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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

22
Mai21

Exposição "Amazônia": Sebastião Salgado denuncia "falta de honestidade” de consumidores face ao desmatamento

Talis Andrade

Sebastião Salgado: “Foi dito que eu fazia estética da miséria. Ridículo!  Fotografo meu mundo” | EL PAÍS Semanal | EL PAÍS Brasil

No momento em que os números do desmatamento da Amazônia batem recorde atrás de recorde, uma exposição inédita do fotógrafo Sebastião Salgado traz à luz toda a riqueza de um dos maiores patrimônios naturais da humanidade. “Amazônia" foi aberta nesta quarta-feira (19), na França, com mais de 200 fotos clicadas ao longo de quase 50 expedições ao coração da floresta.

No lugar de fogo, a imensidão das árvores em pé. Em vez de fumaça, tribos indígenas no seu habitat. Em oposição à terra arrasada, descobertas muitas vezes inéditas para a maioria dos brasileiros, como as montanhas mais altas do país, na Serra do Imeri. A mostra, exposta na Filarmônica de Paris, busca a sensibilização do público para a preservação da floresta pela sua beleza.

"Trabalhamos sete anos para poder mostrar exatamente o que é a Amazônia, principalmente para os brasileiros, que não a conhecem direito. Eles imaginam que a Amazônia só tem rios, florestas e que tudo é plano. O brasileiro tem que saber disso para a gente poder proteger”, explica a comissária e idealizadora da exposição, Lélia Wanick Salgado – companheira do fotógrafo na vida e nesta aventura.

O trabalho pode ser considerado uma sequência da obra majestosa Genesis do fotógrafo, agora com foco na mata brasileira. Nos últimos sete anos, Salgado pôde acompanhar de perto a aceleração da degradação da maior floresta tropical do mundo.

"Cada vez que eu volto na Amazônia, eu tenho a constatação de que a destruição é permanente lá. Nós perdemos praticamente tudo o que nós perdemos da Amazônia nos últimos 40 anos”, observa à RFI.

"O que nos falta [para protegê-la] é honestidade planetária. É claro que o governo Bolsonaro é predador, mas a destruição da Amazônia não começou com este governo: ela acontece por causa da sociedade consumo. Quando vemos a madeira amazônica, o ipê amazônico, nos prédios de Paris, vemos esse comércio de madeira que sai de lá e vai para todo o mundo. Quando vemos que a grande maioria da destruição da Amazônia é para produzir carne e soja que vem para cá para engordar os rebanhos franceses, vemos que tudo isso acontece para atender a um enorme mercado internacional”, denuncia, em uma conversa com a imprensa internacional na avant-première do evento.

Lélia Wanick Salgado é a comissária da exposição Amazônia, de Sebastião Salgado.
Lélia Wanick Salgado é a comissária da exposição Amazônia, de Sebastião Salgado. © Lúcia Müzell/ RFI

 

Acordo comercial UE-Mercosul

Para Salgado, o acordo comercial acertado entre a União Europeia e o Mercosul tem tudo para acentuar o avanço ainda maior da agricultura sobre a floresta, ao facilitar a exportação de produtos agrícolas brasileiros para o continente europeu, a preços competitivos.   

“Precisamos do apoio do planeta inteiro, da pressão política de todos os países, da pressão econômica sobre o governo brasileiro para que a gente consiga proteger esse bioma”, clama Salgado. "A Amazônia é brasileira e isso não se discute. Mas a necessidade de proteção do bioma é planetária, porque a distribuição de umidade no planeta vem através dos rios aéreos que saem da Amazônia e vão para o planeta inteiro. A destruição hoje da floresta, através do fogo, é uma liberação de uma quantidade incrível de CO2, verdadeiras bombas atômicas de carbono que o governo brasileiro está provocando. Então, a contribuição hoje do governo do senhor Bolsonaro ao aquecimento global talvez seja a maior jamais feita na história da humanidade”, avalia.

