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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

13
Nov18

ESTAMOS VIVENCIANDO DIAS SOMBRIOS PARA O NOSSO FRÁGIL ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Talis Andrade

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por Afrânio Silva Jardim 

Não se trata de lamentar uma derrota eleitoral. Minha preocupação, após a publicação dos resultados das recentes eleições, é com a manutenção do nosso precário Estado Democrático de Direito. Estas duas semanas após o pleito eleitoral podem servir de sinal de alerta para o que pode ocorrer, no futuro, com a nossa sociedade.

 

Na verdade, mesmo os fatos que antecederam as eleições se mostravam como sintomas de futuras anormalidades em termos de preservação do que temos de democrático em nossos sistemas político e jurídico.

 

Desta forma, coloco, nesta coluna, três breves e recentes textos, onde manifesto minha perplexidade sobre a precariedade da democracia como valor essencial à nossa sociedade.

 

1 - AINDA NÃO ABSORVI ESTE TREMENDO CHOQUE !!!

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Não consigo entender como isto pode ter acontecido.

 

Pergunto: alguém sabe de algum país que, em toda a nossa história, tenha eleito para o cargo de Presidente uma pessoa que tenha declarado publicamente, de viva voz e reiteradamente, ser favorável à tortura de seres humanos, ser favorável à eliminação de adversários ideológicos, ser favorável à atuação de grupos de extermínio e ser favorável à ditaduras militares ???

 

Alguns governantes totalitários até ordenaram ou consentiram com estas brutalidades, mas de forma escondida e dissimulada. Não foram eleitos dizendo que endossam isto !!!

 

Que povo é o nosso povo, que referenda estes atos de terror ???

 

Não podemos achar que isto é normal !!! Não podemos deixar de nos indignar !!! Não podemos pensar que isto é fato consumado ou página virada !!!


Isto terá consequências sérias e graves no futuro próximo.

 

Por isso, de forma lícita, proporcional e correta, devemos nos preparar para uma eficaz defesa dos nossos direitos e da democracia política e social.

 

Não podemos nos render ao arbítrio, caso contrário, seremos "atropelados" pela barbárie. Povo com medo é povo subjugado.

 

2 - ISTO JAMAIS OCORRERIA EM UM PAÍS VERDADEIRAMENTE CIVILIZADO !!!

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Como diz o povo: "não mais se fazem magistrados como antigamente" ...

 

1- O que faz com que um juiz aceite ser nomeado Ministro e aceite ser comandado por um Presidente da República que declara, pública e reiteradamente, ser favorável à tortura de seres humanos, ser favorável à atuação de grupos de extermínio, ser favorável ao assassinato de seus adversários ideológicos, ser favorável à sonegação de impostos e ser favorável a ditaduras militares ???

 

2 - Como este juiz pode se explicar aos seus antigos colegas da magistratura e da comunidade acadêmica, tendo aceitado sua nomeação como Ministro e ser comandado por um Presidente da República que declara, pública e reiteradamente, ser favorável à tortura de seres humanos, ser favorável à atuação de grupos de extermínios, ser favorável ao assassinato de seus adversários ideológicos, ser favorável à sonegação de impostos, e ser favorável a ditaduras militares ???

 

3 - Que legitimidade moral tem um juiz para condenar o maior líder popular do país por corrupção se ele aceitou ser nomeado Ministro e comandado por um Presidente da República que declara, pública e reiteradamente, ser favorável à tortura de seres humanos, ser favorável à atuação de grupos de extermínios, ser favorável ao assassinato de seus adversários ideológicos, ser favorável à sonegação de impostos, e ser favorável a ditaduras militares ???

 

4 - Como este juiz pode aceitar fazer parte de um governo em que o Presidente da República declara, pública e reiteradamente, ser favorável à tortura de seres humanos, ser favorável à atuação de grupos de extermínios, ser favorável ao assassinato de seus adversários ideológicos, ser favorável à sonegação de impostos, e ser favorável a ditaduras militares ???

 

5 - O que faz um juiz, que declara à imprensa de que jamais entraria na política, aceitar ser nomeado Ministro e aceitar ser comandado por um Presidente da República que declara, pública e reiteradamente, ser favorável à tortura de seres humanos, ser favorável à atuação de grupos de extermínios, ser favorável ao assassinato de seus adversários ideológicos, ser favorável à sonegação de impostos e ser favorável a ditaduras militares ???.

 

Tais declarações do truculento presidente estão todas publicadas em vídeos no Youtube e são do conhecimento do público em geral.

 

Acho que tudo isso pode ser debitado à fragilidade do ser humano, cujas vaidade e ambição são defeitos quase sem limites.

 

3 - UM JUIZ FEDERAL NA ILEGALIDADE !!!

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Embora não tenha sido exonerado do cargo de juiz federal, Sérgio Moro encontra-se em atividade política e partidária, trabalhando na formatação do novo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Para tanto, faz negociações políticas, articulando-se com várias lideranças do atual governo e com vários partidos políticos. Dá entrevista à imprensa, tratando de temas políticos e de governo. Ademais, já recebe ordens do capitão eleito !!!

 

Isto é um papel adequado para um magistrado do Poder Judiciário ???

 

Todos sabem que a Constituição da República proíbe expressamente que qualquer juiz desempenhe alguma atividade política ou partidária.

 

Evidentemente que as suas férias não o eximem de cumprir a Constituição, pois ele continua no cargo de juiz federal e continua recebendo os respectivos vencimentos.

 

O mais cínico é que, para tentar contornar esta inconstitucionalidade, o juiz Sérgio Moro negociou não ser nomeado oficialmente pelo senhor Temer como membro da equipe de transição do capitão eleito.

