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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

23
Dez20

“O governo se finge de idiota para esconder que é idiota”, diz Aroeira

Talis Andrade

 

 

Em hora e meia de conversa, Aroeira falou de tudo. Da luta de classes ao feminismo, da religião ao fracasso do capitalismo, de terror e de esperança.

A entrevista foi destaque de capa na quarta edição do jornal Micuim - "suprimento" de humor do Brasil de Fato RS.

Fraga - Tens a noção que és o artista que mais usa contundência? Tens uma corrosão a teu serviço e atinges os teus alvos de uma maneira como ninguém atingiu até hoje. Pega no cerne, onde dói mais em cada um. Tens plena consciência desse alcance da tua arte?

Aroeira - Têm alguns chargistas que são realmente muito eficientes ou contundentes: a Laerte, a turma da Folha, o Montanaro, um craque também. Esses meninos do Sul, o Santiago, Vasques, e a turma toda. São craques. Gosto do Dahmer, do Coimbra. Gosto dessa mistura de cartoon/filosofia e charge que a Laerte faz hoje em dia.

A consciência que tenho é que a charge cumpre um papel importante hoje nessa movimentação social. Desde muito cedo fui aprendendo, como chargista, a respeitar quem apanha. Perderam a graça para mim piadas sexistas, homofóbicas e racistas. Fui tendo noção do que era a vida, que era uma pessoa branca, heterossexual, cisgênero, de classe média.

Tem muita graça fazer piada com o opressor. A charge surge durante o Iluminismo. Os desenhos eram parte do pacote. Começa tomar a sua forma. Ela já nasce batendo.

A charge sempre teve um grande papel. A religião hoje é algo que não pode ser criticado. A maior parte das religiões, por mais bondade que tenham, costumam ser opressoras, sexistas, homofóbicas, castradoras. Não posso mais criticar isso. Você pode ser decapitado, apanhar na rua ou ser processado. Fazer charge passou a ser assustador para quem faz.

 

Ayrton - Já fostes ameaçado?

Aroeira - Muitas vezes.

 

Ayrton - Virtualmente ou pessoalmente?

Aroeira - Virtualmente, judicialmente e pessoalmente.

 

Ayrton - Como foi a pessoal?

Aroeira - O cara chega e fala assim em um lugar onde eu tocava (NR. – Aroeira é saxofonista): ‘Esse negócio que você está falando é perigoso para você. Quem fala o que quer, sofre o que não quer’. Era uma ameaça. E coisas similares por mensagem.

Acusam o Charlie Hebdo de ser islamofóbico... Ele é islamofóbico, como é também cristofóbico e judeufóbico. Eles (a turma do Charlie) detestam as religiões. Fizeram charges sobre tudo, todas elas, da forma mais escrachada. Eu não faria. Mas são franceses e tem um histórico enorme aí atrás de anticlericalismo e tudo mais.

Quando estourou o negócio do processo, minha gastrite foi parar nas orelhas. Nunca melhorei desde então.

Acho engraçado, como diz o Chico Caruso, “brigar com a piada”. Parte da esquerda muitas vezes reclama. Se eu fizer charge, por exemplo, criticando a liderança do Hamas, provavelmente vou ser criticado dentro da esquerda. E sou um comunista roxo, de carteirinha (risos), trotskista de raiz.

 

Ayrton - Por falar em crítica, ameaça e censura, a questão que apareceu naquela charge do Bolsonaro com o Netanyahu, que formavam uma suástica, está resolvida ou houve apelação?

Aroeira - Está resolvida porque o Ministério Público nem aceitou a denúncia. Uma outra charge do Bolsonaro com a suástica, eu ganhei em primeira instância, mas eles apelaram. Não sei como está.

 

Ayrton - É a da cruz vermelha transformada na suástica?

Aroeira - Não. Essa é da Lei de Segurança Nacional. Essa outra era do Bolsonaro candidato ainda. A cruz virava uma suástica. Ele era uma suástica, os braços e as pernas. Aí começava a rolar e eu perguntava ´ninguém vai parar isso?´ Ninguém parou. Olha aí no que deu.

Décadas atrás, quando Bolsonaro era ainda um tenente imbecil expulso do exército, deu entrevista para a Veja dizendo que ia explodir um quartel. Era como se o cabo Anselmo casasse com o Hulk, os dois tivessem um filho e virasse aquilo. Desenhei ele como um Estupidossaurus bolsonaurus, a maior besta que já caminhou sobre a face da terra, um dinossauro enorme de coturno.

 

Stela - Tens 66 anos, começastes a desenhar com 17 e transitastes ali pelo período da ditadura militar. Te sentes mais inseguro do que aquela época?

Aroeira - Comecei mais cedo, lá pelos 16. Nem sabia que era para me sentir tão inseguro na outra ditadura. Me sinto muito inseguro agora, mas poderia ter me sentido inseguro naquela época se eu tivesse noção do perigo.

Aquela construção toda do Iluminismo, a empatia que a literatura criou, tudo aquilo, aqueles anos, séculos disso, quase desapareceram. A gente está agarrado a restos. Há muitas causas. É a naturalização de coisas absurdas como a exploração, desregulamentação, esse escambau todo que os anos 1970/80 viram: Thatcher, Reagan... A desconstrução da ideia de que o outro é importante.

Agora a gente tem que construir isso de novo. No meio da pandemia ficou evidente também o limite. Estava claro com a questão ecológica e agora com a questão da saúde. Assim mesmo, você olha para os resultados das eleições e pensa: será que a gente tem tempo para fazer o juízo entrar de volta na cabeça das pessoas?

 

Kátia - Já que estamos falando de eleição, em 2018 fizestes uma charge que bombou nas redes. Era o Aécio Neves se maquiando e virando o Luciano Huck. Então, a gente vê nas eleições municipais um fortalecimento dessa direita centrista, o dito centrão, mais do que o bolsonarismo. Está se construindo isso para 2022?

Aroeira - O Aécio é grosseiro, disparou um processo e foi engolido. Não foi preso, que é uma coisa milagrosa. Huck não desistiu do negócio. Estava conversando com meu sobrinho, que é historiador, menino de esquerda, humanista, e ele fala, ‘A verdade é que a população, a história, as instituições, são todos conservadores, no geral’. Só empurrando, esclarecendo e durante situações revolucionárias, de opressão extrema, condições objetivas raras, em que tudo vai naquela explosão. Normalmente é tudo devagar, precisa-se construir. É o momento da gente agora. Estou olhando com mais atenção para as câmaras do que para os executivos.

 

Fraga - Queria voltar para a charge. Qual é a dificuldade em eleger a charge que importa fazer naquele determinado dia?

Aroeira - É difícil. Nunca achei que o governo sequer tivesse inteligência para ser diversionista. Nesse sentido, é difícil escolher qual das grandes bobagens, quais das aparentes cortinas de fumaça, que algumas não são, algumas são - é o governo fingindo de idiota para esconder o fato de que é idiota.

A Damares é uma ministra que eu aprendi a respeitar no sentido da periculosidade dela. Ela é um dos eixos de sustentação ideológica do governo com essa catequização e essa mão em um ministério tão sensível.

O Salles, por méritos próprios, é um assassino, um devastador, um incendiário. Minha escolha é pegar o chefe geral e vou tentando destroçá-lo e mostrar quão ridículo é. Até que enjôo. Desenhar esse estropício todo dia não dá. Tento variar e pego um dos outros. E, às vezes, sou obrigado a parar e fazer uma homenagem a alguém que se foi do nosso campo. Alguns são assassinados, outros morrem da covid. A reforma da Previdência dos sonhos desse pessoal mata velhos, pobres, professores, músicos, artistas. Mata todo mundo que eles querem matar.

 

Stela - Ainda sobre a eleição. Foi eleito o primeiro quilombola prefeito. A gente teve pouquíssimo crescimento da eleição de mulheres, que ficou em 12%, enquanto a população é 52% de mulheres. Vinte e cinco trans foram eleitos. E, em Belo Horizonte, uma trans foi a mais votada. Tem também a questão negra. Em Curitiba, foi eleita a primeira vereadora negra. Aqui, no Rio Grande do Sul, quatro vereadoras negras, mais um negro. Dos candidatos apoiados pelo Bolsonaro, poucos foram eleitos. Dá para interpretar alguma coisa? É disso que tu falas de empurrar um pouco?

Aroeira - Sim. Crescemos em qualidade. Tem um empurrão acontecendo que, na verdade, é surfar uma onda que está acontecendo aqui e no mundo. Liderança não inventa, liderança aproveita a onda. Parte boa da esquerda brasileira está compreendendo o que está acontecendo.

Vejo o crescimento da direita organizada em cima do bolsonarismo, também uma boa notícia. Prefiro enfrentar esses caras do que essa horda de loucos. A questão da saúde é uma delas. Amiga de minha esposa trata câncer no SUS e o aviso que o médico deu para ela foi: ´Guarda dinheiro pra comprar remédio para dor porque cortaram aqui pra gente`. É horrível saber disso. Me tirou o sono.

É preciso entender o que acontece quando há um desgoverno total. Mesmo com um golpista (Michel Temer) no poder, a saúde se administrava razoavelmente dentro das condições objetivas brasileiras. Aí esses sujeitos chegaram lá e destruíram tudo.

 

Ayrton – És um grande cronista gráfico desses tempos tenebrosos que estamos vivendo, especialmente de 2016 para cá. Teu trabalho circula na internet. Já publicastes em jornal, hoje não mais, correto?

Aroeira - Não existe mais jornal, quer dizer, o meu jornal está aos trancos e barrancos lá.

 

Ayrton – Quando alguém for estudar o Brasil do Bolsonaro ou o Brasil do golpe vai ter que se referir ao trabalho do Aroeira. Qual é o retorno que recebes?

Aroeira - Antigamente tinha retorno por carta no jornal. Depois os e-mails. Cansei de ser chamado de desrespeitoso. `O senhor foi desrespeitoso com o seu governador.` Eu respondia: ´Desrespeitoso é meu nome do meio` (risadas). Quando publicava em jornal, desenhava hoje para sair amanhã. Agora não tem esse intervalo. Está acontecendo naquele momento. Publica na rede e o bolsominion vem te ameaçar, o amigo vem te apoiar e começa a briga no seu perfil.

 

Stela - Teve a tentativa de te enquadrar na Lei de Segurança Nacional, que foi essa questão da charge continuada, do crime continuado e depois veio o Vladimir Herzog continuado, que é o prêmio de jornalismo que premiou pela primeira vez 110 (chargistas). Fala da sensação de receber esses apoios da categoria.

Aroeira - São duas coisas aí. A organização que me apoiou, a revista Pirralha, já existia antes disso acontecer. Um grupo de 70 e tantos chargistas e chargistos, tinha muita menina e muito rapaz. Quando aconteceu, o Duke (chargista) sugeriu: ´Vamos fazer uma charge continuada. Usa a ideia do Aroeira`. E o Bruno (chargista) organizou, distribuiu, avisou por email, organizou um site, instagram e tal. Tinha 400 e tantas charges, mas depois, em outra contagem, deu algo em torno de mil.

Foi uma noite em que dormi bem. Me senti abraçado, um montão de gente fez escudo humano comigo. Mostrou o enorme tiro no pé que foi a tentativa do governo.

O cartunista hoje em dia, publicando na rede, busca sua forma de autofinanciamento, publica as coisas e busca maneiras do público colaborar. É uma evolução sair de um jornal de dono e passar para o crowdfunding, onde meu salário, que diminui bastante por conta disso, é pago pelas pessoas que colaboram com os (sites) Jornalistas pela Democracia ou (Brasil) 247, onde publico, ou o Távola, programa (no Youtube) que tenho com o Miguel Paiva, a Regina Zappa e o Sérgio (Sbragia).

Quando eu comecei a fazer charge tinha (na atividade) três ou quatro meninas, um negro e dois gays. Hoje é completamente diferente. Na Pirralha, tem uma briga maravilhosa. Um dia, as meninas falaram assim: ‘Vamos sair da Pirralha`. Mas por quê? ‘Sou mulher e não posso ficar em um lugar onde eu sou minoria porque não existe isso. Não sou minoria, ora essa’. Esse tipo de cobrança vem para melhorar muito. A Pirralha é um empreendimento, mas não tem dono. É um coletivo. Não tinha conhecido isso ainda no Brasil.

 

Katia - Temos no Micuim duas páginas que chamamos de ´Querela` dedicada às mulheres cartunistas. Vamos pra terceira edição e já tivemos entrevistas com Bruna Maia, no último número saiu a Fabiane Langona, a Helô D´Angelo, a Samanta Flôor. No próximo, vamos ter mais três. Como tu estás vendo isso?

Aroeira - Só posso ficar muito feliz. Foi mais suave, para mim, a percepção disso. Fui bem treinado desde cedo. Peguei uma geração de companheiras do movimento estudantil que batiam na gente, nos machismos. Vejo ainda dentro da esquerda, na nossa categoria, no jornalismo, o machismo, a homofobia, um certo paternalismo racial e assim por diante. Mas está acabando porque os protagonistas foram ocupar os seus espaços. É melhor do que lugar de fala. É lugar de ação. A pessoa chega lá e faz.

 

Fraga - Uma pergunta técnica: vejo você meio solitário na sua técnica, na sua arte. Você usa muito o computador e os outros usam menos no sentido de misturar fotografia, desenho e usar os recursos.

Aroeira - Eu uso isso aqui (mostra), uma canetinha. Desenho com a canetinha em uma superfície que, por impedância, recebe aquele sinal. Essa caneta é sensível para inclinação e pressão. Parece muito com a pena de nanquim. Uso muito o computador, uso muito o lápis. Usava coisas como scanner, mas nem isso uso mais. Eu desenho no papel, às vezes, uma coisa, fotografo com o celular e dou o acabamento no computador.

Quando eu saio do computador, raramente uso papel e aquarela. É óleo. Vou pintar à óleo. Demora semanas para fazer. É um outro tempo, uma outra maneira.

 

Fraga - E por que você acha que não tem mais gente praticando da mesma maneira?

Aroeira - Tem muita gente. Tem o negócio chamado caricaturama na internet. Têm vários concursos de caricatura. São milhares de pessoas concorrendo. Tem também o contrário: você só desenha em papel e tinta durante 30 dias. Faz um desenho por dia, fotografa, escaneia e publica.

A quantidade de Mozart que existe no mundo é inacreditável. Por outro lado, não somos os donos desses meios de produção, algoritmos e redes. O que aumenta a sensação de injustiça. Não sou daqueles caras que acha que a arte piorou. Bendita juventude, cada vez que vem entra e sacode tudo.

 

Katia - Quais artistas gráficos te inspiram hoje?

Aroeira - Estão lá no começo da minha vida. São todos quadrinhistas. Era a Marge, que fazia a Luluzinha. Era a autora, ele é que inventou. O Charles Schulz com o Charlie Brown. A Mafalda veio explodir a minha cabeça. Era mais que a psicanálise do Charlie Brown ou a coisa deliciosa que era a infância da Luluzinha. Depois, o Carl Barks, inventor do Tio Patinhas, o desenhista do mundo Disney, o maior dele. As aventuras do colonialismo que ele desenhou me fascinaram. Contou para o mundo o que era o capitalismo. A gente é que não entende direito porque estava disfarçado sob o traço e roteiros de um gênio. Na caricatura, os irmãos Caruso, (David) Levine, os franceses como (Jean) Mulatier e outros, fizeram também a minha cabeça, até que eu descobri Toulouse-Lautrec. Toulouse era um genial caricaturista.

Ayrton - Estamos chegando ao final de um ano ruim por causa da pandemia e da bozodemia que vivemos desde 2018. Ano novo tem aquela expectativa que as coisas vão melhorar. Vão melhorar mesmo? Como desenharias isso, o que simbolizaria isso?

Aroeira - Vai melhorar porque estamos lutando para melhorar e nada é de mão beijada. O mundo não está dividido de forma igual e tem um montão de inverdades que viraram pedras angulares, como, por exemplo, o direito à propriedade privada. As próprias lutas de agora e a maneira como o mundo encarou os flagelos Trump e Bolsonaro mostram que há reação.

Sou otimista e o que queria desenhar era uma presidente negra no Brasil. Uma presidente negra nos Estados Unidos. Uma mulher negra comandando os destinos do mundo. Novo começo seria isso, um renascimento. Sou usuário do planeta e os atuais donos estão me dando uma dor de cabeça tremenda.

Stela - Assim como o Micuim, sabes que teu sobrenome é da Aroeira brava, dá muita coceira, dá muita inquietude...

Aroeira – Eu, jovem, estava tentando achar um nome de cartunista. Tinha 17 anos, estava com o Lor, o Nilson, o Afo e o Dirceu (cartunistas mineiros). Estava lá bolando nome: Real, Renato, Aroeira, Rear, Rela... Então, o Lor disse: ´Você se chama Aroeira. Já tem nome de cartunista`.

Stela - Em uma entrevista no Brasil de Fato falastes que o capitalismo não deu certo. Tenho a impressão que boa parte das pessoas não se dão conta disso...

Aroeira - Não se dão conta. O pior tipo de escravidão é aquela em que o escravo não sabe que é escravo e ainda acha que pode virar um dos senhores. É o que a gente vive: a ilusão do empreendedor. É mais eficiente do que correntes visíveis. Por outro lado, informação é o olhar. Você olha e enxerga correntes quando começa a se informar. Minha função é explicar para as pessoas porque o capitalismo não deu certo.

Sempre que alguém traz esse assunto, vou mostrando. Será que deu certo o sistema onde isso acontece, aquilo acontece? O que acontece no entorno de Los Angeles, naqueles bairros de casas móveis ou de carros? Aí, você vai para bairros de papelão, onde nem (há) casa, nem carro, nem trailer nem nada. As pessoas moram em caixas de papelão. E é lá, nos Estados Unidos, no centro do capitalismo que deu certo, ora essa!

Nunca foi tão fácil mostrar que o capitalismo não deu certo por causa da maneira como os gestores agem: salvar o dinheiro primeiro, depois as pessoas. Se salvarem. Todo mundo é dispensável. A forma de enfrentar isso não é a força. Cadê a Sierra Maestra? Cadê o Palácio de Inverno? Não há nada parecido no horizonte. O que vejo é outra coisa. Vamos ter que explicar porque esse sistema não funciona e está destruindo o planeta, deixando você triste sem nem perceber. A maior parte das pessoas chega em casa e quer morrer e não sabe disso.

Quando você faz uma atividade não fordista é que percebe o horror que é a vida de outro jeito. Quando você tem um trabalho desse tipo mecânico não sabe o seu lugar no mundo. Vai para casa pensar bobagem, querer matar o vizinho porque ele é gay ou porque é preto ou porque pegou uma cota na universidade do seu filho que não estuda e não pegou a vaga.

Essa é a pior parte do capitalismo. Ele te deixa tão infeliz que você quer matar alguém e acaba matando.

Katia - O que achas da proposta de tributar os super-ricos?

Aroeira - Tem super-rico que é menos burro do que os outros que já está se propondo se autotributar por aí. Sabem que está ficando perigoso. O embate final em uma situação em que você não para de aumentar a desigualdade é distopia das piores.

Um amigo meu português, sociólogo, veio para o Brasil e trabalhou no governo da Benedita, na tentativa de humanizar a polícia: ´Estudo para não ser um cara pendurado em um pensamento do século XIX originário nas contradições do século XVIII, mas qualquer que seja o problema em cima do qual me debruço como cientista social, a culpa é da porra do capitalismo. Não tem outra`. E eu estou terminando minhas conversas desse jeito: a culpa é da porra do capitalismo. E, olha, estou convencendo as pessoas.

Katia - Já temos a nossa manchete: “A culpa é da porra do capitalismo” [risadas]

Aroeira - A culpa é da porra do capitalismo. E o pessoal ainda vende isso como uma panacéia, essa merda que espoliou todo mundo. Vou fazer para vocês o desenho da Marielle governando o mundo. Vou botar assim, o pessoal pediu para desenhar o desenho que eu queria poder fazer, a Marielle, ou alguém como a Marielle.

 

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