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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

01
Out23

Especialistas em ética jornalística denunciam problemas na cobertura da Lava Jato

Talis Andrade
 
Em determinadas conjunturas, o interesse público é ameaçado pelos interesses políticos e econômicos das empresas
Em determinadas conjunturas, o interesse público é ameaçado pelos interesses políticos e econômicos das empresas - Charge: Carlos Latuff

 

Concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas famílias interfere no noticiário sobre a operação

Daniel Giovanaz
 

O artigo Considerações sobre a mani pulite, escrito por Sérgio Moro em 2004, é um elogio à operação Mãos Limpas, investigação judicial que aconteceu na Itália na década de 1990. Principal inspiração da Lava Jato, a Mãos Limpas teve um resultado desastroso sob os pontos de vista político e econômico: a Itália tem um dos índices de corrupção mais altos da Europa, e o PIB é praticamente o mesmo de 12 anos atrás. Naquele texto, o juiz paranaense afirma que a mídia teve um papel decisivo durante a operação: “minar” a imagem dos réus junto à opinião pública, deslegitimando os argumentos da defesa.
“A investigação da mani pulite [Mãos Limpas] vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no L’Expresso, no La Republica e outros jornais e revistas simpatizantes”, descreve Moro na terceira página do artigo. “Os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva. (...) O processo de deslegitimação foi essencial para a própria continuidade da operação mani pulite”.


Olhos abertos
A exemplo do que Sérgio Moro constatou sobre a operação Mãos Limpas, a imprensa brasileira também contribui para o avanço da operação Lava Jato. Ao alimentar boatos sem a devida checagem, promover vazamentos seletivos e “condenar” os réus antes mesmo da sentença judicial, o noticiário brasileiro têm sido um prato cheio para pesquisadores especializados em ética jornalística.
Professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) aposentada em 2016, Sylvia Moretzsohn estuda as relações entre a ética e os dilemas do jornalismo. Segundo ela, é natural que os interesses das empresas de comunicação interfiram nas coberturas, mas os jornais deveriam preservar o senso crítico e a checagem rigorosa das informações.
“O jornalismo não se justifica se não defender causas. O problema é como as defende, se é panfletário ou não. É preciso conciliar isso com uma postura rigorosa na apuração, na divulgação, e não é isso que a gente está vendo”, analisa a pesquisadora. “A mídia passou a reproduzir a ideia de que ‘nunca se roubou tanto’ quanto nos governos PT. E a intenção foi clara: derrubar o governo [Dilma] e fazer um acordo em favor de interesses [econômicos] que estavam sendo suavemente contrariados”, completa.


Superficialidade
Questionada sobre a cobertura da Lava Jato após o golpe de 2016, Moretzsohn afirma que a “fórmula” é a mesma desde 2005, quando veio à tona o caso Mensalão. “É a partir daí que a coisa começa a degringolar de maneira escandalosa: a espetacularização da Justiça, a proeminência do Judiciário como ator político”, critica. “O Mensalão já tem a figura do juiz ‘salvador da pátria’, que foi o Joaquim Barbosa, mas a Lava Jato radicaliza isso, principalmente devido ao juiz de primeira instância, que mais de uma vez optou por condenar sem provas – como no caso do [José] Dirceu. Ele [Moro] está seguindo rigorosamente o script que descreveu no artigo em 2004, de usar a mídia em favor da operação”.
Em meio ao “fla-flu” ideológico, a pesquisadora lamenta que o jornalismo brasileiro apenas reforce o senso comum, apostando em colunistas políticos que associam a Lava Jato a uma luta “do bem contra o mal” – que supostamente levaria ao fim da corrupção. “A responsabilidade de qualquer jornal que não seja fascista é não dar espaço a essas vozes superficiais, que só reproduzem ódio”, acrescenta a pesquisadora. “O respeito à ética é importante, mas não temos um conselho de ética com poder efetivo. Seria interessante se houvesse uma legislação de imprensa que garantisse a liberdade e punisse gravemente essas práticas, que se avolumam na nossa história recente”.
O Observatório da Ética Jornalística (ObjETHOS), vinculado ao Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), possui uma equipe de vinte pesquisadores, responsáveis por publicar dossiês, artigos e comentários semanais sobre a cobertura da imprensa brasileira e internacional. A operação Lava Jato é um tema recorrente no portal do Observatório, justamente por ocupar a maior parte do noticiário político do país desde 2015.
Um dos professores responsáveis pelo ObjETHOS, Rogério Christofoletti afirma que os jornais brasileiros estão “perdidos” na cobertura da Lava Jato. “O tempo da mídia é diferente do tempo do Judiciário. A checagem dos fatos, das informações, é algo que atrasa a publicação. Mas essa é a função do jornalismo”, ressalta. “A mídia precisa questionar o que são provas e o que são indícios, precisa questionar o porquê de todos esses vazamentos”.

Problema estrutural
No dia 11 de maio, Christofoletti publicou um texto crítico à cobertura do jornal paranaense Gazeta do Povo sobre o depoimento do ex-presidente Lula (PT) em Curitiba. Dois dias antes de Moro receber o petista na sede da Justiça Federal, o jornal havia chamado atenção para a importância do evento que estava por vir; na edição de véspera, porém, a capa anunciava que era “muito barulho por (quase) nada”. “É muito cinismo da imprensa!”, descreve o pesquisador no título do artigo.
As revistas semanais de circulação nacional também deslizaram naquela cobertura, segundo Christofoletti, estampando na capa um suposto duelo entre Sérgio Moro e o ex-presidente. A analogia é incorreta porque juiz e réu não são adversários em um tribunal. “Eu não acredito que uma revista como a Veja desconheça a função de um juiz em um processo. Mesmo assim, eles reproduzem essa lógica adversarial porque é algo que chama a atenção do público”, analisa. “Problemas técnicos muitas vezes são, também, desvios éticos”.
Sylvia Moretzsohn compartilha dessa interpretação e reafirma que, desde 2005, a mídia brasileira tem violado princípios básicos do jornalismo, como a checagem das informações antes da publicação de uma manchete: “Os títulos são desmentidas pelo próprio texto. E isso não é só erro de revisão”, concorda.  Para Christofoletti, “a queda da Dilma e a Lava Jato são questões conjunturais, mas o problema do jornalismo brasileiro é estrutural: a mídia brasileira é oligopolizada [está nas mãos de poucas pessoas]”.
O pesquisador do ObjETHOS explica que seis famílias são donas da maior parte das empresas de comunicação do país, cujos vínculos políticos e econômicos nem sempre estão evidentes para o público: “Os meios de comunicação são atores políticos. Se a gente não esquecer disso, será bom para a democracia, bom para o jornalismo, e bom para o público”. Afinal, os interesses das empresas que apoiam a Lava Jato nem sempre coincidem com o interesse da maioria da população: “A gente não pode esquecer que, na Itália, um dos resultados da operação Mãos Limpas foi o [ex-primeiro ministro Silvio] Berlusconi, que, além da questão do autoritarismo e da corrupção, tinha uma relação muito próxima com a mídia corporativa”.
Paralelamente a um processo de democratização da propriedade dos meios de comunicação no Brasil, Christofoletti aposta na transparência como compromisso ético: “O leitor precisa saber de que lado o jornal está, quais os interesses que estão jogo em uma cobertura, saber onde está pisando. Mas a mídia brasileira tem dificuldade de abandonar o discurso da isenção, mesmo que na prática as coisas se mostrem bem diferentes, como no caso da Lava Jato”.


