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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

25
Abr22

Cabo Anselmo na série “Em busca de Anselmo”

Talis Andrade

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Cabo Anselmo ao centro da imagem com farda da Marinha | Foto: Reprodução

 

Quando Anselmo se refere aos codinomes que usava para se infiltrar e entregar militantes para a morte, ele gargalha. Isso é definitivo como apresentação do cinismo do traidor

 

por Urariano Mota

Para escrever este artigo, assisti hoje à série “Em busca de Anselmo”. No momento, só podem ser vistos na HBO Max os dois primeiros episódios, em um conjunto de cinco, um por semana. Portanto, o que escrevo agora tem um caráter de provisório.

Ressalto de imediato que o documentarista Carlos Alberto Jr. é um cineasta. Isso não é assim tão óbvio. Quero dizer: as tomadas que ele faz, os lugares para onde leva Anselmo, as cenas que filma, são de um homem de cinema. No começo do primeiro episódio, quando Anselmo se refere aos codinomes que usava para se infiltrar e entregar militantes para a morte, ele gargalha. Isso é definitivo como apresentação do cinismo do traidor. Magistral.

Carlos Alberto é um jornalista que fez o seu dever de casa, estudou, pesquisou, o que o jornalismo não havia feito até hoje com o Cabo Anselmo. São exemplos disso o livro terrível de mentiroso “Eu, Cabo Anselmo”, de Percival de Souza e todas anteriores entrevistas. Mas para a víbora que Carlos Alberto viu e entrevistou, para a serpente documentada cabem, ainda assim, restrições ao método do cineasta: se os entrevistadores antes de Carlos Alberto Jr. pecavam por desconhecimento do grande mentiroso do agente da repressão, em Carlos Alberto houve o que eu chamaria de excessivo respeito às mentiras do entrevistado. Quero dizer: Carlos Alberto não o interrompe, salvo raras vezes, pois deixa a mentira andar. Ainda que o documentarista contraponha às falas de Anselmo depoimentos que o desmentem em um corte com outros entrevistados, Carlos Alberto não o interrompe de viva voz, o que seria muito interessante para a mostra viva, na própria fala, das contradições de Anselmo. Isso é claro quando Anselmo visita a sede do antigo Deops em São Paulo, hoje Memória da Resistência. Ali, num infeliz acaso para o traidor, ele passa diante de uma parede onde se expõem com fotos os 6 assassinados na Granja de São Bento em Pernambuco. Ali, diante de dois planos, com imagens da imprensa que publicava o que a repressão mandava, como aqui

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Foto: Reprodução

 

E a reconstituição da história em outro plano, que narra a prisão de Soledad e Pauline numa butique no Recife, o criminoso fala:

– Eu não sei qual das duas versões é a verdadeira.

E o frio traidor não é cortado, no ato.

Depois, num podcast, Carlos Alberto declarou que não era possível inquirir Anselmo o tempo todo, desmentindo-o. Mas que no final da série, o traidor será levado contra a parede. Aguardemos então, que poderá vir um desmonte do bandido à altura da abertura do primeiro episódio.

Anselmo era cínico e ator. Ator como uma difamação da arte. Os modos com que por 2 vezes se levanta de uma cama, com fingimentos e fazer pela primeira vez, são reveladores. Cenas repetidas.

Nota-se que a memória dele é ótima, quando fala sobre o que não é sua atividade criminosa. As memórias da capela, da casa da sua adolescência, são reveladoras da sua agilidade mental. Mas o que não se perguntou, por exemplo: por que não atiraram em Anselmo quando ele foi preso em 1964, e estava com uma pistola apontada para a porta (segundo palavras dele). Como ele fugiu da prisão de modo tão fácil? Ele chega a falar que os carcereiros arranjaram prostitutas para ele!

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Foto: Cabo Anselmo 

 

Lembro que no programa Roda Viva, o Cabo Anselmo esteve muito à vontade ali, porque os entrevistadores não pesquisaram a história dos seus crimes, e se fizeram esse indispensável dever, não quiseram levá-lo às cordas, para confrontar as suas esquivas com os depoimentos de testemunhas de 1973, ano das execuções de 6 militantes socialistas no Recife.

O momento mais acintoso foi quando ele se referiu à sua mulher, Soledad Barrett, e dela retirou a gravidez, para se isentar de um hediondo crime, que cai como um acréscimo à traição de entregá-la para a morte. 

Transcrevo:

“Cabo Anselmo – A Soledad usava DIU, desde que fez um aborto aqui em São Paulo, antes da ida para o Recife.

Entrevistador – O senhor contesta a gravidez da Soledad?

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Jovem Soledad Barrett, morta pela Ditadura Militar de 1964 | Foto: Reprodução

 

Cabo Anselmo – Como?

Entrevistador – O senhor contesta que ela estivesse grávida, como a versão histórica …

Cabo Anselmo – Se eu acreditar, como dizem os médicos, que o DIU era o mais seguro dos preservativos, eu contesto, sim.

Entrevistador – Então o feto encontrado lá não era dela?

Cabo Anselmo – Eu imagino que seria da Pauline. A Pauline estava grávida, inclusive teve problema de gravidez, e Soledad a levou até o médico.”

Então voltemos ao documentário. Nele, assistimos ao depoimento do bravo Marx, um pernambucano verdadeiro e sincero. No geral, os documentaristas raro exibem todas as palavras de um entrevistado. Montam e cortam. Assim deve ter sido também com Marx sobre a gravidez de Soledad que ele viu. O que ficou de fora? Aqui eu o recupero fora das imagens do documentário:

Na noite em que acabamos de ver uma comovente recriação de Soledad Barrett no do teatro Hermilo Borba Filho, quando a atriz Hilda Torres entrou em transe da personagem Soledad levada à cena, transe naquele sentido dos aparelhos, dos médiuns em terreiros, depois da mágica hora em que Soledad ressurgiu, depois disso no café, no pátio do teatro Hermilo, eis que a filha única de Soledad, a sempre menina e jovem Ñasaindy, se aproximou e abraçou o ex-preso político Karl Marx. Naquele instante em que eu conversava com Marx, Ñasaindy veio e lhe deu um súbito abraço. Então Marx parou e com os olhos rasos lhe falou, com a voz embargada:

– Parece que estou abraçando a sua mãe. Ela era assim.

Se fosse um poema, talvez a frase acima encerrasse um verso. Mas esta é uma narração e o narrador não recebe a misericórdia de ser humano em uma linha apenas. Quero dizer, primeiro do que tudo. Quarenta e dois anos adiante, o abraço da filha, o rosto, o calor da filha reacendia em Marx a ternura da mulher que havia sido destruída no corpo, e depois passaria todo o futuro próximo a vagar como se fosse alma de mãe desnaturada e terrorista. Em segundo lugar, digo que na reconstrução da vida, difícil é dizer o que vem primeiro. Soledad está no quintal da casinha de Marx. Da cozinha ela fora até o quintal, e conversa com as companheiras de Marx e Lenin, os dois irmãos assim nomeados pelo pai, velho comunista. As mulheres sentadas fazem sapatinhos de croché para o bebê que Soledad espera. Dizem das mulheres grávidas que ficam mais belas. Mas ao viço natural das cores há na mulher que daria à luz, que engravida em angústia, uma sombra, um olhar que não vai ao futuro, que se furta e se dirige ao chão.

A propósito, a foto do documentário

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Foto: Divulgação

 

é a que Anselmo deu à mãe de Soledad, com as palavras dedicadas no verso:

“A la madre para que conozca un hijo más.

Jadiel

Abril/72”

A historiadora uruguaia Virginia Martínez divulgou essa foto pela primeira vez em seu livro “La vida es tempestad: historia de la família Barrett: literatura, resistência y revolución”.

No documentário, Anselmo sorriu à pergunta de se já matara alguém. Responde, com a galhofa típica dos militares de hoje, que já matou uma galinha.

Por último, por enquanto: a pergunta que ainda não está de modo claro: Anselmo era um agente da direita já na fase de liderança dos marinheiros em 1964?. O diretor Carlos Alberto me avisou que a série cresce a partir do 3º. episódio. Mas até aqui o documentário já é um tento da História.

Leia mais:

O amor e Soledad Barrett

Leia o livro:

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15
Abr22

Para não reescrever a história da ditadura

Talis Andrade

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Para melhor contextualizar a história, devo relacionar um acontecimento central de um dos crimes perversos da ditadura, aquela que deve ser contextualizada

 

por Urariano Mota /Vermelho 

Sobre o 31 de março de 1964, os comandantes das forças armadas mais o ministro da defesa de bolsonaro publicaram: “a história não pode ser reescrita, em mero ato de revisionismo, sem a devida contextualização”.

