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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Set18

Profissionais da violência

Talis Andrade

A reação de Mourão, o vice “faca na caveira” de Bolsonaro, aponta como o Brasil será governado em caso de vitória da chapa de extrema direita

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por Eliane Brum

El País/ Espanha

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“Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”. A frase é do general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL). Foi dita à revista Crusoé, após o ataque à faca contra o candidato na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 6 de setembro. É uma frase para se prestar toda atenção.

Os vices com frequência têm chegado à presidência no Brasil. Mas o mais importante é o que a declaração nos conta sobre a chapa que, sem Lula, está em primeiro lugar nas intenções de voto para a disputa presidencial das eleições de outubro. O que significa um candidato a vice-presidente se anunciar como “nós” e como “profissional da violência” num momento de tanta gravidade para o Brasil?

 

Abalado pela brutalidade do episódio, Mourão poderia ter escolhido pelo menos duas variações que mudariam a intenção: “os profissionais da segurança” ou “os profissionais da proteção”. Palavras como segurança e proteção levariam à ideia de amparo e de defesa —e não à ideia de ataque, de retaliação e de confronto. Mas não. Mourão usou um “nós”— e usou “profissionais da violência”. Ao ser perguntado quem era o “nós”, o general disse que se referia “aos militares e ao uso da força pelo Estado”.

 

Mourão declarou ainda: “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”. No mesmo dia, o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo: “A guerra está declarada”.

 

Mourão trata as Forças Armadas do Brasil como se fossem sua milícia pessoal

 

É bastante revelador que um general da reserva, hoje político e candidato, se considere no direito de falar em nome do Estado, em plena campanha eleitoral para se tornar governo. A declaração de Mourão mostra que ele acredita falar pelos militares, como se os representasse e os comandasse. E como se os militares fossem uma força autônoma, uma espécie de milícia de Bolsonaro e de Mourão. E não o que a Constituição determina: uma instituição do Estado, paga com recursos públicos, subordinada ao presidente da República.

 

Ao fazer essa declaração, Mourão trata as Forças Armadas como se fossem a sua gangue e o país como se fosse a sua caserna. Alguém machucou o meu amigo? Vou ali chamar a minha turma para descer o cacete. E faz isso na condição de político e de candidato, como se o processo democrático fosse apenas uma burocracia pela qual é preciso passar, mas que pode ser atropelada caso se torne inconveniente demais.

 

Mais tarde, Mourão baixaria o tom, segundo ele a pedido do próprio Jair Bolsonaro. Uma orientação curiosa para um candidato que divulgou uma foto sua na cama do hospital fazendo com as mãos o sinal de atirar. No dia seguinte à agressão, durante entrevista à Globo News, o vice de Bolsonaro afirmou que, em caso hipotético de “anarquia”, pode haver um “autogolpe” do presidente, com o apoio das Forças Armadas.

 

Ao comentar a convocação à violência por ele e outras pessoas da campanha, Mourão afirmou: “Realmente subiu um pouco o tom (no início), mas temos que baixar, porque não é caso de guerra”. Disse ainda que, se forem eleitos, vão “governar para todos, e não apenas para pequenos grupos”.

 

Diante da crise, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil bota gasolina na fogueira que deveria conter

 

As declarações do vice de Bolsonaro no primeiro momento dão pelo menos duas informações sobre ele que vale a pena registrar. Mourão decide baixar o tom depois de elevar (muito) o tom. Poderia se pensar se é esse tipo de reação passional que se espera de um general, uma pessoa numa posição de comando ocupando o posto máximo da hierarquia do Exército, cujas ordens podem afetar milhares de vidas humanas. Pela trajetória de Mourão, a dificuldade de agir com racionalidade em momentos de tensão não parece ter afetado a sua carreira.

 

Neste momento, porém, Mourão é um político e candidato a vice-presidente. Diante da crise, representada pela agressão a Bolsonaro, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil explode, confunde o seu lugar e o lugar das Forças Armadas, e bota gasolina na fogueira que deveria conter. E deveria conter não apenas por ser candidato, mas por responsabilidade de cidadão.

 

É importante que Mourão tenha finalmente entendido que não se trata de uma guerra e tenha parado de encontrar inimigos entre as faces da população. Mas as declarações irresponsáveis já produziram um efeito cujas consequências são difíceis de prever. Como ele mesmo lembrou, “há um velho ditado que diz: as palavras, quando saem da boca, não voltam mais”.

 

Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?

 

O que Mourão faria com poder real diante das tantas crises que esperam um governante? Como governará essa dupla, caso eleita, um que invoca mais violência em palavras e outro que, recém operado após sofrer uma agressão, faz sinal de atirar? Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?

 

A segunda informação que emerge das declarações é a rapidez e a leviandade com que Mourão julga e condena. De imediato ele responsabilizou o PT pela agressão à faca. Não havia —e não há— um único indício de que o autor da facada tenha qualquer ligação com o PT ou faça parte de um plano do partido. Adelio Bispo de Oliveira afirma ter agido sozinho e “a mando de Deus”. Declarar publicamente uma “fake news” ou mentira, num momento de tanta gravidade para o país, também pode ter consequências imprevisíveis. Não adianta voltar atrás depois de ter afirmado uma mentira como “certeza” justamente na hora em que os ânimos estavam mais acirrados.

 

É importante observar como esse protagonista se comporta diante da crise, já que governar um país é lidar com várias crises todos os dias. Se sem poder de governo ele encontra culpados, para além do culpado que já está preso, e invoca publicamente a violência como reação imediata, o que fará caso tenha poder de governo e a possibilidade de convocar o que Mourão chama de “profissionais da violência” e a Constituição chama de “Forças Armadas”? Se, quando precisam convencer eleitores de que são a melhor escolha, os homens de Bolsonaro invocam a guerra dentro do próprio país, o que farão quando já não precisarem convencer ninguém?

 

É importante observar o que dizem quando já não são capazes de se conter

 

É importante observar que não conseguem refrear seus instintos nas horas mais duras, mas também é importante acreditar no que dizem quando não são capazes de se conter. Tanto Bolsonaro quanto Mourão têm se esforçado para mostrar que são “profissionais da violência”. Ao pregarem que a população deve se armar, como se esta fosse a melhor estratégia para enfrentar a questão da segurança, é assim que se apresentam.

