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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Jun20

Bolsonaro ataca liberdade de expressão e pede inquérito da Polícia Federal sobre charge de Aroeira

Talis Andrade

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Bolsonaro e ministros usam e abusam e dependem da propaganda de símbolos e slogans nazistas e fascistas e integralistas, porque são copiadores de ideologias e partidos da extrema direita. 

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247 - O ministro da Justiça, André Mendonça, anunciou nesta tarde o mais duro ataque do governo de Jair Bolsonaro à liberdade de expressão. O motivo é uma charge de Renato Aroeira, um dos mais consagrados cartunistas brasileiros, em que uma cruz vermelha de um hospital é transformada em suástica, símbolo do nazismo. Trata-se de uma crítica amparada pela liberdade de expressão, que é cláusula pétrea da Constituição brasileira.

“O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu art. 26”, disse André Mendonça, em seu twitter. Confira abaixo:

André Mendonça
@AmendoncaMJSP

Solicitei à @policiafederal e à @MPF_PGR abertura de inquérito para investigar publicação reproduzida no Twitter Blog do Noblat, com alusão da suástica nazista ao presidente Jair Bolsonaro. (...)

André Mendonça
@AmendoncaMJSP
 

O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu art. 26.

Curiosamente, o governo Bolsonaro já foi criticado pela própria comunidade judaica por utilizar métodos de comunicação e slogans nazistas. Antes disso, Bolsonaro teve que demitir o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, que fez uma imitação de Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. Em mensagem privada, o decano do Supremo Tribunal Federal comparou o Brasil de Bolsonaro à Alemanha hitlerista.

Ao 247, o cartunista Renato Aroeira, que faz parte do grupo Jornalistas pela Democracia, declarou que "a SeCom deveria se chamar SeCen - Secretaria de Censura".

[É "cruelmente evangélico" querer trocar as cabeças de Sara Winter & seus 300 soldados do "Gabinete do Ódio" pelos jornalistas Ricardo Nobrat e Renato Aroeira que pregam a Liberdade, a Fraternidade, a Igualdade, a Democracia, a Brasilidade, a Imprensa Livre] 

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15
Jun20

Especialistas apontam semelhanças entre os 300 de Sara Winter e grupos fascistas europeus

Talis Andrade

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Sara, na noite de sábado, atacou o Palácio da Justiça; na manhã do domingo, imitando Bolsonaro, fez comício na porta do Forte Apache, sob a proteção de Abraham Weintraub, ministro da Educação, que voltou a chamar os ministros do STF de "vagabundos"; e foi presa hoje

 

Filme “300”, que inspira acampamento bolsonarista também é referência para grupos racistas e neonazistas; como os europeus, o grupo brasileiro apela à desobediência civil e à violência

 

* Movimento Identitário europeu elegeu “300” como símbolo de sua luta contra refugiados
* Ideal de sacrifício pela pátria e resistência violenta “contra invasores” também aparece no discurso do grupo brasileiro
* “O que preocupa é o caráter paramilitar” do movimento, diz socióloga

 

por Andrea DiP, e Niklas Franzen/ Agência Pública

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“Olá, nós somos os 300 do Brasil, o maior acampamento contra a corrupção e a esquerda do mundo” diz, de maneira nada modesta, Sara Fernanda Giromini, mais conhecida como Sara Winter. No vídeo, ela convoca “pessoas que tenham a coragem de doar ao Brasil sangue, suor e sono” a fazer parte de seu movimento de extrema direita bolsonarista que, desde o começo de maio, está acampado nos arredores da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Ontem, Sara também teve o celular e o computador apreendidos pela operação da Polícia Federal relacionada ao inquérito das Fake News que é conduzido pelo STF. Em resposta, fez vários vídeos e posts no Twitter desafiando e xingando o ministro Alexandre de Moraes, que conduz o inquérito, e ainda fez ameaças: “A gente vai infernizar a tua vida. A gente vai descobrir os lugares que você frequenta. A gente vai descobrir as empregadas domésticas que trabalham pro senhor. A gente vai descobrir tudo da sua vida. Até o senhor pedir pra sair. Hoje, o senhor tomou a pior decisão da vida do senhor”. Nas redes sociais, o comentário era de que ela fez isso com a intenção de ser presa para se tornar um mártir ou candidata – ou os dois.

 

O “maior acampamento do mundo” também tem recebido atenção nos últimos dias; menos por seu tamanho – não passa de algumas barraquinhas espalhadas pelo gramado – e mais pelas declarações e ações de sua fundadora. Ainda no começo de maio, Sara admitiu em entrevista à BBC News a presença de armas no acampamento “para a proteção dos próprios membros”. O Ministério Público do Distrito Federal chegou a mover uma ação civil pública pedindo que o acampamento fosse desmontado, que houvesse uma revista para busca e apreensão de armas e que o grupo fosse proibido de atuar. O pedido, porém, foi negado pelo juiz Paulo Afonso Carmona da 7ª Vara da Fazenda Pública do DF. O acampamento também é alvo de uma investigação pela PGR: deputados do Psol pediram a abertura de um inquérito para investigar a atuação de Sara Winter em uma “formação de milícia” e o Supremo Tribunal Federal autorizou a abertura do procedimento para apurar quem seriam os financiadores do movimento. A existência de um suposto quartel-general do grupo em uma chácara, com estrutura militar, também está sob investigação.

Apoiadores do movimento de extrema-direita estão acampados na Esplanada dos Ministérios

 

O nome do grupo de Sara Winter, “300 do Brasil”, assim como algumas imagens e o uso do grito “Ahu” durante manifestações, são inspirados pelo filme 300, do diretor Zack Synder, de 2006, que por sua vez se baseia nos quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley de 1998. O filme mostra a luta heróica de um exército de 300 espartanos, liderado pelo Rei Leónidas, contra um exército de 30 mil soldados persas liderado pelo “deus-rei” Xerxes I da Pérsia querendo invadir Esparta.

