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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

02
Jan22

"Moro faz delação premiada de si mesmo em livro", diz o professor João Cezar de Castro Rocha

Talis Andrade

 

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Em entrevista à TV 247, professor da UERJ explica as contradições do ex-juiz parcial em sua relação com o doleiro Alberto Youssef

 

 

247 -  Em entrevista à TV 247, o professor de literatura comparada da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) João Cezar Castro Rocha fez uma análise da autobiografia do ex-juiz Sergio Moro, declarado parcial pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos processos contra o ex-presidente Lula (PT) na Lava Jato. O professor revelou que Moro fez uma delação premiada de si mesmo no livro ao se contradizer sobre sua relação com o doleiro Alberto Youssef.

“Não vamos fazer caricatura do Sergio Moro, vamos respeitar o que ele escreveu e vamos ler no texto dele como, em alguma medida, este livro é uma delação premiada de si mesmo. Alberto Youssef era o artífice do maior escândalo de corrupção do Brasil, que ao contrário do que repete a militância bolsonarista sem parar, não é nem Mensalão nem Petrolão, mas aconteceu no Paraná. O maior escândalo de corrupção do país de lavagem de dinheiro e evasão de divisas foi o Banestado. E quem foi o juiz? Sergio Moro”, lembra o professor. 

Rocha destaca que o primeiro caso emblemático de delação premiada no Brasil foi no Banestado e o favorecido foi Youssef. Ou seja, Moro e Youssef já se conheciam desde então, conforme o ex-juiz parcial relata no segundo capítulo de seu livro. Desde o início dos anos 2000 o doleiro já vinha escapando de mandados de prisão. 

“É evidente que o Alberto Youssef no ecossistema político do Paraná é conhecido antes de 1998. O Sergio Moro está dizendo com todas as palavras que Youssef corrompeu a Polícia Federal de Londrina, que recebia informação privilegiada e por isso nunca era preso e essa informação já circulava no início dos anos 2000”, destaca.

Na análise do professor, Youssef já era uma “estrela” dentro do ecossistema político e financeiro do Paraná por ser considerado “o homem do dinheiro", que realizava a evasão de divisas transformando dinheiro de corrupção em dólar no exterior. “Ele era o cérebro de toda a operação em Curitiba”, afirma.  

Onze anos depois, em março de 2014, Youssef foi novamente preso por Moro. No livro, o ex-juiz descreve que a notícia de que o doleiro tinha voltado a cometer os mesmos crimes "não foi exatamente uma surpresa para mim. Já tinha ouvido rumores de que o antigo doleiro, apesar de acordo de colaboração na Operação Farol da Colina, assinado por ele, teria voltado ao mundo do crime”. 

Rocha questiona que se não era surpresa para o então juiz Sergio Moro que Alberto Youssef havia voltado a delinquir, rompendo o seu acordo de delação premiada, por que não mandou investigar?  

Moro permitiu, então, a segunda delação premiada de Youssef, alegando que foi essencial para dezenas de indiciamentos e prisões de importantes figuras, possibilitando a comprovação de desvios bilionários. [Foi assim criada a indústria da delação premiada. Indústria dos novos ricos da lava jato, notadamente advogados amigos dos procuradores e delegados da polícia federal, polícia política da autodenominada República de Curitiba. Onde foi parar o dinheiro das multas dos delatores? E a grana dos acordos de leniência das principais empresas do Brasil falidas pela Lava Jato? E a bufunfa de 2 bilhões e 500 milhões, colocada pela 'vítima' Petrobras, numa conta gráfica na Caixa Econômica Federal, no dia 30 de janeiro de 2019 para Deltan Dallagnol sacar e gastar ao deus-dará? Youssef é chefe da máfia libanesa, desde os tempos de Romeu Tuma, primeiro carcereiro de Lula, e do irmão de Lula José Ferreira da Silva, Frei Chico. Tuma, que tinha gabinete de trabalho anexado ao quarto do dedo-duro e espião Cabo Anselmo, biografado por Urariano Mota um dos maiores romancistas do Brasil. Os ergastulários, os aljubeiros, os cadeeiros de Lula da Lava Jato foram mais cruéis que os poliças e milicos da Ditadura Militar de 1964. Recordem o comportamento de juízas e procuradores e procuradoras quando da morte da primeira-dama do Brasil Marisa Leticia Lula da Silva e do seu neto Artur Lula da Silva de 7 anos.Tirem as conclusões lendo Luiz Antônio Araujo:

O chefe do Dops, delegado Romeu Tuma, concedeu ao sindicalista permissão para deixar a cadeia e participar do funeral da mãe, Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindu. Depois de passar um período internada em decorrência de um câncer no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Caetano, ela acabou por morrer no dia 12 de maio de 1980. Lula assistiu ao sepultamento, escoltado por policiais. Na véspera, a greve terminara. Seu líder seria libertado oito dias depois.

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Artur Lula da Silva, na porta da cadeia da juíza Carolina Lebbos, proibido de ver o avô. Escreve Alceu Castilho: Carolina é filha do médico libanês Elie Lebbos, que atendia José Janene chefe da mafia libanesa, capo do bandido Youssef seu sucessor

 

No ano seguinte, Lula ouviu pelo rádio, em casa, o julgamento de seu processo na 2ª Auditoria Militar, de São Paulo. Como os outros réus e seus advogados, decidira não comparecer à audiência em protesto contra a arbitrariedade do processo. Esperava que sua desobediência diante da corte naquele momento pudesse voltar a levá-lo à prisão.

O repórter Ricardo Kotscho foi à casa de Lula naquele dia e testemunhou a tensão do petista com ouvidos colados ao rádio. Sobre a situação, Kotscho escreveu: "Um amigo perguntou a Lula se ele já havia preparado sua mala para levar para a cadeia, e ele achou graça: 'Na cadeia ninguém precisa de roupa. Eu não vou passear...' Também não estava preocupado com a família, em caso de condenação. 'Aqui em casa cada um sabe o que precisa fazer'".

Lula e outros 10 dirigentes foram condenados a penas entre dois anos e seis meses de prisão por "incitação à desobediência coletiva das leis". Em virtude do não-comparecimento da defesa, o julgamento foi anulado pelo Superior Tribunal Militar (STM), mas um novo juízo, em novembro, confirmou as sentenças. Ao julgar um recurso dos condenados, o STM anulou todo o processo] 

 

28
Dez21

A MAIOR HONRA DE UM CRAQUE

Talis Andrade

Carlos Caszely, o goleador que ajudou a derrotar Pinochet | Esportes | EL  PAÍS Brasil

 

por Urariano Mota

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Na volta da democracia ao Chile, que estava ameaçado pelo terror fascista neste 2021, retomo um texto escrito muito antes, que o ZonaCurva republicou.

 

Um gol inesquecível contra Pinochet

Entre as imagens que nos vêm a partir do 11 de setembro de 1973, do dia em que houve o golpe militar contra Salvador Allende, entre tantas imagens vivas, uma poderia ser, com razão, do presidente Allende resistindo de capacete em último recurso, com alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. Essa imagem fala de um socialista democrata, que pela força das urnas julgava ter o poder, que é destruído ao fim, derrotado com a eloquência maior de bombas e crimes.

Outra imagem poderia ser também a que correu mundo, dos livros sendo queimados por soldados do Exército nas ruas do Chile. Em um país de grandes poetas e tradição humanista, essa foto escapou do paradoxo, porque ela se fez coerente com o assassinato do poeta Pablo Neruda pela ditadura. E depois, essa imagem dos livros no fogo é tão simples e pornográfica, ao mesmo tempo de tamanho didatismo sobre a ideologia fascista no seu carbono Pinochet, que um comentário passaria pelo já visto, ao lembrar e repetir ações de Hitler a Franco, todos ótimos queimadores de escritores, livros e inteligência.

Então falo rápido sobre uma imagem e personagem que marcam também. Não são muito divulgados no Brasil um gesto, a pessoa e o valor de Carlos Caszely. Ele foi um craque do futebol chileno. A wikipédia informa que Carlos Caszely é o jogador mais popular e querido da história do Colo-Colo e do Chile. Até hoje é chamado de El Chino, El Rey del Metro Cuadrado, ou de El Gerente. Mas o seu maior feito é este: astro da seleção de futebol do Chile, em cerimônia oficial dentro do palácio, no vigor de mortes e fuzilamentos de opositores, Carlos Caszely se negou a apertar a mão do ditador Augusto Pinochet.

Ou como ele próprio fala desse momento raro e belo, anos depois: “Eu ouvi passos. Foi pavoroso. De repente as portas se abriram. Apareceu uma figura vestindo uma capa, de óculos escuros e quepe. Tinha uma cara amarga, suja, dura. Ele foi cumprimentar cada um dos jogadores qualificados para a Copa. Quando ele se aproximou, eu botei minhas mãos atrás das costas. Ele estendeu sua mão, mas recusei a apertar. Como ser humano aquela era minha obrigação. Tinha todo um povo sofrendo nas minhas costas”. Mas que coisa.

As razões do gesto, desse heroísmo, são anteriores. Não foi um impulso louco. Antes, o jogador havia sido ligado ao ex-presidente Salvador Allende. Ele próprio, o jogador, socialista como o presidente morto. Depois do golpe, Caszely se transferiu para o futebol espanhol. E o que faz a canalha do regime no Chile? Perto da Copa de 1974, os militares sequestram, prendem e torturam a mãe do jogador. Supõe-se que isso era uma tentativa de calar Caszely e obrigá-lo a jogar pela seleção chilena. Entre os perseguidos da ditadura, ele era o principal jogador do futebol chileno, estrela do Colo-Colo e da seleção. Caszely achou o ato de tortura na mãe tão estúpido, que declarou recentemente:

“Ainda hoje não está claro por que fizeram aquilo. Eles a prenderam e torturaram selvagemente, e até hoje não sabemos de que ela era acusada. Recordo um país triste, calado, silencioso, sem risos. Uma nação que entrava nas trevas. Eu sabia o que viria de cima. Eu tinha medo. Não por mim, mas por meus amigos e por minha família. Eu sabia que estavam em perigo por minhas ideias”.

Então sua mãe é presa, torturada e solta, sem qualquer acusação. E pouco depois o jogador se encontra cara a cara com o ditador, na despedida para a Copa de 1974 na Alemanha. Este é o momento em que Caszely põe as mãos para as costas, enquanto Pinochet se aproximava a cumprimentar um a um. Caszely foi o único a rejeitar o ditador.

Enquanto escrevo, ao lembrar esse ato, sinto um cheiro de perfume, daqueles inesquecíveis, cujo cheiro e composição química vêm apenas da lembrança que cerca um gesto. Naquele maldito e mágico ano de 1973, quando o mundo conhecido vinha abaixo, no momento exato em que grandes eram as esperanças, houve esse gesto de Caszely tão pouco ou nada divulgado. Soube faz pouco tempo. Mas que coragem, podíamos dizer. E aqui, se espaço houvesse, deveríamos discutir o quanto estão errados os que julgam ser a coragem um atributo de valentões, de homens que zombam do perigo. Não é. A coragem é a fidelidade ao sentimento de honra, dever ou amor. Por isso dizemos: que afeto e grandeza em ser fiel ao mais íntimo sentimos naqueles braços para trás de Caszely, enquanto avançava contra ele o ditador. Com certeza, o jogador tremia, mas não podia ainda assim ceder à mão de Pinochet no cumprimento.

Não sei, mas esse me parece o maior gol de placa da história.

 

     

 
22
Dez21

NOEL EM DEZEMBRO

Talis Andrade

 

por Urariano Mota /Vermelho

- - -

Em todo o mundo, quem abriu o google em 11 de dezembro de 2019,  encontrou um desenho que chamam de doodle. Nele se achava um indivíduo de chapéu e violão em um bar. Com um clique na figura, abria-se o espaço para Noel Rosa com 64 milhões de resultados. Era uma homenagem para o dia do seu nascimento, em 11 de dezembro de 1910. Então, como fugir ao  irrecusável convite desse dia? Por isso a um artigo anterior retorno.

Publiquei uma vez que maio deveria ser o mês mais triste para os brasileiros. Pois quem daria mais por um artista feito no rigor da arte, sem introdução e sem segunda parte, que expressasse três terços de todo brasileiro?  Porque eu queria simplesmente dizer: maio deveria ser o mais triste dos meses, porque nesse mês faleceu Noel Rosa. E ninguém mais notava. E ninguém dava mais por isso, ninguém dava mais um mil réis por isso, o que era um cômico que zomba, porque Noel foi e é o maior compositor da música popular brasileira.

Pela décima vez

Jurei não mais amar

Pela décima vez

Jurei não perdoar

O que ela me fez

O costume é a força

Que fala mais alto

Do que a natureza

E nos faz dar prova de fraqueza.....

Ou porque

Gago apaixonado

Mu-mu-mu mulher

Em mim fi...fizeste um estrago

Eu de nervoso

Estou fi-fi... ficando gago...

Se ainda não consegui me fazer entender, procurarei ser mais claro: Noel é um compositor tão rico quanto a vida, e quanto mais a gente procura apanhá-lo, pegá-lo, nem que seja para um riscado de caricatura, mais ele nos foge, escapole, por entre os dedos. Ele fica a sorrir de nossa vã pretensão. Por onde tentemos pegar Noel, ele se furta à nossa frente. Vejam por quê. Se tentamos agarrá-lo pelos dados biográficos, a nossa tendência é situá-lo como o personagem ideal de um dramalhão de circo.

Ao nascer, foi arrancado a fórceps, o que lhe afundou o maxilar inferior e lhe deixou paralisado o lado direito do rosto. Esse foi um defeito que se tornou pior ao longo dos anos, porque se agravou depois de duas cirurgias. Na escola, a crueldade das outras crianças o apelidou de “Queixinho”. Isso ocorreu até o dia em que descobriu o bandolim: “A menina do lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro. Então eu me sentia completamente importante. Ao bandolim confiava, sem reservas, os meus desencantos e sonhos de garoto que começava a espiar a vida”. Naturalmente, o escudo do bandolim, e do violão depois, era pouco. Quando o queriam elevar, além do plano puramente físico, diziam que apesar de feio, baixinho e magro, a sua inteligência e sambas conquistavam mulheres. Se alguma vez ouviu semelhante elevação, Noel deve ter sorrido com amargura. Porque

Dama do cabaré

Foi num cabaré da Lapa, que eu conheci você

Fumando cigarro, entornando champanha no seu soirée

Dançamos um samba, trocamos um tango por uma palestra

Só saímos de lá meia hora depois de descer a orquestra.

 

Em frente à porta um bom carro nos esperava

Mas você se despediu e foi pra casa a pé

No outro dia lá nos Arcos eu andava

À procura da dama do cabaré

 

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia

A carta que recebi, não me lembro de quem

Você nela me dizia que quem é da boemia

Usa e abusa de diplomacia, mas não gosta de ninguém.

O compositor carioca Noel Rosa (1910-1937) 

 

Pois sim. Em outra elevação se diz que Noel transformava a sua vida em samba. Coisa que consola. Nós, como todo filisteu, como todo bom pequeno-burguês, adoramos um artista sofrido, machucado, que cante para nós a sua dor. (Em sua biografia, há uma foto de mulher, há uma foto de uma feiticeira, há uma foto da Dama do Cabaré que deve ter tantalizado Noel. Imaginamos o que ela escreveu no verso da própria imagem, se alguma vez deixou para Noel alguma foto: “Como prova de amizade, Ceci”. De amizade... Amizade para quem ama ) Então se diz que ele transformava a vida em samba, mas se esquece que nos intervalos da arte Noel evitava comer, simples comer à mesa, na frente dos admiradores. O queixo danificado mortificava-o, o seu mastigar era um espetáculo de animal de zoo. E por isso nas noites em claro, de brutas farras, alimentava-se apenas de caldos, de comidas leves, e comia mais cigarros, muitos e muitos cigarros, que deviam torná-lo um homem, acreditava-se então, de aparência bonita. Ele, que já havia sido chamado, num duelo de sambas, de O Frankestein da Vila. Mas com um cigarro permanentemente nos lábios até um monstro se recompunha, naqueles idos mal vividos. Acreditava-se. Não riam, porque dessa dieta alimentar, estilo de vida e hábito sobrevieram ao nobre artista: febre, hemoptise, pulmões podres. Um gênio arrebentado em plena criação e juventude. Que se foi, aos 26 anos, em 4 de maio de 1937.

Meio trágico, não? Pois sim, esse mesmo Noel que foi chamado de Frankestein pelo sambista Wilson Batista num momento de raiva (e como são sinceros esses momentos de raiva!), esse mesmo Noel tuberculoso, raquítico, é o homem que diz em uma entrevista à revista O Cruzeiro, ao lhe ser perguntado que relação existiria entre o amor e a música:

“Romeu e Julieta morreram ignorando essa relação. Acho, porém, que a relação seja a mesma que existe entre a casca de banana e o tombo, num escorregão”.

É esse homem que tosse e escarra sangue o mesmo humorista que numa madrugada, ao nascer o dia, é reconhecido por amigos músicos que voltavam de automóvel, de uma festa. Conta-se que seu perfil, em um poste à espera do bonde, se destacava pela negação: terno branco à procura de um corpo, rosto que descia à procura de um queixo. Então os amigos param o carro e mandam-no embarcar. Ele entra e vai pedindo:

- Me sirvam um conhaque.

- Por que isso, Noel?

- Por quê?! Eu estava esperando um bar, quando vocês passaram.

 

Ele é o mesmo homem que à sua magreza de doente assim se referiu:

Tarzan, o filho do alfaiate

Quem foi que disse que eu era forte?