 

Efetuará as atividades de transição de forma "clandestina" ...

 

Eles não diziam que "a lei é para todos" e que "ninguém está acima da lei"??? Talvez eles pensem que a Constituição não é lei...

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02
Nov18

Filho de Bolsonaro compara Moro a Ustra

Talis Andrade

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O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) comparou Sérgio Moro com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da Ditadura Militar (1964-1985).

 

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"Agora a esquerda mais do que nunca vai tentar demonizar Moro, exatamente como fizeram com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra", escreveu o parlamentar em sua conta no Twitter.

 

O pai do congressista, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), já exaltou o coronel, durante a votação do golpe contra Dilma Rousseff, em abril de 2016, na Câmara dos Deputados. Ao proferir seu voto, ele disse que o coronel é o "pavor de Dilma Rousseff" (veja aqui).

 

Ustra é apontado como responsável por ao menos 60 mortes e desaparecimentos em São Paulo durante a ditadura e foi denunciado por mais de 500 casos de tortura cometidos nas dependências do Doi-Codi entre 1970 e 1974.

 

A Lava Jato de Curitiba, comandada por Moro, já foi acusada de praticar tortura psicológica para adiquirir provas testemunhais de presos sob vara. 

 

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02
Nov18

Sexologia política: sobre Bolsonaro, Frota, Jean Wyllys e Pabllo Vittar

Talis Andrade

  1. Marcia Tiburi
Sexologia política: sobre Bolsonaro, Frota, Jean Wyllys e Pabllo Vittar
(Arte Revista CULT)
 

 

Entre os discurso de ódio que andam por aí e os discursos de resistência, precisamos investir em compreensões que possam nos acordar e criar condições para desmontar o avanço do fascismo entre nós e, assim, nos demais países do mundo. O autoritarismo é uma forma perversa de exercício de poder e, quando se torna política de Estado, além de fator cultural, após ter sido legitimado pelo voto, por mais que devesse ter sido repudiado eticamente por ele, torna-se uma questão ainda maior.

 

Por isso, peço a paciência do leitor e da leitora para as colocações que vêm a seguir. Elas podem parecer longas, mas são apenas um começo de conversa que pode nos ajudar a entender o que se passa agora e o futuro que vem a galope empunhando uma bandeira com suástica ou coisa parecida. Cada vez mais devemos nos acostumar a conversas longas e, inclusive, sempre que possível, voltar a elas.

 

Nesse momento, permanecemos em um pesadelo. Venceu o voto dos autoritários. Dos que apoiam os torturadores e assassinos e, nesse ato, se igualam a eles. Inclusive dos que são a favor do estupro que, como bem lembrou Luiz Eduardo Soares, sempre fez parte da tortura. Nesse contexto, surge a esperança de pessoas que parecem “inocentes”. Elas acreditam que o novo presidente não vá cumprir o que prometeu. A quantidade impressionante de brasileiros que vota em um político esperando que ele não cumpra o que promete é de estarrecer. É incompreensível. Mas será mesmo? Será que as pessoas esperam por isso mesmo? Serão realmente inocentes quanto ao que aprovam?

 

Votar em quem não vai realizar o que promete, quando sempre votamos – ou nos pareceu lógico votar – em quem tem as melhores propostas, realmente é de dar um nó na cabeça de quem faz análises lógicas. O eleitor não está, nesse momento, apenas desmoronando a lógica e a racionalidade e sendo ilógico ou irracional. Há muito mais por trás disso. Vamos analisar apenas um aspecto altamente esclarecedor.

 

Há tempos sabemos que é preciso estudar mais a sexualidade.

 

O que acontece no Brasil de hoje é efeito de uma manobra envolvendo a sexualidade da população a partir da sexualidade do parlamento. Não considerem essa hipótese um exagero. Nossos hábitos mentais preferem subestimar o poder do sexo, o que faz com que ele se mantenha em um nível inconsciente e, justamente por isso, livre de culpa ou responsabilidade. Eu gostaria de sinalizar sobre sua validade, já que se trata de introduzir no contexto uma nova ciência, a sexologia política. E essa ciência nos obriga a lidar justamente com as culpas e os jogos de poder envolvendo a armadilha do sexo.

 

Por sexualidade entendemos o conjunto dos discursos e práticas, a compreensão e o fenômeno, o imaginário e o simbólico, o consciente e o inconsciente que regem a vida sexual da população. Quanto ao inconsciente, talvez não haja uma categoria tão atual para descortinar a realidade brasileira.

 

Consciente ou inconsciente: sobre escolher o pior

 

Antes de seguirmos, vamos nos colocar a questão da relação entre consciente e inconsciente para entender por que o povo escolheu o pior nesta última eleição e o que está em jogo nessa escolha. A maioria dos eleitores escolheu um presidente que só prometeu matar e destruir. Ele prometeu o horror.

 

Quem considerava o PT ruim, preferiu algo pior. Não parece muito lógico, mas é. De uma complicada lógica dialética. Trata-se de uma escolha consciente e inconsciente ao mesmo tempo. Consciente e inconsciente são conceitos básicos. Não precisamos aqui usar um conceito de inconsciente ligado a instintos ou pulsões de morte, vamos falar dos processos mais simples, das formas simples da mentalidade em vigência na vida e na linguagem cotidiana. Por “consciente” vamos definir aquilo sobre o que temos acordo, aquilo que podemos saber ou aquilo que fazemos porque sabemos. Por inconsciente vamos entender aquilo que não sabemos ou que fazemos sem saber, mas que, ao mesmo tempo, no fundo, também de alguma modo sabemos.

