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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

22
Nov18

A escola sem partido e a nova adolescente no Brasil sem incesto, estupro e prostituição infantil

Talis Andrade

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No Brasil, a cada minuto uma pessoa é estuprada. São registrados uma média de 164 casos por dia. Um número alto, mas que segundo especialistas é menor do que o real. Estima-se que 90% das vítimas nunca registre queixa, o que elevaria o número total para 600.000 estupros por ano. E a subnotificação não existe apenas na esfera criminal, mas na da saúde também. "No ano de 2016 foram 23.000 vítimas atendidas no SUS, ao passo que 49.500 procuraram a Polícia (dados da publicação de pesquisadores do IPEA “Atlas da Violência 2018”). Em 2017 foram 60.000 vítimas que buscaram a Polícia, mas o Ministério da Saúde ainda não totalizou os dados de atendimentos no SUS em 2017. E aqui estamos falando de estupros. O IPEA, no mesmo estudo, estima que 90% das vítimas não procuram o Poder Público", relata o procurador Pedro Antonio de Oliveira Machado, responsável por um inquérito que investigou a aplicação da lei do minuto seguinte. Após a investigação, o Ministério Público Federal criou um canal para que as vítimas possam denunciar os serviços que não seguirem os protocolos de atendimento previstos em lei.

 

Leia mais aqui. “Nós identificamos uma série de problemas [no ciclo de atendimento às vítimas]”, afirma o procurador Machado. “Um dos maiores era a falta de informação, especialmente para as vítimas, que não sabem a quem recorrer. Mas mesmo no âmbito dos profissionais do Sistema Único de Saúde também havia falta de informação”, diz.

 

O Brasil da bancada da Bíblia e da família tradicional esconde que “pobreza e abusos estimulam casamentos infantis no Brasil. País tem cerca de 90 mil crianças de 10 a 14 anos casadas, segundo Censo 2010. Pesquisa traça perfil de uniões”, destaca reportagem da BBC Brasil.

 

“Um dos temas mais constrangedores ao Brasil, não apenas à própria sociedade brasileira, como no âmbito internacional, é a existência da chamada prostituição infantil. A despeito de todos os esforços do Estado no enfrentamento deste problema, há a permanência de uma realidade hostil para muitas crianças – principalmente meninas – nas regiões mais pobres do país: segundo a UNICEF, em dados de 2010, cerca de 250 mil crianças estão prostituídas no Brasil”, escreve Paulo Silvino Ribeiro. Para as ONGs, são 500 mil crianças  de 7 a 14 anos que vendem o corpo por um pedaço de pão. Quinhentas mil meninas sem escola e sem partido. Leia mais. 

 

No Brasil existe uma cultura do incesto - que não é crime - aceitável em várias comunidades do Norte e do Nordeste. Um caso símbolo o da poetisa menina Thalia Mendes Meireles, violentada pelo pai desde os 12 anos. "Você pode ver uma pessoa sorrindo, parecendo feliz, mas não se engane, sempre há coisas além. Por isso somos cegos. Nunca vemos além", escreveu na sua carta de suicídio. O pai, dono de supermercados no Maranhão, com o apoio da justiça e da polícia, culpou a onda da baleia azul, que substituiu a lenda do boto como justificativa da gravidez de uma criança.

 

Provocar o fim da própria vida está entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, há um suicídio a cada 45 minutos. Pelos dados da OMS, o suicídio é a sétima maior causa de morte entre jovens de 10 a 14 anos de idade. 

 

A escola sem partido ajudou a eleger Jair Bolsonaro presidente, quando o programa mais correto seria escola sem curra. Que as crianças são as maiores vítimas de estupro no Brasil, segundo o Atlas da Violência de 2018 . O estudo, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que 50,9% dos casos registrados de estupro em 2016 foram cometidos contra menores de 13 anos de idade. Além disso, em 32,1% dos casos, as vítimas foram adultos, e em 17%, adolescentes. Os estupros, inclusive curras, que acontecem dentro das escolas são abafados ou camuflados como bullying.  

 

 

 

21
Nov18

Brasília, embaixada da República de Curitiba

Talis Andrade

 

 
por Sergio Lirio, na revista 
 
A influência da “República de Curitiba” não para de aumentar em Brasília. Depois de integrar Érika Marena e Rosalvo Ferreira Franco, delegados da Polícia Federal, à equipe de transição do futuro governo Bolsonaro, o “superministro” Sérgio Moro convidou para a chefia da Polícia Federal o superintendente da corporação no Paraná, Maurício Valeixo.