 

As declarações contra as mulheres, contra os negros, contra os indígenas e contra os LGBTs também são um exercício da violência que revela uma visão de mundo e a fortalece entre aqueles que dela comungam. Semanas atrás, Mourão chamou os negros de malandros e os indígenas de indolentes. Desta afirmação que saiu da sua boca ele não se arrepende. Como disse Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do candidato: “Tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”. Botaram.

 

No dia seguinte ao atentado, quando segundo ele mesmo o tom deveria baixar, o vice de Bolsonaro enalteceu o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar (1964-85). “Os heróis matam”, justificou ele na TV.

 

Sempre vale lembrar ao menos um episódio entre as tantas mortes e torturas ordenadas ou executadas pelo “herói” de Bolsonaro e de Mourão. O torturador Ustra levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos infligidos em várias partes do seu corpo e também nos seios e na vagina. Este é o farol de Bolsonaro e Mourão, em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência do Brasil, o que diz bastante também sobre os eleitores.

 

Armar-se é uma das principais plataformas da campanha de Bolsonaro-Mourão, o capitão da reserva e o general da reserva. E é preciso levá-los a sério. Não só porque Bolsonaro e Mourão lideram as intenções de voto, mas porque é legítimo que os eleitores queiram votar em “profissionais da violência” para governar o Brasil. É possível discordar de quem aposta em “profissionais da violência”, mas o direito de escolher uma pessoa que invoca a violência é legítimo numa democracia.

 

Há muita gente clamando por “civilização” contra o que nomeiam de “barbárie” que atravessa o Brasil, às vésperas de uma eleição em que o candidato em primeiro lugar nas pesquisas está na prisão e é proibido pelo judiciário de se candidatar e o candidato em segundo lugar leva um facada durante um evento de campanha e precisa passar por uma cirurgia.

 

Mas o que chamamos de civilização tem sido sustentado pela barbárie cotidiana contra os negros e os indígenas. A civilização sempre foi para poucos. A novidade que uma chapa Bolsonaro-Mourão apresenta é a suspensão de qualquer ilusão. Não é por acaso que alicerçam sua prática antiga, tão velha quanto o Brasil, nas redes sociais, o espaço onde toda a possibilidade de mediação foi rompida e os bandos se fecham em si mesmos, rosnando para todos os outros.

 

A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos. O que Bolsonaro e Mourão dizem, como “profissionais da violência” que são, é que já não é preciso fazer de conta. Neste sentido, rompem o mesmo limite que a internet rompeu, ao tornar possível que tudo fosse dito. E também ao dar um valor ao dizer tudo, mesmo que este tudo seja o que nunca deveria poder ser dito, já que é necessário um pacto mínimo para a convivência coletiva e o compartilhamento do espaço público.

 

A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos

 

Ao representar a velha boçalidade do mal expressada na novidade das redes, Bolsonaro-Mourão são os representantes mais atuais deste momento. Eles sabem que a guerra não existe no Brasil. O que sempre existiu foi o massacre. São os mesmos de sempre que continuam morrendo, como os camponeses de Anapu nas mãos dos pistoleiros da grilagem e as crianças das comunidades do Rio em cujas cabeças as balas explodem.

 

Ao inventarem uma guerra para encobrir o massacre, Bolsonaro e Mourão inventam também a ideia de que as armas serão iguais e acessíveis para todos, bastando para isso o “mérito” de passar em eventuais testes e o “mérito” de ser capaz de pagar pelas melhores. Conheceremos então o discurso da meritocracia aplicado às armas.

 

Bolsonaro e Mourão sabem muito bem que não haverá igualdade ao armar a população. Se Bolsonaro, o “profissional da violência”, teve alguma sorte na tragédia, é a de que Adélio Bispo de Oliveira era um amador e era pobre. Ele tinha apenas uma faca e nenhum plano para depois. Se ele fosse um “profissional da violência” como Mourão, Bolsonaro não teria tido a chance de fazer o gesto de atirar na cama do hospital, depois de ser salvo pelo SUS, sistema público de saúde que ele não se esforça para defender.

 

A sorte de Bolsonaro, o “profissional da violência”, é o fato de Bispo ser um amador

 

Marielle Franco, a vereadora do Rio pelo PSOL, não teve esta sorte. Seus assassinos arrebentaram sua cabeça com arma de alto calibre e uso restrito e até hoje, seis meses depois, não se conhece nem a identidade do executor nem a do mandante. Negra, lésbica e favelada, Marielle está no lado dos que morrem e cujas mortes permanecem impunes. Marielle está no lado dos massacrados, não dos que massacram.

 

Mas não é sorte o que Bolsonaro teve ao ser atacado por um amador. Tanto ele quanto Mourão sabem o que dizem quando reivindicam serem “os profissionais da violência”. Eles são. Resta saber se a verdade da maioria dos brasileiros é também esta: a de desejar profissionais da violência comandando o país onde vivem.

 

Se a maioria dos brasileiros mostrar nas urnas que quer esse tipo de político no poder, então é isso que escolheram. Faz parte do processo democrático que as pessoas se responsabilizem por suas escolhas e as consequências que delas resultam. Se você chama “profissionais da violência” para comandar o país onde você e sua família vivem, você deve saber o que terá. 

 

13
Set18

Contra-revolução autoritária: Brasil alerta máximo

Talis Andrade

O Estado brasileiro está muito fragilizado e o sistema judiciário muito politizado, mas mantém-se silencioso sobre os apelos ao ódio e à violência. As Forças Armadas intervêm cada vez mais no debate político e há uma elite disposta a tudo para se manter no poder.

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por Álvaro Vasconcelos

Público/ Portugal

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O esfaqueamento de Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita militar, é mais um alerta para as gravíssimas ameaças à democracia, num quadro de contra-revolução autoritária e nacionalista que põe em perigo a liberdade.

 

O atentado contra Bolsonaro não foi montado pelo seu partido, e as teorias conspirativas do próprio e dos seus adversários só servem para ocultar o proveito que o candidato pretende tirar dele. O incêndio do Reichstag, acto individual ou inventona Nazi, serviu os objectivos de Hitler. Vivemos o século XXI como se tivéssemos esquecido o século XX e as suas trágicas lições.

