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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

25
Jul22

Professora atacada por usar Luis Fernando Verissimo em aula de escola do governador Ratinho bolsonarista 

Talis Andrade

Obra Questionada

 

Patrulha e ofensas contra a professora e a direção da escola

 

por Marcelo Menna Barreto /Extra Classe

 

A ideia de discutir literatura ao ar livre com livro de Luis Fernando Verissimo acabou gerando ataques à professora Cláudia Mendonça Portero no município paranaense de Primeiro de Maio (460 quilômetros de Curitiba). Ela leciona no Colégio Estadual Marechal Castelo Branco naquela cidade há dois anos e informou que a aula para alunos do 7º e 8º ano da instituição abordava crônica, gênero onde Verissimo é considerado um mestre da atualidade.Verissimo: humor livre em praça pública

Segundo relata Cláudia, a atividade em uma praça em frente da escola foi feita sob supervisão e aprovação da coordenadoria pedagógica. O livro utilizado de Verissimo, Sexo na Cabeça (Editora Objetiva), em nenhum momento, enfatiza a professora, trata do assunto de forma explícita ou pornográfica e foi um entre 20 indicados para a leitura dos alunos. “Na realidade, tinha oito títulos do Luis Fernando Verissimo. A palavra sexo no título é que causou isso tudo”, diz a professora.Verissimo: humor livre em praça pública

Luis Fernando Verissimo, inclusive, integra os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), as diretrizes elaboradas pelo governo federal para orientar a educação brasileira). É um dos autores recomendados pelo livro didático voltado para os estudantes do 7º ano, registra. “Os alunos tiveram lá o acesso a uma pequena biografia do autor”, fala Cláudia.Verissimo: humor livre em praça pública

Patrulha e ofensas

 

A professora disse que ao chegar à praça, “tinha três mulheres, uma com uma criança de colo, e essas mulheres ficaram olhando a minha aula e os livros que eu estava trabalhando, também”.Verissimo: humor livre em praça pública

No outro dia, 17 de março, apesar de ter saído com a certeza de que os seus alunos “adoraram” o trabalho, a professora tomou conhecimento por seus colegas que havia em um dos conhecidos grupos de WhatsApp de fofocas na cidade uma série de ataques a sua reputação e também ofensas dirigidas ao corpo diretivo do Colégio.Verissimo: humor livre em praça pública

“Fui chamada de pedófila; estão dizendo que na aula abordei assuntos como estupro, aborto, orgia. Um monte de mentiras”, diz Cláudia indignada. Ela relata também que o grupo mobilizado especialmente por duas mães chegou a fazer uma reunião, chamando os alunos e entraram com uma denúncia no MPPR que solicitou esclarecimentos à direção do estabelecimento de ensino.Verissimo: humor livre em praça pública

Ministério Público do ParanáVerissimo: humor livre em praça pública

Em nota, a assessoria de imprensa do Ministério Público do Paraná (MPPR) informou ao Extra Classe: “O Ministério Público do Paraná foi acionado em razão de reclamações formuladas por mães de alunos do Colégio Estadual Mal. Castelo Branco, que noticiavam que a professora teria ministrado aulas utilizando-se dos livros Sexo na Cabeça e Orgia, além de outros no mesmo sentido, do acervo patrimonial da docente, cujo conteúdo foi reputado como inadequado pelas mães, em razão das idades dos alunos (11 e 12 anos). As mães noticiaram que a professora adotaria conduta incompatível com a moralidade esperada na sala de aula, com dizeres de cunho sexual aos alunos. Em razão de tais comunicações, as mães pediram providências do Ministério Público, razão pela qual foi instaurada Notícia de Fato para apuração dos fatos”.

Verissimo: humor livre em praça pública

Apoio à professora e Boletim de OcorrênciaVerissimo: humor livre em praça pública

É nos estudantes que a professora Cláudia tem arregimentado suas forças. “Me sinto fortalecida pela quantidade de alunos que vêm me abraçar. Alguns até chorando”, diz.Verissimo: humor livre em praça pública

Cláudia ainda registra que, além do apoio dos alunos, se ampara e agradece à direção, equipe pedagógica e todos os seus colegas do Marechal Castelo Branco.Verissimo: humor livre em praça pública

Ainda diante dos fatos, um Boletim de Ocorrência (BO) já foi registrado pela professora na delegacia de polícia local, assim como um advogado que a representa já tem se manifestado na ação aberta no MPPR.Verissimo: humor livre em praça pública

No fechamento dessa matéria, Extra Classe foi informado que as duas mães que estão questionando a professora estão arregimentando um grupo de pais para pressionar a exoneração da professora em frente ao MPPR.

Verissimo: humor livre em praça pública

Este correspondente usou retratos de Verissimo pelos melhores cartunistas do país - "melhores depos dele, claro", conforme reportagem de Stela Pastore in Extra Classe

15
Jul22

Violação: Mulheres sofreram abusos sexuais como forma de repressão

Talis Andrade

mulheresunidas por Schröder.jpg

 

DITADURA MILITAR

Em entrevista à Imprensa SMetal, a socióloga e especialista em psicopedagogia, Carolina Canon, comenta sobre como o "ser mulher" foi decisivo para as violações dos direitos humanos na Ditadura Militar

 

Foi em um 31 de março que o Brasil dormiu em um regime democrático e acordou com uma ditadura que perseguiu, torturou e matou centenas de pessoas, entre de 1964 e 1985, incluindo jovens, mulheres e crianças. Há 57 anos, era instaurado o regime militar no país e, até os dias de hoje, há discussões sobre as violações gravíssimas aos Direitos Humanos registradas no período.

Nessa esteira, as mulheres fazem parte de um grupo que, além de suportar as violências à carne, precisaram se deparar com violações de gênero. O estupro e os abortos causados pelas inúmeras torturas, são a ponta de um iceberg muito maior do que isso. Para dar conta da questão, o Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal) conversou com a socióloga e especialista em psicopedagoria, Carolina Canon, para abordar ponto a ponto a questão. 

Confira entrevista na íntegra:

 

SMetal: Durante o período do regime militar, a questão de gênero foi usada como uma das formas de tortura. Sociologicamente, como podemos entender esse “fenômeno”?

Carolina: Historicamente, os papeis de gênero nas sociedades ocidentais são pautados por estruturas patriarcais. Não é à toa que, somente a partir da década de 1960, com intensificação das lutas do movimento feminista em diversos lugares do mundo, a própria classificação “feminino” e “masculino” mudou de caráter e passou a ser conceitualizado, de fato, enquanto gênero, termo que evidencia a construção social acerca dos papeis desempenhados por homens e mulheres, e não mais como sexo, orientado por determinismos biológicos. Sob a ótica da Sociologia, essa distinção opressora entre papeis de gênero – e aqui me refiro a aspectos relacionados exclusivamente à binaridade – é constructo de séculos de exercício de funções sociais diferentes que, via de regra, colocavam e colocam a mulher em posição de subalternidade em relação ao homem, ou seja, as construções simbólicas, culturais, morais e políticas acerca do padrão comportamental dos sujeitos na vida social significaram o feminino como algo menor, quase irrelevante diante da vida pública e por isso mesmo de natureza exclusivamente privada, pertencente aos domínios domésticos e de propriedade – aspecto extremamente importante - do masculino.

Pierre Bourdieu, sociólogo francês, em sua obra A dominação masculina, conceitua muito bem a dimensão da violência simbólica que existe nas sociedades de estruturas patriarcais para com o gênero feminino: Espera-se do sujeito masculino, o homem cisgênero e heterossexual, que ele tenha o Capital (capital econômico, social, cultural e simbólico) maior que o do sujeito feminino, a mulher cisgênero e procriadora; graças à naturalização da dominação masculina na sociedade; em função disso, o status de propriedade privada do homem é atribuído à mulher, condição que demostra o porquê, até hoje, a violência sexual representa um significativo instrumento de violação da figura feminina como tentativa de restabelecer essa suposta ordem natural da vida social.

A ditadura civil-militar no Brasil, através das figuras algozes de seus torturadores, usou amplamente não só do estupro, mas também da brusca separação dos filhos e filhas de suas mães militantes, no intuito de, mais do que puni-las por seus comportamentos subversivos, faze-las exemplos para outras mulheres que pudessem insurgir contra o Estado, na tentativa de suprimir qualquer tipo de mudança, tanto ao que dizia respeito ao regime totalitário instaurado, quanto a esta pseudo-naturalização de papeis femininos e masculinos na vida social.

 

SMetal: Alguns especialistas acreditam que as violências sexuais são uma forma de “relação de poder”. Você acredita nisso? Se sim, por quê?

Carolina:  Sim, acredito. Nesse aspecto eu sou absolutamente foucaultiana, a normatização da sexualidade é um dos alicerces da biopolítica ou do biopoder no sentido de domesticar e controlar os corpos dos indivíduos, torná-los dóceis e produtivos, de modo a perpetuar as estruturas sociais hegemônicas e vigentes. Sob esta ótica, as violências de ordem sexual cometidos contra os corpos e identidades femininas traduzem e materializam a biopolítica aplicada aos nossos corpos, porque não são motivadas por desejos e instintos de caráter sexual, mas sim intentam disciplinar através da força física e do ato de dominar e subjugar nossos corpos. Sendo assim, a prerrogativa de que as violências de natureza sexual são uma forma de expressar as relações de poder vigentes é válida, uma vez que o efetivo exercício deste poder sob os indivíduos vinculados ao gênero feminino em nossa sociedade se dá através dicotomia domesticação-punição, já que expressam a configuração das forças sociais, políticas, econômicas, simbólicas e culturais moralmente articulas e que se destinam a disciplinarização dos corpos e mentes femininos.

 

SMetal: Hoje em dia, as formas de cerceamento do corpo da mulher estão em um novo contexto. Como podemos associar os dias de hoje com o período do regime militar?

Carolina: Para que possamos fazer tal associação, é importante demarcarmos os limites entre os campos da vida social. Apesar de, no Brasil, os domínios daquilo que compete ao Público e ao Privado não serem claros em nosso imaginário coletivo, apesar do brasileiro ser o homem cordial, para citar o grande sociólogo e historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda; é fundamental que separemos, como modalidades organizativas da vida social, o campo do Público, o campo do Privado e ao campo do Público-Privado, uma espécie de estagio intermediário, em razão de aspectos jurídico-normativos, de modo que tal associação seja o mais objetiva possível.

É inegável que nós mulheres rompemos muitos paradigmas sociais, às custas de muito sangue, suor e lágrimas, conquistamos espaços e direitos que, há pouco mais 50 anos atrás seriam impensáveis; no entanto, há muito ainda para se avançar. No que concerne ao campo Público, o Estatuto da Mulher Casada, restituiu à figura feminina certa autonomia quanto às garantias civis, no entanto foi apenas com a Constituição de 1988 que nós mulheres passamos a gozar plenamente de toda a gama da direitos e tivemos o reconhecimento do Estado de sua condição de igualdade em relação ao sexo masculino, ao menos no que concerne à lei.

