Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

26
Out19

O papel inédito das mulheres no Sínodo para a Amazônia

Talis Andrade

Ouvidas pela primeira vez desde as reuniões preparatórias, mulheres dos nove países amazônicos trazem ao Vaticano relatos de povos locais e um pedido de ajuda. Participação feminina, porém, ainda gera desconforto

 

 

Marcivana Sateré e Mariluce dos Santos Mesquita, participantes do sínodo no Vaticano

Marcivana Sateré e Mariluce dos Santos Mesquita, lideranças indígenas que participam do sínodo no Vaticano

 

Entre os 185 participantes do Sínodo para a Amazônia convocados pelo papa Francisco, um grupo de mulheres fez estreia nesta reunião historicamente dominada por bispos. Vindas dos nove países que abrigam a maior floresta tropical do mundo, a lista com 38 representantes inclui lideranças indígenas, especialistas em temas ligados a meio ambiente e pesquisadoras.

"O papa escutou atentamente tudo o que a gente tinha para falar, os olhos dele nem piscavam", narra à DW Brasil Mariluce dos Santos Mesquita, religiosa da etnia bará, após uma das reuniões com o pontífice no Vaticano.

Moradora da Terra Indígena do Alto Rio Negro, Mesquita diz que as mulheres, ainda barradas em vários papéis na sociedade, são grandes conhecedoras da realidade na Amazônia por atuarem diretamente nos territórios e cuidarem do alimento e da família. "Ele acredita na gente", diz ela sobre o chefe da Igreja Católica.

Dentro do grupo das chamadas auditoras, essas mulheres trazem ao Vaticano o que ouviram de suas comunidades. Nas reuniões com bispos e o papa, elas podem fazer intervenções, mas não podem votar no documento final que será conhecido ao fim do sínodo.

Essa presença feminina, porém, ainda gera desconforto. "Durante algumas falas, era notável que as mulheres ainda causavam incômodo entre alguns bispos. Muitos ainda não estão acostumados a ouvi-las", comenta Márcia Oliveira, pesquisadora da Universidade Federal de Roraima.

Oliveira participa do sínodo como "perita", dando assessoria teórica, de conteúdo, sobre temas ligados a migrações e fronteiras que devem constar no documento final. "Essa presença aqui é um reflexo de como é na Amazônia, onde são mulheres que lideram muitos movimentos. Se elas não viessem, seria um escândalo", opina.

 

Presença de indígenas

Com encerramento no próximo domingo (27/10), esta edição do sínodo despertou reações fortes dentro e fora do universo religioso. Com discussões voltadas para questões ambientais e sociais, além de propostas de mudanças internas para aumentar a presença da Igreja Católica no vasto território amazônico, a reunião também foi criticada por ultraconservadores por incluir indígenas.

Mas foi por essa inclusão que, ao relatar a realidade das populações que vivem em Puerto Maldonado, no Peru, Yesica Patiachi Tayori frisou ao papa: "O senhor não está sozinho. As mulheres da Amazônia estão com o senhor." O discurso de Tayori emocionou os participantes.

"Ele talvez valorize o fato de falamos assim, abertamente, com seus cardeais, com seus bispos. Talvez estejamos ajudando-o a transferir coisas que ele próprio deseja que as pessoas dentro da Igreja conheçam", comenta Tayori à DW Brasil.

Para a professora indígena, Francisco parece estar lutando contra a corrente. "É a nossa maneira de ajudá-lo", diz ela sobre o apoio oferecido em nome das mulheres da chamada Pan-Amazônia: Suriname, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Brasil, onde moram cerca de 2,5 milhões de indígenas.

 

Voz amplificada

Ouvinte atento, Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, afirma que, até agora, a contribuição das mulheres foi o ponto alto deste sínodo. "São elas que mais participam das ações sociais, que são resistência e não mudam de posição quando são contrárias a certos projetos, que pensam no futuro e nas próximas gerações", argumenta.