Seis anos de oposição
Em março de 2010, na sede da Fecomércio, a então diretora-superintendente da empresa Folha da Manhã S.A. – que edita o jornal Folha de S. Paulo –, Maria Judith de Brito, declarou: “Na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos”. Maria Judith de Brito presidia, na ocasião, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Seis anos depois, Dilma Rousseff (PT) sofreu um golpe de Estado legitimado pela mídia comercial.
A pesquisadora Sylvia Moretzsohn interpreta a declaração de março de 2010 como uma síntese dos desvios éticos cometidos pelos jornais brasileiros nos últimos anos. “Isso é realmente escandaloso, porque os jornais assumem através de sua porta-voz máxima que estão fazendo oposição”, afirma Moretzsohn. “Não estão fiscalizando os três poderes, como seria até desejável dentro do conceito de ‘quarto poder’, para impedir abusos, mas se colocam na luta política como um partido”, completa. “E fazer oposição é muito diferente de fazer crítica”. In Brasil de Fato, 16 de Junho de 2017

Vídeo: "Lógica da Lava Jato era a mesma das milícias e do esquadrão da morte" 
 

Vídeo: O jornalista e escritor Mário Magalhães disse, em entrevista ao "Jornalistas e Etc" publicada no canal UOL, que a cobertura da Operação Lava Jato foi um dos piores momentos da imprensa brasileira. "Acho que foi feito pouco jornalismo e muita propaganda. Um dos piores momentos do jornalismo brasileiro, que veio sucedido de um grande momento, que foi a cobertura da pandemia, contra um governo de comensais da morte [nome dado aos seguidores de Lord Voldemort, vilão da série Harry Potter]", analisou.
 
 

Vídeo: O ex-procurador e ex-deputado Deltan Dallagnol negociou em sigilo com as autoridades norte-americanas um acordo para dividir o dinheiro que seria cobrado da Petrobras em multas e penalidades por causa da corrupção. Procurado, Deltan não respondeu aos pedidos da reportagem, realizada em uma parceria entre o UOL e a newsletter A Grande Guerra, conta a reportagem de Jamil Chade e Leandro Demori
 
25
Abr23

As imagens vazadas do 8 de janeiro e o Processo Golpista em Curso

Talis Andrade
 
 
 
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por Sylvia Debossan Moretzsohn /objETHOS 

A semana que passou foi marcada por mais um episódio que, parafraseando e invertendo o sentido do PREC português (o “Processo Revolucionário em Curso”, na sequência da Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974), poderíamos chamar de Processo Golpista em Curso. Episódio decisivo, porém, que resultou na demissão do chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias, e levou o governo a mudar de posição em relação à criação de uma CPMI sobre os ataques de 8 de janeiro, quando uma multidão de bolsonaristas invadiu e depredou as sedes dos Três Poderes na tentativa de provocar um caos que levasse a uma intervenção militar. Como se sabe, essa proposta vinha sendo defendida enfaticamente por aliados de Bolsonaro, visando a demonstrar a disparatada tese de que o governo recém-empossado era o responsável por aquelas ações e quis posar de vítima para incriminar o ex-presidente.

No dia 19 de abril – por acaso Dia do Exército, e por acaso dia de uma cerimônia comemorativa em que, segundo a interpretação prevalecente na imprensa hegemônica, Lula procurava reaproximar-se dos militares após a tensão decorrente daquela tentativa de golpe –, a CNN divulgou com exclusividade trechos de imagens das câmeras de segurança que mostram cenas inéditas dos acontecimentos de 8 de janeiro. A reportagem, de cerca de 5 minutos, circulou intensamente pelas redes e provocou imediata reação de grupos aliados do governo, acusando a emissora de tentar tumultuar o ambiente e de ter editado as imagens.

Facilita a acusação o fato de a CNN ser notória aliada de Bolsonaro, a ponto de ser chamada, nos meios de esquerda, de “the new Jovem Pan”. Porém, editar imagens faz parte do trabalho jornalístico. O problema é como se edita, como se narra, e com que objetivo. No caso, parece clara a intenção de incriminar o (então) chefe do GSI, que surge na primeira cena, sozinho e aparentemente atônito. Uma cena que será repetida posteriormente, nessa edição.

O repórter começa assim a sua narrativa:

“Ele [Gonçalves Dias] está na antessala do gabinete presidencial, enquanto há criminosos no local. As imagens de câmeras de segurança a que a CNN teve acesso com exclusividade revelam o tratamento de funcionários do GSI e do próprio ministro Gonçalves Dias com os invasores, após cenas de depredação e ataques ao patrimônio público. Optamos por não identificar os militares do Gabinete de Segurança Institucional. São 22 câmeras e mais de 160 horas de gravação que mostram as decisões tomadas durante o ataque de 8 de janeiro, dentro e fora do Palácio do Planalto”.

O repórter não justifica a decisão de cobrir o rosto dos militares – um deles aparece repetidas vezes e numa delas oferece água aos invasores – e identificar apenas o general. Mas é bem evidente a intenção de demonstrar a conivência dele e de seus comandados com aqueles que deveriam ser reprimidos, o que, agora com o apoio daquelas imagens, supostamente sustentaria as denúncias dos que defendem a CPMI.