"Quando você vai nas comunidades indígenas, você percebe que está diante da pré-história da humanidade", diz Salgado, que fez quase 50 viagens à Amazônia desde o início da carreira.
"Quando você vai nas comunidades indígenas, você percebe que está diante da pré-história da humanidade", diz Salgado, que fez quase 50 viagens à Amazônia desde o início da carreira. © Sebastião Salgado/ RFI

 

A flexibilização de regras ambientais, o desmonte de estruturas de fiscalização e o incentivo, pelo próprio presidente da República, de atividades ilegais como o garimpo e a grilagem terminam de  desfigurarar a parte leste da Amazônia, cobiçada e apropriada pela agricultura intensiva. Para as suas viagens à floresta, Salgado dialoga há décadas com as instituições ambientalistas encarregadas da proteção da região, como o Ibama e a Funai. Entretanto, sob o atual governo, essas entidades se descaracterizaram em proveito do agronegócio, acusa o fotógrafo.

“O número de multas é o menor que já existiu na Amazônia. O Ibama não funciona mais na Amazônia, não tem mais nenhuma capacidade de pressão e de controle e proteção do bioma”, aponta. "A Funai hoje é uma instituição de proteção do agronegócio agressivo, destruidor. Antes, a Funai sempre teve grandes sociólogos, antropólogos na direção. Teve até um general e, hoje, é um policial federal. É um policial sem nenhuma formação para o cargo, de forma alguma preparado para essa função. É uma correia transmissora de destruição do bioma amazônico”, critica.

Indígenas “representam o paraíso na Terra”

A viagem à floresta pelas lentes de Salgado tem trilha sonora de Villa-Lobos com verdadeiros sons da floresta, coletados desde os anos 1950 e armazenados no Museu Etnográfico de Genebra, parceiro do evento. A composição é do francês Jean-Michel Jarre, considerado um dos pais da música eletrônica. A exposição conta ainda com depoimentos de 10 povos indígenas – que expõem um verdadeiro pedido de socorro diante do avanços dos tratores sobre as suas terras.

"Quando você vai nas comunidades indígenas, você percebe que está diante da pré-história da humanidade. Eles não têm maldade, não têm mentira, não conhecem a repressão nem a competição. Eles vivem de uma maneira tão pura que eles representam, talvez, um conceito que para nós, no mundo cristão, marca o início da nossa história: o paraíso. O paraíso existe na Terra e ele está lá”, analisa o fotógrafo. “Eles são como nós. É fenomenal reencontrar esse início da nossa história, e é por isso que precisamos respeitá-los."

Sebastião Salgado, Lélia Wanick Salgado e o compositor Jean-Michel Jarre, que compôs a trilha sonora da exposição Amazônia para a Filarmônica de Paris.
Sebastião Salgado, Lélia Wanick Salgado e o compositor Jean-Michel Jarre, que compôs a trilha sonora da exposição Amazônia para a Filarmônica de Paris. © Lúcia Müzell/ RFI

 

A exposição Amazônia será itinerante – passará por Roma, Londres, São Paulo e Rio de Janeiro nos próximos meses – num roteiro que ainda pode ser ampliado.

“A floresta é indescritível, de tão imensa, tão fantástica. Ver a chuva na Amazônia é como assistir a uma explosão atômica diante de nós. É inacreditável”, descreve. "Eu tenho uma grande esperança que essa imensa destruição provocada pelo governo Bolsonaro está causando, ao mesmo tempo, uma enorme frente de resistência. O primeiro lugar de frente de resistência que está sendo criada é dentro do Brasil mesmo. Até um ano e meio atrás, os brasileiros não tinham nenhuma preocupação com a Amazônia. As comunidades indígenas nunca foram ameaçadas como agora, mas jamais foram tão organizadas como estão agora.”

 

 

25
Jul20

Falsa superioridade que reproduz o país patrimonialista e de indigência moral

Talis Andrade

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II - Uma elite sem modos e sem atitude

por CARLA JIMÉNEZ / El País

Faltaram brios também aos empresários mais poderosos do Brasil diante da “boiada” que está passando na Amazônia. Foram fracos em não se posicionar diante dos ataques à floresta nestes últimos tempos. Foi preciso que fundos estrangeiros trilionários ameaçassem retaliar o Brasil para que fossem bater à porta do general Hamilton Mourão com um manifesto contra o desmatamento. Uma carta assinada inclusive pela Vale, cuja atuação em desprezo ao meio ambiente e aos trabalhadores do grupo deixou sequelas profundas em Minas Gerais.

No ano passado, o empresário Blairo Maggi, maior exportador de soja, foi um dos poucos a falar publicamente e chamar a atenção para o risco que o Brasil corria diante dos incêndios na Amazônia. Mostrava o perigo para o agronegócio diante da gestão. “O Brasil tinha subido no muro e passado a perna para descer do outro lado, agora fomos empurrados de volta e para bem longe do muro. Não veja como crítica feroz, mas sim como um alerta”, avisou Maggi.

A lista de desconfortos só cresce. Quanto os bancos se empenharam para que houvesse crédito a empresas neste momento de pandemia? Dados do IBGE revelam que somente 12,7% das empresas tiveram acesso ao crédito emergencial do Governo destinado ao pagamento de salários. O recurso, anunciado em março, estaria disponível através dos bancos. Falhou o Governo em repassar? Quantas vozes se insurgiram contra esse quadro? Não por acaso mais de 700.000 empresas já fecharam em definitivo por causa da pandemia.

A elite brasileira precisa se envergonhar da sua cumplicidade com um Brasil perverso. Em outros países, milionários estão fazendo campanha para aumentar os próprios impostos, contribuindo com movimentos por justiça social. O silêncio dos que detêm dinheiro e poder permitiu que o país se tornasse pária no exterior. Nada mais constrangedor do que ter a chance de evoluir, e calar. Tenham modos, tenham coragem para deixar que o Brasil tenha orgulho de si mesmo.

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29
Mai20

Tem matado os indígenas (e também camponeses e quilombolas) à bala

Talis Andrade

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V - O Nojo

EL PAÍS
 
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O vírus mata cada vez mais nas aldeias indígenas e vai se espalhando pela floresta amazônica. Quando os invasores europeus chegaram, os vírus e as bactérias que trouxeram com eles exterminaram 95% da população indígena entre os séculos 16 e 17. Há chance de que o novo coronavírus produza um genocídio dessa dimensão caso não exista um movimento global para impedi-lo.
 
Bolsonaro já demonstrou que apreciaria se os indígenas desaparecessem ou se tornassem outra coisa. “Humanos como nós”, nas suas palavras. Humanos vendedores e arrendadores de terra, humanos mineradores, humanos plantadores de soja e de cascos de boi, humanos amantes de hidrelétricas, de ferrovias e de rodovias. Humanos que se descolam da natureza e a convertem em mercadoria.
 

São os povos indígenas que colocam literalmente seus corpos diante da destruição da Amazônia e de outros biomas. Mas parte dos apoiadores de Bolsonaro, que hoje também lideram campanhas de “abertura do comércio” nas cidades amazônicas, tem matado os indígenas (e também camponeses e quilombolas) à bala. O vírus pode completar o extermínio de uma forma muito mais rápida e numa escala muito maior. Basta fazer exatamente o que Bolsonaro está fazendo: nada para protegê-los e tudo para estimular a ruptura das regras sanitárias da Organização Mundial da Saúde; nada para protegê-los e tudo para estimular a invasão de suas terras por garimpeiros e grileiros. O que está em curso é exatamente isso: um genocídio.

E também ecocídio, porque na Amazônia esses entes não andam separados. Como sabemos, os destruidores da floresta não fazem home office. O desmatamento avança aceleradamente, aproveitando a oportunidade da pandemia. Os alertas cresceram 64% em abril, depois de já terem batido recordes no início do ano. Bolsonaro demitiu os chefes de fiscalização do Ibama que estavam tentando impedir o massacre da floresta. Está militarizando tanto a saúde, ao colocar militares em postos importantes do ministério, quanto a proteção do meio ambiente, ao subordinar o Ibama e o ICMBio ao Exército nas ações de fiscalização. Em toda a região, camponeses, ribeirinhos e indígenas denunciam que os caminhões cheios de árvores recém derrubadas não param de atravessar as estradas vindos da floresta. Eles gritam. Mas quem os escuta?