 

A guerra civil fria que polariza o país desde a eleição de 2014, agravada pelo impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula, líder das intenções de voto, está a ganhar contornos cada vez mais violentos.

 

Dias antes de ser esfaqueado, Bolsonaro tinha declarado no Acre que iria fuzilar todos os petralhas (ou seja, os políticos do PT). Num ambiente em que os discursos de ódio de Bolsonaro se multiplicavam, a caravana eleitoral de Lula foi baleada, Marielle Franco foi assassinada e refugiados venezuelanos atacados.

 

 

Como noutros países democráticos, a via da extrema-direita para o poder não passa pelo golpe militar, mas pelos actos eleitorais, como na Áustria e na Itália. Instalada no poder, sozinha ou em coligação, vai paulatinamente destruindo as liberdades públicas, o Estado de direito e a convivência intercultural, como fez o PIS na Polónia, ou o Fidesz de Viktor Orbán na Hungria. É o que Trump gostaria de fazer nos Estados Unidos, mas tem sido impedido pela independência das instituições e pela sociedade civil americana. No Brasil, porém, os contrapoderes são mais frágeis e uma vitória de Bolsonaro significaria um regresso do autoritarismo militar.

 

No Brasil, apoiantes de Bolsonaro, mas também de outras forças que se auto-intitulam liberais, classificam de comunista o Partido dos Trabalhadores. Mas o PT é um partido social-democrata de esquerda. Maduro e Chávez estão muito mais perto do caudilhismo militar latino-americano que inspira Bolsonaro do que de Lula

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O que a extrema-direita odeia não são as eleições, pelo menos enquanto estão na oposição, mas a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Esses valores fundamentais são apontados como responsáveis pela decadência da sociedade e a eles contrapõem o nacionalismo e a superioridade étnica. Bolsonaro, que é quem de forma mais transparente assume a natureza neofascista da sua ideologia, elogia a ditadura militar e expressa, sem pudor, o ódio e desprezo pelos direitos das mulheres, dos homossexuais, dos negros e dos emigrantes, a quem chamou “escória do mundo”.

 

Perante a gravidade da situação, como devem reagir os democratas?

 

Alguns, como se viu com o debate sobre o convite a Marine Le Pen para participar na Web Summit, em Lisboa, defendem a via do diálogo com a extrema-direita. Há quem acuse os que se opõem a esse diálogo de incoerência, pois não criticariam com o mesmo afinco os regimes totalitários de esquerda. Esquecem-se que a guerra fria acabou há quase 30 anos e que a hipótese de tomada de poder pelos comunistas é nula enquanto a da extrema-direita é bem real. Esquecem-se do grave erro da social-democracia e dos comunistas alemães, quando, perante a ameaça do nazismo, continuaram a ver-se como inimigos. Na Europa, a incoerência perante a extrema-direita está bem patente no Partido Popular Europeu, que mantém o Fidesz e o PIS no seu seio (sem que o PSD e o CDS clarifiquem a sua posição).

 

No Brasil, apoiantes de Bolsonaro, mas também de outras forças que se auto-intitulam liberais, classificam de comunista o Partido dos Trabalhadores. Mas o PT é um partido social-democrata de esquerda, que governou, apesar dos erros graves, sem pôr em causa a economia do mercado, tendo uma política de distribuição de riqueza para enfrentar a grave dívida social do Brasil. Maduro e Chávez estão muito mais perto do caudilhismo militar latino-americano que inspira Bolsonaro do que de Lula.

 

Para combater a extrema-direita é fundamental aplicar a lei: os apelos ao ódio e a propagação do racismo são crime. Para isso é preciso preservar o Estado de Direito e dar-lhe os meios para agir. Na Europa nem sempre tem sido feito assim, como se vê na lentidão com que as instituições europeias têm agido contra os governos da Hungria e da Polónia.

 

No Brasil a situação é particularmente perigosa porque o Estado está muito fragilizado e com um judiciário politizado, mas silencioso sobre os apelos ao ódio e à violência, as Forças Armadas intervêm cada vez mais no debate político e há uma elite pronta a tudo para se manter no poder.

 

Para combater a extrema-direita é fundamental aplicar a lei: os apelos ao ódio e a propagação do racismo são crime. Para isso é preciso preservar o Estado de Direito e dar-lhe os meios para agir. Na Europa nem sempre tem sido feito assim

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 Deputado Eduardo Bolsonaro (ATENCÃO detalhe da camisa)

 

 

Não basta, no entanto, defender as liberdades e combater o racismo.

 

Para ganharem eleições, os partidos democráticos têm de enfrentar as graves distorções do sistema económico e financeiro e as gritantes desigualdades que provocam, o que explica a indignação das classes médias e a sua adesão a propostas demagógicas dos populistas. Para derrotar a extrema-direita é imperioso não só que a direita liberal supere a sua incoerência ética, mas também que a esquerda democrática supere a sua incoerência social.

 

A situação no Brasil é particularmente grave e deve ser vista como mais um alerta para a necessidade de travar os avanços da contra-revolução autoritária, o que só será possível assumindo que o risco é real e mobilizando a sociedade, sem sectarismo ideológico, para o conter.

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Antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia

 

12
Set18

"Herói" de Mourão torturava crianças

Talis Andrade

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por Fernando Brito

Quer entender o grau de horror que foi a mansa entrevista do vice de Bolsonaro, Hamilton Mourão, à Globonews, onde ele chamou de “herói” o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, com aquela plácida frase de que “heróis matam”?


Então tome fôlego e leia este trecho da reportagem de Carla Jiménez, no El País, em abril de 2016, quando Mourão sequer sonhava (ou já sonhava?) em ser vice do ex-capitão.


O Exército Brasileiro não merece que se diga que homens assim são heróis e que isso foram “excessos”. Não há excesso com crianças de 5 anos de idade. Há monstruosidades.


Amélia Teles, ou Amelinha, também caiu nas garras de Ustra. Foi presa junto com o marido Cesar, e o amigo Carlos Danielli. Viveram todo o roteiro do inferno no DOI CODI, conforme conta num vídeo disponível no Youtube. Militantes do PCdoB, sentiram bem mais que surras e choques elétricos. O casal de jovens de pouco mais de 20 anos, foi preso em dezembro de 1972, e apanhou seguidamente sem ter noção do tempo. Certo dia, Amelinha estava nua, sentada na cadeira de dragão, urinada e vomitada, quando viu entrar na sala de tortura seus dois filhos, Janaína de 5 anos, e Edson, 4. Ustra havia mandado buscar as duas crianças porque queria que eles testemunhassem de seus pais. “Mamãe, por que você está azul e a papai verde?”, perguntou sua filha, enquanto queria abraçar a mãe, paralisada de dor e pelos fios elétricos. A cor era fruto das torturas que desfiguraram sua tez.


As duas crianças foram levadas para a casa de um militar enquanto os pais continuaram apanhando nas mãos de agentes da ditadura comandados por Ustra. Os arquivos da ditadura mostram crianças de colo fichadas como filhos de terroristas. “Vamos matar seus filhos, menos comunistas vivos”, ouviam seus pais enquanto eram torturados. Amelinha foi espancada por Ustra enquanto ouvia: “sua terrorista!”. Viu a morte do amigo Carlos enquanto estava presa. Seu marido Cesar faleceu no ano passado.

Espera-se que os delicados senhores Luiz Roberto Barroso e Edson Fachin olhem bem o que fizeram ao expor o Brasil a gente que acha isso um “ato de heroísmo”.
 

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11
Set18

Os generais de Temer não admitem volta da esquerda ao poder

Talis Andrade

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Os generais de Michel Temer decidiram que a esquerda não voltará ao poder. Usarão os meios necessários para consolidar a farsa do impeachment, o golpe que derrubou Dilma Rousseff. Os únicos meios que os gorilas conhecem: a força bruta, a repressão, a censura, o pega para capar do coronel Brilhante Ustra, do delegado Sérgio Fleury, que os "heróis matam" depois de torturar. 

 

Se esta a decisão da lei das selvas, por que a farsa das eleições, da legalização dos partidos de esquerda, o teatro de que o Brasil continua um país democrático, e de que teremos eleições livres? 

 

Se os generais ameaçam que a esquerda não voltará ao poder, não existe mais a garantia da posse dos eleitos pelo voto direto, secreto e soberano do povo em geral. Que voltou a valer a matemática nazi-fascista: o voto de um general vale mil votos de uma lavadeira.

 

Pobre Brasil! Não existe golpe sem presos políticos, tortura e morte. Fica justicada a morte de Marielle Franco. 

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O papa Francisco e a mãe de Marielle  

 

 

 

 

Cúpula militar não admite volta da esquerda ao poder

por Valter Pomar

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Há 45 anos, num 11 de setembro, o presidente Salvador Allende foi derrubado por golpistas dirigidos por um general de quem se dizia ser profissional e legalista.
 
Domingo, dia 9 de setembro de 2018, o general Villas Boas, comandante do exército brasileiro, apontado por alguns como profissional e legalista, concedeu mais uma entrevista, desta vez ao jornal O Estado de São Paulo.
 
Nesta entrevista, o general Villas Boas opinou sobre o processo político e eleitoral brasileiro.
 
A entrevista atualizou e aprofundou opiniões manifestadas anteriormente pelo general, como na entrevista concedida ao Valor, em fevereiro de 2017.
 
A esse respeito, ler aqui:
 
A entrevista dada no dia 9 de setembro de 2018 confirmou os alertas feitos no texto disponível no seguinte endereço:
 
Um governo democrático deveria demitir o general, porque suas posições são inaceitáveis.
 
Mas não são posições surpreendentes.
 
Ele é o principal porta-voz da cúpula das forças armadas brasileiras.
 
E na cúpula das forças armadas predomina a decisão de impedir, pelos meios que forem necessários, que a esquerda volte a governar o Brasil.
 
Não é apenas contra Lula.
 
Não é apenas contra o PT.
 
É contra o direito de escolhermos, livremente, quem vai presidir o Brasil.
 
Mais uma comprovação de que “eleição sem Lula é fraude”.
 
O Partido dos Trabalhadores reagiu, de maneira clara e enérgica, às declarações de Villas Boas.
 
A esse respeito, ver esta nota:
 
Qual o objetivo do general, ao dar estas declarações neste exato momento? Há várias hipóteses.
 
Qual o efeito que estas declarações terão sobre a atual conjuntura política e eleitoral? Também há várias hipóteses.
 
Mas uma coisa é certa: a cúpula das forças armadas está operando abertamente. Algo parecido ocorreu em 1989.
 
Outra semelhança entre 2018 e 1989 é a movimentação de setores do empresariado, dos meios de comunicação e dos partidos tradicionais, no sentido de apoiar ou pelo menos estabelecer pontes com a candidatura da extrema direita.
 
A adoção do parlamentarismo e a independência oficial e formal do Banco Central podem ajudar nesta movimentação, impulsionada por diversos fatores: a) o medo diante da resiliência de Lula e do PT; b) a preocupação diante da impopularidade das candidaturas preferidas pela cúpula golpista; c) certo atavismo típico da classe dominante; d) os índices de Bolsonaro nas pesquisas de opinião.
 
O que pode bloquear seu crescimento nas camadas populares é mostrar que ele defende políticas que prejudicam o povo.
 
Em síntese: mostrar que Bolsonaro é Temer, tanto quanto as demais candidaturas golpistas.
 
A repercussão do atentado ajuda a manter em evidência o candidato da extrema-direita, compensando seu pouco tempo no horário eleitoral gratuito.
 
E também parece contribuir para consolidar o núcleo duro do seu eleitorado, suficiente por enquanto para garantir a passagem para o segundo turno.
 
O atentado também contribui para “legitimar” a violência contra a militância da esquerda. Vide os tiros disparados também no dia 9 de setembro contra Renato Freitas, candidato a deputado estadual do PT no Paraná.
 
E por falar nisso, vale a pena voltar às declarações do general Villas Boas na já citada entrevista de 9 de setembro.
 