Apesar de ter se tornado um grande sucesso, o filme americano também foi fortemente criticado pela violência explícita e por ter uma estética fascista. Os soldados espartanos são musculosos, hiper masculinizados, fortes e apresentados como bons e honrosos. Enquanto isso, Xerxes é afeminado e andrógino e seus soldados são mostrados como ferozes invasores. Na Alemanha, chegou a ser comparado aos filmes da diretora nazista Leni Riefenstahl.

Em entrevista à reportagem, a co-fundadora dos “300 do Brasil”, Desire Queiroz, explica o que motivou a referência ao filme: “A gente teve a ideia justamente pela luta. Isso mostra que nós somos poucas pessoas que podem vencer muitas pessoas". Ela conta que o grupo começou com 10 pessoas mas que apesar disso é forte e pode “lutar e vencer”. E nega que movimentos da extrema direita europeia tenham sido uma influência para a criação do grupo. Procurada, Sara Winter não respondeu os pedidos de entrevista.

 

“Europeus verdadeiros” contra “Invasores”


Na Europa, movimentos de extrema direita fazem frequentemente referência ao filme 300 e à Batalha das Termópilas. Mas para a direita europeia, o filme e o combate heróico dos espartanos contra persas representam a atual luta dos “europeus verdadeiros” contra os “invasores” refugiados.

O caso mais famoso é o do chamado “Movimento Identitário”, que começou na França, mas existe hoje em vários países do continente europeu. Com uma crítica pesada a uma suposta “islamização da Europa” e uma comunicação ofensiva, o grupo usa o “etno pluralismo”, principal conceito da nova direita, para dizer que sociedades devem ser “culturalmente puras” e que cada povo tem seu habitat. O número de membros do Movimento Identitário é bastante baixo e eles também tentam compensar isso com ações espetaculares que geram grande atenção na mídia, como ocupações, acampamentos e performances em lugares públicos.

Segundo a pesquisadora e jornalista alemã Carina Book, o filme 300 virou referência para movimentos de extrema direita por vários motivos. A Batalha das Termópilas representa a luta do Ocidente contra o Oriente e o rei Leônidas ordena que seu exército enfrente a morte para salvar a população de uma invasão do Oriente Médio. “Esse discurso de fazer um sacrifício pela nação e resistência violenta contra ‘invasores’ frequentemente acha-se no discurso do Movimento Identitário” explica Carina, que estuda o movimento há muitos anos e publicou alguns livros sobre a nova direita europeia. O uso do discurso do sacrifício, e do “sangue e suor” pela pátria também é muito frequente por parte dos integrantes do “300 do Brasil”. No vídeo de convocação diz: “buscamos pessoas que tenham a coragem de doar ao Brasil sangue, suor e sono, que estejam dispostas a abrir mão de sua comodidade e dedicar-se integralmente às ações coordenadas, inclusive tendo em mente a possibilidade de ser detido (…) Se você está disposto a passar frio, ficar no sol, tomar chuva, e a fazer parte dessa página na história do Brasil, VENHA!”. No Twitter, mensagens como “O soldado que vai a guerra e tem medo de morrer é um covarde” também são fartamente encontradas.

O grito de guerra “Ahu” dos soldados espartanos, usado pelos “300 do Brasil”, também é usado nas manifestações do Movimento Identitário. Se, em maio deste ano, Sara tuitou “ATENÇÃO BRASÍLIA! DESÇAM AGORA PRA PRAÇA DOS 3 PODERES! A ESQUERDA QUER OCUPAR A PRAÇA. OS 300 DO BRASIL VÃO TOMAR CAFÉ DA MANHÃ VERMELHO HOJE! AHU AHU AHU”, em 2016 durante um ato em Berlim, capital da Alemanha, Martin Sellner, um dos líderes do Movimento Identitário, falou: “Hoje estamos aqui com 300 pessoas. 300 é um número que nós identitários gostamos”. E puxou o Ahu entre os integrantes do grupo, como mostra esse vídeo.

Mas não é só o Movimento Identitário que gosta de se comparar aos espartanos. Em vários protestos e shows, neonazistas fazem referência ao filme e aos espartanos como mostra a revista antifascista e investigativa alemã Das Versteckspiel. No site da marca de moda neonazista Asgar Aryan, segundo a reportagem, há inclusive um moletom com a imagem de um soldado espartano.

As referências à Grécia usadas pela extrema direita são antigas. No dia 30 de janeiro de 1943, quando a derrota dos nazistas na batalha de Stalingrado já era certa, o Ministro da Aviação da Alemanha Hermann Göring fez um discurso comparando a situação dos soldados nazistas com a Batalha das Termópilas, legitimando ideologicamente a batalha. E uma unidade especial da Luftwaffe, força aérea nazista, ficou famosa por voar em missões suicidas contra os Soviéticos e foi chamada de Esquadrão Leónidas.

Convidada a assistir os vídeos do “300 do Brasil”, Carina Book diz que encontra semelhanças com os movimentos de extrema direita europeus. “A estética do vídeo inicial dos ‘300 do Brasil’ lembra muito a dos vídeos do Movimento Identitário. As semelhanças podem ser vistas no vídeo ‘Declaração de guerra’ publicado em 2012 na França, que alerta sobre os supostos danos da migração para a Europa”. Semelhanças também podem ser vistas neste vídeo do Movimento Identitário da Alemanha.

O apelo à “desobediência civil”, o uso de palavras como “revolução” ou performances com uma caixão em frente do Congresso também lembram o discurso e as ações “metapolíticas” da extrema direita europeia, diz a pesquisadora. O caráter paramilitar do movimento chama a atenção. Os militantes chamam-se de “soldados” e falam de uma “guerra”. Frequentemente os integrantes fazem saudações militares, prometem treinamentos e reivindicam uma disciplina rígida.

