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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

16
Jan22

Caso Evandro: Os promotores da tortura, das Ligas da justiça e do atraso no Paraná

Talis Andrade

casos evandro escola base e lula

Blog do EsmaelO caso Evandro se soma ao caso Escola Base e ao caso Lula

 

Beatriz Abagge, que chegou a ser condenada pela morte do menino Evandro Ramos Caetano, em Guaratuba, no litoral do Paraná, se pronunciou neste sábado (15) em relação ao pedido de desculpas oficial do Governo do Paraná pelo que o estado definiu como "sevícias indesculpáveis" sofridas por ela à época da investigação do caso.

"Sevícias" é um palavrão mais aceitável para tortura física praticada pela ditadura militar de 1964. Pela Lava Jato, que levou ao suicídio um agente dissidente da Polícia Federal.

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Os três mosqueteiros Deltan Dallagnol, Sergio Moro, Newton Ishii & Carlos Fernando dos Santos Lima propagador da Liga da Justiça desde o tráfico de dinheiro do Banestado

 

Esse gosto pela tortura de promotores e procuradores fica explícito, exposto como um cancro de pele, na fácil e aceitável formação de ligas da justiça. Sadismo que deveria ser estudado, tanto que os promotores recusam e negam o pedido de desculpas à Beatriz Abagge e demais vítimas do terrorismo judicial. 

Raízes históricas religiosas explicam essa tara, danoso rompante da supremacia branca sempre nas sombras, contra as religiões afro-brasileiras e indígenas. E lideranças comunitárias sempre perseguidas pelos escravocratas tipo Ratinho, pai do governador da escola civíco-militar.

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Ana Júlia o Brasil esperança

 

Como explicar a troca do professor de formação universitária, pelo sargentão da ordem unida, na formação estudantil do movimento "ocupa escola" que Ana Júlia sonhou um novo pensar contra nocivas tradições xenofóbicas, racistas, escravocratas, misóginas, antifeministas ?

Ratinho nazifascista

Fica explicado o discurso do Ratinho contra a deputada federal Natália Bonavides: "Natália, você não tem o que fazer, não? Você não tem o que fazer, minha filha? Vá lavar roupa a calça do teu marido, a cueca dele, porque isso é uma imbecilidade querer mudar esse tipo de coisa. Tinha que eliminar esses loucos? Não dá para pegar uma metralhadora, não?", disse o ex-deputado federal da ditadura militar durante o programa "Turma do Ratinho", na rádio.Image

Natália Bonavides o Brasil livre

 

Idem a singela, "inocente" fraqueza "feminina" do prefeito de Curitiba, eleito por confessar: "Eu nunca cuidei dos pobres. Eu não sou São Francisco de Assis. Até porque a primeira vez que eu tentei carregar um pobre no meu carro eu vomitei por causa do cheiro", disse Rafael Greca (PMN).Prefeito Rafael Greca melhora e diz que vai trabalhar do hospital | Paraná  | G1

Greca nojo de pobre

Caso Evandro: 'Marco histórico', diz Beatriz Abagge sobre carta do Governo do Paraná com pedido de perdão por 'torturas''Marco histórico', diz Beatriz Abagge sobre carta do Governo do Paraná com pedido de perdão por 'torturas' — Foto: Reprodução

Por Natalia Filippin, g1

Beatriz Abagge, que chegou a ser condenada pela morte do menino Evandro Ramos Caetano, em Guaratuba, no litoral do Paraná, se pronunciou neste sábado (15) em relação ao pedido de desculpas oficial do Governo do Paraná pelo que o estado definiu como "sevícias indesculpáveis" sofridas por ela à época da investigação do caso.

"Eu considero esse pedido um marco histórico. Fez o Ministério Público estar esperneando e reclamando através de nota pública [confira a íntegra mais abaixo] que não foi esse o entendimento do grupo de trabalho, mas foi, sim. O MP precisa parar de agir como acusador, ele tem que agir como defensor do povo, de nós, afinal de contas a prova da tortura está aí para todos verem", disse ela, em entrevista ao g1.

O documento é assinado pelo secretário estadual de Justiça, Trabalho e Família, Ney Leprevost, com data de 4 de janeiro.Veja a íntegra da carta.

"Expresso meu veemente repúdio ao uso da máquina estatal para prática de qualquer tipo violência, e neste caso em especial contra o ser humano para obtenção de confissões e diante disto, é que peço, em nome do Estado do Paraná, perdão pelas sevícias indesculpáveis cometidas no passado contra a senhora", cita trecho da carta.

