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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Jun21

A ditadura brasileira, literatura e denúncia, agora em áudio

Talis Andrade

 

por Urariano Mota

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A Tocalivros, que é a principal plataforma de audiolivros do Brasil,  anunciou esta semana que o áudio de “Soledad no Recife” está disponível para todos aqui 

O livro , que foi publicado pela Boitempo em 2009, ganhou  esta síntese da Tocalivros neste junho de 2021:  

“O amor e a paixão pela bela guerrilheira, o terror e morte na ditadura, a traição de um companheiro infiltrado, que a levou à morte pela ditadura militar. Ficção impressionante, a verdade de um crime sem punição. Grávida, foi delatada pelo próprio companheiro Daniel, depois conhecido como o Cabo Anselmo”.  

Daí que julgo necessário divulgar as duas primeiras páginas de Soledad no Recife: 

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.    

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de  madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:

- Conspirando no Aroeira?  

- A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.

- Esses intelectuais ... Conhecem? Soledad, Daniel.  

- Ah, prazer. Prazer.

E assentando-se em torno, Júlio derramou,  descuidado:  

- São revolucionários. Podem ficar à vontade.

Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.  

- Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.  

- Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.  

- Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.  

- Sei.  

- Está com medo?  

Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:

- Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?

- Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.

O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:

- É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse,  apontando a Igreja de São Pedro.  

- Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.  

Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.  

- Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.   

- Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha”  

Para essas primeiras páginas da abertura do livro, assim ficou o trailer do áudio: escute aqui.   

Desejo que tenham uma boa audição para o terror e trauma da nossa juventude no Recife.  

14
Mai21

A bondade negra de uma vagabunda

Talis Andrade

Urariano autógrafo.jpg

 

 

por Urariano Mota

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Eu me perguntava: será que ela sabia o destino daquele “lanche para mais tarde”? Hoje, penso que sim, porque conheço o que os patrões dão o nome de “rádio corredor”. Ou seja, a comunicação subterrânea, oculta, que os empregados e excluídos têm à margem do controle dos chamados superiores

Para o dia de ontem, 13 de maio, lembro de uma pessoa grande que fiz personagem. Sobre ela, compreendo o que os fascistas chamam de vagabundo, palavra definida nos dicionários como um ser infame, canalha, desonesto, ordinário, inferior. Um insulto atirado, enfim, por bandidos contra a decência, que age por justiça. Em resumo, eu quero apenas dizer Severina, do romance “A mais longa duração da juventude” em uma página:  

Penso na cozinheira da pensão, dona Severina, uma senhora negra, analfabeta, que lia como ninguém as necessidades dos fodidos. Mais e melhor que a Irene de Manuel Bandeira, “Irene boa, Irene preta, Irene sempre de bom humor”, maior foi Severina, porque a sua bondade era ativa. Ela não era aquela bondade da criada perfeita, sempre a serviço dos patrões, que por isso entrará no céu, apesar de negra. Não, sob risco, na conspiração sem palavras e sem bandeira, muda, quanto devemos a ela? Severina lia em nossos olhos a angústia, e um sorriso se insinuava em seu rosto, quando nos olhava com olhos graúdos como se nos dissesse: “Eu te compreendo, futuro, se para a humanidade houver algum, eu te compreendo futuro camarada”. Esta lembrança vem na escrita. A gente tem que escrever para não ser um filho da puta, ou um ingrato, pior que os gatos domésticos. Por quê? Eu pagava somente a minha vaga e alimentação. Almoçava lá embaixo, mas lá em cima, Luiz do Carmo estava trancado sem comer. Então eu comia até a metade do meu prato. E ao me levantar da mesa com os meus 50% deixados, eu falava para me justificar do modo exótico de comer: 

- Levo para o meu lanche, mais tarde. 

Severina doce, Severina bondosa, Severina indispensável, sorria com os olhos para minha desculpa, eu podia ver. A partir do terceiro dia do almoço pela metade, ela punha mais feijão e mais pedaços de carne em meu prato, “por engano”. Na hora da refeição, a velha dona fiscalizava a quantidade de comida posta para os inquilinos. Severina atrasava o momento de pôr a minha refeição até que a dona saísse, e quando mais não era possível, escondia o excesso de carne sob camadas de feijão e arroz. Eu, percebendo a cumplicidade, comia rápido os meus pedaços, de tal modo que na volta da megera dona o meu prato estivesse equilibrado. Se pudesse fazer mais, Severina nos levaria para a sua casa, nos cobriria com a sua saia para esconder aqueles terroristas sem futuro, a não ser a morte. Que chegaria para todos, é certo, mas não tão cedo. Para mim, agora, a sua cara negra e redonda cresce. Com os olhos grados e um sorriso bom. Nela poderíamos ter a unidade com o povo tão sonhada, e não víamos, porque buscávamos o popular idealizado, macho, de armas engatilhadas como o exército vietcongue. Mas o popular estava no sorriso de Severina. Ela apenas queria ser nossa irmã naquela hora repleta de angústia. Ela apenas nos cobria como uma negra fugida abrigava os seus negros perseguidos. Enquanto nós, os perseguidos delirantes, procurávamos o popular sublevado. O engraçado é que tão criminoso me sentia pelo furto de comida sob a vigilância da senhoria, que eu fazia de conta que o almoço vinha a mais por acaso, embora repetido, e Severina fingia que errava a mão, sempre no mesmo prato. Na verdade, eu era o seu negro preferido, o filho especial da negra Severina, que para os outros era madrasta. Estrela Vésper riscava no céu até nós, e a sua luz era negra, num deserto branco de ossos. 