Valeixo ocupou no passado o cargo de diretor de inteligência da PF e comandou o departamento de Combate ao Crime Organizado. O futuro ministro declarou recentemente a intenção de reeditar o modelo de força-tarefa adotado na Lava Jato no combate às facções criminosas, uma das promessas da campanha de Bolsonaro. Valeixo é descrito como um quadro “operacional”, oposto ao perfil “intelectual” do atual diretor da corporação, Rogério Galloro.
 
 
Outro profissional que atua no Paraná a ser sondado por Moro é Fabiano Bordignon, chefe da PF em Foz do Iguaçu. O delegado é cotado para assumir o Departamento Penitenciário Nacional. Bordignon se reuniu com o futuro ministro em Brasília na segunda-feira 19.


Marena, espécie de braço direito de Moro nas articulações da equipe, tem participado das reuniões. A delegada ficou nacionalmente conhecida por processar jornalistas críticos à atuação da Lava Jato e pela investigação espetaculosa que resultou no suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier.


A conduta da policial na Operação Ouvidos Moucos, que investigava uma fraude na universidade, foi bastante questionada. Parentes de Cancellier ingressaram com uma queixa-crime no Ministério Público por conta dos abusos de autoridades e os excessos cometidos pela delegada. Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, agregou-se aos críticos da operação, entre eles cientistas de renome e integrantes do mundo acadêmico.


O suicídio de Cancellier, declarou Mendes, “serve de alerta sobre as consequências do eventual abuso de poder por parte de autoridades”. Uma sindicância da Corregedoria da PF concluiu, no entanto, que Marena agiu de acordo com as regras de conduta da corporação.


A delegada, apelidada de “mãe” da Lava Jato, goza de bastante prestígio entre os pares. Ela liderou os votos na lista tríplice enviada pelos delegados quando Michel Temer estava prestes a escolher o primeiro diretor da PF em seu governo. Temer ignorou a lista e escolheu Fernando Segóvia.


O termo “República de Curitiba” deriva de uma crítica ao poder de investigação acumulado por Moro e pela força-tarefa da Lava Jato. Inúmeros juristas brasileiros e estrangeiros consideram que a atuação do magistrado extrapolou não só os limites de sua jurisdição, mas as regras básicas do Estado de Direito.


A expressão é uma alusão à “República do Galeão”, formada por militares que conduziram em 1954 o inquérito sobre o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda e o major Rubens Florentino Vaz, morto no incidente. O IPM, conduzido na base aérea no Rio de Janeiro, serviu para fustigar Getúlio Vargas e leva-lo à renúncia ou provocar sua deposição. A comoção provocado pelo suicídio de Vargas provocou, no entanto, um efeito inverso e adiou por uma década o golpe militar.
 
 
20
Nov18

Em editorial, Libération alerta para os perigos do projeto Escola Sem Partido no Brasil

Talis Andrade
mediaO jornal Libération dedica seu editorial ao projeto Escola "Sem Partido" no Brasil.Reprodução Liberation.fr
 
 

O jornal Libération desta segunda-feira (19) dedica seu editorial ao projeto Escola Sem Partido, uma das principais bandeiras para a educação do presidente eleito Jair Bolsonaro. "Brasil: quando eu ouço a palavra cultura" é o título do texto assinado pelo editor-chefe do diário.

 

No editorial, Joffrin escreve que a Câmara dos Deputados vai voltar a examinar o projeto de lei que prevê a neutralidade do ensino e o fim da chamada "doutrinação ideológica" nas escolas brasileiras.

 

O objetivo é erradicar o marxismo que, "infesta o corpo dos professores", e a teoria do gênero, "que a escola estaria tentando impregnar na cabeça dos jovens alunos do país", ironiza Libé. Mas o projeto de lei vai muito além disso, adverte o jornal.

 

Tem como meta, por exemplo, restabelecer a verdade sobre a história da ditadura militar que governou o Brasil a partir de 1964, para "apagar os aspectos negativos e celebrar os benefícios de um regime que garantia a ordem e defendia a tradição", destaca. Outras lideranças do Escola Sem Partido anunciam sua vontade de introduzir nos programas de ensino o criacionismo, que defende que o mundo foi feito por Deus e que vai de encontro ao darwinismo e à teoria da evolução das espécies.

 

Outros ainda exigem que as Ciências Sociais e a Filosofia passem a ser matérias opcionais. Como se não bastasse, diz o editorial, o projeto de lei ainda prevê punir professores considerados culpados de dogmatismo ou proselitismo e diz que os pais têm direito de escolher a educação que os filhos recebem em relação à moral e as convicções dentro dos lares.

 
 
 

Caça às bruxas

 

"Muitos garantem que o projeto, se fosse aprovado, seria rejeitado pelos juízes do país pela não-conformidade com a Constituição", afirma o texto. No entanto, Joffrin escreve que muitos professores temem que essas orientações sejam sobretudo o sinal de uma "caça às bruxas" lançada pelo novo governo para eliminar aqueles que "pensam errado", ou seja, que estão em conformidade com as Ciências, a Filosofia e os direitos humanos.

 

"Os militantes do Escola Sem Partido já pedem que os alunos em desacordo com seus professores não hesitem em filmá-los durante as aulas" para denunciá-los, reitera Libération. Uma atitude defendida por Bolsonaro que declarou que os professores deveriam ficar orgulhosos de serem gravados enquanto trabalham.

 

Prova da inflexibilidade dos defensores do projeto é o comportamento do deputado Eder Mauro, durante reunião, na semana passada, da comissão especial da Câmara que discute o projeto. Pressionado por manifestantes que pediam respeito aos professores, Mauro exigiu que eles se calassem e fazendo gestos com as mãos em forma de armas, simulou o fuzilamento dos opositores.

 

Gafe?, pergunta Libé. "Parece que não: o gesto imitando um revólver foi um dos símbolos do candidato Bolsonaro durante sua campanha", conclui o editorial do jornal.

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26
Set18

de Fabianna Freire Pepeu

Talis Andrade

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Na padaria


Fico sabendo que seu D., que há dois anos tomava um cafezinho aqui toda tarde, pulou do 11o andar do prédio no qual ainda trabalhava. Tinha uns 70 anos e era médico. Eu conversei com ele, rapidamente, apenas uma vez, mas era meu preferido entre os frequentadores habituais. Perguntei em quem votaria pra presidente, depois de um rápido pedido de desculpas pela intromissão. Afirmou que estava em dúvida. Falei qualquer coisa sobre o Bolsofasci e ele retrucou, com ligeiro desprezo: “ganha nada.” Pensei que o veria muitas outras vezes, antes e depois do dia 7 de outubro.


A padaria ficou vazia e sem graça. A rua S., pela primeira vez, me pareceu triste. Tive uma vontadezinha de chorar. Quis voltar no tempo pra fazer qualquer coisa que estivesse ao meu alcance. Não havia mais nada que pudesse ser feito. Adeus, seu D

 

 

23
Set18

No Brasil, jovens são mais vulneráveis ao suicídio

Talis Andrade

 

Conforme boletim do Ministério da Saúde, essa é quarta maior causa de morte entre os jovens

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Um boletim do Ministério da Saúde traz uma triste notícia: em 2016, o Brasil registrou 11433 suicídios. Com isso, a taxa fica em 5,8 casos por 100 mil habitantes, 18% mais que em 2007, quando essa taxa era de 4,9. Esses dados podem ser ainda 20% maior devido a subnotificação.

 

De 2007 a 2017 foram 153.745 tentativas de suicídio, sendo 76% eram mulheres abaixo dos 40 anos. Este grupo também é onde a taxa de suicídio em indivíduos mãos novos é maior, como em crianças e adolescentes de 10 a 15 anos. Nos homens a maioria das tentativas foi em homens de 50 a 65 anos.

Ver também: A depressão como fenômeno social no capitalismo

Dentre os jovens de 15 a 29 anos, o quadro é ainda pior: o suicídio é quarta principal causa de mortes. Isso é mais um retrato do capitalismo que nos atinge apenas no meio material, mas também no subjetivo. Com a crise capitalista, a juventude é pega em cheio, sendo o grupo mais afetado pelo desemprego. Junto a isso, muitos jovens que entram na faculdade tem de conviver com as pressões acadêmicas somadas as pressões financeiras para se manter seus estudos. Não apenas no assassinato que cometem contra juventude periférica todo dia através da guerra as drogas, o capitalismo também ceifa a vida de milhares de jovens todos os anos, que não encontram outra saída a não ser tirar a própria vida.

Ver mais: A que ponto chegamos?

 

22
Set18

Sem previdência pública, Chile tem suicídio recorde entre idosos com mais de 80 anos

Talis Andrade

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Apontada como modelo pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a privatização da Previdência Social chilena, promovida pelo general Augusto Pinochet na década de 1980, continua vigente e cobrando um preço cada vez mais elevado. O colapso do sistema tem ganhado maior visibilidade nos últimos dias à medida que o arrocho no valor das pensões e aposentadorias se reflete no aumento do número de suicídios.

 

De acordo com o Estudo Estatísticas Vitais, do Ministério de Saúde e do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), entre 2010 e 2015, 936 adultos maiores de 70 anos tiraram sua própria vida no período. O levantamento aponta que os maiores de 80 anos apresentam as maiores taxas de suicídio – 17,7 por cada 100 mil habitantes – seguido pelos segmentos de 70 a 79 anos, com uma taxa de 15,4, contra uma taxa média nacional de 10,2. Conforme o Centro de Estudos de Velhice e Envelhecimento, são índices mórbidos, que crescem ano e ano, e refletem a “mais alta taxa de suicídios da América Latina”.

 

Uma das autoras da pesquisa ministerial, Ana Paula Vieira, acadêmica de Gerontologia da Universidade Católica e presidenta da Fundação Míranos, avalia que muitos dos casos visam simplesmente acabar com o sofrimento causado, “por não encontrar os recursos para lidar com o que está passando em sua vida”.

 

O fato é que à medida que a idade avança e os recursos para o acompanhamento e o tratamento médico vão sendo reduzidos pela própria irracionalidade do projeto neoliberal de capitalização da Seguridade, os idosos passam a se sentir cada vez mais como um fardo para os seus familiares e entes queridos.

 

JORGE E ELSA

 

Entre tantos casos, ganhou notoriedade recentemente o do casal Jorge Olivares Castro (84) e Elsa Ayala Castro (89) que, após 55 anos, decidiu “partir juntos” para “não seguir molestando mais”. A evolução do câncer de Elsa, conjugada a uma primeira etapa de demência senil, faria com que tivesse de ser internada numa casa de repouso. O marido calculou que poderiam pagar, mas somente se somassem ambas as aposentadorias e vendessem a casa. Sem qualquer perspectiva, Jorge e Elsa decidiram abreviar suas vidas com dois disparos.

 

Infelizmente, diz a psicogeriatra Daniela González, “enfermidades que geram uma impossibilidade de serem enfrentadas economicamente acabam colocando o tema do suicídio como uma saída honrosa”.

 

Como ficou comprovado, o desmantelamento do Estado serviu tão somente para beneficiar as corporações privadas que assaltaram o sistema público de pensões e aposentadorias chileno sob o pretexto que era deficitário, (até nisso os ladrões e a grande mídia tupiniquins demonstram a mais completa falta de criatividade), por outro de capitalização administrado pelo “mercado”. A “justificativa” era de que assim seria resolvido o problema fiscal e se abririam as portas ao crescimento econômico. Assim, foram montadas as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP), instituições financeiras privadas encarregadas de administrar os fundos e poupanças de pensões. O rendimento destes fundos, com base nas flutuações do “mercado”, determina a quantidade de dinheiro que cada pessoa acumulará quando chegar o momento da aposentadoria.

 

Desta forma, com a capitalização para fins de aposentadoria integralmente bancada pelo trabalhador, milhões de pessoas foram obrigadas a entregar 10% de seus salários a arapucas especulativas, sem haver nenhuma contribuição dos empregadores, nem do Estado. “Houve crises financeiras nas que perdemos todas as economias depositadas ao longo da vida, porque ficamos sujeitos aos vaivéns do mercado”, explicou Carolina Espinoza, dirigente da Confederação de Funcionários de Saúde Municipal (Confusam) e porta-voz da Coordenação “No Más AFP”..

 

MULTINACIONAIS

 

Atualmente, das seis AFPs que atuam no Chile, cinco são controladas por empresas financeiras multinacionais: Principal Financial Group (EUA); Prudential Financial (EUA); MetLife (EUA); BTG Pactual (Brasil) e Grupo Sura (Colômbia), que administram fundos de 10 milhões de filiados. No total, são mais de US$ 170 bilhões aplicados no mercado de capitais especulativos, nas bolsas de Londres e Frankfurt, para serem repassados sob a forma de empréstimos usurários aos próprios trabalhadores.

 

O resultado prático deste mecanismo, assinala a Fundação Sol, entidade que estuda as condições de trabalho no país, é que a pensão média recebida por 90% dos aposentados chilenos é de pouco mais de 60% do salário mínimo, cada vez mais insuficiente para os gastos de um idoso.

 

“Como sociedade não podemos permitir que pessoas que construíram com tanto esforço este país estejam passando seus últimos anos na tristeza”, declarou o doutor José Aravena, diretor da Sociedade de Geriatria e Gerontologia do Chile, para quem os suicídios deveriam fazer “soar o alerta para a reflexão sobre como se está envelhecendo no país”. “Para ninguém é justo viver os últimos anos de sua vida sentindo-se triste ou com vontade de não seguir vivendo”, acrescentou, apontando a “dependência e a depressão” entre os principais fatores do suicídio em idosos.

LEONARDO SEVERO

 

22
Set18

MUITOS IDOSOS COMETEM SUICÍDIO COM PREVIDÊNCIA PRIVADA

Talis Andrade

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Carlos Gabas (PT), ex-ministro da previdência dos governos Lula e Dilma e candidato a deputado federal pelo Estado de São Paulo, expôs, no programa Giro das 11, na TV 247, os malefícios de transformar a previdência social num modelo privado, tendo como objetivo acalentar mais ainda os banqueiros. "A previdência chilena é privada e lá muitos idosos cometem suicídio. O Temer quer aprovar o mesmo modelo no Brasil, isso é uma crueldade", diz.

 

A reforma da Previdência altera o tempo de contribuição, a idade mínima para exigir o benefício, o cálculo do valor da aposentadoria, entre outros pontos das regras atuais para se aposentar. A previsão é que o novo texto seja votado na Câmara dos Deputados até o dia 15 de dezembro, indo para o Senado em fevereiro de 2018.

 

Gabas explica que todos os brasileiros serão afetados, caso a reforma seja aprovada. "Será um verdadeiro desmonte, o processo de privatização da previdência é algo bárbaro, desprotegendo pessoas que historicamente contribuíram para a riqueza do País".

 

"Imaginem um trabalhador que se aposenta e é jogado na capitalização, é cruel, no Chile, onde o sistema de previdência é privado, muitos idosos estão cometendo suicídio", condena Gabas.

 

Gabas reitera que o Estado brasileiro deve ser usado em benefício do cidadão. "O países mais evoluídos adotaram o mesmo modelo de previdência solidária que o nosso, não o de capitalização", explica.

 

Ele segue condenando as políticas privatistas do golpe, dizendo que Fernando Haddad precisa ser eleito para conter o retorno da miséria no País. "As pessoas estão morando nas ruas, isso não poder ser considerado normal, com Lula isso não existia", enfatiza.

 

 

"Campanha de Bolsonaro defende aprovar da Reforma da Previdência antes de 2019. Enquanto distrai seu eleitorado com propostas sem pé nem cabeça, quer na verdade terminar o que Temer não conseguiu: acabar com o direito de milhões de brasileiros de se aposentarem", afirmou o presidenciável do Psol, Guilherme Boulos

 

 

20
Set18

O misterioso "suicídio" do assaltante de Bolsonaro e a execução da sogra e da esposa do bandido

Talis Andrade

Falando para seus eleitores William Bonner e Renata Vasconcellos, Jair Bolsonaro decreta a postura da polícia diante de criminosos: - Não se pode tratar essa gente como um ser humano normal, que tem que ser respeitado, uma vítima da sociedade. Nós temos que fazer o quê? Em local que possa deixar livre da linha de tiro as pessoas de bem da comunidade, ir com tudo para cima deles, e dar para o policial, dar para o agente da segurança pública, o excludente de licitude. Ele entra, resolve o problema, se matar 10, 15 ou 20 com 10, 15, 30 tiros cada um tem que ser condecorado, e não processado.

 

Bolsonaro joga sujo. Tenta ser presidente no voto, mas defende um golpe de estado se perder as eleições. Abona as declarações de seu candidato a vice, o general Hamilton Mourão (PRTB) que, safadamente ameaçou "se os poderes não resolverem a situação do país", os militares teriam de impor uma solução.


Para Bolsonaro,  "as palavras dele (Mourão) estão em consonância com o que grande parte da sociedade fala, e ele teve a coragem de externar isso. No meu entender, foi um alerta que ele deu". Confira aqui a ameaça dessas duas viúvas da ditadura militar de 64, que consideram "herói" o torturador e assassino coronel Ustra, parceiro do general Nilton de Albuquerque Cerqueira.

 

 

Assalto sofrido por Bolsonaro em 1995 culminou com a morte misteriosa de um bandido e de sua família

O fato aproximou o deputado do general linha-dura Nilton de Albuquerque Cerqueira, outro assassino torturador, que também comandou o DOI-Codi - órgão de repressão política da ditadura - no início da década de 1970

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Veja o jeitinho covarde da santa providência praticar hediondas vinganças:  Na terça-feira 4 de julho de 1995, quando ainda não era milionário, Jair Bolsonaro deixou o apartamento em que morava na Tijuca, bairro do Rio de Janeiro, por volta das 8 horas da manhã. Pretendia panfletar na Zona Norte na busca da reeleição. No caminho, ao parar em um semáforo na altura de Vila Isabel, foi abordado por dois bandidos armados. Levaram a moto, uma Honda Sahara de 350 cilindradas seminova, e a pistola Glock calibre 380 que tinha debaixo da jaqueta. No dia seguinte, Bolsonaro apareceu na imprensa dizendo ter se sentido indefeso no momento do assalto.