Muito bem. Mas em primeiro lugar, para não reescrever a história sem contextualizar o tempo, deve-se não reescrever os dias do calendário. Pois na propaganda do golpe, o primeiro de abril de 1964 sempre foi antecipado para o 31 de março. Procurando evitar a piada, o dia universal da mentira, mentiram por antecipação. Falaram que tudo se fez em de 31 de março. E foi decretada a revolução.

Em dúvida, para que não se caia no revisionismo histórico, olhem os jornais brasileiros de 2 de abril de 1964:

O Globo: “Ressurge a democracia!”. O Estado de São Paulo, “Vitorioso o movimento democrático”. Diário de Pernambuco: “Jango sai de Brasília rumo a Porto Alegre ou exterior”. Folha de S. Paulo: “Congresso declara Presidência vaga: Mazzilli assume”. E por que relaciono as notícias de 2 de abril? A razão é simples: em uma época sem edição on-line, se o golpe tivesse ocorrido em 31 de março, os jornais publicariam a notícia em primeiro de abril. Mas como em 31 todos os governos eleitos estavam no poder, os jornais somente puderam noticiar a “revolução” no dia 2 de abril. O curioso é que, a partir daí, houve uma desmemória rara. A imprensa amordaçada passou a se referir a um certo 31 de março que acontecera depois de 31 de março. Piada trágica.

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Marcio Vaccari (@VaccariMarcio) / Twitter

 

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E para melhor contextualizar a história, o ambiente de terror contra a resistência democrática no Brasil, os assassinatos ao fim de torturas de presos políticos, devo relacionar um acontecimento central de um dos crimes perversos da ditadura, aquela que deve ser contextualizada.

Eu retomo em “A mais longa duração da juventude” aos seis assassinatos no Recife em janeiro de 1973.

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Os seis “terroristas” mortos juntos em uma só notícia. “Terroristas”, porque todas as pessoas que lutavam contra a ditadura eram chamadas de terroristas. Aqui vai um trecho dos crimes contextualizados no romance:

“Assim era o velho Orlando. Com um jornal nas mãos, ele desfere o primeiro golpe:

– Pegaram uns terroristas hoje. Vocês viram?

Eu sei, ele fala a todos, mas se dirige a mim. Sou capaz de sentir que ele fala e me aponta com o queixo, pois me encontro na máquina de escrever com os olhos fitos em lugar nenhum. Não consigo me concentrar na guia de material, que devo copiar para o formulário. A minha voz está contra mim. Aliás, tudo em mim, tudo que é sobrevivência é o meu contrário. Eu não sou aquele que se encontra na sala, com o ar-condicionado rugindo alto feito motor de carro de praça em 1970. O velho, o feitor, se aproxima, eu sei pela repugnante mistura de perfume barato e cigarros.

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– A puta era até bonitinha – ele fala. – Carinha de anjo, mas terrorista. Você viu? – E toca o meu ombro tenso. Não o escuto, bato a esmo na máquina. Tenho que me concentrar para não escrever “Maldito. Maldição. Mal do mundo. Mal de porcos. Foda-se”. E vem um novo toque, mais firme, como uma intimidação:

– Viu ou não viu as carinhas de puta? Você.

Então levanto a custo o queixo e vejo um indivíduo de olhos verdes, cabelos brancos, boca murcha e sinais de animal velho na cara. Ele sorri, mas sei que o sorriso é ofensa, escárnio, gatilho apontado. E respondo, na altura da minha covardia:

– Eu? – “Darás a tua vida por mim?”, penso. – Não vi o jornal hoje.

– Não viu?! – O escarnecedor volta. – Olhe.

“Meu Deus, o que será de mim?”. Ele mostra a primeira página.

– Aqui. – Com o dedo seboso aponta Soledad. Com o dedo seboso aponta Pauline. Com o dedo seboso aponta Vargas. Com o dedo seboso aponta as fotos dos seis socialistas mortos. E volta para Soledad. – Está vendo?

Eu olho e mudo a vista. Eu vejo e baixo os olhos. Não sou um homem. Me sinto menos que um cachorro castrado. É doloroso fitar o rosto de Soledad, aquela a quem beijei na casa de Marx. Olho e baixo os olhos. O velho parece notar minha aflição.

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Jovem Soledad Barrett, morta pela Ditadura Militar de 1964 | Foto: Reprodução

– Moça tão bonitinha… – o velho fala. – Desencaminhando os filhos da gente para o terror. – E olha para mim: – Mata!

“Eu a quero como um homem sozinho quer o seu amor”, penso. E resmungo, no limite:

– Os jornais mentem muito. – E continuo na cabeça o poema que não escrevo: “Eu a quero como um homem sozinho. Eu a quero com a ternura e ódio de um covarde cujo amor é segredo”. O poema que não escrevo se inscreve em meus olhos. E dilato as órbitas para secar a minha condenação. O velho me pergunta:

– Hem? O que você disse?

Eu quis responder com voz alta, à meia altura do meu sentimento: “eu disse que os jornais mentem muito”. Falando assim, falaria menos do que deveria: “É tudo mentira. As notícias são uma farsa criminosa. Matam a melhor juventude do Brasil”. Mas fiquei a balbuciar palavras inverossímeis:

– A – sim… tende? Assim…

– Assim o quê, rapaz?

– Assim.. ah… o jornal de hoje tem o resultado do vestibular.

– Vestibular que nada. O vestibular de hoje é a morte dos bandidos. – No que foi acompanhado por um idiota de plantão:

– Isso mesmo. Se eles estudassem, se fossem gente direita, não estavam mortos. A polícia não mata um jovem de bem.

Era tão estúpido e esmagador, que sorri amargo três vezes, assim como Pedro negou três vezes a Jesus. Sorri de imbecil, sorri da minha desgraça, sorri como um adulador sorri. Os três sorrisos unificados em um só, o da infâmia de desejar sobreviver em paz, não importava como. Sorri. E para não sorrir indefinidamente da minha abjeção, tive a infelicidade de completar com o máximo de coragem:

– Jornal exagera um pouco. Algumas vezes temos que dar uns descontos.

Para quê disse isso? Recebi pelos peitos:

– Mas eles eram terroristas, não eram? Isso é mentira?

“Jesus respondeu-lhe: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem que tu me tenhas negado três vezes”. Então baixei a cabeça e procurei bater à máquina. As denunciantes lágrimas insistiam em voltar aos meus olhos.

– Eles eram ou não eram terroristas? – O velho tornou”.

O mais grave, hoje, é que esse tempo corre o risco de voltar. Os criminosos do “movimento” de 64 continuam impunes. O elogio que o fascista na presidência faz a esses criminosos é outra forma de crime. Isto é, se o próprio Bolsonaro não foi um torturador. Essa recente ordem do dia de 31 de março, para os escritores, assim se traduz: falem tudo o que sentem e sabem. Pois o Brasil não radicalizou a democracia. Nós saímos da ditadura sem radicalizar a democracia. O resultado é este fascismo no poder. Aquele velho sempre volta.

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28
Mar22

La muerte de un traidor: Obituario del Cabo Anselmo

Talis Andrade

Anselmo delató a sus compañeros

Anselmo delató a sus compañeros, incluso a su pareja de entonces, Soledad Barrett. El agente de la dictadura falleció a los 80 años.

 

 

A los 80 años murió José Anselmo dos Santos, conocido como Cabo Anselmo, este agente infiltrado en las filas de la Vanguardia Popular Revolucionaria (VPR), el movimiento guerrillero del legendario capitán Carlos Lamarca, del cual la paraguaya Soledad Barrett formaba parte, y cuya captura y asesinato el cabo organizó.

 

  • por Urariano Mota* /Ultima Hora /Paraguai

El Cabo Anselmo murió el 15/03/2022.

Por teléfono, el escritor y periodista André Cintra me comunicó la noticia hace cinco minutos. Estaba durmiendo la siesta, pero salté de la cama. Y hasta ahora no sé por dónde empezar la necrológica de José Anselmo dos Santos.

La noticia, con su natural objetividad, que en este caso significa con toda la natural ignorancia de la historia, dice que José Anselmo dos Santos murió el martes por la noche a los 80 años, en Jundiaí (SP). Y que fue un “agente doble durante el régimen militar”. ¿Ves? Llaman “régimen militar” a la dictadura y al terror de Estado en Brasil.

Pero a ver si Dios nos ayuda a intentar algo de justicia para este criminal.