A nota que a assessoria de comunicação do GSI divulgou imediatamente após a veiculação da reportagem afirmava que o general e os agentes de segurança estavam procurando retirar os agressores do local e conduzi-los para o segundo andar do prédio, onde seriam presos, e que o comportamento dos integrantes do órgão estava sendo apurado. Convocado a depor na Polícia Federal, Gonçalves Dias disse que houve um “apagão geral” do sistema de inteligência naquele dia, “pela falta de informações para tomada de decisões”. Não fez mais do que repetir a versão adotada imediatamente após a tentativa de golpe, embora fossem evidentes as articulações dos grupos bolsonaristas que organizavam uma caravana a Brasília e, como código para o ataque, referiam-se ao convite para a “festa da Selma”. Embora ainda reste muito a se apurar sobre esse caso, ficou claro que o governo não se preparou adequadamente para o que estava por vir, ou Lula não estaria fora de Brasília naquele domingo.

O desgaste provocado pela reportagem da CNN levou o cientista político Luís Felipe Miguel a reiterar, em sua página no Facebook, as críticas à opção de Lula pela conciliação em momentos que exigem enfrentamento imediato. Neste caso, desde o início, não restava muita dúvida de que o general, “se não foi cúmplice ou leniente”, foi “pelo menos negligente e incompetente em um grau que não permitiria sua permanência no cargo”. O preço pela decisão tardia de demiti-lo está sendo pago agora:

“As imagens da CNN com o general vagando no Planalto em meio aos vândalos do 8 de janeiro têm alimentado as redes bolsonaristas com todo o tipo de mentiras e falsificações. Caem como uma luva para o esforço de negar o óbvio e dissociar a intentona golpista das maquinações de Bolsonaro para permanecer no poder a qualquer custo.

A acusação ridícula de que o PT armou o golpe contra seu próprio governo ganha força junto a esse público – que, afinal, já está acostumado a acreditar em todo o tipo de sandice”.

Importa pouco, diz Luís Felipe, “que a CNN seja a CNN e que o jornalista que divulgou o vídeo tenha ligações com o bolsonarismo”. O problema é que, “agora, o governo terá que aceitar uma CPI cujo objetivo era dar à oposição espaço para desinformar e tumultuar”. O professor aponta ainda um aspecto crucial nesse episódio, que é a dificuldade de se lidar com a questão militar, pois mesmo aqueles que seriam alegadamente “simpáticos a Lula”, como Gonçalves Dias, “não têm coragem ou interesse de enfrentar a maioria ultradireitista de seu pares”.

Seletividade ou bloqueio no acesso à informação

Caberia também indagar por que apenas agora, depois da divulgação dessas imagens, Gonçalves Dias foi intimado a depor. Se as gravações, como diz a nota do GSI, já estavam incluídas no inquérito policial instaurado para essas averiguações, ninguém viu ou achou estranho o comportamento do general e de seus comandados?

Acresce uma questão fundamental no que diz respeito ao direito à informação. Tanto a mídia hegemônica quanto a contra-hegemônica solicitaram a íntegra das gravações, com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). A Folha de S.Paulo relata que o pedido foi negado sob a justificativa de que “as imagens do sistema de vídeo monitoramento do Palácio do Planalto são de acesso restrito, considerando que sua divulgação indiscriminada traz prejuízos e vulnerabilidades para a atividade de segurança das instalações presidenciais”. No início de fevereiro, o governo impôs sigilo sobre a íntegra das imagens. Depois da exibição dos vídeos pela CNN, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o fim do sigilo, argumentando que essa restrição não está amparada pela LAI, e que a Constituição “consagrou expressamente o princípio da publicidade como um dos vetores imprescindíveis à Administração Pública”.

Na sua mais recente newsletter, a jornalista Marina Amaral, da Agência Pública, amplia a discussão ao apontar a seletividade do governo na divulgação de informações de interesse público – a Globo já havia sido beneficiada com acesso privilegiado às imagens da tentativa de golpe – e mostra que a falta de transparência acabou sendo decisiva para mais esse estímulo à instauração da CPMI.

O título do texto indica o que seria a medida correta para o combate à exaltação dos ânimos fascistóides: “Contra teorias da conspiração, transparência”. “Transparência”, embora esteja na moda, seguramente não é a melhor palavra para se definir a atuação na política, que é feita necessariamente de segredos; mas deve-se exigir que os governos tratem igualmente os meios de comunicação, sem privilégios, e que saibam que sonegar informações tem riscos às vezes maiores do que se pode supor. Por isso:

“Não há como promover o debate público negando acesso à informação com a intenção de fazer prevalecer uma narrativa conveniente dos fatos. Uma política de comunicação realmente democrática ainda está por ser implementada – não se consolidou nem mesmo nos governos anteriores do PT em que pese a gigantesca diferença de tratamento à imprensa em comparação ao governo Bolsonaro”. 

Esperar transparência da parte da imprensa é igualmente problemático pelo papel político que cada órgão desempenha, mais ainda quando se trata de empresas determinadas a fazer oposição ao governo – ou, ao contrário, a defendê-lo, como ocorre com alguns órgãos que se apresentam como alternativos ou independentes. Mas o pluralismo seria certamente um antídoto para manipulações. A referência à transparência, aqui, tem o sabor da ironia contra quem não cumpre o que diz defender: 

“Da parte da imprensa, também se espera transparência. Versões editadas com minutos de duração não são confiáveis quando se tem 160 horas de gravação (segundo o que divulgou a CNN) e os interesses políticos são tão agudos. Não por outro motivo, os vazamentos do Wikileaks sempre se destinavam a mais de um veículo em cada um dos países que tinham acesso aos documentos; é mais difícil selecionar o que se vai publicar quando concorrentes têm acesso ao mesmo material. A exclusividade pode ser uma vantagem comercial ou política mas não rima com informação pública de qualidade”. 

O golpe em curso

O acompanhamento cotidiano da mídia hegemônica não deixa muita dúvida quanto ao lado que essa mídia adotou tão logo o novo governo assumiu. O que não surpreende, diante dos interesses econômicos e financeiros e dos compromissos ideológicos dessas empresas. Apesar disso, sempre é possível obter, nesses meios, informações e análises adequadas, e o grande problema será separá-las das que são pura campanha antigovernista – no caso, antipetista.

Podemos puxar o fio do Processo Golpista em Curso desde antes da eleição, com as inúmeras suspeitas que Bolsonaro levantou contra a fidedignidade das urnas eletrônicas, os ataques que fez contra o TSE e o STF, as suas mobilizações sistemáticas em motociatas, a tentativa de golpe em 7 de setembro de 2021, a formação do grupo de militares para “fiscalizar” o resultado das urnas e, no dia do segundo turno, a tentativa de impedir acesso às zonas eleitorais, com a operação da Polícia Rodoviária Federal nas estradas de determinadas regiões.