Segundo o general, Bolsonaro “tem apelo no público militar”, uma vez que “procura se identificar com questões que são caras às Forças”, além de ter “senso de oportunidade aguçada”.
 
Isto foi dito acerca de alguém que há poucos dias prometeu “metralhar a petralhada”.
 
Não podia ser mais claro.
 

 

09
Set18

BETE MENDES: FUI TORTURADA PELO CORONEL CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA

Talis Andrade

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Atriz Bete Mendes relembra tortura: "a pior perversidade da raça humana"

 

A atriz Bete Mendes encontrou o coronel Brilhante Ustra numa viagem ao Uruguai em 1985. Ela era deputada federal, e ele atuava na embaixada em Montevidéu. Na volta, ela denunciou Ustra ao presidente Sarney.

 

Em depoimento publicado na Folha de S.Paulo, a atriz afirma que superou o trauma com tratamento psicológico e se afirma socialista.

 

As declarações de Bete Mendes: Fui presa duas vezes. Na primeira, não fui torturada fisicamente. Na segunda, foi total. Fui torturada [em 1970] e denunciei [o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra]. Isso me marcou profundamente. Não desejo isso para ninguém – nem por meus inimigos.

 

A tortura física é a pior perversidade da raça humana; a psicológica, idem. Não dá para ter raiva (de quem me torturou). A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem. E não quero mais falar desse assunto. Superei isso com tratamento psicológico e com trabalho.

 

Agradeço à família, à classe artística, aos amigos que foram meu alicerce. Carlos Zara me convidou para fazer a novela “O Meu Pé de Laranja Lima”, e isso me salvou. Continuei o trabalho artístico, fui fundadora do PT, fui deputada federal duas vezes e secretária da Cultura de São Paulo.

 

Comecei a fazer teatro e cantar com seis anos de idade. Com oito já participava de manifestações de alunos. Era do grêmio do colégio, depois fui para o diretório da faculdade.

 

Em bibliotecas públicas ou pegando livros emprestados lia tudo: Rousseau, Marx, Mao, Lênin, Gorki, Aristóteles. Depois, adotei o codinome de Rosa em homenagem a Rosa Luxemburgo. Var Palmares

 

Na adolescência escrevi textos de peças de teatro. Quando fui presa, eles levaram esses textos. Achavam que eles eram prova de crime, que depunham contra mim. Nunca mais os recuperei. Era coisa tão pouca, boba, pessoal.

 

Quando fecharam as portas à democracia, me senti usurpada, revoltada, aprisionada. Achei que a única saída era entrar numa organização revolucionária contra a ditadura militar. Entrei na VAR-Palmares.

 

Fizemos aquela opção. Foi certa, errada? É difícil julgar hoje. A minha visão era a revolução socialista: tirar poder dos militares, dos opressores, do capitalismo selvagem. Deixar a gente governar para o bem de todos, com todos participando.

 

Eu tinha 18, 19 anos e achava que podia fazer tudo. Não tinha consciência do risco imenso que estava correndo.

 

Era atriz de uma novela que explodia no Brasil, “Beto Rockfeller”, estudava ciências sociais na Universidade de São Paulo e participava de uma organização clandestina revolucionária. Aí deu zebra.

 

O medo era a pior coisa que a gente sentia na época. Historicamente tem que se reconhecer que nós entramos numa ditadura muito mais pesada do que foi dito no passado. Isso vai sendo desdito atualmente pela Comissão da Verdade.

 

Hoje não tenho medo de retrocesso, mas é preciso prestar atenção em manifestações como de movimentos nazistas em vários países e no Brasil. Por exemplo? O coronel Brilhante Ustra faz parte desse movimento. Ele tem um site. Há jovens fazendo movimento nazista.

 

Democracia É um receio. É preciso ser cauteloso em relação a movimentos que podem ser prejudiciais ao avanço democrático. Mas impedir jamais, porque a gente legitima a manifestação de todos, de opiniões diversas.

 

É preciso cuidar da democracia para que esses movimentos não cresçam. Sou política como qualquer cidadão. Sou cidadã, atriz, socialista. O socialismo se constrói todo dia. Não temos o modelo socialista do passado, mas a gente constrói um novo. Quero continuar trabalhando como atriz e viajar mais. Poder viver essa democracia até morrer. Sonho político? Que o trabalho escravo acabe no Brasil. Problema de audição? Tenho. É que eu fui torturada. (Fica com os olhos marejados). 

 

 

09
Set18

"Heróis matam", o culto nazista do general Mourão

Talis Andrade

 

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Escrito no chão: "Aqui moro um torturador". 31 de março de 2014, escracho em frente da casa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, no Lago Norte, bairro nobre de Brasília. Ex-chefe do Doi-Codi de São Paulo, Ustra foi condenado por crimes de tortura, durante a ditadura militar, mas não chegou a ser preso. Que no Brasil a justiça tem lado

 

 

Quase sete anos após a tragédia, o filme " apresentado no Festival de Cinema de Berlim este ano, reconstitui o ataque na capital norueguesa e o massacre de Utoya realizado pelo neonazista Breivik, revivendo em tempo real o drama dos jovens noruegueses.

 

Consciente de reabrir feridas em seu país, o diretor Erik Poppe justificou sua abordagem à imprensa. "Se esperarmos até que não doa mais, será muito tarde. É difícil, mas deve ser parte do processo de cura", explicou.

 

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 Memorial aos mortos de Utoya, massacrados por um terrorista da direita volver

 

 

O Brasil precisa fazer a mesma terapia, que os direitistas das castas militares passaram, com a campanha de Bolsonaro pai a presidente, e dos Bolsonaro filhos a senador pelo Rio de Janeiro e deputado federal por São Paulo, a endeusar o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra.

 

"Heróis matam", justificou o general Mourão, candidato a vice-presidente do Brasil na chapa de Jair Bolsonaro, o armamentista da direita volver.

 

Anders Behring Breivik matou 69 pessoas, principalmente adolescentes, em 22 de julho de 2011.

 

Disfarçado de policial, o extremista de direita caçou por mais de uma hora suas vítimas, em um acampamento de verão da Juventude do Partido Trabalhista.

