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O CORRESPONDENTE

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O CORRESPONDENTE

23
Jan23

Lula inicia a volta do Brasil ao cenário internacional a partir da Argentina

Talis Andrade

Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva acompanhado pelo Ministro das Relações Exteriores da Argentina Santiago Cafiero na sua chegada em Buenos Aires, em 22 de janeiro de 2023.
Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva acompanhado pelo Ministro das Relações Exteriores da Argentina Santiago Cafiero na sua chegada em Buenos Aires, em 22 de janeiro de 2023. AFP - IRINA DAMBRAUSKAS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa nesta segunda-feira (23) na Argentina uma visita oficial durante a qual vai relançar o vínculo estratégico com a Argentina, ponto de partida para a reinserção do Brasil como ator global. O novo governo procura recuperar o terreno perdido durante a gestão anterior com vários projetos entre os quais um gasoduto que transporte gás da Argentina ao Brasil, dinamizando as duas economias. Lula pode também ter reunião com o venezuelano Nicolás Maduro.

A viagem do presidente Lula à Argentina marca o retorno do Brasil à tradição bilateral de que o novo presidente de um país tenha o vizinho como primeira escala internacional, uma tradição iniciada em meados de 1980, quando Brasil e Argentina se tornaram o eixo da integração regional.

Esse vínculo estratégico foi interrompido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2019, quem também deu as costas aos demais países vizinhos, isolando o Brasil na região.

Durante os últimos três anos, desde que Alberto Fernández assumiu o poder, Bolsonaro não visitou a Argentina por razões ideológicas, irritado desde que Alberto Fernández visitou o amigo Lula na prisão em Curitiba em 2019.

Para o Brasil, a inserção internacional brasileira ganha projeção ao ter integrado um sócio relevante como a Argentina. Por sua vez, a inserção internacional da Argentina passa pela aliança estratégica com o Brasil. A visita de Lula restabelece o vínculo bilateral mais importante para o Brasil, aquele que lhe permite liderar uma região.

“A visita de Lula implica um restabelecimento do vínculo bilateral e um papel de liderança do Brasil. Lula representa a normalização dos vínculos bilaterais entre os dois sócios estratégicos, depois do rompimento por parte da gestão de Jair Bolsonaro dessa tradição da política externa brasileira”, avalia à RFI o cientista político, Sergio Berensztein, uma referência na Argentina.

 

Soberania energética

 

Os dois países vão assinar entendimentos em matéria de soberania energética, integração financeira, defesa, saúde, ciência, tecnologia e inovação, além de um acordo de cooperação Antártico.

O mais estratégico a médio prazo é o de soberania energética que prevê a construção de um gasoduto entre a reserva patagônica de Vaca Muerta, a segunda maior jazida de gás de xisto e a quarta de petróleo não-convencional do mundo, até o Sul do Brasil.

A guerra na Ucrânia gerou oportunidades e urgências em matéria energética. Em Vaca Muerta, há suficiente gás para abastecer toda a Europa. Porém, faltam à Argentina recursos financeiros para construir um gasoduto e uma planta que permita exportar essa energia.

A Argentina também se entusiasma com o mercado brasileiro, enquanto o Brasil tem interesse em garantir a sua segurança energética, diminuindo a dependência do gás boliviano.

Para isso, a Argentina quer que o Brasil financie, através do BNDES, a construção do gasoduto. O que mais aparece avançado, no entanto, é o papel do BNDES como financiador dos canos de aço para o gasoduto. Esses canos são produzidos no Brasil pela empresa argentina Techint. O Brasil financiaria essas exportações à Argentina.

Essa obra estratégica dinamiza a economia dos dois países e gera um grande interesse entre os empresários.

“Interessa ao Brasil o gasoduto de Vaca Muerta até o Sul do Brasil, criando uma alternativa ao gás da Bolívia e barateando custos. Há muitos negócios que surgem a partir disso. Esse abastecimento tem potencial para ser um dos eixos estratégicos da relação bilateral”, indica Sergio Berensztein.

Lula chegou a Buenos Aires no domingo, 22 de janeiro de 2023, para se reunir com o presidente argentino Alberto Fernández e participar da Cúpula da Celac. Na foto, com sua mulher Rosangela "Janja" da Silva e o chanceler argentino, Santiago Cafiero.
Lula chegou a Buenos Aires no domingo, 22 de janeiro de 2023, para se reunir com o presidente argentino Alberto Fernández e participar da Cúpula da Celac. Na foto, com sua mulher Rosangela "Janja" da Silva e o chanceler argentino, Santiago Cafiero.AFP - IRINA DAMBRAUSKAS

Moeda comum

O capítulo mais polêmico se relaciona à chamada integração financeira. Haverá um memorando de entendimento para começar a estudar a possibilidade de uma moeda em comum, além de outros instrumentos financeiros compartilhados.

O lado polêmico está na confusão entre moeda em comum e moeda única. Uma moeda única significaria substituir o real brasileiro ou o peso argentino por outra moeda, a exemplo do euro na União Europeia. Esse projeto não aparece no horizonte.

No caso de uma moeda em comum, a ideia passa por uma unidade virtual de valor que diminua o uso e a dependência do dólar. Essa unidade seria uma referência para operações de importação e de exportação no comércio bilateral. Uma unidade que surgiria na hora de fazer a compensação comercial. O projeto é ainda embrionário.

As reservas do Banco Central argentino são escassas. Diante da falta de dólares, a Argentina tenta avançar com qualquer projeto que traga alívio. Um deles remete à possibilidade de um mecanismo de “swap”, um intercâmbio de moedas, entre peso e real, nas operações comerciais com o Brasil. É um mecanismo entre Bancos Centrais ao que a Argentina poderia recorrer se ficasse sem dólares para as importações vindas do Brasil.

“Trata-se de uma moeda essencialmente contábil e aplicável ao comércio bilateral Brasil-Argentina, afastando a necessidade de usar dólares americanos que, para a Argentina sobretudo, é crucial, devido à carência de reservas internacionais no Banco Central. Os acordos financeiros e econômicos realizados entre os dois países e pactados em dólares passariam a essa moeda virtual”, explica à RFI o analista internacional argentino, Jorge Castro.

“Na Argentina, existe uma expectativa de que com a chegada de Lula ao poder, existem chances concretas de uma dinâmica de cooperação para melhorar a situação das reservas, mas tanto o ‘swap’ quanto a ‘moeda comum’ não parecem realizáveis a curto prazo”, observa Berensztein.

 

Agenda pode incluir Nicolás Maduro

 

O presidente Lula estará na Casa Rosada com o presidente Alberto Fernández no final da manhã desta segunda-feira, onde vão assinar todos esses entendimentos e explicá-los à imprensa.

Na parte da tarde, ainda na Casa Rosada, haverá um encontro com referentes de organismos de Direitos Humanos na Argentina e uma reunião com cerca de 300 empresários, sendo 50 deles brasileiros.

Essa elevada quantidade de empresários indica a expectativa de retomada de negócios entre os dois países, a partir da maior sintonia entre os presidentes Lula e Alberto Fernández.

Lula deve ter uma reunião com a vice-presidente Cristina Kirchner, antes de um evento à noite cultural com artistas argentinos e brasileiros.

É possível que Lula se reúna ainda nesta segunda-feira (23) com o venezuelano Nicolás Maduro, mas o mais provável é que a reunião aconteça nesta terça-feira (24) no final da reunião de Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC). Também haverá uma bilateral com o cubano Miguel Díaz-Cané.

Brasil e Venezuela estão próximos de restabelecerem relações diplomáticas com a reabertura da Embaixada do Brasil em Caracas, depois da ruptura durante o governo Bolsonaro.

08
Fev22

LAVA JATO PRENDEU ALMIRANTE OTHON A SERVICO DOS INTERESSES DOS EUA

Talis Andrade

eletronuclear.jpeg

 

 

Por Miguel do Rosário

 

Quando historiadores se debruçarem sobre a Grande Guerra Jurídica (lawfare, em inglês), iniciada em março de 2014, com a Lava Jato, e que hoje vive seus últimos estertores, deverão prestar atenção especial a um de seus capítulos mais grotescos e emblemáticos: a prisão e condenação do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. 

Sigam a linha do tempo. Ela vai nos ajudar a entender o desenvolvimento não apenas de uma brutal injustiça, mas de algo bem mais sinistro: o ataque à soberania energética do país. 

Em alguns momentos sairei da ordem cronológica, mas logo volto. 

Em 8 de abril de 2015, o então ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, foi o principal convidado da Comissão de Infraestrutura do Senado, onde apresentou o projeto do governo federal para os investimentos em energia nuclear ao longo dos anos seguintes. 

Braga disse que o governo planejava ter um total de 15 usinas nucleares em operação no Brasil até 2050, e informava que o Ministério da Fazenda já havia liberado os recursos para a conclusão das obras de Angra 3. 

Para efeito de comparação: os Estados Unidos, que são o maior produtor mundial de energia nuclear, possuem hoje 99 reatores nucleares em funcionamento, contra apenas 2 do Brasil. A energia nuclear corresponde a cerca de 20% da matriz energética dos EUA, e 10% do mundo. Alguns países são especialmente dependentes da energia nuclear, como França (onde a energia nuclear corresponde a 71% da matriz), Bélgica (50%), Suécia (40%), Suíça (33%) e Coréia do Sul (27%).