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Jorge Luís dos Santos, considerado um dos assaltantes, preso em 4 de março de 1996, (...) por volta das 23 horas, na cela 3 da Divisão de Recursos Especiais da Polícia Civil, na Barra da Tijuca, foi encontrado pela manhã com o pescoço enlaçado por uma camisa presa à grade de ferro da saída de ventilação e com os pés suspensos a 12 centímetros do chão. Na cela, às 5h30 da manhã, os policiais encontraram uma linha de náilon com o nó lais de guia, o mesmo usado na forca, como se o traficante tivesse simulado a maneira de suicidar-se. Na ocasião, a polícia ventilou que Santos servira como fuzileiro naval na Marinha e que por isso conhecia o nó. Tratava-se mesmo de um suicídio, disseram os peritos.

 

No inquérito aberto para investigar a morte, conduzido pela 16ª DP, na Barra da Tijuca, além dos policiais que estavam de plantão, a mulher de Santos, Márcia, e a mãe dela, Terezinha Maria Frigues de Lacerda, foram ouvidas. No dia do enterro de Santos, Márcia disse que o marido nunca fora um militar, conforme espalhou-se à época. “Fica uma dúvida. Jorge Luís jamais foi fuzileiro ou serviu o Exército. Como fez aquele nó da forca?”, disse ela. Um mês depois, ela e a mãe apareceram mortas a tiros às margens da Rodovia Presidente Dutra. Transcrevi trechos. Leia mais. Falta saber o nome e o destino do segundo assaltante. Talvez seja outra estória de suicídio. 

 





08
Set18

O MENINO SUICIDA

Talis Andrade

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por Sérgio Telles
psicanalista e escritor

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O caso do menino de 10 anos que atirou na professora e depois se suicidou suscita, compreensivelmente, grande curiosidade do público pelo inusitado assustador do fato.

 

Num acontecimento como este é da psicanálise que a sociedade espera alguma luz e ela não pode se furtar a isso. Não é porque há o estereótipo do “Freud explica” que devemos abrir mão do extraordinário instrumento para a compreensão dos atos humanos constituído pela psicanálise. Seria um desperdício inadmissível, tão lamentável quanto o equivoco diametralmente oposto, configurado pelo uso acrítico e onipotente deste saber, atribuindo-lhe uma onisciência e infalibilidade incompatíveis com os limites inerentes a quaisquer áreas do conhecimento humano.

 

Devemos lembrar que tragédias como a que aconteceu em São Caetano se dão no seio de famílias e grupos sociais e que as pessoas nelas envolvidas – atingidas brutalmente pela ocorrência – nem sempre estão dispostas a se exporem ainda mais ao olhar do público. Preferem não falar dos conflitos pessoais subjacentes que poderiam ter alguma ligação com a tragédia, atitude que têm o direito de manter até certo ponto, pois, como tais circunstâncias estão centradas na consumação de um crime, os fatos têm de ser estabelecidos pelos agentes da lei através de uma investigação policial.

 

Mais ainda, além do silêncio deliberado e consciente apresentado pelos envolvidos, devemos levar em conta a dimensão inconsciente também presente nestes acontecimentos. Os mecanismos de negação, cisão e repressão podem fazer com que, às vezes, os familiares, amigos e colegas mais próximos não se dêem conta da condição patológica do agente da tragédia, ou – o que é mais abrangente e comum – não se apercebem da qualidade patológica do vínculo que os une enquanto grupo familiar ou social, sendo o executor apenas o membro mais atingido de uma patologia que atinge a todos.

 

Por este motivo, sem faltar com o respeito pelo sofrimento dos familiares, professores e amigos envolvidos no caso, vejo com reservas as declarações confusas e contraditórias que fizeram na mídia. O namorado da professora chegou a dizer que a mesma havia se queixado bastante do menino, que seria problemático e agressivo, e até mesmo teria feito queixas contra ele na diretoria. Já a própria professora, ao saber quem era o autor dos tiros, teria se surpreendido, pois considerava tal menino muito “bonzinho”. Em seguida, o namorado retirou as primeiras afirmações, dizendo ter-se enganado e que a namorada teria se referido a outro aluno. Colegas do menino afirmaram que, no dia anterior, o mesmo havia confidenciado que planejava matar no dia seguinte a professora. Também foi dito que, por ser manco, o menino sofria “bullying” na escola.

 

No correr dos últimos dias, estas versões que continham indícios que exigiam a atenção das autoridades, foram abandonadas e substituídas por uma outra que define o menino como “bonzinho” e apresenta seu gesto homicida e suicida como resultante de uma “brincadeira que não deu certo”, como teria dito a diretora da escola.

 

Embora não seja possível estabelecer relações causais simples e diretas num acontecimento como esse, é importante entender que algo assim não ocorre gratuitamente, sem motivos. Necessariamente há fatores precipitantes e facilitadores que não podem ser negligenciados. Que um menino de 10 anos tenha tentado matar a professora e depois cometido o suicídio é algo de máxima gravidade, que – em princípio - deve ser visto como um sintoma, um indício de sérias disfunções possivelmente presentes em seu entorno. Dizer que tudo não passou de uma brincadeira desastrada e infeliz é um bom exemplo do mecanismo de negação. Lamentavelmente, a precariedade que rege muitos de nossos inquéritos pode fazer com que as peças mais reveladoras da investigação não sejam reconhecidas, deixando prevalecer essa tese inadmissível, mas mais cômoda e anódina para todos.

 

É procedimento básico das investigações descobrir as motivações e as redes de relações afetivas quando ocorre um crime entre adultos. Tal conduta fica reforçada quando menores estão envolvidas num crime, pois a condição psíquica de uma criança implica na não autonomia, em sua dependência emocional dos adultos importantes que a cercam, em cujo desejo muitas vezes está ela alienada.

 

Se a dimensão familiar da tragédia exige o respeito pela privacidade que deve ser mantida até o ponto em que a investigação policial permitir, a faceta que envolve a escola aponta para um problema de conhecimento geral. É notória a insuficiência do ensino público nos mais diversos aspectos, o despreparo dos professores, o baixo nível de aprendizado, a violência crescente entre professores e alunos.

 

Ao atirar numa professora e em seguida se matar, o menino mostra como as crianças podem ser muito violentas. Há mais de cem anos, Freud provocou escândalo e grande resistência da sociedade ao mostrar que a sexualidade não se iniciava na adolescência e nem se restringia à genitalidade, que ela estava presente na vida infantil e se caracterizava por uma dimensão perversa polimórfica. A existência das pulsões agressivas e destrutivas na infância parece ter recebido uma repressão ainda maior. Prova disso é o chamado “bullying”. Que apenas muito recentemente tenha sido cunhado um termo para uma prática que sempre existiu –diferentes manifestações de agressividade entre crianças - mostra como prevaleceu a negação do fato. Compete-nos a todos não negar esta realidade e tratar a questão sem moralismos hipócritas. As crianças não são seres angelicais. São pequenos seres humanos em formação, mergulhados no universo psíquico dos adultos que os cercam, dotados de pulsões sexuais e agressivas que necessitam ser educadas, contidas, socializadas.

 

A importância maior do reconhecimento da complexidade envolvida num caso como este é possibilitar sua plena compreensão e, a partir dela, estabelecer os cuidados preventivos necessários.

 

06
Set18

Um aluno de 10 anos atirou na professora e depois se matou com um tiro na cabeça

Talis Andrade

 

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Um aluno de 10 anos atirou na professora e depois se matou com um tiro na cabeça, na tarde desta quinta-feira, em uma escola em São Caetano do Sul, no ABC paulista. Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Caetano, David Mota Nogueira, aluno do 4º ano C da Escola Municipal Alcina Dantas Feijão, fez o disparo contra a professora por volta das 15h50m, logo após o intervalo do lanche, em sala de aula.

 

Segundo o capitão Robinson Mastropil, porta-voz da Polícia Militar, o menino provavelmente entrou com o revólver calibre 38 escondido na mochila. A arma, de acordo com a PM, pertence ao pai do garoto, que é guarda civil em São Caetano do Sul.


Em entrevista coletiva, secretário municipal de Segurança Pública da cidade, Moacyr Rodrigues, negou que a arma pertence à corporação. O revólver foi adquirido no ano passado e registrado no nome do pai do garoto. Segundo Rodrigues, não há registro de que o menino sofria qualquer tipo de transtorno ou bullying. De acordo com os professores, ele era uma criança tranquila e não tinha problemas de indisciplina.

 

De acordo com o capitão Robinson Mastropil, o estudante pediu para ir ao banheiro e quando voltou já estava com a arma em punho.

 

- Ele acertou a professora na região lombar. Em seguida, ele saiu da sala, desceu uma escada e disparou contra a cabeça - explicou o policial.

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Bolsonaro ensina criança a imitar uma arma, durante agenda eleitoral em Goiânia - Mais Goiás

 

 

Certamente os candidatos da família Bolsonaro não debaterão essa tragédia. Recentemente, em um comício, Jair Bolsonaro ensinou a uma criança de colo a imitar arma com a mão

 

“A arma, mais que a defesa da vida, é a garantia da nossa liberdade”, justificou Jair Bolsonaro candidato a presidente.

 

Eduardo Bolsonaro, candidato a deputado federal, reforçou o tom bélico. “Presidente tem que meter bala em vagabundo e não formar quadrilha com eles”, disse.

