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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

30
Jan21

As imagens históricas do Recife

Talis Andrade

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por Urariano Mota

Histórico é tudo que tenha valor político, humano, artístico, literário, ainda que tenha acontecido hoje. Mas o que é que vai determinar a qualidade, a importância social para o Recife, da senhora que passa a caminhar na rua? Então vocês já veem que desejando simplificar, meti-me de novo em uma nuvem.

Nesta semana, li que em São Paulo existe o projeto Fotografia Paulistana, que reúne registros históricos da cidade a partir de 1920. No momento, já dispõem de mais de 400 fotos.

Li, parei, e fiquei a me perguntar: quantas imagens históricas existiriam do Recife? E nessa pergunta, quantitativa, notei logo que seria o mesmo que penetrar numa nuvem pensando que nuvem é algodão e se pega. É impossível determinar um número de fotos históricas da “noiva da revolução”, como a chamava o poeta Carlos Pena Filho. Depois, mais sério que a quantidade, me perguntei: o que seriam mesmo as tais imagens históricas? O critério de antiguidade seria a qualidade histórica? 

Então, primeiro acordei para o fato de que a história não é um resumo do que ficou no passado. Histórico é tudo que tenha valor político, humano, artístico, literário, ainda que tenha acontecido hoje. Mas o que é que vai determinar a qualidade, a importância social para o Recife, da senhora que passa a caminhar na rua? Isso é histórico, isso tem valor para cravar num álbum da história do Recife? Então vocês já veem que desejando simplificar, meti-me de novo em uma nuvem. 

Então penso em sair da dificuldade elegendo o que vem antes, depois o recente, mas que nos remeta a uma meditação sobre as nossas vidas no Recife. E que a foto mais nova, agora tão frágil e fugaz, ganhará o seu valor se não lhe escrevemos uma legenda, uma breve moldura da sua importância social? E nesse caso, a pesquisa histórica é uma pesquisa de sensibilidade, daquilo que está além do filme mais sensível, ou da última foto saída de um celular. É uma pesquisa que vai aos lugares e pessoas mais comuns, tidas como desimportantes. Sabem aquela prática de colecionar fichinha, tampa de garrafa, ou juntar flâmulas, guia de exposição, convites de casamento, para um dia quem sabe talvez por hipótese ter alguma utilidade? É parecido, ainda que esse termine por ser um caminho meio às cegas, à beira da mania. 

Então eu penso que as fotos históricas do Recife vêm de tudo que toque o nosso coração. Do antes, depois, agora e adiante. Quero dizer, para ser mais claro, além da foto do zepelin sobre a cidade em 1930

foto

era bom agregar os versos à beira do cômico de Ascenso Ferreira: 

“– Parece uma baleia se movendo no mar!
– Parece um navio avoando nos ares!
– Credo, isso é invento do cão!
– Ó coisa bonita danada!
– Viva seu Zé Pelin!
– Vivôôô!
Deutschland über alles!
Chopp!
Chopp!
Chopp!
– Atracou!”  

Ou da Ponte Duarte Coelho em 1950

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E mais Gregório Bezerra ferido, preso e altivo no quartel do exército em 1964 

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Ou a volta de Miguel Arraes no grande comício com a anistia em 1979 

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Afeto e memória do frevo histórico

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Até chegar mais perto da cidadania com o cinema Império em Água Fria, nos anos 50, 1958 

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Mas quero e devo dizer, sem interrupção: as fotos, por mais sentimentais, amadas e queridas, não revelam o raio X da alma. Elas são momentos objetivos, físicos de um instante, ainda que nelas a pessoa faça uma pose. Quero dizer, elas não trazem gravadas, impressas o coração do fotografado ou de quem vê a fotografia. Nas fotos chamadas por convenção de históricas, pela distância do tempo o seu valor é político ou documental. Mas nós, como ficamos? Onde estamos perdidos nesse mar de datas e rostos antigos? Em que lugar da foto está o momento de carinho ou tremor da nossa voz? 

Então o que é objetivo vira subjetivo, como na foto do cinema Império em Água Fria. Nela vejo a imagem de costas da minha mãe, falecida naquele ano de 1958. E para cada um de nós a foto objetiva recebe uma certa subjetividade, uma tradução da sua imagem. No zepelim no alto, podemos ser um dos meninos parados, em pleno encanto do objeto pesado cruzando o céu. E nos perguntamos, “por que não lembro desse dia do zepelim?” , e para nosso espanto somos informados de que a sua aparição no Recife foi antes do nosso nascimento. Já na fotografia da Ponte Duarte Coelho retomamos o Recife da infância, quando em pé no banco do ônibus víamos o rio Capibaribe. Hoje aberto, ao sol da manhã, ele é um rio que nos dá bom dia. Da ponte Duarte Coelho à Princesa Isabel, e desta a se estender até a ponte do Limoeiro, há uma vista de esperança. 

Já na imagem do frevo da mulher, é tudo revelação da primeira vez do desejo na multidão. É mais que uma foto, é um flagrante da carne sob o frevo. Então vem a foto de Gregório Bezerra, os anos de terror da ditadura, um Recife rebelde no momento do golpe militar. Ele, na imagem, é o comunista que gostaríamos de ser, se a felicidade e a sorte fossem nossas companheiras. E na volta de Arraes, no comício do bairro de Santo Amaro, eu estou na multidão, como um dos rostos contentes que no anonimato é protagonista. Todos ali somos protonotários, diria Manuel Bandeira. Mas assim é para todos? Não e sim. Não, porque as histórias pessoais e sentimentos não são idênticos - podemos até dizer, ninguém atravessa o mesmo rio Capibaribe. Sim, porque todos refletimos o que vemos, como indivíduos que somos da humanidade. Cada um na sua tradução faz o subjetivo da objetividade.

Então eu penso que as fotos históricas ideais deveriam ser um grande álbum onde as legendas fossem os comentários dos moradores da cidade. Elas se tornariam então fotos traduzidas em palavras para o sentimento. E não só, as falas das pessoas seriam informação histórica que daria movimento e corpo à imagem. As fotos históricas seriam mais que um cinema falado. Uma democracia plena do coração de toda a gente. Nesse grande álbum caberia a foto de um princesinha do carnaval 

com este comentário de um recifense:

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“Uma negra princesinha ficou na memória porque não era uma imagem. É uma pessoa. Uma linda menina, passado e futuro do carnaval. A princesinha na memória era a filha da cozinheira de um boxe do Mercado da Boa Vista. Ela, a menina, tão feliz estava, que nem comeu todo o seu almoço no prato. Talvez a mãe, generosa como todas, tenha posto mais comida do que a menina queria. Mas não, penso mais é que a princesinha estava tão feliz, que perdeu a vontade de comer”. 

Entre as fotos históricas, enfim, caberia com louvor esta de José Marques de Santana, em 27 de janeiro de 2021. Aos 86 anos de idade, ele assim  expressou a emoção por receber a vacina: 

foto 8

Das mais antigas à mais recente, imagens para as fotos históricas do Recife. 

 

27
Jan21

A um livreiro que parte: Tarcísio Pereira, o criador da Livro 7

Talis Andrade

Morre Tarcísio Pereira, fundador da Livro 7, vítima de complicações da  Covid-19 | Viver: Diario de Pernambuco

 

por Urariano Mota

- - -

Em 2020, publiquei no Face a primeira notícia sobre o aniversário da maior livraria do Brasil: 

“ANIVERSÁRIO DE 50 ANOS DA CRIAÇÃO DA LIVRO 7

Pelo telefone, Tarcisio Pereira, o dono e fundador da Livro 7, me informou que em julho vai comemorar os 50 anos da criação da livraria. Em 27 de julho de 1970 a Livro 7 abriu suas portas, até hoje não fechadas na memória de todo recifense. Ótima notícia!

Sem qualquer exagero, ela foi a maior livraria do Brasil, sem qualquer exagero ou favor, atestado pelo Guiness. Mas para nós, a sua grandeza era, é outra: Como a lembrei numa crônica: 

Na rua 7 de setembro, a Livro 7 começou numa lojinha pequena, densa, de livros e de gente, por trás do que é hoje uma loja de frios. Ou seria por trás de uma lanchonete, no térreo do mesmo edifício onde está a loja de queijos, à margem de um corredor? Se a memória física confunde a sua exata localização, a memória humana é mais precisa.

Chegávamos aos sábados, à espera de O Pasquim. Tarcísio nos fazia beber, sem muitos rogos, copinhos e mais copinhos de batida de limão, enquanto o jornal não aparecia. Por Deus, seria difícil uma espera mais venturosa. Cachaça, Lukács, limão, Proust, Hemingway e açúcar. Mais cachaça Baudelaire, limão Manuel Bandeira e açúcar Scott Fitzerald. E Hess, e Brecht, misturas que só de lembrar fazem voltar à boca o seu travo...

Temos que divulgar o seu aniversário de 50 anos de criação”.

Depois, no fim de 2020 publiquei no grupo Amigos da Livro 7, quando Suely Pereira, a sua irmã, me falou que Tarcísio Pereira estava na UTI, entubado, sofrendo o coronavírus: 

“TODO O RECIFE, TODO PERNAMBUCO, TODO O MUNDO CULTO DA BRAVA CIDADE CLAMA: 

QUEREMOS E PRECISAMOS QUE TARCÍSIO PEREIRA LOGO SE RECUPERE. NÓS NÃO PODEMOS JAMAIS PERDÊ-LO. 

VIVA TARCÍSIO!”. 

Essa mensagem teve muitas adesões e comentários. Mas hoje chega a tristíssima notícia: 

“O livreiro e fundador da Livro 7, Tarcísio Pereira, faleceu na noite dessa segunda-feira (26), aos 73 anos, vítima de complicações da Covid-19. Tarcísio estava internado há 2 meses e receberia alta esta semana, mas foi surpreendido por uma hemorragia na noite de segunda, que levou ao falecimento."

Comentei de imediato no grupo Amigos da Livro 7: 

Tarcísio da Livro 7 foi pessoa e personagem fundamental da história de nossa brava cidade. Eita tempo desgraçado!

Então, diante disso, a grande Suely Pereira me fala: 

“Preciso lhe confessar, no meu último telefonema com Tarcísio,  ficou tudo acertado que no dia seguinte ele iria lhe procurar. Isso foi um dia antes de ele ser internado”. 

E mais me conta Suely Pereira, parceira e irmã de carne, alma e formação de Tarcísio, pelo celular há pouco: 

“Nos anos da ditadura, quando Ulisses Guimarães esteve no Recife, ele falou para o meu irmão: ‘Tarcísio, no Brasil só existem dois partidos legais. Mas em Pernambuco são três: Arena, MDB e a Livro 7’ ”.  

Emocionada profundamente, aos soluços, com voz grave ela mal fala agora, mas muito diz. Então eu lhe falei, na urgência de escrever estas linhas: 

- Suely, você continua a obra de Tarcísio. Você é a sua continuação pelo espírito, compreensão, atividade livreira e parceria absoluta. Conte conosco por favor na continuidade. Estamos juntos!

O que mais eu poderia falar para Suely, parceira privilegiada da vida e obra de Tarcísio Pereira? Então junto ao que não pude falar a recuperação destas linhas a seguir.  

Em 27 de julho de 2020, a Livro 7 completou 50 anos de fundada no Recife. Ainda que não mais exista em morada concreta, ela ainda reside no sentimento de muitos recifenses. Por isso, acho natural recuperar um texto que publiquei no La Insignia. 

"A livraria era aqui", dizemo-nos, enquanto caminhamos na Sete de Setembro. Dizemos isso não nos referindo à livraria da Sete de Setembro, número 329, do seu último endereço. Mas à de antes, números recuados na mesma rua. E recuando-a assim, números atrás, recuamo-la também no tempo para 1970. Ela ficava numa loja, à direita de quem vem da Conde da Boa Vista, numa lojinha pequena, densa, de livros e de gente, por trás do que se tornou depois uma loja de frios. Ou seria por trás de uma lanchonete, no térreo do mesmo edifício, onde estava uma loja de queijos, à margem de um corredor? Se a memória física confunde a sua exata localização, a memória humana é mais precisa.

Chegávamos aos sábados, à espera de O Pasquim. Tarcísio fazia-nos beber, sem muitos rogos, copinhos e mais copinhos de batida de limão, enquanto o jornal não aparecia. Por Deus, seria difícil uma espera mais venturosa. Cachaça, Lukács, limão, Proust, Hemingway e açúcar. Mais cachaça Baudelaire, limão Manuel Bandeira e açúcar Scott Fitzerald. E Hess, e Brecht, misturas que só de lembrar fazem voltar à boca o seu travo. Gildo Marçal, antes de ser lukacsiano em São Paulo, dizia-nos que Lukács fora injusto com os existencialistas. Os que não sabíamos francês sempre achávamos que Sartre era um nome oxítono, Sartrê (e quanto charme nos lábios aspirando Sartrê, fechando a última vogal, com um r bem gutural, "à francesa"). O Velho e o Mar era a maior novela que alguém já escrevera (perdoem a nossa ignorância), e Este Lado do Paraíso subia-nos à garganta como o próprio inferno em que vivíamos. De repente, O Pasquim chegava, e rumávamos para o bar em frente, na certeza de que "intelectual não vai à praia, bebe".

Tarcísio deve ter começado a nos fazer seus clientes quando O Pasquim começou a atrasar. Mas isso é só uma suspeita. O certo é que passamos a comprar livros, como um sistema, semanalmente, a partir da Livro 7, a pequena, onde esperávamos O Pasquim. Antes, boa parte de nossa cultura humanística era fruto do que chamávamos, num eufemismo, de expropriação, ou dizendo de outra maneira, de empréstimos ocultados aos olhos dos bibliotecários. Tarcísio nos abriu a um só tempo os livros com cheiro de papel novo e o crédito, a nós, que não possuíamos nenhum na praça. Depois, com a chegada do primeiro emprego, e o término de cursos e mestrados nas faculdades, quando a quitação de nossas dívidas deixou de ser uma dúvida, a sua Livraria cresceu, adiantou-se nos números da Sete de Setembro, a ponto de atingir em 1993 o lugar de a maior livraria do Brasil de todos os tempos.

É uma pena que neste espaço não caiba o desenvolvimento da sua história, que tanto tem a ver com a nossa própria, de formação, encontros e desencontros, nestes 50 anos da sua criação. Ocorrem-nos valores que não têm vez no mercado, como dever, lembrança-referência do Recife, formação do espírito. Todos bens - como dizê-los? - intangíveis.

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Por fim, ou deveria ficar no começo?, digamos então, para o começo do fim, é importante destacar que a Livro 7 se inscreveu na história cultural do Recife, no ramo de livrarias que teve um ponto alto na Livraria Imperatriz. Explico por que em três importantes depoimentos. 

No primeiro deles, na declaração do grande químico Ricardo Ferreira, falecido em 2013, onde fala como soube no Recife da obra seminal de Linus Pauling, Prêmio Nobel de Química: 

“Quando eu cursava o terceiro ano do Curso Colegial, no Recife, em 1945, meu Professor de Química era o Dr. Hervásio Guimarães de Carvalho, que logo depois foi para o Rio de Janeiro e se tornou um dos grandes físicos experimentais do Brasil, centrado no C.B.P.F. Hervásio dava algumas aulas sobre a ligação química e nos disse que o grande pesquisador nesta área era Linus Pauling, em Pasadena, Califórnia. Descobri então que existia à venda, na Livraria Imperatriz, de Berenstein & Irmãos, alguns poucos exemplares do livro de Pauling, e comprei logo um.”

Essa importante declaração ligo a uma entrevista que o cientista Antonio Carlos Pavão me concedeu: 

“Vou citar aqui um exemplo, que é do Ricardo Ferreira. O Linus Pauling publicou um livro, que eu acho o livro mais importante da Química no século 20, que é ‘A natureza da ligação química’, The Nature of the Chemical Bond. São três edições desse livro. A segunda edição, que é a mais importante, o Ricardo Ferreira comprou aqui no Recife, em 1945, no original em inglês. E me disse ele que num simpósio em Paris, o professor Daubel lhe disse: ‘olha, esse livro que você comprou no Recife em 1945, aqui em Paris ele não existia na época’. É impressionante, não é? …”

E finalmente, a ligação do dono da Livro 7 com a excelência do mundo livreiro, quando fala onde ele aprendeu a ser livreiro: 

“A Livraria Imperatriz, para mim,  foi onde tudo começou”. Com o dono da Imperatriz, Jacob Berenstein, Tarcísio Pereira aprendeu e chegou à gerência. “Jacob me ensinou a saber vender o livro e amar o livro”. 

Ou seja, enfim: da Livraria Imperatriz à Livro 7, que se tornou a maior do Brasil, tudo é história. 

Viva Tarcisio Pereira!

28
Nov20

Para melar a campanha de baixarias, a turma do Melo inventou que Manuela tinha tatuagens de Fídel, de Che

Talis Andrade

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A turma do Melo inventou tatuagens e outras estórias, de quem não tem programa de governo, para melar com baixarias a campanha idealista e séria e dígna de Manuela. Campanha de esperança de quem acredita no futuro, de que lutará para tirar Porto Alegre do abandono. 

Pararam com os fake news, depois que a imprensa internacional revelou estes dias as tatuagens de Maradona, comunista, e amigo de Che Guevara, de Fídel, de Hugo Chávez. Eles pararam de mandar o eleitor de esquerda para Venezuela e Cuba, países hermanos da Argentina de Maradona.

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MARADONA IMORTAL

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por Urariano Mota

Quando soube ontem da morte de Maradona, senti um abalo, que me deixou sem compreender a emoção. Foi como um sentido de perda pessoal, semelhante à perda de um amigo, cuja partida sentimos sempre como uma parte de nós que se vai e se esvai. Maradona, um amigo, que coisa mais contraditória. E por quê? Havia em mim, como na maioria dos brasileiros, um sentimento de rivalidade por seu brilho, ao qual sempre contrapomos o de Pelé. Maior é Pelé, Pelé é o maior jogador do mundo! O mais brilhante, genial é Pelé, etc. etc. Coisa sobre a qual o coração da gente protesta.

E por quê? Eu e amigos alcançamos uma idade em que a compreensão se torna mais elástica. Isso não é bem condescendência. Talvez seja uma ciência da experiência. Mas no abalo do peito, nos olhos cuja umidade eu reprimia, havia também uma ciência da idade. O tempo que acumulamos nos deixou todos mais emotivos. Vezes há em que de repente embargamos a voz, viramos o rosto de lado envergonhados por cedermos de modo tão imprevisível às lágrimas. E fiquei sem explicação, como um sentimento expresso no soneto de Camões:  

“ferida que dói e não se sente;
um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer”.

Mas depois compreendi. A razão que o peito agitava é que estava guardada na memória mais que uma absurda rivalidade entre dois gênios do futebol. Maradona era, foi um daqueles atletas fora da alienação política. Ele esteve sempre ao lado da esquerda, contra a corrente, contra o conforto da conformação. Então vi as fotos da tatuagem de Che no seu ombro, a de Fidel na perna esquerda, e suas declarações em defesa de Lula e Dilma, a favor  de Hugo Chaves e de Maduro. Nisso residia o meu abalo no peito, a emoção pelo Pibe.  Então pude ver sem olhos de rivalidade, então pude ver como um cidadão do mundo o seu belíssimo segundo gol contra a seleção inglesa. 

 

https://www.youtube.com/watch?v=1wVho3I0NtU&feature=emb_logo 

Meu Deus, um craque desses é do mundo, é da confraternização universal, está além da conflagração. Quase há um grito oculto neste gol: “abaixo o imperialismo inglês!”.

E vi, e soube algumas das suas declarações, que o sentimento adivinhou e não sabia:

"Eu não quero que Havelange diga que me quer como um pai. Eu não sou um filho da puta.  

Me dei conta depois que as dores de barriga da minha mãe eram porque ela não comia para dar de comer aos filhos.

Eu cresci em um bairro privado de Buenos Aires. Privado de luz, privado de água, privado de telefone."

Então pude compreender com olhos da razão aquilo que o sentimento viu antes. E mais sereno, agora posso dizer que a morte de Maradona deixa na gente algumas reflexões. No espaço dos seus 60 anos, ele cresceu, amadureceu para o gênio que foi, sofreu e se redimiu no campo com brilho único. E  em posições políticas que desejavam mudar o mundo. 

E por isso ele se tornou imortal. E procuro esclarecer de que gênero com perguntas do meu  romance “A mais longa duração da juventude” num trecho: 

“o que faremos da imortalidade? O que plantaremos no lugar do que é efêmero, que retira do próximo fim o seu gozo? Como teremos a saciedade sem a fome? Seria a imortalidade o paraíso sem o seu contrário, uma duração eterna do que é fluido e fugaz? Será como uma estrada que leva a lugar nenhum, uma reta de asfalto infindo sem marcos e placas de cidades?,,,” 

E mais:

“Nós alcançamos a imortalidade, isto é, o que transcende a sobrevivência ao breve, porque a imortalidade não é a permanência de matusaléns decrépitos, nós só a alcançamos pelo que foi mortal, mortal, e sempre mortal não morreu. A imortalidade é isto, o trompete de Louis Armstrong, a voz de Ella Fitzgerald”, o jogo e vida de Maradona.  

Ele foi canhoto no campo e fora do campo. Ele foi canhoto por chutar de esquerda e canhoto na política. Canhoto também no que existia de desajeitado, no uso e abuso de substâncias para diminuir a dor. E lembro de Cartola na canção O Mundo é um Moinho. Num dos versos o nosso compositor canta “em cada esquina cai um pouco a tua vida”. Assim foi a sua pessoa e gênio que não cabia em si. 

Os jornais falam que Maradona estava ansioso, deprimido e angustiado nos últimos dias.  Que a sua esperança era voltar para Cuba, a terra onde recebeu  a mais ampla solidariedade e tratamento de hermano para hermano. Mas a última dor chegou antes. Então fica isto, para sempre: 

Maradona imortal no futebol, no cidadão político, no homem alto, altíssimo,  fora do campo, quando abraçava e amava as referências socialistas. Ele foi mais que um tango. Para mim, mais que um deus. Um homem, enfim. 

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28
Nov20

Inauguração do Memorial Prestes: A generosidade comunista e a resistência poética

Talis Andrade

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A resposta certeira de Manuela: “Sabe, Melo, eu estou feliz que finalmente tu trouxeste o bicho-papão do comunismo para o debate. Eu quero que os senhores e senhoras comparem as nossas experiências porque o meu partido governa o Maranhão, pegou o Maranhão destruído, Melo, pelo teu partido, pelo MDB de [José] Sarney”. Flávio Dino, do PCdoB, governa o Maranhão desde o dia 1 de janeiro de 2015. A resposta de Manuela me fez lembrar a fala de André Pereira. Aqui lembro o romancista Urariano Mota, admirador de Manuela lá do seu exílio em Olinda, dos quatro cantos doados para o povo no Carnaval.

Inauguração do Memorial Prestes: A generosidade comunista e resistência poética

Memorial Luis Carlos Prestes (Palmas) - TripadvisorMemorial Coluna Prestes tem uma programação especial - Notícias -  Secretaria da Comunicação

Como eleger, entre tão belos e incandescentes discursos que iluminaram a inauguração da obra única de Oscar Niemeyer na terra natal de Luiz Carlos Prestes, no sábado (28), a mais densa e emocionada manifestação em louvor da trajetória solidária do homenageado com este monumental Memorial que enriquece o patrimônio cultural e arquitetônico de Porto Alegre para sempre?

Atrevo-me a este resumo do título, que amalgama três ideias que escolho como substanciais. E ainda cito um texto do próprio Niemeyer, sobre a motivação do projeto.

A generosidade comunista, socialista e prestista reuniu no lotado espaço da edificação de 700 metros quadrados, todos os que, de alguma forma, contribuíram para que um processo de 27 anos (iniciado em 1990, ano da morte de Prestes) pudesse, enfim, virar realidade agora. 

Assim, reconheceram todos, vivos e mortos que pavimentaram a construção, de Dulphe Pinheiro Machado e Paulo Ricardo Petri in memoriam, ao vereador Vieira da Cunha autor do projeto de lei que deu legitimidade legislativa ao empreendimento, ao prefeito Olívio Dutra, que doou o terreno da municipalidade e até mesmo o presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Noveleto, que partilha o local e canalizou recursos financeiros para erguer o prédio onde predomina a cor vermelha, em tons que se alternam conforme os percalços e as glórias da vida do Cavaleiro da Esperança, como o chamou Jorge Amado. O compositor e cantor Taiguara, autor da musica, cujo titulo é exatamente a consigna de autoria do escritor baiano, foi destacado e representado pelo filho também músico Lenine Guarani, que realizou uma apresentação musical no palco armado na área externa do Memorial. Neste local protegido da garoa do entardecer, representantes de entidades e partidos políticos se pronunciaram, salientando a necessidade de inspirarem-se nas lições de Prestes. Entre muitos, Carlos Lupi, presidente nacional do PDT e Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos.  

A professora Gorete Grossi, que fez o papel de mestre de cerimônia do ato da inauguração oficial, ainda citou o secretário estadual de Segurança e o secretário municipal de Cultura que igualmente colaboraram para o sucesso do evento.  Atentos soldados da BM e sigilosos policiais civis não permitiram que os sempre belicosos provocadores do MBL praticassem a intolerância e o ódio que infestam as redes sociais e algumas pregações nas tribunas da colendas municipal e estadual.  E as poucas vaias esboçadas dirigidas ao secretário do prefeito tucano da capital foram amortecidas pelo soar do brado mais forte e convicto do “Fora, Temer!” que ecoou, em vários momentos, na sonoridade acústica entre os vãos e as curvas da engenhosa obra.

Poética foi a intervenção da atriz Débora Finocchiaro citando textos de Júlio Cortazar e Caio Fernando de Abreu, que valorizam a arma vigorosa da poesia, e a imagem que a deputada federal Maria do Rosário elaborou sobre o inverno gelado e o verão de sol avermelhado que se descortinarão incorporados ao visual do prédio situado a pouca distância do rio Guaíba.

A resistência foram pregações de todos os que falaram, de Olívio Dutra, Adão Villaverde, Ciro Gomes e outros.

Olívio garantiu que não há democracia sem socialismo. 

O deputado estadual Villaverde disse que são três os eixos essenciais do pensamento e da ação de Prestes que nortearam sua geração: a luta popular, a democracia e a soberania brasileira.

Ciro, o visitante cearense, elogiou os gaúchos pela grande dimensão do gesto de tributar a memória de um lutador como Prestes. “Vocês nem imaginam o quanto é importante o que está se fazendo aqui hoje”, discorreu. E com a costumeira língua sem papas, exortou a unidade das esquerdas para derrubar o “impostor vagabundo” que usurpa o poder surrupiado da presidenta legítima.

O professor Geraldo Barbosa, presidente da Associação do Memorial, dividiu com seu vice Edson Santos e o diretor de Patrimônio Ronald Moreira as congratulações pelo árduo trabalho de quase três décadas em que a própria lei autorizando a obra foi modificada, com o apoio do prefeito José Fogaça, afirmando a relevância da obra, como fez, na semana passada, a maioria dos vereadores da Câmara da capital.

Barbosa ainda leu uma carta enviada do Rio de Janeiro pela filha do laureado, Anita Benário Prestes, e a parte derradeira de uma reflexão de Oscar Niemeyer a respeito do projeto que produziu para agraciar o amigo comunista.

Datado de 2008 e detalhando a intenção de eternizar a caminhada de Prestes a partir dos 26 anos, quando liderou a coluna famosa pelo país, o texto “Não basta louvar” surpreende também pela surpreendente atualidade, já passada quase uma década.

Niemeyer cita “O Poder Global”, coletânea de José Luiz Fiori, sobre as contradições do mundo globalizado e “a onda neoconservadora que cresce por toda parte, com forte apoio do governo norte-americano”. Isso há 10 anos…

E no parágrafo final, Niemeyer refere-se ao império norte-americano Bush, tão dominador em sua devastação capitalista quanto é hoje o de Trump.

Bastaria mudar o nome do presidente na escrita do arquiteto aqui:

“Reli este texto e sinto que não basta louvar o passado. O importante é continuar essa luta por um mundo melhor que o império de Bush procura em vão obstruir”.

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24
Nov20

O que está por trás do racismo?

Talis Andrade

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Não é preciso refletir muito para entender o que está por trás do racismo. É o ressentimento de uma elite branca, privilegiada, que vê seu espaço social tomado por uma maior diversidade cultural, escreve Michel Aires de Souza Dias.

Isso fica bem demonstrado nas eleições deste ano. Curitiba e Joinville, pela primeira vez,  elegeram uma vereadora negra. Benedita da Silva perdeu para governador do Rio de Janeiro. Em 1998 foi eleita porque era vice. Assumiu o cargo de 6 de abril de 2002 a 1 de janeiro de 2003, quando Garotinho renunciou para se candidatar a presidente.

O Sul e Sudeste são pra lá de suprematistas. O demo, o capeta, não deixa nenhum preto se eleger governador ou prefeito do Sul: Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Nem do Sudeste: São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.

São Paulo teve Celso Pitta prefeito (1997-2000), mas era o Sérgio Camargo de Paulo Maluf. 

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Já vi branquelo chamar Boulos de negrinho. O 'radicalismo' de Boulos está na negritude que lhe sobrou: na cultura, na convivência com o povo, nos gostos e jeitos, e nos "beiços e cabelo ruim".

Veja que 33 juízes abandonaram a Associação dos Magistrados de Pernambuco (Amepe), pelo atrevimento de um seminário sobre Racismo nas Palavras. Na Lava Jato nunca existiram juiz, juíza, procurador, procuradora, delegado, delegada de cor. A Lava Jato sempre lavou mais branco.

Dados do censo do CNJ mostram, no entanto, que a questão de gênero emperra quando é sobreposta à raça. Mulheres brancas são 23,8% dos juízes federais, enquanto pardas são 12,7% e pretas somam apenas 1,5%. Para ter ideia do tamanho do abismo racial, os dados do levantamento apontam que o total de magistradas pretas é de 12 profissionais na Justiça Federal.

Indaga Urariano Mota: "Onde estavam os generais, almirantes e brigadeiros negros? Onde estavam os reitores, presidentes de senado, da câmara, governadores negros? Onde estavam as nossas misses e modelos negras? Onde estavam, de modo mais sério, os nossos grandes físicos e cientistas negros? Onde estão?"

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O que está por trás do racismo?

por Michel Aires de Souza Dias

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No Carrefour de Porto Alegre homem negro foi brutalmente assassinado por dois seguranças brancos. Foi um ataque covarde e desproporcional. Apesar de parecer mais um caso de assassinato, são os negros que mais morrem por causa da violência no Brasil. Um levantamento feito em 2018, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que eles representam 54% da população, mas respondem por 75,7% das mortes. Ou seja, de cada 100 vítimas de homicídios, 75 são negras. Ao analisar os dados da última década, as estatísticas mostraram que as desigualdades raciais se aprofundaram ainda mais, com uma grande disparidade de violência experimentada por negros e não negros. Entre 2008 e 2018, as taxas de homicídio apresentaram um aumento de 11,5% para os negros, enquanto para os não negros houve uma diminuição de 12,9%

Nestas eleições também vimos muitos ataques racistas. Em Joinville, a primeira vereadora negra, Ana Lucia Martins, foi alvo de ataques racista e de ameaças de morte por um grupo ligado à Juventude Hitlerista. Em São Paulo, no Dia da Consciência Negra, tentaram assassinar o professor de jornalismo, Juarez Xavier, da Universidade Estadual Paulista (UNESP). No Espírito Santo, a candidata a vice-prefeita de Cariacica sofreu ataques racistas em um comício. Em Porto Alegre, o candidato à prefeitura Valter Nagelstein (PSD) criticou de forma racista vereadores negros eleitos pelo PSOL. A declaração do candidato Valter Nagelstein, derrotado na eleição, obtendo apenas 3,10% dos votos, nos dá uma amostra do tom racista da sociedade brasileira.  

A declaração foi confirmada pelo candidato e por sua assessoria de imprensa, e está circulando em um áudio nas redes sociais. O candidato afirmou sem pudor que, “fica cada vez mais evidente que a ocupação que a esquerda promoveu, nos últimos 40 anos, da universidade, produzem os seus resultados. Basta a gente ver a composição da Câmara, cinco vereadores do PSOL. Muitos deles, jovens, pessoas negras, vereadores esses sem nenhuma tradição política, sem nenhuma experiência, sem nenhum trabalho e com pouquíssima qualificação formal“.