Si quitamos la infamia de su piel, tarea difícil o imposible, la primera característica del Cabo Anselmo es que era un buen mentiroso. En primer lugar, mintió sobre su nombre: ¿era Daniel, como se presentó en Recife, o Jadiel o Jônata? Eso era lo mínimo. Donde sobresalió con las artes interpretativas, no solo en las palabras, fue en la frialdad y el cinismo con que se refirió a su mayor crimen: la entrega de su compañera embarazada, Soledad Barrett, a la represión. En más de una entrevista, ante periodistas comprometidos con la derecha o por ignorancia histórica, se refirió al gran guerrero con la delicadeza de una serpiente.

En su entrevista con Band, observé que Fernando Mitre, al mencionar a Soledad, el cabo Anselmo respondió, con ambas manos levantadas, como defendiéndose, como recordando un acuerdo, que amenazaba con romperse: “¡Opa!”. Y Mitre, de vuelta: ”Luego hablas de ella”. Y él, “ah, por supuesto”. Y lo que se vio después fue nada, o casi nada.

En Roda Viva, en uno de los momentos de calculado cinismo, Anselmo se refiere a Soledad Barrett.

El entrevistador dijo: “¿Discute usted que estuviera embarazada, como la versión histórica...?”.

Cabo Anselmo: “Si creo, como dicen los médicos, que el DIU era el más seguro de los preservativos, lo impugno, sí”.

Y el entrevistador le levantó la pelota a Anselmo: “¿Entonces el feto encontrado allí no era suyo?”.

El cabo Anselmo respondió: “Imagino que será de Pauline. Paulina estaba embarazada, incluso tenía un problema de embarazo, y Soledad la llevó al médico”.

La fría infamia no se discute.

Pero conoce las palabras de Nadejda Marques, única hija de Jarbas Marques, uno de los seis militantes socialistas asesinados en Recife, junto con Soledad. En la actualidad, Nadejda Marques es doctora en Derechos Humanos y Desarrollo:

“Mi abuela Rosália, la madre de Jarbas Marques, consiguió entrar en la morgue. Ella, entre los diversos trabajos que tenía, también era enfermera. Conocía a la persona de Soledad. Mi abuela siempre contó lo que vio en aquel fatídico enero de 1973. Mi padre, con marcas de tortura por todo el cuerpo, tenía marcas de estrangulamiento en el cuello y agua en los pulmones compatibles con el resultado de la tortura por ahogamiento. Los disparos en el pecho y la cabeza se dieron después de su muerte. El cuerpo de Soledad, aún ensangrentado, tenía los restos de una placenta y un feto en un cubo improvisado.

Y definitivas son las palabras de la denuncia de la abogada Mércia Albuquerque:

“Soledad estaba con los ojos muy abiertos, con una expresión de terror muy grande. Estaba horrorizado. Mientras Soledad estaba de pie con los brazos a los lados, me quité la enagua y se la puse al cuello. Lo que más me impresionó fue la sangre coagulada en grandes cantidades. Tengo la impresión de que la mataron y la acostaron, y la trajeron después, y la sangre, al coagularse, se le pegó a las piernas, porque era una gran cantidad. El feto estaba allí en sus pies. No puedo saber cómo acabó allí, o si fue allí mismo, en el tanatorio, donde cayó, donde nació, en ese horror”.

En la muerte del cabo Anselmo, finalmente, Soledad Barrett fue y sigue siendo el centro, la persona que grita, el punto de apoyo para Arquímedes por sus crímenes. Señala a José Anselmo dos Santos y lo sentencia, vaya donde vaya: “Hasta el final de tus días estás condenado, sinvergüenza”.

Que el infierno sea pesado para él, por fin. Para toda la eternidad.

- - -

*Escritor brasileño, autor del libro Soledad Barrett no recife y de la novela A mais longa duração da juventude.

Soledad Barrett

 

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Soledad Barrett Viedma nació el 6 de enero de 1945 en Paraguay. Su padre fue Alejandro Rafael Barrett López, único hijo del escritor y líder anarquista español Rafael Barrett, quien llegó al país en 1904 y se convirtió en un referente en las luchas sociales de toda una época.

Ante la inestabilidad política previa a la dictadura militar de Alfredo Stroessner (1954-1989), la familia Barrett se exilió en Uruguay, donde una adolescente Soledad comenzó a militar en los movimientos estudiantiles.

Cuando Soledad tenía 17 años, se convirtió en víctima de los movimientos de extrema derecha en los años previos a la instauración de la dictadura cívico-militar en Uruguay (1973-1985). Fue secuestrada y le dibujaron una esvástica en los muslos.

Tras el incidente, Soledad pasó de ser víctima a perseguida por la policía política, por lo que su familia decidió enviarla un año a Moscú, de donde viajó a Cuba.

Allí nació Ñasaindy en 1969, hija de Soledad y de un militante contra la dictadura brasileña (1964-1985), José María Ferreira, que se trasladó a Brasil un año más tarde, donde fue asesinado y desaparecido.

Soledad le siguió un año después, y solo al llegar a Brasil descubrió que habían matado a su compañero. En el país conoció al “cabo Anselmo”, destacado militante de la Vanguardia Popular Revolucionaria (VPR), grupo que ejercía la resistencia a la dictadura, con quien entabló una relación.

Pero el “cabo Anselmo” era en realidad un agente infiltrado de la policía, que organizó la captura y asesinato de Soledad y de otros cinco de sus compañeros en el norte de Brasil en 1973.

El cabo murió en la impunidad.

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12
Jan22

Último poema de Soledad Barrett

Talis Andrade
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Tradução de Fernando Coelho
 
 
Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.
 
Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!
Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.
 
Madre, me apena verte así
el quebrado mirar de tus ojos azul cielo
en silencio implorando que no parta.
 
Madre, no te apenes si no vuelvo
me encontrarás en cada muchacha de pueblo
de este pueblo, de aquel, de aquel otro
del más acá, del más allá
talvez cruce los mares, las sierras
las cárceles, los cielos
pero, Madre, yo te aseguro,
que sí me encontrarás!
en la mirada de un niño feliz
de un joven que estudia
del campesino en su tierra
del obrero en su fábrica
del traidor en la horca
del guerrillero en su puesto
siempre, siempre me encontrarás!
Mamá, no te pongas triste,
Tu hija te quiere.
 
27
Nov21

Ditadura, ficção e memória

Talis Andrade

Os guerrilheiros assassinados na Granja São Bento, em Pernambuco, são o tema do livro da Cepe

Ressignificar o passado é também construir novas partilhas, outros mundos onde e quando outras subjetividades possam existir

por Urariano Mota

Na altura dos meus 70 anos, notei que a partir de certa idade a nossa memória é histórica. Mas para um escritor, o maior trabalho é narrar essa memória que se fez histórica. A seleção de acontecimentos, a sua organização em destinos e pessoas/personagens, é difícil. E mata de dor ou renova sobre a dor quem narra o lembrado. Outro fenômeno que observei nos penúltimos tempos foi a ligação indissolúvel entre o passado e o presente. Os anos findos, na aparência findos, renascem transformados. O passado não é morto. É vivo, hoje, passou por aqui agora. Disso eu não sabia. Essa descoberta me ocorreu ao escrever “A mais longa duração da juventude”. Para mim, foi uma iluminação, que eu nem imaginava antes desse livro.

E por que escrevo as linhas acima? – É que nesta semana pude ver a crítica do mestre Helder Santos Rocha a meu romance.  Na sua fala, vi confirmadas, de um ponto de vista erudito, as linhas da minha intuição. A crítica veio à luz na live da III Jornada de estudos sobre ficção histórica. Como um dos participantes, Helder Santos Rocha apresentou um trabalho sob o título de “Ficção e Memória em ‘A mais longa duração da juventude’”. Acompanhem por favor trechos da sua intervenção.  

“No romance de Urariano Mota há cenas de inúmeras reativações do tempo, nele existem propostas estéticas de coparticipação para o leitor do presente, muito mais que informes de acontecimentos do passado ditatorial.

Afinal de contas, como bem nos adverte Vladimir Safatle, precisamos encarar o neoliberalismo como a lógica da destruição máxima da solidariedade e dos laços comunitários. No que tange à memória sobre a ditadura pós-64, a comunidade pode ser uma resistência às perdas arquivísticas dos feitos de indivíduos invisibilizados e esquecidos por uma narrativa oficial em torno da repressão e da militância. A comunidade resiste ainda aos movimentos e gestos neoliberais que buscam só abafar as relações sociais calcadas na solidariedade e no convívio coletivo. 