 

Flavio Bolsonaro, candidato a senador pelo Rio de Janeiro, evangelizou: "Quando a arma que mata defende a liberdade e o direito de viver, os anjos choram... mas não condenam"

 

Bolsonaro e seu estranho Deus das armas

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Misturar o divino com o profano, a Igreja com o Exército e a fé com as urnas é preparar o terreno para novas guerras

 

 

por Juan Arias

El País/ Espanha

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O ex-paraquedista Jair Bolsonaro, de extrema direita, candidato a presidente, considera como “uma missão de Deus” que o Brasil tenha um Governo formado por militares. Assim manifestou dias atrás no Fórum da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), em São Paulo. “No meu ministério terei, sim, muitos militares”, afirmou. E seriam de primeira divisão, “atacantes como Neymar”. Pensa portanto, se ganhar as eleições, em colocar nas mãos desses generais do Exército os ministérios-chaves do seu Governo. E tudo isso por fidelidade a Deus.

 

Bolsonaro justifica um possível Executivo composto por militares argumentando que, se os presidentes anteriores escolheram como ministros “guerrilheiros, terroristas e corruptos”, como diz polemicamente, por que não poderia ele convocar generais do Exército? O ex-paraquedista quis unir em um só abraço, hábil e eleitoreiramente, as duas instituições que aparecem nas pesquisas como as mais bem avaliadas pelos brasileiros: o Exército e a Igreja. Pretende fazer um governo de militares como algo que Deus lhe pede. Desse modo, conseguiria o milagre, ou a aberração, de que o Exército pudesse governar o país sem ter que dar um golpe militar.

 

Ascanio Seleme retratou em uma de suas colunas no O Globo essa conjunção de Bolsonaro entre a Igreja e os militares durante a convenção que sacralizou sua candidatura à presidência: “Em alguns momentos, a convenção parecia um culto de uma grande igreja evangélica (…). Em outros momentos, a sensação era de que se estava dentro de um quartel”.

 

Bolsonaro é um personagem que sabe, além do mais, usar a falácia de querer resolver problemas complexos com receitas simplistas. Uma delas é a de querer tirar o país da crise política, econômica e moral que o castiga com uma equipe de governo formado por membros do Exército. Demonstrou que leva a sério esse projeto ao escolher como vice o general Mourão, que já tinha insinuado, meses atrás, a necessidade de uma intervenção militar frente à crise política e institucional que agita o Brasil.

 

Trata-se de um militar defensor da ditadura e da tortura, que se permitiu em seguida arriscar palpites culturais ao afirmar, com tons racistas, que os brasileiros sofrem da “indolência dos indígenas” e da “malandragem dos africanos”. Sua função de vice-presidente o coloca constitucionalmente, além disso, na possibilidade de chegar à presidência se, por algum motivo, o titular tiver que abandonar o cargo, algo quase já normal neste país.

 

Desde antes de Lula chegar ao poder foi criado o ministério da Defesa ocupado por civis, mas agora teríamos com Bolsonaro a anomalia de um Governo em democracia formado por generais. O Brasil apresentaria, nesse caso, uma série de problemas que poderiam comprometer gravemente a democracia. Os militares, cuja função é a de defesa do Estado, estariam governando, e isso poderia arrastar as demais instituições à confusão. É como se alguém quisesse criar um governo de juízes. Seria a morte do Estado de direito, que se funda na divisão de poderes. E tudo isso amalgamado na ambiguidade religiosa de Bolsonaro e seus acólitos, que já revelaram mais de uma vez querer governar com a Bíblia mais do que com a Constituição.

 

Não sei que estranho Deus das armas inspirou Bolsonaro a formar um Governo com o Exército para resolver os problemas do país. Não pode ter sido o Deus cristão, o dos evangelhos, cuja fé o militar professa, já que esse é um Deus de paz – “Todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mateus, 26,52) –, de perdão e não de vingança, de respeito pelos diferentes, e defensor de todas as liberdades – “A verdade vos livrará” (João, 8,31) –, o Deus que condena a ambiguidade, que pediu a seus discípulos que respeitassem as instituições sem as confundir: “Deem a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César” (Mateus, 17,24ss), respondeu Jesus aos fariseus que buscavam tentá-lo, confundindo Deus com o Estado.

 

Misturar o divino com o profano, a Igreja com o Exército e a fé com as urnas é preparar o terreno para novas guerras como as que a humanidade já sofreu no passado, muitas delas realizadas em nome desse Deus militar que hoje parece inspirar Bolsonaro. Pastores evangélicos e cristãos em geral começam a questionar se podem, sem trair sua consciência, votar num candidato cujo Deus é mais o das metralhadoras e da morte que o dos ramos de oliveira da paz, que são o coração do cristianismo ainda não poluído pelo poder profano.

 

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