Bolsonaro está transformando (também) a Amazônia num gigantesco cemitério. Ele é tão perverso que usa a pandemia para matar a floresta e tudo o que é vivo. O presidente do Brasil pode se tornar o primeiro vilão da história que, sem poder nuclear, tem grande poder de destruição. Sem floresta amazônica não há como controlar o superaquecimento global. Sem controlar o superaquecimento global o futuro será hostil para a espécie humana. Se a Amazônia chegar ao ponto de não retorno, do qual se aproxima velozmente, seu território poderá se tornar um disseminador de vírus nos próximos anos. 

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07
Set19

Amazônia: especialistas franceses debatem princípios de justiça climática

Talis Andrade

Amazônia: especialistas franceses debatem princípios de justiça climática

O debate sobre os incêndios nas florestas tropicais, iniciado com a atual crise na Amazônia, continua em destaque na imprensa francesa. As duas principais revistas semanais do país, a conservadora Le Point e a progressista L’Obs, trazem reflexões sobre os instrumentos necessários para preservar a biodiversidade.

 

Em uma reportagem de cinco páginas, a revista Le Point mostra que, em pouco mais de dez anos (2003-2014), os incêndios no conjunto das florestas tropicais do planeta lançaram 425 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera, reforçando o aquecimento global.

O botânico Francis Hallé, um dos maiores especialistas franceses nessa área, diz que a rigor o mundo sobreviveria ao desaparecimento da floresta Amazônica, mas não ao conjunto das florestas tropicais.

O botânico Francis Hallé diz que Mato Grosso atinge ponto de não retorno em artigo da revista Le PointFotomontagem RFI

 

Mato Grosso atinge ponto de não retorno com cultura da soja

Uma grande parte da floresta Amazônica nunca mais será reconstituída, lamenta Hallé. A situação é dramática, constata o botânico, criticando o presidente Jair Bolsonaro por fragilizar o Brasil. “Bolsonaro suprimiu instrumentos de controle ambiental existentes.”

O especialista aponta o desmatamento desordenado ocorrido no Mato Grosso para dar lugar ao cultivo da soja. O estado atingiu um ponto de não retorno, sem árvores suficientes para recuperar o solo e gerar um reflorestamento dessa região da bacia amazônica. Na avaliação do botânico, o papel da Amazônia na regulação do clima faz com que a floresta não pertença exclusivamente ao governo brasileiro, mas seja de interesse da humanidade.

Nicolas Bavarez, editorialista da Le Point, explora a questão da proteção dos bens comuns – florestas, fundo marinho, polos e atmosfera –, que condicionam o futuro do planeta e de todas as populações na Terra.

Na corrida contra o relógio para preservar o que resta, o ensaísta, advogado, pós-graduado em história, ciências sociais e ciências políticas, propõe quatro iniciativas. A criação do estatuto de bem comum da humanidade para os polos e o alto mar; o monitoramento da transparência da informação declarada pelos governos sobre a preservação dos biomas; ajuda financeira dos países ricos para preservar as florestas, uma vez que 80% delas se encontram no Sul, e por meio de tratados de comércio; por fim, o imposto sobre o carbono, considerado a arma econômica mais eficaz para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. “Na era da história universal, a preservação do planeta é a causa com maior capacidade para mobilizar o homem na luta pela sobrevivência”, conclui Bavarez.

Nas páginas da L’Obs, a jurista Valérie Cabanes defende a instauração da noção de “ecocídio” no direito internacional. A violação de biomas e riquezas naturais, com consequências devastadoras para o planeta e a humanidade, deveria ser tratada como crime, defende a jurista, passível de julgamento no Tribunal Penal Internacional. Ela também pede condenação judicial aos dirigentes de empresas que não reduzirem sua pegada de carbono ou minimizarem as consequências de suas atividades para o planeta.

Matéria do jornal L'Obs com a jurista Valérie Cabanes pede condenação judicial aos dirigentes de empresas.

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