Nunca pratiquei esporte

Nem conheço futebol

O meu parceiro sempre foi o travesseiro

E eu passo o ano inteiro

Sem ver um raio de sol

A minha força bruta reside

Em um clássico cabide

Já cansado de sofrer

Minha armadura é de casimira dura

Que me dá musculatura

Mas que pesa e faz doer

 

Eu poso pros fotógrafos

E distribuo autógrafos

A todas as pequenas lá da praia de manhã

Um argentino disse

Me vendo em Copacabana

No hay fuerza sobre-humana

Que detenga este Tarzan!

 

De lutas não entendo abacate

Pois o meu grande alfaiate

Não faz roupa pra brigar

Sou incapaz de machucar uma formiga

Não há homem que consiga

Nos meus músculos pegar

Cheguei até a ser contratado

Pra subir em um tablado

Pra vencer um campeão

Mas a empresa pra evitar assassinato

Rasgou logo o meu contrato

Quando me viu sem roupão.

No entanto, se tentamos apanhar Noel a partir da maioria de suas letras, que diríamos, sem erro, quase sublimes, no limite da oração, da queixa de um homem a Deus,

Último desejo

Nosso amor que eu não esqueço

E que teve o seu começo

Numa festa de São João

Morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar, sem violão

Perto de você me calo

Tudo penso e nada falo

Tenho medo de chorar

Nunca mais quero o seu beijo

Mas meu último desejo

Você não pode negar

 

Se alguma pessoa amiga

Pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não,

Diga que você me adora

Que você lamenta e chora

A nossa separação.

Às pessoas que eu detesto

Diga sempre que eu não presto

Que meu lar é o botequim

Que eu arruinei sua vida

Que eu não mereço a comida

Que você pagou pra mim

Diante de uma letra assim, diante de uma melodia que não podemos expressar em palavras de prosa, diante da expressão de tal sentimento, sempre novo, tão vivo e primordial que nos faz penetrar um cheiro de sal e mar pelo nariz, diríamos, que dor, que felicidade trágica na expressão! A impressão que Noel nos deixa, em seus versos mais cruéis, é que ele compõe epitáfios. Mas ele não compõe como um indivíduo póstumo. Devíamos dizer com mais precisão que ele pinta e canta enternecedores testamentos. O dicionário dirá que testamento é um “ato personalíssimo, unilateral, gratuito, solene e revogável, pelo qual alguém, com observância da lei, dispõe de seu patrimônio, total ou parcialmente, para depois de sua morte”. Ora, unilaterais, solenes e limitados por vezes são os dicionários! Último Desejo é uma expressão de última vontade bem ambígua. Para as pessoas amigas, a mulher deverá dizer que o adora, e lamenta e chora a separação. Mas para os inimigos ela deverá dizer que o seu lar foi um botequim, que ele arruinou a sua vida, e que é indigno do pão que ela pagou para ele. E cabem aqui duas observações. A primeira delas é que na canção o patrimônio do poeta se faz em torno de coisas, como diríamos, intangíveis: bares que jamais possuiu, álcool bebido e sumido, amor que se foi, se alguma vez houve. Visto de um modo mais geral, as letras de Noel sempre exibem uma miséria material que não atinge o seu espírito. A miséria de bens tangíveis, materiais, não atinge a miséria humana. A outra observação fala da ambiguidade dos seus rompimentos amorosos. Ações típicas de quem rompe pelo afastamento físico, mas não rompe no sentimento:

Jurei não mais amar

Pela décima vez

Jurei não perdoar

O que ela me fez...

E nesta altura acrescentamos, ou melhor, o gênio de Noel acrescenta um precioso dado: em uma linha de um verso ele exprime uma vivência, uma observação fina. Por exemplo, quando ele compõe em Dama do Cabaré o verso “Você nela me dizia que quem é da boemia”, ele nos diz, para todos que já passamos noites e mais noites a beber: a gente dessas noitadas, pelo estilo de vida ou por vício, é leviana, dispersa, mentirosa, tão egoísta por fim quanto animais mimados, e por isto, “não gosta de ninguém”. Ele é capaz de em linhas de versos impor uma reflexão que causa espanto aos preconceitos que acham alturas somente na tradição acadêmica, nas glórias institucionalizadas. Em dúvida?

“O costume é a força

Que fala mais alto

Do que a natureza”

Ou

“Quem acha vive se perdendo” ou

“Não posso mudar minha massa de sangue”, para dizer que é suburbano, do lado marginalizado, por vocação, gosto, alma e destino.

Não tenho exata certeza se a partir de Noel, mas com certeza ele é um dos responsáveis pelo destaque, pela individualização da letra na canção do Brasil. Com ele ganha corpo autônomo uma letra que só existia tão só e somente na música. Aquele fenômeno destacado por Hesse num conto, quando observa: “Era surpreendente constatar como um verso cantado soava completamente distinto do lido ou recitado. Na leitura, um verso era um todo, tinha um sentido, constava de frases. No canto constava só de palavras, não havia frases, não havia sentido; mas em troca as palavras soltas cantadas, arrastadas, adquiriam uma estranha vida independente, às vezes eram até sílabas, em si totalmente carentes de sentido, que se tornavam independentes no canto e ganhavam uma imagem”. Se isso é verdade na canção em geral, e mais particularmente no canto religioso, em Noel ganha outro sentido. A sua letra é capaz de nos elevar a um sentimento de beleza, mesmo que não conheçamos a sua melodia. Os estrangeiros, os não-brasileiros, que não têm a felicidade de conhecer a música de Noel, poderão com mais justiça dizer se há razão no que digo. Leiam isto:

Três apitos

Quando o apito

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos

Eu me lembro de você.

Mas você anda

Sem dúvida bem zangada

Ou está interessada

Em fingir que não me vê

 

Você que atende ao apito

De uma chaminé de barro

Por que não atende ao grito tão aflito

Da buzina do meu carro?

 

Você no inverno

Sem meias vai pro trabalho

Não faz fé com agasalho

Nem no frio você crê

Mas você é mesmo

Artigo que não se imita

Quando a fábrica apita

Faz reclame de você

 

Nos meus olhos você lê

Como sofro cruelmente

Com ciúmes do gerente impertinente

Que dá ordens a você

 

Sou do sereno

Poeta muito soturno

Vou virar guarda-noturno

E você sabe por quê.

Mas você não sabe

Que enquanto você faz pano

Faço junto do piano

Estes versos pra você.

Será que foi possível sentir, somente com a letra, somente no silêncio, o perfume dessa delicada flor? No romance Os Corações Futuristas essa composição fala: “Cai um silêncio, a agulha fica raspando. Até o ponto em que Canhoto se levanta e põe Três Apitos, de Noel. Isso dói no peito e faz aumentar a sede. O uísque jorra, parece. Os copos com gelo ficam a meio, com aquele uísque safado, estragado, distribuído com uma fraternidade que a comunhão da santa hóstia da santa missa jamais conseguiu. Bebem, calados, amando a vida amarga e ruim. ‘Com ciúmes do gerente impertinente que dá ordens a você’ ...”.

O X do problema em Noel é que ele é um compositor popular com um pensamento, uma reflexão, que passa por cima de toda folclorização, de todo exotismo. Ele responde insofismável à superioridade com que a gente culta, educada, trata os estranhos a seu meio. E não se diga por favor que Noel é um homem educado porque estudou Medicina, como se esse curso desse educação estética e humana a alguém. Não se fale tal bobagem, ainda que se aceite essa ilusão, porque Noel apenas começou Medicina, uma quase humanidade de anatomia. Nem se diga que ele viveu e transitou em meios mais sofisticados: se por esses ambientes passou, ele gostava mais e era querido nos ambientes marginalizados, dos malandros, e da negrada. (Há um depoimento de Dona Zica, de Cartola, sobre isso, da sua amizade e porres com Cartola, acordando no morro.) Talvez com mais propriedade se diga que tendo todos os motivos para escrever os versos mais tristes, e tão-somente estes, ele não só os escreveu, como da tristeza e desgraça zombou. Ele, à sua maneira, bem fez o que recomendava Sartre: “Na vida importa mais o que fazemos do que nos fazem”.

Com Noel, o X do problema, que se não o resolve, pelo menos o escreve, é que ele é um artista de excepcional talento, diria, até, e nos perdoem o capricho livresco: Noel é um artista total, aquele artista que todos sonhamos, ou deliramos em noites de febre e loucura, algum dia numa felicidade ou maldição ser. Ele é trágico, satírico, lírico, humano, cômico, alto, verdadeiro.

No dia 5 de maio de 1937, um jornal do Rio pôs em manchete: “A morte prematura de Noel Rosa”. Hoje percebemos melhor que o mais prematuro da morte, aos 26 anos de idade, foi a sua vida entre os brasileiros. Pior: o Brasil, nesta descida de ladeira que se aprofunda, não sabe o que fazer diante da  humanidade de Noel. O seu patrimônio imaterial, que não havia sido sequer assimilado, recebe um perseguidor da cultura na presidência da república. Menos mal que depois  de 109 anos ele receba homenagem do google. O que não deixa de ter lá sua ironia. Tudo que é virtual é de Noel Rosa.

