mais atuais deste momento. Eles sabem que a guerra não existe no Brasil. O que sempre existiu foi o massacre. São os mesmos de sempre que continuam morrendo, como os camponeses de Anapu nas mãos dos pistoleiros da grilagem e as crianças das comunidades do Rio em cujas cabeças as balas explodem.

 

Ao inventarem uma guerra para encobrir o massacre, Bolsonaro e Mourão inventam também a ideia de que as armas serão iguais e acessíveis para todos, bastando para isso o “mérito” de passar em eventuais testes e o “mérito” de ser capaz de pagar pelas melhores. Conheceremos então o discurso da meritocracia aplicado às armas.

 

Bolsonaro e Mourão sabem muito bem que não haverá igualdade ao armar a população. Se Bolsonaro, o “profissional da violência”, teve alguma sorte na tragédia, é a de que Adélio Bispo de Oliveira era um amador e era pobre. Ele tinha apenas uma faca e nenhum plano para depois. Se ele fosse um “profissional da violência” como Mourão, Bolsonaro não teria tido a chance de fazer o gesto de atirar na cama do hospital, depois de ser salvo pelo SUS, sistema público de saúde que ele não se esforça para defender.

 

A sorte de Bolsonaro, o “profissional da violência”, é o fato de Bispo ser um amador

 

Marielle Franco, a vereadora do Rio pelo PSOL, não teve esta sorte. Seus assassinos arrebentaram sua cabeça com arma de alto calibre e uso restrito e até hoje, seis meses depois, não se conhece nem a identidade do executor nem a do mandante. Negra, lésbica e favelada, Marielle está no lado dos que morrem e cujas mortes permanecem impunes. Marielle está no lado dos massacrados, não dos que massacram.

 

Mas não é sorte o que Bolsonaro teve ao ser atacado por um amador. Tanto ele quanto Mourão sabem o que dizem quando reivindicam serem “os profissionais da violência”. Eles são. Resta saber se a verdade da maioria dos brasileiros é também esta: a de desejar profissionais da violência comandando o país onde vivem.

 

Se a maioria dos brasileiros mostrar nas urnas que quer esse tipo de político no poder, então é isso que escolheram. Faz parte do processo democrático que as pessoas se responsabilizem por suas escolhas e as consequências que delas resultam. Se você chama “profissionais da violência” para comandar o país onde você e sua família vivem, você deve saber o que terá. 

 

13
Set18

Lição de Democracia: URUGUAI MANDA PRENDER COMANDANTE DO EXÉRCITO POR DAR OPINIÃO SOBRE LEI

Talis Andrade

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O comandante em chefe do Exército do Uruguai, Guido Manini Ríos, ficará preso por 30 dias porque opinou sobre um projeto de lei proposto pelo governo do país. De acordo com o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, [o militar] atua de boa fé e com a lealdade institucional que devem ter as Forças Armadas, mas se equivocou". "Em função disso, sofreu sanções", afirmou Vázquez, segundo declarações difundidas no portal da Presidência. O governo tenta passar no Parlamento uma reforma do sistema de pensões militares e uma nova lei orgânica para as Forças Armadas. A sanção foi imposta na segunda-feira (10).

 

A Presidência afirma na internet que, segundo a Constituição e outras normas locais, os militares “não podem interferir com opiniões sobre projetos de lei”. O artigo 77 da Constituição do Uruguai estabelece que os militares em atividade deverão se abster de "fazer parte de comissões ou de clubes políticos, de subscrever a manifestos de partidos, de autorizar o uso de seu nome e, de modo geral, de executar qualquer outro ato público ou privado de caráter político, exceto o voto".

 

A punição ao militar imposta aconteceu um dia após o chefe das Forças Armadas no Brasil, general Eduardo Villas Bôas, opinar sobre política e dizer que os militares não aceitariam a candidatura Lula. "O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira. A Lei da Ficha Limpa se aplica a todos", disse ele em entrevistaà jornalista Tânia Monteiro.

 

Também muito grave foi apoiar as declarações do capitão Jair Bolsonaro e do general Mourão, oficiais da reserva candidatos a presidente e vice-presidente, idolatrando o torturador coronel Ustra, e promovendo a apologia da violência: "Heróis matam". 

 

Escreve Flávia Marreiro, in El País, Espanha: "Nos últimos dois anos, Mourão vinha criticando o poder político, algo inusual para alguém da ativa desde a redemocratização. Em setembro passado defendeu publicamente uma intervenção militar e, em dezembro, disse que o Governo Michel Temer só estava de pé porque mantinha 'um balcão de negócios' e disse que, se o Judiciário não agisse, era melhor os militares fazerem. Esse histórico recente não impediu Mourão de se despedir da carreira no prestigioso cargo de secretário de Economia e Finanças do Comando do Exército, responsável pelo orçamento da força. Fez ainda seu último discurso como general em uma concorrida cerimônia no Salão de Honras do Comando Militar do Exército, em Brasília, no qual decidiu nada menos do que chamar de 'herói' o coronel Carlos Brilhante Ustra (1932-2015). Ustra foi chefe de um importante centro da repressão durante a ditadura militar e reconhecido como torturador pela Justiça brasileira e pelo relatório oficial da Comissão Nacional da Verdade, de 2014." Leia mais

 

O candidato do PDT à presidência, Ciro Gomes, afirmou nesta quarta-feira, durante sabatina promovida pelos jornais O GLOBO, Valor Econômico e a revista Época, que os militares não participarão de forma política de seu governo, caso seja eleito. Ele também criticou Jair Bolsonaro, do PSL, e seu vice, o General Mourão, a quem chamou de 'jumento de carga'.

 

Segundo Ciro, seu projeto de país "não existe sem Forças Armadas fortes", mas evocou a Constituição para criticar, de forma dura, a intromissão de líderes militares da ativa na vida política nacional:

 

- Sob ordem da Constituição, eu mando e eles obedecem. Quero as Forças Armadas modernas, poderosas, mas militar não fala em política no meu governo - afirmou.

 

Ao falar sobre declarações do general Villas Boas, comandante do Exército, que questionou a legitimidade do futuro governo, Ciro disse que o militar sofreria consequências caso o pedetista fosse presidente:

 

- Estaria demitido e provavelmente pegaria uma "cana".

 

- Mas deixa eu explicar, ele está fazendo isso para tentar calar a voz das "cadelas no cio" que embaixo dele estão se animando com essa barulheira. Esse lado fascista da sociedade brasileira - afirmou Ciro, subindo o tom das críticas também ao vice na chapa de Jair Bolsonaro:

 

- Esse general Mourão, que é um jumento de carga, tem uma entrada no Exército e agora se considera tutor da nação. Os brasileiros têm que deixar muito claro que quem manda no país é o povo - disse Ciro, que também criticou os filhos de Bolsonaro.

 

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Os filhos de Bolsonaro, candidatos a senador e a deputado federal, são admiradores do coronel Ustra, assassino e torturador, inclusive, de crianças  

 

 

 

 

12
Set18

"Herói" de Mourão torturava crianças

Talis Andrade

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por Fernando Brito

Quer entender o grau de horror que foi a mansa entrevista do vice de Bolsonaro, Hamilton Mourão, à Globonews, onde ele chamou de “herói” o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, com aquela plácida frase de que “heróis matam”?


Então tome fôlego e leia este trecho da reportagem de Carla Jiménez, no El País, em abril de 2016, quando Mourão sequer sonhava (ou já sonhava?) em ser vice do ex-capitão.


O Exército Brasileiro não merece que se diga que homens assim são heróis e que isso foram “excessos”. Não há excesso com crianças de 5 anos de idade. Há monstruosidades.


Amélia Teles, ou Amelinha, também caiu nas garras de Ustra. Foi presa junto com o marido Cesar, e o amigo Carlos Danielli. Viveram todo o roteiro do inferno no DOI CODI, conforme conta num vídeo disponível no Youtube. Militantes do PCdoB, sentiram bem mais que surras e choques elétricos. O casal de jovens de pouco mais de 20 anos, foi preso em dezembro de 1972, e apanhou seguidamente sem ter noção do tempo. Certo dia, Amelinha estava nua, sentada na cadeira de dragão, urinada e vomitada, quando viu entrar na sala de tortura seus dois filhos, Janaína de 5 anos, e Edson, 4. Ustra havia mandado buscar as duas crianças porque queria que eles testemunhassem de seus pais. “Mamãe, por que você está azul e a papai verde?”, perguntou sua filha, enquanto queria abraçar a mãe, paralisada de dor e pelos fios elétricos. A cor era fruto das torturas que desfiguraram sua tez.


As duas crianças foram levadas para a casa de um militar enquanto os pais continuaram apanhando nas mãos de agentes da ditadura comandados por Ustra. Os arquivos da ditadura mostram crianças de colo fichadas como filhos de terroristas. “Vamos matar seus filhos, menos comunistas vivos”, ouviam seus pais enquanto eram torturados. Amelinha foi espancada por Ustra enquanto ouvia: “sua terrorista!”. Viu a morte do amigo Carlos enquanto estava presa. Seu marido Cesar faleceu no ano passado.

Espera-se que os delicados senhores Luiz Roberto Barroso e Edson Fachin olhem bem o que fizeram ao expor o Brasil a gente que acha isso um “ato de heroísmo”.
 

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