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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Jun18

TECE: TUA LAVOURA DE PONTOS

Talis Andrade

 

 

De Jussara Salazar

 

jussara salazar js.jpg

 

 


desde o vazio faz
tua rede no tempo

 

Teu fado: atravessar a noite
a noite e o dia talvez
um século até a aurora

 

A gárgula: ri de ti sob o teto antigo
na hora que dorme
a tua romaria de pontos

 

A terra pergunta: como te nutres
saltando sobre as flores áridas
deste chão?

 

 

 

---

fia com tema de sergey rimashevski

13
Jun18

Retrato amoroso ou o retorno do querubim sobre as ondas

Talis Andrade

de Jussara Salazar

 

poesia jussara salazar.jpg

 

vagando
as ondas
o tule
do mar
do extremo amor
devolveu a
cabeça do querubim
perdido


os dias
os dias
os mesmos dias
viram teu torso
um desenho
costurado
à linha do horizonte

 

te aguardarei
menino
quando retornares
com o tempo
teu corpo
e tuas cicatrizes

 

 

---


com tema de Beth Moysés| Reconstruindo Sonhos

Performance realizada em Cáceres, Espanha. 2007

13
Jun18

Que pode oferecer uma mulher além da flor do sexo

Talis Andrade

penelope.png

 

 

 

PENÉLOPE

1

Dia após dia

as mãos hábeis

de Penélope

teciam o silêncio

a solidão

 

Dia após dia

as mãos de Penélope

varriam a casa

a vida vazia

 

2

No início

era assim

 

a casa lavada

e arrumada

 

a roupa lavada

e passada

 

o corpo lavado

e perfumado

 

como se de repente

o amante entrasse

quarto a dentro

 

3

A fidelidade uma cobrança

Ulisses como recompensa

a resguardasse com os antigos olhos

que a descobriram

entre tantas moças

Os penetrantes olhos

postos em suas coxas

Os antigos olhos

que a desnudaram

no primeiro instante

tornando-a mulher

em cada dobra do vestido

em cada curva do corpo

em cada devaneio inibido

 

4

O medo

uma constante

à vida vivida

sob a mira

do proibido

 

Desde criança

os passos contidos

A casa  

a escola

a igreja

marcavam

o espaço

permitido

 

Algumas vezes

os sonhos

transpunham

o limiar

da porta

os olhos

se perdiam

por estranhos

territórios

 

Um copo de vinho

podia ser o passe

para uma caminhada

mais distante

Uma música lenta

de amor ardente

podia acordar os sentidos

mas os desejos

vinham e iam

quais marés

sonolentas

 

5

Que pode oferecer

uma mulher

além da flor

    do sexo

 

Do homem a vantagem

o mistério das cicatrizes

a coroa de herói

a legenda de mártir

inscrita nos cárceres

 

De Penélope a sina

de tecer tecer

o que nunca termina

O fazer refazer

das obrigações femininas

 

De Penélope a submissão

da espera

O homem lhe complete

a vida vazia

 

6

Na imprensa nenhuma notícia

Na polícia tudo corria

em segredo de justiça

Com o passar dos dias

o esvaecer da esperança

Nem no aniversário

compensa tecer as tranças

de azul pintar

     os olhos

tomar um banho

     de perfumadas rosas

amainar o corpo

      nos ventos alísios

Não havia alegria

em vestir um vestido novo

Os desejos passaram a dormir

no fundo de um poço

 

7

Ouvira os padres profetizarem

um outro mundo

o marido falar

de um mundo novo

As palavras as palavras  

não podiam tudo

Havia o testemunho

do espelho de prata

a dor de não saber

guardar o verdor do corpo

perante o tempo corrosivo

 

Nenhum deus poderia impedir

os dias devorassem

os belos traços do rosto

os peitos pendessem

como frutos podres

 

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps  154/160 

26
Abr18

corpo inconsútil

Talis Andrade

com tema de heather murray

corpo inconsutil.jpg

de Jussara Salazar

 


a linha do rio costura

o céu e a terra

a linha da terra costura

o céu e o mar

a linha do céu dobra

o inferno ao meio


contornamos o sol


a linha do tempo

não se dobra

mas fia

teia de si mesma

acalenta o vento

e costura

a linha dos dias

 

 

 

12
Ago17

Tempo futuro

Talis Andrade

 

 

 

nau dos insensatos.jpg

 

 

 

Fugindo do passado       

tempo sumido       

perdido tempo       

somos eternos viajantes       

eternos errantes à procura       

de um porto seguro       

no futuro 


 

 

---

Mais poesia de Talis Andrade aqui

19
Jul17

Anestésico

Talis Andrade

Apostando com a dor  Viktor Safonkin.jpg

 

 

 

Não persigo nenhum feito

Escrevo poesia

porque o único jeito

de passar o tempo

de passar esta dor

que em pânico

sinto no peito

 

 

---

Ilustração: Apostando com a dor,

por Viktor Safonkin

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10
Jul17

Tudo depende do ponto de vista e do que você prefere ver

Talis Andrade

 

In pag Mariana Valle.jpg

 

por Mariana Valle

 

Tudo depende do ponto de vista.

Por mais que insistam

Que a vista é feia

Não se deve cair na teia

Da aranha faceira

Que seduz e mata.

Tudo depende de como se vê.

Não preciso ver o mesmo que você.

Só preciso do meu sorriso brilhando

Meu guia, minha luz.

A paisagem tem sempre alguma beleza

Por mais que eu veja o temporal.

É o  tempo moral.

Pra tudo tem tempo

O vento passa

E o sol vem 

Mas depende de um querer bem

Fazer, sem olhar a quem.

 

Tudo depende do ponto de vista.

Por mais que insistam

Que a vista é feia

Só creia no que te beneficia.

Alimentar o mal vicia

E afasta a cura.

 

Vista. Invista.

Vivemos muito pouco tempo

Para não sermos felizes

 

28
Jun17

Recomeço, por Marta Peres

Talis Andrade

 

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O relógio continua
marcando o tempo,
tic tac, tic tac, tic tac,
vai passando,
vai passando,
vai passando,
é segunda,
é trabalho
é terça,
é trabalho
tic tac,
já é quarta,
continua o trabalho,
depois quinta,
é trabalho,
tic tac, tic tac
chegou sexta,
trabalhando vou pensando,
tic tac, tic tac, tic tac,
o relógio
vai andando,
vai andando,
sábado,
não há trabalho,
melancolia na alma
ouvindo
tic tac,
sonolência
dentro do continuado
tic tac,
domingo,
aflição,
amanhã recomeça novamente.

 

 

---

Ilustração:Time is an ilusion!, por Rayra Gracie

 

 

 

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