 

Conscientemente, os cidadãos e cidadãs escolheram em nível federal e em alguns estados, como o Rio de Janeiro, aquele que vai realizar a ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Escolheu-se alguém que promete a morte alheia. No entanto, inconscientemente, o que se escolheu é realmente matar. Quando alguém vota ou apoia um candidato, sempre o faz esperando que o Estado realize aquilo que cada um faria se estivesse no lugar do governante. Assim, quando se vota em alguém que promete escolas, é porque também faria escolas. E quando se vota em quem promete matar, concorda-se com o ato de matar. Apoiando um candidato, apoia-se o seu projeto.

 

O inconsciente atua em nossas vidas quando não sabemos, ou também quando parecemos não saber. Uma das principais funções da consciência é acobertar o inconsciente. Assim, aqueles que dizem “não acreditar” nas promessas de morte, apenas dizem que não acreditam. Não há nenhuma prova de que não acreditem, mas há uma fala que promete não acreditar. Isso porque toda fala carrega uma promessa em potencial. Há falas que são promessas diretas, mas mesmo as falas comuns trazem promessas indiretas, por isso não confiamos em certas pessoas e nem sabemos por quê. Porque algo nelas nos sinaliza para um “efeito” em nível da linguagem que pode nos comprometer.

 

Não há nenhuma garantia de que o candidato eleito não vá cumprir suas promessas. Nesse sentido, essa crença de que ele não vai fazer o que promete não apenas acoberta como também justifica a escolha, liberando da responsabilidade e da culpa que há de vir sobre as mortes prometidas. À medida que pessoas são mortas em larga escala, o sentimento de culpa vai precisar de uma álibi na consciência. E esse álibi será a frase “é inacreditável que isso esteja acontecendo”, que já circula por aí e continuará cumprindo seu papel.

 

Em 2017, publiquei um livro em que falei muito da capitalização desse tipo de discurso que parece brincadeira. Falava da performance política de Michel Temer, mas fazia análises sobre o poder de Bolsonaro e João Doria, que avançam cada vez mais como líderes públicos quanto mais absurdos se tornavam suas falas e atos, todos vazios, mas hipnotizantes. Analistas que subestimaram a situação achando que Bolsonaro era um simples imbecil têm se retratado. Também eles foram vítimas do inconsciente.

 

Mas o problema do inconsciente é ainda mais complexo. Em um nível ainda mais oculto, o que aquele que apoia um projeto de matança em massa deseja no fundo, ou seja, no inconsciente, é morrer.

 

Um rombo na subjetividade

 

Todos os que vociferam contra a vida alheia querem não apenas que os outros morram, mas querem também morrer. Não é à toa que a metáfora do “vazio” sirva tanto àqueles que não pensam, quanto aos deprimidos. São rombos diferentes na subjetividade apenas porque avançam tratados de formas diferentes. Não quero dizer com isso que o vazio não seja conhecido de cada pessoa capaz de refletir sobre si mesma. Ao contrário. Mas há um vazio mais profundo, aquele do próprio eu, de quem não foi ajudado a existir, de quem não teve apoio escolar, familiar, cultural. Há subjetividades realmente esfaceladas, para as quais não sobrou uma gota de humanidade. Os fascistas de Estado ou potenciais todos têm um profundo rombo na subjetividade, ele constitui um complexo de inferioridade. Esse rombo interno é ocultado por um véu de agressividade que se torna estilo de ser e de viver. Daí o escândalo da agressividade consciente de figuras como Jair Bolsonaro. Ele deveria tê-la ocultado, mas a fez aparecer, encantando as multidões como se fosse algo místico, mágico. Daí sua mitificação.

 

Ora, o que uma subjetividade fascista deseja é o que ela justamente projeta para fora de si por meio da linguagem e de atos. O desejo de morrer. Ela sabe quais são seus próprios crimes. Sabe de seus pecados quando se trata de alguém religioso. Deus também é uma imagem de acobertamento do inconsciente criminoso para os que vociferam a morte e falam a Deus. O inconsciente que deseja matar. Sabe também que não há deus suficiente para isso, por isso escolhe um deus alucinante que possa conter todos os outros que deliram com o mesmo desejo. Não há drogas suficientes, não há dinheiro suficiente para conter esse desejo. E qualquer um que detenha esse desejo (seja a esquerda ou o papa) é o mal que vem castrar esse desejo que suplantou todos os outros. No entanto, isso não vem do nada. Um fascista experimentou rebaixamentos terríveis em sua infância. Uma imagem desse rebaixamento – que se confunde com a imagem do cúmulo do ódio sublimado – que pode fazer surgir uma subjetividade fascista está na menina que, no colo de Jair Bolsonaro, aprende a fazer um revolver com os pequenos dedos inocentes. A brutalidade de Bolsonaro esconde o grande abuso sobre uma criança. Um abuso que o abusador adulto não desconhece em sua própria pele, na criança que um dia ele foi. Outros seguem cometendo o mesmo abuso e autorizados pelo grande líder.

 

E porque sentem vontade de matar e vontade de morrer, porque o sentimento de culpa está ali para destruir e precisa ser calado, o fascista se entrega à sua performance de horror, imitando o chefe para quem terceirizou a ação de destruir. Esse é o motivo fundamental que faz pessoas que em tudo são vítimas em potencial, se devotarem ao próprio algoz.

 

Alguém pode achar esse tipo de análise um pouco cruel, porque é nosso hábito mental acreditar que a sociedade é consciente e que tendemos ao bem de todos, o que é uma grande hipocrisia. Verdade, no entanto, é que tendemos ao lugar para o qual formos levados. Por isso, é sempre melhor se deixar levar pelo respeito, pela dignidade, pela compaixão.

