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17
Jun22

Morte de Dom e Bruno deixa imprensa de luto e em alerta

Talis Andrade

 

 

 
12
Mai22

Uma Câmara que não tem medo de ser chamada de racista

Talis Andrade

 

Entre os colegas de Renato Freitas houve quem cometesse plágio, comemorasse a morte de crianças e colocasse a vida de outros em risco. Mas quem a Casa optou punir?

 

26
Mar22

5 fatos para pensar o homeschooling (educação familiar)

Talis Andrade
 

 

tacho ensino domiciliar casa.jpg

5 fatos para pensar o homeschooling

O que é essa modalidade de ensino e o que ela significa no contexto brasileiro, que tem um universo de 50 milhões de estudantes da Educação Básica

O homeschooling ou educação domiciliar tem mobilizado uma parcela significativa de parlamentares brasileiros e mesmo o Ministério da Educação, que lançou uma cartilha sobre o assunto em maio de 2021. Porém, o que é essa modalidade de ensino e o que ela significa num contexto brasileiro, que tem um universo de quase 50 milhões de estudantes da Educação Básica?

        O Plural separou cinco informações importantes para começar a pensar o assunto:

 

1. Por que homeschooling?

 

Como o número de pessoas envolvidas em homeschooling mesmo em países em que a prática é regulamentada é pequeno ( nos EUA, segundo dados de 2017 do Centro Nacional de Estatísticas de Educação, 3% das crianças entre 5 e 17 anos eram educadas em casa), há poucas pesquisas significativas sobre o assunto. Em tese de doutorado sobre o assunto, a pedagoga e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo Luciane Muniz Ribeiro Barbosa aponta que os autores que pesquisaram a motivação dos pais que optam por essa modalidade apontam razões diversas para a escolha.

Entre os motivos citados por Barbosa estão o desapontamento com a organização escolar, o desejo de explorar diferentes abordagens pedagógicas e o atendimento a necessidades cognitivas particulares. No ensino domiciliar, a família organiza o aprendizado por conta própria ou com o auxílio de professores particulares e material didático escolhido pelos pais.

A prática não elimina a necessidade de cumprimento do currículo base nacional, uma vez que para acessar outros níveis de escolaridade (como o ensino técnico e superior) o estudante terá que submeter a exames cujo conteúdo vem dessas diretrizes (como o ENEM, por exemplo).

No Brasil, especificamente, o homeschooling virou tema da agenda do grupo político bolsonarista, que é fortemente influenciado por setores religiosos mais conservadores e que vêem o ensino domiciliar como forma de manter as crianças longe de influências mais progressivas. O país, no entanto, têm cerca de 2,5 milhões de estudantes matriculados em escolas confessionais, ou seja, que já seguem uma orientação religiosa específica, muitas das quais filantrópicas e portanto com isenção fiscal e obrigação de manter programas de bolsas de estudo.

 

2. Quem estuda em casa tem desempenho acadêmico melhor?

 

Esse é um argumento recorrente dos defensores do homeschooling. A Associação Nacional de Ensino Domiciliar (ANED) afirma que o desempenho acadêmico de crianças que estudam em casa é de 15 a 30% superior aos dos demais estudantes. O problema, porém, é novamente de ordem estatística. O número de crianças em homeschooling é pequeno demais e as famílias envolvidas nessa modalidade costumam ter pais com escolaridade e situação econômica superior a média das famílias das crianças em idade escolar em geral.

Ou seja, muito embora os estudantes que já estudam em casa possam ter bom desempenho acadêmico, não é possível afirmar que o ensino domiciliar seja um fator responsável por isso. Em geral, crianças cujos pais tem maior escolaridade e estão mais envolvidos na educação dos filhos tendem a ter melhor desempenho escolar.

 

3. Quem é contra o homeschooling?

 

Para entender o porquê das pessoas serem contrárias ao homeschooling é preciso entender a origem do movimento e sua ligação com uma de duas linhas de pensamento sobre educação: a privatista e a estatista. A educação domiciliar se encontra dentro de uma linha de pensamento que defende a liberdade do indivíduo que daria maior peso a decisão dos pais na condução da educação das crianças. Nessa linha, os recursos públicos iriam patrocinar iniciativas privadas de ensino.

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Já na linha estatal, é o Estado que detém e gerencia os recursos, protagonizando a maior parte dos esforços nessa área. O sistema educacional brasileiro, especialmente na Educação Básica, é estatista. Legalmente o Estado é obrigado a garantir vaga nas escolas para todas as crianças a partir de 6 anos. Mais de 80% dos estudantes do ensino fundamental estão em escolas públicas.