Esse tem sido o tom adotado por Marcivana Sateré, liderança indígena de Manaus. "Se não tiver Amazônia, isso vai afetar não só nossas crianças, mas todas as gerações que ainda virão neste planeta", defende.

Sateré acredita que uma parte do mundo já tenha entendido a importância da floresta, mas gostaria que mais brasileiros tivessem atuando em sua proteção. Por isso, o destaque à Amazônia dado pelo papa é bem-vindo.

"Na verdade, a igreja está chamando a atenção aqui para aquilo que estamos vivenciando e falando faz tempo, mas a nossa voz não é tão forte como a de um papa", diz Sateré. "É um clamor profético. Porque, se não pararem para nos ouvir, se não pararem de destruir a floresta, a vida aqui vai ficar insuportável", argumenta ela sobre o papel da Amazônia na regulação do clima global.

LEIA MAIS

 
23
Out19

Como a ciência defende a floresta

Talis Andrade

Em diálogo com Carlos Afonso Nobre, convidado especial para o

Sínodo dos bispos para a Amazônia

amazonia.jpg

 

Hoje na Amazônia é possível alcançar «um equilíbrio entre o conhecimento tradicional e a ciência e a tecnologia moderna», de maneira a oferecer ao mundo um modelo econômico capaz de conciliar desenvolvimento e defesa da floresta. Está convencido disto o cientista brasileiro Carlos Afonso Nobre, prêmio Nobel da paz em 2007 e membro da Comissão de ciências ambientais do conselho nacional de desenvolvimento científico e tecnológico (Cnpq), que participa no Sínodo para a região pan-amazônica como convidado especial. Nesta entrevista a «L'Osservatore Romano» o cientista explica o seu ponto de vista, aprofundando algumas ideias já expostas durante o discurso que tinha proferido na tarde de 8 de outubro, diante da assembleia sinodal.

 

O senhor tomou a palavra na Assembleia sinodal para a região pan-amazônica e no seu breve discurso recordou que a Amazônia — descrita não como “pulmão do planeta”, mas como “coração biológico” da Terra — está ameaçada de maneira crônica, e no entanto a ganância do lucro por parte do homem não parece conhecer limites. Na sua opinião, é possível conciliar a floresta com a agricultura (“agrofloresta”), sem comprometer para sempre a fertilidade do território?

Sim, é possível. Se tivermos em consideração os 11 mil anos da presença humana na Amazônia, vemos que ao longo do tempo todos os povos indígenas desenvolveram uma forma de recurso aos produtos da floresta, sem nunca a destruir. Pode-se dizer que eles “antropizaram” a floresta. Hoje, a floresta tropical amazônica dispõe de milhares de produtos aos quais os indígenas recorrem, em maior quantidade do que no período precedente à presença humana no seu território. E a floresta continua a existir sem a extinção de qualquer espécie. Disto podemos aprender uma lição para melhorar a qualidade de vida também de outros povos, não só dos indígenas e das populações tradicionais. A ciência moderna desenvolveu sistemas chamados agroecológicos, para fazer com que as florestas tenham maior densidade de algumas espécies, aumentando assim o seu valor econômico. Estas agroflorestas já começaram a proporcionar um maior bem-estar para as famílias que promovem a agricultura a nível local. Por exemplo, há sistemas que produzem açaí, castanha, cacau e babaçu. Contudo, não obstante estas famílias tenham melhorado a sua vida, ainda não conseguem um rendimento suficiente para alcançar a classe média. Estes sistemas são economicamente muito mais viáveis do que o seriam se a floresta fosse substituída pela pecuária ou pela agricultura da soja, e até mais rentáveis do que a própria mineração. No entanto, temos que dar o próximo salto, ou seja, levar a ciência moderna a fazer com que estes produtos da floresta adquiram maior valor. Além disso, existem milhares de produtos da floresta que não são consumidos nos mercados fora da Amazônia e que realmente poderiam agregar um valor muito maior à economia destas famílias, até mesmo com o extrativismo. Este é um modelo de desenvolvimento totalmente viável, com as ferramentas de que hoje dispomos, também porque promove um equilíbrio entre o conhecimento tradicional e a ciência e a tecnologia moderna.

