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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

09
Nov23

Sangue real

Talis Andrade

por Gustavo Krause

- - -

Independente da origem, se étnica ou patológica (cianose), a expressão "sangue azul" chegou aos nossos tempos como se fosse marca da origem nobre, aristocrática, uma distinção da realeza. Mas a cor é poeticamente "vinho tinto" e a semântica exprime vida que se esvai ou que se fortalece.

Asseguro que este tema não decorre do banho de sangue da tragédia do oriente médio, Rússia/Ucrância ou da violência cotidiana que, cruel, nos empurra para um abismo de dor.

Refiro-me a outro sangue que a gente pode doar, anonimamente, para tratar graves doenças, restaurando o que parecia perdido. Refiro-me ao sangue doado, uma espécie de remédio dos remédios que pode salvar a vida de um irmão desconhecido. Foi o gesto mais solidário que senti, quando vim a saber que a classificação do meu tipo sanguíneo O-, doador universal, acode, todo mundo, mas que somente pode ser acudido pelo mesmo tipo sanguíneo.

Virei um doador regular até que a idade acendeu o sinal vermelho. Devo essa compreensão doadora a alguns especialistas, amigos fraternais, e, sobretudo ao cientista e humanista, Doutor Luiz Gonzaga dos Santos que, menino do humilde Bairro de Agua Fria, integra, hoje, ao lado de profissionais abnegados, a grandeza do pioneirismo histórico da Fundação Hemope, que no dia 25/11/2023 (Dia Nacional do Doador de Sangue), completa 46 anos de tratamento, ensino e pesquisa de hematologia e hemoterapia.

Não foi fácil percorrer quase meio século de obstáculos. Cada passo foi dado com dedicação, empenho e nem sempre com a compreensão política que consolidasse definitivamente a implantação da Planta Industrial de Hemoderivados, em Pernambuco, cuja dimensão não se limita a uma fábrica de aproveitamento integral do plasma e seus derivados.

05
Nov23

Israel na Palestina - 2

Talis Andrade
 
 
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Façam o que puderem. Isto não pode continuar…

 

por Gilberto Lopes

 

A mais grave? Talvez, mas basta olhar para a história e descobrir que, vez ou outra, ela se repete. Em julho de 2014, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas reuniu-se em Genebra para discutir uma nova incursão israelense em Gaza, a chamada operação “Margem de Proteção”. De acordo com várias estimativas, entre 2.125 e 2.310 moradores de Gaza foram mortos (1.492 civis, incluindo 551 crianças e 299 mulheres) nesta operação. Quase onze mil ficaram feridos, e 66 soldados e cinco civis israelenses (incluindo uma criança) também perderam a vida.

A ONU denunciou que os ataques do exército israelense a Gaza poderiam constituir “crimes de guerra” e aprovou uma investigação, enquanto a Palestina solicitou ajuda internacional para obrigar Israel a cessar uma agressão que denunciou como “uma catástrofe humanitária”.

A resolução foi aprovada no Conselho de Direitos Humanos por 29 votos a favor e 17 abstenções. O único voto contra foi o dos Estados Unidos. Os Estados Unidos consideraram a resolução “destrutiva” e que não contribuiria para a interrupção das hostilidades. Israel qualificou a decisão de “farsa”. Seu embaixador no Conselho, Eviatar Manor, acusou o Hamas de cometer “crimes de guerra” e afirmou que Israel “destruiria sua infraestrutura militar”. Em 24 de julho, o Dr. Mads Gilbert, do Hospital Al-Shifa de Gaza, cidadão norueguês, publicou uma carta aberta no jornal britânico The Independent, à qual já fizemos referência.

“Os rios de sangue continuarão a correr na próxima noite. Já ouço como ajustam seus instrumentos de morte. Por favor. Façam o que puderem. Isto não pode continuar”, implorou. Dizia que “a última noite foi extrema. A invasão terrestre de Gaza produziu dezenas de veículos cheios de corpos mutilados, destroçados, sangrando, tremendo e agonizando… Palestinos feridos de todas as condições e idades, todos civis, todos inocentes”. “Depois, a orquestra da máquina de guerra israelense recomeça sua sinfonia macabra. Neste exato momento: as salvas de artilharia dos navios da marinha ancorados ao largo da costa, o rugido dos F-16, os drones repugnantes (em árabe, ‘zennanis’, ‘beija-flores’) e os Apaches. Tudo construído e pago pelos Estados Unidos”.

 

Um investimento inteligente

Tudo construído e pago pelos Estados Unidos!, disse o Dr. Gilbert. Na quinta-feira, 19 de outubro, Joe Biden dirigiu-se aos norte-americanos (e ao mundo) de sua Sala Oval da Casa Branca sobre os conflitos na Palestina e na Ucrânia. Os terroristas do Hamas desencadearam a maldade no mundo. São eles – e Putin – que pretendem acabar com a democracia e com seus vizinhos, afirmou. Se não pagarem um preço, o custo e as ameaças contra os Estados Unidos continuarão aumentando. Se colocarmos tudo em risco, se abandonarmos a Ucrânia e Israel, nossa liderança e nossos valores estarão em risco. É por isso que amanhã pedirei recursos urgentes para financiar nossas necessidades de segurança nacional, disse Joe Biden.

E pediu ao Congresso 106 bilhões de dólares: 60 bilhões para a Ucrânia e 14 bilhões para Israel. O restante para outras despesas. “É um investimento inteligente que gerará dividendos por gerações para a segurança dos Estados Unidos”, disse ele. Nestes dias de guerra, as necessidades urgentes de Gaza, cujos pouco mais de dois milhões de habitantes não tinham água, alimentos ou eletricidade, cortados por Israel, nem recursos para seus hospitais, foram estimadas em cerca de 270 milhões de dólares.

O pacote que Joe Biden enviaria ao Congresso apontava para outra direção. É um compromisso sem precedentes com a segurança de Israel, que garantirá sua vantagem militar, disse ele, acrescentando que Israel precisava operar de acordo com as leis da guerra, para proteger os civis “da melhor maneira possível”. Biden acredita que é a liderança norte-americana, seus valores, que mantém o mundo unido. Que os Estados Unidos é a nação indispensável, essencial para construir o arsenal da democracia e defender a causa da liberdade. “Não deixaremos que terroristas como o Hamas, ou tiranos como Putin, vençam. Não o permitirei”. “Somos os Estados Unidos da América!”, afirmou. Comentando o discurso, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, afirmou: “Antes, diziam que se tratava de uma luta pela liberdade e pela democracia. Agora, verifica-se que é apenas um cálculo”.

 

E as regras?

Há quem procure justificar suas posições sobre o conflito entre palestinos e Israel do ponto de vista da “ética”. Como se o problema da ética já não estivesse resolvido desde sempre, nas opções econômicas e políticas que, como a história mostra, foram tomadas há mais de 70 anos. Outros falam de “terrorismo”. Mas, transformado em arma política para desqualificar os inimigos, o “terrorismo” perdeu seu valor analítico. Utilizado como qualificativo, torna impossível qualquer tentativa de compreensão dos problemas.

E as regras? A relação israelo-palestina mostra que, há muito tempo, não há regras. Nenhuma das resoluções da ONU é cumprida. Nenhum acordo é respeitado, nem os de Oslo, nem os de Minsk, no caso da Ucrânia. Também não se fala da bomba atômica de Israel, um debate que é impossível dissociar de outros, mais atuais, sobre a bomba da Coreia do Norte ou do Irã. São outras as regras que se aplicam a estes casos?  Não podemos deixar de pensar que não faltam pessoas que queiram transformar o mundo em outro Hospital Al-Ahil. Não deveria ser feito algum esforço para evitar isso?

 

Essa história foi falsificada

“Ainda há muitos franquistas na Espanha”, disse o maestro Daniel Barenboim ao jornal espanhol El País em setembro de 2020. Aos nove anos, Barenboim partiu da Argentina para Israel com seus pais. “Meus avós maternos, especialmente a minha avó, eram grandes sionistas. Ela mais do que meu avô. A mulher era a que mandava em casa. Meu pai também não estava convencido. Digamos que minha mãe e sua sogra o contagiaram. O Estado de Israel foi criado em 1948 e meus avós partiram em 1951. Depois nós chegamos”. “Sentia falta da Argentina?”, perguntaram-lhe. “Não me lembro”, diz ele. “E agora?”. “Agora, sim, por várias razões. Porque, com o passar dos anos, voltamos à nossa infância e porque o que está acontecendo em Israel me machuca muito”.

“Como era aquele país nascente?” “Outra coisa radicalmente diferente daquilo em que se converteu. A escalada militar, que é compreensível, afetou sua bondade. O fervor diminuiu. Não se pode ocupar militarmente outros povos com nossa história, com séculos de perseguição. O sionismo começou com a ideia de um povo para um país sem povo, uma ideia poética e belíssima, mas falsa: no início do século XX, a memória histórica foi falsificada ali. Não se podia dizer que era um território sem povo. Já tinha gente antes: no início do século XX, tinha apenas 9% de judeus. Não é que não tinha ninguém. Tinha 91% que não o eram. Mas isso foi ocultado, essa história foi falsificada”, disse Daniel Barenboim.

Como sabemos, os rios de sangue continuam fluindo. A verdade é que isto não pode continuar!

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05
Jul23

André Valadão e Bruno Sartori, um amor gay?

Talis Andrade

 

O empresário da fé passou a intensificar o seu discurso biombo e de ódio contra os homossexuais, após ter um relacionamento homoafetivo divulgado nas redes sociais (Parte 2)

 

por Ricardo NêggoTom 

(continuaçao) O problema se agrava porque no livro de Levítico 20:13, está escrito que “Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles. ” E como punir judicialmente os simpatizantes e praticantes desse texto bíblico, se a Bíblia é, para muitos, a palavra de Deus? Mesmo que Deus nunca tenha escrito pessoalmente nenhuma linha do livro, e tudo o que nele está contido é apresentado como inspiração “divina”? E aqui eu sugiro outra reflexão. Que certeza nós temos de que esses homens estavam realmente inspirados por Deus? Sobretudo, quando aprendemos que Deus é amor, misericórdia e perdão. E Jesus Cristo quando esteve entre nós, manifestou esse amor, essa misericórdia e esse perdão. Seria a Bíblia um livro controverso? Vale, no mínimo, uma análise a respeito. Voltando a André Valadão e a morte sugerida de homossexuais, chama a atenção o fato de ele ter começado a intensificar esse discurso de ódio contra os homossexuais, após o jornalista e deepfaker, Bruno Sartori, revelar em seu Twitter que teve os dois tiveram um affair. Sartori também revelou que sabia de outros casos homo afetivos de André Valadão e que se arrependeu de um dia ter ficado com o pastor.

Chegando na morte, a física costuma ser a única saída encontrada por muitos homossexuais por não se aceitarem, devido ao preconceito que sofrem, inclusive, dentro da própria família. A existencial eles experimentam em vida diariamente, quando são atingidos por olhares de reprovação, gestos de repulsa e por palavras de ódio revestidas de divindade suprema, como as proferidas por André Valadão, que, muitas vezes, os definem como uma “aberração” e dignos de irem para o inferno. Um sujeito que vive por um fio entre essas duas mortes. A existencial, ele vivencia ao se travestir de pastor e incitar a intolerância contra outros seres humanos. A física, ele poderá experimentar, por sugestão própria e pelas mãos de algum fiel obediente de sua seita, no dia em que assumir a sua verdadeira identidade ou quando não houver mais dúvidas quanto à sua sexualidade auto vigiada. Que morra como preferir. O que André Valadão não pode continuar fazendo é incitar crimes contra uma parte da humanidade e seguir impune. Afinal, Deus é amor, mas o Estado, que é laico, é responsável por impor justiça aos criminosos aqui na terra.

28
Ago22

Os candidatos e suas entrevistas: quem poderá devolver o Brasil aos brasileiros?

Talis Andrade

 

 

por Marcia Tiburi 

Nessa semana assistimos a 3 entrevistas com candidatos à presidência do Brasil.

O primeiro chegou com nada nas mãos, senão o sangue dos mortos pela Covid na época da pandemia, o sangue dos mortos de fome e os mortos pelo Estado genocida. Veio para a televisão com a máscara da estupidez, da ignorância e da irresponsabilidade. Trouxe, por trás da máscara, a cara de pau que tenta esconder a maior inflação e desemprego das últimas décadas e o descaso para com o povo. Veio vestido com os acordos espúrios para que não se falasse do partido militar e do envolvimento da esposa e dos filhos envolvidos em escândalos de corrupção.  

O segundo chegou com os cílios postiços do ressentimento, com a fácies hipocrática do narcisismo, que insiste em uma candidatura fora do contexto. 

O terceiro, chegou com as mãos de trabalhador cheias de esperança, o brilho nos olhos e nas palavras, paramentado com dois mandatos de presidente bem sucedidos, com as vestes da paciência e da dignidade que ele traz do povo simples que ele tanto ama. Ele veio com projetos, para a economia, a educação, o meio-ambiente e todas as áreas que o Brasil precisa recriar depois do governo fascista que segue destruindo, “passando a boiada” junto com seus sócios exploradores e colonizadores sobre um país inteiro. Ele chegou como quem vem devolver o Brasil às brasileiras e aos brasileiros, falando com todo mundo e com cada um, com cada uma. Ele chegou falando em cuidado, lembrando do sofrimento das mulheres e também de sua luta, chamando para a vida, resgatando a esperança para quem pensa que ela já não é possível.

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24
Ago21

A herança dos golpes militares

Talis Andrade

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por Roberto Bueno

A herança dos golpes militares é o sangue que jorra de corpos abertos e segue escorrendo pela memória histórica até que difíceis processos de acordo político e social sejam concretizados, mas não sem que os devidos julgamentos nas barras dos tribunais reconheçam os crimes dos agentes públicos e, finalmente, prestando homenagem às vítimas, a sociedade possa redirecionar energias para o futuro, e não mais manter-se absorta no passado, senão através da viva memória dos que foram excluídos violentamente do convívio. Ao transgredir o pacto civilizacional alavancado pelo peso da insanidade do uso da violência como instrumento político resta interditada qualquer expectativa de futuro.

Sofrer, testemunhar ou resistir aos miseráveis poderosos e sua prática trituradora de corpos e esperanças humanas não é tarefa simples nem destituída de riscos. Nunca foi, nem poderá ser. Rodolfo Walsh (1927-1977) foi admirável intelectual e jornalista argentino, capaz de articular brilhantes textos e arregimentar sua inteligência para resistir ao regime ditatorial militar argentino imposto em 24 de março de 1976, e que se apresentou em sua quadra histórica como grande desafio e que deixou profundas marcas para toda uma geração. Em Walsh sua agudeza recheada de compaixão e solidariedade vieram temperadas pela ousadia para a ação, alguém que exerceu o seu ofício em tempos perigosos, nos quais a imprensa deveria alinhar-se no mesmo sentido que os fuzis apontassem, pois colocar-se contra eles equivalia a assumir a proximidade do fim.

A trajetória intelectual de Walsh entrou com destaque para as mais luminosas páginas da história do jornalismo investigativo argentino – é notável que seu livro “Operação Massacre” (1957) antecipa “A sangue frio” (1966) de Truman Capote – enquanto a de seus carrascos militares para a lista de longos processos criminais, e posterior condenação por crimes de todo o gênero, incluindo sequestro de bebês, tortura, violações, roubo de bens, sequestros e assassinatos em série, algo que, dada a amplitude dos fatos, veio a ser qualificado como crimes de lesa-humanidade, que renderia prisão perpétua a Jorge Rafael Videla. O jornalismo investigativo de Walsh encontraria decisivo momento ao dedicar-se a redigir e publicar notícias que a imprensa sob censura não podia veicular e, assim, informar a população sobre os primeiros desaparecimentos, sequestros e o surgimento de corpos estraçalhados lançados ao mar pelos militares e posteriormente encontrados na costa da Argentina e do Uruguai.

Walsh escreveu último e importante texto publicado no dia 24 de março de 1977. Intitulado “Carta aberta de um escritor à Junta Militar”, um balanço crítico por ocasião do transcurso do primeiro ano da ditadura militar argentina encabeçada por Videla, secundada por Massera e Agosti. Regime classificado pelo distinto General Balza como violento e criminoso,as altas patentes como Videla traíram o instável regime de “Isabelita” Perón, sem embargo, legitimado constitucionalmente. Assestado o golpe que alguns setores de esquerda não acreditavam que poderia ocorrer, Videla e os seus logo dedicaram-se a organizar e implementar terrorismo de Estado para varrer o país do risco comunista, seguindo orientação similar a processo que iniciara no Brasil em 1964, assim como nos vizinhos Uruguai e o Chile– sob o sanguinário regime de Pinochet desde setembro de 1973 enquanto Perón era eleito em outubro do mesmo ano –, mas também no Paraguai e na Bolívia em suas diversas fases. No dia posterior ao da publicação de sua célebre “Carta aberta”, na esquina de ruas de Buenos Aires – San Juan e Entre Ríos –Walsh foi metralhado à luz do dia pelos sicários do regime militar cujo caráter homicida havia denunciado com todas as letras em sua “Carta aberta” no dia anterior. Walsh declarou fidelidade aos seus princípios mas também certeza e segurança das perseguições que sofreria por parte daqueles que, muitos anos depois, foram julgados e condenados por seus crimes contra a humanidade, dentre os quais Videla e Massera.

No dia em que sua filha María Victoria (Vicki), resistente Montonera, foi cercada juntamente com seus outros quatro companheiros por 150 militares, a opção de todos foi o suicídio antes do que deixar-se apanhar. A resistência lutou com as armas de que dispunha, poucas ante Forças Armadas treinadas, bem armadas e sem limites legais para o enfrentamento. Lutaram com os meios e possibilidades contra o regime político que se orientava e aplicava política econômica que ampliava a escala de suas atrocidades, realidade para a qual o texto de Walsh apontava ao dizer que “debe buscar se no solo la explicación de sus crímenes sino una atrocidade mayor que castiga a millones de seres humanos com la miseria planificada”. A miséria não era, como não continua sendo, uma variável casual em países ricos como a Argentina e o Brasil, mas sim fruto de planejamento para potencializar a concentração de riquezas.

A produção da miséria em países ricos como o Brasil requer efetivo planejamento, e no caso argentino Walsh também identificava uma variável para além da política econômica, a saber, a política sanitária, pois então, como hoje, são reduzidos os orçamentos sob a completa ciência de que são potencializadas as estatísticas de produção da morte, e assim concluía Walsh acusando a Junta Militar argentina: “Como si essas fueran metas deseadas y buscadas, han reducido ustedes el presupuesto de la salud pública a menos de un tercio de los gastos militares, suprimiendo hasta los hospitales gratuitos mientras centenares de médicos, profesionales y técnicos se suman al éxodo provocado por el terror, los bajos sueldos o la «racionalización»”. O propósito de matar era patente, e foi sempre evidente entre militares latino-americanos e os grupos de poder de ultradireita e sua indisfarçável aproximação neonazista.

Era contra este quadro de infâmia e opressão que grupos de resistência se insurgiram, mas em frente à selvageria do sistema era corriqueiro na época que os membros dos grupos resistentes ao regime tivessem em seu poder cápsula de cianeto para dispor da opção de não ter as suas vidas expostas a sofrimentos indescritíveis e escolher, assim, se, quando e como morrer. O grupo montonero com o qual se encontrava Vicki quando deparado com o massivo cerco dos chacais fardados após inexitosa resistência armada optou por colocar fim às suas vidas valendo-se de pistolas antes do que deixar que seus corpos fossem tomados pelos criminosos fardados cuja barbárie praticada nos seus aproximados 500 campos de concentração (“Centros Clandestinos de Detención” [CCD]) logo se tornaram amplamente conhecidos. Eram espaços onde a única regra era a exceção à ordem jurídica nacional. Ali tudo era possível, não havia lei nem sequer Deus, e talvez seja dubitável que o próprio Diabo ousasse adentrar naquele espaço gerido por militares treinados para a tortura e assassinato pelos EUA, “habilidades” também ensinadas aos seus colegas brasileiros, uruguaios, bolivianos, chilenos, paraguaios etc.

Impossibilitado de despedir-se fisicamente, Walsh escreveu emotiva carta a sua filha, ciente de que a sua opção pelo suicídio juntamente aos demais companheiros se devia ao pleno conhecimento do tratamento que era reservado aos aprisionados pelo regime dos criminosos fardados, posto que já corriam múltiplos testemunhos a respeito do que sucedia aos milhares que haviam caído, tratamento que não seria admitido aos prisioneiros de verdadeira guerra como aquela em que intervieram os militares no enfrentamento com a Inglaterra pelas ilhas Malvinas, na qual não se contou sequer um caso próximo de tratamento de militares ingleses como as Forças Armadas argentinas reservaram aos seus próprios cidadãos.

Aos assassinos fardados decorados com altas patentes e baixo caráter que ocupavam posições de mando nas Forças Armadas argentinas durante o regime instaurado em 24 de março de 1976, assim como aos seus “colegas” latino-americanos, não lhes interessava submeter-se a quaisquer convenções internacionais, códigos de honra ou a celebração prática das virtudes militares, e nem sequer a preceitos cristãos. O seu exclusivo dínamo era o sangue vertido de corpos dilacerados, que lhes servia como trágico líquido cujo poder embriagante ocorre tão somente em mentes bárbaras. São estas que decidiram pela aplicação da violência militar sobre objetivos não militares, algo injustificável, criminoso e punível como o mais grave dos delitos, em não menor escala quando perpetrados contra populações civis, e através da aplicação do direito interno quando as vítimas são a sua própria gente.

 

28
Dez19

Bolsonaro veta PL que obrigava SUS a garantir sangue e medicamentos a pacientes

Talis Andrade

 

suástica sangue.gif

 

Nesta quinta-feira (26), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) comunicou o veto integral de um projeto de lei, de autoria do ex-governador Marconi Perillo (PSDB-GO), que garantia a oferta de sangue, hemoderivados, medicamentos e outros recursos para todos os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com matéria divulgada pelo Estadão.

O deputado federal Alexandre Padilha (PT/SP) comentou a decisão em sua conta no Twitter:

Mais um ataque às populações mais vulneráveis e que mais precisam. Vidas perdidas é o legado irrecuperável desse presidente que vilipendia os pobres. https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/bolsonaro-veta-pacientes-do-sus-a-acessarem-medicamentos/ar-BBYnrDs?ocid=sf&fbclid=IwAR3-lOSj-XY6IcQZ6JlPUbembqE0ygG405g-w-DwQSw2Jk5_Ijvbp_JEOys …

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