Este papel do Estado é consagrado em várias leis brasileiras, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, que protege o direito da criança de ter acesso à educação. Os críticos do homeschooling apontam que dar um passo a liberdade individual prejudicaria a garantia ao acesso universal. E retiraria recursos já escassos destinados a 49 milhões de estudantes para atender um universo que hoje está em torno de 30 mil estudantes.

escola sem partido .jpg

Outro problema apontado pelos críticos tem relação com o pátrio poder e a segurança das crianças. Muito embora os pais tenham poder de decisão em relação aos filhos, esse poder não é absoluto. Além disso, tanto no Brasil (que não tem regulamentação para ensino domiciliar), quanto nos EUA (que tem), mais de 90% dos casos de violência contra crianças são perpetuados por pessoas da família (pais, mães, irmãos).

Caso aprovada, a Lei do Homeschooling irá descriminalizar a não matrícula da criança na escola, tornando possível que as crianças que não são levadas à educação formal se tornem, na prática, invisíveis. Algumas das razões para a oposição ao projeto estão em uma carta assinada por diversas instituições da educação brasileira contrárias a iniciativa.

É por isso que atualmente a rede de proteção à infância é formada principalmente por profissionais de saúde e da educação que tem contato frequente com as crianças. São essas pessoas que acionam a rede sempre que necessário. Segundo o Projeto Invisible Children, dedicado a documentar casos de abuso e negligência na educação domiciliar, entre 4 e 6 crianças educadas em casa morreram entre 2002 e 2012 em decorrência de violência doméstica.

 

4. Crianças ensinadas em casa não se socializam?

 

As entidades que defendem o homeschooling no Brasil afirmam que as famílias se organizam para promover a socialização e a convivência das crianças com outras crianças com frequência, o que invalidaria a crítica de quem diz que as crianças ficariam isoladas. Essa socialização também acontece quando as famílias frequentam espaços públicos, como parques, mercados, shoppings.

De fato, a criança que é educada em casa não necessariamente deixa o convívio social. Ela continua a participar de outras atividades tanto na família expandida quanto em outros grupos sociais, como a igreja, o clube, a vizinhança.

No entanto, a convivência pressuposta na escola é diferente da convivência mediada pela família porque pressupõe maior diversidade. Quem defende o homeschooling no Brasil fala na suposta doutrinação “de esquerda” nas escolas. Esta ideia é baseada numa concepção ultrapassada da educação que entende a criança como depósito de conhecimento. O pensamento contemporâneo sobre o assunto vê o estudante como capaz de elaborar conhecimento por conta própria, ou seja, ele não é um balde vazio no qual o professor deposita conhecimento, mas sim alguém que irá se apropriar da informação que recebe de maneira particular.

Na prática, isso quer dizer que não é porque o estudante poderá conviver com pessoas cujo pensamento, ideologia e modo de vida sejam diferentes, que ele irá adotar esses novos comportamentos. Outro dado relevante é que estudante brasileiro fica, em média, 4,5 horas de segunda a sexta-feira. No restante do tempo é a família que define como ele ocupa o tempo.

Além disso, não há dados que corroborem a ideia de que a escola, em especial a escola pública, esteja tomada “pela esquerda”. Por exemplo, na última eleição municipal em Curitiba, 65% dos candidatos cuja profissão declarada era professor eram de partidos políticos de centro e direita.

escola sem partido.jpg

 

5. Quanto custa o homeschooling?

 

Essa é uma questão complexa, porque vai depender de como a família irá se estruturar para ensinar as crianças em casa. O primeiro custo a se considerar é o da perda de renda do adulto que ficará responsável pelas crianças. Segundo a ABED, o homeschooling usa o tempo de forma eficiente, de forma que o tempo de aula não precisa ser as mesmas 4 ou 5 horas da escola regular. Porém, esse tempo que a criança está na escola também se traduz em tempo para o adulto trabalhar.

O segundo custo a ser considerado é do material escolar. Para ensinar, a família terá que investir tanto em material de papelaria (lápis, canetinhas, papel, cola, tinta, pinceis etc), quanto em material didático específico. Alguns programas custam em torno de R$ 400/R$ 500 por etapa. A duração da etapa vai depender do andamento do trabalho na família.

Há ainda a possibilidade de contratação de professores particulares para parte ou a totalidade do programa de ensino. Em sites de contratação de professores por hora, como o Superprof, o valor da hora para ensino domiciliar varia de R$ 20 a 45. O custo total depende da negociação da família com o profissional.