Na carta, o secretário ainda afirma que após assistir a série Caso Evandro, da Globoplay, e também ter acesso ao relatório do grupo de estudo criado pela Secretaria de Justiça para identificar falhas no processo e investigação, ele teve convicção pessoal de que Beatriz e "outros condenados no caso foram vítimas de torturas gravíssimas".

Ele também diz que não pode inocentar ou anular o julgamento que condenou Beatriz Abagge, mas que uma cópia da carta de perdão e do relatório final do grupo de estudos será enviado ao Poder Judiciário.

"Eu não vou me calar, eu vou continuar lutando tanto em meu nome, como em nome de todos os outros acusados", pontuou Beatriz.

Pedido de desculpas foi assinado por secretário estadual — Foto: Reprodução/Governo do Paraná

Em documento, secretário cita "torturas gravíssimas" contra condenados — Foto: Reprodução/Governo do Paraná

Nota pública do Ministério Público nega o terrorismo da justiça medieval e a costumeira tortura

"A respeito das recentes manifestações públicas relacionadas ao relatório elaborado pelo Grupo de Trabalho 'Caso Evandro - Apontamentos para o Futuro', o Ministério Público do Paraná esclarece que não foram identificados, no referido documento, elementos probatórios que evidenciassem a prática de qualquer ilicitude por parte dos integrantes da Instituição que atuaram na persecução penal que conduziu à condenação de alguns dos réus indicados na denúncia criminal.

A atuação dos agentes ministeriais ocorreu com estrita observância aos princípios do devido processo legal, da moralidade e da ampla defesa, sem que houvesse conhecimento ou compactuação com condutas que pudessem caracterizar violação aos direitos fundamentais dos acusados.

Ademais, salienta-se que o referido Grupo de Trabalho, a teor de seu relatório final, não concluiu que o Estado do Paraná devesse formalizar qualquer pedido de perdão aos acusados, como noticiado por alguns órgão de imprensa.

Como se sabe, houve judicialização de pedido de revisão criminal, procedimento já em trâmite no Tribunal de Justiça do Paraná, sendo este o ambiente adequado e competente para análise de todos os aspectos processuais e probatórios envolvidos, o que faz por recomendar a não especulação precipitada de versões ante o encaminhamento do caso a pronunciamento jurisdicional".

Em relação a nota, Beatriz Abagge afirmou que é inadmissível esse posicionamento do MP.

"Como o órgão mesmo disse, os fatos e a revisão criminal serão discutidos na Justiça, ele não tem que repudir em cima ou falar alguma coisa, porque diz respeito ao Estado. O MP na época em que fomos presas eles tinham um convênio com a PM, eles tinham um interesse em comum e, foi a partir desse convênio, que foi encaminhado o Grupo Águia. Então o MP está defendendo o que? O corporativismo? Acreditaram justamente em uma história macabra, maluca, para acusar sete pessoas inocentes", disse ela.

 

Pedido de revisão criminal contra a 'santa inquisição'

Em dezembro, a defesa de Beatriz Abagge e outros condenados protocolou um pedido de revisão criminal das condenações deles três pela morte da criança.

O documento apresenta um parecer que, segundo a defesa, atesta a veracidade das gravações que apontam que houve tortura dos então suspeitos durante a investigação, na década de 1990, para que eles confessassem o crime.

Segundo a defesa, durante os julgamentos em que os três foram condenados, as gravações com as confissões foram apresentadas editadas.

Os áudios completos, que mostram os acusados recebendo instruções para confessar os crimes, se tornaram públicos em 2020, durante o podcast Projeto Humanos, que contou a história do caso.

A defesa pede que as condenações e os processos sejam anulados, além de uma indenização aos condenados.

O pedido foi feito após o jornalista Ivan Mizanzuk publicar no podcast Projeto Humanos os áudios completos das confissões. Segundo a defesa, as gravações completas mostram pedidos de socorro dos então investigados e provas de coação e ameaças por parte de torturadores.

 

O documento também apresenta um parecer psicopatológico que aponta que houve tortura. Agora, o recurso precisa ser analisado pelo Tribunal de Justiça do Paraná, que decide se acata ou nega o pedido.

Defesa pede revisão das sentenças de condenados pela morte de Evandro Ramos Caetano — Foto: Reprodução/RPC

Defesa pede revisão das sentenças de condenados pela morte de Evandro Ramos Caetano — Foto: Reprodução/RPC

 

O Ministério Público do Paraná informou que analisará os elementos que serão levados ao processo pela revisionante e se manifestará nos autos.

"Convém observar que a desconstituição de uma condenação criminal somente ocorre no caso de surgir nova prova cabal de exclusão de responsabilidade da pessoa condenada", informou a promotoria.

 

Julgamentos safados

Desde os anos 1990, caso teve cinco julgamentos diferentes. Um dos tribunais do júri, realizado em 1998, foi o mais longo da história do judiciário brasileiro, com 34 dias.

Na época, as Beatriz e Celina Abagge, mãe dela, foram inocentadas porque não houve a comprovação de que o corpo encontrado era do menino Evandro.

O MP recorreu e um novo júri foi realizado em 2011. Beatriz, a filha, foi condenada a 21 anos de prisão. A mãe não foi julgada porque, como ela tinha mais de 70 anos, o crime já tinha prescrito.

Os pais de santo, Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares e Vicente de Paula, também foram condenados, na época, pelo sequestro e homicídio do garoto.

Vicente de Paula morreu por complicações de um câncer em 2011 no presídio onde estava. As penas de Osvaldo Marcineiro e Davi dos Santos se extinguiram pelo cumprimento.A reviravolta do Caso Evandro e as bruxas de Guaratuba - YouTube

A justiça espetáculo e o jornalismo safado, sensacionalista, patrocinam fantasiosos circos para os reaças de sempre faturarem cargos, grana, prestígio social, poder político (candidaturas a governador, a presidente...)
13
Nov21

Papa Francisco: “É hora de devolver a palavra aos pobres”

Talis Andrade

São Francisco nas expressões artísticas - Comunidade Católica Shalom

 

Na manhã dessa sexta-feira, o Santo Padre Francisco presidiu o Encontro de Oração e Testemunhos em Assis, onde se encontrou com um grupo de 500 pobres provenientes de várias partes da Europa, para um momento de escuta e oração. O encontro ocorreu por ocasião do V Dia Mundial dos Pobres, que se celebra no domingo, 14 de novembro de 2021.

Ao chegar a Assis, antes de chegar em Santa Maria dos Anjos, o Santo Padre dirigiu-se ao Mosteiro de Santa Clara para um breve encontro com a comunidade das clarissas.

Chegando à Basílica de Santa Maria dos Anjos, o Santo Padre foi acolhido no adro por algumas autoridades. Depois, três pobres dirigiram palavras de boas-vindas e entregaram simbolicamente a capa e o bastão do Peregrino ao Papa Francisco, indicando que todos foram como peregrinos aos lugares de São Francisco para escutar a sua palavra.

Posteriormente, o Santo Padre entrou na basílica e foi à Porciúncula, onde parou para rezar por alguns minutos. Depois de vários testemunhos, o papa proferiu o seu discurso.

O sítio da Santa Sé publicou o discurso que o Santo Padre dirigiu aos presentes durante o encontro. A tradução é de Moisés Sbardelotto.Pin on Imagens Católicas

Discurso do Papa Francisco no encontro de oração e testemunhos em Assis

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Agradeço-lhes por terem aceito o meu convite – mas fui eu o convidado! – para celebrar aqui em Assis, na cidade de São Francisco, o quinto Dia Mundial dos Pobres, que ocorre depois de amanhã. É uma ideia que nasceu de vocês, cresceu e já chegamos à quinta [edição]. Assis não é uma cidade como outra qualquer: Assis traz impresso o rosto de São Francisco. Pensar que, entre estas estradas, ele viveu a sua juventude inquieta, recebeu o chamado a viver o Evangelho ao pé da letra é, para nós, uma lição fundamental. Certamente, em certo sentido, a sua santidade nos faz estremecer, porque parece impossível poder imitá-lo. Mas, depois, no momento em que lembramos alguns momentos da sua vida, aqueles “fioretti” que foram recolhidos para mostrar a beleza da sua vocação, sentimo-nos atraídos por essa simplicidade de coração e simplicidade de vida: é a própria atração de Cristo, do Evangelho. São fatos da vida que valem mais do que as pregações.

Gosto de recordar um deles, que expressa bem a personalidade do Pobrezinho (cf. Fioretti, cap. 13: Fonti Francescane, 1841-1842). Ele e o frei Masseo haviam se posto em viagem para chegar à França, mas não haviam levado provisões com eles. Em certo ponto, tiveram que começar a pedir caridade. Francisco foi para um lado, e o frei Masseo, para outro. Mas, como contam os Fioretti, Francisco era de estatura pequena e quem não o conhecia o considerava um “mendigo”; em vez disso, frei Masseo “era um homem grande e belo”. Foi assim que São Francisco mal conseguiu recolher alguns pedaços de pão duro e velho, enquanto o frei Masseo recolheu belos pedaços de pão bom.

Quando os dois se reencontraram, sentaram-se no chão e, em uma pedra, puseram o que haviam recolhido. Vendo os pedaços de pão recolhidos pelo frade, Francisco disse: “Frei Masseo, nós não somos dignos deste grande tesouro”. O frade, admirado, respondeu: “Padre Francisco, como é possível falar de tesouro onde há tanta pobreza e faltam até as coisas necessárias?”. Francisco respondeu: “É precisamente isso que considero um grande tesouro, porque não há nada, mas o que temos foi doado pela Providência que nos deu este pão”. Eis o ensinamento que São Francisco nos dá: saber se contentar com aquele pouco que temos e compartilhá-lo com os outros.

Estamos aqui na Porciúncula, uma das igrejas que São Francisco pensava em restaurar, depois que Jesus lhe pedira para “reparar a sua casa”. Então, ele nunca teria pensado que o Senhor lhe pediria para dar a sua vida para renovar não a igreja feita de pedras, mas a de pessoas, de homens e mulheres que são as pedras vivas da Igreja. E se nós estamos aqui hoje é justamente para aprender com aquilo que São Francisco fez.

Ele gostava de ficar muito tempo nesta igrejinha para rezar. Ele se recolhia aqui em silêncio e se colocava à escuta do Senhor, daquilo que Deus queria dele. Nós também viemos aqui para isto: queremos pedir ao Senhor que escute o nosso grito, que escute o nosso grito!, e venha em nosso auxílio. Não esqueçamos que a primeira marginalização que os pobres sofrem é a espiritual. Por exemplo, muitas pessoas e muitos jovens encontram um pouco de tempo para ajudar os pobres e levar-lhes comida e bebida quente. Isso é muito bom, e eu agradeço a Deus pela sua generosidade. Mas, acima de tudo, alegra-me quando ouço que esses voluntários param um pouco para conversar com as pessoas e às vezes rezam junto com elas... Pois bem, o fato de nos encontrarmos aqui, na Porciúncula, nos lembra a companhia do Senhor, que Ele não nunca nos deixa sozinhos, sempre nos acompanha em todos os momentos da nossa vida. O Senhor está conosco hoje. Ele nos acompanha, na escuta, na oração e nos testemunhos dados: é Ele, conosco.

Há outro fato importante: aqui na PorciúnculaSão Francisco acolheu Santa Clara, os primeiros frades e muitos pobres que vinham ao seu encontro. Com simplicidade, ele os recebia como irmãos e irmãs, compartilhando tudo com eles. Eis a expressão mais evangélica que somos chamados a assumir: a acolhida. Acolher significa abrir a porta, a porta da casa e a porta do coração, e permitir a quem bate que possa entrar. E que possa se sentir à vontade, não em sujeição, não, à vontade, livre.

Onde há um verdadeiro senso de fraternidade, vive-se aí também a experiência sincera da acolhida. Onde, ao invés disso, há o medo do outro, o desprezo pela sua vida, então nasce a rejeição ou, pior, a indiferença: aquele olhar para o outro lado. A acolhida gera o senso de comunidade; a rejeição, pelo contrário, fecha no próprio egoísmo.

Madre Teresa, que fizera da sua vida um serviço à acolhida, gostava de dizer: “Qual é a melhor acolhida? O sorriso". O sorriso. Compartilhar um sorriso com quem precisa faz bem a ambos, a mim e ao outro. O sorriso como expressão de simpatia, de ternura. E depois o sorriso envolve você, e você não poderá se afastar da pessoa a quem sorriu.

Agradeço-lhes porque vocês vieram até aqui de tantos países diferentes para viver esta experiência de encontro e de fé. Gostaria de agradecer a Deus que deu essa ideia do Dia dos Pobres. Uma ideia nascida de um modo um pouco estranha, em uma sacristia. Eu estava prestes a celebrar a missa, e um de vocês – chama-se Étienne – vocês o conhecem? É um enfant terrible –, Étienne me deu a sugestão: “Vamos fazer o Dia dos Pobres”. Eu saí e senti que o Espírito Santo, por dentro, me dizia para fazer isso. Foi assim que começou: a partir da coragem de um de vocês, que tem a coragem de levar as coisas adiante. Eu o agradeço pelo seu trabalho ao longo destes anos e pelo trabalho de muitos que o acompanham.

E gostaria de agradecer, desculpe-me, eminência, pela sua presença, cardeal [Barbarin]: ele está entre os pobres, ele também sofreu com dignidade a experiência da pobreza, do abandono, da desconfiança com dignidade. E ele se defendeu com o silêncio e a oração. Obrigado, cardeal Barbarin, pelo seu testemunho que edifica a Igreja.

Eu dizia que viemos nos encontrar: essa é a primeira coisa, isto é, ir um na direção do outro com o coração aberto e a mão estendida. Sabemos que cada um de nós precisa do outro e que até a fraqueza, se vivida juntos, pode se tornar uma força que melhora o mundo. Muitas vezes, a presença dos pobres é vista com incômodo e suportada; às vezes, ouve-se que os responsáveis pela pobreza são os pobres: um insulto a mais! A fim de não fazer um exame de consciência sério sobre os próprios atos, sobre a injustiça de algumas leis e medidas econômicas, um exame de consciência sobre a hipocrisia de quem quer enriquecer desmedidamente, joga-se a culpa sobre os ombros dos mais fracos.

Ao invés disso, é hora de devolver a palavra aos pobres, porque, por muito tempo, os seus pedidos não foram ouvidos. É hora de abrir os olhos para ver o estado de desigualdade em que vivem tantas famílias. É hora de arregaçar as mangas para restaurar a dignidade, criando postos de trabalho. É hora de voltar a se escandalizar diante da realidade de crianças famintas, reduzidas à escravidão, sacudidas pelas águas em meio ao naufrágio, vítimas inocentes de todo o tipo de violência. É hora de que cessem as violências contra as mulheres e de que elas sejam respeitadas e não tratadas como moeda de troca. É hora de romper o círculo da indiferença para voltar a descobrir a beleza do encontro e do diálogo. É hora de nos encontrarmos. É o momento do encontro. Se a humanidade, se nós, homens e mulheres, não aprendermos a nos encontrar, iremos rumo a um fim muito triste.

Escutei com atenção os seus testemunhos e lhes agradeço por tudo o que vocês manifestaram com coragem e sinceridade. Coragem, porque vocês quiseram compartilhá-los com todos nós, embora façam parte da sua vida pessoal; sinceridade, porque vocês se mostram assim como são e abrem o coração no desejo de serem entendidos.

Há algumas coisas de que eu gostei particularmente e que gostaria de retomar de alguma forma, para torná-las ainda mais minhas e deixar que elas se depositem no meu coração. Em primeiro lugar, senti um grande senso de esperança. A vida nem sempre foi indulgente com vocês, pelo contrário, muitas vezes lhes mostrou um rosto cruel. A marginalização, o sofrimento da doença e da solidão, a falta de muitos meios necessários não lhes impediu de olhar com olhos cheios de gratidão para as pequenas coisas que lhes permitiram resistir.

Resistir. Essa é a segunda impressão que eu recebi e que deriva precisamente da esperança. O que significa resistir? Ter a força para seguir em frente apesar de tudo, ir contra a corrente. Resistir não é uma ação passiva, pelo contrário, requer a coragem de trilhar um novo caminho sabendo que dará frutos. Resistir significa encontrar motivos para não se render diante das dificuldades, sabendo que não as vivemos sozinhos, mas juntos, e que somente juntos podemos superá-las. Resistir a toda tentação de desistir e de cair na solidão ou na tristeza. Resistir, agarrando-se à pequena ou pouca riqueza que possamos ter.

Penso na jovem do Afeganistão, com a sua frase lapidar: “O meu corpo está aqui, a minha alma está lá”. Resistir com a memória, hoje. Penso na mãe romena que falou no fim: dores, esperança, e não se vê a saída, mas a esperança forte nos filhos que a acompanham e que lhe devolvem a ternura que receberam dela.

Peçamos ao Senhor que nos ajude sempre a encontrar a serenidade e a alegria. Aqui, na PorciúnculaSão Francisco nos ensina a alegria que vem de olhar para quem está perto de nós como um companheiro de viagem, que nos entende e nos sustenta, assim como nós somos para ele ou para ela. Que este encontro abra o coração de todos nós para nos colocarmos à disposição uns dos outros; abrir o coração para tornar a nossa fraqueza uma força que ajude a continuar o caminho da vida, para transformar a nossa pobreza em riqueza a ser compartilhada e, assim, melhorar o mundo.

Dia dos Pobres: obrigado aos pobres que abrem o coração para nos dar a sua riqueza e curar o nosso coração ferido. Obrigado por essa coragem. Obrigado, Étienne, por ter sido dócil à inspiração do Espírito Santo. Obrigado por esses anos de trabalho; e também pela “teimosia” de trazer o papa a Assis! Obrigado! Obrigado, eminência, pelo seu apoio, pela sua ajuda a este movimento da Igreja – dizemos “movimento” porque se movem – e pelo seu testemunho. E obrigado a todos. Trago-os no meu coração. E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim, porque eu tenho minhas pobrezas, e muitas! Obrigado.

26
Nov20

Meu voto domingo (29): sim à vida

Talis Andrade

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por Selvino Heck /Sul 21

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Vou votar na vida no domingo, 29 de novembro. Vamos todas e todos votar na vida em Porto Alegre, São Paulo, Belém, Recife, Caxias do Sul, Pelotas, Juiz de Fora, Vitória, Fortaleza e outras cidades com segundo turno nas eleições municipais. Vida em primeiro lugar, sempre!

Há candidatos a prefeito que dizem que a economia vem em primeiro lugar. E, portanto, na visão deles, é preciso flexibilizar as regras em relação à pandemia do coronavírus, abrir todo o comércio, liberar os espaços da noite para os jovens, reabrir as escolas. Afinal, o importante para eles, fundamental e único, é o lucro do capital. Ou, dizem eles, não fazendo isso, o desemprego, que já era crescente antes da pandemia, vai aumentar, os prejuízos serão maiores, e assim por diante. Afinal, como diz o Presidente da República, morrer vamos todas e todos um dia!

Estou com o Papa Francisco e a Encíclica ‘Fratelli Tutti – Somos todos irmãos e todas irmãs – Sobre a Fraternidade e a Amizade Social’, onde ele anuncia: “17. Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos. Mas precisamos nos constituir como um ‘nós’ que habita a Casa Comum. Um tal cuidado não interessa aos poderes econômicos que necessitam dum ganho rápido. Frequentemente as vozes que se levantam em defesa do meio ambiente são silenciadas ou ridicularizadas, disfarçando de racionalidade o que não passa de interesses particulares.”

Segundo os defensores do capitalismo, preservar a Amazônia e o meio ambiente é prejudicial aos negócios e à riqueza da Nação. Assim como, para os bancos e o grande capital, cuidar da vida de todas e todos em meio à pandemia, especialmente a vida de idosos, jovens e crianças, afeta e prejudica a economia e o lucro.

Se os governos implementarem políticas públicas beneficiando o conjunto da população, se propuserem, por exemplo, a taxação de grandes fortunas e uma renda básica da cidadania, a suposta oposição entre economia e vida estará superada. E será possível enfrentar as consequências da pandemia, esperar até que chegue uma vacina salvadora, ao mesmo tempo garantir comida na mesa de todas as brasileiras e todos os brasileiros, e condições de fazer a necessária travessia.

Diz mais o Papa Francisco: “106. Para se caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal, há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. 107. Todo ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver integralmente, e nenhum país pode negar-lhe este direito fundamental.”

Já morreram quase 200 mil brasileiras e brasileiros desde março deste ano pela pandemia. 200 mil vidas perdidas. E, tudo indica, está começando a segunda onda do coronavírus no Brasil. Portanto, é fundamental que a sociedade se prepare, as famílias se preparem, com todos os cuidados necessários, para evitar mais mortes e mais sofrimento.

Colocar a vida em primeiro lugar faz-se ainda mais urgente em tempos de intolerância, ódio e violência. Basta lembrar a vida do Beto, o trabalhador negro João Alberto Silveira Freitas, barbaramente assassinado em 19 de novembro, um dia antes do Dia da Consciência Negra, dentro um supermercado em Porto Alegre. E, inacreditavelmente, um general que é vice-presidente da República é capaz de dizer: “Digo com toda tranquilidade: não existe racismo no Brasil.”

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Vidas negras importam! Clamou a candidata Manuela D’Ávila: “Qual pessoa branca você viu ser vítima dessa violência?” Gritou o candidato Guilherme Boulos: “Até quando?”

São mortes demais, mortes injustas. Muita dor, muita tristeza. A luta por uma sociedade justa e mais igual, sem discriminação, sem violência contra mulheres e assassinatos de jovens negros e negras, sem racismo, está em primeiríssimo lugar.

Estou, ainda e sempre, com o Papa Francisco e sua ‘Fratelli Tutti – Somos todos irmãos e todas irmãs’: “8. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todas e todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todas irmãs e todos irmãos.”

Por isso, meu voto em 29 de novembro, sem qualquer dúvida e com toda convicção, será a favor da vida, a favor da liberdade, a favor da esperança, a favor da justiça, a favor da igualdade, por terra, trabalho e teto, como propõe a Sexta Semana Social Brasileira, num grande e coletivo ‘Mutirão pela Vida’.

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29
Jul20

Em carta ainda inédita, bispos do Brasil se declaram estarrecidos com a política suicida de Bolsonaro

Talis Andrade

Jair Bolsonaro fala com apoiadores na frente do jardim do Palácio da Alvorada, em Brasília.