Diante disso, o que significa coviver, conviver? Não apresentamos uma resposta objetiva, mas recorremos às reflexões do próprio romance. Vejamos em dois excertos: 

‘Quarenta e seis anos depois a pergunta ganha outro significado. No dia do enterro, com o cadáver saído do necrotério, quando a repórter perguntou ‘quem era Luiz do Carmo?’, eu respondi que para ele ainda não havia soado o momento da justiça. Se a vida passa e os jornais não a percebem, que dirá de uma pessoa fundamental que não é celebridade? Mas o impossível ali eu recupero. Era irônico que, perseguido na ditadura como um terrorista, ainda depois, no tempo dos anistiados, Luiz do Carmo não conhecesse a justiça. Se antes havia tido a negação absoluta de direitos e de leis democratas, agora nos anos de governo eleito pelas urnas, quando podia ir e vir, discursar e escrever, ele continuava sem justiça. Mudavam-se os tempos, mudamos nós, e continuávamos mudos para todos. Pois o reconhecimento público não chegava. Em seu favor, ela poderia dizer que seu hard de famosos merecia receber um upgrade. E o seu chefe, igualmente desconhecedor, a socorreria mais ferino com a frase ‘A memória dos jornais é bem seletiva’. A culpa – se usamos a palavra redutora – era do conjunto da sociedade que esmaga a todos, que pulveriza tudo como um pozinho à toa’.

Segundo trecho:

‘De muitos, que atravessaram na militância clandestina naqueles anos, poderíamos falar de uma Vida Curta e Triste sob o terror de Estado. E de todos podemos dizer que tínhamos vida dupla, uma oculta e outra legal. Sendo mais preciso, tínhamos uma existência legal e uma vida clandestina. Na primeira, mantínhamos uma dolorosa e sufocante aparência de ser, em si mesma uma farsa que representávamos sob ameaça de morte. Na segunda, éramos quase livres, pois mantínhamos um espaço de humanidade, de pessoas apesar da opressão. Uma vida, enfim, que sorria para nós como prometida amante. Era, portanto, na sua negação legal, um suplício de Tântalo. Quando queríamos pegar a flor vermelha, papoula, narcótica e doce, ela se afastava. E quando apressados íamos tomá-la nas mãos, a morte nos imobilizava. Isso conduzia também a uma dupla moral. Os que nos submetíamos à tortura da sobrevivência em trabalho alienante, onde amargávamos ser jovens bobos e calados, estranhos, contribuíamos para os clandestinos que levavam a vida gloriosa. Natural e necessária a contribuição. Natural a glória, porque estavam no front. Mas os da retaguarda estaríamos a salvo se os da frente caíssem? Quase nunca. Se não se vê uma ironia nesta frase, digo que o terror era democrático. A sociedade sem classes que sonhávamos, em uma versão macabra o terror fascista realizava. Onde antes a tortura e o assassinato de presos haviam sido exclusivos de negros e pobres, agora atingiam a todos. Em uma só fila, com faces idênticas, todos éramos terroristas. Assim nos chamavam em infame versão os terrorista de Estado. No entanto, de terror era a vida de animais caçados’.

Se a arte não é o real, tampouco ela se opõe a ele. Diversos textos literários têm tratado do período ditatorial e da sua herança traumática nos últimos anos com maior ênfase, acompanhando as discussões e os questionamentos levantados pelos usos do passado por parte das instituições da sociedade civil. 

Eunice Figueiredo propõe a escritura literária, sobre os arquivos da ditadura, que permite imaginar situações e experiências extremas vivenciadas por homens e mulheres durante o período. Na esteira da proposta da pesquisadora, indo um pouco além, os recursos narrativos da ficção também questionam os arquivos existentes, assim como a ausência de outros. Caso em que o romance de Mota parece intervir de forma contundente ao reivindicar a existência de uma comunidade invisibilizada no ontem por necessidade de sobrevivência e no hoje, por manutenção de uma injusta relação com os espectros. Assim, história e literatura não são opostas, mas também não produzem os mesmos efeitos, ainda que utilizem os mesmos materiais de linguagem e de referenciais sociopolíticos. Conforme Jacques Rancière nos induz a pensar, não se trata pois de dizer que a História, com H maiúsculo, é feita apenas das histórias que nós nos contamos, mas simplesmente que a razão das histórias e a capacidade de agir como agentes históricos andam juntas. A política e a arte, tanto quanto saberes constroem ficções, isto é, rearranjos materiais e símbolos das imagens das relações entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer. Nesse sentido, a ficção que dialoga com o passado ditatorial é sintoma e resistência ao mesmo tempo, pois confirma a permanência dos fantasmas, mas combate enquanto arte ativa ou escritura do artivismo os apagamentos forçados do passado. 

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Portanto, em ‘A mais longa duração da juventude”, o passado é um tempo alargado por opção e confissão do narrador. Diz o narrador: 

‘Lembrar? Não, é tão vivo, que a voz me fala: vivemos hoje o que o calendário indica ter ocorrido há 44 anos. E diferente da luz mecânica, congelada, da estrela morta há séculos, as pessoas retornam vivas com significados que não podíamos ver antes. Melhor, não retornam. Elas não saíram de nós. Continuam, na compreensão sobre elas que amadurecemos. São elas, transformadas pelo que delas só agora entendemos’.

A convivência com as lembranças dos companheiros próximos ou não é a esperança que o autor e narrador cultiva, e a partir da forma romanesca, os vírus detentores dessa dívida com o passado, eu, você, nós, ao claro enfrentamento conjunto aos tempos árduos e solitários do presente e futuro.

O romance de Mota não opera a manutenção de uma imagem fixa e cristalizada da militância e resistência do passado. Mas antes, reivindica no presente da escritura e no sempre presente da leitura, espaços na história contemporânea para os pequenos feitos daqueles grandes indivíduos que ele presenciou como resistentes solitários e anônimos. Ressignificar o passado é também construir novas partilhas, outros mundos onde e quando outras subjetividades possam existir.

Uma das cenas marcantes nesse romance que toca na memória coletiva é a chacina da Chácara São Bento, em 1973, Pernambuco, onde seis militantes foram brutalmente assassinados por delação de um infiltrado, que reivindica hoje uma verdade alternativa: o famoso cabo Anselmo. Para quem ainda não o conhece, ele se infiltrou durante muito tempo nos grupos de militância, como a VPR, e entregou, escrúpulo ele não tem nenhum, teve a ação nefasta de entregar a sua própria companheira, que estava grávida, e morreu grávida, que foi a Soledad, que era uma militante paraguaia e viveu no Brasil seus últimos dias. Sobre ela, Urariano tem outro romance. 

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Eu queria deixar marcado aqui o quanto a gente precisa cada vez mais se conscientizar com essas reflexões e leituras, porque eu acredito que a literatura é muito mais que um passatempo, é muito mais que a mera imaginação do passado, mas uma imaginação do passado para a construção do presente e do futuro. É exatamente para combater essas ‘verdades’ alternativas que esses sujeitos vêm aí a campo dizer que são os donos”.                                                                             

O vídeo da fala do mestre Helder Santos Rocha aqui:

 

11
Set21

Um sonho que a repressão não destrói

Talis Andrade

 

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Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais

 

por José Carlos Ruy

Um dia desses, conversando com minha filha, uma moça de 21 anos que estuda Letras, ela me falava, contrariada, de tantas moças e rapazes (e movimentos e artistas ‘jovens’) que parecem envelhecidos pela recusa a correr riscos, e pela vontade de ter todas as garantias e segurança que a sociedade oferece. São jovens na idade, mas não no coração, dizia ela.

Esta lembrança me ocorre no momento em que escrevo a ‘apresentação’ a este livro extraordinário a que Urariano Mota deu um título preciso: A mais longa duração da juventude. Um relato ficcional amplamente ancorado na memória dos jovens que, por volta de 1970, resistiam à ditadura no Recife, como tantos outros Brasil afora. E traziam inscrito em sua bandeira, com letras de um vermelho flamejante: ‘revolução e sexo’. Nesta ordem, adverte Urariano.

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Rapazes e moças que, por volta de seus vinte anos, viviam às voltas com as agruras da luta política e revolucionária, e os ardores do sexo que despertava. Agruras e ardores narrados com a precisão de acontecimentos ‘de ontem’, que continuam presentes, quase meio século depois, com a mesma e intensa realidade do brilho das estrelas de que conhecemos somente a luz que cruzou milhares de anos-luz, estrelas que talvez nem existam mais no momento em que sua imagem nos alcança.

A luz dessas estrelas é semelhante ao sonho que, hoje, meio século mais tarde, aqueles jovens ainda sonham mesmo que seus corpos já não tenham a força dos vinte anos. Mas o viço e o vigor do sonho permanecem. E fazem mais longa a duração da juventude.

Urariano Mota sabe como poucos mesclar memória e ficção. E de tal maneira as confunde na textura da escrita que, nela, o real vira imaginado, e o imaginado assume as formas do real. E o tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente. Fundidos por uma reflexão fina, ligada – para dizer como se dizia há quase meio século – pela análise concreta de situações concretas. Não é filosofia, quer Urariano. Mas é reflexão fina, humanamente fina e que tem o dom de trazer à vida, com seus matizes, os debates com que aqueles jovens de esquerda, revolucionários, desenhavam seu futuro, o futuro de todos, do país e da humanidade.

Sonho que levou o garoto de 1969 a comprar um disco de Ella Fitzgerald onde poderia ouvir I wonderwhy, se tivesse vitrola (palavra antiga para toca-discos, também antiquada no tempo dos igualmente em superação cdplayers). Não importa que não tivesse! Teria, um dia, e ouviria a cantora cuja voz amava. Sonho semelhante ao que tantos anos depois, quando já não existia a ameaça da repressão ditatorial, queria uma bandeira do Partido Comunista do Brasil para envolver o caixão do amigo morto.

Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista.

Sonho embargado pela memória cruel da sordidez da delação do infame Cabo Anselmo, que levou Soledad e tantos outros à morte na tortura ou pelas balas da repressão da ditadura.

Nesta permanência da juventude não há, como há em Goethe, nenhum pacto com o demônio, como aquele pelo qual o poeta buscou a garantia da juventude permanente.

‘Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos’, diz um diálogo neste livro maravilhoso. ‘Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua’.

Este é um livro que une, com a arte da memória, 1970 e 2017 – se fosse possível fixar parâmetros tão fixos... É um livro que olha o passado não pelo retrovisor que encara o acontecido faz tanto tempo. É um livro que faz do passado os faróis que iluminam o caminho do futuro. E reduz a distância no tempo revivendo, tanto tempo depois, a mesma luta que uniu, e une, tanta gente.

Um sonho contra o qual a barbárie e a estupidez dos cabos anselmos da repressão da ditadura foi impotente. E não o destruiu. E que é a senha para a mais longa duração da juventude.

18
Ago21

Foi ditadura, houve tortura

Talis Andrade

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por Carla Teixeira 

 

O ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, em audiência pública ocorrida na Câmara dos Deputados, negou que houve ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985. Para ele, “houve um regime forte, isso eu concordo. (...) cometeram excessos dos dois lados, mas isso tem que ser analisado na época da história de Guerra Fria e tudo o mais. Não pegar uma coisa do passado e trazer para os dias de hoje. Se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui”, vaticinou o ministro.

O general mostra desconhecer a historiografia brasileira, assim como todo o imenso conteúdo produzido sobre os eventos do período mencionado. A fim de confundir seus ouvintes, utiliza de enorme desonestidade intelectual ao afirmar que “se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui”. Acontece que muitas pessoas não estão, general. Pergunte às famílias de Vladmir Herzog, Alexandre Vannucchi, Rubens Paiva, Soledad Barret, Ana Rosa Kucinski, Carlos Marighella (pra citar seis entre milhares) o que pensam e como sentem suas ausências provocadas pelo “regime forte” que o senhor mencionou.  

A ditadura militar (1964-1985) foi o maior atraso político, econômico, social e cultural que o Brasil sofreu durante todo o século XX. A miséria se alastrou na mesma proporção que a corrupção tomou conta do Estado, tendo os generais e Oficiais das armas como principais beneficiados das tenebrosas transações. O legado maldito deixado pela ditadura nos atormenta na figura de Jair Bolsonaro que todos os dias nos lembra os custos de ter conciliado a transição democrática com a escória da humanidade.

Escória, pois a anistia aprovada, em 1979, permitiu que os militares torturadores, sequestradores, assassinos, estupradores, violadores de crianças e ocultadores de cadáveres saíssem impunes de seus crimes, com suas memórias preservadas para o deleite de fanáticos como o general Braga Netto. Ele e outros Oficiais essencialmente mentirosos, canalhas que negaram e seguem negando o que todos sabem e é óbvio, e a historiografia já registrou em diversos idiomas para que a posteridade saiba a verdade que insistem em dissimular: foi ditadura, houve tortura, os militares das forças armadas são os responsáveis e jamais foram punidos. Também por conta dessa impunidade, a sociedade brasileira convive com um enorme passivo democrático que se materializa na violência contra os pretos, os pobres, as mulheres, e nas ameaças diuturnas de golpe militar.

O argumento da equivalência utilizado pelo general para afirmar que “os dois lados cometeram excessos” já foi desmascarado há muitos anos pela historiografia e o cinema. A formação das guerrilhas e suas ações diretas de combate (como assalto a bancos, por exemplo) apenas ganharam corpo após o golpe de 1964. Ou seja, o radicalismo da esquerda, naquele caso, foi produto do radicalismo da direita, especificamente dos militares. Alinhados com os interesses do imperialismo estadunidense, as forças armadas mataram brasileiros que lutavam por democracia, liberdade e dignidade para todos. Ou seja, em nome da pátria, os militares traidores da pátria mataram aqueles que genuinamente a estavam defendendo dos interesses estrangeiros.

Vale lembrar que o general Braga Netto era o comandante da intervenção militar no Rio de Janeiro quando Marielle e Anderson foram assassinados por milicianos, em 2018. Aliás, seu atual posto demonstra o sucesso de sua missão em solo carioca: favorecer as milícias e facilitar a chegada de um de seus representantes à presidência da República. À parte toda essa tragédia, é fundamental louvar a coragem dos deputados que exigiram explicações ao general. Passou da hora da sociedade civil se posicionar diante dos arroubos autoritários de Bolsonaro e seus lacaios generais. Ditadura nunca mais!As universidades e o regime militar: cultura política brasileira e  modernização autoritária eBook : Motta, Rodrigo Patto Sá: Amazon.com.br:  Livros

Indicações de leitura: Rodrigo Patto Sá Motta. “As Universidades e o regime militar: cultura política brasileira e modernização autoritária”. Zahar, 2014.Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura  civil-militar, 1964-1988 | Amazon.com.br

Pedro Henrique Pedreira Campos. “As empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar: 1964-1988”. EdUFF, 2015

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04
Jun21

A ditadura brasileira, literatura e denúncia, agora em áudio

Talis Andrade

 

por Urariano Mota

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A Tocalivros, que é a principal plataforma de audiolivros do Brasil,  anunciou esta semana que o áudio de “Soledad no Recife” está disponível para todos aqui 

O livro , que foi publicado pela Boitempo em 2009, ganhou  esta síntese da Tocalivros neste junho de 2021:  

“O amor e a paixão pela bela guerrilheira, o terror e morte na ditadura, a traição de um companheiro infiltrado, que a levou à morte pela ditadura militar. Ficção impressionante, a verdade de um crime sem punição. Grávida, foi delatada pelo próprio companheiro Daniel, depois conhecido como o Cabo Anselmo”.  

Daí que julgo necessário divulgar as duas primeiras páginas de Soledad no Recife: 

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.    

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de  madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:

- Conspirando no Aroeira?  

- A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.

- Esses intelectuais ... Conhecem? Soledad, Daniel.  

- Ah, prazer. Prazer.

E assentando-se em torno, Júlio derramou,  descuidado:  

- São revolucionários. Podem ficar à vontade.

Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.  

- Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.  

- Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.  

- Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.  

- Sei.  

- Está com medo?  

Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:

- Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?

- Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.

O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:

- É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse,  apontando a Igreja de São Pedro.  

- Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.  

Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.  

- Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.   

- Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha”  

Para essas primeiras páginas da abertura do livro, assim ficou o trailer do áudio: escute aqui.   

Desejo que tenham uma boa audição para o terror e trauma da nossa juventude no Recife.  

06
Mai21

Como não consigo matar a injustiça, escrevo

Talis Andrade

 Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo

por Urariano Mota

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Respostas que falei por email a Ney Anderson, do site  Angústia Criadora

O que é literatura?

À primeira vista, é o texto escrito. Mas essa primeira visão é falha no geral e no específico. Primeiro, porque existe a poesia oral, que muitas vezes é feita em seus melhores momentos por geniais repentistas do Nordeste brasileiro. Isso para não entrar nas raízes históricas da poesia. Segundo, porque o jornalismo impresso não é literatura. Então resta a pergunta: o que é literatura? 

Literatura é ficção, no sentido mais comum. Mas isso, esclareço, não é uma narração mentirosa. A literatura fala da vida de que apenas desconfiávamos existir. Ela é uma compreensão da realidade. E no escritor, em geral, a memória é a própria compreensão do mundo. Os escritores são melhores quando escrevem sem pretensiosa fantasia. É natural que todos não alcancemos a compreensão da vida que lembramos. Isto é, a maioria não tem consciência da memória que reside no seu ser. Ou até mesmo nem deseja ter essa consciência, que a literatura revela, quando a memória é trauma

Mas nem sempre literatura é ficção, naquele sentido que o vulgo e a ignorância confundem sempre com mentira, quando falam que determinada impostura de autoridade ou réu é ficcional. 

Tomemos o exemplo de Os Sertões de onde cito este máximo:

"Canudos não se rendeu... caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."

Isso está acima de nós, por força do seu lugar sobre esta linha, e por força da expressão. Isso acima de nós não é objetivo, por maior verdade que fale e expresse. Isso é imagem subjetiva, voz de um escritor parcial, com parcialidade escrita, porque indignada contra o massacre de uma gente rude, que desejava o céu na terra. Canudos não é uma ficção, infelizmente é um fato real, um massacre objetivo. Mas em Os Sertões é literatura, porque mantém uma qualidade de escrita acima do comum, porque é narrado com vigor, maestria e paixão, somente abaixo da grandeza da injustiça que narra.

 

O que é escrever ficção?

O escritor de ficção, em vez de narrar ideias gerais, narra pessoas, personagens particulares. É da natureza do nosso gênero, é a nossa forma de trabalhar. Ainda que estejamos escrevendo sobre as coisas mais abstratas, algo como a Constituição Federal atualizada, ainda assim o escritor, o que tem gênese e característica da literatura, falará da Constituição Federal conforme a biografia sentida da própria vida. É como um louco ou doente sem remédio. Em muitos significados, ele é um funcionário permanente. O escritor me lembra um bancário que não conseguia sair do banco. Ia pra casa, o banco o acompanhava. Ia dormir, lá estava o banco. Ia pro bar, e quando no calor da cerveja se discutia sobre a estratégia da França com a Linha Maginot depois da 1ª. Guerra Mundial, o bancário concluía: “Entendo, eu também faço isso. Eu pego os livros de relatórios e empilho na minha frente, pra ninguém me perturbar. Essa Maginot é como lá no banco”.

Não é que o escritor seja um monstro biográfico, que possua um misterioso talento onde não cresçam e frutifiquem ideias. Pelo contrário, não se conhece um só bom autor que não possua uma concepção do mundo e dos seus desconcertos. Mas é que nele, no escritor, as ideias sofrem uma interpretação particular, que se mostram no que ele escreve. Nele não há lugar para a sobrevivência da tese, que é do ofício de todo ensaio científico ou acadêmico. Na literatura, os personagens não são bonecos de ideias gerais. São gente, de cara e dente, onde as ideias se batem, se violentam e mantêm o conflito. Como na vida fora da escrita.

Nos livros, falo do que vi em minha juventude, tão perto de mim, como eu gostaria de crer. Neles falo da repressão da ditadura, de pessoas heroicas, covardes e loucas, ou em profundo desespero, que eu vi. Falo da minha infância em um subúrbio periférico do Recife, que tem o nome de Água Fria, que não se pronuncia em boa conversa, porque seria o mesmo que falar um palavrão. O melhor de mim está quando volto os olhos para esse mundo sem nome, de pessoas que desaparecem sem nome, cujo sepultamento é apenas um alternativa precária da carniça para os abutres. É para esse imortal escárnio que me volto. Essa gente, gentinha gentalha da minha genética é que me sustenta. Antes, durante suas vidas e depois.

A literatura é a terra da democracia. Ela permite a um filho do povo escrever e por isso ser recebido com tapete vermelho em qualquer palácio. E a honra será dos palácios. Essa democracia da literatura, esta literatura que me permitiu ser menos insignificante, é a minha terra e o meu destino. Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo.

 

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Retiro de um texto que escrevi sobre Joaquim Nabuco: 

No Brasil, e no exterior também, há uma corrente de liberais que separa o cultural do político. E de maneira quase unânime, separa a literatura da política. Isso não é bom nem fecundo para a política ou para a literatura. Na política, assim separada do mundo literário, procura-se amesquinhar, rebaixar o seu nível à discussão apressada, ignorante e mal pensada. Ou seja, a prática ausente do conhecimento literário, que se fez presente nos clássicos há muito, essa ausência não é normal nem é a norma. Penso em Marx, Lênin, Gramsci, José Marti. E no Brasil, penso nos clássicos Astrojildo Pereira, Pedro Pomar, Nelson Werneck Sodré, Miguel Arraes, e outros que minhas limitações não permitiram alcançar. Nesta altura, lembro aqueles versos de Camões citados por Diógenes de Arruda Câmara, numa peça de acusação contra a ditadura no Brasil:

“Metida tenho a mão na consciência,

E não falo senão verdades puras

Que me ensinou a viva experiência”.

Por outro lado, ou pelo mesmo lado, na literatura separada da política me ocorre a imagem de cortinas que se abrem para as trevas. E nesse escuro, o abismo não é pequeno. Seria o mesmo que um mundo sem os gregos, e não só os trágicos, mas um mundo sem Platão, esse grande escritor que criou o personagem Sócrates, e a maioria só o nota como filósofo. Mas de modo mais óbvio, a literatura sem política seria um mundo sem Shakespeare, Dante, Cervantes, Tolstói, Balzac… e se querem exemplos mais próximos de nós, pelo tempo e pelo idioma, teríamos um mundo triste mundo sem Castro Alves, Lima Barreto, Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José Saramago. Um mundo tão medíocre quanto mutilado em suas melhores forças.

Mas isso ainda não é dizer tudo dessa literatura que ficaria tão desfigurada. Num rápido avanço, e tão rápido que não me afaste do título acima desenhado, uma das maiores incompreensões é a que retira do mundo da literatura a obra de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere. Uma negação estética que vem a ser estúpida, maldosa e desonesta. Em outro ataque, mais recente, desconhece-se a leitura literária nas crônicas de Dom Hélder Câmara, de textos altíssimos no rádio, que ele chamava de Um Olhar sobre a Cidade. E agora chego mais perto do que me trouxe até aqui. Separar o literário do político e o político do literário seria o mesmo que não ver em Joaquim Nabuco um dos nossos mais geniais escritores. O que isso quer dizer? – Simples, digamos: o seu pensamento político, abolicionista, possuía uma forma de expressão que se não for literatura será literatura sob transparentes véus. Eu me refiro, por exemplo, a estas iluminações:

“A raça negra fundou, para outros, uma pátria que ela pode, com muito mais direito, chamar sua. Suprima-se mentalmente essa raça e o seu trabalho, e o Brasil não será, na sua maior parte, senão um território deserto…

Os escravos, em geral, não sabem ler, não precisam, porém, soletrar a palavra liberdade para sentir a dureza da sua condição”.

 

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Respondo com o meu romance “A mais longa duração da juventude” em um trecho: 

“E se a revolução não vier, como vamos fazer? eu lhe pergunto, e a pergunta é tão sincera que só poderia fazê-la bêbado. Estamos os dois no cais, ele bem entende o significado do ‘fazer’, que substitui o verbo ‘viver’. Como vamos viver se a revolução não chegar? 

‘Não tem como ela não vir. Eu tenho a certeza’. Eu, não, lhe digo, mas quero dizer não sei, não sei se o que desejamos virá. O que significa: amor, trabalho, justiça, felicidade coletiva, sociedade sem opressão, liberdade, isso tudo é possível, Luiz? Mas aí ele se volta para mim e pergunta, direto: ‘Você acredita na revolução?’. Meu passo imediato é responder eu não tenho a certeza, mas respondo ‘Sim, claro, se eu não acreditasse, não cumpria tarefas’. Ao que ele ergue a voz para o oceano: ‘Você é meu companheiro’. E nos apertamos as mãos. E saímos da praça para o Gambrinus, onde pretendemos tomar a última. Quando vem a cerveja, eu lhe falo: ‘Olhe, eu acredito na literatura’, quando ia lhe falar ‘Eu acredito na literatura, mas a revolução é meu horizonte’. No entanto, só tenho 20 anos e não estou tão bêbado para tal franqueza. Luiz do Carmo entende o que desejei dizer, me põe os olhos grados e pergunta: ‘Sério? Para você o que é a literatura?’. 

