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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

05
Jun20

Morte de filho de doméstica obriga Brasil a repensar racismo

Talis Andrade

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Miguel Otávio Santana da Silva, minutos antes de morrer, em um dos vários elevadores das luxuosas torres gêmeas 

por Astrid Prange

DW/ Alemanha

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"Enquanto as redes estavam subindo as tags “blacklivesmatter”, perdemos mais uma criança negra para o racismo enraizado neste país, para a desumanização de pessoas negras", comenta a historiadora Larissa Ibúmi sobre a morte de Miguel Otávio Santana da Silva. "[São] as mesmas estruturas coloniais, aquelas que mantêm mulheres negras a serviço da elite branca, as sinhás."

O trágico incidente ocorreu em 3 de junho no Recife, capital de Pernambuco. A doméstica Mirtes Renata Souza apareceu para trabalhar num luxuoso condomínio. Como as creches estão fechadas devido à pandemia de coivd-19, ela trouxera junto o filho Miguel, de cinco anos de idade.

A mando da patroa, Sarí Gaspar Côrte Real, Mirtes levou a cadela da família para passear, deixando o filho no apartamento. Quando esse pediu para estar com a mãe, Sari o deixou pegar sozinho o elevador. As câmeras do circuito interno do edifício registram como o menino sobe até o nono andar e escala uma grade do corredor. Pouco minutos mais tarde, ele cai de uma altura de 35 metros para a morte.

A empregadora foi acusada de homicídio culposo, mas se encontra em liberdade após pagar fiança de R$ 20 mil. Em entrevista à TV Globo, Mirtes desabafou: "Ela confiava os filhos dela a mim e à minha mãe. No momento em que confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar, para tirar [do elevador]."

Miguel era o único filho da doméstica. Após a morte, expressaram-se nas redes sociais luto, consternação, mas também ódio e cólera. Sob o hashtag #JusticaPorMiguel, políticos e ativistas de todo o país se manifestaram. Uma petição online reuniu mais de 680 mil assinaturas em menos de 24 horas.

Herança maldita

A rapper, autora e professora de história Joyce Fernandes escreveu no Facebook e Instagram: "Uma vida novinha foi interrompida pelo ranço dessa branquitude elitista maldita, que compra tudo com essa merda de dinheiro herdado pelos seus vermes antepassados que escravizaram meu povo".

Até 2009, ela própria trabalhava como doméstica. Sob o pseudônimo artístico Preta-Rara, ela é adorada por milhares de afro-brasileiros. No Facebook, criou a página "Eu, empregada doméstica", e lançou um livro homônimo. Atualmente a ativista se apresenta em diversos programas de televisão.

Em comunicado, a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas frisou a negligência da empregadora Sarí Côrte Real: "Que tipo de pessoa deixa uma criança aflita, chamando pela sua mãe, subir qualquer andar de um prédio? O mesmo de tipo de pessoa que acha mais importante ter sua unha pintada e seus cachorros passeados do que preservar a vida das mulheres contratadas para realizar tal serviço."

"Nos não aceitamos que a vida dos cachorros de dona Sari e o brilho das suas unhas valham mais do que a vida de um menino negro e de sua mãe trabalhadora doméstica!", diz o comunicado.

Equiparação no papel

Há apenas cinco anos, em 2º de junho de 2015, entrou em vigor no país a PEC das Empregadas Domésticas, pela primeira vez equiparando-as a outros trabalhadores. Até então, elas eram tratadas como mão-de-obra de segunda classe, incapazes de exigir, por exemplo, pagamento de horas extras ou seguro-desemprego.

Apesar da equiparação perante a lei, mantém-se a prática de discriminação das domésticas no Brasil. Isso se evidencia especialmente na crise do coronavírus: a primeira vítima da covid-19 no Rio de Janeiro foi justamente uma empregada.

Cleonice Gonçalves, de 63 anos, diabética, se contaminou com sua empregadora, que passara férias na Itália em março. Esta se submeteu ao exame de coronavírus ao retornar, mas não comunicou o resultado à criada. Cleonice morreu em 19 de março num hospital do município de Miguel Pereira, a duas horas do Rio, onde morava com o filho.