Depois da derrota eleitoral, houve algumas investidas para inviabilizar a posse do novo presidente: bloqueio de estradas, formação e incentivo à manutenção de acampamentos diante de quartéis, tumulto nas ruas de Brasília com tentativa de invasão da sede da Polícia Federal, atentado frustrado a bomba no aeroporto da capital federal. Depois do ponto culminante do ataque de 8 de janeiro essas investidas prosseguiram, como quando o senador Marcos do Val apresentou uma denúncia que aparentemente incriminava Bolsonaro mas visava de fato descredibilizar o juiz Alexandre de Moraes. Já aí se atuava firmemente para a criação da CPMI destinada a desestabilizar o governo.

O Estadão, nessa época, publicou uma cronologia em que chamava a denúncia do senador de “novo capítulo de movimentos golpistas”.

No mesmo dia em que a CNN divulgou as imagens que causaram a mais recente e grave agitação no cenário político desde o 8 de janeiro, o historiador Francisco Carlos Teixeira escreveu um breve artigo em que acusa o golpe em curso. Começa por uma crítica comum entre analistas de esquerda, entretanto jamais levada devidamente em conta: “A ausência de análise política internacional e nacional, com a insistência do núcleo político dirigente em fazer um governo como se estivéssemos em 2002, é um imenso erro”. E conclui: “A revelação dos vídeos do GSI, editados ou não, são parte dessa campanha contra o Governo Lula, gera mal-estar, falta de confiança e dúvidas desnecessárias. Todo o aparelho de segurança do Estado, ou seja, da República e da Democracia, falhou. E falhou porque insiste em não reconhecer o perigo fascista”.

 
 
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25
Nov22

Na guerra algorítmica, devemos brigar com a notícia da movimentação golpista?

Talis Andrade

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por Sylvia Debossan Moretzsohn /Objethos

Não compartilhe. Não envie mensagem. Não comente. Não faça nada. Simplesmente ignore.

Essa orientação vem circulando intensamente nos grupos de militantes e simpatizantes de Lula e nas mídias sociais desde que começaram as movimentações de contestação ao resultado eleitoral, ainda na noite de domingo passado (30), com o anúncio do bloqueio das estradas pelo país afora. É uma orientação destinada ao comportamento das pessoas nas redes, mas parece ter sido adotada também pela direção das empresas jornalísticas, à exceção da Jovem Pan, que continua dando sustentação a teses golpistas.

Não é novidade: desde que as redes se organizaram, começou-se a formar uma convicção sobre essa necessidade de silenciar sobre o que o outro lado está fazendo, já que passamos a viver uma permanente guerra algorítmica – e psicológica, cuja intensidade aumenta enormemente em períodos de maior tensão como o atual – e qualquer ação, mesmo de crítica ou denúncia, serviria para impulsionar e amplificar essas mensagens. Serviria, portanto, para transformar boato em fato, concretizar balões de ensaio. Em suma: contribuiria para fazer o jogo “deles”.

Poderia fazer sentido, não fossem duas contradições. Em primeiro lugar, sempre lamentamos que não conseguimos furar nossas bolhas, que falamos apenas para nós mesmos. Nesse caso, que impacto poderiam ter nossas ações para beneficiá-los? Segundo, e talvez mais importante: se deliberadamente ignorarmos o que se passa no outro lado, como poderemos nos preparar para enfrentá-lo?

A convicção é de tal ordem que, no Facebook, mesmo em posts fechados para amigos, há quem recrimine, ao comentá-los, a simples divulgação do que se constata nas ruas – o que costuma provocar uma resposta à altura. Para quem exerce o jornalismo por conta própria, com todo o rigor que a profissão exige, o quadro é semelhante. Um exemplo: Hugo Souza, que criou o site Come Ananás e tem se empenhado exemplarmente em fornecer informações sobre as articulações golpistas desde antes do início da campanha eleitoral, vem cobrindo as manifestações na região de Resende, onde fica a Aman, e recebeu críticas de uma leitora, ao publicar, em sua página pessoal, um vídeo mostrando o bloqueio na Via Dutra, em 1º de novembro. “Não divulgo nada porque é guerra de algoritmos”, diz ela. Divulgar, isto é, noticiar: não se deve, não se pode. “Isso não faz o menor sentido”, contesta Hugo. “A guerra não é de algoritmos, a guerra é bem real”. E, a seguir: “É cansativo ter que dizer que há uma tentativa de golpe em curso que precisa ser denunciada, escancarada”. A resposta: “É público e notório, bem como a falta de apoio internacional a ela”.

Público e notório, sim, mas como seria, se ninguém tivesse publicado nada?

O papel da imprensa

Se recordarmos dos tempos pré-internet – e é preciso não esquecê-los, porque afinal de contas as coisas têm história –, o trabalho de edição jornalística sempre significou a necessidade de se fazer escolhas, destacar determinados fatos em detrimento de outros. A responsabilidade ética mandava tratar com especial cuidado informações que pudessem provocar pânico. Mas não se tratava de deixar de noticiar, e sim de calibrar a ênfase. Inversamente, o abandono da ética levava a promover balões de ensaio, lamentavelmente muito comuns. No limite, levava a ignorar a realidade, como as Organizações Globo fizeram durante a campanha das Diretas, entre 1983 e 1984. Esforço inútil, porque a campanha só fez crescer, apesar de derrotada na votação na Câmara dos Deputados.

Hoje a situação é muito distinta e o poder dessa mídia, que nunca foi absoluto, é muito menor agora. Portanto, seria apenas uma tolice adotar a mesma atitude de antes, quando se pretendia ocultar ou reduzir o alcance do que estava acontecendo. Inclusive porque essa mesma mídia, ou pelo menos parte dela, noticiou fartamente a articulação da extrema-direita no Brasil, embora não a chamasse por esse nome. Essa extrema-direita tem seus próprios canais, não precisa dessa mídia para promover o caos. Por isso, brigar com a notícia – como se ironizava antigamente nas redações – é mais que uma atitude antiprofissional, e mais que um esforço inútil: é um erro que pode ter graves consequências.