 

“Ucranizar” o Brasil


Em algumas ocasiões Sara Winter declarou que recebeu treinamento na Ucrânia e que queria “ucranizar” o Brasil, uma afirmativa difícil de compreender. O chamado “Euromaidan” foi uma série de protestos que aconteceram na Ucrânia em 2014 quando o governo, por pressão do governo russo, anunciou que não iria assinar um acordo de associação com a União Europeia. Mas, logo depois, as manifestações passaram a incluir bandeiras contra a corrupção e o abuso de poder, também com o apoio de grupos neonazistas. Os protestos foram violentamente reprimidos, mas o presidente Víktor Yanukóvytch acabou sendo deposto e fugiu do país.

“Em 2013 e 2014 aconteceu um levantamento contra uma elite corrupta. É possível que ela se refira a isso com sua fala de ‘ucranizar”, diz Andreas Umland, cientista político que vive em Kiev, na Ucrânia . Mas também é possível, devido ao discurso bélico dos “300 do Brasil”, que Sara Winter se refira à guerra quando diz “ucranizar”. Após a expulsão do presidente, as forças armadas russas apoiadas por militantes pró-russos invadiram a península da Crimeia e começaram uma guerra no leste da Ucrânia, nas regiões Donesk e Luhansk, que dura até hoje. Além dos exércitos dos dois países, lutaram milícias pró-russas e, do outro lado, grupos paramilitares voluntários da Ucrânia. O caso mais famoso é o do Batalhão Azov, que, apesar de ser acusado de ser um grupo neonazista, foi incorporado na reserva das Forças Armadas ucranianas e hoje está subordinado ao Ministério do Interior daquele país. Segundo o pesquisador Umland, vários voluntários estrangeiros estavam nos batalhões. “Algumas pessoas vieram pra cá por motivos ideológicos, principalmente neonazistas. Outros viram na busca de uma aventura”.

Nos treinamentos promovidos por Sara, são proibidos fotos e vídeos e é exigido roupa adequada para um treinamento físico de combate. Em um vídeo ela diz: “Muita gente achando que aqui é colônia de férias, achando que vai chegar aqui ficar de perna pra cima fazendo live, fazendo selfie. Se você quiser vir pra isso, não venha, não coloque teu nome na lista, não faça caravana. Aqui é treinamento. A gente exige treinamento, disciplina, ordem, patriotismo”. Ela diz que, além dos treinamentos “com especialistas em revolução não violenta, táticas de guerra de informação”, há “palestras sobre a atual situação política, econômica e social do Brasil”. Através de uma vaquinha virtual, o grupo arrecadou mais de 60 mil reais para financiar os encontros que estão acontecendo em meio à pandemia de coronavírus, que já matou mais de 25 mil pessoas no Brasil. O grupo obviamente se opõe às medidas de isolamento, seguindo as determinações de seu líder maior Bolsonaro.

Em entrevista à reportagem, a socióloga Sabrina Fernandes diz: “O que preocupa em relação aos 300 é seu possível caráter paramilitar, especialmente se consideramos a relação do bolsonarismo com milícias e as próprias Forças Armadas. O risco é de que esse grupo consiga inflamar com mais intensidade essa base leal bolsonarista, o que pode levar a um acirramento do conflito e a uma aplicação prática do ideário fascista que já compõe a estrutura ideológica do bolsonarismo.”

No grupo oficial dos “300 do Brasil” no Telegram está descrito: “Junte-se a nós. Seja parte do exército que vai exterminar a esquerda e a corrupção.” Desire Queiroz defende o uso dessas palavras. “Isso faz parte do discurso, temos o direito de nos expressar. Queremos exterminar a esquerda com argumentos.” Ela argumenta também que todas as ações dos “300 do Brasil” são não-violentas, que o grupo defende a democracia e nega que se trata de um movimento fascista. Porém Sabrina Fernandes lembra: “Ao contrário dos comunistas que se afirmam comunistas, é estratégico para fascistas negarem serem fascistas dependendo do contexto. Uma vez que eles se declaram abertamente fascistas, isso legitima ações, organizações e frentes antifascistas. O conceito de democracia é esvaziado há tempos e para eles constitui uma noção bastante particular do que é o povo brasileiro, representada pela ideia do ‘cidadão de bem’. Nessa concepção, a democracia é um espaço de poder para este tipo de cidadão, o que evoca um ideário nacionalista específico também que pode ser associado a um programa fascista.”

Na esteira das semelhanças estéticas, a pesquisadora Carina Book chama a atenção para uma foto do “300 do Brasil” em que Sara Winter aparece com outros militantes, usando uma máscara de caveira. A máscara, que também é vendida no Brasil, é muito popular na Europa e nos Estados Unidos entre neonazistas. “A máscara de caveira virou uma estética universal fascista”, escreve o jornalista Jake Hanrahan no Twitter. A rede terrorista neonazista Atomwaffen Division usa exatamente a mesma máscara em seus vídeos de propaganda.Organização neonazista Atomwaffen Division. De acordo com pesquisadores, há semelhanças entre o movimento liderado por Sara Winter e grupos fascistas europeusDe acordo com pesquisadores, há semelhanças entre o movimento liderado por Sara Winter e grupos fascistas europeus

 

Uma trajetória de muitas coincidências


Sara Fernanda Giromini sempre negou publicamente qualquer relação com grupos neonazistas e fascistas mas sua trajetória, assim como a de seu novo grupo, é cheia de coincidências com esses movimentos. Natural de São Carlos, cidade do interior de São Paulo, Sara aderiu ao codinome Winter quando fundou célula do movimento ucraniano Femen no Brasil em 2012. O nome, Sara Winter, é homônimo ao de uma socialite britânica que foi espiã de Hitler e membro da União Britânica de Fascistas, mas a Sara brasileira nega a relação e diz que o nome foi inspirado em uma cantora. O Femen em si é um movimento polêmico, adepto do “sextremismo”, que visa chamar a atenção da mídia e da sociedade para alguns temas com mulheres protestando seminuas. Sara ganhou muita atenção da mídia na época porém sua atuação sempre foi vista com desconfiança por algumas vertentes do movimento feminista. Alegava-se, entre outras coisas, que era um movimento muito vertical, sem referência, com processo de seleção, além de ser difícil adaptar as pautas da Ucrânia no Brasil, já que são países com realidades tão diferentes e complexas.

Sara Winter fundou o movimento Femen no Brasil

 

Em entrevista ao site Opera Mundi em 2012, Bruna Themis, ex-integrante do Femen Brasil e parceira de Sara, contou porque decidiu deixar a organização em poucos meses. Entre os motivos ela destacou a falta de propostas e embasamento teórico: “O Femen não tem proposta, isso eu posso afirmar. Elas não gostam nem de ler as críticas nos jornais ao movimento. Eu sempre lia e queria saber o porquê de falarem isso ou aquilo. Quando fui detida, uma das meninas me empurrou porque queria aparecer na câmera. É engraçado e triste. (…) O Femen não é um movimento feminista. Ninguém lá sabe o que é feminismo. Eu sugeri que a gente buscasse vínculos com outros coletivos ou outros grupos feministas, mas a Sara recusou”.

Bruna também contou que as diretrizes vindas da matriz ucraniana era a de que apenas mulheres dentro do padrão de beleza estabelecido por elas pudessem participar e que a célula brasileira teria sido criticada por colocar “meninas gordinhas nos protestos”. Por fim, disse que saiu porque Sara Winter era autoritária e simpática ao nazismo: “A Sara disse que admira Hitler como pessoa, que ele foi um bom marido, que amava os animais, mas que não admira o Hitler público”, afirmou.

Na entrevista ao Opera Mundi, outra informação chama a atenção. Bruna comenta que o Femen da Ucrânia pouco sabia sobre a célula brasileira e vice-versa e que Sara havia ido a Kiev por sua própria conta. Mas no filme “A Vida de Sara”, um documentário biográfico produzido pela plataforma Lumine, apelidada de “Netflix conservadora”, Sara Winter diz que a organização mandou dinheiro para que ela fosse para a Ucrânia passar por um treinamento. Financiada ou não pela organização, Sara conta que passou por um treinamento “muito hardcore”, quase “um exército”. Recentemente ela voltou a dizer nas redes sociais que passou por treinamento na Ucrânia e que iria replicá-lo no Brasil. Procurado, o Femen Ucrânia disse que responderia a entrevista porém até o fechamento da reportagem não houve resposta. Vale lembrar que a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que hoje processa Sara Winter por calúnia e difamação, também participou de um protesto do Femen em 2012, como mostra este vídeo.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP, à direita), em manifestação do grupo Femen, em São Paulo, no dia 29 de dezembro de 2012

O filme foi produzido Matheus Bazzo, que exerceu a mesma função no documentário sobre a vida e a obra de Olavo de Carvalho, “O Jardim das Aflições”. Matheus também é um dos fundadores da plataforma conservadora, que se propõe a trazer séries e programas “para quem entende a importância da verdade, da beleza e da bondade nas produções artísticas” segundo o site Estudos Nacionais. No filme de Sara não há qualquer menção a patrocinadores. No entanto, logo nas primeiras cenas, a militante aparece passeando com seu filho em uma loja da Havan e em certo momento, ele toca o sino da loja, evidenciando o logotipo ao fundo.


Em 2013, a organização ucraniana desligou Sara e declarou publicamente que não tinha mais representantes no Brasil. “Gostaria de dizer algo que imagino seja novo para vocês. Não temos mais Femen Brasil. A pessoa que nos representava, Sara Winter, e que tem sua própria conta no Facebook, o Femen Brasil, não faz parte do nosso grupo. Tivemos muitos problemas com ela. Ela não está pronta para ser líder. É uma pena, mas essa decisão faz parte do nosso crescimento como movimento honesto. O Femen Brasil não nos representa”, disse na época ao jornal Zero Hora uma das fundadoras do movimento original, a ucraniana Alexandra Shevchenko.

Diretor documentário “A Vida de Sara” também produziu documentário sobre Olavo de Carvalho

No filme, Sara conta que que já se prostituiu e dá detalhes de um terrível estupro que teria sofrido. Também aparece atirando e manipulando armas de fogo, cuidando do filho, fala sobre um aborto que teria realizado e sobre como tudo isso a levou a se tornar uma “anti-feminista” católica. Mas ela já tinha uma trajetória controversa antes disso. Em sua página no Facebook, na mesma época em que fazia protestos pelo Femen, ela dizia que admirava Plínio Salgado, o movimento skinhead e algumas personalidades conservadoras, como Ronald Reagan. Antes ainda, entrevistava bandas neonazistas e aparecia em fotos de shows dessas bandas. Além disso, tinha uma tatuagem no ombro de uma cruz de ferro, símbolo germânico que se tornou popular durante o regime nazista e era a principal condecoração de guerra. Sara diz que a tatuagem é uma homenagem aos “cavaleiros templários da idade média”, mas a pesquisadora alemã Carina Book confirma que é a cruz de ferro.

A partir de 2015, Sara passa a se declarar publicamente uma militante conservadora de direita, anti-feminista, anti-aborto, pró-vida e religiosa. Em 2016, aparece em um vídeo ao lado de Bolsonaro se dizendo “curada” do feminismo. No mesmo ano, se acorrentou no Largo da Carioca no Rio de Janeiro, dizendo que faria greve de fome contra a decisão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerar legal um caso de aborto até os três meses de gravidez. O ato virou piada nas redes sociais por ter durado poucas horas.

E se hoje ela diz que quer derrubar o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM/RJ), em 2018 foi candidata a deputada federal por seu partido mas não conseguiu votos suficientes.

Sara Winter é apoiadora do governo Bolsonaro

 

Como militante conservadora de extrema direita, Sara coleciona no currículo um “Congresso Anti-Feminista”, fotos com fetos de borracha e palestras dadas em igrejas pelo Brasil. O grupo dos “300 do Brasil”, segundo ela, foi uma ideia de Olavo de Carvalho, a quem tem como guru. Entre os entusiastas do “300 do Brasil”, estão a deputada Bia Kicis (sem partido), o jornalista do Terça Livre Allan dos Santos – ambos investigados no inquérito das Fake News – e seu (autodeclarado) ex-psiquiatra, Ítalo Marsilli, que também é discípulo de Olavo de Carvalho e já declarou em um de seus vídeos que mulheres não deveriam votar pois são fáceis de seduzir: “Na democracia grega, a única do mundo que funcionou, não estava previsto o voto feminino. Quando o voto passa ser pleno, ou seja, mulheres e todo mundo pode votar, a gente vê que tem uma crise na regência do Estado. É muito fácil você convencer mulher de votar, é só você seduzi-la”.

A vida de Sara Winter, 27 anos, é cheia de mudanças radicais, que acontecem repentinamente e com muitas coincidências. Como ocorreu nesta manhã quando, antecipando que poderia ser presa por ter ameaçado o ministro Alexandre de Moraes, Sara Winter publicou uma hashtag pedindo sua libertação: #SaraLivre.

 

 

15
Jun20

Por que a Ucrânia, onde Sara Winter diz ter sido treinada, fascina bolsonaristas?

Talis Andrade

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por Letícia Mori
Da BBC News

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Presa na manhã desta segunda-feira (15/06), a militante bolsonarista Sara Winter já disse, com orgulho, ter sido "treinada na Ucrânia".

Apesar de nunca ter deixado claro quando este treinamento teria ocorrido, ou por quem teria sido instruída, a ativista estava ecoando um tema que aparece frequentemente em discursos e postagens de rede social da militância favorável ao presidente Jair Bolsonaro: o fascínio pela Ucrânia e até por grupos extremistas do país do leste europeu.

Em redes sociais e discursos feitos durante protestos, Winter e outros ativistas da direita brasileira falavam em "ucranizar o Brasil" e a bandeira ucraniana foi adotada como "adereço" ao lado dos nomes de usuários em plataformas como o Twitter.

Mas, afinal, como a Ucrânia se tornou esse objeto de fascínio para o bolsonarismo?

 

O contexto político


Parte da explicação, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, tem relação com o histórico recente de radicalização e rupturas políticas na Ucrânia.

A Ucrânia é um vasto país do leste europeu, com uma grande fronteira com a Rússia e uma relação histórica conturbada com o vizinho.

Russos e ucranianos eram um povo só até o século 9, explica o professor de história da USP Angelo Segrillo, especialista em história da Rússia. Ao longo dos séculos, a região da Ucrânia ficou retalhada entre diversos impérios: foi dominado inclusive pelo Império Russo, e no século 20 fez parte da União Soviética."A Ucrânia se tornou um Estado independente nos anos 1992, com o fim da URSS", explica Segrilo.

Na história recente, o país foi palco de violentos confrontos em 2014, primeiro entre nacionalistas e o governo pró-Rússia, e depois entre separatistas e um novo governo nacionalista.

As desavenças internas começaram em dezembro de 2013, com intensas manifestações pelo país quando o então presidente, Viktor Yanukovych, sob pressão do presidente russo, Vladmir Putin, anunciou que não assinaria um acordo com a União Europeia, que poderia, no futuro, levar à entrada do país no bloco.

Os manifestantes pró-Europa chegaram a ocupar prédios do governo e entrar em confrontos com forças de segurança, com um saldo de dezenas de mortos e milhares de feridos. Em meio ao clima de insurgência popular pelo país, presidente pró-Rússia foi derrubado. O Parlamento votou por uma eleição adiantada, e o candidato pró-europa Petro Poroshenko venceu em primeiro turno.

"Houve um processo de ruptura com o sistema político nacional", explica Odilon Caldeira Neto, professor de história contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora. "Esse momento de insurgência e instabilidade do país potencializou a organização e o fortalecimento de grupos de extrema-direita nacionalista", explica Caldeira.

"Isso não quer dizer que o processo que ocorreu na Ucrânia tenha sido um processo neofascista, mas que o momento de radicalização da agenda política do país permitiu que grupos mais radicais se aproximassem do mainstream."

Após o colapso do governo pró-Rússia, a Crimeia, que tem uma grande população de origem russa, declarou formalmente "independência" e desejo de se juntar à Federação Russa (nome oficial da Rússia). Após um referendo não reconhecido pelo governo ucraniano, o país vizinho enviou tropas e rapidamente assumiu o controle da Crimeia, anexando a região à Rússia.

Conflitos separatistas surgiram em outras regiões, com milícias de homens armados apoiando os separatistas pró-Rússia ocupando prédios do governo ucraniano. Militares russos assumiram envolvimento com as milícias, mas o país nunca admitiu formalmente a interferência no vizinho. "Houve uma mistura de tropas ucranianas pró-Rússia e uma infiltração de soldados russos", explica Segrillo.
Em 2015 o governo conseguiu negociar um cessar-fogo, com condições como a saída de combatentes estrangeiros do território ucraniano, mas as regiões insurgentes não foram retomadas. E a Criméia continuou anexada à Rússia.

 

'Ucranizar o Brasil'


Mas o que isso tudo tem a ver com o Brasil? E porque falar da Ucrânia, quando grupos nacionalistas estão ganhando força em diversos lugares do mundo?

Segundo Caldeira Neto, que também é membro do Observatório da Extrema Direita‏, a Ucrânia é tomada como exemplo pela direita brasileira pela forma como extrema-direita conseguiu se organizar e agir no país.

"Há dois entendimentos possíveis, um mais amplo, que faz referência à esse momento de ruptura com o status quo político", diz Caldeira Neto. "Há outras leituras mais particulares, mais associadas aos grupos neofacistas, cuja referência não está necessariamente nessa ruptura, mas em um desejo de reprodução de ideias, táticas e estratégias usadas no país europeu."

"É uma dinâmica de buscar experiências que deram certo para a direita fora do Brasil, e caso da Ucrânia teve um impacto midiático muito forte", diz ele.

Além dos ativistas, o discurso também chegou a bolsonaristas no Congresso, como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ).

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Daniel Silveira e Rodrigo Amorim quebram placa de Marielle Franco


Embora figuras como Silveira falem de forma enigmática quando fazem referência ao assunto em redes sociais, a ligação da frase com os episódios de 2014 na Ucrânia é abertamente explicado em blogs, podcasts e grupos bolsonaristas.

Quando fala em "ucranizar o Brasil", a direita brasileira está fazendo referência direta aos episódios em que grupos armados invadiram prédios do governo no país europeu.

"Há vários exemplos de ações de desobediência civil nos últimos cem anos, mas talvez o mais interessante de comparar com nossa situação seja o protesto do povo ucraniano nos 93 dias do inverno entre 2013 e 2014 que ficou conhecido como Euromaidan e levou à renúncia do presidente Viktor Yanukovych", diz um texto com o título "O Dever de Ucranizar", no site de direita Vida Destra, do advogado Fábio Talhari.

 

Sara Winter e os radicais

Antes de se tornar bolsonarista, Sara fez parte por alguns meses do grupo feminista Femen, de origem ucraniana, do qual também foi expulsa, segundo disse na época uma das dirigentes do movimento, Alexandra Shevchenko. Na época, ela foi presa mais de 20 vezes e viajou sozinha para a Ucrânia.

Mas Sara Winter não é a única militante de direita radical brasileira ligada a nacionalistas ucranianos.

Uma investigação da polícia civil do Rio Grande do Sul iniciada em 2017 encontrou laços entre grupos radicais brasileiros e extremistas ucranianos.

A investigação descobriu que brasileiros estavam sendo recrutados para lutar contra rebeldes pró-Rússia na Ucrânia — se de fato os extremistas brasileiros chegaram a adquirir experiência de combate no exterior, no entanto, não é claro. O delegado Paulo César Jardim diz à BBC News Brasil que não pode dar mais informações sobre a investigação, que continua em andamento.


Nostalgia nacionalista

Um dos fatores que causa mais polêmica envolvendo as referências à Ucrânia é justamente o fato de que muitas delas são vistas como associadas ao neonazismo, segundo Caldeira e a antropóloga Adriana Dias, uma das principais especialistas em neonazismo do Brasil.

Um exemplo é o caso de uma bandeira que apareceu em diversos dos protestos a favor do presidente Bolsonaro em São Paulo.

A presença de uma bandeira vermelho e negra com um brasão em forma de tridente, símbolo tradicional da Ucrânia, chamou atenção por ser associada a a grupos extremistas do país europeu.

A bandeira é associada ao partido e grupo paramilitar de extrema-direita Pravy Sektor, ultranacionalista.

Os relatos sobre o símbolo na imprensa levaram a Embaixada da Ucrânia e emitir nota dizendo que "para milhões de ucranianos... a bandeira rubro-negra simboliza a nossa terra e o sangue de nossos heróis derramado por Liberdade, Independência e Soberania da Ucrânia".

A representação ucraniana enfatiza que seu uso "não tem nada a ver com o movimento neonazista".

Ainda segundo a Embaixada, "a bandeira histórica e o brasão da Ucrânia" foram usados desde o século 16 "por cossacos ucranianos nas lutas contra invasores estrangeiros, e por isso, durante o século passado e no começo do século 21, virou o símbolo de luta dos ucranianos contra ocupação, chovinismo e imperialismo russos".

Estudiosos de ideologias de extrema direita, no entanto, explicam que, embora sejam símbolos nacionais na origem, eles foram apropriados por grupos neonazistas e têm hoje esse significado internacionalmente. "Podem negar, mas isso não muda a simbologia. É um absurdo achar que esse símbolo seja neutro", diz Adriana Dias. "O uso disso por brasileiros é para ser visto com grande preocupação."

Segrillo explica que durante a Segunda Guerra Mundial houve um movimento de um grupo ucraniano que, para se libertar da União Soviética, se aliou ao nazismo. E é esse grupo que é lembrado com nostalgia hoje por grupos ultranacionalistas, diz Adriana Dias

"O Pravy Sektor, especificamente, mas na Ucrânia em geral hoje, está havendo uma relembrança das pessoas que lutaram ao lado de Hitler, portanto contra os judeus, negros e gays, por uma superioridade étnica", explica Adriana Dias. "Hitler, quando tomou a Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, viu que podia contar com certas forças nacionalistas na Ucrânia."

Esses grupos colaboracionistas que são relembrados com nostalgia pela extrema-direita ucraniana. "É um tipo de nacionalismo que esteve muito presente no fascismo, no nazismo, no franquismo, baseado nesse ideário de uma grande nação."

"Embora a cooperação internacional de grupos nacionalistas não seja ampla, até por conta de sua natureza, a circulação dessas ideias acontece internacionalmente", explica Caldeira Neto.

"São ideias políticas que circulam, os intelectuais leem as obras uns dos outros e tentam adaptar as ideias, as táticas e estratégias para o Brasil", explica.

Ao importar esse símbolo para o Brasil, diz a antropóloga Adriana Dias, grupos de direita nacionais querem trazer a ideia de que há um só Brasil a ser construído, um só povo brasileiro. "Estão tentando recriar esse modelo nacionalista", diz ela, e veem com admiração a experiência recente da direita ucraniana nesse sentido.

Esse ideal de uma só nação, afirma Dias, "é uma negação de toda etnicidade brasileira, quando na verdade nossa riqueza está na nossa diversidade", diz ela. Dias cita como exemplo a fala do ministro da Educação, Abraham Weintraub, em uma reunião ministerial, onde ele falou que "odeia a expressão povos indígenas" e "quilombolas", pois "todos são povo brasileiro".

Dias afirma que no Brasil, especificamente, há uma tendência de grupos se importarem com neonazismo de outros lugares.

"Nos Estados Unidos você não vê muitos grupos de nacionalismo de outros lugares. Você não vê nazismo dos Estados Unidos na Rússia. Mas alguns lugares, como o Brasil e na América Latina em geral, importam símbolos neonazistas", diz ela.

"Nós importamos símbolos de neonazismo russo, ucraniano, estadunidense, espanhol, inglês. Eu costumo brincar que até o neonazismo brasileiro é miscigenado", diz ela.


Símbolos e negação

Um dos militantes que levaram o símbolo aos protestos, por exemplo, disse ao jornal Folha de S.Paulo que não tinha "nada de nazista" no símbolo.

"É uma bandeira antiga, usada desde o século 16. O preto simboliza a terra ucraniana, que é muito fértil, e o vermelho é o sangue dos heróis. Não tem nada de nazista", disse Alex Silva ao jornal. Silva diz morar no país Europeu desde 2014, onde trabalha em uma academia de tiro e táticas militares.

Adriana Dias afirma que a apropriação de símbolos nacionais tradicionais é comum em grupos de direita nacionalistas — e faz um paralelo entre o uso que a direita ucraniana faz de símbolos ucranianos tradicionais e o uso da bandeira do Brasil pela direita brasileira.

"A direita no mundo tem feito isso, de usar os símbolos da nação como se fossem dela", diz. "A ditadura militar já fazia isso."

O uso de símbolos nazistas — e depois a negação da referência — já aconteceu até dentro do governo brasileiro, lembra.

Em janeiro, o então secretário da Cultura, Roberto Alvim, fez um discurso com as mesmas palavras de uma fala de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista. Depois Alvim negou a referência, que incluía som do compositor favorito de Hitler ao fundo. Alvim acabou demitido e substituído por Regina Duarte, que também deixou o cargo no mês passado.

Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro citou nas redes sociais uma frase do ditador fascista Benito Mussolini, chamando-o de "o velho italiano".

"O governo joga as referências ao vento, sai distribuindo símbolos a torto e a direito, e depois basta que ele negue. Ele sempre nega. Essa estrutura é uma estratégia da direita que é muito parecida com a usada pelo Steve Bannon (ex-estrategista político de Trump)", afirma Dias.

"Você lê o livro do Bannon e ele fala que você tem que jogar muitos símbolos, para confundir as pessoas, e depois negar tudo. E continuar criando essa confusão para as pessoas não verem o que está acontecendo", diz.

 

 

12
Nov19

O golpe na Bolívia: cinco lições

Talis Andrade

 

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Por Atilio A. Boron
Versão original em espanhol 

A tragédia boliviana ensina, eloquentemente, várias lições que nossos povos e nossas forças políticas e sociais populares devem aprender e registrar em suas consciências para sempre. Aqui, uma breve enumeração, em tempo real, e como um prelúdio para um tratamento mais detalhado no futuro.

Primeiro, não importa o quanto a economia seja administrada de maneira exemplar, como o fez o governo de Evo, o crescimento, a redistribuição, os fluxos de investimentos são garantidos e todos os indicadores macro e microeconômicos são aprimorados, a direita e o imperialismo nunca aceitarão um governo que não serve a seus interesses.
 
Segundo, precisamos estudar os manuais publicados por várias agências americanas e seus porta-vozes disfarçados de acadêmicos ou jornalistas para poder perceber os sinais ofensivos a tempo. Esses escritos invariavelmente destacam a necessidade de destruir a reputação do líder popular, que no jargão especializado é chamado de assassinato do personagem, como ladrão, corrupto, ditador ou ignorante.

Essa é a tarefa confiada aos comunicadores sociais, auto-proclamados como “jornalistas independentes”, que em favor de seu controle quase monopolista da mídia, moldam o cérebro da população com tais difamações, acompanhadas, no caso em questão, por mensagens de ódio dirigido contra os povos nativos e os pobres em geral.

Terceiro, atendidos os parâmetros e as ações expostas acima, é a vez da liderança política e das elites econômicas reivindicarem “uma mudança”, encerrando a “ditadura” de Evo que, como escreveu o notório escritor peruano Mario Vargas Llosa, há alguns dias, é um “demagogo que quer se eternizar em poder “. Suponho que Llosa estará brindando com champanhe em Madri quando ver as imagens das hordas fascistas saqueando, queimando, acorrentando jornalistas a um poste, raspando a cabeça de uma prefeita e pintando-a de vermelho, destruindo as atas da última eleição para cumprir o mandato de dom Mario e “libertar a Bolívia de um demagogo do mal”.

Menciono o caso dele porque foi e é o imoral porta-estandarte desse ataque vil, desse crime sem limites que crucifica as lideranças populares, destrói uma democracia e instala o reino do terror encarregado de gangues contratadas para repreender um povo digno que a audácia de querer ser livre.

Leia também: Por que a libertação de Lula não vai soltar milhares de criminosos?, por Sergio da Motta e Albuquerque

Quarto: as “forças de segurança” entram em cena. Nesse caso, estamos falando de instituições controladas por várias agências, militares e civis, do governo dos Estados Unidos. Eles os treinam, os armam, fazem exercícios conjuntos e os educam politicamente. Tive a oportunidade de verificar quando, a convite de Evo Morales, abri um curso sobre “Anti-imperialismo” para oficiais superiores das três armas. Naquela ocasião, fiquei envergonhado pelo grau de penetração dos slogans americanos mais reacionários herdados da era da Guerra Fria e pela irritação indiscutível causada pelo fato de um indígena ser presidente do seu país.

O que essas “forças de segurança” agora fizeram foi sair de cena e deixar o campo livre para o desempenho descontrolado das hordas fascistas – como as que agiram na Ucrânia, na Líbia, no Iraque, na Síria para derrubar ou tentar fazê-lo em neste último caso, líderes incômodos para o império – e assim intimidam a população, a militância e o governo. Ou seja, uma nova figura sociopolítica: o golpe militar “por omissão”, permitindo que as quadrilhas e os bandos reacionários, recrutados e financiados pela direita, imponham a sua lei. Uma vez que o terror reina e ante a impotência, ou incapacidade de defesa, do governo, o resultado era inevitável.

Quinto, a segurança e a ordem pública nunca deveriam ter sido confiadas na Bolívia a instituições como a polícia e o exército, colonizadas pelo imperialismo e seus lacaios da direita indígena. Quando foi lançada a ofensiva contra Evo, o governo optou por uma política de apaziguamento e não de resposta às provocações dos fascistas. Isso serviu para encorajá-los e aumentar a aposta: primeiro, exija segundo turno; depois, fraude e novas eleições; a seguir, eleições, mas sem Evo (como no Brasil, sem Lula); depois, renúncia de Evo; finalmente, dada a sua relutância em aceitar chantagens, semeie o terror com a cumplicidade da polícia e das forças armadas e force Evo a renunciar. Do manual, tudo do manual. Vamos aprender essas lições?
 
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* Atilio A. Boron é sociólogo argentino, com doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard, professor da Universidade de Buenos Aires. É autor de diversos e importantes livros.
 
* Tradução de Roberto Bitencourt da Silva.
 
24
Abr19

Ucrânia: Mais um país que aposta no escuro

Talis Andrade

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Por Ferreira Fernandes

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Então, lá foi eleito. Vladimir Zelenski, 41 anos, comediante, sem nunca antes ter estado na política, candidato que apareceu sem programa, sem fazer promessas nem comícios, foi eleito presidente da Ucrânia, plebiscitado por quase três em quatro ucranianos (73 por cento). A Ucrânia, na Europa o país do destino próximo mais perigoso, vizinho e em latente conflito armado com a Rússia, atirou-se para os braços de um desconhecido...

Aliás, nas mãos do mais popular ucraniano e, também, do "presidente da Ucrânia" com maior audiência desde 2015. Confusos? Bem-vindos aos admirável mundo novo onde os políticos apresentam-se, em faz de conta, à experiência e, em dando, concorrem a sério. Nos últimos quatro anos, Zeminski tem sido "Vasili Petrovich Holoborodko", presidente da Ucrânia em Servo do Povo, a série televisiva que já vai em três temporadas.

A última temporada inaugurou-se com a atual campanha das eleições presidenciais e foi transmitida ao longo dela. Por que precisava Zeminski de campanha, se tinha "Holoborodko" a fazer propaganda por si e com os atores que faziam de opinião pública a venerá-lo? Para tudo mais se confundir, Zeminski, o real, apresentou-se em nome de um partido com nome de série televisiva: Servo do Povo.

O leitor não deve ter reparado, lá em cima, escrevi Servo do Povo em itálico, como se costuma escrever, para realçar, os nomes de ficção (livros, filmes, séries televisivas...); cá em baixo, escrevi Servo do Povo sem itálico, como se escrevem os nomes das coisas reais, partidos, por exemplo. Itálico ou não, são critérios complicados, confusos. Como se viu ontem, os ucranianos também não repararam

Terá sido a contestação generalizada contra a corrupção profunda nos costumes políticos ucranianos que catapultou Zelenski. Ironicamente, há várias suspeitas de ligação do comediante com um oligarca exilado por corrupção, Igor Kolomoisky, dono da estação televisiva 1+1. Que é onde passa a terceira temporada da série Servo do Povo, tão providencialmente marcada para ser exibida durante a campanha.

.

Mas nem é isso o mais grave, é só um indício do mal maior que atravessa a política por todo o lado: a aposta no escuro (Brexit, Trump, Bolsonaro...), até numa Ucrânia exangue e militarmente provocada pode acontecer.

.

Logo depois de vencer, no agora político Vladimir Zelenski irrompeu o comediante que sempre foi: "Posso dizer a todos os países pós-soviéticos: olhem para nós, tudo é possível!" Tudo é possível?!! Seria mais prudente que não fosse tão próximo da comédia um país, a Ucrânia, tão próximo da Rússia de Putine.

O bobo que queria ser rei, chegou a rei. Até na banda desenhada, o bufão Grão-vizir Iznogud que queria "ser califa no lugar do califa", não chegou lá. Um cómico a sério, o argumentista René Goscinny, percebeu que era melhor não. Pois "is no good" baralhar as funções. Transcrito do Diário de Notícias, Portugal

15
Jan18

É necessário reafirmar os direitos fundamentais da pessoa humana para construir um novo clima de paz

Talis Andrade

Papa Francisco julga a Declaração Universal dos Direitos Humanos, sancionada há setenta anos pelas Nações Unidas, um documento ainda hoje «importante» porque atesta e ratifica uma série de princípios «enunciados para abater os muros de separação que dividem a família humana e favorecer o que a doutrina social da Igreja define como desenvolvimento humano integral»

 

Nesta luz o Papa — não sem ter constatado a interpretação deturpada de alguns destes direitos, imposta através de uma verdadeira «colonização ideológica» — denunciou a sua violação em vários âmbitos: a começar pelo da vida (com um acento particular ao drama das crianças não nascidas), da liberdade, da inviolabilidade e da saúde da pessoa. Depois, com um olhar preocupado Francisco enumerou as trágicas situações de conflito que inflamam os quatro recantos do planeta, insistindo acima de tudo sobre o estreito vínculo entre desarmamento e desenvolvimento integral. E reiterando que as controvérsias não devem ser resolvidas com o recurso às armas, mas através da negociação e do diálogo, desejados pelo Pontífice para resolver as contraposições que minam a convivência na península coreana, na Síria, no Iémen, no Afeganistão, na Terra Santa e em todo o Médio Oriente, ou multiplicam injustiças e sofrimentos na Venezuela, na África, na Ucrânia.

 

No amplo discurso do Papa houve espaço também para o tema da família, para a questão dos migrantes — com o convite a deixar de lado instrumentalizações e «temores ancestrais» para se abrir ao acolhimento e à integração — e para a emergência do trabalho. Finalmente, Francisco fez um apelo à liberdade de religião: um direito «frequentemente menosprezado» ou instrumentalizado «para justificar ideologicamente novas formas de extremismo».

Discurso do Papa aqui

 

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