Referindo-se à “quarta revolução industrial”, o senhor afirmou que as tecnologias avançadas podem dar uma contribuição para proteger este e outros ecossistemas do planeta. Como a ciência pode intervir concretamente para debelar a ameaça que incumbe sobre essa região?

As tecnologias da “quarta revolução industrial”, do século xxi, já estão dominando o mundo e podem ser aplicadas, pois são amigáveis, duráveis e baratas, ao alcance de qualquer pessoa, e podem chegar ao centro da floresta, tornando realizável a exploração sustentável de produtos da floresta “em pé”, e tornar as populações amazônicas independentes da tecnocracia. Elas agregarão valor aos produtos das comunidades e proporcionarão melhor qualidade de vida às comunidades.

De que maneira os governos dos países amazônicos podem agir conjuntamente, ancorados na lei, para salvaguardar os povos indígenas, levando-os a assumir uma participação mais ativa na construção da sua própria história?

Há uma necessidade muito urgente da democracia, que deve ser implementada nos países amazônicos. Todos os países amazônicos sofrem criticamente devido à falta de uma verdadeira democracia. As nossas democracias são realmente imperfeitas, dado que a população elege em boa-fé os seus governantes, os quais depois nem sempre a representam. Mais de 80 por cento dos políticos destes países parecem buscar em primeiro lugar os seus interesses econômicos, inclusive aqueles que se escondem por trás da destruição da floresta.

A seu ver o “desenvolvimento sustentável”, um conceito às vezes abusado, pode representar uma solução viável em vista do bem-estar daquelas populações, sem as fazer perder a riqueza das próprias culturas e tradições?

Um elemento essencial do desenvolvimento sustentável é a união entre o benefício econômico e a manutenção dos serviços ecossistêmicos da floresta, o que representa a própria existência da floresta. A busca deste equilíbrio é possível e desejável, e este é o caminho que temos de percorrer na Amazônia.

Para o Papa Francisco, especialmente na “Laudato si’”, tudo está interligado, e se a visão integrada “Deus-homem-mundo” não for devidamente respeitada, a criação poderá perder para sempre a sua beleza original. Como representante da comunidade científica internacional, o senhor está de acordo com esta visão?

A visão da casa comum tem uma força muito grande, emblemática, simbólica, e hoje podemos ver os enormes riscos que corre a casa comum amazônica. Por isso, é deveras importante uma visão holística, como a do Papa Francisco, uma cosmovisão, pois devemos ter a noção de que se hoje não cuidarmos da Amazônia para ela não haverá um futuro.

Em 2007 o senhor foi laureado com o prêmio Nobel da paz, por ter ajudado a “disseminar conhecimentos sobre as mudanças climáticas provocadas pelo homem”. Qual é o denominador comum entre a paz e o meio ambiente?

Existe uma ligação muito clara entre a paz e o meio ambiente. Por exemplo, vemos que a urbanização no mundo continua a gerar uma pobreza incrível, sobretudo nas grandes cidades dos países em desenvolvimento, também na região amazônica. Esta perturbação que trouxemos às grandes cidades causa uma perda da qualidade de vida e portanto da felicidade, e isto tem provocado desequilíbrios enormes, como por exemplo o crime e a violência, levando a criar um tecido urbano onde a ausência da paz é palpável.

Sérgio Suchodolak

patrimonio-amazonia.jpg

 

26
Mai19

Sínodo da Amazônia é desafio para presença da Igreja Católica na região

Talis Andrade

machadarma desmatamento meio ambiente amazonia.png

 

RFI - O correspondente do jornal na Itália, Nicolas Senèze, explica em sua reportagem que além dos desafios ecológicos, a presença da Igreja Católica na vasta região amazônica vai estar no centro dos debates durante o Sínodo convocado pelo papa Francisco. Esse assunto também esteve presente em um recente colóquio na Universidade gregoriana de Roma.

