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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

30
Out21

Por que você acredita em mamadeira de piroca?

Talis Andrade

 

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O Brasil acredita no fake da mamadeira de piroca, porque o incesto constitui uma tradição, e o estupro um costume das senzala e casa grande, desde as Capitanias Hereditárias ao Império de Pedro II, quando da primeira menstruação da negrinha. Tem mais: a idade dos casamentos no Brasil Colonial, segundo o Direito Romano e o Canônico, era, em Portugal e no Brasil, de 12 anos para as meninas e 14 para os meninos.

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Fica justificado porque no comício golpista de 7 de Setembro último, Dia da Independência, os nazifascistas, com suas raízes nos movimentos TFP, CCC e KKK (depois de Trump) fizeram erguer um enorme pênis inflável no coração da cidade de São Paulo. 

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A cada 2 horas, o Brasil recebe uma denúncia de estupro de meninas até 14 anos.

Informa a Agência IBGE (30.09.2021):

  • Mais de 20% das adolescentes de 13 a 17 anos diz já ter sido tocada, manipulada, beijada ou ter tido partes do corpo expostas contra a sua vontade.
  • E 8,8% das meninas nessa idade já foram forçadas ao sexo, a maioria antes dos 14 anos.
  • Dentre estudantes da rede privada de ensino houve mais relatos desse tipo de violência do que dentre os da rede pública: 16,3% contra 14,4%.

O eleitor alfabetizado político, maior de 16 anos, acreditar os governos petistas de Lula e Dilma distribuíam mamadeiras de piroca, madeiras em forma de pênis, nas creches e jardins da infância, precisa ter a mente doentia, perturbada por pensamentos devassos, e desejos sexuais reprimidos.

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Os anormais, que admitem e divulgam uma mentira escabrosa e impraticável, são os doentes que praticam incestos, os pedófilos que estupram criancinhas, anormais chamados de papa-anjo.

E o papa-figo. Lenda urbana nordestina,  que havia indivíduos que se alimentavam do fígado de criancinhas, do sangue de anjinhos, para curar 'doenças de sangue ruim' como a sífilis, a hanseníase. 

O papa-figo um velho rico. Que tem aliciadores de crianças, o 'homem do saco'.

No "Folclore Tradicional Brasileiro", a informação de que os ajudantes do papa-figo usam de todos os artifícios para atrair as vítimas. Para isso vale distribuir presentes, doces, moedas ou cédulas de dinheiro; brincar fazendo caretas, oferecer brinquedos ou comida. Eles agem em qualquer lugar público ou em portas de escolas, parques, ou locais com pouco movimento, e sempre longe das vistas dos adultos.

Depois de atrair as distraídas ou solitárias crianças, estas são levadas para o verdadeiro papa-figo, um sujeito estranho, rico, que sofre de uma doença rara e sem cura. Alguns sintomas dessa doença seriam o crescimento anormal de suas orelhas, ou o corpo leproso.

Diz a lenda que, para aliviar os sintomas dessa terrivel doença ou maldição, o papa-figo precisa se alimentar do fígado de uma criança. Feito a extração do fígado, eles costumam deixar junto com a vítima, uma grande quantia em dinheiro, que é para o enterro e também para compensar a perda junto à família.

A lenda é divulgada, inclusive, pelo seu valor pedagógico: o aviso de que a criança não deve conversar com estranhos, principalmente aceitar presentes.

Quando uma criança desaparecia nas cidades do interior nordestino culpavam também o palhaço, quando da passagem de um circo, ou uma estranha mulher velha, judia, com uma trouxa na cabeça, um preconceito religioso, xenófabo, originário da Santa Inquisição. 

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Os atos dos tarados sexuais terminam mistificados pelas vítimas de estupro, de incesto, como acontece com a nossa atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves. O crime sexual passa a ser aceitável como segredo de família. 

Renan Melo Xavier, in Metrópoles, noticiou que Damares "afirmou ter visto Jesus Cristo em cima de uma goiabeira.

Segundo a pastora evangélica, o episódio teria ocorrido após ela tentar suicídio por ter sido vítima de abusos sexuais quando criança. A ministra afirmou não estar ofendida com a repercussão do relato: 'Quero que todo mundo pergunte o que é o pé de goiaba. Encham as redes sociais de pés de goiaba, porque eu quero falar sobre isso. Não estou ofendida”.

A desconhecida Damares, com essa história foi apresentada ao Brasil. 

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Irene Cavaliere, in 'Hanseníase na História', define:

Também conhecida como lepra ou mal de Lázaro, antigamente a enfermidade era associada ao pecado, à impureza, à desonra. Por falta de um conhecimento específico, a hanseníase era muitas vezes confundida com outras doenças, principalmente as de pele e venéreas. Daí o preconceito em relação ao seu portador: a trasmissão da doença pressupunha um contato corporal, muitas vezes de natureza sexual e, portanto, pecaminoso.

Narrativas religiosas associavam as marcas na carne aos desvios da alma: eram os sacerdotes, e não os médicos, que davam o diagnóstico. No Velho Testamento, o rei Uzziah foi punido por Deus com a doença, por ter realizado uma cerimônia exclusiva aos sacerdotes. Mesmo sendo rei, teve que ir morar numa casa isolada e não foi enterrado no cemitério dos soberanos. Já no Novo Testamento, é marcante o episódio em que Cristo “limpa” um leproso.

Quando não eram enviados para leprosários e excluídos da sociedade, os doentes não podiam entrar em igrejas, tinham que usar luvas e roupas especiais, carregar sinetas ou matracas que anunciassem sua preseça e, para pedir esmolas, precisavam colocar um saco amarrado na ponta de uma longa vara. Não havia cura e ninguém queria um leproso por perto

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Damares vai completar três anos no ministério, e não realizou nenhuma campanha educatica contra o estupro, contra o incesto, e jamais negou o # fake das mamadeiras eróticas. Tudo indica que compactua com essa estória inventada pela propaganda mentirosa, pela propaganda enganosa da campanha de Jair Bolsonaro. Disse Damares: “Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar". Disse mais numa entrevista para o BBC News, 18 dezembro 2019:

"Eu vou para a região ribeirinha e lá a gente encontra a lenda do boto. Mas o boto que engravidava a menina era o pai, que botava a culpa no boto. O incesto é de verdade no Brasil e vamos enfrentar isso."

As frases polêmicas que costumam gerar manchetes são abundantes. "Tem criança que conversa com duende. Tem crianças que falam com fadas. Tem crianças que falam com pôneis. Eu não posso falar com Jesus?", diz.

Também afirma que é "a ministra mais bonita do Brasil". O silêncio de Damares é cúmplice. Hoje mesmo publica o G1 (importante repetir): "É # Fake que o PT distribuiu mamadeiras eróticas para crianças em creches pelo país". 

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Escreve Moacyr Scliar, in História do Conceito de Saúde:

O conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas. O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças. Aquilo que é considerado doença varia muito. Houve época em que masturbação era considerada uma conduta patológica capaz de resultar em desnutrição (por perda da proteína contida no esperma) e em distúrbios mentais. A masturbação era tratada por dieta, por infibulação, pela imobilização do "paciente", por aparelhos elétricos que davam choque quando o pênis era manipulado e até pela ablação da genitália. Houve época, também, em que o desejo de fuga dos escravos era considerado enfermidade mental: a drapetomania (do grego drapetes, escravo). O diagnóstico foi proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, médico do estado da Louisiana, no escravagista sul dos Estados Unidos. O tratamento proposto era o do açoite, também aplicável à "disestesia etiópica", outro diagnóstico do doutor Cartwright, este explicando a falta de motivação para o trabalho entre os negros escravizados.

Real ou imaginária, a doença, e sobretudo a doença transmissível, é um antigo acompanhante da espécie humana, como o revelam pesquisas paleontológicas. Assim, múmias egípcias apresentam sinais de doença (exemplo: a varíola do faraó Ramsés V). Não é de admirar que desde muito cedo a Humanidade se tenha empenhado em enfrentar essa ameaça, e de várias formas, baseadas em diferentes conceitos do que vem a ser a doença (e a saúde). Assim, a concepção mágico–religiosa partia, e parte, do princípio de que a doença resulta da ação de forças alheias ao organismo que neste se introduzem por causa do pecado ou de maldição. Para os antigos hebreus, a doença não era necessariamente devida à ação de demônios, ou de maus espíritos, mas representava, de qualquer modo, um sinal da cólera divina, diante dos pecados humanos. Deus é também o Grande Médico: "Eu sou o Senhor, e é saúde que te trago" (Êxodo 15, 26); "De Deus vem toda a cura" (Eclesiastes, 38, 1–9).

A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino. A enfermidade proclamava o pecado, quase sempre em forma visível, como no caso da lepra Trata–se de doença contagiosa, que sugere, portanto, contato entre corpos humanos, contato que pode ter evidentes conotações pecaminosas. O Levítico detém–se longamente na maneira de diagnosticar a lepra; mas não faz uma abordagem similar para o tratamento. Em primeiro lugar, porque tal tratamento não estava disponível; em segundo, porque a lepra podia ser doença, mas era também, e sobretudo, um pecado. O doente era isolado até a cura, um procedimento que o cristianismo manterá e ampliará: o leproso era considerado morto e rezada a missa de corpo presente, após o que ele era proibido de ter contato com outras pessoas ou enviado para um leprosário. Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média, em parte porque o rótulo de lepra era freqüente, sem dúvida abrangendo numerosas outras doenças.

Os preceitos religiosos do judaísmo expressam–se com freqüência em leis dietéticas, que figuram, em especial, nos cinco primeiros livros da Bíblia (Torá, ou Pentateuco). Sua finalidade mais evidente é a de manter a coesão grupal, acentuando as diferenças entre hebreus e outros povos do Oriente Médio. Essas disposições eram sistemas simbólicos, destinados a manter a coesão do grupo e a diferenciação com outros grupos, mas podem ter funcionado na prevenção de doenças, sobretudo de doenças transmissíveis. Por exemplo, um animal não poderia ser abatido por pessoa que tivesse doença de pele, o que faz sentido: lesões de pele podem conter micróbios. Moluscos eram proibidos, e dessa forma certas doenças, como a hepatite transmitida por ostras, podiam ser evitadas. Isso não significa que a prevenção fosse exercida conscientemente; as causas das doenças infecciosas eram desconhecidas. Seria muito difícil, por exemplo, associar a carne de porco à transmissão da triquinose. Para isto há uma explicação ecológica, por assim dizer. A criação de suínos, no Oriente Médio, seria um contra–senso. Trata–se de uma região árida, sem a água de que esses animais necessitam como forma de manter seu equilíbrio térmico. Além disso, povos nômades teriam dificuldades em manter um animal que se move pouco, como o porco. Finalmente, ao contrário dos bovinos, que servem como animal de tração e que proporcionam leite, o suíno só fornece a carne – uma luxúria, portanto, uma tentação que era evitada pelo rígido dispositivo da lei.

Em outras culturas era o xamã, o feiticeiro tribal, quem se encarregava de expulsar, mediante rituais, os maus espíritos que se tinham apoderado da pessoa, causando doença. 

Entre os índios Sarrumá, que vivem na região da fronteira entre Brasil e Venezuela, o conceito de morte por causa natural ou mesmo por acidente praticamente inexiste: sempre resulta da maldição de um inimigo. Ou, então, conduta imprudente: se alguém come um animal tabu, o espírito desse animal vinga–se provocando doença e morte.

A tarefa do xamã é convocar espíritos capazes de erradicar o mal. Para isso ele passa por um treinamento longo e rigoroso, com prolongada abstinência sexual e alimentar; nesse período aprende as canções xamanísticas e utiliza plantas com substâncias alucinógenas que são chamarizes para os espíritos capazes de combater a doença.

Neste Brasil tomado pelo negacionismo de Jair Bolsonaro o fake da mamadeira de piroca volta a circular. 

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por Louise Queiroga /O Globo

Um vídeo que bombou durante a campanha eleitoral de 2018 em que um homem mostra uma mamadeira com o bico no formato de um órgão genital masculino dizendo que o item foi distribuído em creches pelo PT a mando de Fernando Haddad tem voltado a circular na web. Ele é #FAKE.

 — Foto: G1

“Olha aqui ó, vocês que votam no PT. Essa aqui é a mamadeira distribuída na creche", diz o homem, no vídeo. "Distribuída na creche para seu filho, com a desculpa de combater a homofobia. Olha o bico como é, ó. Tá vendo? O PT e o Haddad pregam isso para o seu filho (...) Isso faz parte do 'kit gay'. Invenção de Haddad", complementa.

O conteúdo foi desmentido na época por agências de checagem, como o Projeto Comprova, e pelo próprio Ministério da Educação (MEC), que deixou claro que cada município é autônomo, que a gestão da educação básica é dos entes federados e que, portanto, não houve nenhuma distribuição de material do tipo por parte do governo federal.

Um outro detalhe que denota a falsidade da mensagem é que o homem dá a entender que se trata de algo atual na filmagem e em 2018 o PT já não estava mais no poder.

Procurada por O Globo, a assessoria de imprensa do Partido dos Trabalhadores (PT) reforça que a informação dita no vídeo é totalmente falsa. "É mentira que governos do PT tenham produzido ou distribuído a qualquer tempo qualquer material que pudesse ser chamado de 'kit gay'. É falso e criminoso todo conteúdo associado a esse tema nas redes sociais", afirma, em nota.

Assim que o vídeo surgiu, aliás, o site do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma nota destacando que o conteúdo é falso e descrevendo-o como um "boato maldoso". "O PT jamais distribuiu nenhum tipo de material erótico, muito menos para crianças."

Fato ou Fake já desmentiu a informação de que o então candidato Fernando Haddad criou um "kit gay" para crianças. Em razão da propagação do material falso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou o então candidato Jair Bolsonaro remover os vídeos da internet por gerar desinformação e prejudicar o debate político.

'Kit gay'

O que ficou conhecido como "kit gay", na verdade, era um material que fazia parte do projeto Escola sem Homofobia, que, por sua vez, estava dentro do programa Brasil sem Homofobia, do governo federal, em 2004. Ele era voltado à formação de educadores, e não tinha nenhuma previsão de distribuição do material para alunos. Ou seja, nunca foi destinado para crianças. Além disso, o programa não chegou a ser colocado em prática.

Elaborado por profissionais de educação, gestores e representantes da sociedade civil, o kit era composto de um caderno, uma série de seis boletins, cartaz, cartas de apresentação para os gestores e educadores e três vídeos. A distribuição do material foi suspensa em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff.

É #FAKE que PT distribuiu mamadeiras eróticas para crianças em creches pelo país — Foto: Reprodução

É #FAKE que PT distribuiu mamadeiras eróticas para crianças em creches pelo país — Foto: Reprodução

 
 
31
Jan20

127.585 estupros, dos quais 63,8% ocorreram em menores de 14 anos

Talis Andrade

 “Entre 40% e 60% dos casos de gravidez na adolescência resultantes de violência sexual"

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A campanha pela abstinência sexual que Damares Alves pretende lançar durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, prevista para acontecer na primeira semana de fevereiro em parceria com o Ministério da Saúde, comandado pelo médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, vem colocando os dois ministros em lados opostos. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dita ―ou tenta ditar― as diretrizes da ação, mas o custo de 3 milhões de reais será bancado pelo Ministério da Saúde. Em nota técnica obtida pelo jornal O Globo no último fim de semana, a pasta comandada pela pastora evangélica afirma que o início precoce da vida sexual leva a “comportamentos antissociais ou delinquentes” e “afastamento dos pais, escola e fé”, entre outros resultados.

  •  

Já a pasta de Mandetta afirmou, em outra nota técnica, que a campanha deve reforçar a autonomia e o protagonismo do jovem sobre sua iniciação sexual, colocando à disposição os métodos contraceptivos. Ao jornal Folha de S. Paulo o ministro afirmou que a mensagem do “comportamento responsável é válida”, mas que “o problema é complexo” e “não se pode minimizar a discussão e dar ênfase só para isso". Ele também disse que questões religiosas não devem pautar a discussão e que tem "apostado muito muito em informar as consequências, porque acredito que esse seja um ponto essencial para a conscientização”.

Fora desse embate estão os números alarmantes de estupros cometidos em meninas menores 14 anos, uma das principais causas da gravidez precoce, segundo diversos especialistas e estudos. Os dados mais recentes constam no último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A entidade mostra que nos de 2017 e 2018 foram registrados um total de 127.585 estupros, dos quais 63,8% ocorreram em menores de 14 anos ―o que se configura como estupro de vulnerável. Além disso, 81,8% dos casos aconteceram em mulheres, 75,9% foram cometidos por alguém conhecido e em de 95% deles os autores pertencem ao sexo masculino. “É de se destacar que os crimes sexuais estão entre aqueles com as menores taxas de notificação à polícia, o que indica que os números aqui analisados são apenas a face mais visível de um enorme problema que vitima milhares de pessoas anualmente”, afirma o texto.

A ministra Damares também vem apontando para o aumento dos casos de doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis. Em julho do ano passado, a ONU apontou que o contágio do vírus da AIDS no Brasil cresceu 21% em oito anos, apesar das campanhas e tratamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa tendência já vinha sendo observada por entidades e especialistas, que apontam para o nível de desconhecimento das novas gerações, que não vivenciaram o pânico gerado pelos primeiros contágios a partir da década de 1980. Seja como for, o Governo Bolsonaro foi criticado por ter transformado o órgão responsável pelo combate à doença em uma coordenadoria dentro do Ministério da Saúde —antes, era um departamento específico. Na prática, isso significou que a política de enfrentamento ao vírus, tida como referência no combate ao HIV em todo o mundo, perdeu relevância.

A ministra também abordou na entrevista alguns problemas reais e apelou para o senso comum: “A gravidez precoce está crescendo de uma forma absurda. E mais do que a gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis. Sabiam que estamos em epidemia de sífilis?

Em relatório de 2017, a Unicef aponta “entre 40% e 60% dos casos de gravidez na adolescência resultantes de violência sexual”..

Além disso, o estudo destaca que os abusos ocorridos repetidas vezes aconteceram em 45,6% dos casos de meninas de 10 a 14 anos e 25,7% das jovens de 15 a 19 anos. Entre as que ficaram grávidas em decorrência de estupro, em 72,8% (10 a 14 anos) e 44,1% (15 a 19 anos) dos casos a violação teve caráter repetitivo. Portanto, continua o estudo, “a gravidez na adolescência e as notificações de estupro podem estar associadas, evidenciada pela alta prevalência de violência de repetição, de ocorrência de estupro e outras vulnerabilidades”.

A ministra Damares Alves não nega esta realidade e diz que defende a educação sexual em escolas, desde que falada “de forma certa”. Coincidindo com movimentos feministas, afirmou ao Correio que “quem for falar para a criança de 3 anos sobre educação sexual deve fazê-lo inclusive para empoderar essa criança a se proteger”. Ela inclusive aproveitou para lembrar seu histórico pessoal de violação: "Vocês conhecem a história do meu abuso, daquele momento terrível da minha vida. Se eu soubesse o que era aquilo, eu teria gritado. Eu tinha 6 anos”. 

relatório da Unicef também aponta quatro “macrofatores” causais para o alto índice de gravidez precoce: além da violência sexual, aponta para o “descompasso entre o desejo sexual e o risco de gravidez, que pode resultar na gravidez não planejada (escapulida)”; a “vontade da maternidade, que resulta na gravidez desejada”; e a “necessidade de mudança de status social, que resulta na gravidez estratégica”.

Nesse contexto cabe também destacar o elevado número de uniões estáveis e casamentos entre adolescentes, uma realidade para 23,2% das meninas com de 10 a 14 anos, e 36,8% entre aquelas de 15 a 19 anos, lembra o Ministério da Saúde. “As dificuldades para resolver os vínculos de dependência do grupo familiar podem levar os jovens a buscar uma pseudoindependência, substituindo os laços com os pais pela dependência afetiva do casal. A adolescente que vive em um meio social desprovido de recursos materiais, financeiros e emocionais satisfatórios pode ver na gravidez uma expectativa de futuro melhor, embora ela possa se tornar mais vulnerável nessa situação”, explica. A Unicef coloca o Brasil como o país com mais casamentos precoces da América Latina e o quarto de todo o mundo.

[Transcrevi trechos de reportagem de FELIPE BETIM. Leia mais no jornal El País

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27
Jul17

Doenças Sexualmente Transmissíveis na Adultez Tardia

Talis Andrade

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                                                                           THINKSTOCK

 

 

por Karina Cerqueira de Aranha Marinho de Andrade Lima

 

 

Os avanços nas ciências, principalmente na medicina, e tecnologias proporcionam melhor qualidade de vida e aumento da longevidade. A população acima dos 60 anos tem crescido. Segundo Harper (2014), o número de pessoas com idade acima de 65 anos irá aumentar de 23.7 milhões (em 2010) para 152.6 milhões em 2050. Os idosos maiores de 80 anos constituirão cerca de 12% da população. Triplicando a sua dimensão em 40 anos, no período de 2010 e 2050. Esta faixa da população está descobrindo novas experiências, inclusive pelo prolongamento da vida sexual possibilitado pela reposição hormonal, medicamentos para impotência e outros.

 

O que antes era um enorme tabu e desconhecido, hoje, as informações estão acessíveis a qualquer pessoa de qualquer idade. Cada vez mais estuda-se os benefícios que a sexualidade, nessa etapa da vida, traz para a saúde, para o bem--estar e para a satisfação geral.

 

Os idosos estão cada vez mais conscientes de seus direitos e necessidades. A sexualidade deixou de ser apenas uma forma de reprodução para torna-se uma forma de encontro, relação, comunicação ou expressão dos afetos (BUTLER; LEWIS, 1985).

 

Mesmo com o aumento da informação, ainda existe muito preconceito e pressão cultural. A sociedade, os profissionais de saúde, inclusive o próprio idoso, negam que exista vida sexual na velhice. Até pouco tempo atrás, nem se cogitava falar sobre sexo abertamente. Por isso, existe, ainda, muito receio e vergonha em se falar de preservativos, e principalmente, em comprá-los. A ocorrência de práticas sexuais inseguras contribui para que essa população se torne mais vulnerável às infecções pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST), como a sífilis e a clamídia.

 

Em todo o mundo tem crescido os casos de DST e VIH nos idosos. Devido a escassez de estudos epidemiológicos, e de campanhas de prevenção exclusivas para maiores de 60 anos, somados à ampliação do período sexual ativo, processos fisiológicos do envelhecimento e aspectos comportamentais.

 

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (VIH)

 

 

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Não se conhece a origem do vírus. Sabe-se que existe semelhança com a família de retrovírus relacionada a primatas não-humanos (macacos verdes africanos), que vivem na África sub-Sahariana, chamada de vírus da imunodeficiência símia (SIV). Esta hipótese de introdução do SIV em humanos foi proposta por um antropologista que estudou a tribo Igjiwi oriunda do Zaire. Que observou, em rituais religiosos, o homem sacrificava o animal, fazendo a ingestão do seu sangue. Assim, o vírus SIV pode ter sido transmitido ao homem, sofrido mutação e atacado a espécie humana. Por isso, supõe-se que o VIH tenha origem no continente africano (Kuby, 2003).

 

VIH é a sigla do Vírus da Imunodeficiência Humana. Causador da SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida), atacando as células linfócitas T CD4+ responsáveis, em parte, pelo controlo do sistema imunológico. O vírus altera o DNA destes linfócitos fazendo cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, o VIH rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção. Como todo paradita, o VIH se replica dentro das células hospedeiras (Weiss, 2001). Existe o VIH-1 e o VIH-2.

 

Ter o VIH não é o mesmo que ter SIDA. A pessoa pode ter o VIH incubado e não apresentar os sintomas. Já a SIDA é o estágio mais avançado da doença por atacar as defesas do organismo, deixa-o mais vulnerável a diversas doenças. Quer seja um simples resfriado, e infecções mais graves como tuberculose ou cancro.

 

Não existe cura. Mas, possível ser soropositivo e viver com qualidade de vida, tomando os medicamentos indicados, e seguir corretamente as recomendações médicas.

 

O VIH é transmitido por várias formas, e principalmente, pelas relações sexuais desprotegidas, inclusive a anal e oral.

 

O primeiro caso de VIH foi identificado, em 1981, nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, rapidamente, a doença tornou-se uma epidemia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da UNAIDS (Joint United Nations Program on HIV/SIDA), cerca de 40 milhões de pessoas no mundo vivem com VIH/SIDA, dentre as quais 2,8 milhões têm 50 anos ou mais.

 

Segundo Maschio, Mottin, Balbino, Souza, Ribeiro, & Puchalski (2011), no Brasil, de 1980 até junho de 2009, foram diagnosticados 13.665 casos de VIH em pessoas com 60 anos ou mais. Destes, 8.959 em homens, e 4.696 em mulheres. O Ministério da Saúde do Brasil contabilizou 18.712 casos na faixa etária de 60 anos ou mais, no período de 1980 a junho de 2012.

 

No Reino Unido, a incidência dobrou no período compreendido entre os anos de 1996 e 2003, sendo que 11% dos casos de SIDA foram diagnosticados em pessoas com mais de 50 anos.

 

Nos Estados Unidos, embora em 1982 somente 7,5% dos diagnósticos de SIDA eram em pessoas com mais de 50 anos, em 2006, essa população representou 15,5% dos novos diagnósticos de VIH, 25% das pessoas vivendo com VIH, 20,5% dos diagnósticos de SIDA, 32% das pessoas vivendo com SIDA e 39% de todas as mortes provocadas pelo VIH/SIDA.

 

Na Austrália, o National Notifiable DiseasesSurveillance System revelou que de um total de 30.486 casos diagnosticados de infecção por VIH até 2011, 10% foram de pessoas com mais de 50 anos.

 

As estatísticas comprovam que o adulto tardio não tem prevenido ou não tem prevenido corretamente. No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, onde criaram um ambulatório exclusivo para pacientes da 3ª idade com VIH, foi realizada uma pesquisa com os pacientes do sexo masculino, e segundo o Dr Gorinchteyn (2011), 100% dos pacientes sabidamente soropositivos usavam preservativo. Num segundo momento, foi dada uma prótese peniana para que colocassem um preservativo, e 80% dos participantes erraram.

 

No caso das mulheres, nesta faixa etária, por estarem na menopausa e não poderem engravidar, têm a falsa impressão da inutilidade do preservativo.

 

Questões sociais e políticas também agravam a incidência. A sexualidade na adultez tardia é negada pela sociedade. Até nas consultas médicas este assunto muitas vezes é ignorado ou evitado. Há uma falta de identificação do idoso com as campanhas de prevenção do VIH e DSTs que, nos anos 80, tinha como “grupo de risco” quem fosse usuário de droga, homossexual e/ou tivesse muitos parceiros sexuais. Atualmente, as campanhas têm sempre como foco o jovem. E por isto, muitos idosos, ainda hoje, não se consideram como um doente em potencial.

 

Diagnosticar pacientes soropositivos nessa faixa etária um desafio, por apresentarem, muitas vezes, mais de um diagnóstico para um grupo já exposto a múltiplas patologias, o que reflete em diagnósticos tardios. [Continua]

 

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                                             Preservativo gigante colocado em um obelisco em Hyde Park, centro de Sydney

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