No caso do Brasil, a energia nuclear responde por apenas 3% da nossa matriz. 

O Almirante Othon Pinheiro foi preso no dia 28 de julho de 2015, por determinação do então juiz Sergio Moro. O despacho de Moro é uma obra de ficção jurídica, oportunismo político e crueldade humana.  Dou um exemplo de crueldade: Moro fez questão de autorizar, no texto, o uso de algemas num senhor quase octogenário, que era o mais importante engenheiro nuclear do país. 

Ainda em julho de 2015, a Eletrobras, controladora da Eletronuclear, pressionada pela Lava Jato, assinou seus primeiros contratos com a Hogan Lovells, consultora americana especializada em crises. Os valores começam em alguns milhões, mas logo atingirão, em poucos anos, o montante de quase R$ 400 milhões, segundo apuração da revista Época, publicada em 26 de janeiro de 2018. 

Alguns meses depois, em setembro de 2015, a Lava Jato ganhou seu primeiro prêmio internacional, concedida pelo Global Investigations Review (GIR), um “site jornalístico” especializado em investigações sobre corrupção, sobretudo aquelas conectadas ao famigerado Foreign Corrupt Act, uma lei americana que permite à justiça americana processar empresas estrangeiras. Com base nessa lei, empresas como Odebrecht, Eletrobras e Petrobras iriam desembolsar bilhões de reais em multas a acionistas privados americanos ou ao governo do país.  

Na cerimônia de premiação, três procuradores da Lava Jato estiveram presentes em Nova York, representando uma equipe de onze membros: Carlos Fernando dos Santos Lima, Deltan Martinazzo Dallagnol e Roberson Henrique Pozzobon.

Enquanto os procuradores participavam do regabofe em Nova York, a Eletrobrás anunciou a paralisação das obras de Angra 3. Até hoje, fevereiro de 2022, elas não foram retomadas.

A propósito, em outubro de 2015, a Petrobras divulgou um comunicado, admitindo que tinha contratado empresas americanas de advocacia, como a Gibson, Dunn & Crutcher LLP, para lidar com a crise provocada pela Lava Jato. Algum tempo depois, o Conjur publicaria uma reportagem informando que a Petrobras pagou R$ 573 milhões a escritórios americanos de advocacia. 

O Global Investigations Review, que deu o prêmio a Lava Jato, é um site patrocinado e controlado por grandes firmas de advocacia. Entre elas, a Hogan Lovells e a Gibson, Dunn & Crutcher. 

Vamos saltar alguns anos. Em 27 de setembro de 2021, Wilson Ferreira Jr, ex-presidente da Eletrobrás, e hoje à frente da Vibra Energia, antiga BR Distribuidora, declarou amargamente, em entrevista ao jornal O Globo, que “se Angra 3 estivesse aqui, estaríamos com certeza sem problema e com um custo bem menor”. Naquela data, o Brasil vivia a pior crise hídrica em 91 anos, e que apenas havia sido contornada pelo uso intensivo de nossas termoelétricas, movidas a diesel, carvão e gás natural. 

Ferreira lembrava que, das 430 usinas termonucleares em operação no planeta, Angra 1 e 2 estavam entre as dez mais eficientes. 

Em novembro de 2021, o jornal Valor Econômico publicou estudo feito por três conceituadas organizações, o Instituto Clima e Sociedade (iCS), o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e o Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), segundo o qual a crise hídrica daquele mesmo ano iria custar, numa estimativa conservadora, R$ 144 bilhões aos contribuintes brasileiros. 

Taí mais uma conta para espetar nas costas da Lava Jato!

Voltemos ao caso do almirante. Essa história deve ser contada e recontada, para que, no futuro, não venha a se repetir. (Continua)

Angra 1

A usina nuclear Angra 1 da Eletrobras (Foto: Vanderlei Almeida/Getty Images)

Angra 1 da Eletrobras (Foto Vanderlei Almeida)Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (Angra 1), situada no município de Angra dos Reis, Rio de Janeiro.

 Angra 2
Angra 3
Usina Nuclear de Angra 3 e a Operação Lava Jato, artigo de Heitor  Scalambrini Costa
RETOMADA DE ANGRA 3 TERÁ NOVO PASSO NA SEMANA QUE VEM E ELETRONUCLEAR  ESTUDA AMPLIAR OS CICLOS DE SUAS USINAS | PetroNotícias
 
Angra 3, paralizada pelos traidores da Pátria, pelos inimigos do Brasil
 

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