 

27
Nov21

Ditadura, ficção e memória

Talis Andrade

Os guerrilheiros assassinados na Granja São Bento, em Pernambuco, são o tema do livro da Cepe

Ressignificar o passado é também construir novas partilhas, outros mundos onde e quando outras subjetividades possam existir

por Urariano Mota

Na altura dos meus 70 anos, notei que a partir de certa idade a nossa memória é histórica. Mas para um escritor, o maior trabalho é narrar essa memória que se fez histórica. A seleção de acontecimentos, a sua organização em destinos e pessoas/personagens, é difícil. E mata de dor ou renova sobre a dor quem narra o lembrado. Outro fenômeno que observei nos penúltimos tempos foi a ligação indissolúvel entre o passado e o presente. Os anos findos, na aparência findos, renascem transformados. O passado não é morto. É vivo, hoje, passou por aqui agora. Disso eu não sabia. Essa descoberta me ocorreu ao escrever “A mais longa duração da juventude”. Para mim, foi uma iluminação, que eu nem imaginava antes desse livro.

E por que escrevo as linhas acima? – É que nesta semana pude ver a crítica do mestre Helder Santos Rocha a meu romance.  Na sua fala, vi confirmadas, de um ponto de vista erudito, as linhas da minha intuição. A crítica veio à luz na live da III Jornada de estudos sobre ficção histórica. Como um dos participantes, Helder Santos Rocha apresentou um trabalho sob o título de “Ficção e Memória em ‘A mais longa duração da juventude’”. Acompanhem por favor trechos da sua intervenção.  

“No romance de Urariano Mota há cenas de inúmeras reativações do tempo, nele existem propostas estéticas de coparticipação para o leitor do presente, muito mais que informes de acontecimentos do passado ditatorial.

Afinal de contas, como bem nos adverte Vladimir Safatle, precisamos encarar o neoliberalismo como a lógica da destruição máxima da solidariedade e dos laços comunitários. No que tange à memória sobre a ditadura pós-64, a comunidade pode ser uma resistência às perdas arquivísticas dos feitos de indivíduos invisibilizados e esquecidos por uma narrativa oficial em torno da repressão e da militância. A comunidade resiste ainda aos movimentos e gestos neoliberais que buscam só abafar as relações sociais calcadas na solidariedade e no convívio coletivo. 

Diante disso, o que significa coviver, conviver? Não apresentamos uma resposta objetiva, mas recorremos às reflexões do próprio romance. Vejamos em dois excertos: 

‘Quarenta e seis anos depois a pergunta ganha outro significado. No dia do enterro, com o cadáver saído do necrotério, quando a repórter perguntou ‘quem era Luiz do Carmo?’, eu respondi que para ele ainda não havia soado o momento da justiça. Se a vida passa e os jornais não a percebem, que dirá de uma pessoa fundamental que não é celebridade? Mas o impossível ali eu recupero. Era irônico que, perseguido na ditadura como um terrorista, ainda depois, no tempo dos anistiados, Luiz do Carmo não conhecesse a justiça. Se antes havia tido a negação absoluta de direitos e de leis democratas, agora nos anos de governo eleito pelas urnas, quando podia ir e vir, discursar e escrever, ele continuava sem justiça. Mudavam-se os tempos, mudamos nós, e continuávamos mudos para todos. Pois o reconhecimento público não chegava. Em seu favor, ela poderia dizer que seu hard de famosos merecia receber um upgrade. E o seu chefe, igualmente desconhecedor, a socorreria mais ferino com a frase ‘A memória dos jornais é bem seletiva’. A culpa – se usamos a palavra redutora – era do conjunto da sociedade que esmaga a todos, que pulveriza tudo como um pozinho à toa’.

Segundo trecho:

‘De muitos, que atravessaram na militância clandestina naqueles anos, poderíamos falar de uma Vida Curta e Triste sob o terror de Estado. E de todos podemos dizer que tínhamos vida dupla, uma oculta e outra legal. Sendo mais preciso, tínhamos uma existência legal e uma vida clandestina. Na primeira, mantínhamos uma dolorosa e sufocante aparência de ser, em si mesma uma farsa que representávamos sob ameaça de morte. Na segunda, éramos quase livres, pois mantínhamos um espaço de humanidade, de pessoas apesar da opressão. Uma vida, enfim, que sorria para nós como prometida amante. Era, portanto, na sua negação legal, um suplício de Tântalo. Quando queríamos pegar a flor vermelha, papoula, narcótica e doce, ela se afastava. E quando apressados íamos tomá-la nas mãos, a morte nos imobilizava. Isso conduzia também a uma dupla moral. Os que nos submetíamos à tortura da sobrevivência em trabalho alienante, onde amargávamos ser jovens bobos e calados, estranhos, contribuíamos para os clandestinos que levavam a vida gloriosa. Natural e necessária a contribuição. Natural a glória, porque estavam no front. Mas os da retaguarda estaríamos a salvo se os da frente caíssem? Quase nunca. Se não se vê uma ironia nesta frase, digo que o terror era democrático. A sociedade sem classes que sonhávamos, em uma versão macabra o terror fascista realizava. Onde antes a tortura e o assassinato de presos haviam sido exclusivos de negros e pobres, agora atingiam a todos. Em uma só fila, com faces idênticas, todos éramos terroristas. Assim nos chamavam em infame versão os terrorista de Estado. No entanto, de terror era a vida de animais caçados’.

Se a arte não é o real, tampouco ela se opõe a ele. Diversos textos literários têm tratado do período ditatorial e da sua herança traumática nos últimos anos com maior ênfase, acompanhando as discussões e os questionamentos levantados pelos usos do passado por parte das instituições da sociedade civil. 

Eunice Figueiredo propõe a escritura literária, sobre os arquivos da ditadura, que permite imaginar situações e experiências extremas vivenciadas por homens e mulheres durante o período. Na esteira da proposta da pesquisadora, indo um pouco além, os recursos narrativos da ficção também questionam os arquivos existentes, assim como a ausência de outros. Caso em que o romance de Mota parece intervir de forma contundente ao reivindicar a existência de uma comunidade invisibilizada no ontem por necessidade de sobrevivência e no hoje, por manutenção de uma injusta relação com os espectros. Assim, história e literatura não são opostas, mas também não produzem os mesmos efeitos, ainda que utilizem os mesmos materiais de linguagem e de referenciais sociopolíticos. Conforme Jacques Rancière nos induz a pensar, não se trata pois de dizer que a História, com H maiúsculo, é feita apenas das histórias que nós nos contamos, mas simplesmente que a razão das histórias e a capacidade de agir como agentes históricos andam juntas. A política e a arte, tanto quanto saberes constroem ficções, isto é, rearranjos materiais e símbolos das imagens das relações entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer. Nesse sentido, a ficção que dialoga com o passado ditatorial é sintoma e resistência ao mesmo tempo, pois confirma a permanência dos fantasmas, mas combate enquanto arte ativa ou escritura do artivismo os apagamentos forçados do passado. 

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Portanto, em ‘A mais longa duração da juventude”, o passado é um tempo alargado por opção e confissão do narrador. Diz o narrador: 

‘Lembrar? Não, é tão vivo, que a voz me fala: vivemos hoje o que o calendário indica ter ocorrido há 44 anos. E diferente da luz mecânica, congelada, da estrela morta há séculos, as pessoas retornam vivas com significados que não podíamos ver antes. Melhor, não retornam. Elas não saíram de nós. Continuam, na compreensão sobre elas que amadurecemos. São elas, transformadas pelo que delas só agora entendemos’.

A convivência com as lembranças dos companheiros próximos ou não é a esperança que o autor e narrador cultiva, e a partir da forma romanesca, os vírus detentores dessa dívida com o passado, eu, você, nós, ao claro enfrentamento conjunto aos tempos árduos e solitários do presente e futuro.

O romance de Mota não opera a manutenção de uma imagem fixa e cristalizada da militância e resistência do passado. Mas antes, reivindica no presente da escritura e no sempre presente da leitura, espaços na história contemporânea para os pequenos feitos daqueles grandes indivíduos que ele presenciou como resistentes solitários e anônimos. Ressignificar o passado é também construir novas partilhas, outros mundos onde e quando outras subjetividades possam existir.

Uma das cenas marcantes nesse romance que toca na memória coletiva é a chacina da Chácara São Bento, em 1973, Pernambuco, onde seis militantes foram brutalmente assassinados por delação de um infiltrado, que reivindica hoje uma verdade alternativa: o famoso cabo Anselmo. Para quem ainda não o conhece, ele se infiltrou durante muito tempo nos grupos de militância, como a VPR, e entregou, escrúpulo ele não tem nenhum, teve a ação nefasta de entregar a sua própria companheira, que estava grávida, e morreu grávida, que foi a Soledad, que era uma militante paraguaia e viveu no Brasil seus últimos dias. Sobre ela, Urariano tem outro romance. 