Também os patrões de Mirtes Renata Souza estavam infectados com o coronavírus. Num vídeo feito por ele mesmo em 22 de abril, Sérgio Hacker, marido de Sarí e prefeito de Tamandaré, explicava que seus testes de covid-19 haviam sido positivos. Apesar disso, a doméstica não foi dispensada.

Muitos brasileiros duvidam que o casal venha a ser realmente responsabilizado pela morte do pequeno Miguel. "Se iludem os que acham que a #JustiçaPorMiguel será feita com facilidade", escreveu no Twitter o deputado Túlio Gadêlha (PDT-PE). "As famílias Corte Real e Hacker são famílias tradicionais da política pernambucana com muito poder e influencia nas instituições. Vcs verão que Pernambuco ainda vive sob o comando de oligarquias familiares."Image

Irudia

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Protesto em frente às Torres Gêmeas

04
Mar20

“Ligação de Eduardo à conta de ataques é criminosa”

Talis Andrade

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Deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA) defende que filho de Jair Bolsonaro seja levado ao Conselho de Ética da Câmara por ligação com estrutura de disseminação de ódio contra desafetos do pai.

por Christiane Peres

No dia em que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News foi tomada por discursos da base do governo contra o trabalho realizado pelo colegiado, uma reportagem publicada pelo portal UOL botou por água abaixo a retórica dos aliados de Bolsonaro. A matéria aponta que uma das páginas utilizadas para ataques virtuais e para estimular o ódio contra supostos adversários do presidente Jair Bolsonaro foi criada a partir de um computador localizado na Câmara dos Deputados, mais precisamente, no gabinete do filho 03, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

De acordo com a publicação, a página, chamada Bolsofeios, foi registrada a partir de um telefone utilizado pelo secretário parlamentar de Eduardo Bolsonaro, Eduardo Guimarães.

A quebra sigilo foi feita a partir de um pedido do deputado Túlio Gadelha (PDT-PE), com base em denúncias feitas pela deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), durante seu depoimento ao colegiado. Segundo informações enviadas pelo Facebook à CPMI, a conta bolso_feios foi feita no IP de um computador localizado dentro na Câmara e utiliza um e-mail de registro utilizado pela assessoria do filho do presidente da República para a compra de passagens e reserva de hotéis, por meio da cota parlamentar.

Para o vice-líder do PCdoB na Câmara, deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA), o fato revelado pelo UOL é de “extrema gravidade” e deve ser levado ao Conselho de Ética da Câmara.

“Enquanto os deputados da base dizem que essa CPMI não tem razão de ser, que a Oposição está calada, ao contrário, hoje temos fatos concretos. O fato revelado hoje pelo UOL é de extrema gravidade. Foi instalada na Câmara dos Deputados uma central de operação de fake news. Isso não é algo de menor importância. A gente chega num ponto de envolvimento direto do deputado Bolsonaro, utilizando indevidamente o espaço da Câmara dos Deputados. Isso é uma atitude criminosa. Algo que precisa ser levado ao Conselho de Ética da Câmara e que tem que ser apurado pela própria Corregedoria da Casa”, afirmou.

Em depoimento à CPMI no final de 2019, Joice Hasselmann afirmou que a página Bolsofeios pertencia ao assessor do 03, Eduardo Guimarães. Ela também apresentou um grupo secreto que reunia páginas ligadas ao “gabinete do ódio”, com a presença de Guimarães e o perfil bolsofeios. O grupo organizava um cronograma de ataques a pessoas consideradas inimigas da família.

Assim como Jerry, a líder da Minoria na Câmara, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), considerou gravíssima a revelação feita pelo portal. Para ela, é inadmissível o uso de dinheiro público e da estrutura da Câmara para “criar uma conta em rede social que ataca inúmeras pessoas, inclusive o presidente da Câmara, jornalistas, Supremo Tribunal Federal e adversários políticos da família Bolsonaro”.

Além dos ataques, a página conta ainda publicações convocando para as manifestações de março a favor do presidente e contra o Congresso e o STF.

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