 

Do sexo, da misoginia e da homofobia à fama

 

Dito tudo isso, podemos falar do uso político da sexualidade nos últimos anos. Não foi por acaso que Dilma Rousseff foi objeto de tanta misoginia. Sexo é uma categoria de análise tanto quanto gênero e ajuda a entender o seu caso. Mas também ajuda a entender Bolsonaro.

 

O Presidente da República recém eleito era apenas um deputado menor, caricato, como tantos outros que vemos por aí há anos “mamando” no Congresso Nacional, para usar uma expressão do povo. Cresceu na opinião pública desde suas violências para com o deputado Jean Wyllys e Maria do Rosário.

 

O ódio dos deputados homofóbicos a Jean Wyllys e dos sexistas e machistas contra Maria do Rosário não deve ser analisado como simples espontaneidade do preconceito. A espontaneidade não é um argumento quando se trata de tantos grupos envolvidos com projetos de poder. A orientação para a homofobia e a misoginia não é espontânea quando se trata de poder. Sobretudo se associarmos o neopentecostalismo das novas igrejas do mercado a isso.

 

A homofobia mostra-se hoje como um padrão bastante manipulável. Ela não é mais rejeitada. Foi com Jean Wyllys, mas não será mais assim. A eleição de uma figura como Alexandre Frota mostra que as pessoas mais moralistas não têm apenas rejeição, mas também atração pela homossexualidade. Desde que o homossexual seja autoritário e, principalmente, cínico. Aqueles que votaram acreditando na “família tradicional procriadora” logo perceberão que os gays estão autorizados, mas apenas dentro do armário, como sempre. O ódio a Jean Wyllys vem também do seu orgulho gay, de ele ser o único deputado que assume sua orientação sexual de maneira ética e saudável. Se todos tivessem que assumir, seu negócio de “família tradicional, deus, etc” cairia por terra. Nenhuma novidade na sociedade que prefere a hipocrisia. Ela se livra da responsabilidade.

 

A relação que se tem com a homossexualidade é ambígua da esquerda à direita. A hipocrisia ajuda a acobertá-la. Por isso, enquanto a direita odeia Jean Wyllys, que a politiza, adora Alexandre Frota, que não a politiza, embora sua inscrição sexual seja pública e notória. A hipocrisia é um véu necessário para manter tudo como está, por isso também uma figura como Frota se torna tão essencial nesse momento. Ele funciona como uma prova – ao nível consciente – de que não há homofobia no governo que há de vir desde que se esteja do lado do opressor. Desse modo, não será a homossexualidade que será punida, mas a homossexualidade do outro. Com corrupção já acontece isso. Não é a corrupção que será punida, mas a corrupção do outro. A lógica do fascismo é a do cinismo: dois pesos e duas medidas para confundir os que ainda acreditam em regras e princípios ou para agradar os que se sentem contemplados com o jogo.

 

Por fim, e pedindo perdão por escrever tanto em uma época em que os “textões” estão estigmatizados, precisamos falar de Pabllo Vittar.

 

O que ela tem a ver com isso? Pabllo Vittar, como acontece com mulheres, trans e travestis, move as ambiguidades próprias do desejo de todos os recalcados. Não é por acaso que o Brasil é o país que mais mata homossexuais e pessoas trans e travestis, muito antes do fascismo eleito.

 

Bolsonaro tem uma tarefa para a qual não está preparado e, como em relação a tudo o mais, não prometeu nada. A tarefa de livrar seus eleitores do desejo por pessoas como Pabllo Vittar. Um desejo insuportável, mas tão insuportável que é mais forte que o cidadão o manifesta. Há várias pessoas que dizem votar em Bolsonaro para que não precisem mais ver Pabllo Vittar na televisão. Se o cidadão que vocifera contra a artista não gostasse simplesmente da sua obra, poderia desligar a televisão. A televisão não é uma obrigação. Ninguém será punido por não ver televisão. Ou seja, o que a move é o desejo. Mas quem tem um desejo que não pode escolher, um desejo autoritário, um desejo que não negocia consigo mesmo, pode precisar de um “freio”. Em função da imensidão desse desejo, ele precisará de um país inteiro autoritário, de um ditador na presidência, de um ditador maluco assassino a garantir a paz do seu desejo. No entanto, ele poderia simplesmente desligar a televisão com um controle remoto. Ou trocar de canal.

 

Para esse eleitor, que são milhões, é preciso muita mais do que um ditador. Por mais que prometa matar meio mundo, por mais que prometa vender o Brasil, acabar com todos os direitos do povo, tornar a vida dos cidadãos um inferno econômico e social, ele não poderá resolver o desejo em relação à imagem de Pabllo Vittar, ao que ele representa.

 

Mesmo que se destrua a televisão, que se matem todas as travestis, que se matem as mulheres, que se matem os críticos, os psicanalistas, os educadores, que se queimem os livros, que se implante a escola sem partido e que os imbecis de plantão continuem falando de “ideologia de gênero” sem saber o que dizem, mesmo que se exploda o Brasil com uma bomba atômica ou guerra civil, o desejo por Pabllo Vittar é indestrutível.

 

Nem Bolsonaro poderá curar esse desejo.

 

Pena que um mundo tenha que ser aniquilado porque alguém não pode, livremente e de maneira amorosa, viver de bem com o seu desejo.

 

Então, precisamos começar tudo de novo. Se tivermos tempo, uma sexologia política pode nos ajudar.


> Leia a coluna de Marcia Tiburi, toda quarta-feira, no site da CULT
 
26
Out18

Ato contra a ditadura se transforma em comício para Haddad em Fortaleza

Talis Andrade

por Silvano Mendes / RFI

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Militantes que sobreviveram à tortura e à repressão participaram o ato contra a ditadura em Fortaleza RFI
 
 

Essa quinta-feira (25) marcou os 43 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, vítima da ditadura militar. A data foi lembrada em Fortaleza com um ato político em defesa da democracia, no qual o palanque contou com a presença de sobreviventes da tortura, além de estudantes, jornalistas e militantes de vários partidos, que aproveitaram o momento para defender a candidatura de Fernando Haddad no segundo turno da eleição presidencial.

