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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Fev20

As empregadas domésticas que jamais irão para a Disney

Talis Andrade

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“Todo o mundo ia para a Disneylândia, empregada doméstica ia para a Disneylândia, era uma festa danada!”, disse Paulo Guedes.

por Urariano Mota

O Ministro Paulo Guedes, aqui e ali, tenta ser humorista daquele gênero da comédia stand up. Nessas ocasiões, ele se revela um burguesão que comete maravilhas, quando fala de improviso como nesta semana:

“Todo o mundo ia para a Disneylândia, empregada doméstica ia para a Disneylândia, era uma festa danada!”

De imediato, observo que ele se referiu às domésticas como empregadas nordestinas. Em dúvida, percebam que ele usa a palavra “danada”. É claro, esse adjetivo é legítimo do português em todo o Brasil, mas é entre o povo nordestino que ele adquire uso corrente de coisa excessiva, intensa, ou como cantava Luiz Gonzaga, danado de bom. Empregada nordestina – até ela! – em Disneylândia só podia mesmo ser uma festa danada.

Em segundo lugar, o ministro quanto mais descontraído mais ele mesmo, burguês perigoso. bufão revelador da sua classe, da sua igualha. E nesse particular, ele expressa os costumes seculares da categoria onde vive. Está na sua carga genética, está na sua formação. Isso quer dizer, ele fala como a canalha que tenho visto em várias ocasiões. Lembro que no aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, então famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava. Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada. Tão natural… os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindo.

Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu. Tão africano, não é? Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê. Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada. Então eu, no limite da raiva, ofereci o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase: “a senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente”. A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano. Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”.

O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas, como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, sobrevive às mudanças legais. É histórico no Brasil, é como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes delas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história. Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados! É justo, não é? A cidadania só alcança os iguais.

Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos. A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro. Não estranhem, porque não exagero. Não faz muito tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.

Esse “humor” do ministro foi certa vez expresso por um desembargador aposentado. Ele também tentou ser humorista à custa dos excluídos da nossa harmoniosa sociedade de classes. E publicou um artigo, que mais se devia chamar um termômetro moral da nossa elite, em que pôs o excelso título de “Pequeno dicionário da empregada doméstica”. Não viesse de quem veio, de um indivíduo que ocupou altos cargos na Justiça do país, o artigo seria deitado ao limbo, para o justo repouso no esquecimento. O texto foi publicado no magnífico órgão de imprensa da Associação Paulista dos Magistrados.

Segundo o preclaro e excelso ex-magistrado, este seria o “dicionário” das empregadas domésticas, o pequeno dicionário das empregadas para ser lido pelas classes cultas, do gênero e classe de juízes como ele:

Denduforno – dentro do forno
Dôdistongo – dor de estômago
Doidimai – doido demais
Dôsitamu – dor de estômago
Gáscabô – o gás acabou
Iscodidente – escova de ente
Issokipómoiá – isto aqui pode molhar
Ládoncovim – lá de onde que eu vim
Lidialcom – litro de álcool
Lidileite – litro de leite
Mardufigo – mal do fígado
Mastumate – massa de tomate
Nossinhora – nossa senhora
Óikichero – olha que cheiro
Óiprocevê – olha pra você ver
Óiuchêro – olha o cheiro
Oncotô – onde que eu estou
Onquié – onde que é
Onquitá – onde está

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Sua excelência nem imaginava que os brutos migrantes dos sertões nordestinos carregam, além da miséria, uma gramática que é uma história da língua. Quando eles dizem “figo”, em lugar de “fígado”, ou “hay”, em lugar de “há”, ou “in riba”, em lugar de “em cima”, ou mesmo “joga no mato”, por “deixa fora, joga fora”, essas palavras, esses modos e conteúdos de fala não nasceram de uma carne e sangue e lugar inferiores. Graciliano Ramos, um clássico de homem e de escritor da língua portuguesa, quando estava em dúvida sobre a regência de um verbo, fechava os olhos e procurava a lembrança longínqua da sua infância no sertão de Pernambuco. A gramática normativa mais tarde confirmava a sua recordação.

O certo, enfim, é que o tratamento dado às empregadas domésticas é uma atualização da frase genial de Joaquim Nabuco: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Ou como o traduz o ministro em português degenerado, primitivo: viajar para a Disney era uma festa danada. Que suba o dólar. Cada macaco no seu galho.

 

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23
Jan20

Celso Marconi: Dicionário Amoroso do Recife merece nova edição

Talis Andrade

Obra de Urariano Mota serve realmente de guia para quem não seja do Recife, e queira conhecer principalmente a “aura” da cidade. E para os recifenses o livro é gostoso como um copo d’água em tom não gelado nem quente, mas moderado

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por Celso Marconi 

O autor do livro Dicionário Amoroso do Recife é o escritor Urariano Mota, que me disse tê-lo escrito por encomenda de Rosel Soares, um editor baiano que lançou vários dicionários de cidades brasileiras no ano de 2014, para vendê-los ao público que veio para a Copa do Mundo no Brasil. Interessante é que, apesar de ser um livro “de encomenda”, é uma obra escrita com total liberdade. Por isso, pelo menos no caso do Dicionário do Recife, deveríamos já pensar numa nova edição. E é isso que agora estou sugerindo ao editor – se ele puder ler este texto.

Livro de encomenda em geral tem caminhos estabelecidos. Mas, no caso do Dicionário Amoroso do Recife, o livro é a cara (quem conhece Urariano concordará comigo) do autor. Urariano escreveu, digamos, um conjunto de verbetes que leva ao leitor ao Recife que ele viveu e conhece muito bem.

Parece-me que apenas no verbete sobre Nelson Rodrigues é que temos uma certa ligação com o público buscado (que, teoricamente, seria um público mais ligado ao futebol). Urariano procura na biografia de Nelson Rodrigues o lado futebolístico, e sem dúvida fez um retrato dele fundamental dentro desse ângulo. Importante. Uma vez que, como recifense, me parece que a parte novelística de Nelson teria maior importância. E digo que gosto demais da obra geral de Nelson Rodrigues, embora pense que ele retratou muito mais perfeitamente o esplendor carioca e digno da vida do carioca suburbano.

Ainda temos uma grande parte do livro retratando personalidades ou pessoas, pois Urariano não escolhe seus personagens “pela divulgação” que se possa ter deles – mas, sim, como já dissemos, pela sua visão pessoal. Ele julga e comenta com total imparcialidade (vejamos!), mas não se exime de não apresentar figuras que todo Pernambuco supervaloriza – mas que ele não encontra essa distinção. É o caso do artista Francisco Brennand. Apesar de “desconhecer” a presença desse artista que morreu recentemente, ele descobre valores em outras figuras muito pouco badaladas.

Falo apenas como exemplo de como Urariano sabe buscar valores do Recife em personalidades não valorizadas por outros que fossem cuidar da feitura de um dicionário como este, que fala de uma cidade. Ele fala de pessoas como um morador de rua que consegue passar num concurso para o Banco do Brasil. Ou de um fotógrafo que tem um quiosque na rua Nova. Fala também sobre o Centro do Recife como personagem. Ou do sotaque que o povo da cidade adotou e usa. De um médico que é violonista e oferece festas para grandes músicos brasileiros – e, assim, cria uma certa forma de união entre esses artistas. Ele fala do Teatro Marrocos, que era uma casa bem popular, com a mesma grandeza com que se refere ao Santa Isabel, o mais burguês dos nossos teatros.

Claro, o Dicionário Amoroso do Recife não é um dicionário perfeito. Urariano escreve quase somente com o seu conhecimento vivido na cidade. Ele fez alguma pesquisa, mas poderia ter feito mais se se importasse com os detalhes. Embora em alguns verbetes, como o do “sotaque”, ele mostre inclusive a erudição que tem.

Enfim, como disse no começo deste texto, já é hora de termos uma nova edição dessa obra que serve realmente de guia para quem não seja do Recife, e queira conhecer principalmente a “aura” da cidade. E para os recifenses o livro é gostoso como um copo d’água em tom não gelado nem quente, mas moderado. No meu caso pessoal, já conhecia muitos dos participantes do dicionário, mas no caso de Água Fria me interessei ainda mais, pois morei nos anos 60 em Cajueiro e conhecia o bairro de Água Fria de passagem. Talvez desse lado da cidade é onde esteja a melhor “luz” que talvez ainda tenha que ser descoberta pelos cineastas recifenses.

23
Dez19

O fantasma de Marielle ronda Bolsonaro

Talis Andrade

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por Urariano Mota

 

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Adriano Magalhães d Nóbrega

 

Notem que a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, não teve o condão de mudar a realidade mesma. O ministro  arquivou duas notícia-crime contra Jair Bolsonaro por obstrução de justiça nas investigações da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes,. Mas  vale a pena voltar ao reino do mundo do crime, para  melhor retomar a ligação a partir da portaria do condomínio Vivendas da Barra onde moram papai e filhinho Bolsonaro.

Todos lembram: em outubro deste ano, o Jornal Nacional publicou extensa reportagem em que mostrava registros da portaria do Condomínio Vivendas da Barra, onde moram os Bolsonaros. Em depoimento, o porteiro contou à polícia que, horas antes do assassinato, em 14 de março de 2018, o suspeito do crime, Élcio de Queiroz, entrou no condomínio e disse que iria para a casa do então deputado Jair Bolsonaro.  

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Nesse dia, às 17h10, o porteiro escreveu no livro de visitantes o nome de quem entrou, Élcio, o carro, um Logan, a placa, AGH 8202, e a casa que o visitante iria, a de número 58. O porteiro contou que, depois que Élcio se identificou na portaria e disse que iria para a casa 58, ligou para a casa 58 para confirmar se o visitante tinha autorização para entrar. Então uma voz que identificou ser a do "Seu Jair" autorizou a entrada.  

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Depois da reportagem, em um pânico e confusões sem precedentes, Bolsonaro sequestrou a memória da secretária eletrônica da portaria, para confirmar  que a voz não era a sua. E o filho Carlos, para completar, divulgou que a autorização para a entrada do suspeito partiu da casa em que morava outro suspeito – Ronnie Lessa – e não da casa do presidente.  Muito bem, para o crime.  

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Mas fatos não se apagam. O que continua sem resposta é por que o porteiro escreveu no registro da portaria que Élcio de Queiroz iria para a casa 58, de Jair Bolsonaro. Em princípio, o porteiro não poderia fazer essa inclusão a posteriori, com o objetivo de incriminar Bolsonaro, na época deputado federal. O registro é do dia do crime.

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Élcio Vieira de Queiroz

Em depoimento na polícia, o porteiro afirmou que Élcio Queiroz, acusado pelo assassinato de Marielle e Anderson, chegou ao condomínio em que Jair Bolsonaro tem casa, na Barra da Tijuca, e falou na portaria que iria à residência do então deputado federal, número 58. O porteiro ligou para a casa 58 para confirmar se Élcio estava autorizado a entrar e identificou a pessoa que o atendeu como “seu Jair”, como se referiu ao presidente. E mais: o porteiro disse que acompanhou a movimentação pelas câmeras de segurança e viu que, ao entrar no condomínio, o carro de Élcio se dirigiu à casa 66. Lá morava Ronnie Lessa, também acusado pela morte de Marielle. 

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O porteiro então ligou novamente para a casa 58 e a mesma pessoa, que ele identificou como “seu Jair”, disse que sabia para onde Élcio se dirigia.  No livro de registro do condomínio estão anotados o nome de Élcio, a placa do seu carro, a casa a que ele disse que se dirigira para a 58, de Bolsonaro, a hora (17h10) e o dia em que ele entrou no condomínio.

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O jornalista Luis Nassif pesquisou:  com o porteiro do depoimento tendo entrado de férias, moradores do condomínio foram, por conta própria, conversar com os demais porteiros. E eles garantiram que a ligação foi feita para Bolsonaro mesmo. Sem dúvida.  

E depois veio o cúmulo da criação que atesta o nível do criador, como uma obra-prima da inteligência inculta. A saber: o filho Bolsonaro mostrou que no dia 14/03/2018, às 17h13, houve uma ligação para a casa 65, a casa do Ronnie Lessa, e não para a casa do Bolsonaro.  Observem que o caso deixou de ser  desaparecimento do áudio das 17h10min, o caso virou “criação” no feito às17h13min.  Por quê? Segundo o filho Bolsonaro, esta foi a ligação:

“Porteiro: Portaria, boa tarde.

Ronnie Lessa: Boa tarde

Porteiro: É o senhor Élcio

Ronnie Lessa: Tá, pode liberar aí

Porteiro: Tá ok”.

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Ronnie Lessa

O que esse diálogo quer dizer? A resposta mais simples:  os criminosos de Marielle e Anderson são péssimos dramaturgos. Eles não sabem criar uma fala que se harmonize com a fala de pessoa do povo. “Tá OK”?   Seria bom que os investigadores levantassem outras gravações do porteiro para saber se esse é o seu padrão: “Portaria, boa tarde”. Isso é frase de quem responde, não de quem se apresenta ou pergunta. E mais: não há qualquer transição, liga, entre o”boa tarde” de Lessa e a resposta do porteiro: “É o senhor Élcio”. A não ser, claro, que o o porteiro tivesse o nome de Élcio. Que estranha montagem!

E ficam mais perguntas, por acréscimo. Por que a perícia do Ministério Público não apurou se algum áudio foi excluído do sistema do condomínio? Quem é o porteiro? Quem é o síndico que entregou, em clara “boa vontade”, os áudios da portaria? Áudios do interfone podem ter sido excluídos.

Há um princípio geral do comum dos vigaristas e ladrões: o seu nível de alfabetização e leitura sempre são muito baixos. É o que nos salva dos seus golpes. Então, fiquemos neste primor de dramaturgia do crime, no diálogo que se inicia como resposta: portaria, boa tarde. O porteiro OK que disse.  

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15
Dez19

Cida Pedrosa, poeta em construção

Talis Andrade

Onde Cida Pedrosa é grande e rara é nos poemas em que ela vê a mulher. Para os homens, até mesmo para os criadores e artista, a mulher é individualizada como pessoa que se ama, em um amor desejado ou em um amor pleno carnal e de espírito.

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por Urariano Mota

É claro, todos estamos em construção. Se não nascemos feitos, se apenas somos um projeto de humanização, pois crescemos com o mundo e com as relações que travamos com pessoas e acontecimentos, no mundo somos agentes e pacientes da nossa construção. Mas o título acima, no que se refere à poesia de Cida Pedrosa, vem do que eu conhecia dela e do que agora percebo em seu mais recente livro “Solo para vialejo”. Para me expressar bonito, ou metido a bonito, eu diria que há unidade e diversidade do que ela escreveu desde antes até aqui. Bonito, hem? Pois sim. Melhor me expressar de modo mais coerente com o que penso. 

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Isso significa: a leitura até então dos poemas de Cida Pedrosa vinham em formas que eram fôrmas, em que não percebíamos a planta a crescer nos seus versos. E essa falta de percepção não era “culpa” da poeta e poetisa. Não, vinha de preconceitos, como todo preconceito, estúpidos. Isto é: de uma militante comunista, todos esperávamos de Cida a poesia “social”, de protesto político, panfletária. E aqui bem caberia a ressalva de que toda grande obra literária é panfletária, que nos perdoem os mais puros estetas. Mas este não é ainda o momento de mostrar o panfletário em Graciliano Ramos, Castro Alves, e até mesmo em Machado de Assis, pasmem. Quero dizer; tínhamos que ressaltar, ampliar a revolta legítima de uma mulher nordestina frente à opressão histórica. E com isso íamos até mais longe: os seus poemas haviam de ser lineares (existe também uma poesia de construção linear, quadrada, de muro vertical, que não admite as curvas de Niemeyer). Ou seja, os seus poemas deviam guardar uma lógica de exposição evidente, serem didáticos a nível de cartilha. Ora, a poesia não é assim. 

Em outra leitura preconceituosa, jamais poderíamos admitir que uma poeta nascida em Bodocó, sertão pernambucano, recebesse influências de outros tempos e sociedades que não fossem de sol, vaqueiro e baião. Não minto. Era isso mesmo. E notem que não falo do lugar de nascimento apenas. Eu me refiro à formação primeira, primária, da família e dos amigos de infância e juventude. Numa entrevista há mais de 7 anos, Cida Pedrosa me disse:

“Em Bodocó, a gente só tinha uma salvação pra poder viajar: era ler. Então eu fui leitora muito assídua de gibi, de livro policial de bolso, e daqueles romances safados de bolso, com aquelas coisas que a gente lê no interior quando é pequena. Daí pra literatura foi um passo, comecei a ler literatura sem dor nenhuma. Porque, quando você é viciado em ler, é normal passar de uma leitura para outra. E o meu colégio municipal tinha uma biblioteca enorme, maravilhosa. Aí li os clássicos lá.A gente tinha um sítio, meu pai criava gado e plantava. Os meus primeiros irmãos todos trabalharam na roça, pra gente conseguir comprar um pouco mais de terra. Quando meu pai casou com a minha mãe não tinha terra alguma, trabalhava de alugado. Depois foi que teve a primeira terra, e com os filhos mais velhos trabalhando pôde comprar um pedaço de chão. Os meus primeiros quatro irmãos não foram à escola. Uma até foi, depois de adulta. E esses irmãos ajudaram à gente e ajudaram papai, pra gente poder vir estudar no Recife. Vim morar na casa do meu irmão Absolon Pedrosa, porque ele fez um acordo com o meu pai, que se ele viesse estudar, ele se daria bem, e traria todos os outros. E ele fez assim, cumpriu.Não foi um professor que me influenciou não, de verdade. Foi meu pai e seu Zé Pedro, porque eles eram dois grandes contadores de história. A minha leitura começou antes de eu ir pra escola. A leitura do mundo começou de eu ouvir história de trancoso, da boca do meu pai, e da boca do seu Zé Pedro. Então aprendi a gostar de literatura não foi nem com professor nem com livro. Foi com as contações de história do terreiro na minha casa. Meu pai comprava cordel também, trazia da feira e lia os cordéis, pra gente, de noite”.

Então veem que não é só lugar de origem, é de formação. Ou seja, Cida Pedrosa estaria destinada, predestinada a fazer poesia de referências sertanejas de Pernambuco. Somente. Notem que o preconceito sobrevive até à experiência viva. Quero dizer, quem assim esperava nem via o grande exemplo do gênio musical de Moacir Santos. Negro, de talento precoce, ele nasceu em Serra Talhada, terra natal do cangaceiro Lampião. Nasceu e até os 14 anos viveu ali, para depois partir e se tornar o maestro de música para o cinema em Hollywood e vanguarda musical em todo o mundo culto. E Cida Pedrosa, à sua maneira, fez também o seu salto musical. O título do seu livro “Solo para vialejo” (gaita de boca, realejo) não é gratuito. Há poemas nele que de tão música até parecem uma citação de melodia:  

“faz dim dim neném neném faz dim dim

faz zum zum abelhinha 

abelhinha faz zum zum

dim dim dim zum zum zum 

dum  dum  dum”

O que é isso? Seria Moraes Moreira em “Acabou Chorare” nestas linhas?

“Faz zunzum pra eu ver Faz zunzum pra mim Abelho, abelhinho escondido faz bonito Faz zunzum e mel Faz zum zum e mel Faz zum zum e mel” 

Ou é só a poeta que se transforma com novos recursos, que tudo mistura e se torna música em versos? E nesses recursos que vêm como um voo contra a gravidade do solo rachado, ela cita letras de canções fora do cânone do que seria bom gosto citar. Mas para o poeta o que é o bom gosto? Puxar uma tartaruga por uma cordinha pelas ruas de Paris? Amar a negra Doroteia, aspirar a sua cabeleira crespa cujo perfume de óleo de coco levava Baudelaire a viagens sonhadas? Sim. O bom gosto é aquilo que o poeta mudar no corpo do seu poema. 

E agora chego ao específico, digamos. Onde Cida Pedrosa é grande e rara é nos poemas em que ela vê a mulher. Para os homens, até mesmo para os criadores e artista, a mulher é individualizada como pessoa que se ama, em um amor desejado ou em um amor pleno carnal e de espírito. A personagem absoluta. Mas a particularidade de Cida Pedrosa é outra. Não é nem que ela fale da mulher para a mulher. Não. Ela fala da dor silenciosa da mulher para todo o mundo. É certo que Cida Pedrosa sempre teve os olhos sensíveis à dor de todos os homens, e de um modo mais particular para a dor  feminina. 

Mas em “Solo para vialejo,” a sua particularidade para a dor da mulher atinge versos que ferem toda a gente. Eu não tenho nem pejo de copiar, porque a revelação tem que ser pública:

“princesas de outras terras imponentes

impermeáveis pobres padeciam sob  o calor

de agosto e sob o ferro de engomar cheio de 

brasas moravam na casa de taipa com alpendre

para o nascer do sol e porta lateral para o pé

de umbuzeiro varriam o terreiro com esmero e

plantavam açucenas faziam sequilho adoçado 

com rapadura temperado com erva-doce cravo 

e canela receita exclusiva de uma terra que 

nunca vi guardavam na alma a vontade de ver na 

porteira o príncipe perdido na tribo longínqua 

permaneceram solteiras e virgens suavemente 

como o sopro do silêncio .... 

geralda e lourdes santas negreiras do araripe

e é assim que se criam segredos 

e é assim que busco a ti

segredos 

sagrados

segregados”.     

Lindas, adoráveis e machucadas negras da nossa infância. Lindas. E mais não falo para não me pôr a falar besteira sobre a memória oculta no sentimento. 

 

09
Nov19

Começa a cair o castelo de Moro

Talis Andrade

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por Urariano Mota

Com a decisão do STF, que derruba a condenação em segunda instância,  aparece para o grande público a ilegalidade que alcançou a condenação do presidente Lula. Já antes, pude notar aberrações no julgamento de Moro para o famoso caso do tríplex.

A sentença do juizeco era tão miserável  de provas, que os parágrafos da condenação podiam ser copiados de qualquer lugar do documento, e o resultado seria o mesmo.  As desrazões se repetiam ou apenas mudavam os nomes dos delatores. Mas sempre a nota do samba em uma só: declarou, declarou, declarou.... Ou então se referiam a e-mails, onde Zeca Pagodinho era Lula, Brahma era Lula, Chefe era Lula,  Madame era Marisa…  Todos arrazoado desarrazoado eram um labirinto de idas e vindas, recuos, voltas, de fixação em busca de um só ponto: a condenação do eterno-presidente Lula.

Víamos as razões de “culpa” no português medíocre do inquisidor. Algumas das suas provas “documentais”, o adjetivo que ele usava: 

c) Luiz Inácio Lula da Silva e Marisa Letícia Lula da Silva pagaram cinquenta de setenta prestações, sendo a última delas paga em 15/09/2009…;

k) O Jornal O Globo publicou matéria em 10/03/2010, com atualização em 01/11/2011, ou seja, muito antes do início da investigação ou de qualquer intenção de investigação, na qual já afirmava que o apartamento tríplex no Condomínio Solaris pertencia a Luiz Inácio Lula da Silva e a Marisa Letícia Lula da Silva e que a entrega estava atrasada…”

A inteligência de qualquer leitor exigiria que não se pusessem pontos de exclamação depois de tais provas. Mas bem que mereciam: !!!!!!!!!!!!!!! As tais provas documentais voltavam a se repetir mais adiante. E depois de tão repetitivas “provas”, o senhor Moro concluía ao fim de grande esforço:

“601. Considerando o conjunto das provas documentais e das provas orais consistentes com as provas documentais, tem-se por provado o que segue.

..Desde o início, o que se depreende das rasuras na ‘Proposta de adesão sujeita à aprovação’ e ainda do termo de adesão e compromisso de participação com referência expressa ao apartamento 174, que, embora não assinado, foi apreendido na residência do ex-Presidente, havia intenção oculta de aquisição do apartamento 174-A, que tornou-se posteriormente o apartamento 164-A, triplex, Edifício Salinas, Condomínio Solaris, no Guarujá”.

Então possuía a lembrança de um diálogo de Lula frente a seu algoz: 

“Moro – Senhor ex-presidente, pode esclarecer se havia a intenção desde o início de adquirir um triplex no prédio invés de uma unidade simples?

Lula: Não havia no início e não havia no fim.  Eu quero falar, porque tenho direito de falar que não requisitei, não recebi e nem paguei um apartamento que dizem que é meu.

Moro: Nunca houve a intenção de adquirir esse tríplex?

Lula: Nunca houve a intenção de adquirir o tríplex.

Moro: Aqui, tem uma proposta de adesão, sujeita à aprovação, relativamente ao mesmo imóvel. Isso foi assinado pela senhora Marisa Leticia, vou mostrar aqui para o senhor.

Lula: De quando que é essa data aqui?

Moro: 01/04/2005. Consta nesse documento, não sei se o senhor chegou a verificar, uma rasura. O número 174 correspondente ao tríplex nesse mesmo edifício foi rasurado e, em cima dele, foi colocado o número 141. Este documento em que a perícia da PF constatou ter sido feita uma rasura, o senhor sabe quem o rasurou?

Lula: A Polícia Federal não descobriu quem foi? Não?! Então, quando descobrir, o senhor me fala, eu também quero saber.

Moro: Aqui, consta um termo de adesão de duplex de três dormitórios nesse edifício em Guarujá, unidade 174 A, que depois, com a transferência do empreendimento a OAS, acabou se transformando triplex 164 A. Eu posso lhe mostrar o documento?

Lula: Tá assinado por quem?

Moro: .. A assinatura tá em branco…

Lula: Então o senhor pode guardar por gentileza!”

E com tais provas, enfim, o juizinho sentenciou:

“Condeno Luiz Inácio Lula da Silva”

A recente decisão do STF não julgou esse processo estúpido, ilegal e injusto. O mérito foi outro, o de retirar de juízes à semelhança de Moro o poder de condenar em segunda instância. Mas essa foi a primeira sentença do juizeco a cair. Em 7/11/2019 teve início a queda do castelo de Moro. Um castelo de cartas, já se vê. Um castelo de cartas marcadas pela perseguição, mentiras e abusos. Hoje, bem merecemos ouvir e cantar a composição de Ivan Lins, na voz de Elis Regina.

 

01
Nov19

Ameaça da ditadura fascista sempre volta

Talis Andrade

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por Urariano Mota

Em um sentido maior que a crueldade um dia cometida, para quem viveu a ditadura o terror de Ouvimos esta semana de um deputado: "Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5”.

 

Sem dúvida, ameaça de novo golpe de Estado nunca deixou de estar presente. Como possibilidade ou memória, a ditadura não está morta. Por impunidade e pela natureza dos seus crimes, ela ainda não morreu. Em um sentido maior que a crueldade um dia cometida, para quem viveu a ditadura o terror de Estado nunca desapareceu. E diante da ignorância do seu horror, a ditadura é como um suplício de Sísifo. Todos educadores, artistas, escritores temos sempre de recomeçar a narração da sua indignidade, porque imenso é o seu desconhecimento.

No romance “A mais longa duração da juventude”, narro a sobrevivência incomum dos seus crimes, como a seguir.

“O movimento de condenação ao criminoso cabo Anselmo passa por ele e se dirige para Soledad Barrett, a mãe que espera um filho, encostada ao muro do quintal da casa. Então a sua pessoa volta, desce e falamos sobre ela, como se estivesse presente e lhe prestássemos um reconhecimento. Na verdade, esta é uma sensação que temos presente. Quando eu falava para Hilda Torres, a atriz que a reencarna no teatro, quando eu falava para Hilda lá na Ilha de Kos, eu lhe disse:

- Eu sinto Soledad como se ela entrasse agora por aquela porta. Eu sou ateu, mas sinto a sua presença viva.

É um vivo sem a matéria do corpo, eu poderia ter dito. Mas isso podia ser interpretado de um modo tão espírita, que cairíamos numa discussão do gênero Allan Kardec. Mas a pessoa de Soledad é real, a pessoa que nos acompanha é real, e se nela não tocamos com os dedos, podemos sentir o seu cheiro, as pernas, o rosto, o riso, sentir quase sem ver, se me entendem. Sabem a luz da estrela que vemos e não pegamos? A pessoa que amamos se toca, se pega, mas sem o tato, ou melhor, com um longo e total sentido, ainda que não o queiramos. É um imperativo do coração. É como se o sentimento se desprendesse da nossa vontade e autônomo nos desse uma ordem. Age, anda e voa. E o ser limitado que éramos ganha o espaço para abarcar o valor que não tínhamos sido. Mistura de empatia, solidariedade e sentimento oculto. É como se estivéssemos bêbados de amor, enfim. Então o beijo em Soledad voltou, lá do fundo daquela tarde de antes. Com mais precisão, voltou nos lábios que abraçam a sua pessoa.

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O horror das mortes em 1973 é o retrato do seu último instante físico. Não é justo resumir uma vida humana assim. Sobre o animal sentimos a brutalidade: ‘O novilho continuava lutando. A cabeça ficou pelada e vermelha, com veias brancas, e se manteve na posição em que os açougueiros a deixaram. A pele pendia dos dois lados. O novilho não parou de lutar. Depois, outro açougueiro o agarrou por uma pata, quebrou-a e cortou-a. A barriga e as pernas restantes ainda estremeciam. Cortaram também as patas restantes e as jogaram onde jogavam as patas dos novilhos de um dos proprietários. Depois arrastaram a rês para o guincho e lá a crucificaram; já não havia movimento’. Se essa infâmia narrada por Tolstói nos fere quando pensamos no gado, o que diremos de pessoas no matadouro?

Penso em Vargas e seu sacrifício, o heroísmo que ninguém notou. Morto como mais um boi, gado abatido qualquer. Se não lhe comemos a carne, comemos a sua grandeza, porque o defecamos em nova brutalidade. Onde está Vargas, onde buscar Vargas? Ele está na sala da advogada Gardênia, quando ela lhe propõe a fuga, que corra e suma antes de ser morto, e ele se nega porque a esposa Nelinha era muito frágil? Ele está no ônibus, quando luta febril ao vislumbrar a sua última hora, da qual possui a certeza, e para ela caminha ainda assim? ‘Nelinha está salva’, ele se fala. ‘Ela continuará a viver. Ela e a minha filhinha continuam. Venham, malditos’. E nisso, ao expressar também a crueza do seu isolamento, pois não estava ‘organizado’, sem vínculo direto com organização clandestina, onde buscar o terrorista Vargas? Desta maneira ele ficou adiante, conforme o viu a advogada Gardênia: ‘Vargas, que eu conhecia muito, estava também numa mesa, estava com uma zorba azul-clara, e tinha uma perfuração de bala na testa e outra no peito. E uma mancha profunda no pescoço, de um lado só, como se fosse corda, e com os olhos abertos e a língua fora da boca’. Vargas teria sido puxado por corda para o matadouro? Aos bois partem o rabo, rompem a cartilagem, para assim ele arremeter para o lugar onde o sangram. A homens arrastam? Nos laudos da ditadura, não há uma narração da dor. Mentirosos, chegam a ocultar a causa mortis, esconder lesões, eufemizar a barbárie. Tudo que falam é uma adaptação do cadáver à fraude da repressão política. É nessas circunstâncias que cresce o valor do depoimento da advogada, que testemunhou e preencheu as lacunas, o vácuo dos laudos tanatoscópicos:

‘Soledad estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror. A boca estava entreaberta e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão que ela foi morta e ficou algum tempo deitada e a trouxeram, e o sangue quando coagulou ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. E o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror’.

Noto agora que a advogada primeiro se refere a um objeto, quando fala ‘caiu’. Depois corrige o impessoal pacote para ‘ele nasceu’. Me espanta que ninguém vomite ante o espetáculo da destruição da pessoa. Ninguém, vírgula, lembro. Eu vi um poeta que, em frente a prostitutas embriagadas, que se contorciam em poses obscenas, vomitar até o desfalecimento. Na ocasião, um militante leviano, dado à ironia e ao cinismo, também quase desmaiou, mas de gargalhar, em razão da repugnância do poeta à degradação. Anos depois, o zombador passou de armas e bagagens para a direita. Eu vi. No entanto agora, neste agora contínuo, há homens que leem esses relatos abjetos e viram a página. Não iremos bradar com um cajado de profeta doido contra a busca de conforto da espécie em que me incluo. Mas a esse movimento de pular a página, e empurrar até o porão a crueldade que não se quer ver, solicito uma pausa. Um minuto só de reflexão para isto: ‘mancha profunda no pescoço como se fosse corda, e com os olhos abertos e a língua fora da boca... o feto estava lá nos pés dela, que ele nasceu, naquele horror’. Viro a página, para um canto onde medito se a esse destino comum, da nossa, que digo?, espécie, gênero de animal, se a tais violentados podemos fechar os olhos. Como se jamais tivessem existido. Nem mesmo, ó pureza da nossa fuga, como se jamais os crimes pudessem voltar a ocorrer. Se isso fizermos, não podemos no mesmo passo acreditar que os fatos corram de nós. Contra a nossa vontade e fuga, eles vêm, voltam, e estão conosco aonde formos”. 

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24
Ago19

O MAIOR CRÍTICO DE CINEMA DO BRASIL PELO TELEFONE

Talis Andrade

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por Urariano Mota

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Celso Marconi ligou para mim há pouco. Rimos muito, quando lhe falei de algumas dificuldades que tive ao pesquisar sobre críticos longevos em ação no Brasil e no mundo.
E rimos também de alguns trechos do artigo que publiquei no Vermelho, a coautoria do editor André Cintra. Rimos destas linhas mais precisamente:
“Entre as reações ao filme Vivencial, de Jomard Muniz de Brito, há um fato a registar. É que um senhor, que se declarou Jornalista, Espírita e Teólogo, enviou uma carta ao cineasta Jomard declarando que pelas blasfêmias que o cineasta tinha praticado contra a Igreja Católica diante de uma igreja, ele poderá (ou deverá) ser punido em outras reencarnações”
E aqui:
Ao pesquisar sobre críticos longevos, apareceu uma grande jornalista de cinema nos Estados Unidos, Judith Crist. Ela ficou famosa pelos comentários rudes e espirituosos que fazia sobre filmes como A Noviça Rebelde, Cleópatra e outros. A tal ponto que levou o cineasta Billy Wilder a comentar o que ela fazia aos diretores de cinema com esta frase genial:
“Convidar Judith Crist para resenhar um filme seu é como convidar o estrangulador de Boston para massagear o seu pescoço”.

Então ele me agradeceu pelo que escrevi. Em resposta, eu lhe disse que nem havia publicado alguns elogios maiores, talvez por desejar uma harmonia no texto, uma harmonia exterior a mim, objetiva, como se isso fosse possível. E corrijo a minha falha a seguir.

Primeiro, o elogio de José Antonio Spinelli, ao saber que Celso Marconi estava em plena forma a escrever e publicar no Vermelho: “Diga a Celso que ele é o nosso guru. Ele é um dos gurus da nossa geração”. Depois, o que eu eu falei pra Celso Maconi num almoço em sua casa. No calor de umas doses, que ninguém é de ferro, eu lhe disse, pelo que me lembro:

- Celso, o que eu faço para divulgar o seu trabalho nada tem de altruísmo. Não. É apenas o desejo de ficar igual a você quando eu estiver na sua idade. Quero ser ativo, com a sua curiosidade intelectual, rebelde e produzindo.


E não podia na ocasião citar Goethe de memória, num almoço entre amigos, até porque pareceria uma exibição de grandes conhecimentos, que não tenho. Mas a citação de Goethe, que em mim estava guardada, e não falei, é esta: “É impossível ver no outro aquilo que não temos em nós mesmos”. Ou seja, admiramos aquilo que temos em potência, e desejamos realizar. Ou como o povo fala tão bem, de outra maneira: “quando eu crescer, eu quero ser igual a você”.


Assim foi. Mas o importante é que no final do telefonema há pouco, Celso Marconi me disse; “Depois que eu morrer, você vai escrever minha biografia”.
E lhe respondi:
- Vou nada. Eu que me cuide, viu? Agora mesmo estou com um problema no joelho, enquanto você anda por aí sem esforço e contente.
Então ele gargalhou, à sua maneira. Foi muito bom ouvir as risadas desse mestre de gerações ao telefone. Estou feliz com a felicidade que ele sentiu ao ler o texto em sua homenagem no Vermelho. Em resumo é isto, e mais uma vez escrevo o que não lhe disse:
Viva Celso Marconi!

14
Ago19

Para a campanha do Lula Livre na Europa e Brasil

Talis Andrade
14
Jun19

Moro e Dallagnol, um casal nunca visto antes

Talis Andrade

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por Urariano Mota

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O subtítulo para esta coluna bem poderia ser “Nem marido e mulher possuem tal intimidade”. Isso porque no site The Intercept Brasil, logo na abertura das suas demolidoras revelações, lemos um princípio salutar da reportagem:Nossa missão é proteger a intimidade dos citados, publicando apenas o que é de interesse público”. Muito bem. Mas penso que o problema a esta altura é rever o conceito do que vem a ser interesse público para o caso Moro-Dallagnol.

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O que o governo, Moro e CIA falam ser normal, “nada de mais” , é uma promíscua união entre juiz – o imparcial! – e acusador, como se fossem uma só pessoa. Os dois se comportam à semelhança de um casamento indissolúvel. Aliás, marido e mulher jamais tiverem tamanha intimidade. É sabido que mesmo nos melhores casamentos há segredos ou intimidades que não se compartilham, por razões de ética, de política ou da mais elementar convivência. Mas com Moro e Dallagnol, não. Aqui, em suas mensagens, eles não se envergonham do mais comum pudor ou princípio moral – eles conspiram, arquitetam, fazem dupla onde o primeiro orienta e o segundo executa, ou no máximo aconselha sobre o plano de acusação. Então, o mundo democrático e civilizado precisa de uma reavaliação sobre o que é privado nesse casal. Tudo o que pertence à relação criminosa entre os dois é ou não é do maior interesse público? Trata-se de mostrá-los como um casal íntimo para o crime, assim como a zombaria que fazem e fizeram dos democratas.  

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Nas primeiras revelações, sabemos:

27 de fevereiro de 2016

Moro – 11:21:24 O que acha dessas notas malucas do diretorio nacional do PT? Deveriamos rebater oficialmente? Ou pela ajufe?

Deltan – 12:30:44 – Na minha opinião e de nossa assessoria de comunicação, não, porque não tem repercutido e daremos mais visibilidade ao que não tem credibilidade” ....

Em outro ponto, o casal chega a cochichos da marcha dos processos e o juiz não se vexa de anunciar sentença de condenação ainda não publicada:

“11 de maio de 2017

Deltan – 22:14:23 – Caro, foram pedidas oitivas na fase do 402, mas fique à vontade, desnecessário dizer, para indeferir. De nossa parte, foi um pedido mais por estratégia. Não são imprescindíveis.

Deltan – 22:16:26 – Informo ainda que avaliamos desde ontem, ao longo de todo o dia, e entendemos, de modo unânime e com a ascom, que a imprensa estava cobrindo bem contradições e que nos manifestarmos sobre elas poderia ser pior. Passamos algumas relevantes para jornalistas. Decidimos fazer nota só sobre informação falsa, informando que nos manifestaremos sobre outras contradições nas alegações finais.

Moro – 23:07:15 – Blz, tranquilo, ainda estou preparando a decisão mas a tendência é indeferir mesmo”

As mensagens flagram o juiz Moro a mentir com o maior cinismo em público. Quando ele se desculpa ao falecido Ministro Teori Zavascki, que havia determinado o envio das investigações sobre Lula ao STF, em razão do desrespeito feito por Moro à privacidade da ex-presidenta Dilma, o juiz escreve:

"Diante da controvérsia decorrente do levantamento do sigilo e da r. decisão de V.Ex.ª, compreendo que o entendimento então adotado possa ser considerado incorreto, ou mesmo sendo correto, possa ter trazido polêmicas e constrangimentos desnecessários. Jamais foi a intenção desse julgador, ao proferir a aludida decisão de 16/03, provocar tais efeitos e, por eles, solicito desde logo respeitosas escusas a este Egrégio Supremo Tribunal Federal"

Mas na mensagem ao parceiro Dallagnol, em 22 de março de 2016, ele fala:

“Moro – 22:10:55 – nao me arrependo do levantamento do sigilo. Era melhor decisão. Mas a reação está ruim”

Então, o caso a esta altura, bravo Glenn Greenwald, o tempo é de alargar a divulgação, rever o que para esse casal deve ser de interesse público. Não há que deixar oculto o caráter inteiro da parceria e cumplicidade entre os dois. Para eles, que tanto condenaram indivíduos à vergonha e prisão, que levaram à morte pessoas dignas, chegou a hora. Para eles cabe o que cantou Noel Rosa no samba Positivismo: “Que também faleceu por ter pescoço / O autor da guilhotina de Paris”

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A verdade, meu amor, mora num poço
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz
Que também faleceu por ter pescoço
O autor da guilhotina de Paris

Vai orgulhosa querida
Mas aceita esta lição
No câmbio incerto da vida
A libra sempre é o coração
 
O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezaste esta lei de Augusto Comte
E foste ser feliz longe de mim
 
O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezaste esta lei de Augusto Comte
E foste ser feliz longe de mim
 
Vai, coração que não vibra
Com seu juro exorbitante
Transformar mais outra libra
Em dívida flutuante
 
A intriga nasce de um café pequeno
Que se toma para ver quem vai pagar
Para não sentir mais o teu veneno
Foi que eu já resolvi me envenenar
 

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30
Mai19

O profeta do protesto pela Educação

Talis Andrade

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por Urariano Mota

- - -

Escrevo esta coluna antes de sair para a Rua da Aurora. Daqui a pouco, poderei viver com a gente rebelde os protestos pela educação no Recife.

O ideal seria escrever depois da Aurora, é claro. Mas o pouco tempo que tenho para mais de um dever, me faz virar um pretenso profeta, porque sei ou imagino saber o que virá.

Quero dizer: daqui a pouco, os estudantes, mulheres, crianças, idosos e jovens encherão com esperança e indignação toda a linda paisagem às margens do Capibaribe. E não imagino pouco. Quem já esteve na manifestação anterior, quem já viu antes, sabe que um protesto no Recife se faz com alegria e criação. Isto é, descem para a rua os blocos de carnaval, com especial destaque para o dragão do Eu Acho é Pouco, que evolui ao som de frevo de rua. O belo animal, levado por muitas cabeças, se torna o Dragão da Consciência contra o Fascismo.

E sei que haverá gritos e palavras de ordem, das quais a de maior sucesso é "Ai, ai, ai, ai. Bolsonaro é o Carai. Ai, ai, ai, ai, Bolsonaro é o Carai." E haverá tiros, estrondos de trovão, dos Bacamarteiros de Caruaru, que atiram para o céu, pois não querem matar agora. Todos vestidos com chapéus de vaqueiro do sertão ou cangaço. E com as mulheres de frente, bacamarteiras também, atirando e sorrindo do susto que levamos.

- Tá com medo? perguntarão.

E responderemos:

- Não, eu tou é com Lula.

E haverá jovens da escola pública, mui bem vestidos com seus uniformes dos colégio, e haverá universitários e universitárias de todas faculdades, e belas mulheres, e belos militantes, lindos negros e negras com seus orgulhosos e justos e dignos cabelos afros. E verei mais uma vez famílias com bebês, com criancinhas. E darei a mãos aos amigos e conhecidos gays, a meus irmãos LGBT, porque este fascismo nos repôs a todos como companheiros inseparáveis. Então eu sei que o sentimento mais comum será, em meio às ruas engarrafadas, ao trânsito congestionado, debaixo de todo aperreio, sei que teremos todos um sorriso de felicidade. Nós nos vemos e nos refletimos uns aos outros. E sem palavras, só aos cumprimentos queremos dizer e falar:

- Como é bom estar aqui.

Mas só daqui a pouco. No momento em que escrevo, o profeta apenas imagina o que virá. Mas sabe porque viu antes.

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Sabe porque narrou no romance A mais longa duração da juventude:

"Estou livre na rua e as janelas todas se abrem no espaço. Então ouço vozes, muitas vozes, e tambores. O que é isso? O que é essa alucinação? Estou na calçada, o trânsito parou. É verdade, é real, uma passeata de professores e estudantes caminha na avenida. Eles gritam, estendem faixas e pedem assinaturas num abaixo-assinado. 'Mais educação, salário digno para os mestres'. Com a mão trêmula, porque estou encantado, movido e comovido, assino. E volto os olhos para os manifestantes, que são muitos e ruidosos. Pareço ouvir 'abaixo a ditadura' em outras vozes, em novas bandeiras".
Assim foi, assim é, assim será daqui a pouco. E sempre, sem a menor dúvida, eu sei. Mas ser profeta assim é fácil.

 

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