Em Porto Alegre, dos 36 vereadores eleitos, cinco são jovens negros. Ao contrário do que diz Nagelstein, todos esses jovens possuem curso superior e trabalham, são atuantes em suas comunidades e militantes em seus partidos. Eles são qualificados e possuem grande consciência da realidade que os discriminam e da dívida histórica que a sociedade tem com o povo negro.  Nota-se que o objetivo de Nagelstein foi desqualificá-los, associando a cor da pele a um baixo nível de instrução, de preparo e capacidade para fazer política.

Não é preciso refletir muito para entender o que está por trás do racismo. É o ressentimento de uma elite branca, privilegiada, que vê seu espaço social tomado por uma maior diversidade cultural. A sociedade brasileira é fundada em relações hierárquicas, onde certos espaços sociais são determinados por uma hierarquia de prestígios e privilégios.  Os negros começa a ocupar esses espaços, que antes pertenciam a uma casta de brancos com certo poder aquisitivo. Desse modo, o ressentimento surge por causa da perda relativa de prestígio e status fruto da mobilidade social promovida nos últimos anos.

Hoje, o maior símbolo do racismo no Brasil é representado pelos baixos índices socioeconômicos da população negra e pelo acesso desta às posições na pirâmide social.  Historicamente, sempre houve maiores níveis de vulnerabilidade econômica e social nas pessoas de cor preta e parda. Contudo, algo vem mudando nos últimos anos. Devido as políticas afirmativas iniciadas no governo PT, os negros começaram a ter maior acesso às universidades e a uma melhor qualificação profissional. A pesquisa “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgada pelo IBGE, em novembro de 2019, mostrou que, pela primeira vez, o número de negros e pardos nas universidades públicas brasileiras ultrapassou o número de matriculados brancos, chegando a 50,3%. Essa maior escolarização tem possibilitado que os negros ocupem espaços sociais que anteriormente eram excluídos. A precária representação desse grupo na política tornou-se motivo de reivindicação por uma maior participação.  Houve também uma maior conscientização e engajamento desse grupo nas causas sociais e nos movimentos de resistência populares. Os movimentos negros hoje estão muito mais preparados, organizados e engajados na luta pela igualdade, equidade e respeito às diferenças. Cada vez mais a população negra se organiza e se envolve com a política. Cada vez mais eles exercem o poder do dissenso na sociedade.

Segundo o filósofo francês Jacques Rancière (1996), o dissenso na política não é um conflito de ideias, não é um conflito entre esquerda e direita ou a oposição entre o governo e as pessoas que o contestam, mas um conflito sobre como o mundo deve ser organizado, ou seja, sobre “a configuração do mundo sensível”. É um conflito estruturado em torno de quem tem o direito a palavra; daqueles que podem fazer parte da ordem do discurso e aqueles que estão excluídos dessa ordem; de quem deve ter visibilidade e dos que são invisíveis; dos que possuem propriedades e aqueles que são despossuídos de qualquer propriedade; dos que possuem títulos e dos que não os possuem, da distribuição de lugares e ocupações em um espaço comum e aqueles que estão excluídos desse espaço. Hoje, os negros cada vez mais exercem o direito a palavra, cada vez mais eles têm conseguido ocupar o espaço político que sempre lhes foi negado. Cada vez mais eles têm conquistado visibilidade. Cada vez mais eles ganham consciência das forças que lhes oprime.

Para Rancière (1996), a política como dissenso surge porque aqueles que não têm direito de ser contados como seres falantes conseguem ser contados, e instituem uma comunidade pelo fato de se colocarem em comum o dano que nada mais é que o próprio enfrentamento, a contradição de dois mundos alojados num só: o mundo dos que participam e o mundo dos que não participam. O objetivo do dissenso, portanto, é democratizar o espaço político pela afirmação do princípio de igualdade, próprio à esfera do político. Como avalia Pallamin (2012), a política, colocada em termos de dissenso, perturba a ordem dada e a malha de desigualdades sociais na qual se assenta. Ela opera através da enunciação e colocação em prática de um discurso igualitário que coloca em questão as subordinações e identidades estabelecidas. Nesse sentido, o dissenso promove uma forma de resistência expressa em um processo de subjetivação política que começa com o questionamento do que significa “falar” e ser interlocutor em um mundo comum, tendo o poder de definir e redefinir aquilo que é considerado o comum de uma comunidade (MARQUES, 2011).

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Referências

MARQUES, Ângela Cristina Salgueiro e LELO Thales. Democracia e pós-democracia no pensamento político de Jacques Rancière a partir das noções de igualdade, ética e dissenso. Revista Brasileira de Ciência Política, nº15. Brasília, setembro – dezembro de 2014, pp. 349-374. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n15/0103-3352-rbcpol-15-00349.pdf> Acesso em novembro de 2020.

PALLAMIN, Vera. Cidade e Cultura: conflito urbano e a ética do reconhecimento.   Revista Rua, Campinas, Número 18, V. 2, Nov. 2012. Disponível em < https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/view/8638285/5906> Acesso em novembro de 2020.

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. Trad. Ângela Leite Lopes. São Paulo: Editora 34, 1996.

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21
Nov20

Consciência negra e seu dia

Talis Andrade

Zumbi (1927). Pintura de Antonio Parreiras (1860 – 1937) | Acervo do Museu Antonio Parreiras, Niterói

 

por Urariano Mota

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Publiquei uma vez para o Dia da Consciência Negra, há 5 anos, que era preciso acordar todos os dias e arregalar bem os olhos para ver o que a névoa ideológica não deixava. Isto é, o que mais causava espanto: onde estavam os generais, almirantes e brigadeiros negros? Onde estavam os reitores, presidentes de senado, da câmara, governadores negros? Onde estavam as nossas misses e modelos negras? Onde estavam, de modo mais sério, os nossos grandes físicos e cientistas negros? Onde estão?

E não eram perguntas retóricas. Eu pedia que entendessem por que até os mulatos que pularam a cerca e o cerco da exclusão no Brasil, em um trabalho extraordinário, heroico e colossal de autoeducação, como havia sido o caso de Machado de Assis, viraram brancos. Pois não fazia muito tempo que um anúncio da Caixa Econômica Federal exibira um Machado de Assis ariano, bem distante do queimadinho de sol. Mas não só ele atestava a nossa glória de nação europeia. As imagens que viraram ícones de Carlos Gomes, de Castro Alves, ou num exemplo menos ilustre, de Roberto Marinho, todos eram brancos, ou quase brancos.

Mas hoje continuo e acrescento: quis a história que os pontos mais altos da arte e culturas brasileiras fossem atravessados ou inventados por negros e descendentes. Se a nossa cultura, como toda cultura do mundo, é mestiça, a nossa em particular encontra o seu elemento plástico no negro. Por ele, dele e nele se expressa melhor o nosso rosto nacional. E compreendam, porque eu quero dizer: ainda que se encontrem pessoas geniais, de pele branca, ou descendência direta de europeus, a sua expressão é mestiça quando brasileira. E penso e vou mais longe, porque dou um salto arriscado das artes até a ciência mais física. Penso, por exemplo, no gênio universal de Mário Schenberg, quando ele batizou o fenômeno de perda de energia nas estrelas com o nome de Efeito Urca, numa homenagem ao Cassino da Urca. Isso lá nas estrelas.

Mas é no térreo terreno das artes, da literatura, que a obra de brancos no Brasil é nacional porque é mestiça, quando não de cor acentuada de negros. Eu estou pensando agora nos quadro de Tereza Costa Rêgo onde, ela própria mestiça de pele clara, expressa misturada os temas da vida de Pernambuco. Para lembrar só um, menciono A Batalha de Tejucupapo.

No entanto, avancemos na mestiçagem para a cor mais preta. Para nada vezes nada falar sobre o gênio fundador de Machado de Assis, ou da rebeldia de futuro de Lima Barreto, penso de modo mais preciso, particular do meu ser, em Cruz e Souza.

Ainda sem saber que a expressão melhor da gente é arte, eu comecei a me interessar por literatura quando conheci em um dia remoto da adolescência o soneto Só! de Cruz e Sousa. Estes versos me estremeceram:

“Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro…

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Agora percebo que Cruz e Sousa falava assim tão profundo porque expressava a própria dor na sua maneira mais trágica e brasileira. Com a identidade da expulsão da felicidade, à qual teria direito por natureza, legitimidade, talento e amor das gentes.