 

Enviado especial a Fortaleza

 

Ao som de canções engajadas, como Tropicália, de Caetano Veloso, ou Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio, centenas de pessoas se reuniram na praça Gentilândia para homenagear o jornalista morto em um quartel do exército em São Paulo, em um episódio que se tornou um dos símbolos dos anos de chumbo no Brasil. Várias testemunhas vivas dessa época, muitas delas vítimas da repressão, estavam presentes e se sucederam no microfone durante o evento, intitulado “Ditadura Nunca Mais”.

 

Praticamente todos os discursos foram pontuados por frases em apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores para a presidência, Fernando Haddad, mas também contra Jair Bolsonaro, cuja possível vitória no próximo domingo (28) é vista por muitos na manifestação como um risco de restabelecimento de uma nova forma de ditadura. “A morte de Herzog foi o fruto de tudo o que nós queremos afastar do Brasil hoje”, declarou a ex-prefeita de Fortaleza e deputada federal do PT, Luzianne Lins. “Estamos aqui para honrar o Brasil verdadeiro, o país solidário, generoso, de um povo com o coração aberto para receber o mundo. E não um Brasil tomado pelo ódio, como ele quer que seja a cara de nosso país para o resto do mundo”.

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Dois pontos percentuais por dia

 
 

O Ceará foi o único estado do Brasil a não eleger nem Haddad nem Bolsonaro no primeiro turno. Ao optar por Ciro Gomes, os cearenses criaram o suspense sobre quem vai ficar com os votos do candidato do PDT, que chegou em terceiro na corrida eleitoral. “Temos três dias para conquistar os 6% que faltam para a virada”, gritavam os militantes, em alusão àsúltimas pesquisas de opinião, que apontam uma queda de 18 para 12 pontos de diferença entre os dois candidatos. Para eles, a estratégia agora é seduzir os indecisos e conseguir ganhar 2 pontos percentuais por dia, até domingo.

 

Estudantes e militantes também participaram da manifestação RFI
 

 

Para isso, vários partidos – principalmente de esquerda – se mobilizam para ajudar a eleger Haddad, mesmo se nem todos concordam com a política dos petistas. “Nós fomos críticos ao governo do PT, mas compreendemos que as pessoas que querem lutar por direitos e democracia devem votar em Haddad, mesmo com críticas”, explicou o deputado estadual do PSOL Renato Roseno, um dos mais fervorosos durante a manifestação desta quinta-feira. “A gente não quer que as pessoas votem esquecendo as críticas ao petismo. Esse é um voto que deposita confiança, mas deposita também cobrança e exigências. Até para eu ser um opositor crítico à Haddad, para que ele avance em reformas que não fizeram ainda nos anos passados, eu voto nele”, explica.

 

Nos bastidores, alguns militantes criticam a falta de um apoio mais firme de Ciro Gomes. “Ele deveria ter subido em um palanque com Haddad”, disseram alguns. Muitos esperam, inclusive, que Ciro se pronuncie nesta sexta-feira (26), quando volta para Fortaleza após uma viagem pela Europa. Militantes já estão se organizado para esperá-lo no aeroporto às 20h, pelo horário local.

 
 
26
Out18

PRESIDENTE NACIONAL DE IGREJA EVANGÉLICA PEDE VOTO EM HADDAD

Talis Andrade

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O pastor evangélico Ricardo Gondim declarou, em um vídeo nesta quinta-feira (25), apoio ao candidato do PT à presidência Fernando Haddad.

 

Gondim conhecido por suas posições em relação aos direitos humanos e de minorias. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos e autor de diversos livros, ele contou que teve seu pai preso pela Ditadura Militar, em 1964, e que sua mãe, então grávida de gêmeos, perdeu uma das crianças.

 

"Não estamos em um período de eleição normal, o que está em jogo é a possibilidade de uma ditadura de extrema-direita, de fascismo. Minha opção agora é em Haddad, não só por ele, mas pela democracia e pelo futuro do Brasil", disse o pastor.

 

 

 

25
Out18

Eliane Brum: "Bolsonaro, nega a democracia"

Talis Andrade

 

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247 - A escritora Eliane Brum manifestou indignação com os argumentos e a expressão usada pelo ministro do Superior Tribunal Eleitoral para justificar a proibição da cena da apologia à tortura de Jair Bolsonaro (PSL) usada no programa de Fernando Haddad (PT). O ministro usou a palavra 'distopia' como argumento para a suspensão das imagens e Brum classifica o erro semântico como afirmação da autoverdade do ministro. Para Brum, o país vive um delírio de "normalidade" que devasta a compreensão da própria magistratura sobre os riscos à civilização que estão sendo impostos pela brutalidade política. 

 

Em seu artigo, publicado no jornal El País, Brum alerta: "estamos ferrados. Não apenas porque um ministro do TSE diz que é simulado aquilo que é real, mas porque este tem sido o comportamento de uma grande parcela das instituições e também da imprensa. Simula-se no Brasil que a distopia não é real. E se faz isso simulando que esta é uma eleição "normal", uma eleição entre dois projetos distintos, mas igualmente legítimos".

 

E chama a atenção para o que esta em jogo: "esta é uma eleição em que um candidato, Fernando Haddad, por mais ressalvas que se possa ter a ele e ao seu partido, tem um projeto democrático, e o outro candidato, Jair Bolsonaro, nega a democracia. É estranho disputar uma eleição e ao mesmo tempo negar a democracia? É estranho. Esta é uma das contradições da democracia, e ela se expressou diversas vezes ao longo da história e se expressa com muita força nos dias atuais, com exemplos como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia".

 

 

24
Out18

O dia em que Bolsonaro cuspiu na estátua de Rubens Paiva

Talis Andrade
A cusparada premonitória de Jair Bolsonaro
 

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por Chico Paiva Avelino
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Em 2014, a Câmara dos Deputados fez uma tocante homenagem ao meu avô, Rubens Paiva: inauguraram um busto com a sua imagem em função de sua incessante luta pela democracia – causa pela qual ele literalmente deu a vida. Minha família foi em peso. Emocionadas, minha mãe e minha tia fizeram discursos lindos e orgulhosos sobre a memória do pai. No meio de um deles, fomos interrompidos por um pequeno grupo que veio se manifestar. Era Jair Bolsonaro, junto com alguns amigos (talvez fossem os filhos, na época eu não sabia quem eram), que se deu ao trabalho do sair de seu gabinete e vir em nossa direção, gritando que “Rubens Paiva teve o que mereceu, comunista desgraçado, vagabundo!”. Ao passar por nós, deu uma cusparada no busto. Uma cusparada. Em uma homenagem a um colega deputado brutalmente assassinado. 
 
 
Gostaria muito de poder conversar com o meu avô nesse momento político pelo qual passamos. Teria muito a acrescentar: foi eleito Deputado Federal por São Paulo em 1962, e cassado pelo AI-1 em 10 de abril de 1964. Como democrata exemplar que era, sempre lutou contra o autoritarismo e nunca encostou numa arma. Infelizmente essa oportunidade me foi arrancada quando, em janeiro de 1971, ele foi levado de casa junto com minha avó e minha tia, que na época tinha 15 anos, para os porões do DOI-Codi do Rio de Janeiro, na Tijuca. Lá, foi torturado até morrer pelo aparelho de repressão montado pelo regime militar, cuja filial paulista era comandada por ninguém mais nem menos do que o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
 
 
Na época, não havia ficado claro o motivo dos militares levarem também a minha avó e minha tia. Hoje, conhecendo os métodos praticados por Ustra, sabemos que era para trazê-las à sala de tortura e pressionar o meu avô. Elas, em celas ao lado, separadas, ouviram seus gritos antes que ele fosse morto.
 
 
O atestado de óbito só foi entregue à família 25 anos após o assassinato, em 1995. O corpo jamais foi entregue. Na Comissão Nacional da Verdade, outros militares envolvidos no
crime disseram que o corpo foi enterrado e desenterrado duas vezes. Sobre o assunto, Bolsonaro debochou: pendurou na entrada do seu gabinete em Brasília uma placa que dizia “quem procura osso é cachorro”.
 

o osso e o cachorro.jpg

 

 
Hoje em dia, Ustra é mais famoso não pelas atrocidades que cometeu, como torturar mães na frente de suas crianças, colocar ratos e baratas vivas dentro da vagina das mulheres, estupros, pau de arara, choques, entre outras; mas por ser o grande ídolo, chamado de herói, pelo nosso provável novo presidente, Jair Bolsonaro – que diz que seu livro de cabeceira é a história do coronel. 
 
 
Em seu voto a favor do impeachment, Bolsonaro prestou homenagem ao torturador da ex-presidente. No púlpito do Congresso Nacional, com o país inteiro assistindo, ele decidiu lembrar de um ser asqueroso que era o contrário de tudo que a democracia representa, e que havia covardemente torturado a mulher que ele ali teve o sadismo de torturar psicologicamente mais uma vez.
 

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Desde que me dou por gente, essa cicatriz já havia sido fechada na família. Não era um assunto tabu. E sempre fui ensinado que essa não era uma luta pessoal, que não devíamos denunciar e brigar contra essas práticas como vingança familiar, mas para evitar que isso ocorresse com outros. Não era uma briga nossa, mas de todo o país. Minha mãe foi a muitos eventos e deu muitas entrevistas naquele ano por ocasião dos 50 anos do golpe de 1964. Em todas elas fazia questão de lembrar do caso Amarildo, pedreiro desaparecido e assassinado pela PM do Rio de Janeiro em 2013 - como aquela prática seguia mesmo na nossa frágil democracia, e como a dor da família de Amarildo era a mesma pela qual a nossa havia passado.
 
 
Estamos às vésperas de uma eleição na qual Bolsonaro não só reafirmou sua admiração por Brilhante Ustra, mas a todo aparato do regime militar. Meu avô lutou contra discursos como esse e por isso foi covardemente preso, torturado e assassinado. Deu a vida pela democracia. Hoje, fica evidente que aquela cusparada não era algo meramente simbólico, mas um prenúncio daquilo que ele pretende fazer como Presidente, e que vem incansavelmente repetindo durante a campanha: prender e exilar seus adversários políticos, eliminar militâncias e desaparecer com as minorias. 
 
 
Ainda dá tempo de evitar isso, e o poder está em nossas mãos, com nosso voto. Eu nunca imaginei que, em 2018, essas informações não bastassem para que as pessoas pudessem ter repulsa a um político que defende isso. Espero que ajude alguém a refletir, a tornar mais palpável quem é Jair Bolsonaro. Em 1964, foi Rubens Paiva e milhares de outros. Em 2018, pode ser eu, você, as pessoas que amamos.
 
 

 

 
 
24
Out18

O risco de um defensor da ditadura, da tortura e do extermínio dos diferentes se tornar o presidente do maior país da América do Sul

Talis Andrade

Bolsonaro é uma ameaça ao planeta

 
 

Jair Bolsonaro, chamado nas redes sociais de “o coiso”, não é uma ameaça apenas ao Brasil, mas ao planeta. O candidato de extrema direita, que liderou o primeiro turno das eleições no Brasil, com o voto de quase 50 milhões de brasileiros, pode vencer no segundo turno, em 28 de outubro. Se ele se tornar presidente do Brasil, já avisou que pretende seguir Donald Trump e anunciar a retirada do Brasil do Acordo de Paris. Ele e seus apoiadores também já anunciaram várias medidas que abrirão a Amazônia ao desmatamento. A floresta, que já teve 20% de sua cobertura vegetal destruída, está perigosamente perto do ponto de virada. A partir dele, a maior floresta tropical do mundo se tornará uma região com vegetação esparsa e baixa biodiversidade. E o combate ao aquecimento global se tornará quase impossível.

 

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ultradireitista que flerta com o fascismo já anunciou que pretende fundir o ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura e que o ministro desta aberração será “definido pelo setor produtivo”. O que Bolsonaro chama de “setor produtivo” é tanto o agronegócio quanto os grileiros, criminosos que se apropriam de terras públicas na base da pistolagem. No Brasil, parte do agronegócio se confunde com a grilagem e é representado no Congresso pelo que se chama de “bancada do boi”.

 

Essa frente, que reúne parlamentares de diferentes partidos conservadores, tem atuado fortemente nos últimos anos para avançar sobre as áreas protegidas da Amazônia. Querem transformar terras indígenas e áreas de conservação, hoje as principais barreiras contra a devastação da floresta, em pasto para boi, latifúndio de soja e mineração. Nesta eleição, anunciaram seu apoio a Jair Bolsonaro. O Partido Social Liberal (PSL) de Bolsonaro, que deverá engordar a “bancada do boi”, passou de um para 52 deputados, tornando-se o segundo maior partido da Câmara a partir de 2019.

 

Bolsonaro já garantiu aos grandes fazendeiros e grileiros que vai “segurar as multas ambientais”. "Não vai ter um canalha de fiscal metendo a caneta em vocês!”, discursou em julho. “Direitos humanos é a pipoca, pô!” Também já disse que não haverá “nem um centímetro a mais para terras indígenas” e defendeu que as já demarcadas possam ser vendidas. Entusiasta da ditadura que controlou o Brasil entre 1964 e 1985, ele também já declarou que vai “colocar um ponto final no ativismo xiita ambiental”. O candidato, que exalta a tortura, afirma que “as minorias têm que se curvar à maioria” ou “simplesmente desaparecer”.

 

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Apenas a possibilidade de ser eleito tem funcionado como uma espécie de autorização para desmatar a floresta e matar aqueles que a protegem. Vários casos de violência contra lideranças e assentamentos de camponeses ocorreram na Amazônia nesta eleição. O Brasil já é o país mais letal para defensores do meio ambiente. Com Bolsonaro, os conflitos devem explodir.

 

Em 8 de outubro, autores do relatório do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alertaram que o aquecimento global não pode ultrapassar 1,5°C. Meio grau a mais multiplicaria os riscos de seca, inundações, calor extremo e pobreza para centenas de milhões de pessoas. Alertaram também que só há 12 anos para reverter esse processo. Doze anos. A floresta amazônica é essencial para controlar o aquecimento global. E Bolsonaro já anunciou medidas que vão colocá-la abaixo.

 

Como o debate foi sequestrado no Brasil, o maior risco quase não é mencionado ou é simplesmente ignorado. Dentro do país. E também fora, onde o silêncio de governos e parlamentos da maioria dos países sobre a ameaça que assombra o Brasil é uma vergonha de dimensões globais.

 

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Se não for por posicionamento humanitário, representado pelo risco de um defensor da ditadura, da tortura e do extermínio dos diferentes se tornar o presidente do maior país da América do Sul, que pelo menos seja por cálculo: o Brasil pode estar se tornando um país cada vez mais periférico em vários sentidos, mas a Amazônia é central no debate mais importante deste momento histórico e que atravessa todos os outros temas: o climático.

 

Quem acredita que a possibilidade de o Brasil ser governado por um homem declaradamente racista, misógino e homofóbico é apenas mais uma bizarrice da América Latina não compreendeu que, em tempos de aquecimento global, a ameaça alcança a sua porta.

 

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23
Out18

‘MOURÃO ERA UM DOS TORTURADORES’, DIZ O CANTOR GERALDO AZEVEDO, PRESO NA DITADURA

Talis Andrade

O cantor e compositor Geraldo Azevedo revelou durante um show no sábado o general Hamilton Mourão, o candidato a vice-presidente de Bolsonaro foi um dos torturadores nos 41 dias em que ficou preso em 1969, durante a ditadura militar: "olha, é uma coisa indignante, cara. Eu fui preso duas vezes na ditadura, fui torturado, você não sabe o que é tortura, não. Esse Mourão era um dos torturadores lá"; assista

 

 

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247 - O cantor e compositor Geraldo Azevedo revelou num show em Jacobina na noite de sábado (21) se manifestou que foi torturado em 1969, durante a ditadura militar, por Hamilton Mourão, hoje general e candidato a vice na cahpa de Jair Bolsonaro: "Olha, é uma coisa indignante, cara. Eu fui preso duas vezes na ditadura, fui torturado, você não sabe o que é tortura, não. Esse Mourão era um dos torturadores lá". Ele acrescentou: "e essa alegria toda que está tendo aqui vai se perder, vocês estão sabendo disso. O Brasil vai ficar muito ruim se esse cara ganhar". Assista abaixo.

 

Durante a ditadura, Geraldo Azevedo integrava o grande grupo de artista que se opunham ao regime. Entre 1968 e 1969 participou de reuniões clandestinas no Teatro Gláucio Gil, ao lado de cineastas, roteiristas, atores e músicos. Nelas, conheceu Glauber Rocha, Walter Lima Junior, Caetano Veloso, entre outros. Geraldo ficou responsável por recolher assinaturas para o manifesto contra a censura.

 

Em 1969, foi preso com a esposa, sendo torturado por 41 dias. Um dos torturadores era, revela o cantor agora, o general Hamilton Mourão.

 

O compositor ainda disse: "eu fico impressionado do povo brasileiro não prestar atenção nas evoluções humanas. Olha, eu não sei se isso aqui vai entrar em algum choque com a prefeitura, coisa e tal, mas é o meu sentimento de indignação em relação com o que pode acontecer com o Brasil".

Assista:

 

22
Out18

Porque jamais nos vencerão

Talis Andrade

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 por Fernando Brito

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Se o Brasil tivesse uma imprensa digna da sua missão de informar, o Brasil não estaria à beira de cair sob o tacão do fascismo.

 

Se o Brasil tivesse instituições dignas de sua missão constitucional, não estaria na iminência de viver sob uma ditadura.

 

Se o Brasil tivesse liberais dignos de princípios e não amantes da velhacaria e de interesses eleitoreiros não estaria ao ponto de descer para a treva do autoritarismo.

 

Se Brasil tivesse uma elite econômica que amasse o país que sustenta sua fartura não estaria a um passo de regressarmos a escravatura.

 

Mas este país não os tem e por isso assistimos, indefesos, vê-lo atirado no lixo, submetido a um governante tosco, primário, imbecil, capaz de negar o direito mais básico que tem cada ser humano que aqui vive: o direito de ser brasileiro.

 

Quem assistir ao vídeo onde o Sr. Jair Bolsonaro despeja, com um discurso gutural o seu desejo de expulsar do país todos aqueles que não concordarem ou se submeterem a sua vontade fascista não pode deixar de perceber quão escura é a treva em que ele lançará esse país.

 

Desde Médici ninguém ameaçava um brasileiro com o exílio.

 

Mesmo os “bem-postos” – juízes, promotores, deputados, empresários, “mercadistas” – que odeiam o povo simples e humilde desse país não podem deixar de ver que vamos ser mergulhados na selva da violência estatal, numa situação em que as grandes maiorias da população serão submetidas à alternativa entre a vassalagem ou a insurreição.

 

As altas patentes militares, que aderem e se submetem a um capitãozinho “bunda-suja”, que há 30 anos garatujava no papel planos de explodir bombas em quartéis para obter salário melhor – se não sabem, deveriam saber – enfiaram as forças armadas na idolatria da indisciplina, da conspiração, da deformação de só ter coragem de apontar as armas para seu próprio povo, o que as decai à condição que Caxias rejeitou, a de capitães do mato.

 

Errem. Suicidem-se. Escondam numa votação escandalosamente manipulada, onde a boa-fé do povo brasileiro aceita ver como “corruptos” os que nem de longe, mesmo na sua vileza, os que praticam a mais vil das corrupções: a de vender o Brasil, a de vender os direitos do nosso povo, a de vender o sagrado bem da liberdade para instaurar um governo de pústulas, de tatibitatis, de gente microcéfala e, pior, genuflexa ao ponto de bater continência para a bandeira norte-americana.

 

É de repetir Castro Alves e gritar para que Andrada arranque dos ares seu pendão para que não sirva de mortalha às liberdades.

 

O nazismo teve seu ápice, teve multidões, teve seus braços erguidos no “heil” de milhares encantados, hipnotizados.

 

Os que ousaram resistir teriam passado anos como ratos em suas tocas não fosse o fato de que eram homens e mulheres cercados pelos ratos.

 

Quis-se avançar como um Brasil de todos. Ninguém foi perseguido, nenhuma bolsa foi saqueada, nem mesmo os salões foram violados. Apenas – e muito timidamente entreabriu-se suas portas para que outros pudessem entrar.

 

Será que é ofensa demais ver o rosto cafuzo, mulato, crestado do sol ao seu lado no shopping, no avião, na loja? É tanto o desprezo à carne da qual se nutrem ao sangue do qual bebem, aos pobres que os fazem ricos?

 

Eis, senhores, numa palavra, a torpeza de seu crime. Querem a morte de quem os nutre, de quem lhes constrói as casas de luxo, as mansões, de quem compra seus produtos, de quem é escorchado por seus bancos, de quem consome as porcarias que colocam no mercado? Querem o sangue de quem nunca lhes tirou uma gota de seu champanhe?

 

Há, porém, uma arma mortal e sem defesa, apontada contra os senhores.

 

Chama-se história, responde pelo nome de marcha incontível dos povos pelos seus direitos e liberdades. Neguem-na, persigam-na, prendam-na, exilem-na: nada adiantará.

 

Ela triunfa. Sempre haverá festa quando ela voltar e vocês se forem. É certo que haverá dores, haverá filhos separados dos pais, haverá vidas interrompidas, algumas perdidas.

 

Ainda há tempo para um difícil acesso de lucidez, tão mais difícil quanto mais covardes são aqueles que poderiam provoca-lo.

 

Mesmo assim, a causa de vocês é perdida, inviável, perversa. Há e haverá sempre brasileiros que não se vergarão que seja de onde for, estarão de pé, a enfrenta-los. Vocês não têm mais a censura e o silêncio que tiveram, há meio século para implantar uma ditadura.

 

Vocês são os zumbis do tempo que se foi e não adianta que avancem como hordas ameaçadoras.

 

Nós somos a vida e a humanidade, e a vida humana triunfará.