E eu: ‘É tudo’ ”. 

 

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Não, a literatura não é uma “extensão da realidade”. Assim posta, poderiam confundi-la com um braço, uma perna, ou mesmo um apêndice de tese acadêmica ou mesmo como um curso de extensão na universidade. Não, ainda, mesmo fora da caricatura da frase anterior. Não, ainda, se a isolarmos no substantivo “extensão”. Isso porque a literatura é arte, a mais desenvolvida forma de arte que o homem já inventou. Ou seja, ela é uma prova da nossa humanidade, e de tal maneira, que deveríamos ter deixado em Marte um volume do Dom Quixote. Mas em 1997 os cientistas da Nasa escolheram para o robô em Marte o samba Coisinha do Pai, na voz da cantora Beth Carvalho. 

Assim, essa “extensão” nos faz crescer como deuses humanos, porque fala do pior e melhor de nós mesmos, como se fôssemos um homem editado. Enfim, talvez venha a ser um “mundo paralelo”, se com isso queremos dizer o mundo que ilumina o ambiente de trevas em que estamos, do lado de cá. 

 

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem? 

Os sentimentos e sensações vêm antes, bem antes dos dias de começo. É meio como se fôssemos almas penadas que fingem ser normais e comer e beber e falar para que não nos tomem como anormais ou loucos. Mas o que sentimos enquanto andamos por aí ou vagamos é aquela maravilhosa expressão de Camões nestes versos que destaco em um soneto: 

“Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei por quê”

Mas em seu começo, sei o “assunto”, o personagem ou personagens, o destino para onde posso ir, mas as surpresas e obstáculos são tamanhos, que o destino se altera, e autor e personagens também. É como iniciar um novo amor. Há um ponto de partida, mas não se sabe para que inferno ou céu estão nos levando. 

 

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita? 

Dos dois, e não sei como sair dessa, assim como na pergunta do ovo ou da galinha quem nasceu primeiro. Copio de uma entrevista minha ao poeta Natanael Lima Jr: 

Comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa
 

“Muito embora as estrelas do Infinito

Lá de cima me acenem carinhosas

E desça das esferas luminosas

A doce graça de um clarão bendito;

 

Embora o mar, como um revel proscrito,

Chame por mim nas vagas ondulosas

E o vento venha em cóleras medrosas

O meu destino proclamar num grito,
 

 

Neste mundo tão trágico, tamanho,

Como eu me sinto fundamente estranho

E o amor e tudo para mim avaro...

 

Ah! como eu sinto compungidamente,

Por entre tanto horror indiferente,

Um frio sepulcral de desamparo!”

 

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem  estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido? 

Escrevo para entender melhor o que conheço. E até mesmo para entender o que pensava conhecer e de nada sabia, até o ponto em que escrevi. 

 

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores....etc? 

Tudo. Mas o problema a ser narrado vem antes. Depois, personagens, cena, cenário, tempo, narrador, nessa ordem. 

 

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim? 

Para mim, há uma contradição no personagem bem construído em um texto ruim. No romance, no conto, é quase impossível. Grandes personagens se encontram em grandes narrações. Imensos romances são de imensos personagens. As criaturas - mais que personagens – de Andersen estão em contos imortais, de todos os tempos. Mas entendo ser natural que personagens inesquecíveis não se encontrem na maioria dos romances de José de Alencar. Aqueles índios que encarnam a nobreza idealizada são de doer. Por outro lado, penso que é possível encontrar personagens indigestos em poemas narrativos.  

 

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir? 

A verdade. A verdade do problema, do personagem, do autor, do tempo narrado. 

 

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Toda e total. A boa literatura é fonte de enriquecimento destas horas de angústia e pesadelo. Não importa em que meio: em livro físico, em ebook, na internet, em áudio. E adianto aqui uma notícia, que a ninguém anunciei ainda: “Soledad no Recife” será acessível em áudio, no próximo mês.                      

 

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno? 

Retiro de um texto de Celso Marconi que o Vermelho publicou há pouco:

“Quem trabalha com a mente e tenta criar algo, de forma geral é considerado fora da normalidade. O ‘normal’, desde que a sociedade estabeleceu critérios para julgar o ser humano, é quem trabalha para ganhar a sobrevivência sua e de sua família. Quase sempre quem pensa em trabalhar para criar é considerado, principalmente pelos que mandam no mundo, como malucos malditos”. 

Ao que acrescento: o passatempo da humanidade é fingir que a morte não existe. Que a vida não importa. Que o amor é bobagem. E que portanto são fracassados os que pensam, refletem e criam sobre essas coisas inúteis. 

 

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso? 

E quem doma? São indomáveis. O autor no máximo se acostuma ao imprevisível que traz dentro de si. 

 

O inconsciente, o acaso, a dúvida...o que mais faz parte da rotina do criador?

Tudo faz parte. Também o trauma e o beijo impossível que não se pôde dar. 

 

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Eu não sei. Ah, se soubesse!

 

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento? 

Quando o escritor toca na sua alma. Aquilo de Goethe: "Tudo quanto se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair." 

 

O leitor ideal existe?

Sim, aquele que o texto alcança e atinge. É um ideal sem idealismo. Um leitor de todas as classes, gêneros e raças, mas fundamentalmente os que se solidarizam pela sorte dos marginalizados.  Ou que sentem a sua dor. 

 

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos? 

O simples é que é a maior sofisticação. Penso no samba de Paulinho da Viola, nas composições de Caymmi, nos poemas de Manuel Bandeira, nos contos de Machado de Assis, nas crônicas de Antônio Maria. 

 

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

No livro “É isto um homem?”, de Primo Levi: 

“Agora, todo o mundo está raspando com a colher o fundo da gamela para aproveitar as últimas partículas de sopa; daí, uma barulheira metálica indicando que o dia acabou. Pouco a pouco faz-se silêncio. Do meu beliche, no terceiro andar, vejo e ouço o velho Kuhn rezando em voz alta, com o boné na mão, meneando o busto violentamente. Kuhn agradece a Deus porque não foi escolhido para a morte. Insensato! Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem 20 anos e depois de amanhã irá para o gás e bem sabe disso, e fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem falar, sem pensar? Não sabe, Kuhn, que da próxima vez será a sua vez? Não compreende que aconteceu, hoje, uma abominação que nenhuma reza propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação, nada que o homem possa fazer, chegará nunca a reparar?
Se eu fosse Deus, cuspiria fora a reza de Kuhn.” 

 

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria? 

Dom Quixote. 

 

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

Qual a sua angústia criadora? 

Não poder evitar a morte de quem muito amei. 

*Angústia Criadora https://www.angustiacriadora.com/urariano-mota-eu-nao-sei-atirar-esmurrar-e-assim-nao-posso-combater-e-matar-a-injustica-com-as-maos-cheias-de-bombas-balas-e-misseis-como-nao-posso-escrevo/ 

24
Ago20

“Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”

Talis Andrade

Urariano Mota.jpg

 

 

Natanael Lima Jr entrevista Urariano Mota

Urariano Mota é escritor e jornalista, nascido em Água Fria, subúrbio do Recife. Autor de Soledad no Recife, que reconstrói a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife em 1973, e a traição que levou à sua prisão, tortura e morte pelo governo militar. Publicou ainda O filho renegado de Deus (Prêmio Guavira de Romance 2014), Dicionário Amoroso do Recife e A mais longa duração da juventude, que narra o amor, política e sexo em uma viagem de memória no Recife de 1970 a 2017. Atualmente, é colunista do Vermelho, Brasil 247 e Jornal GGN.


Natanael Lima Jr. - Meu caro Urariano Mota, um prazer grande entrevistá-lo e podermos conhecer um pouco da sua vasta trajetória como jornalista e escritor. Quem é Urariano Mota?

Urariano Mota - Sou fundamentalmente escritor. Meus textos jornalísticos têm, ao mesmo tempo, rebeldia às normas dos jornais e realização literária de outra maneira. Neles sempre está presente a voz do escritor. Sou filho de João e Maria, em um bairro popular, cuja formação possui traumas dos quais às paredes confesso. De outros traumas, nem às paredes falo de viva voz. Meu crescimento intelectual se deu à força de uma persistente autoeducação, porque desejava falar desse mundo submerso.

 

NLJ - Quando você começou a se interessar pelo jornalismo e a literatura?