A esta altura, noto como uma falta irreparável nada ter falado sobre a fecundação negra em nossa música popular e no carnaval. Maracatu de baque virado! Ele protesta por não ter sido chamado à luz destas linhas.

Melhor concluir como há cinco anos, pois haveria muito ainda a falar. Para o dia 20 de novembro, dia da consciência negra, que assinala a morte do grande Zumbi dos Palmares, destaco o ocorrido com o seu nome, no bairro do Zumbi no Recife. Quando pesquisei para o Dicionário Amoroso do Recife, pude ver que na língua portuguesa o nome Zumbi significa alma que vagueia a horas mortas, ou fantasma de animal morto, ou com o sentido último de ser o título do chefe de um quilombo, zambi. Estranho, não? Ou melhor, faz um sentido histórico, porque alma de assombração ou fantasma de animal morto lembra mais uma vingança póstuma contra um herói na luta contra a escravidão.

E quanto ao bairro? O Zumbi, no Recife, foi o Engenho de Ambrósio Machado, lugar de cultivo de cana no trabalho escravo, desde a dominação holandesa. O sociólogo e jornalista José Amaro Correia, amigo já falecido, assim me informou, lembrando o bairro onde ele morou na infância: “Diziam para as crianças: ‘Zumbi vai te pegar’. O medo que havia nos senhores de engenho foi transferido para os explorados. O explorado repetia à sua maneira a consciência do explorador. Até os meus 14 anos de idade, para mim e para todos os meninos, Zumbi não era coisa boa. Esse nome era associado ao bairro. Para as pessoas de fora, nós dizíamos que morávamos na Madalena. Nos anos 50, ainda falavam para as crianças que Zumbi ia voltar, como se fosse uma ameaça. Era o comentário, era o aviso na infância: ‘Zumbi vai voltar’. As mães do bairro diziam para os filhos: ‘não volte tarde, porque Zumbi pode te pegar’”

Assim pude ver a origem histórica do bairro e do seu nome. De lugar de escravos, de terras de senhor de engenho, a lugar onde voltaria Zumbi, desta vez como uma ameaça aos proprietários, e para os descendentes dos explorados, até hoje, como uma assombração, no registro dos dicionários. Que deveria receber um novo significado, que a consciência do novo tempo nos ensina. Deixo a sugestão para atualizar o verbete nos dicionários:

Zumbi, substantivo masculino. Nome do herói brasileiro, pessoa de rara coragem, que se levantou contra a escravidão. Falecido no dia 20 de novembro, deu origem ao dia da consciência negra.

14
Nov20

A pólvora do Brasil e Stanislaw Ponte Preta

Talis Andrade

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O diário do ridículo brasileiro para todo o mundo registrou esta semana a fala do capitão na presidência: “Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”.

Ora, essa fala se viu desmentida e desmoralizada em notícia da Folha de São Paulo: segundo dados levantados pela IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão ligado ao Senado, foram investidos R$ 12,8 bilhões em defesa no ano passado, de um orçamento total de R$ 116 bilhões da pasta. O resto do orçamento foi R$ 50 bilhões de pagamento de militares inativos e pensionistas. E mais R$ 28,6 bilhões para salários dos militares na ativa.

Notem que para investimento em armas houve pouco mais que 10% do orçamento. E não exatamente para pólvora, porque o dinheiro foi diluído em compra de helicópteros, investimentos na estatal Empresa Gerencial de Projetos Navais, projeto de compra de caças e sistema de monitoramento de fronteiras. Ou seja, pólvora mesmo que é bom, o que temos mais é saliva.

O mais curioso é que a vergonha nacional no poder foi antecipada há mais de 50 anos pelo gênio de Stanislaw Ponte Preta. Nosso trabalho agora é lembrar o gênio de Stanislaw nas linhas a seguir:

“Esta historinha ocorreu no Recife, onde o número de boateiros, desde o movimento militar de 1.° de abril, cresceu assustadoramente.

Falam que havia um sujeito tão boateiro, que chegava a arrepiar. Onde houvesse um grupinho conversando, ele entrava na conversa e, em pouco tempo, estava informando: “Já prenderam o novo Presidente”, “Na Bahia os comunistas estão incendiando as igrejas”, “Mataram agorinha o Cardeal”, enfim, essas bossas.

O boateiro encheu tanto, que um coronel resolveu dar-lhe uma lição. Mandou prender o sujeito e, no quartel, levou-o até um paredão, colocou um pelotão de fuzilamento na frente, vendou-lhe os olhos e berrou:

– Fogoooo!!!

Ouviu-se aquele barulho de tiros e o boateiro caiu desmaiado.

Sim, caiu desmaiado porque o coronel queria apenas dar-lhe um susto. Quando o boateiro acordou, na enfermaria do quartel, o coronel falou pra ele:

— Olhe, seu pilantra. Isto foi apenas para lhe dar uma lição. Fica espalhando mais boato idiota por aí, que eu lhe mando prender outra vez e aí não vou fuzilar com bala de festim não.

Vai daí o coronel soltou o cara, que saiu meio escaldado pela rua e logo na primeira esquina encontrou uns conhecidos:

— Quais são as novidades? — perguntaram os conhecidos.

O boateiro olhou pros lados, tomou um ar de cumplicidade e disse baixinho:

— O nosso Exército está completamente sem munição”.

Como veem, além de gênio, Stanislaw Ponte Preta era um profeta.

 

08
Nov20

Avisos de Joe Biden para Bolsonaro

Talis Andrade

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por Urariano Mota

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No momento em que escrevo, o placar das eleições para a presidência dos Estados Unidos aponta 264 para Biden e 214 para Bolsonaro. Perdão, 214 para Trump. Confundi o comandante gringo com o seu capitão. Agora, esse é o placar. Mas Biden lidera em Nevada e, se ganhar lá, leva os 6 delegados do Colégio Eleitoral que faltam para vencer a eleição. 270 nas próximas horas.  

Comentaristas políticos têm sussurrado que a estas horas, lá no Planalto, o clima é depressivo, de cinza, o que é natural para quem sempre achou que essa história de clima era marxismo de floresta. Então, já é tempo de Bolsonaro e ministros começarem a ouvir com muita atenção os avisos que vieram de Joe Biden para o Brasil. Assim, quando o democrata que assumirá a presidência declara que Trump “cobriu os EUA de escuridão por muito tempo, muita raiva, muito medo, muita divisão", o mais sensato é ouvir nisso uma clara indireta, ou direta já, pois o que se aplica à extrema-direita lá, com mais propriedade se aplica à extrema-direita do lado de cá. Ou seja, para não ter que desenhar para o presidente brasileiro entender:  

“Bolsonaro cobriu o Brasil de escuridão por muito tempo, muita raiva, muito medo, muita divisão".  

Perfeito, não?  

E Biden continua com os seus avisos nada cifrados, para todos que babam os sapatos de Trump:   

“Serei um aliado da luz, não da escuridão. É hora de nós, nós, o povo, ficarmos juntos e não cometermos erros. Juntos, podemos nos recuperar dessa temporada de escuridão nos EUA". Ou seja: fora, servidores das trevas: fora, Bolsonaro.  

E de modo preciso, como só a inteligência da democracia no mundo compreende, Joe Biden avisa:  

"Esta é uma eleição de mudança de vida que determinará o futuro da América por muito tempo”.  

Traduzindo para o ministro das relações inferiores: esta é uma eleição que determinará o futuro por muito tempo, até no Brasil. Pois não? Se o presidente bate continência para a bandeira dos Estados Unidos, então é natural que se recolha à sua insignificância de servo de Joe Biden, sem dúvida.

E fala mais Joe Biden para Bolsonaro:  

"O atual presidente falhou em seu dever mais básico para com esta nação. Ele falhou em proteger a população. Ele falhou em proteger o país. E, meus companheiros, isso é imperdoável”. Bravos! É certo que ele se dirigiu ao presidente no poder de lá, mas com Bolsonaro o que se dirige para lá, se atropela com mais acerto para o lado de cá. Portanto, erro nenhum na tradução. Biden é claro e certeiro:  

"Essa tragédia não era para ser tão grande"

E finalmente, este nocaute em forma de discurso:  

"Injustiça econômica, injustiça racial, injustiça ambiental. Eu ouço suas vozes. Se você ouvir, pode escutá-las comigo também" 

Canta Alceu Valença:

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25
Out20

É preciso responder à infâmia contra João Cabral de Melo Neto

Talis Andrade

João Cabral de Melo Neto: A carreira diplomática com touradas na Espanha e  intrigas em Londres

 

Olhem o que fala a besta do fascismo no Itamaraty, quando participou de uma formatura do Instituto Rio Branco na quinta-feira, e criticou o escritor e diplomata João Cabral de Melo Neto, escolhido como patrono da turma.

Os intelectuais brasileiros têm uma tarefa inadiável, acima de todas as outras. Acima da família, da prática cotidiana, acima das suas religiões, crenças ou credos. Hoje, esta é a mais urgente das mais urgentes tarefas: destruir o governo Bolsonaro. 

Não se trata somente de fazê-lo sair logo do Planalto, uma tarefa da maioria do povo, de todos os cidadãos do Brasil. Não se trata somente de levá-lo aos tribunais brasileiros e internacionais. É além disso. Trata-se de destruir o governo Bolsonaro. É um imperativo, um dever de consciência. 

Eis uma das razões. Olhem o que fala a besta do fascismo no Itamaraty, quando participou de uma formatura do Instituto Rio Branco na quinta-feira, e criticou o escritor e diplomata João Cabral de Melo Neto, escolhido como patrono da turma:

“A utopia de João Cabral, esse comunismo brasileiro de que alguns ainda estão falando até hoje, consistia em substituir esse Brasil sofrido, pobre e problemático por um não-Brasil, um Brasil sem patriotismo”

Mas o que era mesmo a utopia de um dos maiores poetas brasieliros? Numa de suas lições isto: 

“Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos”.

Mas o excremento fascista no Itamaraty aproveitou a solenidade e cometeu mais este jato: 

“Sim, o Brasil hoje fala de liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária, que sejamos esse severino que sonha e essa severina que reza”. 

Essa é uma infâmia primeiro à poesia, segundo a João Cabral de Melo Neto, terceiro à inteligência e honra nacional. O Severino universal do poeta é  outro, diferente em tudo das trevas no poder:

Poema célebre de João Cabral tem versão em desenho animado - MEC

“— Seu José, mestre carpina,

e em que nos faz diferença

se acabamos naufragados

num braço do mar miséria?

*

— Severino, retirante,

muita diferença faz

entre lutar com as mãos

e abandoná-las para trás….

*

— Seu José, mestre carpina,

que lhe pergunte permita:

há muito no lamaçal

apodrece a sua vida?

e a vida que tem vivido

foi sempre comprada à vista?

*

— Severino, retirante,

sou de Nazaré da Mata,

mas tanto lá como aqui

jamais me fiaram nada:

a vida de cada dia

cada dia hei de comprá-la”João Cabral de Melo Neto Archives - CENPEC

Mas para o fascista no Itamaray o Brasil e Severinos devem ser:

“Na ONU, que teria sido, que foi fundada no princípio da liberdade, mas que a esqueceu. Sim, o Brasil hoje fala de liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária” 

Por isso retornamos: é preciso destruir o governo Bolsonaro. Então esclareço o modo como esse alto e necessário imperativo de consciência pode ser realizado: é preciso destruir a ideologia fascista, é preciso destruir a ordem e moral fascista, é preciso lutar sem tréguas ou quartel, em todas as tribunas, em todas as escolas, jornais, televisão, rádio, conversas íntimas, conversas públicas, nas ruas, em casa, no campo e na cidade. O mal que está no Planalto é um câncer que contamina e se propaga em metástase no seio do povo brasileiro. É preciso destruí-lo como a nossa mais nobre e urgente tarefa. As perguntas que caem sobre nós são estas:  

- És um escritor? 

- És um poeta? 

- És um professor?

- És um músico, um cineasta, um jornalista, um pintor, um artista de teatro?

Se respondermos “sim”, devemos então responder à pergunta seguinte: 

- És um homem? 

- Sim. 

Então este é o nosso caminho: destruir o governo Bolsonaro. De todas as formas, conteúdos e maneiras. Ou não poderemos sequer olhar a altura da nossa civilização. Ou não seremos dignos destes versos:Morte E Vida Severina: Amazon.es: João Cabral de Melo Neto: Libros

“— Severino retirante,

deixe agora que lhe diga:

eu não sei bem a resposta

da pergunta que fazia,

se não vale mais saltar

fora da ponte e da vida;

nem conheço essa resposta,

se quer mesmo que lhe diga;

é difícil defender,

só com palavras, a vida,

ainda mais quando ela é

esta que vê, severina;

mas se responder não pude

à pergunta que fazia,

ela, a vida, a respondeu

com sua presença viva.

E não há melhor resposta

que o espetáculo da vida:

vê-la desfiar seu fio,

que também se chama vida,

ver a fábrica que ela mesma,

teimosamente, se fabrica,

vê-la brotar como há pouco

em nova vida explodida;

mesmo quando é assim pequena

a explosão, como a ocorrida;

mesmo quando é uma explosão

como a de há pouco, franzina;

mesmo quando é a explosão

de uma vida Severina”. 

Que o poeta e sua defesa encarnem uma ação contra a infâmia que chamam de Bolsonaro.

 

 
23
Out20

O candidato do terror no Ceará

Talis Andrade

Sessão Plenária em 17 de Janeiro de 2017 - YouTube

 

por Urariano Mota

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Antes de mais nada, aviso que os nomes da maioria das fontes das denúncias não podem aparecer por motivo de segurança dos denunciantes. Isso posto, vamos às notícias que não aparecem na mídia impressa até agora.

Pacatuba é um município a 30 quilômetros de Fortaleza, na região metropolitana. Em bons tempos, foi um lugar de paz e trabalho. Mas com a ascensão de Bolsonaro ao poder, tudo mudou. Acompanhem o caso do prefeito e candidato à reeleição Carlomano Marques, bolsonarista de métodos e ideologia. Ele é típico de um gênero de político que se fortaleceu sob a barbárie do presidente que aterroriza o Brasil.

Primeiro, observem como o prefeito procura calar as denúncias de corrupção. Uma das situações mais graves em relação aos meios de comunicação de Pacatuba ocorreu envolvendo o segurança particular do prefeito, um capanga conhecido por João Filho. Depois que criticou o prefeito Carlomano Marques, o radialista Felipe Gomes, do programa A Verdade na Boca do Povo, da Rádio Nova Pacatuba, foi vítima das ações de violência e espancamento.

Em 5 de maio deste ano, Felipe Gomes havia ido buscar a mãe, funcionária pública municipal. Por volta da hora do almoço, já voltando pra casa, o radialista foi covardemente agredido por João Antônio da Silva Almeida, o João Filho. Atônito, e sem entender direito o que acontecia, Felipe Gomes não teve reação quando o carro onde o segurança de Carlomano era conduzido, ultrapassou o seu onde estavam a mãe e filho, e fechou a passagem pela calçada, já com as portas escancaradas.

Na sequência, o agressor desceu do automóvel e, de cassetete em punho, foi em direção à vítima. Felipe Gomes ainda teve tempo de perguntar qual o motivo daquela violência. A resposta foi direta: “Pra você aprender a não falar demais”.

O fato ocorreu a poucos metros da Casa Amarela, sede da Prefeitura Municipal de Pacatuba, e próximo da chamada Torre do Espia, equipamento de segurança pública, onde um conjunto de câmeras registra o movimento 24 horas por dia.

Mas o radialista Felipe Gomes não se intimidou. Continuou fazendo seu papel de crítico ao prefeito bolsonarista e abriu boletim de ocorrência, denunciando a agressão. Passou por exame de corpo de delito, fez ultrassonografia no crânio e contratou advogado para tentar fazer cópia das imagens da situação de violência de que foi vítima. Mas as câmeras da Torre têm um limite de tempo para guardar o que foi gravado. E o delegado informou não ter mais como entregar imagens, pois já não havia mais tempo. O delegado não aceitou disponibilizar as imagens no primeiro pedido feito por Felipe Gomes. Só aceitou quando um advogado fez o pedido formalmente.

Outra vítima da truculência do candidato à reeleição de prefeito Carlomano Marques foi o professor Paulo Tadeu. Em meados de agosto deste ano, o educador filmava uma ação dos aliados do prefeito com indícios de irregularidade. Ao invés do sugerido pelo Ministério da Educação, a distribuição de kits escolares não estava acontecendo em uma escola do município onde era aguardada pelos pais dos estudantes. Paulo Tadeu ficou surpreso: os kits de alimentação estavam sendo entregues em casas, da rua onde ele mora.

O educador registrava a entrega e falava com o vereador Vaval Cardoso (Republicanos), que disputa a reeleição na coligação que apoia o prefeito. A conversa com o político foi bruscamente interrompida pela ação destrambelhada do segurança de Carlomano, João Filho, que tomou o celular das mãos de Paulo Tadeu, jogando-o ao chão e o destruindo.

Outra vítima da mesma ação de Carlomano Marques foi Pedro Reginaldo, morador da Rua do Trilho, na sede do município. Ao tentar filmar a mesma cena que o professor Paulo Tadeu gravara, ou seja, a distribuição irregular de alimentos do PNAE, Pedro Reginaldo foi abordado por outro segurança de Carlomano, indicando modus operandi da “equipe” do prefeito: violência desnecessária.

Desde o início da atual gestão, em janeiro de 2017, os moradores da cidade convivem com covardia, truculência e falta de respeito para com aqueles que discordam ou criticam qualquer ação do Poder Executivo. Milicianos armados andam entre os populares, intimidando. Os cearenses comentam que Carlomano Mrques é um político local com perfil de carioca de Bolsonaro. .

No mais recente terror, a enfermeira e vereadora de Pacatuba Karina Cordeiro(PR), fez um vídeo e denunciou o prefeito Carlomano Marques, o sobrinho dele Rafael Marques(chefe de gabinete), e Roberto Feitosa por calúnia, difamação e injúria. Segundo ela, Roberto Feitosa, aliado do prefeito, publicou um vídeo ofendendo sua dignidade com palavras mentirosas, pornográficas e de “baixo calão”. A vereadora afirma que o que acontecer com sua integridade fisica e de sua familia a culpa será do prefeito e seu sobrinho.

Antecedentes criminais

Carlomano é um veterano na política cearense. Em dezembro de 2012, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará determinou a cassação do seu mandato por denúncias de compra de votos ainda no processo eleitoral de 2010. No entanto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a cassação. Apoiador de Jair Bolsonaro na campanha à Presidência da República em 2018, o médico acumula polêmicas desde sua estreia na vida pública em 1988, como vereador de Fortaleza, pelo partido remanescente da Ditadura Civil-Militar: o PDS (hoje Progressistas). Desde lá, teve ininterruptos sete mandatos de deputado estadual até se eleger para a prefeitura de Pacatuba, em 2016.

A eleição em Pacatuba marca um embate entre as bases aliadas de Bolsonaro e do governador Camilo Santana (PT). À frente da coligação “O futuro não pode parar”, o prefeito busca a reeleição e reúne a “fina flor” do Centrão, a nova base bolsonarista do Congresso Nacional, em sua aliança (MDB, Progressistas, Republicanos, DEM e PTB), tendo como principais apoiadores o deputado estadual Leonardo Araújo e o deputado federal Moses Rodrigues (ambos do MDB). O peso da família Marques no município é tamanho que o candidato a vice é o sobrinho do prefeito, Rafael Marques (MDB), chefe de gabinete da prefeitura de 2017 ao longo da gestão.

O acúmulo de denúncias envolvendo a gestão e agora a campanha de Carlomano é considerável. O prefeito iniciou a gestão rodeado de parentes: o irmão Armando Marques e cinco sobrinhos: o próprio Rafael Marques, Cláudio Pitta, Armando Marques Júnior, Marçal Custódio Marques e Milena Marques, bem com a até há pouco tempo a primeira dama Maria Selma Cardoso da Silva (hoje também candidata a prefeita, pelo PSD) alinhavam ao lado de Carlomano no primeiro escalão. Carlomano e Selma se divorciaram depois.

Não demorou muito para os cidadãos mais atentos às contas públicas enxergarem a farra que virou a administração Carlomano. Logo no início, em janeiro de 2017: contratações exageradas, preços superfaturados, serviços não prestados e diversos desvios, denúncias ainda não apuradas.

Chamou a atenção dos técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Ceará a contratação da coleta de lixo com valores superfaturados e inexecução do contrato. A dispensa de licitação por três meses teve o prazo do contrato aditivado por igual período. No total, os valores totalizaram R$ 3.305.004,29 com R$ 550.834,09 ao mês. Dois pontos chamaram a atenção: o preço anterior (até dezembro de 2016) era de R$ 207.004,50 ao mês, constatando-se uma majoração de 165% na troca de administração.

Realizada a licitação, a vencedora do certame licitado foi a Gold Serviços e Construções Ltda (CNPJ 10.490340/0001-56) a qual era sublocada para o serviço no chamado “período especial”, sem tomada de preços, dando continuidade à coleta de lixo. O custo mensal subiu para R$ 579.874,60. A Gold, ainda em 2017, foi investigada no âmbito da operação “Fraternidade”, desenvolvida pela Polícia Federal. Essa operação analisou desvio de recursos públicos da ordem de R$ 380 milhões.

Outras denúncias

No período de emergência fiscal, uma cooperativa médica foi contratada para suprir os serviços de saúde nas unidades básicas, secundárias e hospitais de Pacatuba destinadas ao atendimento universal. Os médicos foram contratados como terceirizados. Desta forma, o processo de escolha se deu de forma nebulosa, com a cooperativa escolhida na seleção tendo indicado suas concorrentes.

A execução das atividades pelos cooperados impossibilitava a constatação da execução do serviço, pois tanto a administração quanto as gerências das unidades de saúde não possuíam instrumentos de controle de frequência dos trabalhadores ligados à Cooperativa. A população não viu melhoria no atendimento, mas o valor pago pelos seis meses de contrato alcançou a generosa cifra de R$ 6.025.111,75 (R$ 503.000,00 ao mês).

A empresa GigaJet Comércio Varejista de Serviços, prestes a fechar as portas, teve seu nome incluído de forma fraudulenta numa licitação organizada pela Prefeitura de Pacatuba.

O empresário João Robson Franklin Cavalcante viu sua GigaJet “inscrita” em dez processos licitatórios em Pacatuba. João Robson assegura nunca ter posto a GigaJet nessas licitações. Sob risco de estar servindo de laranja, registrou boletim de ocorrência (BO número 304-1045/2017). O alerta à Polícia gerou o inquérito policial (IP) 311-46/2017, o qual descobriu como “pólo ativo” da falcatrua um cidadão chamado Pedro Aírton Bertholdo Júnior. Coincidência ou não, Pedro fora escolhido como procurador da Câmara Municipal e sua principal especialidade era ser o genro da então primeira dama Maria Selma Cardoso da Silva.

E mais recente: o juiz eleitoral Giancarlo Antoniazzi Achutti proferiu, na manhã da terça-feira (19), uma sentença na qual condena Lucivânio dos Santos Lima a pagar multa de R$ 53.205,00, por ter postado, no dia 5 de outubro, às 19h34min, no grupo de WhatsApp “TV Maracatuba” uma imagem do resultado de uma suposta pesquisa eleitoral, com a legenda “pode enrolar a bandeira”. A postagem seria benéfica ao prefeito de Pacatuba, Carlomano Marques, candidato à reeleição pelo MDB.

Parte desses crimes foi denunciado a órgãos de fiscalização pelos vereadores Ênio Medeiros e Karina Cordeiro (ambos do PDT). Eles fazem parte da pequena bancada de oposição, pois apenas três dos 15 vereadores fazem oposição ao prefeito. As investigações têm sido lentas, mas podem ter desdobramentos muito em breve. Uma coisa é certa: o julgamento das urnas poderá encerrar essa sequência de situações controversas. No próximo dia 15 de novembro, os eleitores de Pacatuba irão determinar se Carlomano é “o Grande” ou o “o Breve”.

Enquanto isso, os eleitores têm medo de responder até mesmo pesquisas eleitorais pelo telefone. O clima de terror não é pequeno.

 

 

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