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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

22
Mai21

Massacre do Jacarezinho, mais um capítulo do racismo e do genocídio negro brasileiro

Talis Andrade

bolsonaro witizel doria agressor chacinas.jpeg

 

 

Por Sheila de Carvalho, Douglas Belchior e Jaime Alves /Folha de S. Paulo

Situação exige posicionamento da sociedade civil, da comunidade internacional e do sistema ONU; Coalizão Negra por Direitos convoca protestos 

Em 1951, o movimento pelos direitos civis nos EUA acusava aquele país de genocídio de sua população negra por meio da histórica petição “We Charge Genocide”. O documento fazia um paralelo entre “o assassinato bárbaro de milhōes de judeus” e “os negros mortos por causa de sua raça”. Também na África do Sul ativistas negras e negros sul-africanos chamaram a atenção do mundo por mais de quarenta anos para o terror racial do apartheid, levando a ONU a condenar o regime em 1973 e declarar sanções econômicas nos anos seguintes.

O movimento negro brasileiro tem sistematicamente pedido a solidariedade do mundo para denunciar o genocídio antinegro colocado em curso pelo Estado brasileiro. É genocídio! Tomando a definição da ONU, da qual o Brasil é signatário, “entende-se por genocídio (…) atos cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Quando se olha para o número de mortes de negros pelo Estado brasileiro, evidencia-se esse processo. Somente no ano de 2020, mais de 5.600 pessoas foram mortas pelas polícias no Brasil. Há mortes sistemáticas de jovens negros e negras nas periferias brasileiras. Pelo menos 75% das vítimas do terror policial pertencem a esse grupo racial.

chacina do Jacarezinho contabiliza, até o momento, ao menos 29 mortes. Vidas e histórias exterminadas pelas forças do Estado, sem respeito e nenhum direito previsto em lei. Corpos cuja humanidade e cidadania são negadas na vida e na morte. Assassinatos resultantes de uma operação policial ilegal e proibida pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Desde junho de 2020 até março deste ano, mais de 823 pessoas foram mortas em operações policiais, mesmo com a proibição da Suprema Corte (ADPF das Favelas).

Vivemos em um país no qual amanhã poderemos estar mortos pelo fato de sermos negros. Seja pelo coronavírus, seja pela fome, seja pela bala, o projeto político e histórico de genocídio negro avança no Brasil. Mas a sociedade não acredita nisso, ou não se importa.

bala

Até quando as manifestações, a elaboração e os apelos do movimento negro brasileiro serão ignorados? O que vimos no Jacarezinho foram execuções sumárias de indivíduos eleitos como inimigos públicos por sua origem racial. A cor dos mortos nesta e nas inúmeras operações policiais nas periferias urbanas do país revelam a prática sistemática do genocídio da população negra brasileira.

A situação exige um posicionamento da sociedade civil brasileira, da comunidade internacional, do sistema ONU e da sociedade civil global acerca do que vivemos.

Neste 13 de maio, Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo, a Coalizão Negra por Direitos, uma aliança que reúne mais de 200 organizações de todo país, convoca manifestações em todos os estados pelo fim do genocídio negro, das operações policiais assassinas, das chacinas de todo dia e pela construção de mecanismos objetivos de controle social da atividade policial.

Nem bala, nem fome, nem Covid. Queremos viver!

Não esqueceremos a chacina do Jacarezinho.

Vidas Negras Importam.

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11
Mai21

Almoço indigesto

Talis Andrade

 

por Daniela Thomas, Mari Stockler, Marina Dias, Keila Grinberg, Mariana Lima e Sheila de Carvalho

- - -

Este, seguramente, será o mais triste Dia das Mães da história do nosso país. Com o aumento de 22% ou 275 mil mortes por causas naturais, registrados em 2020, somados aos quase 420 mil mortos confirmados em decorrência do covid-19, teremos milhões de mães e filhos que chorarão seus mortos no dia inventado para celebrar a vida. Este deveria ser o dia dos reencontros, dos abraços apertados, da comunhão de famílias em torno da mesa farta, de colocar a conversa em dia, mas ao invés disso a pandemia nos exigirá abnegação, recato, recolhimento.

Entre tantas mães e filhos pranteados nesse dia tornado terrível pela pandemia em descontrole proposital, deveremos somar as vítimas da inacreditável chacina ocorrida em 6 de maio na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Essas mães e avós, em particular, fazem ecoar em nossas consciências e corações a dor das mães e filhos, negras e negros que desde sempre choram seus filhos e irmãos mortos em confrontos fabricados neste país ainda às voltas com sua herança escravocrata, profundamente injusto e racista.

Choraremos também pelas mães condenadas à miséria que sofrem por não poder alimentar seus filhos. São milhões de famílias que retornam à miséria absoluta e outras milhões que vivem a insegurança alimentar trazida pela pobreza, pela inatividade econômica que têm origem tanto nos efeitos da crise sanitária, como na indiferença e inação do poder público.

Devemos estar atentas também ao aumento da violência contra as mulheres que cresceu 97% durante a pandemia.

Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se não tivéssemos um governo federal que pratica sem pudores as mais perversas formas de necropolítica, promovendo o genocídio sem precedentes de brasileiros. E não podemos também perder a perspectiva particular da polícia e do governo do Rio de Janeiro, que nesta semana exemplifica de maneira inequívoca um genocídio que ocorre cotidianamente no Brasil desde muito antes da pandemia, que é o da juventude negra.

Este dia das mães também cai justamente na semana em que o luto foi ampliado com a perda do jovem, brilhante e amoroso Paulo Gustavo. Uma tristeza se pensarmos que ele nos presenteou com uma das mais emblemáticas mães da dramaturgia brasileira, a extraordinária dona Hermínia, de ‘Minha Mãe é uma Peça’.

Paulo Gustavo mostrou o caminho do amor irrestrito, antídoto de todo preconceito. Diante de tanta dor, não há nada o que celebrar.

É neste contexto que nós, mulheres, mães, filhas, pedimos espaço para questionar as 40 mulheres empresárias que almoçaram com o presidente Jair Bolsonaro semana passada. É preciso perguntar: o que faziam no almoço homenageando aquele que é considerado o pior chefe de Estado do mundo no enfrentamento da pandemia, um presidente que age na contramão dos cientistas e autoridades sanitárias de todo o planeta?

A foto exposta na internet é uma mensagem enviada ao futuro. Ali estarão fixados para sempre os seus rostos, todas brancas, sem máscaras e sem empatia, que em nome da manutenção de seus privilégios de empresárias, fizeram questão de posar e mostrar seu apoio ao pior gestor do mundo no combate à pandemia. A história não será complacente com vosso gesto.

Queremos reafirmar aqui, no mais profundo luto, nossa solidariedade pelo próximo e nosso respeito pelos que se foram, lutando contra toda forma de genocídio. Que este Dia das Mães tão rodeado de tristezas seja uma oportunidade para a nossa indignação contra quem promove, perpetra e apoia tanta mortandade.

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