O artigo cita a experiência de vários padres para mostrar o quanto a ausência da Igreja é flagrante na região. Um deles, David Romero, responsável pelos jesuítas na Amazônia, visitou uma pequena comunidade em uma localidade não informada, mas que não tinha visto um padre há pelo menos 10 anos.

Outro padre, o peruano Pablo Mora, disse ter celebrado uma missa em uma comunidade onde havia apenas uma família católica, mas estiveram presentes muitos fiéis que se tornaram evangélicos, o que revela, segundo o religioso, o abandono pastoral da Igreja.

Ao jornal, o secretário-executivo da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica), Mauricio Lopez, afirma que os povos da Amazônia reclamam a presença da Igreja Católica. A constatação veio dos eventos organizados pela Repam nos últimos meses, chamados de "momentos de escuta", que reuniram mais de 22 mil moradores dos nove países da bacia amazônica. Lopez considera a Amazônia e seus desafios para o clima do planeta, a segunda área de maior influência geopolítica mundial depois do Oriente Médio.

Bolsonaro é obstáculo

amazonia_legal.png

 

Por isso, diz o jornal La Croix, o ex-cardeal de São Paulo dom Cláudio Hummes vê a necessidade de criar uma Assembleia especial sobre o tema durante o Sínodo. Ele diz que a Amazônia nunca esteve tão ameaçada e critica o "paradigma tecnocrata" que dá ênfase a um "neocolonialismo econômico", manifestado pelo apetite das empresas de agronegócio e mineração, em detrimento do ser humano, que ficou em segundo plano.

Para ouvir o grito dos excluídos, a Igreja Católica deve ampliar sua presença na região, mas diante das dificuldades do deslocamento dos padres na Amazônia, Cláudio Hummes defende a importância de uma Igreja "inculturada", termo que designa a influência recíproca da fé cristã com a cultura local. O problema dessa visão é que muitos enxergam uma porta aberta para temas tabus na Igreja Católica, como o celibato e a ordenação de mulheres.

Já o arcebispo de Huncayo, no Peru, o cardeal Pedro Barreto, estima que os povos autóctones, que ele descobriu em diversas viagens a partir de 2001, representam uma alternativa para nossa sociedade. Por isso, ele defende o que chama de "amazonificação da Igreja".

O texto ainda lembra que essa visão humana da Amazônia encontra forte resistência do governo do presidente Jair Bolsonaro, já que ele considera os povos indígenas um obstáculo para a exploração da floresta. Ele já manifestou preocupação com o Sínodo da Igreja e seus colaboradores já declararam que o evento da Vaticano "interfere na soberania do Brasil".

09
Mar19

Vaticano faz em Manaus reunião preparatória para Sínodo da Amazônia, criticado por governo Bolsonaro

Talis Andrade

sínodo amazonia.png

 

Por RFI
 

A Igreja católica está preocupada com a preservação do planeta e organiza a partir desta quinta-feira (7) duas reuniões para discutir o desenvolvimento sustentável. A primeira começou nesta manhã no Vaticano e vai durar até 9 de março. A segunda acontece em Manaus e é uma reunião preparatória para Sínodo da Amazônia, previsto para outubro e que provoca polêmica com o governo Bolsonaro.

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

A conferência no Vaticano “As religiões e os objetivos do desenvolvimento sustentável: ouvir o grito da terra e dos pobres” propõe um diálogo inter-religioso para estabelecer objetivos de como ajudar a salvar o meio ambiente. Participam representantes da Organização das Nações Unidas para e Agricultura e Alimentação (FAO), além de religiosos da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação entre outros. A finalidade é reforçar o empenho das religiões e o envolvimento da sociedade civil na preservação do meio ambiente.

Em Manaus, ocorre o seminário de preparação para Sínodo da Amazônia previsto para outubro. O tema central dos dois dias de debates, abertos ao público, é a preservação ambiental da Amazônia.

As duas reuniões recordam a encíclica do papa Francisco Laudato si', na qual ele critica o consumismo e desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.

Críticas do governo brasileiro

Recentemente o governo brasileiro criou polêmica com a realização do Sínodo da Amazônia. O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, disse em fevereiro que ONGs estrangeiras e chefes de Estado de outros países não devem dar "palpite" na Amazônia brasileira.

Não houve um comunicado oficial do Vaticano respondendo ao governo do Brasil. A Santa Sé não entra neste tipo de polêmica. Já o bispo de Marajó, no Pará, dom Evaristo Spengler, afirmou que não cabe ao governo brasileiro monitorar os debates da Igreja. Segundo ele, a igreja “não é neutra”, o que não significa que tenha partido. Dom Evaristo declarou que “a igreja está do lado dos mais fracos, dos mais pobres, dos ribeirinhos e dos indígenas”.

O bispo criticou também os interesses econômicos do governo brasileiro. De acordo com ele, existem dois modelos de desenvolvimento: o sustentável e o predatório. Sobre o Brasil, ele falou que “estão incentivando um modelo predatório, que extrai as riquezas da floresta e deixa a população na pobreza”. Além disso, o governo brasileiro “quer construir hidrelétricas, abrir rodovias e permitir o avanço do agronegócio e das mineradoras”.

Vale lembrar que o papa Francisco anunciou o seminário em 2017, muito antes da eleição de Jair Bolsonaro. O Sínodo da Amazônia vai ocorrer de 6 a 27 de outubro deste ano. O Sínodo da Amazônia preocupa o governo de Bolsonaro, que teme que suas políticas contra a demarcação de terras indígenas e ONGs que combatem as mudanças climáticas sejam questionadas durante o encontro.

papa-propos-sinodo-sobre-amazonia-em-2017.jpg

 

Preparativos para o Sínodo da Amazônia

Na semana passada, o Vaticano já havia organizado em Roma um seminário preparatório para o Sínodo de outubro. Foram três dias de debates sobre a Amazônia que contaram com a participação do cardeal Cláudio Hummes, que é presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica, e do bispo de Marajó, Dom Evaristo Spengler. O Sínodo é para a Amazônia, mas sua preservação ou destruição tem repercussão mundial.

Nove países compartilham a Pan-Amazônia: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Nesta região, importante fonte de oxigênio para toda a Terra, concentra-se mais de um terço das florestas primárias do mundo. É uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, abrigando 20% da água doce não congelada.

Neste imenso território vivem cerca de 34 milhões de pessoas, das quais mais de 3 milhões são indígenas, pertencentes a mais de 390 grupos étnicos. Povos e culturas diferentes como afrodescendentes, camponeses, colonos, vivem em uma relação vital com a vegetação e as águas dos rios.

Sobre o mesmo assunto

  • A SEMANA NA IMPRENSA

    Briga por terras indígenas no Brasil esconde catástrofe ecológica na Amazônia

    Saiba mais

  • BRASIL/AMAZÔNIA/BOLSONARO

    Ação de Bolsonaro na Amazônia poderá ser considerada crime contra a humanidade, alertam advogados franceses

     

12
Fev19

Governo Bolsonaro e o Vaticano - 'Familiaridade aziaga com métodos empregados por governos totalitários'

Talis Andrade

abin igreja flavio tavares.jpg

 

 

A mente pouco iluminada dos que hoje deveriam comandar a diplomacia brasileiraparou nos anos 30 do século 20. Quem no governo imagina conseguir vantagens políticas pressionando a Hierarquia Católica de modo vertical e por meio de um governo como o italiano, mostra familiaridade aziaga com os métodos empregados por governos totalitários no trato com o Vaticano.