UM - Por jornalismo, porque eu desejava trabalhar em algo que exigisse de mim o texto escrito. Nem adivinhava que a liberdade estética, para ganhar dinheiro com jornalismo, eu não teria. Mas comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa:

“Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro...

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

 

NLJ - Para você escrever é dom ou consequência de trabalho, leitura e transpiração?

UM - A resposta já foi esboçada antes. Escrever é, em primeiro lugar, uma necessidade. E se pensamos na semelhança que pode guardar com outra expressão de humanidade, é como o amor. Ninguém pergunta se o amor é dom, trabalho, leitura ou transpiração. É tudo. E guarda semelhança também com as formas da escrita. Ela se faz de todas as maneiras, do certo, do errado, dionisíaca, apolínea, sucinta, seca ou larga, barroca. Não há formas superiores, únicas, Há formas diversas e infinitas, todas dignas do seu nome. Mas se quer uma resposta sintética, eu digo: necessidade, talento, leitura, trabalho.

 

NLJ - De onde vem o caráter político das suas obras?

UM - Natanael, o escritor e crítico literário Flávio Aguiar assim escreveu na apresentação do livro Soledad no Recife: “Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”. Com efeito, essa tem sido uma fala dos mais diversos leitores sobre o que tenho publicado. E não há truque, não há “técnica”, efeitos especiais de circo para essa manifestação. Trata-se, apenas, ou melhor, um apenas entre aspas, trata-se “apenas” de que reflito, penso e medito sobre a memória do que vivi e tenho vivido. Às vezes, ou quase sempre, lembrança do mergulho da mais funda angústia. Quando escrevo sobre a esquerda no Recife, quando publico páginas sobre os militantes contra a ditadura, quando retomo um trauma antigo, do século passado, eu não invento. Ou melhor, procuro não inventar, na medida da minha consciência. Aos companheiros mortos e vivos, eu dedico sempre o que escrevo. Sem eles, eu sou nada, ou menos que nada, se isso for possível.

Agora noto que sou de esquerda antes de ser de esquerda. Não é um paradoxo, porque pretendo dizer: sou de esquerda desde a morte precoce da minha mãe, quando eu era um ser em crescimento aos 8 anos de idade. A revolta foi a mais funda que um homem pode ter, revolta que com os anos só veio crescendo. Aquilo me pôs num caso pessoal com Deus. Caso de raiva permanente contra um absoluto que permitia a negação da vida de modo mais absoluto. Mas para expressar, escrever sobre esse mundo, desde a infância ao tempo de juventude, eu tive e tenho que estudar muito. Ler, reler, apanhar para aprender, apanhar para refletir sobre o fracasso. Porque com revolta só não se faz literatura. Além dela, é preciso conhecer, trabalhar e trabalhar, ler e estudar. Só assim o sentimento íntimo se torna sentimento do mundo.

A literatura é uma atividade sobre a qual sempre estamos aprendendo, não importa a idade do escritor, ou quantos cabelos brancos tomem conta da sua cabeça. Todos os dias fracassamos. E como um Sísifo todos os dias tentamos erguer a dura rocha da felicidade para o alto. Mas ela volta a rolar até os nossos pés, todos os dias. Então recomeçamos.

 

NLJ - Para você, qual o valor da literatura?

UM- Caro Natanael, tento responder com uma reflexão sobre a minha experiência: sempre procurei falar para jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Aqui e ali, eu era obrigado a ouvir:

“O que eu ganho com a literatura, professor?”

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas. E ficava a gaguejar coisas absurdas, do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

Mas quando a pergunta era feita por jovens da periferia, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta; porque não me via em suas condições e rostos. Mas dos periféricos, era demais. Então eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência.

Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa; algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Que importa? Que se dane o nome, vencia a literatura. Vencia a qualidade maior da literatura: libertar nos brutos que somos o nosso melhor humano. É algo muito mais precioso, e eterno enquanto houver humanidade, do que tirar uma nota 1.000 na redação do Enem. Ou, se quiserem, pode ser criado até um anúncio prático de comercial: com a literatura virem humanos, e ganhem uma nota mil para toda a vida.

 

NLJ - Entre as suas obras publicadas, destacam-se Soledad no Recife (2009), O filho renegado de Deus (2013) e A mais longa duração da juventude (2017). Fale-nos um pouco sobre cada uma dessas obras?

UM - Eu prefiro falar com trechos curtos de cada uma. Assim, talvez eu consiga algum distanciamento, digamos.

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Soledad no Recife – “ 'Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério.... em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto'. O depoimento da advogada Mércia Albuquerque sobre o corpo de Soledad é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. 'A boca de Soledad estava entreaberta' ”

urariano o filho renegado.jpg

 

O filho renegado de Deus – Agora entendo, mãe, o quanto odeio a miséria, no mesmo passo em que amo os miseráveis. Eu, que sou filho do teu leite, eu que sou filho de Filadelfo, sei agora que também sou filho da miséria, e assim em terror quero extirpá-la de mim, com força, vigor, violência: Maldita, o teu nome é crime. Naquela hora sei que havia movimentos no teu ventre, e depois vinha uma breve quietação, que parecia opressa, porque respondia com pequenas pontadas laterais, à semelhança de pequenos braços em convulsão. (Por Deus, eu não queria ter esta memória. Por Deus!)

juventude revolução urariano.jpg

 

A mais longa duração da juventude - “- Eu penso ás vezes que a pílula é uma caricatura de Goethe - digo.

- Por quê, rapaz?

- Aquele conceito de Puberdade Tardia, entende? Goethe falava que certas pessoas têm uma natureza que não se curva à idade. E recebem então uma puberdade tardia.

- Mas essa idealização de Goethe a ciência fez real. – Luiz do Carmo me responde. – Por que não usá-la, se a temos a nosso alcance? O sonho de antes agora está na farmácia.

- Eu sei. Mas é um artifício, caricatural.

- Você se nega à sua idade?

- Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos.

- Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”

 

NLJ - O romance O filho renegado de Deus lhe deu o primeiro lugar do Prêmio Guavira 2014, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O que representou essa premiação para a sua trajetória literária?

UM - Foi a segunda vez em que ganhei dinheiro com a literatura. Na primeira, com o conto “Uma noite na Bahiana”, na antologia de humor da Revista Ficção, transformei o dinheiro em galeto e cerveja no Savoy. No segundo, paguei o IPTU atrasado da casa. Mas, falando sério, o prêmio apenas confirmou o que eu tinha consciência: o romance estava à altura de cantar uma mulher do povo, desprezada nos becos do Recife.

 

NLJ - W. H. Auden, escritor e poeta inglês naturalizado norte-americano, afirmara que “a mera criação de uma obra de arte é em si um ato político”. Você concorda?

UM - Sim, concordo. O que realiza o político na obra de arte não é o tema. É a sua criação como uma voz alta de humanidade. E, portanto, uma voz de protesto contra todo tipo de canalhice ou injustiça. A literatura vai sempre contra a corrente. Ou será aquilo que Manuel Bandeira falava: “contabilidade tabela de cossenos secretário dos amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres”

 

NLJ - Na sociedade de consumo irrestrito em que vivemos a literatura ainda sobrevive, isso não é pouca coisa. Em sua opinião, pode-se viver de literatura no Brasil?

UM – De literatura mesmo, é difícil, raro ou impossível. O que se ganha com livros no Brasil é aquele samba de Pedro Caetano:


“O que se leva dessa vida
É o que se come,
É o que se bebe,
É o que se brinca, ai, ai...
O que tenho nessa vida
São as ruas pra andar”

 

NLJ - Como sabemos, a internet possibilitou novas formas de comunicação com pessoas do mundo inteiro. No caso específico da literatura, a internet contribuiu para a sua difusão?

UM - Sim, e digo mais: a internet é capaz de estabelecer ligações e conquistas antes inimagináveis. Por exemplo, todos os meus romances foram publicados com o envio de originais por email. Esse é um procedimento que não se recomenda. Há editoras que até rejeitam. Mas comigo tem sido assim.

 

NLJ - A sobrevivência do interesse por literatura nestes tempos de informações frenéticas, contudo descartáveis, seria em sua opinião, um estágio cultural já superado ou não?

UM – É claro que não. As informações descartáveis são a antiliteratura. Onde os jovens, homens e mulheres encontrarão a expressão máxima do amor e da morte? A não ser que estejam satisfeitos com a existência de robôs. E logo, logo, os robôs viram sucata, enquanto a vida se vai e esvai.

 

NLJ - O que você deixaria como mensagem neste momento de distanciamento social provocado pelo Coronavírus?

UM – Leiam os clássicos. Ouçam Bach. E Pixinguinha também.

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