Assim, não se compreende por que, depois de noticiar o bloqueio das estradas pelos caminhoneiros – que talvez não fossem exatamente isso, como mostrou Alceu Castilho, outro incansável jornalista que atua à margem da mídia hegemônica, em seu De Olho nos Ruralistas, identificando a atuação do agronegócio nesse “levante contra a democracia” (ver aqui e aqui) –, não se compreende por que, depois de desmobilizado o bloqueio, a pauta se voltou para os detalhes da transição e para especulações sobre o que Lula fará (ou deve fazer, de acordo com o programa que essa mesma mídia, de modo geral, defende). Como se o perigo já tivesse passado, como se agora tudo voltasse aos velhos bons tempos dos acordos de gabinete.

A jornalista Ana Lagoa, aposentada mas sempre muito alerta aos acontecimentos e com larga experiência na cobertura política, apontou em sua página no Facebook o que essa imprensa deveria estar fazendo num momento desses:

Deviam estar com as equipes na rua para apurar coisas básicas: de onde saem as ordens para irem para a rua ao mesmo tempo em 24 estados? de onde veio a ordem para cercar os quartéis? de onde vem a grana pra isso tudo? quem está transportando os ‘civis’ para os pontos marcados com os motoristas de caminhões? quem está no comando de cada grupo de PRF que fica assistindo ao – e assistindo o – espetáculo fascista? o que os filhotes do verme estão fazendo nas redes sociais desde sei lá quando e principalmente na noite de segunda para terça? enfiar a cabeça na areia não é uma boa estratégia neste momento. Corre-se o risco de ficar com a cabeça lá para sempre.”

Sobre a infraestrutura, digamos assim, gastronômica dessas manifestações, Marcos Nogueira deu sua contribuição em sua coluna “Cozinha bruta”, na Folha de S.Paulo, ao perguntar quem pagava a “churrascada dos golpistas”.

Mudanças de tática

Sobre o mais, ficamos em compasso de espera, a depender das informações que, apesar das recomendações em contrário, conseguimos obter marginalmente. Só assim podemos perceber as mudanças de discurso e tática, na tentativa de dar continuidade ao movimento golpista.

Tentemos puxar esse fio.

Primeiro, o longo silêncio de Bolsonaro após a proclamação da vitória de Lula, um silêncio que funcionou como estímulo aos bloqueios nas estradas. Depois, seu pronunciamento dúbio – que certa imprensa, sabe-se lá por quê, resolveu considerar como reconhecimento da derrota –, com o mesmo efeito. Mais tarde, o segundo pronunciamento – agora já no modelito Zelensky, como bem observou Reinaldo Azevedo, com os inequívocos sinais de vitimização e disposição à resistência próprios a essa representação –, que recomendava o fim dos bloqueios mas incentivava as demais “manifestações democráticas”. Finalmente, a sucessiva mudança de discurso, que os “patriotas” repetiam invariavelmente: primeiro o apelo à intervenção militar, depois à intervenção federal, depois exclusivamente às Forças Armadas, num progressivo movimento de afastar Bolsonaro de qualquer reivindicação, conforme os itens da cartilha distribuída para esses grupos:

É importante notar também o duplo discurso que orienta os “patriotas”. O primeiro é o que acusa fraude na contagem dos votos, e aqui é essencial pensar no prazo que os militares convidados pelo ministro Luís Roberto Barroso a integrar a tal “Comissão de Transparência” do TSE se autoconcederam, e que se estende até 5 de janeiro, para apresentar os resultados da famosa auditoria das urnas. Protelar a divulgação dessa conclusão é manter viva a suspeita, e é sobre isso que investe o grupo argentino Derecha Diario, aliado de Bolsonaro, na sua longa live intitulada “Brazil was stolen” (O Brasil foi roubado), retirada do ar pelo Youtube horas depois de circular e atingir ampla audiência. 

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O segundo discurso, que tem aparentemente prevalecido, é o que reconhece a derrota mas não a aceita, porque rejeita que o país seja governado por um “ladrão”, um “descondenado”, que não poderia sequer ter concorrido. É o argumento decorrente da declaração do ainda vice-presidente e futuro senador, general Hamilton Mourão, com a diferença de que ele não defende, pelo menos explicitamente, a possibilidade de se virar a mesa: “não adianta mais chorar”.

Diante do evidente isolamento internacional e interno de Bolsonaro, no campo da política institucional, é provável que todos esses movimentos sirvam apenas para uma demonstração de força que o beneficie, de modo a não ser sequer julgado pelos muitos crimes de que é acusado, e que possa continuar a transitar livremente para liderar essa massa de gente nessa “guerra espiritual” por “Deus, pátria, família e liberdade”. Por isso mesmo é necessário o acompanhamento jornalístico dessas manifestações: porque, antes de mais nada, elas são essencialmente golpistas – como a Folha, por sinal, ousou classificar, embora apenas por um dia –, ao apelarem às Forças Armadas para uma intervenção que contesta um resultado eleitoral legítimo. E, por isso, essas pessoas precisariam ser identificadas e punidas, para que não se sintam à vontade para prosseguir em sua escalada.

Mas, principalmente, porque não podemos nos fechar numa bolha, à semelhança do Show de Truman, famoso filme de mais de duas décadas atrás, do qual os mais novos provavelmente jamais ouviram falar. Podemos e devemos comemorar a vitória, como tão bem resumiu Gregório Duvivier na reestreia do Greg News, podemos e devemos nos divertir com os memes do patético “patriota” atracado ao caminhão, mas não podemos ignorar o que eles andam tramando. Porque, enquanto dormimos na ignorância, eles continuam a agir.

 

21
Jun21

Pazuello, a “coisa de internet” e a distorção fascista da linguagem

Talis Andrade

 

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por Sylvia Debossan Moretzsohn /Objethos

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“Jamais alguém pôs em dúvida que verdade e política não se dão muito bem uma com a outra, e até hoje ninguém, que eu saiba, incluiu entre as virtudes políticas a sinceridade”.

Gosto de recordar esta afirmação de Hannah Arendt na abertura de seu ensaio sobre “Verdade e Política”, publicado originalmente há quase setenta anos, para desfazer algumas ilusões que costumam acompanhar as esperanças sobre a ética na política. Sempre achei curioso o espanto diante do recrudescimento da mentira deslavada dos tempos atuais, a ponto de se inventar a expressão “pós-verdade” para defini-los. Afinal, Arendt viveu o nazismo, quando a mentira deslavada era a regra. Mas nem em tempos de democracia se pode imaginar que prevaleça a sinceridade – ou a “transparência”, como está na moda dizer –, dado que a política envolve interesses e, por isso, segredos. Inevitavelmente, em qualquer época histórica.

Mas também deveria ser evidente que em uma democracia as coisas decorrem de outra forma, diferentemente do momento atual em países como o Brasil e, até recentemente, os Estados Unidos então comandados por Trump. E a tecnologia digital favoreceu enormemente a ascensão e o protagonismo desse tipo de liderança demagógica, com uma penetração muito distinta da do período pré-internet, devido à possibilidade de selecionar algoritmicamente o público a ser atingido e, mais ainda, formar bolhas para blindá-lo de ações que possam eventualmente despertar-lhe alguma dúvida em relação às informações distorcidas que recebe.

É aí que se insere a tentativa de defesa do general Pazuello, na CPI da Covid. Especialmente sua resposta sobre o cancelamento da compra de 46 milhões de doses da Coronavac, em outubro do ano passado, que ele mesmo havia comemorado, para logo depois dizer, sem qualquer constrangimento, que “um manda, o outro obedece”. Na época, o destaque da notícia foi para a humilhação de um general subordinado a um capitão.

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Agora, diante dos senadores, o general alegava que a manifestação de Bolsonaro, num tuíte em resposta ao protesto de um de seus apoiadores contra a compra da vacina chinesa, era apenas uma postagem na internet. Questionado, disse que uma coisa era falar publicamente, outra era dar uma ordem a um ministro. E não importava se, por alguma incrível coincidência, essa ordem supostamente não dada acabou sendo cumprida, ainda por cima arrematada com aquela declaração sorridente sobre quem manda e quem tem juízo.

Das muitas mentiras descaradas na CPI, esta foi das que mais repercutiram na imprensa. José Casado, na Veja, ironizou a revelação do “avatar político” do presidente: “pela descrição do ex-ministro da Saúde, existe o Bolsonaro real e o Bolsonaro avatar. Um manda, o outro não. E ambos nem sempre estão de acordo”. Malu Gaspar, no Globo, lembrou que Pazuello havia tentado se esquivar do depoimento à CPI mas, diante da decisão do STF – de que ele poderia, sim, ficar calado sobre o que se referia a suas ações durante a pandemia, mas teria de responder, sem mentir, ao que dissesse respeito a outras pessoas –, “produziu uma inovação simbólica dos tempos que vivemos: a ‘coisa de internet’”.

Era sempre como reagia, a cada questionamento sobre uma ordem de Bolsonaro contra a compra de vacinas ou pela adoção da cloroquina como “tratamento precoce”: tudo “coisa de internet”, bravatas, balelas que não se deveria levar a sério.

É claro que é fundamental desmontar a farsa produzida pelo general nessa encenação comum a toda CPI – embora sejam raros os que apontem a aberração da obediência a esses rituais num momento de urgência que o próprio tema do inquérito impõe, porque as pessoas estão morrendo aos milhares todos os dias –, mas o principal ficou por dizer: a “coisa de internet” não é uma banalidade, é decisiva na condução da política e facilita a operação da inversão discursiva já apontada em clássicos da literatura como 1984, de George Orwell, ou no estudo de Victor Klemperer sobre a Linguagem do Terceiro Reich.

O primeiro a se notar nessa “coisa da internet” é a facilidade de se editar informações de maneira distorcida, ou simplesmente produzi-las para fazer propaganda – como se pode ver aqui no levantamento da agência Aos Fatos – e enviá-las a determinado público, para que ele se convença do contrário do que de fato ocorreu e ajude a disseminar a mentira.

Mas o mais importante é a formação de referências para a sedimentação dessa operação de inversão discursiva, já visível na campanha eleitoral de 2018 – o programa de Bolsonaro denunciava o que o próprio candidato praticava contra seus oponentes e, no mesmo estilo de Trump, alertava para as alegadas fake news de que estaria sendo vítima, prometendo restabelecer “a verdade” – e na crítica às instituições, entre elas a imprensa, numa apropriação canhestra da crítica historicamente produzida por pesquisadores, na academia e fora dela. 

O mais relevante em todo esse processo é a apropriação da ideia de dúvida, esvaziada da fundamentação iluminista original. Durante a pandemia isso ficou mais visível porque nem os especialistas tinham certezas a oferecer. No estudo “Ciência contaminada: analisando o contágio de desinformação sobre coronavírus via youtube”, publicado há um ano, em maio de 2020, o Laut (Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo) dava como um dos exemplos o canal “Desperte – Thiago Lima”, que na época contava com mais de 1 milhão de assinantes e misturava símbolos místicos a apelos racionais: “Pense”, “Raciocine”, “Faça a sua escolha”.

São apelos visíveis em perfis bolsonaristas na internet, que formalmente assumem o valor da racionalidade para invertê-lo e degradá-lo, do mesmo jeito que Bolsonaro justifica suas sucessivas ofensas à democracia como forma de defendê-la, ou como os vídeos que circularam no início deste ano, contestando o uso de máscara, o lockdown ou a vacinação e exaltando a liberdade individual. “Paz sem voz é medo”, dizia-se num desses vídeos, numa evidente distorção do famoso verso de Marcelo Yuka.

Mais ou menos na mesma época em que Hannah Arendt escrevia seu ensaio sobre Verdade e Política, Lukács publicava A Destruição da razão – traduzido para o português apenas em 2020 –, em que desenvolvia uma teoria crítica dos fascismos em geral e do nazismo em particular, buscando entender, no campo filosófico, o caminho que a Alemanha percorreu até eleger Hitler. Observava que a emergência do irracionalismo naquela época tinha suas raízes na vida cotidiana das massas.

Em momentos dramáticos como o que estamos vivendo, é muito difícil encontrar serenidade para refletir. Mas é exatamente nesses momentos que a reflexão é mais necessária. É preciso entender melhor os mecanismos históricos de apropriação, deturpação e degradação da linguagem, que se repetem agora com recursos mais sofisticados proporcionados pela tecnologia digital, para tentar enfrentar a barbárie.

Não creio que haja saída fora da identificação do que se enraizou “na vida cotidiana das massas”, a ponto de vermos cartazes afirmando que Bolsonaro foi escolhido por Deus – e me parece ocioso assinalar o tamanho da regressão que essa simples frase indica, como negação dos ideais republicanos que há mais de dois séculos demoliram a justificativa do poder por direito divino.Presidente Bolsonaro, o escolhido por DEUS - Home | Facebook

Perceber o papel da religião nesse processo – como faz, por exemplo, Evandro Bonfim num artigo recente, sobre “O espírito santo e o ‘rei do fim do mundo’”, mostrando as raízes arcaicas da mobilização do apoio a Bolsonaro – pode ser um bom início para reorientar o esforço de esclarecimento, empreendido por tantas e tão distintas iniciativas de combate à mentira.A cristologia cristofascista de Jair Bolsonaro - CartaCapital

 

07
Fev21

Ponto de Vista: Folha, Datafolha: a fraude monumental e a normalização do golpe

Talis Andrade

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por Sylvia Debossan Moretzsohn /objETHOS

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Reprodução Tijolaço

 

Quando a Folha de S.Paulo publicou, na manchete de sua edição de domingo (14/7), uma pesquisa que destacava o apoio de metade da população brasileira à permanência de Michel Temer na presidência, muita gente estranhou. Afinal, outras pesquisas – inclusive do próprio Datafolha – apontavam rejeição em torno de 60% ao personagem que conspirou para afastar do poder sua companheira de chapa. Essas pesquisas também indicavam mais ou menos o mesmo percentual de respostas favoráveis a novas eleições. Como seria possível que as expectativas tivessem mudado tão subitamente?

A resposta não demorou muito. No dia 20, reportagem de Glenn Greenwald e Erick Dau, do Intercept, e de Fernando Brito, do Tijolaço, esclareciam tudo.

Tratava-se de uma fraude. Uma fraude monumental, que coincide com um claro movimento da mídia hegemônica para a normalização do golpe.

Uma das perguntas da pesquisa era: “Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse à presidência ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018?”. Era óbvio que a pergunta propunha apenas duas possibilidades. Como Greenwald e Dau observaram, as pessoas “disseram apenas que essa seria a melhor opção se a única alternativa fosse o retorno de Dilma. Além disso, simplesmente não procede alegar que apenas 3% dos entrevistados querem novas eleições, já que essa pergunta não foi feita. O que aconteceu foi que 3% dos entrevistados fizeram um esforço extra para responder dessa forma frente à opção binária entre ‘Dilma retorna’ ou ‘Temer fica’”.

O jornal, entretanto, ignorou esse pequeno detalhe e distorceu completamente o sentido dessas respostas, apresentando-as como se os entrevistados tivessem respondido a uma pergunta bem diferente, estampada na primeira página – com o atrativo das figurinhas coloridas do infográfico – e reproduzida em página interna: “O que seria melhor para o país?”, com a fantástica dianteira de Temer (50%, contra 37% de Dilma), e apenas 3% dos que pediam novas eleições.

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Reprodução: The Intercept

Os repórteres do Intercept então especulavam sobre o verdadeiro contingente dos que desejavam a antecipação das eleições, pois ainda não tinham as informações descobertas por Fernando Brito: esse percentual era de 62% e constava de uma tabela que o Datafolha simplesmente havia omitido em seu relatório inicial. A pergunta era: “Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a presidência da República ainda neste ano?”.

“Não foi a única pergunta ‘abduzida’ do relatório”, informou o jornalista. “Também foi tirada a questão sobre a legalidade/ilegalidade da condução do impeachment – que apontou 49% para a primeira opção e 37% para a segunda. Talvez alguém tenha achado ‘pouco’”.

 

A pista do escândalo

 

O Intercept informou que a matéria da Folha começou a desabar quando Brad Brooks, correspondente chefe da Reuters no Brasil, “observou uma enorme discrepância: enquanto a Folha anunciava em sua capa que apenas 3% dos brasileiros queriam novas eleições e que 50% queriam a permanência de Temer, o instituto de pesquisa do jornal, Datafolha, havia publicado um comunicado à imprensa com os dados da pesquisa anunciando que 60% dos brasileiros queriam novas eleições”.

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Reprodução The Intercept

 

Entretanto, no relatório do instituto, não havia nenhuma informação relativa a esse percentual.

Fernando Brito desvendaria o mistério. Ele observou que o endereço URL do documento do Datafolha terminava em “v2”. Era, portanto, uma segunda versão. Como não encontrou a versão original no site do instituto, começou a “tentar adivinhar” o endereço da primeira versão, até que achou. “Embora a versão original tivesse sido retirada do ar pelo Datafolha”, diz o Intercept, ela “ainda se encontrava nos servidores do instituto”. Quando encontrou o endereço URL correto, o Tijolaço obteve o documento.

Brito esclareceu em seu site: “Houve uma segunda versão do relatório – veja aqui – na qual a pessoa encarregada de eliminar as ‘inconveniências’ se distraiu e deixou a chamada para ‘nova eleição’ no subtítulo, o que me deu a dica para ir atrás do primeiro arquivo. Mas foi a única distração. O resto foi escondido de forma deliberada, em verdadeira fraude aos leitores”.

O jornalista mencionou ainda a supressão integral de dois parágrafos inteiros da análise dos resultados, que constava no documento. Reproduziu o texto:

O Datafolha também consultou os brasileiros sobre a possibilidade de uma nova eleição presidencial neste ano, caso Dilma e Temer renunciassem a seus cargos, e a maioria (62%) declarou ser a favor de uma nova votação para o cargo de presidente. Uma parcela de 30% é contra a hipótese, e 8% são indiferentes ou não opinaram. A realização de uma nova eleição tem mais apelo entre os jovens de 16 a 24 anos (68% favoráveis) e na faixa de 25 a 34 anos (também 68%). Entre aqueles que consideram o governo Temer ótimo ou bom, 50% são a favor de nova eleição, e 44%, contra. 

Questionados se o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff está seguindo a regras democráticas e a Constituição ou está desrespeitando as regras democráticas e a Constituição, 49% disseram acreditar que as regras e a Constituição estão sendo seguidas. Uma parcela de 37% discorda e acredita que estão sendo desrespeitadas, e 14% não opinaram. Na parcela dos mais escolarizados, 58% avaliam que o processo de impeachment da petista segue as regras democráticas e a Constituição, índice que cai para 40% entre os menos escolarizados (neste segmento, 37% aderem à tese contrária e o índice dos sem opinião sobe para 23%)”.

Em outro texto, no mesmo dia 20, Brito reiterava: “É um enorme escândalo, comprovado com documentos, e joga um facho de luz sobre como se faz manipulação da opinião pública com pesquisas. Não são acusações:  é uma prova, concreta, material, indiscutível de que se sonegou informações ao público”.

