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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

19
Dez20

No caso do assédio a Alesp julgará a si mesma 

Talis Andrade

 

por Janio de Freitas /UOL

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Difícil saber para onde caminha a humanidade. Mas quem vê a caminhada do deputado estadual paulista Fernando Cury (Cidadania) precisa rumar para o outro lado. Foram apenas seis passos. Cury aproximou-se da deputada Isa Penna (PSOL) no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo. Posicionou-se sorrateiramente atrás da colega. Colou nela. Apalpou-lhe o seio. O vídeo é aviltante.

Isa denunciou Cury à Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo. Acusou-o do crime de importunação sexual. No papel, rende cadeia —de um a cinco anos. No mundo real, resulta em impunidade. A deputada também representou contra o apalpador na Comissão de Ética da Assembleia Legislativa. A análise do caso não definirá apenas o futuro de Cury. A Alesp julgará a si mesma.

Cury disse o seguinte em sua defesa: "Não houve [...] tentativa de assédio, de importunação sexual ou qualquer outra coisa com algum outro nome semelhante a esse. Se a deputada Isa Penna se sentiu ofendida com o abraço que eu lhe dei, eu peço desculpas por isso. Desculpa se eu a constrangi."

Ficou entendido que o cérebro de Cury começa a funcionar no momento em que o deputado acorda e não para até que ele vislumbre, no plenário da Assembleia, um seio desprevenido. Quando isso ocorre, as mãos do parlamentar perdem o contato com seus neurônios. Foi num desses momentos que Cury achou que seria uma boa ideia abraçar a deputada Isa por trás, com a mão na altura do busto.

Levando-se o raciocínio do personagem às últimas consequências, a deputada ultrajada talvez devesse agradecer ao importunador pela civilidade da importunação. Vivo, Darwin diria que certos personagens pararam de evoluir. Pior: começaram a fazer o caminho de volta. Resta agora saber que instituição a Assembleia Legislativa de São Paulo deseja ser. O conceito da Casa não oferece bom prenúncio.

 

18
Dez20

'A experiência no parlamento é muito machista, muito violenta', diz deputada Isa Penna sobre importunação sexual na Alesp

Talis Andrade

Hipocrisia moralista volta-se contra a deputada estadual Isa Penna -  CartaCapital

G1- A deputada Isa Penna (PSOL) disse que ocupar um cargo político no Brasil é uma experiência extremamente violenta para as mulheres.

Vídeo gravado (veja abaixo) por câmera da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) mostra o deputado passando a mão no seio da parlamentar durante sessão extraordinária para votar o orçamento do estado na noite de quarta-feira (16).

Em primeiro lugar, [me senti] violada, as minhas prerrogativas enquanto deputada. Enquanto mulher, não é a primeira vez que passo isso. A experiência no parlamento é muito machista, muito violenta. A experiência na política para as mulheres, ela é muito violenta", disse Isa em entrevista ao Bom Dia São Paulo.

A deputada também denunciou Cury por decoro parlamentar e pediu a cassação do mandato do deputado ao Conselho de Ética da Assembleia.

Espero que esse caso não seja tratado de forma leviana, arrastada, até ser arquivado", afirmou.
 

Pelas imagens, é possível ver Cury conversando com outro deputado. Depois, ele faz um movimento em direção à deputada Isa Penna, que está apoiada na mesa diretora da Casa, e volta a conversar com outro parlamentar, que tenta segurá-lo, mas se dirige novamente à deputada. Cury, então, encosta por atrás na deputada, passa a mão no seio dela. Imediatamente, Isa Penna tenta afastá-lo.

Nesta quinta (17), por meio de nota, a deputada relatou que ela e outras parlamentares já foram assediadas em outras ocasiões.

"A deputada Isa Penna é conhecida por atuar em prol do combate à violência contra as mulheres e afirma que a violência política de gênero que sofreu publicamente na ALESP infelizmente não é um caso excepcional, dado que ela e as deputadas Mônica Seixas e Erica Malunguinho, do mesmo partido, já foram assediadas em ocasiões anteriores", diz a nota.

Em discurso no plenário, Isa Penna também relatou que o caso não era isolado.

“O caso que a gente vive não é isolado. A gente vê a violência política e institucional contra as mulheres o tempo todo. O que dá direito de alguém encostar numa parte íntima do meu corpo? Meu peito é íntimo. É o meu corpo. Eu estou aqui pedindo pelo direito de ficar de pé e conversar com o presidente da Assembleia sem ser assediada”, afirmou Isa Penna.

 

Me sinto exposta e violada, diz deputada vítima de abuso na Alesp

 

CNN - "Eu me sinto absolutamente exposta, eu me sinto absolutamente violada em diversos sentidos. Seja pelas minhas prerrogativas enquanto mulher eleita, pela prerrogativa das minhas funções, exercendo meu trabalho, exercendo meu papel ali, discutindo o orçamento. Eu me sinto enojada", afirmou a deputada, entrevista pela âncora da CNN Monalisa Perrone.

A parlamentar registrou boletim de ocorrência a respeito do fato, acusando o colega do crime de importunação sexual, que, de acordo com o artigo 215-A do Código Penal, significa "praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro".

"O assédio é uma constante nos espaços políticos de poder", disse Isa Penna, rememorando a sua vivência também como vereadora de São Paulo, quando ocupou mandato parlamentar enquanto suplente.

A deputada do PSOL afirma que essa banalização de situações como a que foi gravada é perceptível por características da própria cena, que foi gravada durante uma sessão do plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e na frente do presidente da Casa, o deputado estadual Cauê Macris (PSDB).

"Tinham as câmeras, tinha o presidente. E ele se sentiu livre, se sentiu à vontade", afirma Isa Penna. "Ele não considera as mulheres tão dignas de respeito quanto ele, enquanto ser humano. Ainda que ele não tenha total consciência disso, ele deu uma demonstração clara da onde ele vem, da onde vem essa formação". 

A parlamentar defende uma reação política ao episódio, mas diz ter pouca esperança de que isso se concretize. "Nunca eu vi um deputado sequer sofrer uma sanção", afirma. "O espaço do parlamento é violento, o assédio é cotidiano".

 

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