O comentário é de Roberto Romano, professor da Unicamp, publicado no Facebook, 11-02-2019.

Na Concordata de Império da Santa Sé com Hitler foi estabelecido que, para manter vantagens para o clero, a Santa Sé proibiria toda atividade política dos fiéis, dos padres e bispos. Os próprios partidos católicos e aproximados foram abolidos por iniciativa da Santa Sé.

"Atividade política" queria dizer : oposição ao governo nacional-socialista. Também nos tratos entre Mussolini e o Vaticano se tentou afastar a atividade de leigos e padres contrários ao fascismo.

No Brasil de Vargas, houve clara colaboração entre Bispos e governo, paga com o controle das atividades dos leigos opostos à ditadura.

No regime de 1964 a receita deu certo apenas pela metade. O governo conseguiu apoio da maioria dos bispos, mas a minoria aguerrida que se opunha à ditadura, bispos, padres e leigos, teve apoio discreto do Vaticano quando os laços entre apoiadores da ditadura foram longe demais na tarefa abjeta de negar as torturas, etc.

A troca de Dom Agnello Rossi por Dom Paulo Evaristo Arns é um exemplo eloquente. Ou seja, já no regime de 1964 a receita elaborada nos anos 30, que ajudou o totalitarismo nazi fascista com apoio do clero, não deu certo.

O atual chanceler brasileiro (?), imerso numa cultura tridentina, não entende a lógica atual da instituição católica. Ele imagina que o Papa Francisco é Pio XI ou Pio XII.

Erra ainda com a sua leitura de João Paulo II, repetição daqueles pontífices que apoiou ditadores como Pinochet.

O episódio apenas evidencia o atraso histórico e cultural do governo Bolsonaro, sobretudo em setores delicados como o trato com uma instituição milenar, experiente em matéria diplomática como a Igreja Católica.

O pedido de fazer com que funcionários do governo participem do Sínodo é patético.

Agora, o uso da Abin para bisbilhotar os debates e documentos dos bispos e do próprio Vaticano é sinal claro de uma prática bisonha que "não sabe com quem está falando". Práticas como a escancarada pelo governo e sua agências faz lembrar as anedotas sobre a PIDE portuguesa. Seus agentes andavam com distintivos de polícia secreta em plena luz do dia....é o país da piada pronta mesmo. Infelizmente.

Em março de 2018 a Igreja Católica anunciava:

Quatro brasileiros participam do conselho de preparação do Sínodo da Amazônia

- Card. Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (Brasil), presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica.

- Card. Peter Kodwo Appiah Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

- Card. Carlos Aguiar Retes, arcebispo da Cidade do México (México).

- Dom Pedro Ricardo Barreto Jimeno, S.J., arcebispo de Huancayo (Peru), vice-presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica.

- Dom Paul Richard Gallagher, arcebispo titular de Hodelm, secretário para as Relações com os Estados.

- Dom Edmundo Ponciano Valenzuela Mellid, S.D.B., arcebispo de Assunção(Paraguai).

- Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto VelhoRondônia (Brasil).

- Dom Oscar Vicente Ojea, bispo de San Isidro, presidente da Conferência Episcopal (Argentina).

- Dom Neri José Tondello, bispo de JuínaMato Grosso (Brasil).

- Dom Karel Martinus Choennie, bispo de Paramaribo (Suriname).

- Dom Erwin Kräutler, C.P.P.S., bispo emérito do XinguPará (Brasil).

- Dom José Ángel Divassón Cilveti, S.D.B., ex-vigário apostólico de Puerto Ayacucho (Venezuela), bispo titular de Bamaccora.

- Dom Rafael Cob García, vigário apostólico de Puyo, bispo titular de Cerbali(Equador).

- Dom Eugenio Coter, vigário apostólico de Pando, bispo titular de Tibiuca(Bolívia).