Violência sexual na Ditadura

Maria Auxiliadora Lara Barcelos, conhecida como Dora, foi presa em 1969 e estuprada no quartel da Polícia do Exército, na Vila Militar

 

Quanto ao exercício de nossa liberdade na vida social, pouca coisa efetivamente mudou. A revolução sexual, característica da luta feminista no mundo, alterou alguns aspectos do padrão comportamental feminino aqui no Brasil também, porém, percebo certo anacronismo social ao analisar a condição da mulher nos dias de hoje, ao mesmo tempo em que conquistamos do direito de trabalhar fora do ambiente doméstico sem necessitarmos da anuência de nossos pais, maridos e companheiros, o que temos hoje é a estatística de que nossas jornadas de trabalho semanais são, em média, de 8 horas a mais que os homens, porque além de trabalharmos fora de casa, notório espaço da vida Pública , continuamos a ser as principais responsáveis pelas tarefas do campo da vida privada (afazeres domésticos, educação e cuidados dos filhos), ainda enfrentamos em entrevistas de empregos perguntas relacionadas ao estigma da maternidade inerente, do tipo “você tem filhos? Pretende ter? Se adoecerem, quem cuidará?” e mesmo quando conquistamos a vaga de emprego, ganhamos, em média, 30% menos que um homem no mesmo posto. Ou seja, em termos de prática social, nós mulheres apenas acumulamos funções, conjuntura que destoa da condição de igualdade social, ao contrário, amplia ainda mais a desigualdade, quase abissal, entre gêneros no Brasil. 

Mas a evidência mais emblemática deste anacronismo social e exatamente o que associa os dias atuais com a ditadura civil-militar, é o posto que Brasil ocupa no ranking de feminicídios mundial: somos o quinto país que mais mata mulheres no mundo, apenas pelo fato de serem mulheres, e cerca de 70% destes crimes são cometidos em ambiente doméstico, isto é, no campo da vida Privada.

A atual figura, que ocupa o mais alto cargo executivo neste pais, sustenta através de seu discurso e de muitas ações também, quando nomeia para cargos ministeriais figuras alinhadas ideologicamente com seu modelo conservador e autoritário de gestão, a perpetuação desta lógica e violência sociais e de todas as estruturas que as mantém ativas até hoje, tal qual o regime militar operava naquela época, com a diferença de que hoje, em termos legais, esta prática é condenável e durante a ditadura civil-militar fazia parte do modus operandi do regime. A narrativa, o discurso do presidente legitimam ações dessa natureza no campo do Público-Privado, que configuram as relações entre indivíduos que não possuem vinculo parental, mas que expressam em suas práticas os valores morais vigentes na sociedade, é neste ponto que reside a inegável semelhança entre contexto social da ditadura e dos dias atuais: a violência contra a mulher, principalmente aquelas que envolvem a subjugação e objetificação de nossos corpos, mais do que atos físicos e materiais, tem uma dimensão simbólica, cuja efetivação independente de sujeitos femininos ou masculinos, mas se configura enquanto patologia estrutural da nossa sociedade, de modo a buscar o reestabelecimento de uma ordem moral opressora sobre o corpo feminino.

 

Inês Etienne Romeu, uma história de luta contra a tortura - Memorial dos  Direitos Humanos

Inês Etienne Romeu foi a única sobrevivente da 'Casa da Morte', lá foi submetida as mais diversas formas de abuso físico e sexual

 

 

SMetal: Na sua visão, qual a importância da comissão nacional da verdade para os esclarecimentos?

Carolina: No meu ponto de vista, a importância da comissão nacional da verdade é de ordem histórico-social e de natureza jurídico-legal. Em relação ao aspecto histórico-social, é fundamental para que se preserve a memória da barbárie que foi a Ditadura Civil-Militar, no sentido de que não se repita e que as gerações futuras sejam formadas a partir de valores sociais opostos e divergentes aos que os regimes políticos totalitários e autoritários pregam. Do ponto de vista jurídico-legal, sua importância reside em investigar, esclarecer e responsabilizar os agentes do estado que torturaram, mataram e desapareceram com muitos militantes contrários ao regime, além de garantir as famílias dessas vítimas o direito de enterrarem seus mortos de verdade com todos os ritos e simbologia que esta ação carrega, a fim de encerrar a expiação que a dúvida carrega.

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