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Eu queria deixar marcado aqui o quanto a gente precisa cada vez mais se conscientizar com essas reflexões e leituras, porque eu acredito que a literatura é muito mais que um passatempo, é muito mais que a mera imaginação do passado, mas uma imaginação do passado para a construção do presente e do futuro. É exatamente para combater essas ‘verdades’ alternativas que esses sujeitos vêm aí a campo dizer que são os donos”.                                                                             

O vídeo da fala do mestre Helder Santos Rocha aqui:

 

22
Nov21

Zumbi

Talis Andrade

 

Por Urariano Mota 

Na língua portuguesa, o nome Zumbi significa alma que vagueia a horas mortas, ou fantasma de animal morto, ou tem o sentido último de ser o título do chefe de um quilombo, zambi. Estranho, não? Ou melhor, faz um sentido histórico, porque alma de assombração ou fantasma de animal morto lembra mais uma vingança à memória de um herói na luta contra a escravidão. Mas isso — essa transição raivosa de significados — não é somente uma hipótese deste autor, como veremos.  

Quando buscamos a etimologia do nome Zumbi, o conflito continua. São duas visões de mundo. Segundo o Dicionário Houaiss, que registra sem comentar qual a mais precisa, a origem vem do “quimbundo nzumbi'espírito; espírito atormentado' ou quicongo mvumbi'alma errante', segundo Castro; Nei Lopes registra que ‘em quimbundo, a raiz nzumbse liga à ideia de imortalidade; e a essa ideia parece estar ligado o nome do Herói de Palmares’". Esse é o registro no Dicionário Houaiss. E quanto ao bairro de nome Zumbi no Recife??  

Os dados históricos mais recentes apontam que o bairro Zumbi veio de um sítio de Constâncio Maranhão, que nos anos de 1920 o arrendou ao major Agenor Pessoa. O arrendatário, esperto, passou a alugar o chão a operários e pessoas sem casa ou de salário pequeno. Mas como o lugar recebeu o nome de Zumbi? Por que o bairro entre o Cordeiro, Prado e Madalena recebeu o nome de Zumbi? Não foi por acaso, pois em história o acaso é uma desculpa para o desconhecimento.  

Na pesquisa, vem a primeira razão. O bairro foi terra de senhores de engenho, conforme este registro:  

“Localizado no atual bairro do Zumbi, o Engenho de Ambrósio Machado, assim chamado em alusão a seu proprietário, situava-se na margem direita do Rio Capibaribe. Durante a ocupação holandesa, o engenho foi abandonado, tendo seu proprietário se refugiado na Bahia, em 1635. Uma parte das terras do engenho foi, então, incorporada aos bens da Companhia das Índias Ocidentais. A outra parte, após 1654, foi ocupada por João Cordeiro de Mendanha, ajudante de ordens do Governador João Fernandes Vieira”.  

Esse João Cordeiro Mendanha, por sua vez, foi dono do Engenho Cordeiro, cujo domínio incluía parte das terras de Ambrósio Machado, o dono do que viria ser o Zumbi. Na verdade, ao longo e em torno do que hoje chamamos de Avenida Caxangá, existia uma vasta indústria escravocrata: Engenho de Ambrósio Machado, Engenho da Madalena, Engenho do Cordeiro, Engenho da Torre, Engenho Casa Forte, Engenho de Apipucos, Engenho de São Pantaleão Monteiro, Engenho Dois Irmãos, Engenho Brum-Brum, Engenho do Meio, Engenho Poeta, Engenho Santo Antonio, Engenho São João. Esse último, desde o século dezenove pertencente à família Brennand.  

Com essa origem, começamos a ter pistas de onde vem o nome Zumbi.  Para melhor compreender de onde veio, e não escrever por hipótese, ouvimos um depoimento vivo, original e inédito. Acompanhem as palavras do sociólogo e jornalista José Amaro Correia, ex-morador do bairro:  

“Diziam para as crianças: ‘Zumbi vai te pegar’. O medo que havia nos senhores de engenho foi transferido para os explorados. O explorado repetia à sua maneira a consciência do explorador. Até os meus 14 anos de idade, para mim e para todos os meninos, o Zumbi não era coisa boa. Esse nome era associado ao bairro. Para as pessoas de fora, nós dizíamos que morávamos na Madalena.  

Em um Sítio perto, havia uma árvore. Debaixo dela se enterravam os escravos. Para os lados da Torre, havia um tronco para a tortura. Havia postes fixos onde os escravos eram amarrados com correntes. Esses postes estavam lá até 1953. O povo dizia que Zumbi morou ali. Diziam que Zumbi ia voltar, como se fosse uma ameaça. Que Zumbi, quando morou lá, era protegido de um padre abolicionista na Torre. Era o comentário, era o aviso na infância: ‘Zumbi vai voltar’. As mães do bairro diziam para os filhos: ‘não volte tarde, porque Zumbi pode te pegar’”.  

Creio que assim vai explicada a origem histórica do bairro e do seu nome. De lugar de escravos, de terras de senhor de engenho, a lugar onde voltava Zumbi, desta vez como uma ameaça aos proprietários, e para os descendentes dos explorados, até hoje, como uma assombração, no registro dos dicionários.  

No entanto, Joaquim Cardozo, o grande poeta e calculista de Brasília, nasceu ali. E de tal modo possuía orgulho dessa origem, que na maioria dos resumos biográficos do poeta aparece “Recife, bairro do Zumbi, 1897”. Outro brasileiro ilustre é o próprio José Amaro Correia, Maro, ou Mário, como os amigos o chamamos. O Zumbi se tornou para ele a origem de militância política, nos terríveis anos da ditadura. No texto “Final de Copa do Mundo” me referi a esse bairro, porque lá comemoramos o tricampeonato da seleção brasileira em 1970.  

O que foi uma história cruel, depois se tornou motivo de festa para nós. Penso, ao fim, que cabe aos moradores do Zumbi, e a todos os brasileiros, o orgulho sereno dessa história.   

(Publicado no Dicionário Amoroso do Recife)

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29
Out21

Doença mental sob o desgoverno Bolsonaro

Talis Andrade

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por Urariano Mota

No momento em que escrevo, percebo mais uma trágica semelhança entre o golpe militar de 1964 e o fascismo em 2021 da presidência do Brasil. Eu me refiro ao desequilíbrio mental em brasileiros dignos, estudiosos, necessários para o desenvolvimento econômico e cultural em nosso país, De modo mais preciso, há uma relação direta entre Bolsonaro e ditadura militar, entre fascismo e doença mental em pessoas do Brasil. 

Acompanhem, por favor, e vão notar que não exagero.

Em primeiro de abril de 1964, assim encontrei Ivan, amigo de adolescência.

Ele era o meu amigo mais velho, e isso quer dizer: ele está sobre a cama, no 1º de abril de 64, agitado, movendo-se de um lado para outro do seu leito de capim seco. E me diz e geme: 

– Tem umas cobrinhas subindo pelas minhas costas.

 E bate com as mãos, para retirá-las. E mais se agita:

– Eles vêm me pegar. Eles vão me levar.

– Eles quem, Ivan?

– Eles, eles – e eles se confundem às cobrinhas, que lhe sobem pelas costas.

Este Ivan não é mais Ivanovitch Correia da Silva. O Ivan de antes era um jovem de 19 anos, estudante de Química. Passava o dia todo a estudar, todos os dias. Com um método sui generis, como ele gostava de dizer. Entre uma fórmula e outra me recebia na única mesa da sua casa. E se punha a contar anedotas, a contar casos de meninos suburbanos, espertos, anárquicos, galhofeiros.

E sorria, e ria, e gargalhava, porque ao contar ele era público e personagem, e de tanto narrar histórias de meninos moleques deixava na gente a impressão de ser um deles. Como um Chaplin que fosse Carlito. Se na vida da gente houver algo que nos perca, que mergulhe no abismo a natureza que já se acha perdida, ele contava, e contava a rir, a soltar altíssimas gargalhadas o caso que foi a sua perdição:

– Na greve dos estudantes da Faculdade de Direito, eu fui lá para prestar solidariedade aos estudantes. Eu estava só no meio da massa, assistindo à manifestação. Aí chegou o fotógrafo da revista O Cruzeiro. Quando ele apontou o flash, eu me joguei na frente dos estudantes. Olha aqui a foto.

E mostrava uma página em que ele aparecia de braços abertos, destacado, em queda, como um jogador de futebol em um brilhante jogada, em voo sobre as palavras de ordem “viva Cuba, yankees go home, reforma agrária na lei ou na marra”. Sorrindo em queda livre o meu amigo, na página da revista O Cruzeiro.

Por isso ele gargalhava antes do golpe, porque saíra em edição nacional da revista. Por isso no primeiro de abril de 1964, ele se diz, esta é a lógica:

“Umas cobrinhas atrás de mim… Eles vêm me pegar! As cobrinhas estão subindo em mim. Mãe, me tira essas cobrinhas!”

Assim foi. Perdemos desde primeiro de abril de 1964 Ivanovitch. Eu pensava que a loucura em um amigo antes são era coisa do passado. A gente é assim, tem sempre a esperança ingênua de que o trágico é passado. “Já passou, já passou, não dói mais”, não é? Mas eis que recebo em 28 de outubro de 2021 esta mensagem: 

“Conversei ontem, pelo telefone, com nosso amigo X. Ele não está nada bem. Ele ficou insistindo o tempo todo que ia ser preso. Que existem pessoas na porta, de tocaia, esperando para arrastá-lo até a prisão. Que vai ser preso, torturado e morto.  Eu perguntei que crime ele havia cometido para ser preso. Mas ele me respondeu algo confuso, sem sentido algum. Depois, conversei longamente com a sua companheira. Então ela me disse que ele cria essas histórias fora da realidade. É uma situação desesperadora”.  

Notam a semelhança entre os dois casos? Com Ivan, os militares viriam buscá-lo. Com o amigo X. os fascistas agora vêm pegá-lo, porque é um homem de opiniões de esquerda. Ele é um mestre, doutor, professor universitário, portanto apto a perseguições dos fascistas.  

E tais casos de doença mental não são particulares. Especialistas afirmam que a pandemia da covid-19 deu origem a outra pandemia, a dos transtornos e doenças mentais. Mas há uma clara relação entre doença, desgraça e governo fascista, que se espalha até mesmo por territórios antes sagrados dos indígenas brasileiros. Segundo relatório do Cimi (Conselho Indigenista Missionário): 

"Em muitas aldeias, a pandemia levou as vidas de anciões e anciãs que eram verdadeiros guardiões da cultura, da história e dos saberes de seus povos, representando uma perda cultural inestimável. A responsabilidade principal está no âmbito federal, com um presidente que faz discursos dizendo que os indígenas têm que melhorar de vida a qualquer custo, que defende liberar garimpo, exploração econômica". 

Pandemias e negacionismo do vírus pela presidência, com seus ataques à ciência e aos direitos humanos, perseguições a mestres e cientistas, muitas vezes acendem o medo, a ansiedade e comportamentos problemáticos. Quando o medo assume o controle, tanto o sistema nervoso quanto a parte emocional do cérebro ficam sobrecarregados, falam especialistas. Se uma pessoa possui doença mental ou histórico de ansiedade e depressão, pode piorar e se intensificar em momentos como este do Brasil de hoje. 

Agora, compreendem o que pude ver. Ivan em 1964, quando a extrema direita tomava o poder, o amigo X hoje, quando os valores do fascismo voltam, perseguem e destroem. A história não se repete, mas seus pesadelos são semelhantes. 

Para Além do Cérebro: Charge de Laerte Coutinho sobre o fascismo  "apresentável"... Ou "os demônios se fazem de belos"

22
Out21

Fome per capita do Brasil e Swift

Talis Andrade

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por Urariano Mota

O estímulo para esta coluna veio da notícia da Folha de São Paulo, “Produção de comida per capita sobe no país, mas fome avança mesmo na fartura”. Parece mais um dos paradoxos sociais que a matemática não explica. Ora, se temos mais comida no país, o natural seria menos fome para o povo. Mas a média per capita jamais explicará por que se temos dois frangos para dois homens, portanto, a média de 1 para cada homem, um deles pode comer dois frangos, enquanto o outro apenas saliva. Assim é no mundo capitalista. Mas os economistas ao modo de Guedes, ou os fascistas à moda Bolsonaro, fazem de conta que de nada sabem. E gargalham. Podem até dizer, “lá vêm esses comunistas com mania de distribuição de riqueza...”. E depois, quem sabe se os necessitados de comida não ganhem uma imunidade de rebanho, isto é, depois de multidões morrerem, os sobreviventes se acostumem ao regime de ossos e lixo. Claro, até onde houver carniça para todos miseráveis. 

Em segundo lugar, o título acima gera outro paradoxo: para haver divisão de coisas por cabeça, é preciso que haja um número de coisas para a divisão. E como vamos medir o que não se mede, mas apenas se sente como uma atração animal, primária, fundamental? Ninguém pode falar, “no tempo em que eu tinha fome 90 ou fome 100”. Mas bem podemos falar em números para a fome, quando medimos as desgraças associadas a ela. Falemos, portanto, em desnutrição ou mortalidade infantil. Falemos em números de pelagra, de tuberculose, de raquitismo. Ai teremos tristes números para contar. Ainda assim, que estranho, os economistas não falam em “raquitismo per capita”, ou em destruição de pessoas por cabeça. O que, para os economistas de salão, de Posto Shell, faz sentido. Diabo de falar de miséria da gentalha, rá-rá-rá-rá.

Então vamos à razão do nome destas linhas. O Swift lá de cima não é a carne enlatada Swift, apesar da vinculação à carne impossível nos dias de hoje. O título no alto se refere ao imortal escritor Jonathan Swift, que tem sofrido, à semelhança de outros grandes autores satíricos, um amaciamento, uma domesticação póstuma como escritor para crianças. Ele é, para a maioria do mundo, o autor de As Viagens de Gulliver, um livro que se tornou cômico, engraçado, fantasioso, sobre os anõezinhos de Lilliputer. Ora, esse livro recontado para crianças e adolescentes (e todo inferno do mundo existe para os clássicos “recontados”, infantilizados) é, em si, no original, uma sátira à sociedade inglesa e a todas as sociedades. O livro fala, por exemplo, da cobrança de impostos sobre os Vícios e Desvarios Mas recomenda que o bom senso e a boa índole não deveriam ser taxados, porque não valeriam o custo da arrecadação.

E agora atingimos o cerne de Swift e da fome do povo brasileiro. O gênio do escritor irlandês possui uma das mais ferozes sátiras contra a degradação e miséria do povo em qualquer parte do mundo. Mas como se falasse somente para os pobres da Irlanda, em “Uma Modesta Proposta” ele sugere, com o ar mais sério, o que seria uma bela fórmula para reduzir a pobreza, O caso não é de vômito, é de verdade crua contra o sistema que mata ou fere a dignidade dos pobres. No texto, fala a santa ira de Swift: 

“É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola. 

Foi-me garantido por um muito sábio americano do meu conhecimento, em Londres, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que poderá igualmente ser servida de fricassé ou num ragu.

Uma criança dará duas doses numa festa de amigos; e se for a família a jantar sozinha, os quartos da frente, ou de trás, proporcionarão um prato razoável. Se temperada com um pouco de sal ou pimenta e cozida, estará ainda bem conservada no quarto dia, especialmente no Inverno. Fiz as contas e, em média, um recém-nascido pesará 12 libras e, se aceitavelmente tratado, durante um ano solar aumentará para 28 libras. Concedo que esta comida venha a ser de certo modo cara e, portanto, estará muito adequada aos senhores – e dado que estes já devoraram a maior parte dos pais, poderão ter direito de preferência sobre os filhos. 

Também já calculei as despesas para alimentar cada filho dos pedintes (em cuja lista incluo todos os que vivem em barracas, trabalhadores rurais, e quatro-quintos dos lavradores) que será de cerca de dois xelins por ano, trapos incluídos. E creio que não incomodará nenhum cavalheiro pagar dez xelins por uma boa carcaça de criança gorda, a qual, como já disse, dará quatro pratos de carne, excelente e nutritiva, quando tiver apenas um amigo particular ou a sua própria família a jantar consigo. Assim o proprietário rural aprenderá a ser um bom senhor, aumentando a sua popularidade entre os seus rendeiros; a mãe terá uns oito xelins de lucro líquido e estará apta a trabalhar até produzir outra criança. 

Quanto à nossa cidade de Dublin, podem destinar-se a este propósito as secções mais convenientes, e os talhantes podem ficar descansados que não terão falta de clientela. Embora eu antes recomende que se comprem as crianças vivas, e sejam temperadas ainda quentes da faca, como o fazemos com os porcos.

Os procriadores constantes, além do ganho de oito xelins esterlinos por ano pela venda de cada filho, ficarão livres do fardo de ter que os sustentar além do primeiro ano. Este alimento iria igualmente trazer grande comércio às tabernas. Aí, os taberneiros serão seguramente tão previdentes quanto a procurar as melhores receitas para temperar a carne na perfeição e, consequentemente, ver as suas casas frequentadas por todos os cavalheiros finos, que se avaliam justamente a si próprios quanto ao seu conhecimento em boa comida: e um cozinheiro habilidoso, que sabe como dar prazer aos seus convidados, arranjaria maneira de a tornar tão cara quanto lhe apetecesse. Isto seria um grande incentivo ao casamento, que todas as nações sábias pretendem encorajar seja com recompensas, seja obrigando-o com leis e penalidades. Aumentaria o cuidado e ternura das mães para com os seus filhos, pois ficariam seguras de terem arranjado um emprego para toda a vida para os pobres bebés e, de certa forma, serem providas pelo público para o seu ganho anual, em vez de terem despesas.

Muitas outras vantagens poderiam ser enumeradas. Por exemplo, a adição de cerca de mil carcaças à nossa exportação de carne salgada; a propagação da carne de porco; e a melhoria da arte de fazer bom fiambre – tão requisitado entre nós e demasiado frequente nas nossas mesas – a provocar a destruição de porcos os quais, de modo algum são comparáveis em gosto, ou magnificência, a uma criança de um ano, bem alimentada e gorda que, assada inteira, faria bela figura numa festa do presidente da câmara, ou em qualquer entretenimento público. 

Professo, na sinceridade do meu coração, que não tenho o menor interesse pessoal em tentar promover este trabalho necessário, não possuindo outro motivo além do bem público do meu país e, pelo avanço do nosso comércio, de prover pelas crianças, aliviar os pobres, e dar algum prazer aos ricos”.

Swift falou tudo. O resto é silêncio, comida per capita. 

11
Set21

Um sonho que a repressão não destrói

Talis Andrade

 

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Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais

 

por José Carlos Ruy

Um dia desses, conversando com minha filha, uma moça de 21 anos que estuda Letras, ela me falava, contrariada, de tantas moças e rapazes (e movimentos e artistas ‘jovens’) que parecem envelhecidos pela recusa a correr riscos, e pela vontade de ter todas as garantias e segurança que a sociedade oferece. São jovens na idade, mas não no coração, dizia ela.

Esta lembrança me ocorre no momento em que escrevo a ‘apresentação’ a este livro extraordinário a que Urariano Mota deu um título preciso: A mais longa duração da juventude. Um relato ficcional amplamente ancorado na memória dos jovens que, por volta de 1970, resistiam à ditadura no Recife, como tantos outros Brasil afora. E traziam inscrito em sua bandeira, com letras de um vermelho flamejante: ‘revolução e sexo’. Nesta ordem, adverte Urariano.

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Rapazes e moças que, por volta de seus vinte anos, viviam às voltas com as agruras da luta política e revolucionária, e os ardores do sexo que despertava. Agruras e ardores narrados com a precisão de acontecimentos ‘de ontem’, que continuam presentes, quase meio século depois, com a mesma e intensa realidade do brilho das estrelas de que conhecemos somente a luz que cruzou milhares de anos-luz, estrelas que talvez nem existam mais no momento em que sua imagem nos alcança.

A luz dessas estrelas é semelhante ao sonho que, hoje, meio século mais tarde, aqueles jovens ainda sonham mesmo que seus corpos já não tenham a força dos vinte anos. Mas o viço e o vigor do sonho permanecem. E fazem mais longa a duração da juventude.

Urariano Mota sabe como poucos mesclar memória e ficção. E de tal maneira as confunde na textura da escrita que, nela, o real vira imaginado, e o imaginado assume as formas do real. E o tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente. Fundidos por uma reflexão fina, ligada – para dizer como se dizia há quase meio século – pela análise concreta de situações concretas. Não é filosofia, quer Urariano. Mas é reflexão fina, humanamente fina e que tem o dom de trazer à vida, com seus matizes, os debates com que aqueles jovens de esquerda, revolucionários, desenhavam seu futuro, o futuro de todos, do país e da humanidade.

Sonho que levou o garoto de 1969 a comprar um disco de Ella Fitzgerald onde poderia ouvir I wonderwhy, se tivesse vitrola (palavra antiga para toca-discos, também antiquada no tempo dos igualmente em superação cdplayers). Não importa que não tivesse! Teria, um dia, e ouviria a cantora cuja voz amava. Sonho semelhante ao que tantos anos depois, quando já não existia a ameaça da repressão ditatorial, queria uma bandeira do Partido Comunista do Brasil para envolver o caixão do amigo morto.

Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista.

Sonho embargado pela memória cruel da sordidez da delação do infame Cabo Anselmo, que levou Soledad e tantos outros à morte na tortura ou pelas balas da repressão da ditadura.

Nesta permanência da juventude não há, como há em Goethe, nenhum pacto com o demônio, como aquele pelo qual o poeta buscou a garantia da juventude permanente.

‘Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos’, diz um diálogo neste livro maravilhoso. ‘Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua’.

Este é um livro que une, com a arte da memória, 1970 e 2017 – se fosse possível fixar parâmetros tão fixos... É um livro que olha o passado não pelo retrovisor que encara o acontecido faz tanto tempo. É um livro que faz do passado os faróis que iluminam o caminho do futuro. E reduz a distância no tempo revivendo, tanto tempo depois, a mesma luta que uniu, e une, tanta gente.

Um sonho contra o qual a barbárie e a estupidez dos cabos anselmos da repressão da ditadura foi impotente. E não o destruiu. E que é a senha para a mais longa duração da juventude.

03
Set21

Acender uma vela pelo Brasil

Talis Andrade

ENCANTO DE GIFS: Gifs de Velas

 

por Urariano Mota

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No povo, principalmente entre os seguidores dos cultos afro-brasileiros, é costume acender uma vela para a realização de um desejo. Se uma filha vai fazer um concurso, se um filho tem uma prova difícil, no mesmo dia ou antes a mãe acende uma vela em lugar discreto, para que tudo ocorra bem. Esse é um ato de fé onde se inclui a beleza da chamada dos deuses, como há séculos os poetas invocavam para escrever uma obra mais alta.

Também se acende uma vela para agradecimento a uma santa ou santo por uma graça alcançada. Isso é comum entre as pessoas católicas, espíritas e crentes dos terreiros. No morro da Conceição no Recife tem sido assim, aos pés da grande imagem, com pequenas fogueiras de cera que todos devemos respeitar. Lá no Padre Cícero no Juazeiro, e para a Aparecida também em São Paulo. E como uma característica nacional, em todos os lugares do Brasil onde habite o desejo de vencer situações difíceis, acendem-se velas.

Acendem-se velas ainda em memória dos mortos, com afeto e tristeza. Mas na gravidade da hora deste presente, em mais de um sentido, em todos os sentidos, penso que deveríamos acender muitas velas, milhões de velas  pelo Brasil. Pelo bem do povo brasileiro, tão sem saúde e machucado. Pelos indígenas, sem saúde e sem terra. Pelos negros, sem saúde e mortos nas ruas. Pelas mulheres, sem saúde e desrespeitadas como animais odiados. Pelos intelectuais, artistas, pelos cientistas, que emigram em busca de um lugar onde possam trabalhar. Por todo Brasil, enfim, talvez fosse a hora de se acenderem muitas velas.    

Se a chama do voto pudesse tudo fazer, de voto  no sentido de urna eletrônica, e neste caso, de oferenda aos santos do Brasil, uma grande fogueira deveria subir até os céus brasileiros. Diferente em tudo dos incêndios das florestas, diferente em tudo do fogo do calor que seca os rios e represas, em tudo diferente do fogo de armas nas mãos dos bárbaros, bilhões de velas deveriam arder em luminosas chamas até as nuvens do azul do Brasil. Se assim pudesse, a luz votiva  faria no espaço mágico a derrubada, a destruição de Bolsonaro, do fascismo de todo o seu governo, mais que derrubar, puniria com no mínimo prisão a ele e a todos os seus ministros, criminosos por covardia, corrupção ou ideologia fascista.

Então, as chamas das velas realizariam um “queima Bolsonaro”, uma superação do inferno em que vivemos pelo fogo do povo brasileiro. Ah, por Deus e por todos os deuses, poderíamos ser então merecedores do que manda o coração? Abaixo Bolsonaro em procissões de círios que falassem e agissem, com atos e realizações o que até aqui não temos conseguido, oprimidos que estamos por um congresso vendido em troca de verbas, enquanto afundam os direitos básicos e inalienáveis da gente brasileira. Se assim pudéssemos, o STF em peso o jogaria em impedimento e posterior cadeia, por todos os motivos de imoralidade, descumprimento da Lei e escárnio contra a democracia. Ah, se os nossos desejos pudessem ser mágicos como a crença da melhor gente do Brasil!

Mas como as chamas unidas não podem trazer a felicidade, e como o fogo em cera não realiza o que é concreto da ação política, façamos então um trato com a fé: acendamos uma vela pelo Brasil, enquanto levemos afora de todas as maneiras o nosso protesto. E depois do próximo 7 de setembro fascista, poderemos  cantar um hino com estes versos de Vinícius de Moraes:

“Vontade de beijar os olhos de minha pátria 

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... 

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias 

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos 

E sem meias, pátria minha 

Tão pobrinha! 

 

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 

Pátria, eu semente que nasci do vento 

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço 

Em contato com a dor do tempo, eu elemento 

De ligação entre a ação e o pensamento 

Eu fio invisível no espaço de todo adeus...

 

Tenho-te no entanto em mim como um gemido 

De flor; tenho-te como um amor morrido 

A quem se jurou; tenho-te como uma fé 

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito”

27
Ago21

A escravidão brasileira na Holanda e em Pernambuco

Talis Andrade

 

por Urariano Mota

- - -

Artigo na Folha de São Paulo informa que o Brasil sustentou luxo de escravocratas holandeses, cujos retratos são mostrados em exposição na Holanda. De modo mais específico, aparecem retratos do casal de senhores de escravos no Recife, Marten Soolmans e Oopjen Coppit, pintados por Rembrandt.  Mais adiante, continua o texto:

“Com a exposição, o museu faz um movimento no sentido de restaurar a verdade histórica. Como diz Tacco Dibbits, diretor-geral do museu, ‘a escravatura não é um conceito abstrato. Durante mais de 250 anos foi parte integral de nossa história, que tem de ser estudada e aprofundada se quisermos ter uma imagem mais completa de nosso passado e uma melhor compreensão da sociedade de hoje”."

Isso na Holanda! E o que dizer do Brasil? Por favor, não tirem as crianças da sala, porque elas precisam aprender.

Para a nossa própria história, e do Nordeste do açúcar em especial, para o que não se destaca em Gilberto Freyre, para o que em Gilberto é prosa encantatória, a realidade de escravos assassinados, enquanto a rotina do engenho  seguia, tudo isso é tão Brasil, amigos. Hoje mesmo, aqui na minha cidade, em qualquer cidade brasileira, jovens são amarrados em postes, numa recuperação dos velhos pelourinhos. Os novos escravos são espancados, enquanto comunicadores na televisão aprovam e ganham dinheiro e fama por açular a massa para o linchamento de marginais.

E como é Brasil, até hoje, a tortura em presos nas delegacias de polícia, nos presídios,  como se fossem escravos sob o chicote. É ilustrativa a sobrevivência física e até o elogio, no governo Bolsonaro, a torturadores da ditadura brasileira.  Se fosse representada ao nível do real, do histórico, a tortura dos costumes brasileiros daria vômitos pela agonia da dor,  ainda que apenas representada. Porque a realidade é ainda mais cruel que o imaginado em representações. Os corações mais delicados, e hipócritas por extensão, se recusam a ver que os negros escravos, quando se rebelavam, eram passados em moendas de cana, que expulsavam suas vísceras como bagaço. Outros após o chicote, antes da morte, tinham as feridas abertas lambidas por bois. E aqui não preciso falar o quanto é áspera, cruel e ferina a língua de um boi.

Poupemos os corações mais delicados. Mas de passagem menciono que  negros eram ferrados no corpo como os quadrúpedes na fazenda. Eles não tinham a marca do dono por uma medalhinha, como aparece no escravo Salomon do filme “12 anos de escravidão”.

Mais de uma vez, pude notar um dos sintomas da barbárie nacional, quando vi que os melhores relatos vivos sobre a nossa escravidão vêm de estrangeiros, como os descritos em Charles Darwin e Vauthier, o engenheiro francês que viveu no Recife. Ou de Maria Graham, a digna escritora que visitou Pernambuco em 1821. Cito as palavras da inglesa:

“Os cães já haviam começado uma tarefa abominável. Eu vi um que arrastava o braço de um negro de sob algumas polegadas de areia, que o senhor havia feito atirar sobre os seus restos. É nesta praia que a medida dos insultos dispensados aos pobres negros atinge o máximo. Quando um negro morre, seus companheiros colocam-no numa tábua, carregam-no para a praia onde, abaixo do nível da maré-cheia, espalham um pouco de areia sobre ele”.

Mas na perigosa escrita de Gilberto Freyre o mesmo quadro se conta assim:

“Foi numa praia perto de Olinda que Maria Graham, voltando a cavalo da velha cidade para o Recife, viu um cachorro profanando o corpo de um negro mal enterrado pelo dono. Isto, em 1821. Olinda pareceu à inglesa extremamente bela vista do istmo e da praia pela qual, indo do Recife, chegou até ao pé dos montes da primeira capital pernambucana”.

Vocês viram: o horror ocupa uma só linha em Gilberto Freyre, perdida na  bela vista de Olinda. Quem quiser, confira, essa ocultação do real está em sua Olinda, Guia Prático, Histórico e Sentimental de uma Cidade.  

De Vauthier cito: “Madame Sarmento nos contou que como sua negrinha lhe tinha roubado seis vinténs, ela amarrou-lhe as mãos e deu-lhe umas boas chicotadas!!! Levantando- lhe a roupa!!! Sem nenhum constrangimento!!! Diante dos filhos!!! O mais velho deles observou que o posterior da negrinha não era mais bonito do que o de um cavalo, quando levanta a cauda. Qualquer pessoa poderia chegar a praticar coisas semelhantes num momento de excitação e envergonhar-se delas depois, mas contá-las. Que mulher! Que alma!…

Hoje o cadáver de um negro ficou boiando na praia, debaixo das nossas janelas, levado e trazido pelas oscilações das marés. Mil pessoas passaram, viam-no, pararam um instante antes de seguirem caminho muito filosoficamente. Aprecio pouco as ideias geralmente admitidas sobre cadáveres que tendem em alguns casos a conceder mais cuidados aos despojos sem alma do que ao ser quando está vivo – mas este descaso, essa indiferença geral perante a morte – é verdade que era um negro! Um negro vivo já é pouca coisa: o que será então um negro morto? Essa incúria generalizada com as exalações que emanam de um cadáver, tudo isso caracteriza de modo bem saliente esta barbárie, engastada na selvageria e mal maquilada em civilização”. 

No Brasil, até hoje vale o que narrei em um personagem, retirado da minha memória: muitas vezes, a descendência de pessoas negras se dá pela mãe. Isso quer dizer, o pai não passa de um elemento fecundador, essa palavra suave, pouco afeita a modos nada corteses. Melhor à maneira mais crua: o pai não passa de um fodedor. É como uma tradição, emprenhar a negra e sumir. Foder a negra, foder muitas vezes a negra, mas, diabo, parece obra do diabo, o bucho da negra cresce. Mais tarde, filhos assim rejeitam esse passado coletivo. Apesar de se moverem em uma sociedade de classes e de preconceito de cor,  jamais valorizam o lado paterno, porque para isso teriam de  valorizar a gala que partiu.  

Entre nós, neste dias, ainda perduram denúncias de trabalho escravo ou semiescravo. Entre as empregadas domésticas então, o  desconhecimento de direitos elementares como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, sobrevive a qualquer mudança legal. É que continua em vigor o Direito Não-Escrito de Escravos.  É histórico no Brasil, é como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes das empregadas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história. Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com seus lindos filhos, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados! É justo, não é? A cidadania só alcança os iguais.

Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos. A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro. Não estranhem, porque não exagero. Não faz muito  tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos das empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no WC as empregadas brasileiras não têm sexo.

Quando pesquisei para o Dicionário Amoroso do Recife, pude ver que na língua portuguesa o nome Zumbi significa alma que vagueia a horas mortas, ou fantasma de animal morto, ou com o sentido último de ser o título do chefe de um quilombo, zambi. Estranho, não? Ou melhor, faz um sentido histórico, porque alma de assombração ou fantasma de animal morto lembra mais uma vingança póstuma contra um herói na luta contra a escravidão.

E quanto ao bairro? O Zumbi, no Recife, foi o Engenho de Ambrósio Machado, lugar de cultivo de cana no trabalho escravo, desde a dominação holandesa. O sociólogo e jornalista José Amaro Correia, amigo já falecido, assim me informou, lembrando o bairro onde ele viveu na infância: “Diziam para as crianças: ‘Zumbi vai te pegar’. O medo que havia nos senhores de engenho foi transferido para os explorados. O explorado repetia à sua maneira a consciência do explorador. Até os meus 14 anos de idade, para mim e para todos os meninos, Zumbi não era coisa boa. Esse nome era associado ao bairro. Para as pessoas de fora, nós dizíamos que morávamos na Madalena. Nos anos 50, ainda falavam para as crianças que Zumbi ia voltar, como se fosse uma ameaça. Era o comentário, era o aviso na infância: ‘Zumbi vai voltar’. As mães do bairro diziam para os filhos: ‘não volte tarde, porque Zumbi pode te pegar’”

E assim pude ver a origem histórica do bairro e do seu nome. De lugar de escravos, de terras de senhor de engenho, a lugar onde voltaria Zumbi, desta vez como uma ameaça aos proprietários, e para os descendentes dos explorados, até hoje, como uma assombração, no registro dos dicionários. Que deveria receber um novo significado, que a consciência do novo tempo nos ensina. Deixo a sugestão para atualizar o verbete nos dicionários:

Zumbi, substantivo masculino. Nome do herói brasileiro, pessoa de rara coragem, que se levantou contra a escravidão. Falecido no dia 20 de novembro, deu origem ao dia da consciência negra.

Como bem escreveu Joaquim Nabuco, “a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Ao que acrescentamos, a característica brasileira mais oculta, como um crime envergonhado que se reflete na cor. Podíamos pelo menos seguir o exemplo da Holanda. Lá, o conhecimento da escravidão brasileira, sem idealizações, vai entrar no currículo das escolas. 

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