- Dom Joaquín Humberto Pinzón Güiza, I.M.C., vigário apostólico de Puerto Leguízamo-Solano, bispo titular de Ottocio (Colômbia).

- Dom David Martínez de Aguirre Guinea, O.P., vigário apostólico de Puerto Maldonado, bispo titular de Izirzada (Peru).

- Irmã María Irene Lopez Dos Santos, delegada da Conferência Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR).

Mauricio López, secretário executivo da REPAM (Equador).

Leia 

 

 

12
Fev19

Secretário geral da CNBB fala sobre o Sínodo da Pan-Amazônia

Talis Andrade

amazonia.jpg

 

 

Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB, na tarde desta segunda-feira, 11 de fevereiro, lembrou que o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia é uma iniciativa para que a Igreja compreenda sua missão evangelizadora naquela região do mundo: “é um evento, uma celebração da Igreja e para a Igreja”.

O secretário-geral gravou um vídeo que está disponível aqui e nas redes sociais no qual se vê o anúncio feito pelo Papa Francisco da realização da assembleia especial do Sínodo dos Bispos no mês de outubro de 2017. Dom Leonardo esclareceu: “da Igreja para a Igreja envolve toda a questão da Pan-Amazônia: os povos, o meio ambiente. Toda essa realidade, certamente será abordada. O Santo Padre, no entanto, deseja que encontremos novos caminhos para a evangelização, para a Pan-Amazônia”.

Dom Leonardo pede, no vídeo, que os brasileiros e as populações dos outros oito países que integram a região da Pan-Amazônia rezem pela boa realização do Sínodo.

Sínodo Especial

O documento preparatório para a assembleia de outubro está definido que a Amazônia é “uma região com rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja”.

Na primeira parte deste documento, verifica-se a preocupação da Igreja em fazer um chamado a todos para “olhar a identidade e os clamores da Pan-Amazônia. Território, diversidade sociocultural, identidade dos povos indígenas, memória histórica eclesial, justiça e direitos dos povos, espiritualidade e sabedoria.Segundo o documento preparatório, “em sua história missionária, a Amazônia tem sido lugar de testemunho concreto de estar na cruz, inclusive, muitas vezes, lugar de martírio. A Igreja também aprendeu que neste território, habitado por mais de 10 mil anos por uma grande diversidade de povos, suas culturas se construíram em harmonia com o meio ambiente”.

O Sínodo se propõe, desde a sua convocação, a fazer uma revisão do trabalho de evangelização e, por isso, a Igreja deve fazer um sério discernimento diante da Palavra de Deus. O anúncio do Evangelho de Jesus na Amazônia é apresentado a partir das dimensões bíblico-teológica, social, ecológica, sacramental e eclesial-missionária. “Hoje o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito (cf. Ex 3,7). É um grito de escravidão e abandono, que clama pela liberdade e o cuidado de Deus. É um grito que anseia pela presença de Deus, especialmente quando os povos amazônicos, por defender suas terras, são criminalizados por parte das autoridades; ou quando são testemunhas da destruição do bosque tropical, que constitui seu habitat milenar; ou, ainda, quando as águas de seus rios se enchem de espécies mortas no lugar de estarem plenas de vida”, afirma o texto de preparação.

E, por fim, o texto-base aponta para um comprometimento de todos diante da realidade: novos caminhos para uma Igreja com rosto amazônico. O texto reflete o que seria esse rosto, a dimensão profética, os ministérios e os novos caminhos. “No processo de pensar uma Igreja com rosto amazônico, sonhamos com os pés fincados na terra de nossos ancestrais e com os olhos abertos pensamos como será essa Igreja a partir da vivência da diversidade cultural dos povos. Os novos caminhos terão uma incidência nos ministérios, na liturgia e na teologia”, destaca o texto.

BANNER sinodo.jpg

 

12
Fev19

Sínodo para a Amazônia: trazer de volta os novos caminhos da irmã Dorothy 14 anos depois

Talis Andrade

Dorothy está viva na memória daqueles que continuam a lutar na defesa da Amazônia. Aqueles que a mataram nunca pensaram que ela se tornaria um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em prática através do processo sinodal

doroty.jpg

 

O assassinato da irmã Dorothy Stang, que completa 14 anos em 12 de fevereiro, foi um exemplo claro de que a busca de novos caminhos sempre foi, é e será arriscada. As novidades incomodam quem pretende conservar o sistema estabelecido, que sempre os beneficiou.

Existem muitos personagens que ao longo da história sofreram isso. O mesmo Jesus de Nazaré queria estabelecer uma nova maneira de se relacionar com Deus, o que provocou uma aliança do poder político e religioso para lhe dar a morte de um criminoso.

Com a irmã Dorothy aconteceu algo parecido, porque nos quase quarenta anos que ela desenvolveu sua missão no Brasil, ela conviveu com as pessoas, especialmente as mais pobres, e descobriu que o futuro da Amazônia e seu povo precisava de um novo caminho, que na época soava como ciência ficção, o desenvolvimento sustentável, que começou como algo local, mas que aos poucos foi alcançando reconhecimento nacional e internacional.

Podemos dizer que, com o Papa Francisco, a situação é semelhante, porque nos seus quase seis anos de pontificado ele não se cansou de tomar iniciativas surpreendentes. Agora ele quer buscar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, e com isso está mexendo com muita gente.

Encontrar novos caminhos para a Igreja faz com que aqueles que vivem apenas preocupados com o que se passa dentro da sacristia, se oponham a uma Igreja em saída, de portas abertas, hospital de campanha, uma igreja ministerial, sinodal, que não apenas dita o que tem que ser feito, mas também quer ouvir e aprender com todos. Os novos caminhos para a ecologia integral despertam as reticencias das grandes empresas e dos governos que as apoiam. Todos fazem parte do mesmo lado, aqueles que sempre viram a Casa Comum desde o desejo predatório daqueles que colocam o lucro pessoal acima do bem coletivo.

Todos eles reagem, como se viu nos últimos dias, não só contra o Papa Francisco, mas também contra aqueles que o apoiam e se sentem parte da abertura desses novos caminhos. Não tenho dúvidas de que, se ela estivesse viva, Dorothy Stang faria parte de tantos homens e mulheres que nos últimos meses têm insistido em chegar em cada canto da Amazônia para escutar, para aprender um pouco mais com a vida dos povos amazônicos especialmente com os povos indígenas. Aqueles que a perseguiram e assassinaram são os mesmos que continuam a perseguir aqueles que desejaram continuar seu legado.

Como cristãos, não podemos esquecer que nossa fé é baseada em alguém que sentiu a necessidade de tornar o Reino de Deus uma realidade. Para isso, é necessário enfrentar os poderes deste mundo, aqueles que participam da economia que mata, que consideram descartável uma grande parte da humanidade. Foi isso que matou a irmã Dorothy, mas que também faz aumentar a cada dia o número dos inimigos do Papa Francisco, que desde dentro eles chamam de herege e desde fora o chamam de comunista.

Dorothy está viva na memória daqueles que continuam a lutar na defesa da Amazônia. Aqueles que a mataram nunca pensaram que ela se tornaria um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em prática através do processo sinodal. O Sínodo desperta cada vez mais interesse, tanto naqueles que o veem como um sinal de esperança, como naqueles que o consideram uma ameaça aos seus planos malignos.

Em um mundo que está passando por uma crise que põe em risco o futuro do próprio planeta, é sempre bom ter aqueles que se defendem com a mesma arma que Dorothy Stang carregou no momento em que foi vilmente assassinada, a Palavra de Deus. Ela é sempre luz no caminho e está nos fortalecendo diante de ataques daqueles que acreditam que são donos e pretendem controlar além de onde deveriam chegar.

 

 



Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub