Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Mar21

A ÚLTIMA CEIA

Talis Andrade

www.acf-versailles.catholique.fr - exposition d'icônes coptes | Arte  católica, Arte de cristã, Imagens de jesus

 

por Talis Andrade

Jesus estará em agonia
até o fim do mundo
Blaise Pascal

Por que a avareza
de negar proteção
à pobre criança
de mão estendida

A discriminação
a recusa de sentar
em uma mesma mesa
e repartir o pão
com o irmão

Lembra a Última Ceia
Jesus depôs as vestes
cingiu-se com uma toalha
Ajoelhado como um servo
lavou os pés dos apóstolos
Lavou os pés de João o mais amado
e os de Judas Iscariotes

Lembra a Última Ceia
Jesus dançou com os discípulos
Todos de mãos dadas
formando um círculo
Jesus cantou
– Reconhece o que faço
Tua a paixão dos homens
a paixão que sofrerei

Jesus dançou e cantou
Depois caminhou
para o abandono
da suprema angústia
no Jardim de Getsêmani

17
Mar21

AMANHÃ É OUTRO DIA

Talis Andrade

por Talis Andrade

 

Dança macabra – Wikipédia, a enciclopédia livre

 

Do jornalista
o trabalho cotidiano
da colheita
De tarde a notícia
De noite o trevo

O jornalista vive
como em tempo de peste
Beber divertir-se
na dança macabra
da madrugada
a dança de São Vito
É tudo aqui-e-agora
que no meio da vida
seremos surpreendidos
pela morte

O jornalista vive
o presente finito
Tudo que escreve
tem a louvação
de um dia

O jornalista vive
o instante
a emoção
do amor
de uma noite

O jornalista vive
o pressentimento
Amanhã pode ser dia de desemprego
Amanhã pode ser dia de enterro

 
12
Jan21

ESQUIFE ENCARNADO

Talis Andrade

por Talis Andrade

1

Que cavaleiro reerguerá a bandeira
posto à prova nas batalhas
como apreendido o amor
no ventre ardente
a fornalha
em que se malha
o frio aço
da lâmina flamejante

Desde criança o vaticínio
trovejado pela espumante boca
do profeta
Montado em um cavalo branco
os pés nos estribos
na mão esquerda a bandeira
na mão direita a espada
para degolar os exércitos mercenários
os vendedores do Templo
os moedeiros falsos

Desde criança o sonho
vencer o ídolo de ouro
e o seu séqüito
O enlouquecido sonho
de mudar o mundo

2

Veio o demônio a morte
e tomou a espada
Os livros não ensinam
a espada
tem que ser fincada na pedra do sonho
de onde manarão fontes
cantantes símbolos do Verbo

Veio o demônio a morte
e tomou a bandeira
Os livros não ensinam
uma bandeira apenas um fetiche
de pano e haste
A bandeira tecida
para tremular ao vento
poderia ser pisoteada
pelas hostes inimigas

A bandeira da cor de papoula
cobre o caixão
A bandeira agitada nos estádios
saudada nas passarelas do samba
reverenciada nos terreiros de macumba e capoeira
a bandeira benzida nas procissões
a ensangüentada bandeira das passeatas e comícios
cobre o caixão

3

A vida poderia ter sido feita
de cousas rotineiras

O amor da namorada
no vestido encarnado
de mestra do pastoril
a cantar a vinda do Menino Jesus
que veio ao mundo
para nos salvar

O cuidado dos pais
que iam à missa
todos os domingos
as roupas engomadas
as consciências leves
dos pecados lavados
no confessionário

O romantismo dos camaradas
nas barricadas levantadas no ar
contra os daltônicos escribas da corte
O romantismo dos camaradas
nas barricadas cavadas no asfalto
contra os salários de fome

O dinheiro contado
da lista corrida
entre os companheiros
o dinheiro repartido
para comprar leite e pão
o dinheiro arrecadado para encomendar
as seis tábuas de um caixão
A vida teria sentido
o povo marchasse unido
para expulsar as quatro bestas espreitando
nas quatro esquinas do medo
a ganância do patronato
a covardia dos fura-greves
a brutalidade da polícia
a conivência da justiça
quatro bestas espreitando
coas presas sujas de sangue

4

Benfazeja realidade benfazeja
para quem vê os próprios interesses
E de crime em crime vai juntando
o precioso dinheiro
– o dinheiro indivisível e invisível
o dinheiro que não tem cor
o dinheiro que não tem cheiro
apenas o número secreto do dono

O povo coisa sem importância
As pistas dos latrocínios e pilhagens
desaparecem na lavagem do sangue dos inocentes
os cadáveres sob o peso do cimento
e do aço das obras públicas inacabadas
A lavagem do dinheiro nos bancos
clandestino batismo
dos adoradores do bezerro de ouro

5

Diante da glória passageira
o atordoante desespero
de não reconhecer as vermelhas nuances

Vermelhas a insígnia de fogo nos sambitos dos afogueados
a insígnia de seda dos filhos do Coração Sangrante de Jesus
a cruz da Ordem dos Templários
a cruz gamada dos soldados de Hitler
a bandeira dos operários de Lenine
a bandeira dos piratas
com a ampulheta a caveira e a espada

