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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

22
Jul22

Brasil vive epidemia de brutalidade contra meninas e mulheres (vídeo)

Talis Andrade

Image

 

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública contou 5.789 tentativas e 1.341 feminicídios no país no ano passado

 

O discurso de ódio do bolsonarismo, a misoginia, o machismo e o racismo de Jair Bolsonaro, a permissividade criminosa da excludente de ilicitude de Sergio Moro ministro da Justiça e da Segurança, e as leis religiosas do Velho Testamento judaico da fundamentalista Damares Alves transformaram a violência de gênero no Brasil em um fenômeno doloroso, segundo a edição 2022 do Anuário Brasileiro da Segurança Pública.

"As meninas vestem rosa" dizia Damares. Deviam vestis preto que simboliza o luto tanto no cristianismo quanto no islanismo e a tristeza.

"As estatísticas confirmam o massacre que os casos tornados públicos diariamente já sugeriam. Num dia, uma menina de 11 anos vítima de estupro tem cerceado o direito ao aborto legal, tanto pelo sistema de saúde quanto por autoridades judiciais. Noutra noite, uma equipe de enfermagem flagra o abuso de um anestesista a uma parturiente em pleno centro cirúrgico. Em cinco dias de julho, no Grande Rio, três casos bárbaros de feminicídio. Mais uma semana, e um procurador do Ministério Público Federal trata, em mensagens no grupo de colegas, o feminismo como transtorno mental e evoca a ideia de débito conjugal para subtrair das mulheres o direito ao sexo consensual", aponta reportagem do Globo.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública contou 5.789 tentativas e 1.341 feminicídios no país no ano passado. Significa que, por dia, praticamente 16 mulheres são feridas de morte e quatro perdem a vida. 

O terror do Estado começou na ditadura militar, quando as mulheres eram presas e torturadas pelo sadismo sexual de militares homicidas.O Brasil é quinto país no mundo no ranking de assassinato de mulheres.Image

 

Em 2021, na época da pandemia, 17 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência. No ano anterior, 1.350 foram mortas. Diante de dados tão alarmantes, o Repórter Record Investigação visitou quatro estados com as piores estatísticas do país para conversar com mulheres que sobreviveram a tentativas de feminicídio e hoje lutam para superar os traumas.

07
Jul22

Relatos de mulheres presas pela ditadura militar atualizam resistência a autoritarismo no Brasil

Talis Andrade

Torre das Donzelas - Filme 2015 - AdoroCinema

Documentário “Torre das Donzelas” resgata histórias de presas políticas, companheiras de Dilma Rousseff em presídio de São Paulo, e inspira novas gerações a enfrentar onda de conservadorismo que acomete o país; filme estreou no circuito comercial nos primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro

 

por Maria Martha Bruno

que era para ser memória se tornou resistência. O que parecia ter ficado no passado chegou ao presente. “Eu achei que ia contar uma história, mas estou vivendo essa história na pele. Eu fico arrepiada de falar. É muito assustador”, resume a cineasta Susanna Lira, em conversa com a Gênero e Número, antes de uma das exibições de seu novo filme, “Torre das Donzelas”, no Festival do Rio.

O documentário, que chegou à mostra de cinema da capital fluminense depois de passar por festivais em Brasília e São Paulo, resgata a história das mulheres detidas no conjunto de celas femininas do Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura militar (1964-1985). Uma semana após as eleições que levaram Jair Bolsonaro à Presidência da República, a sessão especial que contou com a presença de algumas das ex-presas políticas arrancou da plateia lágrimas e cinco minutos ininterruptos de aplausos. Elas ainda distribuíram ao público flores de papel brancas e roxas, adornadas com a palavra “resistência” em uma folha.

O trabalho, que começou a ser concebido em 2011 e estreou em circuito nacional no primeiro trimestre de 2019, teve um timing surpreendente. Naquele ano, Dilma Rousseff, uma das personagens do filme, havia tomado posse como primeira presidenta do Brasil. Em 2018, durante as primeiras exibições de “Torre das Donzelas” em salas brasileiras, o país escolhia Bolsonaro como sucessor eleito de Dilma. “Fico na dúvida se esse timing é bom ou ruim. Para quem assiste ao filme, é um alento para continuar acreditando que a democracia é o melhor sistema de governo. Ao mesmo tempo, as forças que vêm por aí são tão duras, que eu nem sei…”, suspira Lira. Ela lembra que, quando começou a realizar o filme, apologias à tortura e nostalgias do regime militar soavam como uma “barbaridade”.

Ao falar da forte relação estabelecida com as personagens do filme, a cineasta resgata as principais mensagens que elas – e sua obra – têm a transmitir. Lira lembra que, ao observar o fortalecimento do autoritarismo, ela chegou a se queixar com algumas das “donzelas”: “Elas me olhavam e diziam: ‘A gente lutou. Qual é o problema de você ter que lutar também?’ Elas reagem de maneira muito mais madura, firme e resistente”.  

 

“Não manjo isso de sororidade”

 

Uma das ex-presas que ajudou a situar a diretora nos novos tempos confessa que não esperava se deparar com o atual cenário político. Mas, na iminência de se tornar avó pela segunda vez, a farmacêutica aposentada Ana Miranda se mantém otimista quanto ao futuro. “Imediatamente após o resultado das urnas eu fiquei muito abatida. Mas a gente precisa ter um certo controle sobre o medo, se não vira paranoia. Não podemos sofrer por antecipação”, afirma.

Fundadora do Coletivo Memória, Verdade e Justiça, Miranda também é muito próxima ao Levante Popular da Juventude. Presa um ano e meio na torre (foram quatro anos de detenção no total, se contados outros lugares por onde passou), ela revela que aquela foi “a melhor experiência de sua vida”. A declaração pode parecer surpreendente, mas é possível entendê-la vendo o filme. “Até nos momentos mais difíceis há pequenos espaços em que a gente pode se movimentar e viver. Foi uma experiência coletiva incrível. E olha que não manjo isso de sororidade”, diz ela, aos risos.

 Elas me olhavam e diziam: ‘A gente lutou. Qual é o problema de você ter que lutar também?’ Elas reagem de maneira muito mais madura, firme e resistente

— Susanna Lira, diretora do documentário “Torre das Donzelas”

 

São várias as cenas que exemplificam as experiências memoráveis de Ana. Desde as aulas de idiomas ministradas por presas que sabiam francês ao desfile de vestidos caríssimos que elas insolitamente receberam de presente em uma mala. “Nós demos felicidade para nós mesmas na pior situação possível. Fugimos de uma visão penitente da cadeia”, diz Dilma Rousseff, em depoimento às câmeras. A diretora Susanna Lira lembra que em tempos de outros tipos de feminismo, “não havia competitividade entre elas em hipótese alguma. Elas ensinavam umas as outras, trocavam saberes para ficarem mais fortes juntas, e seguirem em frente”.Torre das Donzelas é documentário sensorial sobre vida em presídio  ditatorial - Universo 42

 

Lira conta que sua própria história foi um dos pontos de partida para o filme. Ela é filha de uma mulher que se envolveu por dois meses com um equatoriano de passagem pelo Brasil durante a ditadura. “Quando minha mãe disse que estava grávida, ele disse que era procurado pelo Dops [Departamento de Ordem Política e Social] e que não poderia de forma alguma me assumir. Eles decidiram fazer um aborto. Mas no meio do caminho, ela quebrou esse pacto”, relata a diretora. Até hoje ela não sabe o nome o pai, nem se ele está vivo ou morto, já que não deixou rastro depois que seu “aparelho” (esconderijo de militantes de esquerda na época) foi descoberto no Rio de Janeiro. Sua história será tema de seu próximo documentário, “Nada sobre meu pai”.Torre das Donzelas e o bunker emocional construído pelas mulheres presas na  ditadura militar - Nonada

 

Aos filhos de agora e do futuro, Ana Miranda deixa uma mensagem melancólica sobre o passado recente e alentadora sobre o que virá: “A tristeza é que dificilmente as pessoas da minha geração verão de novo um ciclo virtuoso como a gente viveu, de uma semidemocracia em que havia espaço para mudanças sociais. Mas eu sou um pouco otimista. Acho que até meus netos crescerem ou quem sabe até meus filhos poderão viver em um mundo melhor. As sementes estão plantadas”.

 

06
Jun22

Prefeita chora pela dinheirama da pobre Teolândia que ia pro bolso do cantor sertanejo superpago

Talis Andrade

Arrasada por enchentes, Teolândia terá show de Gusttavo Lima ao custo de R$  704 mil - Jornal OpçãoTeolândia: Enchente de Natal, confira a reportagem completa - PTN NEWSTeolândia: Enchente de Natal, confira a reportagem completa - PTN NEWS

 

A prefeita de Teolândia (BA), Rosa Baitinga (PP), chorou ao saber que o cantor de sertanejo Gusttavo Lima não faria o show na cidade após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), nesse domingo (5). A chefe do Executivo municipal subiu ao palco, em uma praça, para lamentar o fato diante das pessoas que aguardavam a apresentação do sertanejo. O Ministério Público (MP-BA) acionou a Justiça após suspeitas de irregularidades nos gastos com a festa. Somente Gusttavo Lima receberia mais de R$ 700 mil de cachê. O festival custaria um total de R$ 2,3 milhões e aconteceria entre os dias 4 e 12 de junho. De onde a Rosa Baitinga retira essa dinheirama? Esse dinheiro ao deus-dará.

"A minha dor é muito grande, vocês não têm ideia. Eu queria estar hoje, de vermelho e preto, arrumada para o Embaixador (apelido de Gusttavo Lima)", proferiu a prefeita. "Digo a vocês: O Embaixador veio ali no posto de gasolina, mas ele teve que voltar. E Deus o acompanhe, ilumine sua vida e lhe dê muitos anos de vida, porque o futuro a Deus pertence", disse a prefeita, cercada por familiares e pré-candidatos a cargos parlamentares de seu partido.

De acordo com o STJ, o gasto de altos valores para um município de apenas 20 mil habitantes e em situação de emergência declarada justifica a suspensão do evento.

O cantor tem contratos com prefeituras questionados pela Justiça em outros estados. O Ministério Público do Rio de Janeiro investiga se houve irregularidades na contratação dele para um show em Magé, a 100 quilômetros da capital fluminense, por R$ 1 milhão. Outros dois contratos do artista são investigados, um em Roraima, no valor de R$ 800 mil, e outro em Minas Gerais, de R$ 1,2 milhão.

Dinheiro do povo pobre, dinheiro do povo sem comida no prato, dinheiro do povo sem teto, dinheiro do povo sem terra, dinheiro do povo sem nada, a prefeita prefere entregar aos comedores de moedas, hoje milionários cantores sertanejos que vivem da miséria do povo, do dinheiro desviado das prefeituras.A cidade de Teolândia vive momentos de terror, agonia e tristeza, porém  você pode ajudar, veja como - Itabaina Agora

A prefeita Rosa Baitinga jamais chorou por um retirante da seca, por um pobre que teve sua casa soterrada nas inundações. Por uma criança sem merenda. Por uma criança sem comida no prato. Jamais chorou por uma mãe que perdeu o filho porque não tem médico, não tem posto de saúde, não tem hospital, não tem medicamentos. Jamais chorou por um pai desempregado. 

 

A cidade de Teolândia vive momentos de terror, agonia e tristeza, porém você pode ajudar, veja como

 

A cidade de Teolandia – BA que fica a 270km da capital baiana, vive momentos de terror, agonia e tristeza.
 
Um momento de muitas lágrimas e sofrimento, após muita chuva que aconteceu no sul e extremo sul da Bahia, Teolândia também foi uma das cidades a entrar na lista das cidades afetadas, muitas famílias ficaram desabrigadas devido a forte correnteza levar casas, e os móveis, populares ajudaram às vítimas.
 
O “Institudo Unisocial Mulher” de Teolândia também levantou uma campanha para doações de alimentos aos desabrigados. 
 
Estivemos na cidade onde também podemos observar que o nível da água continua baixar e com isso, o rastro de devastação vai ficando a mostra.
 
Que os cantores sertanejos deram para Tolândia? Nada.www.brasil247.com - Rosa Baitinga e Gusttavo Lima
 
 
Que a prefeita ganha dos cantores para chorar tantas lágrimas?
 

#Bahia: Forte correnteza invade ruas do município de Teolândia após temporal na região

A cidade está entre as que declararam estado de emergência#Bahia: Forte correnteza invade ruas do município de Teolândia após temporal na região

04
Set21

Um Gigantesco Crime

Talis Andrade

A grotesca intimidação a Guilherme Boulos - Correio do Brasil

 

por Marcelo Zero

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Bolsonaro apropriou-se do 7 de setembro para fins políticos próprios. 

Tivesse ele se apropriado do Cristo Redentor ou da Petrobras, o crime seria menor.

Essa data deveria ser, como sempre foi, uma grande festa cívica que incluísse todos os brasileiros, independentemente de colorações partidárias ou de preferências ideológicas.  

Mas, neste ano, o 7 de setembro será uma manifestação exclusiva de bolsonaristas, em apoio ao “Mito” e, pior ainda, em desafio ou ultimato às instituições democráticas. 

Fala-se muito em se evitar tumultos ou quebra-quebras, mas o grande quebra-quebra já foi feito, sem que ninguém protestasse.  Ao se apropriar do 7 de setembro, ao cometer esse gigantesco peculato simbólico e político, Bolsonaro quebrou a Constituição, as leis, a tradição e as regras do convívio democrático.

Fico imaginando a tristeza dos pais que não poderão levar seus filhos ao 7 de setembro porque não querem se associar a um ato político-partidário de desafio à democracia. 

Se isso não é crime de responsabilidade, não sei mais o que possa ser. 

Fascismo-no-Brasil.jpg

 

É típico de movimentos de índole fascista se arvorarem em detentores de uma espécie de monopólio do amor à Pátria.

Os bolsonaristas acham que eles são os únicos patriotas. Portanto, eles são os únicos qualificados a participar do 7 de setembro. Eles são os únicos “verde-amarelos”, o resto é gentalha de outra coloração.  

Quem faz oposição, quem deles discorda, não é brasileiro. São meros traidores, que deveriam deixar o país ou, como disse candidamente o Presidente, ir para a “ponta da praia”, expressão de caserna para designar execuções. 

Na ditadura havia o lema “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Mas o Brasil do lema de natureza fascistoide não era, na realidade, o país. Era, isto sim, a própria ditadura. Quem dela não gostasse tinha de ir para o exílio ou “desaparecer”.Q958019 - Questões de Vestibulares | Qconcursos.com

Bolsonaro faz pior. Ao se apropriar do 7 de setembro, coisa que nem a ditadura fez, Bolsonaro, indo além de Luiz XIV, proclama: o Brasil sou eu! 

Agrava o crime o fato de que, nesse próximo 7 de setembro, há pouca independência a se comemorar.

A política externa e a política de defesa do bolsonarismo apequenaram o país, sedimentaram uma relação de subserviência em relação a setores da extrema-direita dos EUA e transformaram o Brasil numa espécie de pária internacional. 

A subserviência ideológica ao “trumpismo”, a alienação de setores produtivos estratégicos, a abertura incondicional da economia, o desinvestimento na integração regional e no BRICs, a inserção de nossas Forças no Comando Sul dos EUA, a entrega da Base de Alcântara etc. limitam comemorações de uma verdadeira independência.  E parecem indicar que o “amor à Pátria” dos bolsonaristas não está refletido em suas práticas. 

Independentemente do que venha acontecer na próxima terça-feira, este 7 de setembro já entrou para a História como o 7 de setembro mais triste. 

Em vez de uma data de júbilo, de alegria, de inclusão, de união de todos os brasileiros, Bolsonaro conseguiu a trágica proeza de transformá-la em data de temor, de ódio, de divisão entre brasileiros e de ultimato à democracia.

Não há crime maior do que esse.

 

Eu sou, realmente, a Constituição”, responde Bolsonaro a seus críticos |  bloglimpinhoecheiroso

22
Jun21

Um mosaico multicor contra o fascismo

Talis Andrade

 

Protestos foram ainda maiores e capilarizados que os de maio. Em boa medida, por sua organização plural: centenas de movimentos encontraram-se nas ruas; nenhum se sobrepôs aos demais. Esta configuração, rara no Brasil, precisa ser mantida

 

por José Antonio Moroni e Ana Cláudia Teixeira /OutrasPalavras

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Um mosaico ocupou novamente as ruas no último sábado (19) para gritar “Fora Bolsonaro“, por vacina e por comida. Com criatividade e dor, foram feitas intervenções artísticas em várias partes do país.

De manhã, no Rio de Janeiro, a manifestação se iniciou com um instante comovente, um único saxofonista tocava enquanto participantes erguiam silenciosos seus punhos esquerdos cerrados. Ao final da manifestação em Porto Alegre velas foram acesas. No fim da tarde, um caminhão pipa lembrando a marca de 500 mil mortos pela covid derramou, pela extensão da Avenida Paulista, em São Paulo, uma água vermelha cor de sangue.

Em Brasília a presença do levante indígena entoou em suas próprias línguas o genocídio permanente que vivem e nos lembrando que somos vários povos. Nas simbologias dos atos, houve a expressão criativa da dor, o luto se transmutando em indignação, mesmo que a tristeza permaneça.

Foto: Paulo Pinto / AFP

 

Os cartazes à mão com nomes dos parentes e amigos mortos também estiveram lá. Muitos apenas com o nome e a data, outros responsabilizando o governo Bolsonaro e a falta da vacina. No mosaico que foram as manifestações de maio e de ontem há espaço de se viver o luto. Um luto coletivo por quem foi, mas também por quem ficou e não consegue sorrir.

Um luto de quem busca forças não se sabe de onde para viver. Um luto coletivo pela fome com a qual nosso país voltou a conviver. Sim, muitas das 500 mil mortes eram evitáveis. Os responsáveis precisam ser julgados, não só pela Justiça brasileira, mas nos tribunais internacionais. Genocídio é crime contra a humanidade. A síntese política perfeita deste momento que vivemos foi o “slogan” novamente repetido: vacina no braço, comida no prato e Fora Bolsonaro.

Cada um traduziu o slogan da forma que pode ou o complementou com suas próprias dores. Sempre de máscara e sem registros de violência policial. Ocupantes de terras urbanas trouxeram um tecido escrito à mão, reivindicando o fim dos despejos. Evangélicos contra Bolsonaro expressaram sua indignação contra um projeto de morte.

As religiões de matriz africana, junto com o povo negro, trouxeram a denúncia de que eles vivem permanentemente em processo de genocídio. A comunidade LGBTI+ trouxe com alegria e exuberância de cores a sua luta cotidiana pelo direito a viver e existir da forma que deseja. As mulheres feministas abriram, com seus batuques, muitas manifestações pelo país. A presença marcante de mulheres em todos os atos denunciava aqueles que querem confiná-las aos 15% na representação parlamentar.

Rostos jovens misturados a alguns não tão jovens. Encontro de gerações, de medos e de sonhos. As juventudes formaram a maioria do público presente nas manifestações. Um mosaico de juventudes diversas, plural e fazendo do seu corpo um ato político.

Eram jovens que se organizam em movimento nacionais ou por direitos como o da educação, bem como pequenos grupos de amigos com uma estética parecida e cartazes especialmente produzidos. Juventudes que espelham uma síntese política: jovens, muitos periféricos, mulheres, feministas, LGBTI+ e negros e negras. Uma presença que chega sem pedir licença e diz “este espaço também é nosso”.

As bandeiras, batuques e palavras de ordem já bem conhecidas de quem participa de atos ocuparam novamente as ruas. Mas não só. Pessoas aparentemente não ativistas, pequenos grupos de amigos ou pessoas totalmente sozinhas com cartazes impressos, muitas com seus cachorros, também se fizeram presentes. Todas de máscara, buscando no vai e vem estar juntas e distantes.

Neste mosaico, onde cada peça é diferente mas tem um conjunto que o torna mais belo, a manifestação foi um lugar de busca pelo outro por meio do olhar. As pessoas procuram se reconhecer. A máscara esconde boa parte do rosto e, para proteger do sol, usa-se o boné. Restam os olhos para reencontrar um conhecido, e dizer uma meia dúzia de palavras. Neste reencontro, há o misto de alegria, alívio e dor, pois não parece caber o direito de esquecer as 500 mil vítimas que eram amor de alguém.

Os organizadores registraram, até sábado à noite, 750 mil pessoas em 427 cidades em atos realizados no Brasil e em 17 países. Como no dia 29 de maio, a mobilização foi feita pela Campanha Fora Bolsonaro, que é formada por movimentos sociais, coletivos, articulações, coalizões, sindicatos e partidos de esquerda, e que em sua diversidade tentaram garantir uma organização local bastante plural. Este mosaico tem garantido a unidade das manifestações. Uma diversidade de sujeitos que dialogam e constroem um campo comum de ação e de luta.

Essa é a forma pela qual ambas as manifestações do Fora Bolsonaro foram construídas. Não há uma coordenação central e com isso não se tem um espaço político que receba e processe todas as informações. Mas é certo que ontem os protestos foram bem maiores que os atos de maio, tanto em número de participantes, quanto cidades atingidas e amplitude geográfica. As manifestações se ” interiorizaram” pelo país. Há relatos de atos em cidades pequenas. O mosaico aumentou nas suas bordas.

Como em maio houve uma pluralidade de formas de dizer “Fora Bolsonaro”. Quem não se sentiu seguro para ir às ruas se manifestou nas carreatas, colocando panos pretos nas janelas, buzinando, colocando cartazes em suas janelas. Nas redes, o slogan do dia foi #19JForaBolsonaro. No Twitter, segundo o pesquisador Fabio Malini, houve uma queda de postagens, foram 1 milhão a menos do que no #29M.

Mesmo assim, cerca de 700 mil tweets foram postados. A participação no Instagram foi significativa, com cerca de 20 milhões de interações. Talvez porque a imagem das manifestações represente mais que muitos textos, talvez pela juventude muito presente nos atos.

No contra-ataque, bolsonaristas tentaram emplacar a narrativa de que se tratavam de “manifestações meramente partidárias”. Não foram. E, se fosse, qual seria o problema? Parece que esta narrativa perdeu apelo após a triste marca de 500 mil óbitos ter sido atingida. O anúncio fez com que uma série de influenciadores que até então não haviam se posicionado o fizessem.

Aparentemente o poder de contra-ataque bolsonarista no Twitter diminuiu. Será por conta da “limpeza” feita pela rede na última semana, varrendo contas falsas, ou a estratégia dos bolsonaristas foi justamente não falar absolutamente nada para não gerar mais engajamento?

Sim, ontem foi maior, mais diverso e mais bem coberto pela mídia tradicional. Haverá novos atos? E para onde irão? É possível lograr que esses protestos empurrem a CPI e façam chegar o impeachment de Bolsonaro? Ou as manifestações servirão para gerar um caldo propício para a derrota do presidente nas eleições de 2022?

Difícil dizer. O cenário político não parece nada propenso a saídas institucionais. E, olhando para “os vizinhos”, é preciso lembrar que mudanças eleitorais nos Estados Unidos, no Chile e na Bolívia foram precedidas de grandes protestos de rua. As conexões entre ruas, redes sociais e mudanças eleitorais são uma dinâmica importante dos últimos anos em todas as partes. Elas se retroalimentam.

Por outro lado, a urgência de defender a vida não parece permitir a espera das próximas eleições. Aguardar pacificamente um ano e meio por uma eleição ainda muito incerta no seu resultado, por ora, não é uma escolha razoável.

 

Um cenário em que o governo Bolsonaro passe a priorizar saúde e vida digna para todos não passa de uma miragem. E, se o fizer, será puramente de forma eleitoreira. Diante da emergência humanitária em que nos encontramos, as ruas sinalizam que o “Fora Bolsonaro” visa 2021, e não há calendário eleitoral que acomode essa urgência. A defesa da vida é para ontem.

30
Mai21

“Essas capas são uma mentira”

Talis Andrade

por Eliane Brum

- - -

As capas do Globo e do Estadão de hoje são muito mais do que uma vergonha histórica. Grandes jornais, com responsabilidade pública, traindo os fatos. Centenas de milhares de brasileiras e brasileiros ocupam as ruas do Brasil gritando “Fora, Bolsonaro” e o Globo dá como manchete “Pib reaquece” e o Estadão fala de “turismo”. Centenas de milhares de brasileiras e brasileiros gritando nas ruas “Eu te Responsabilizo, Bolsonaro” e o Globo e o Estadão acham que podem simplesmente minimizar – e tanto têm certeza que podem, que minimizam. Fato, que fato? Notícia, onde? Centenas de milhares de brasileiras e brasileiros nas ruas e o Globo e o Estadão acham que não é manchete. Tipo… quase nada aconteceu.

A NÃO cobertura do 29M por grande parte da grande imprensa dá a dimensão da gravidade do que estamos vivendo, o que sabemos bem, e dá a dimensão da complexidade do que estamos vivendo, para além do que seria possível imaginar. Os grandes jornais acham que podem ignorar a realidade e continuar se apresentando como imprensa. Podemos pensar que, além de todos os significados, não aprenderam nada com a ditadura militar. Daqui uns 30 anos vão vir com explicações, arrependimentos e mea culpas. Mas é muito pior do que isso. Fizeram uma escolha – e fizeram essa escolha mesmo sabendo o que ela custa para um jornal. Sacrificaram o jornalismo em nome dessa escolha. Se alguém ainda não tinha entendido, agora entendeu.

Significa muito o que aconteceu nessas capas. Vai render muitos livros e teses acadêmicas. Mas, agora, neste momento, precisamos lutar pela vida. E já entendemos que uma parcela significativa da grande imprensa já começou a sacrificar os fatos e a ocultar a realidade, mesmo que a realidade sejam centenas de milhares de brasileiras e brasileiros na ruas.

Um jornal mostra se merece esse nome nos momentos cruciais vividos pela sociedade, aqueles em que a imprensa é mais necessária do que nunca à democracia. A ampla crise vivida pelo Brasil poderia ser o momento em que a imprensa mostraria o quanto é necessária e insubstituível, como tem acontecido em outros países, em que a imprensa voltou a ser valorizada como agente fundamental para o restabelecimento da verdade. O que testemunhamos com essas capas é uma traição a todos os princípios do jornalismo. Essas capas são uma mentira. Felizmente, esses não são os únicos jornais do Brasil. Leiam (escutem e assistam) quem tem respeito pela nossa inteligência, quem tem respeito pelo jornalismo, quem tem respeito pelos fatos.

Sinto nojo. Mas também uma enorme tristeza.

 

Capa do jornal O Globo 30/05/2021

Capa do jornal Estadão 30/05/2021

01
Nov20

De vexame em vexame, nos convencemos que o Brasil não tem mais graça

Talis Andrade

aziz bandeira cueca.jpg

 

 

'BUTTOCKS' E CUECA
 
por Luis Fernando Veríssimo
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O jornal The Guardian, da Inglaterra, deu a notícia com precisão anatômica: o senador Chico Rodrigues estava com dinheiro entre seus “buttocks”, nádegas. A imprensa brasileira preferiu localizar o inusitado cofre do senador numa vaga “cueca”, que abrange as nádegas, mas, desculpe, não vai tão fundo. Ou o Guardian tem informantes que ninguém mais tem sobre os hábitos do senador, ou está querendo nos anarquizar – ou precisa explicar seu noticiário exclusivo. Ou então o que deve ser estudado é a opção da imprensa nacional pela cueca em vez dos mais desmoralizantes “buttocks”. Por que escolheram a menos desmoralizante?
 
Minha interpretação é que, com o dinheiro escondido nos fundilhos do senador, chegamos a uma espécie de limite de tolerância com nós mesmos. Não nos aguentamos mais. De vexame em vexame, culminando, desculpe, com a história do dinheiro entre os “buttocks”, ou na cueca, nos convencemos que o Brasil não tem mais graça. Não somos mais nem folclóricos, o folclore que nos redimia amargou. Ficamos grotescos, reduzidos às peculiaridades que nos caracterizavam quando éramos simpáticos e hoje só divertem o mundo.
 
Chargistas e humoristas não receberam ordens para maneirar quando afundam, desculpe, no assunto, claro. Estão apenas fazendo o que fazem muito bem, e dinheiro entre “buttocks” ou na cueca do vice-líder no Senado de um governo que iria acabar com a corrupção é um assunto irresistível demais, e as piadas não acabam. Mas imagino que o sentimento que predomina até entre os mais acerbos críticos desse governo é o de tristeza. Uma tristeza imensa, continental, amazônica. O que fizeram do Brasil! Aquele país tão promissor, que fim levou? Para onde o levaram?
 
Eu acho que os vexames começaram junto com o governo Bolsonaro, quando o presidente recém-eleito comentou que um dos seus filhos poderia ser o embaixador brasileiro em Washington – e ninguém reagiu. Tínhamos ali uma medida do homem e uma oportunidade de chamá-lo para a realidade, mas ninguém reagiu. Depois, ficou tarde e multiplicaram-se os vexames.

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12
Jun20

General Ramos, não põe corda no meu bloco

Talis Andrade

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por Denise Assis

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Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo, é um general. Tal como o “He Man”, o personagem de desenho animado, ele tem a força. Tem tropas atrás de si. Está na ativa. E, portanto, apto a dizer ao povo brasileiro que os comandantes do Exército acham “ultrajante” falar que eles pretendem dar um golpe no melhor estilo quartelada, à moda de 1964. A declaração foi dada à Revista Veja, que circula neste final de semana. Mas em seguida, numa contradição, ele manda um recado sutil como a entrada de um touro numa loja de porcelana: “Agora, o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda”.

Usando da mesma “sutileza”, eu devolvo para o general a seguinte questão: onde foi que o senhor cuspiu no chão e demarcou o limite que nós, a população brasileira, os que pagamos o seu salário e os dos seus comandados, não podemos ultrapassar? É importante que o jogo fique absolutamente claro, general. Do contrário, podemos esgarçar a corda, ao ponto de sermos surpreendidos com as suas tropas na nossa porta.

As falas de Ramos circulam coincidentemente no mesmo dia em que o Chefe do Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos, o general Mark Milley, principal autoridade no ramo, desculpou-se com os americanos por ter acompanhado o  presidente Donald Trump, em um ato político e desastrado, enfrentando as manifestações contra o  racismo, numa caminhada marketeira até uma igreja – que, diga-se de passagem, Trump não frequenta.

“Minha presença naquele momento, e naquele ambiente, criou uma percepção de envolvimento dos militares na política interna”, disse.

A frase do comandante americano, impensável na boca de qualquer um dos generais daqui, que como craca se agarram ao poder de um governo que oprime e desconsidera as questões cruciais do seu povo, incomodou o general Ramos. Fez ver a ele o quão ridículo são os militares que topam misturar tudo e, num “cozidão à brasileira”, festejar entre faixas inconstitucionais, a tomada gradativa dos direitos da Nação. Há um mês, lá estava ele, ao lado de Bolsonaro, numa manifestação dos bolsominions.

Para contornar o “constrangimento” que disse sentir depois do episódio, declarou. “Não tenho direito de estar aqui como ministro e haver qualquer leitura equivocada de que estou aqui como Exército ou como general. Por isso, já conversei com o ministro da Defesa e com o comandante do Exército. Devo pedir para ir para a reserva. Estou tomando essa decisão porque acredito que o governo deu certo e vai dar certo. O meu coração e o sentimento querem que eu esteja aqui com o presidente.”

Então, qual é a dúvida general? Que “leitura equivocada” é esta? Parece até o Pelé, falando como o Edson Arantes… Façamos o seguinte. O senhor fica com o seu coração, que nós, do outro lado da corda, concluímos que quem esteve na rampa do Planalto foi o general Ramos! E estamos conversados.

A ponderação sobre o pedido para ir para a reserva serviu apenas como um retoque na foto, borrada com o episódio. No duro, sua permanência na ativa garante ter à mão tanques, baionetas e fuzis para quando “esticarmos a corda”. Exigimos, como povo bem comportado que somos, que o senhor de verdade nos diga: qual é o limite? Pois saiba que o nosso, 41 mil corpos depois, contidos e consumidos por uma pandemia que não consta da sua agenda, está no fim.

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A corda que nos cerca, general, está na altura do pescoço. Todo ser humano tem um forte instinto de sobrevivência. E, tal como cantou Aldir Blanc, uma das vítimas desta doença que nos contém e vocês não cuidam por considerá-la “de esquerda”, seria interessante prestar atenção a estes versos do poeta: “Não põe corda no meu bloco/Nem vem com teu carro-chefe/Não dá ordem ao pessoal/Não traz lema nem divisa/Que a gente não precisa/Que organizem nosso carnaval”.

 

 

12
Jun20

Tem uma tristeza coletiva porque está morrendo muita gente

Talis Andrade

Votos bolsonaristas são votos ressentidos

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III - Coronavírus: Falta de empatia de Bolsonaro com mortes por covid-19 parece psicopatia

 
Juliana Gragnani entrevista Maria Rita Kehl
 
 

BBC News Brasil - A sra. escreveu um livro sobre ressentimento. Existe ressentimento na ascensão da extrema direita?

Kehl - O ressentimento tem esse "re" porque é um sentimento requentado, digamos assim. É uma disposição psíquica de alguns sujeitos quando eles não querem aceitar consequências dos seus gestos errados. Não aceita que é responsável por algo que o prejudicou. Então fica procurando um culpado. Depois passa o resto da vida remoendo isso: esse é o ressentimento.

Me parece que alguns votos bolsonaristas são votos ressentidos. É muito difícil saber do que se ressentem. De terem sido coniventes com a ditadura e vem Comissão da Verdade e mostra os horrores todos que aconteceram?

Ou o ressentimento de classe de quem no Brasil durante tanto tempo teve todas as prerrogativas… E veja, ninguém perdeu. Os ricos enriqueceram mais, só que os pobres tiraram o pé da lama. As prerrogativas dos ricos no Brasil são tão de exclusividade que geraram esse ressentimento.

Claro que tem ressentidos que votaram no Bolsonaro, mas tem gente que já era antipetista desde sempre e tem gente que apostou nesse plano econômico do Paulo Guedes, que é um plano para favorecer quem já é favorecido.

 

BBC News Brasil - Nesta semana, o ex-presidente Lula criticou os manifestos suprapartidários em defesa da democracia e se recusou a assiná-los. Existe também ressentimento por parte dele?

Kehl - O Lula é político até o último fio de cabelo. E não político no sentido de que queira ser candidato de novo. Eu não sei que ele está certo ou errado. Sinceramente, acho que ele tinha que aderir a esse movimento. Mas eu acho que o cálculo dele é político, não é porque ele é ressentido contra o Marcelo Freixo ou o Guilherme Boulos, por exemplo. Mas não sei julgar se esse cálculo político é certo ou errado.

Ressentimento é quando você se encolhe, não faz o que tinha que fazer e depois culpa o outro. Eu também não perdoo pessoas que apoiaram o impeachment da Dilma - que foi um golpe. Isso não é ressentimento. Eu acho que o Lula deveria fazer essa denúncia, mas assinar, porque o nome dele tem muito peso, mas eu entendo. O impeachment da Dilma foi um golpe que abriu a porteira para isso que tá aí agora. E não considero que toda essa revolta seja um ressentimento. Ao contrário, a revolta é o contrário do ressentimento. Ressentimento é remoer, revolta é dizer: "Com vocês não falo mais".

 

BBC News Brasil - Estamos vivendo um luto coletivo durante pandemia?

Kehl - Há um luto por parte das pessoas de bem. Porque sabem que há uma pandemia, que ela está sendo minimizada, que atitudes cientificamente comprovadas para diminuir o contágio não estão sendo tomadas, sabem que essa pandemia combinada com escalada da pobreza no Brasil está misturando quem morre de covid-19 com quem morre de fome, de gripe, de desnutrição.

É um sentimento de enorme tristeza. Não é questão de direita e esquerda, é solidariedade humana básica.

É um luto coletivo e uma indignação coletiva, vamos lembrar isso. Tem uma tristeza coletiva porque está morrendo muita gente. Cada dia a gente vê nos jornais, estamos agora com mais de mil mortos diários. Claro que tem tristeza enorme com isso, mas tem também uma indignação. A pandemia talvez não fosse evitável, mas com algumas políticas públicas simples e de contenção, ela podia não ser tão catastrófica. E aí um presidente que diz "Ah, todo mundo morre, e daí?"... Como se as mortes fossem naturais. Não, são mortes por descaso.

17
Abr20

Covid-19: Como os asilos da França organizam visitas a pacientes em fim de vida (capas jornais hoje)

Talis Andrade

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Um paciente em um EHPAD, estabelecimento para pessoas idosas na França REUTERS/Regis Duvignau

 

"Alguns dos que nos deixaram morreram não da Covid-19, mas de tristeza”

A epidemia do novo coronavírus revela a falta crônica de pessoal nos asilos de idosos (conhecidos como “Ehpad”) na França, mas também uma solidariedade de todas as categorias de funcionários para cuidar dos velhos, com ações destinadas a proporcionar conforto e manter laços familiares. Entre as medidas autorizadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, para aliviar a pressão da população, consta a liberação de uma visita “em casos extremos” de familiares em casas de repouso, para darem o último adeus a infectados, quando a situação é irreversível.

Permitir que as famílias se despeçam de seus entes queridos no final de suas vidas. Esse processo muitas vezes doloroso é particularmente difícil durante a crise do coronavírus. Com a necessidade urgente de limitar os contatos e a restrição drástica de visitas a hospitais ou casas de repouso, as possibilidades de acompanhar um membro da família até a morte são muito limitadas.

Durante seu discurso televisionado na segunda-feira (13), Macron falou sobre esse problema, que muitas famílias enfrentam atualmente em quase todos os lugares do planeta. “Desejo que hospitais e asilos possam organizar, para os mais próximos, equipados com as proteções corretas, uma visita aos contaminados pelo coronavírus no final da vida, para que eles possam se despedir”, disse o presidente francês.

Como as visitas são organizadas na França? Na maioria dos hospitais, elas são proibidas, mas "já existem exceções, que permitem apoiar os entes queridos no final da vida", disse um representante do Ministério da Saúde francês, entrevistado pela rádio France Info. "Essas autorizações excepcionais ficam a critério dos diretores de cada estabelecimento”, como determinado por Macron.

A declaração do chefe de Estado visa os asilos, onde o isolamento é ainda mais rigoroso. Por decisão do governo, as visitas foram "totalmente suspensas" desde 11 de março, uma semana antes do confinamento em todo o país. Desde então, as autoridades de saúde têm tolerado exceções "concedidas pelo diretor do estabelecimento, após uma avaliação caso a caso".

Exceções podem ser abertas pelos seguintes motivos: "Uma situação clara de estado terminal, uma descompensação psicológica ou uma recusa em se alimentar que não consegue ser resolvida com os recursos do estabelecimento".

Na falta de pessoal, solidariedade

A estratégia lançada pelo governo  francês no início de março nos lares de idosos e estabelecimentos de saúde impôs uma mobilização "máxima" de profissionais diante da epidemia de Covid-19. Na prática, "a falta de pessoal já era flagrante antes do novo coronavírus, mas os estabelecimentos estão ainda mais afetados, com até 40% de absenteísmo em determinados locais", lamenta Malika Belarbi, auxiliar de enfermagem e representante do coletivo de cuidadores de idosos do sindicato nacional CGT, na França.

No entanto, "em um setor com pouco pessoal ao longo do ano, é importante demonstrar solidariedade, ainda mais em tempos de crise", acrescentou Romain Gizolme, diretor da Associação de Diretores de Serviços para Idosos (AD-PA).

A situação é "muito difícil", diz Marie-France, enfermeira em uma casa de repouso em Hauts-de-Seine (norte da região parisiense), designada para uma unidade de Covid-19. "Vemos a situação se deteriorar, nossos pacientes perderem peso, morrerem na nossa frente em poucas horas, somos impotentes". Só na quarta-feira (15), dois moradores de sua unidade morreram.

"Felizmente, os outros serviços estão lá: funcionários administrativos, pedicures, esteticistas, psicólogos nos ajudam. Eles estão na linha de frente para fortalecer as equipes. Não é o trabalho deles, mas o fazem por solidariedade e dedicação", insiste Malika Belarbi, que conta ter "se encontrado dois dias atrás com uma pedicure lavando a louça para 40 moradores".

"As barreiras hierárquicas estão caindo" 

"Quando um confinamento se impõe, felizmente a equipe de enfermagem e a equipe de limpeza ajudam a de catering a distribuir refeições na sala", diz Romain Gizolme. "Os agentes administrativos, os secretários nos ajudam a fazer os idosos comerem; tenho um colega da Bretanha (noroeste) que veio ajudar. Isso nos faz muito bem", explica Marie-France.

Aicha, que trabalha no departamento de admissões de um lar de idosos em Asnières (Hauts-de-Seine), ofereceu-se para dar apoio a seus colegas de enfermagem. "Eu os libero de suas tarefas administrativas, como organizar a partida de um falecido”. Ela descreve uma "cadeia de solidariedade" que a envia "ao campo todos os dias". "Existe o envolvimento de todos. Nunca vi tanta solidariedade entre as equipes", confirma Raphael Berhaiel, delegado central do sindicato CFDT dentro do grupo Korian, o número um na Europa entre os lares de idosos.

"Antes, havia um certo individualismo. Terminávamos o trabalho e íamos para casa. Hoje, recebemos notícias. Há um desejo de cuidar bem um do outro. Até as barreiras hierárquicas caem", acrescenta Berhaiel. Os funcionários geralmente se esforçam para manter contato com os entes queridos. "Equipes foram criadas para dar notícias diárias às famílias", disse o cuidador.

"No meu estabelecimento, sessões de videoconferência via Skype são organizadas", diz Marie-France. "Tentamos reservar um tempo, o máximo possível com os moradores para dar suporte. Alguns dos que nos deixaram morreram não da Covid-19, mas de tristeza”, acredita. Para Romain Gizolme, "essa crise revela o melhor, o grande comprometimento dos profissionais, às vezes à custa de sua saúde. E também o pior, mostrando como o setor está com falta de pessoal", conclui o profissional.

Com informações da AFP

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