Claro, o homeschooling tem a vantagem de, ao contrário da escola tradicional, não representar uma despesa fixa e de aproveitar momentos de lazer para aprendizagem (o que uma criança que está na escola também vivencia se os pais se dedicam a isso). Muitos desses momentos podem incluir atividades sem custo, como visitar bibliotecas públicas e parques.

 

tacho ensino domiciliar .jpg

SAIBA MAIS

06
Jan22

Livro documenta elo entre miséria e exploração de crianças

Talis Andrade

(foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Mães pobres entregavam crianças para coronel que prometia ajudá-las a conseguir trabalhar

Logo no início de “O Coronel que Raptava Infâncias”, Matheus de Moura apresenta seu protagonista, Pedro Chavarry Duarte, como um homem da igreja, filho preferido entre quatro crianças, aspirante a policial militar. Mas antes Moura descreve uma cena: Duarte, aos 65 anos, está se entregando à polícia, acusado de abusar sexualmente de crianças e tentando usar o momento da prisão para influenciar o que aconteceria logo depois.

Amazon.com.br eBooks Kindle: O Coronel Que Raptava Infâncias, de Moura,  Matheus

Provavelmente o leitor já sabe que o protagonista é acusado de sequestrar e abusar de crianças tão novas quanto um bebê de três meses. Um crime tão terrível que é difícil para qualquer um imaginar a violência que ele representa. Mas disso, Moura pausa a história principal para te mostrar as pessoas. Chavarry e suas vítimas.

Um dos principais atrativos da literatura dedicada a crimes reais é de dar uma terceira dimensão a personagens reais envolvidos num drama. O livro de Moura faz isso e mais: consegue desenhar o emaranhado em coloca miséria, poder, dinheiro e abuso de crianças juntos. O personagem dele construiu cuidadosamente uma imagem de caridoso, disposto a ajudar e aproveitou o poder tanto da farda quanto do dinheiro para abusar da confiança de mulheres pobres que viam nele a única ajuda possível para trabalhar e ter quem cuidasse de seus filhos.

O jornalista, que se interessou por Chavarry ainda na faculdade de jornalismo, levou cinco anos para apurar como o coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro se tornou um homem santo, caridoso, a quem mães pobres procuravam para pedir ajuda. E como ele usava isso para convencê-las a deixar as crianças com ele, sem perguntar, mas já respondendo aqueles que muito rapidamente questionam onde estavam as mães quando uma criança é descoberta vítima de abuso.

Na trilha do coronel, que em 2017 foi condenado a 11 anos de reclusão por estupro de vulnerável e corrupção ativa, Matheus encontrou sofrimento e muitas histórias mal explicadas. A mais chocante é de Sônia Meirelles, uma mulher pobre de vida difícil e problemas graves de saúde que acusava Chavarry de ter levado embora uma de suas filhas. Com muitos filhos e poucos recursos, ela procurou ajuda do policial, que levou a menina ainda bebê para um suposto lar.

Mas ela se arrependeu e pediu a criança de volta. Chavarry nunca a devolveu. Tentou até entregar outra criança para ela. A falta de informações sobre o destino da menina levou Sônia à loucura e ao suicídio. A tragédia da família não parou aí. Outras duas filhas de Sônia são as únicas a relatar uma lembrança da infância dos abusos de Chavarry. As meninas, que ficavam com o policial militar sob a desculpa de estar ajudando a mãe delas, recordam de estarem no chão e verem o militar nu em pé, entre elas.

O grande acerto de Moura foi produzir um livro honesto, construído a partir da apuração, sem grandes rompantes literários nem de liberdade poética. A narrativa é bem construída e apesar da fartura de personagens, é fácil acompanhar todas as histórias, inclusive algumas do próprio Rio de Janeiro, com personagens históricos como o jornalista Tim Lopes e o bicheiro Castor de Andrade, e da região de Bangu, área de atuação de Chavarry.O coronel Chavarry (segundo da esquerda para a direita e de cinza) ao lado de Flávio Bolsonaro

Matheus não ambicioso. Ele promete contar de um criminoso. E entrega isso. Mas também não há com terminar a leitura sem a clara percepção de que sem tantos outros crimes, corrupção, decisões erradas o coronel não teria marcado a vida de suas vítimas. E quantos outros crimes aconteceram justamente por disso?

Coronel estuprador tinha pose de homem de família e experiência na PM -  Metrópoles

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