Vermelho o lenço amarrado
no pescoço dos revolucionários de Trinta
Vermelho o pedaço de pano
o sinal abominável
os leprosos carregavam
pendurado nas vestes brancas
Vermelho o laço de fita
no alto da cabeça da menina
para quem o poeta recitou
rimados versos de amor
em noites de serenatas 

Como espanta
o controverso oportunismo
todos quererem uma bandeira
quando sequer entendem
o que seja vermelho


In livro Esquife Encarnado. A Tribuna, Recife, 1957.
Este é o poema título do livro Esquife Encarnado.
Livro publicado em parceria com Djalma Tavares, e premiado em Goa, em um Festival de Poesia Internacional.
Djalma, além de excelente poeta, era pintor. Capa e ilustrações do livro são de Djalma Tavares. De uma família de poetas. Irmão de Odorico e Cláudio Tavares, primo de Deolindo Tavares, e tio de Gladstone Bello e Carlos Pena Filho.

23
Ago20

A LUA DE LORCA

Talis Andrade

 

poets.org — Six drawings by Federico García Lorca (1898-1936)


Federico:
- Que tem teu divino
coração de festa

A menina:
- Tenho uma rosa
uma linda rosa
amarela

Federico:
- Ai menina
não se faça
tão bela

A menina:
- O sol
me fez assim
hoje é manhã
de primavera

Federico:
- Ai menina
a noite
uma longa noite
me espera

A menina:
- Triste sina tua
querer a lua
que no céu
sorri distante

Federico:
- Ai menina                                                                                                                                                muito mais triste
não saber
se de verdade
desejo a lua
como amante

 

- - -

Talis Andrade, Vinho Encantado, p. 31, Livro Rápido, 2004, Recife

Ilustração Federico García Lorca

21
Ago20

UNTURA

Talis Andrade

capa_vinho_encantado.jpg

 

 

 

Cantar cantar
cantigas de amor
cantigas de amigo
O canto entorpece
a dor O canto
enxuga o pranto
que se sente
pelo amor ausente

Cantar cantar
cantigas de amor
para a amante
cantigas de louvor
para os amigos
O canto alegra
a vida
que a felicidade
é compartida

Vem cantar comigo
minha amiga meu amigo
que não existe
prazer solitário
A felicidade é solidária
advém da relação
de um corpo
com outros corpos
da nossa satisfação
com tudo que floresce
no circulo de um jardim

 

- - -

Vinho Encantado, p. 29, Livro Rápido, 2004, Recife

Ilustração Capa de Luciana Cavalcanti a partir de detalhe da decoração do teto da Abadia de Santo Domingo de Silos ( Séc XV Burgos) 

 

18
Abr18

A PALAVRA DE FOGO

Talis Andrade

 

Antonio_Conselheiro_(Pátria_Brazileira).jpg

 

No remoinho dos ventos

levantando a poeira

do vermelhado chão

em um perdido povoado

 

a alucinante aparição

de um homem

envergando a veste

dos penitentes

 

a aparição de um homem

que andou léguas e léguas

por caminhos de pedras

e vilarejos distantes

 

a pregar uma estranha

e deslumbrante visão

o sertão vai virar mar

o mar vai virar sertão

 

O remoinho dos ventos

apagou os rastros do profeta

o remoinho dos ventos

levou as secas palavras

pelos caminhos secos dos rios

o remoinho dos ventos

espalhou a palavra de fogo

pelos vagos do deserto

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps. 27/28

18
Abr18

O PEREGRINO

Talis Andrade

canudos arraial do belo monte conselheiro .jpg

Canudos, o Arraial do Belo Monte 

Com o bordão de peregrino

como apoio

a cruz como símbolo

o peregrino caminha

pelo leito seco dos rios

levando a palavra da salvação

a esperança de chuva

aos secos viventes

do seco sertão

 

Perdidos lugarejos

perdidas almas

há muito tempo os corpos enterrados

há muito tempo as esperanças enterradas

 

O peregrino os olhos cegos pelo sol

talvez não anteveja

no findar da jornada

fincará uma cruz

em uma cidade fantasma

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, p. 26

 

23
Set17

Cúpula da Pedra em Jerusalém

Talis Andrade

 

 

 

 

jerusalem 1.jpg

israel 2.jpg

dome-of-the-rock jerusalem.jpg

dome-of-the-rock-2.jpg

 

 


Em Jerusalém uma pedra

 

Dos judeus a convicção
a criação do mundo
a partir de uma pedra

 

A pedra que estava Abraão
quando falou com Deus
A pedra de onde Maomé
ascendeu ao céu
para rezar com Deus

 

Em Jerusalém uma pedra
divide duas religiões
em uma guerra santa

 

Em Jerusalém uma pedra

 

 

---

Poesia do livro inédito O Judeu Errante. 

Leia mais poesia de Talis Andrade in Palavras de Ateop, editado por Rafael Rocha,

jornalista, poeta e romancista

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub