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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Dez20

Aplicativo desenvolvido por brasileiro é usado para combater violência doméstica em todo o mundo

Talis Andrade

A melhor maneira de pedir socorro - YouTube

 

Por Ana Carolina Peliz /RFI
 

Desenvolvido por um brasileiro, um aplicativo gratuito que facilita a assistência a pessoas vulneráveis está sendo usado em vários países do mundo para combater a violência contra a mulher. A tecnologia, que pode ser utilizada por qualquer pessoa em perigo, tem funcionalidades que facilitam os pedidos de socorro de vítimas de maus-tratos domésticos.

O aplicativo Linha Direta foi criado em 2017 para facilitar a comunicação entre a polícia do Rio de Janeiro e a população, como conta seu criador, o brasileiro Leonardo Gandelman. Dois anos mais tarde, em 2019, a ferramenta acabou se popularizando entre o público feminino.

“A gente era o canal oficial da polícia militar para a patrulha Maria da Penha (destinada a atender casos de violência contra a mulher) no Rio de Janeiro. Então a gente ouviu muito e focamos muito na violência contra a mulher”, explica.

Segundo ele, as usuárias temiam um aumento das agressões dos parceiros caso estes encontrassem mensagens com pedidos de ajuda em seus celulares.  

“O nosso aplicativo é o único no mundo que fecha automaticamente após o envio do pedido de ajuda”, explica seu criador. O programa também consegue localizar o emissor da mensagem, até mesmo em altitude, e avisa o destinatário da chegada do alerta com uma sirene. “A gente foi ouvindo as mulheres e botando isso dentro do app”, conta Gandelman.

Whatsapp da ajuda emergencial

O funcionamento do Linha Direta, em princípio, não é diferente de outros aplicativos de envio de mensagens. O usuário pode disparar alertas a grupos de amigos ou separadamente. Mas o programa envia também a localização da pessoa que está em situação de perigo e o itinerário para chegar até o local.

“A gente fala que é um Whatsapp de ajuda emergencial”, diz Gandelman. “Nossa diferença é que a gente não tem limite. Você pode mandar (o alerta) para 10 pessoas ou para 1.000.”

Em algumas localidades, também é possível enviar mensagens para embaixadas ou à polícia, como no caso do Rio de Janeiro. Mas muitas mulheres acabam preferindo pedir ajuda para o círculo próximo, para evitar a judicialização dos casos.

De acordo com dados da ONU Mulheres divulgados no fim de setembro, as medidas de lockdown, determinadas para conter o avanço da pandemia de Covid-19, levaram a um aumento das denúncias ou pedidos de ajuda por violência doméstica.

Ajuda fora do Brasil

O aplicativo já é utilizado nos Estados Unidos, em Portugal, na França, Inglaterra, no Equador e Japão e seu inventor trabalha em parceria com diversas organizações internacionais, entre elas a Mulheres do Brasil e seus vários núcleos, inclusive o de Paris. Gandelman também assinou uma parceria com o Conselho Regional de Brasileiros no Exterior (CRBE).

As mulheres imigrantes se encontram frequentemente em situação de isolamento, longe das famílias, muitas vezes sem falar o idioma do país e podem ter mais dificuldades em pedir ajuda. Em setembro deste ano, o assassinato da paranaense Franciele Alves da Silva a facadas pelo marido, o brasileiro Rodrigo Martin, na periferia de Paris, causou comoção entre a comunidade brasileira residente na França.

Apesar de indentificar a localização dos emissores dos alertas, o inventor da tecnologia ressalta que o aplicativo não tem acesso a dados dos usuários. “A comunicação vai direto para uma pessoa, e a gente não fica sabendo o que ela falou”, diz.

O aplicativo Linha Direta tem versões em português, inglês e espanhol. É gratuito e está disponível na Apple Store e no Google play.

 

 
21
Abr20

Pandemia, presidência, psicanálise

Talis Andrade

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Escrevo hoje – e muito – para tentar tecer algum fio ordinário em meio a um contexto extraordinário.

Porque vivemos um contexto extraordinário, certo? Extraordinário sempre me pareceu palavra positiva, feliz, acima da média. Mas é mais. É o que está fora da ordem conhecida, fora do habitual. Só somos habitantes quando habitamos o habitual. Quando deixamos de habitá-lo, saindo do espaço e tempo conhecidos, passamos a estranhos, estrangeiros, desengrenamos a ordem ordinária e caímos na ordem fora da ordem, na extra-ordem, extraordinária.

Com certo grau de ineditismo, em tempos de #fiqueemcasa, estamos estrangeiros dentro de nossa própria habitação, entre as paredes da casa ou as do corpo, que nos enformam e cercam nossos vazios. Desabituamos e desabitamos para, quem sabe, reinventar novas formas de habituar e habitar.

 

Em momentos de caos como o que vivemos, experimentamos desorientação, desconcerto, em alguns casos desespero, ansiedade, pânico. De onde tirar forças para suportar o mundo e nos suportar? Talvez daquilo que fizemos com o que fizeram de nós. Ou seja: desfolhando os discursos inumeráveis que nos formaram, que foram desde o nascimento inscritos em nós. Lançando mão da linguagem que, sim, nos habita, para buscar algum equilíbrio e tentar, no cenário extraordinário, alguma ordem estruturadora. Não é simples, vai além da força de vontade. Afinal, não somos formados apenas por discursos que nos fortalecem, somos resultado também de encontros feitos de medo, de indiferença, de violência, que podem vir à tona sem que saibamos muito bem de onde brotam, podem surgir silenciosos no corpo, amortecem, arrepiam, provocam insônia, palpitação. E cenários catastróficos múltiplos podem entrar na dança do imaginário.

Na busca por linha-guia, outra forma de encontrar suporte está no encontro com o outro, esse ao nosso lado, pai, mãe, esposa, marido, filhos, amigos, namorada, namorado. Em vez de enfrentarmos tudo sozinhos, recorremos a esse pequeno outro, gente como a gente, que nos ajuda a estabelecer contato horizontalizado, de igual para igual. São pessoas queridas que também estão perplexas e que, talvez unidas, possam proporcionar alívio mútuo.

Pois bem: um recurso para lidar com o extraordinário é, então, olhar para dentro, descobrir ali os discursos que nos habitam e que podem nos dar suporte ou nos fazer desmoronar. Outro recurso é olhar para os lados, encontrando no outro um consolo, a piada que distrai, o abraço do corpo ou da palavra.

Mas há ainda uma terceira forma possível: a que olha para cima. Que cria uma relação vertical, obriga-nos a erguer o pescoço e nos faz pequenos.

Consigo pensar em dois modos de buscar socorro em tempos extraordinários olhando para cima: o primeiro é recorrer, lá no alto, a um Deus. Uma entidade que sabe o que está fazendo, que tem planos para todos, que leva embora quem ele acha que já cumpriu missão na terra. Uma entidade que transcende esse mundo natural e limitado, algo sobrenatural, extranatural, igualmente extraordinário. Trata-se de depositar na vontade divina o plano da salvação. A segunda forma é olhar para cima a fim de encontrar um líder, humano mesmo, do mundo natural, seja um pai, que nos foi dado pela contingência, seja alguém escolhido pela maioria por sua excelência em coordenar anseios coletivos, capaz de liderar um conjunto de individualidades que abstratamente chamamos de nação.

(Talvez sejam desnecessários esses parênteses, mas as três formas de lidar com o extraordinário – dentro, lado, alto – não se excluem.)

Eu acharia muito útil, por exemplo, viver em um país cuja autoridade principal fosse capaz de dizer a seus conterrâneos: vamos fazer um isolamento total até o dia x. Depois disso, conforme apontarem os principais consensos científicos e os números – corretamente apurados –, tomaremos novas decisões, tendo em vista o amparo necessário aos mais vulneráveis social e fisicamente, mirando a vida como valor maior.

Quando Nietzsche disse que Deus estava morto, não era o filósofo quem o estava matando. Ele apenas constatava que a figura, lá em cima do eixo vertical, se fragilizava a ponto de ser pulverizada, desmanchada. O pai, o professor, o padre, o patrão. O presidente. Essa coincidente sequência de pês, na direção da qual costumávamos olhar e seguir, caiu. Ficamos a ver navios, pois nos céus nada mais havia. (Continua)

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