Sobre manipulação da opinião pública, aliás, o Tijolaço já havia publicado longo artigo de Letícia Sallorenzo no dia 19, expondo as artimanhas de uma pesquisa que misturava a avaliação do governo Temer com o índice histórico de confiança – que supostamente mede “o sentimento dos brasileiros em relação ao país” –, a intenção de voto em 2018 e a opinião sobre a Previdência, e de quebra metia no meio uma avaliação do desempenho do juiz Sérgio Moro.

No dia 21, Fernando Brito detalharia melhor os passos da sua investigação e mostrava que, além da “sorte, um pouco de palpite” e da necessidade de “estar ligado” e “não aceitar o que não faz sentido”, importava ressaltar que todo trabalho é coletivo.

 

Uma “justificativa” cínica

 

O escândalo levou a Folha a se pronunciar – e a maneira como o fez evidenciou essa mistura de cinismo e canalhice que marca o jornalismo aliado ao golpe.

Num texto sobre o que chamou, candidamente, de “polêmica”, publicado on line na noite do dia 20 e na edição impressa do dia seguinte, o jornal trazia as “explicações” do editor executivo, Sérgio Dávila, e do diretor do Datafolha, Alessandro Janoni. “O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta”, disse Dávila.

Se essa possibilidade não é mais levada em conta, por que incluí-la numa pesquisa?

Sobre a óbvia manipulação da pergunta original feita pelo Datafolha, que provocou o resultado falseador de apoio majoritário à permanência de Temer, nenhuma palavra. Já a exclusão de algumas questões do relatório da pesquisa obedeceriam, como é praxe, a critérios editoriais. Foi o que Dávila reiterou, afirmando que “é prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa”.

Curioso critério, entretanto. Pois é evidente que a publicação do percentual verdadeiro sobre os defensores de novas eleições simplesmente derrubava a tese que o jornal pretendeu impor: tratava-se da ligeira diferença entre 3% e 62%.

Já Alessandro Janoni conseguiu produzir uma afirmação espantosa: “Não há erro, e tanto a Folha quanto o Datafolha agiram com transparência”.

Notável “transparência”, que omite informações essenciais no próprio relatório de pesquisa. Quanto à ausência de erro, não há dúvida: o que houve foi mesmo uma fraude. Uma fraude escandalosa, indiscutível, indesculpável.

A falta de constrangimento diante das evidências, o despudor em mentir descaradamente, é algo assustador.

Finalmente, a matéria informava o link de acesso para a íntegra do levantamento, mas nessa “íntegra” ainda havia um buraco entre a pergunta 14 e a 21.

Em suma, uma mentira atrás da outra.

No mesmo dia, O Globo saía em defesa de seu concorrente-parceiro, com o mesmo eufemismo sobre a “polêmica” provocada pela pesquisa, tentando já no subtítulo desqualificar as críticas, atribuídas a “blogs pró-Dilma”. (Que o Intercept seja incluído nessa classificação talvez seja mais um dos surpreendentes critérios adotados por nossa imprensa, sempre tão criativa).

Já o El País, embora também falasse em “controvérsia” e em informações apresentadas “de maneira imprecisa” – e não na evidente fraude –, puxava para o título a informação correta: “62% apoiam novas eleições, diz dado que Datafolha publica agora”.

 

O efeito multiplicador e a normalização do golpe

 

A primeira reportagem do Intercept demonstrava bem a gravidade do que ocorreu. “Não se pode subestimar o impacto dessa pesquisa. É a única pesquisa de um instituto com credibilidade a ser publicada em meses. Sua publicação se deu exatamente antes da votação final do impeachment no Senado. E contém a extraordinária alegação de que metade do país deseja que o Michel Temer permaneça na presidência até 2018: uma manchete tão sensacionalista quanto falsa”. Os repórteres apontavam o efeito multiplicador daquela “notícia”, reproduzida, como seria esperado, em outros jornais e sites jornalísticos – sem contar os programas televisivos, como o Fantástico.

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Restaria assinalar que o que não pareceu “jornalisticamente relevante” aos olhos do editor executivo da Folha é nada menos do que decisivo na tentativa de reverter o impeachment: como lembrou o El País em reportagem anterior, a adesão popular à tese da convocação de novas eleições é uma das últimas possibilidades para a presidente afastada tentar obter os votos que lhe faltam no Senado.

 

A “normalização” do golpe

 

Não é difícil concluir que a fraude agora desmontada foi mais um passo – no caso, especialmente arriscado – na tentativa sistemática que a mídia comprometida com o golpe vem fazendo para dar o impeachment como fato consumado. Seja escondendo notícias favoráveis a Dilma – os “critérios jornalísticos” dos principais jornais do país não viram motivo para manchete, nem mesmo para chamada de primeira página, na decisão do MPF de arquivar o processo criminal sobre as “pedaladas fiscais”, que estão na base do pedido de impeachment –, seja promovendo a “agenda positiva” do governo interino. No dia 20 de julho, por exemplo, o colunista Elio Gaspari se derramava em elogios: “Com serenidade, Temer conseguiu estabilizar seu governo”. A própria manchete da Folha na reportagem fraudada, sublinhando o “otimismo” com a economia, é outro exemplo.

Nossa imprensa tem um longo histórico de deturpações escandalosas, no qual a famosa edição do debate entre Lula e Collor, pelo Jornal Nacional, no segundo turno das eleições de 1989, ocupa lugar de destaque. A Folha, que chegou a ser o “jornal das Diretas”, em 2009 virou o jornal da “ditabranda” e da ficha falsa da Dilma – o documento atribuído ao DOPS foi imediatamente contestado e se revelou uma montagem, mas o jornal insistiu numa esfarrapada justificativa para o suposto “erro”. Já então insinuava o discurso sinuoso incompatível com uma publicação que se preze: “a autenticidade [da ficha] não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nos últimos anos, a guinada à direita se radicalizou, culminando com a contratação de um adolescente político líder de um movimento golpista para escrever uma coluna semanal – ainda que “só no site”, como se isso fosse atenuante.

Se tivéssemos uma legislação que regulasse o exercício do jornalismo, provavelmente estaríamos em boas condições de contestar judicialmente essa monstruosa fraude cometida pela Folha. De qualquer forma, o desmascaramento dessa manipulação escandalosa abala diretamente tanto o jornal quanto seu instituto de pesquisa, naquilo que, para ambos, é um valor fundamental: a credibilidade.

É assim que uma publicação outrora referencial trilha o caminho de uma vergonhosa decadência.

[leia também: A fraude da Folha, a ombudsman e a objetividade da crítica]

 

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