Bispos afirmam que até a religião é usada neste momento “para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes”

 

No Brasil, o país com o maior número de católicos no mundo, 152 bispos assinaram uma carta dura, ainda não divulgada, contra o Governo e seu presidente, Jair Bolsonaro, na qual afirmam que o país “passa por um dos momentos mais difíceis de sua história”, que eles definem como” tempestade perfeita”, já que une, de acordo com os bispos, “a crise sem precedentes na saúde ao avassalador colapso da economia”.

A carta dos bispos aos católicos brasileiros é uma condenação dura e contundente da atual política bolsonarista. É especialmente importante pela dureza das acusações, pelo uso de uma linguagem sem a clássica diplomacia da Igreja e por ser assinada também pelo cardeal Claudio Hummes, um dos maiores amigos do papa Francisco e que, portanto, nunca teria firmado tal documento sem a sua aprovação prévia.

Foi o pontífice argentino quem revelou que havia escolhido como papa o nome de Francisco, para lembrar São Francisco de Assis, porque o cardeal brasileiro, no momento em que conquistou a maioria dos votos no Conclave, o abraçou e lhe pediu: “Nunca se esqueça dos pobres”. O cardeal Hummes é prefeito emérito do Dicastério da Cúria Romana para o Clero, onde esteve à frente até 2010 como responsável pelo cuidado de todos os sacerdotes do mundo.

Existem hoje na Igreja Católica poucos documentos tão duros contra um Governo, e menos ainda como o de Bolsonaro, cujo presidente se declara católico praticante e conservador. Estamos acostumados, no máximo, a condenações por parte da Igreja Católica de Governos de cunho comunista ou simplesmente da esquerda, dificilmente de conservadores e de direita, os quais, pelo contrário, a Igreja sempre encheu de elogios e privilégios, como fez na Espanha com o ditador general Franco ou no Chile com Augusto Pinochet. Ainda me lembro da visita do Papa João Paulo II ao Chile, sua familiaridade e simpatia no trato com o ditador dentro do palácio presidencial. No Brasil, nem nos tempos da ditadura militar foram publicados documentos tão fortes da Igreja como o atual dos 152 bispos contra Bolsonaro.

Sempre se dizia que na Igreja Católica duas instituições eram as melhores do mundo: seus serviços secretos e sua diplomacia. E essa diplomacia sempre foi proverbial em documentos endereçados a Governos e governantes. Desta vez, porém, os bispos brasileiros usaram uma linguagem contundente, dura, de aberta condenação contra o Governo e o presidente. Basta este parágrafo da carta para julgar a força de condenação que os bispos quiseram dar a seu documento:

“O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa (...).” E continua: “na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde.”

Segundo os bispos, até a religião é usada neste momento no Brasil “para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes”. E eles acabam recordando as enigmáticas palavras do apóstolo Paulo quando alerta em sua Epístola aos Romanos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

No documento, os bispos condenam abertamente o atual Governo e a política totalitária do presidente Bolsonaro. Dizem, sem rodeios: “Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”. E os bispos lançam uma condenação taxativa quando afirmam que o atual Governo “não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos”, mas, ao contrário, “a defesa intransigente dos interesses de uma economia que mata, centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”. Vocábulos como “desprezo”, “raiva”, “grosseiro” e “repugnância” nunca tinham sido vistos em um documento importante como este firmado por 152 bispos católicos. Lembro-me de que, quando era correspondente deste jornal no Vaticano, um bispo da Cúria Romana me mostrou um pequeno dicionário de palavras “fortes” que nunca deveriam ser usadas em documentos assinados pela hierarquia da Igreja, nem sequer pelo Papa.

Citando o papa Francisco em relação à crise do meio ambiente, com a guerra contra a Amazônia e o massacre dos indígenas, os bispos recordaram suas palavras quando escreveu por ocasião do Dia do Meio Ambiente: “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós”.

Agora, Bolsonaro e seu Governo sabem que, além do clamor majoritário do Brasil contra os crimes cometidos por ele e por seu Governo contra todas as minorias, somado ao desastre na questão da pandemia e da educação, terá que enfrentar esta condenação da Igreja Católica, a maior confissão religiosa do mundo e deste país. Bolsonaro sabe que não se trata de um inimigo fácil, pois conta com 1,31 bilhão de seguidores no mundo, dos quais 110 milhões apenas no Brasil. Não é um exército pequeno. E é forte por estar desarmado, ou melhor, armado apenas com a força da fé.

 

08
Fev20

A Economia de Francisco III

Talis Andrade

 

Por Wagner Iglecias

O Papa preside, em março, um encontro para pensar e propor um modelo econômico alternativo ao neoliberal, com bandeiras similares àquelas que anos atrás eram debatidas nas várias edições do Fórum Social Mundial.

O Catolicismo foi tomado por duas grandes surpresas em 2013. A primeira foi a renúncia do cardeal alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) ao cargo de Papa, fato que não ocorria desde 1294, quando Celestino V abdicou ao posto de mais alta autoridade da Igreja. E a segunda foi a escolha, como sucessor de Ratzinger, do cardeal argentino no Jorge Bergoglio. Seu nome causou desconfianças à esquerda e à direita.

Entre os progressistas por conta de suas relações controversas com a última ditadura argentina (1976-1983) e pela convivência tumultuada com os governos Kirchner nos anos 2000. Suspeitava-se, além disso, que a chegada do primeiro latino-americano ao cargo de Papa seria uma manobra da direita mundial para, a partir do Vaticano, travar a disputa pelos corações e mentes de centenas de milhões de pessoas na América Latina, naquele momento sob governos de esquerda em alguns de seus principais países.

À direita a escolha de Bergoglio também causou desconfiança, tanto por sua origem de jesuíta quanto pelo longo sacerdócio junto aos pobres em seu país natal, quase sempre com uma pregação voltada às questões sociais.

Uma vez no poder Bergoglio empreendeu uma política interna corajosa, partindo para o enfrentamento de interesses poderosos há muito tempo estabelecidos na Igreja. Levou a cabo o saneamento do Banco do Vaticano, há décadas envolvido em escândalos, combateu o simbolismo luxuoso da cúria romana e autorizou investigações sobre denúncias de pedofilia envolvendo a Igreja em diversos países.

Na política externa o Papa dirigiu ao mundo uma mensagem de combate à intolerância e à desigualdade, reintroduzindo no discurso católico as noções de misericórdia e acolhimento que pareciam esmaecidas nas últimas décadas.

Para este 2020 Francisco faz mais uma aposta ousada: tenta posicionar a Igreja Católica na vanguarda de um debate urgente e necessário sobre o neoliberalismo. Um modelo econômico que tem concentrado renda e riqueza em proporções inéditas na História. E, porque baseado numa cultura de consumo e descarte, tem apontado para uma trajetória de esgotamento talvez irreversível dos recursos naturais como a água, a terra e biodiversidade, comprometendo o bem-estar das futuras gerações e de todas as formas de vida existentes no planeta.

Na simbólica cidade de Assis, na Itália, onde São Francisco (1181-1826) despojou-se dos bens materiais e abraçou uma vida dedicada aos pobres e à natureza, o Papa vai presidir, em março, um encontro de jovens economistas, lideranças sociais e lideranças empresariais de todo o mundo. Os objetivos do evento são pensar e propor um modelo econômico alternativo ao atual, com uma forte mudança de paradigmas na formação de economistas e na atuação das grandes empresas. Um modelo econômico baseado no combate à pobreza e à desigualdade, na sustentabilidade ambiental e na dignidade humana. Bandeiras similares, diga-se de passagem, àquelas que anos atrás eram debatidas nas várias edições do Fórum Social Mundial e que foram enfraquecidas depois da crise de 2008 pelo consequente fortalecimento global do neoliberalismo em sua versão mais radicalmente rentista.

A tarefa de Francisco, obviamente, não é fácil. O mundo hoje é marcado não somente pelo largo emprego de instrumentos de ortodoxia econômica pelos governos, mas também pela primazia, no setor privado, dos acionistas das corporações transnacionais e dos fundos de investimento globais, a quem interessam, antes de mais nada, minimização de riscos e maximização de rentabilidade e lucros.

Mais do que isso, estamos diante de um mundo marcado pela hegemonia neoliberal também no domínio das ideias, das práticas e das aspirações, tanto de sociedades quanto de pessoas, fortemente caracterizadas pelo individualismo, pelo hedonismo e pela ostentação. Por outro lado, caminhamos para graus de desigualdade, desemprego e exclusão social alarmantes, que inclusive já colocam sob risco a própria democracia liberal. Talvez esteja ai a janela de oportunidade identificada pelo Papa.

Com o encontro de Assis, Francisco olha, a um só tempo, tanto para o mundo quanto para o Vaticano. Talvez ele enxergue, neste momento histórico, a chance de conferir um papel de protagonista à Igreja Católica, em crise após os vinte e sete anos de papado de Karol Wojtyla (João Paulo II), que desmontou o caráter social e progressista dos pontificados de João XXIII (1958-1963) e Paulo VI (1963-1978), mas não conseguiu frear a perda de fiéis para denominações cristãs mais conservadoras, como o protestantismo neopentecostal que tem crescido de maneira vigorosa na própria América Latina. Com Francisco o Catolicismo vai tentando reinventar-se neste início de século, às voltas com um mundo desigual, violento e desesperançado.

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