 

"Heróis [da direita] matam", vem repetindo o general Mourão.

 

Sem jamais ter expressado remorso, Ustra e Breivik justificaram seus crimes. Ustra representa a covardia, a crueldade, a frieza dos torturadores e assassinos das ditaduras do Cone Sul. Breivik, simboliza o revanchismo nazista, a consumação do mais grave atentado na história pós-guerra na Noruega, pelo fato de que suas vítimas abraçavam o multiculturalismo.

 

Para Erik Poppe, ex-fotógrafo de guerra, a ideia do filme nasceu porque "a memória do que aconteceu nessa ilha desapareceu", ofuscada pelas muitas provocações de Breivik e pelo debate sobre um memorial dedicado às vítimas.

 

O norueguês rapidamente descartou a ideia de um documentário. "Com uma ficção, podemos ser capazes de contar algo mais próximo da realidade" do que concentrando-nos em alguns depoimentos.

 

Foi ao consultar sobreviventes e parentes das vítimas que começou a construir uma história "inteiramente do lado dos jovens", com longas tomadas, incluindo uma sequência de 72 minutos, do ponto de vista de uma personagem.

 

O tempo exato do massacre na pequena ilha, localizada ao noroeste de Oslo. Um elemento que convenceu a atriz de 19 anos Andrea Berntzen a se envolver no projeto.

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Por uma hora e meia, o filme segue a personagem que ela interpreta, Kaja, uma garota séria que cuida de sua irmã Emilie, e que não para de procurá-la assim que ouve os primeiros tiros.

  

Do massacre, o filme não mostra quase nada, com exceção de jovens feridos ou morrendo. Ele se concentra nos sons assustadores e nos sentimentos dos jovens que lutam pela sobrevivência na ilha.

 

Do atirador, apenas vemos uma silhueta à distância. Para evitar acordar memórias dolorosas, o filme foi filmado em uma ilha perto de Utøya, mas não no local, com atores principalmente amadores.

 

Outros projetos estão em andamento sobre este drama, incluindo uma série de seis episódios na Noruega sobre o destino daqueles que foram indiretamente afetados. A estreia está programada para 2019.

 

 

 

 

 

 

 
09
Set18

Coronel Ustra, o "herói" dos Bolsonaro e general Mourão

Talis Andrade

Para os Bolsonaro candidatos a presidente, senador e deputado federal, e o general Mourão, o torturador e assassino coronel Ustra é um "herói".

 

 "Os heróis matam", disse o general. Para matar um preso político, amarrado em uma cadeira de dragão, não é preciso coragem. Basta a frieza dos psicopatas. 

 

“Eu fui espancada por ele [Coronel Ustra] ainda no pátio do Doi-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando ‘sua terrorista’. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura.” Assim descreveu Amelinha Teles, ex-militante do PcdoB, seu encontro com Ustra.

 

“Tiraram a minha roupa e me obrigaram a subir em duas latas. Conectaram fios ao meu corpo e me jogaram água com sal. Enquanto me dava choques, Ustra me batia com um cipó e gritava me pedindo informações”, relembrou Gilberto Natalini, hoje médico, na época, com 19 anos.

 

Em 2012, o coronel Ustra foi condenado pela Justiça de São Paulo a pagar uma indenização de R$ 100 mil à família do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, morto sob tortura em 19 de julho de 1971 nas dependências do DOI-Codi.

 

Uma porrada de filmes sobre a ditadura. Pra que nunca se repita

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por Carlos Carvalho

---

Recentemente, embora isso seja frequente, passamos por uma situação bastante constrangedora (e revoltante) na nossa política, que foi a votação na Câmara dos Deputados pela aprovação do pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Independente das questões envolvendo a legitimidade ou não desse processo, houve um discurso em específico que ganhou notoriedade, o do deputado Jair Bolsonaro que, entre outras bizarrices, homenageou o coronel do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores do período da ditadura militar que se iniciou após o Golpe de 1964. Como se não bastasse a homenagem a um torturador, Bolsonaro foi explícito no recado direto que enviou ao citar Brilhante Ustra como “o terror de Dilma Rousseff”, já que ele era chefe do DOI-CODI onde Dilma ficou presa e foi barbaramente torturada.



Não foram poucas as pessoas que demonstraram apoio ao deputado e isso reacendeu novamente um pequeno debate sobre a ditadura militar. E como acho que essa é uma questão importante e que jamais deveria ser negligenciada por nós, decidi fazer uma lista com alguns filmes que tratam de temas relacionados à ditadura, ou com personagens que foram importantes durante esse período, para que jamais nos esqueçamos da barbárie que ela foi. Da mancha negra que ela deixou em nossa história e que nunca conseguiremos apagar, embora haja um esforço gigantesco para que ela não seja enxergada. Esforço, inclusive, que já aponta para debates revisionistas dessa história, com o intuito de reescrevê-la para que se faça parecer que a ditadura militar não foi tão ruim quanto parece. O que é um absurdo e uma canalhice atroz.



É fato que não damos a devida atenção a esse período da nossa história e muito disso é herança da tenebrosa lei de anistia, que perdoou não apenas aqueles que lutaram contra a ditadura, esses com toda justiça, mas também os militares que praticaram os mais imperdoáveis crimes contra a humanidade. Gente que sequestrou, torturou e matou civis, artistas, intelectuais, políticos e toda e qualquer pessoa que se opunha contra o regime militar implantado a partir de 1964. Aliás, muitas vezes, até quem sequer se posicionava contra o regime era preso, torturado e morto, como mostra um dos filmes dessa lista.

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Portanto, deixo aqui uma pequena contribuição para que a gente possa aprender um pouco mais sobre esse período terrível. Vale dizer que, para esta lista, abri mão em vários momentos da qualidade cinematográfica em troca da importância do tema. Nem todos os filmes são otimamente bem realizados. Alguns, inclusive, do ponto de vista artístico, são bastante ruins. Mas são registros importantes para que possamos entender a complexidade desse período. Suspeito que alguns deles sequer tenham sido lançados no cinema. E vários dessa lista podem, inclusive, ser encontrados completos no YouTube.

Não há desculpas para não conhecermos nossa história. Inclusive, aproveito a deixa para recomendar duas obras essenciais e públicas para se entender melhor esse período: o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que investigou a fundo o período (embora não tenha tido acesso a muitos dos arquivos que ainda permanecem em segredo de Estado) e o livro “Infância Roubada”, da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, que fala especificamente sobre as crianças que foram torturadas pela ditadura militar. São relatos muitas vezes de revirar o estômago, mas que nem de perto podem ser comparados com o sofrimento que deve ser vivenciar uma ditadura militar.

Pra que nenhum canalha torturador volte a ser homenageado por outros canalhas que apoiam essa prática, é preciso que a gente saiba quem essas pessoas foram, o que elas fizeram e quem foram suas vítimas. Se posso dar alguma contribuição, aqui está.

 

 

 

 

08
Set18

A facada dos Bolsonaro no eleitor

Talis Andrade

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Flávio Bolsonaro, filho mais velho do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, publicou nesta manhã na rede social Twitter uma foto de seu pai na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

 

Na foto, Bolsonaro aparece sentado em uma poltrona e fazendo um gesto característico de sua campanha: cada mão imita uma arma de fogo, usando o dedão e o polegar.

 

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Aproveitando o atentado, Flávio Bolsonaro, candidato a senador pelo Rio, marca um comício para amanhã. Veja o descarado oportunismo eleitoreiro: "Meu pai segue evoluindo e começou agora a fisioterapia. Muito obrigado a todos pela força e pelas orações! Pessoal do Rio de Janeiro, amanhã (domingo), às 11:00, no posto 6, tem ato pela vida de Bolsonaro, em Copacabana. Em breve mais detalhes, tá ok?!"

 

O senador Magno Malta (PR-ES) disse que o atentado a faca contra o presidenciável transformou “um limão em uma limonada”. Segundo Malta, a grande exposição que Bolsonaro passou a ter na imprensa depois do atentado serve para compensar o pouco tempo do candidato no horário eleitoral da TV, apenas seis segundos. “Vocês (imprensa) estão fazendo a campanha dele. Não eram seis segundos? Agora é 24 horas. Vocês estão fazendo”, disse Malta, que também defendeu que a imagem do ataque a faca seja usada na divulgação do candidato.

 

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Coronel Ustra torturador e assassino

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Vão explorar ao máximo a facada.

 

É isso aí: A facada agora é no eleitor. 

 

A apologia da violência política sobe o tom com o general José Hamilton Mourão, imitando seu chefe e líder Bolsonaro. Durante entrevista na Globo News, Mourão reafirmou que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um herói.

 

O falso e macabro heroísmo do torturador coronel Ustra é um insulto aos que foram covarde e cruelmente torturados e mortos nos porões da ditadura militar. 

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Memória dos porões da ditadura militar no Rio 

 

Livro mapeia 101 lugares onde aconteceram torturas e mortes 

 

Coordenado por José María Gómez, o livro "Lugares de memória – Ditadura Militar e resistências no estado do Rio de Janeiro" apresenta 101 lugares que foram cenários tanto de tortura, censura, como também de luta e resistência durante o período da Ditadura Militar. No último domingo, 22/7, o livro foi pauta do Segundo Caderno do jornal O Globo, nas versões impresso e online. A matéria é de autoria de Frei Betto, escritor e autor do livro "Diário de Fernando — Nos cárceres da ditadura militar brasileira".

 

 

livro tortura e morte rio.jpg 

Jornal O Globo de domingo, 22 de julho, destaca livro da Editora PUC-Rio

 

Livro mapeia 101 lugares onde aconteceram torturas, mortes, atentados e censura
'Lugares de memória' reúne crimes cometidos pelo regime militar em terras fluminenses

 

por FREI BETTO


RIO — "Lugares de memória — Ditadura militar e resistências no estado do Rio de Janeiro” reúne detalhada pesquisa, coordenada por José María Gómez, sobre os crimes hediondos cometidos pelo regime militar em terras fluminenses.

 

O livro cita 101 lugares de memória, do Dops ao jornal “Correio da Manhã”, todos identificados por levantamentos topográficos, mapas e fotos, como a “Casa da Morte”, em Petrópolis, e a Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, onde muitas pessoas foram torturadas, esquartejadas e incineradas.

 

Embasada em farta documentação, a obra resgata a história e o contexto de cada lugar de memória, como a Editora Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, e as universidades fluminenses. Suas páginas dão voz às vítimas, deitando por terra a versão dos que negam ou tentam amenizar o caráter desumano e deletério de um sistema repressivo que não apenas atingiu pessoas, muitas delas assassinadas, mas também a cultura, mediante censura, apreensão de livros e obras de arte, e atentados terroristas, como o do Riocentro, que vitimou os próprios algozes.

 

Passados mais de 70 anos das atrocidades nazistas, a memória não se apaga. O mesmo ocorre e ocorrerá com a ditadura militar brasileira, ainda mais agora que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro pelo assassinato de Vladimir Herzog, frisando que crimes de lesa-humanidade jamais prescrevem.

 

“Lugares de memória” é um importante documento que revela, no presente, as atrocidades do passado, de modo a se evitar qualquer intento de reproduzi-lo no futuro, como se valesse a pena trocar a liberdade democrática pela suposta segurança de um Estado terrorista.

 

 

 

02
Set18

As relações perigosas dos camisas pretas da lava jato

Talis Andrade

A Istoé desta semana faz retrospectiva dos tempos de chumbo, e revela que candidatos hoje da direita eram espionados pelas polícias estaduais, federal, serviços de inteligência das forças armadas e SNI.

 

Jair Bolsonaro, nunca passou de capitão, foi expulso do Exército como terrorista. Publicou Istoé sobre Bolsonaro:

A ameaça totalitária. O candidato que reverencia torturadores, chama os direitos humanos de “esterco da vagabundagem”, diz que só quem “fraqueja” gera filha mulher e que preferiria um filho morto a ser homossexual ostenta quase 20% nas pesquisas. Agora, finge ser liberal para encantar o mercado. Ele pode ser presidente. E o perigo é exatamente esse

 

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Nos tempos atuais de exceção, do golpe de 2016 que derrubou Dilma Rousseff para entregar o poder à turma de Michel Temer, os serviços de espionagem são realizados pela Liga da Justiça de Sergio Moro/ Dallas Dallagnol, que tem como agitadores o MBL, Movimento Brasil Livre, e como agentes, o Japonês Bonzinho, ex-agente da didatura militar de 1964.

 

Sergio Moro criou uma rede de espionagem, possivelmente com agentes da CIA e/ou do FBI, que espionou Dilma Roussef quando presidenta do Brasil.

 

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O Japonês da Federal, Newton Hidenori Ishii, suspeito de vender informações secretas, continua realizando para Moro, os mesmo ser√iços sujos dos tempos da ditadura militar de 1964, quando atuava como espião.   

 

Newton Ishii, que entregava os estudantes para a tortura e morte, continua a trabalhar como torturador na Lava Jato. Comenta Pedro Canário no importante portal ConJur: 

 

Agente da PF durante mais de 20 anos, ele ficou famoso por conduzir os presos de suas casas aos carros da corporação, ou dos veículos à carceragem. Mas também era o chefe da carceragem e tinha contato diário com os presos (...) 'Com o talento para induzir pessoas a pensarem que chegaram por conta própria a uma conclusão sugerida, o agente poderia ser um instrumento valioso. Não foram poucas as vezes que os jovens delegados, de barba cerrada e cara de mau, recorreram a ele', segundo a versão contada no livro O Carceiro. O primeiro dilema descrito por Ishii entre os presos da operação é o do medo. Os presos da lava jato ficam presos num setor separado da carceragem da PF em Curitiba (...) Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, e o lobista Fernando Baiano, operador do PMDB, são apontados como dois casos que optaram por falar para se proteger de um medo descrito como irracional pelo Japonês.

 

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O suspeito procurador Santos Lima do BanEstado e da lava jato faz propaganda da Liga da Justiça

 

A Liga da Justiça, para a agitação das ruas, conta com o MBL, o nazi-fascista Movimento Brasil Livre. Propaga a Wikipédia:

 

O MBL, em 2016, combinou forças com as bancadas evangélica e ruralista do Congresso por uma agenda de Estado mínimoreforma trabalhista, ajuste fiscal e redução da maioridade penal. Com sede nacional em São Paulo, o movimento realizou frequentes protestos a favor do impeachment de Dilma Rousseff e ações políticas em todo país. Inicialmente, a estratégia política do MBL foi pela convocação das manifestações dos dias 15 de março e 12 de abril de 2015, embora esse aspecto tenha sido posteriormente minimizado, a fim de auxiliar o governo na promoção de estratégias impopulares relacionadas às reformas trabalhistas e previdenciárias. Formado em sua maioria por jovens com menos de trinta anos, seus integrantes são conhecidos por seus discursos incisivos, sendo comparados pela revista Exame a uma startup que nasceu para fazer protestos. Segundo a revista Época, nos protestos de 16 de agosto de 2015, Kim Kataguiri e Fernando Holiday, duas lideranças do movimento, foram recebidos pela população participante como estrelas da política brasileira.

 

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 Agitadores do MBL com as camisas pretas de apoio ao procurador Dallas Dallagnol, acusado de ser o DD da propina de cinco milhões de dólares cobrada de Tacla Duran 

 

O MBL promovia a agitação e uma onda de terror e intimidação, financiado pela Fiesp, na pessoa de Paulo Skaf, e milionários paulistas do grupo de João Doria, candidatos a governador de São Paulo, respectivamente, pelo MDB e PSDB, e principais fortunas da ditadura militar de 64, dos leilões da privataria tucana e do tráfico de dinheiro do Banco do Estado do Paraná - BanEstado. Outro patrocinador, o homem mais rico do Brasil, e segunda maior fortuna da Suíça onde reside, Jorge Paulo Lemann vende nas suas Lojas Americanas, com apoio do TSE, camisas de propaganda do "mito" Bolsonaro, e de Lula como ladrão ou "five", conforme alcunha de Moro.

 

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Sergio Moro costumava pousar ao lado de políticos nos tempos da popularidade da lava jato, e a mosca azul de uma candidatura presidencial animava a corriola de Curitiba, tendo Rosangela Moro uma coluna nas redes sociais com o título "Eu Moro Com Ele". A coluna desapareceu com Roseana acusada de corrupção: caso da Apae e caso Tacla Durán de venda de delações premiadas.

 

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A lava jato politicamente podia tudo, e Moro candidato a presidente promovia alianças políticas

 

29
Ago18

Caso reitor Cancellier: Terrorismo policial descambou para intimidação inaceitável do judiciário

Talis Andrade

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247 – A abertura de inquérito para investigar o professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Aureo Mafra de Moraes, que prestou homenagens ao reitor morto em um programa de TV da universidade, caracteriza um processo intimidatório, diz a seção ‘O que a Folha pensa’, do jornal Folha de S. Paulo. Para o jornal, isso demonstra o despreparo das autoridades para lidar com a democracia.

 

“Não vinham sendo poucos, nem insignificantes, os indícios de abuso de autoridade na Operação Ouvidos Moucos, que investiga supostas irregularidades na Universidade Federal de Santa Catarina. Como se sabe, a investida policial levou à prisão, em setembro de 2017, do reitor da instituição, acusado de tentar obstruir o esclarecimento dos fatos. Libertado depois de 18 dias, Luiz Carlos Cancellier encontrou a própria morte, ao atirar-se do sétimo andar de um shopping de Florianópolis.

(...)

Num programa televisivo feito por alunos da UFSC, o professor Aureo Mafra de Moraes fazia homenagens ao reitor morto, tendo atrás de si cartazes que propagavam a versão de que seu suicídio fora causado pelas acusações de que fora vítima —nenhuma delas, aliás, comprovada até agora. Faixas condenando o abuso de poder e indagando sobre quem teria matado o reitor também apareciam, com fotos da delegada Erika Marena e de uma juíza. Esse gênero de protesto, legítimo em qualquer democracia, e ainda mais num ambiente de liberdade como é o de uma instituição acadêmica, motivou iniciativas de claro conteúdo intimidatório."

Leia mais aqui.

 

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