Eu me perguntava: será que ela sabia o destino daquele “lanche para mais tarde”? Hoje, penso que sim, porque conheço o que os patrões dão o nome de “rádio corredor”. Ou seja, a comunicação subterrânea, oculta, que os empregados e excluídos têm à margem do controle dos chamados superiores. Os conhecidos como subalternos veem, leem e conhecem a vida, mas como são tidos como cegos, surdos e estúpidos, podem melhor observar o que passa despercebido aos senhores.  

Um abraço e beijo tardios, Severina. 

A mais longa duração da juventude  - LiteraRUA

06
Mai21

Como não consigo matar a injustiça, escrevo

Talis Andrade

 Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo

por Urariano Mota

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Respostas que falei por email a Ney Anderson, do site  Angústia Criadora

O que é literatura?

À primeira vista, é o texto escrito. Mas essa primeira visão é falha no geral e no específico. Primeiro, porque existe a poesia oral, que muitas vezes é feita em seus melhores momentos por geniais repentistas do Nordeste brasileiro. Isso para não entrar nas raízes históricas da poesia. Segundo, porque o jornalismo impresso não é literatura. Então resta a pergunta: o que é literatura? 

Literatura é ficção, no sentido mais comum. Mas isso, esclareço, não é uma narração mentirosa. A literatura fala da vida de que apenas desconfiávamos existir. Ela é uma compreensão da realidade. E no escritor, em geral, a memória é a própria compreensão do mundo. Os escritores são melhores quando escrevem sem pretensiosa fantasia. É natural que todos não alcancemos a compreensão da vida que lembramos. Isto é, a maioria não tem consciência da memória que reside no seu ser. Ou até mesmo nem deseja ter essa consciência, que a literatura revela, quando a memória é trauma

Mas nem sempre literatura é ficção, naquele sentido que o vulgo e a ignorância confundem sempre com mentira, quando falam que determinada impostura de autoridade ou réu é ficcional. 

Tomemos o exemplo de Os Sertões de onde cito este máximo:

"Canudos não se rendeu... caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."

Isso está acima de nós, por força do seu lugar sobre esta linha, e por força da expressão. Isso acima de nós não é objetivo, por maior verdade que fale e expresse. Isso é imagem subjetiva, voz de um escritor parcial, com parcialidade escrita, porque indignada contra o massacre de uma gente rude, que desejava o céu na terra. Canudos não é uma ficção, infelizmente é um fato real, um massacre objetivo. Mas em Os Sertões é literatura, porque mantém uma qualidade de escrita acima do comum, porque é narrado com vigor, maestria e paixão, somente abaixo da grandeza da injustiça que narra.

 

O que é escrever ficção?

O escritor de ficção, em vez de narrar ideias gerais, narra pessoas, personagens particulares. É da natureza do nosso gênero, é a nossa forma de trabalhar. Ainda que estejamos escrevendo sobre as coisas mais abstratas, algo como a Constituição Federal atualizada, ainda assim o escritor, o que tem gênese e característica da literatura, falará da Constituição Federal conforme a biografia sentida da própria vida. É como um louco ou doente sem remédio. Em muitos significados, ele é um funcionário permanente. O escritor me lembra um bancário que não conseguia sair do banco. Ia pra casa, o banco o acompanhava. Ia dormir, lá estava o banco. Ia pro bar, e quando no calor da cerveja se discutia sobre a estratégia da França com a Linha Maginot depois da 1ª. Guerra Mundial, o bancário concluía: “Entendo, eu também faço isso. Eu pego os livros de relatórios e empilho na minha frente, pra ninguém me perturbar. Essa Maginot é como lá no banco”.

Não é que o escritor seja um monstro biográfico, que possua um misterioso talento onde não cresçam e frutifiquem ideias. Pelo contrário, não se conhece um só bom autor que não possua uma concepção do mundo e dos seus desconcertos. Mas é que nele, no escritor, as ideias sofrem uma interpretação particular, que se mostram no que ele escreve. Nele não há lugar para a sobrevivência da tese, que é do ofício de todo ensaio científico ou acadêmico. Na literatura, os personagens não são bonecos de ideias gerais. São gente, de cara e dente, onde as ideias se batem, se violentam e mantêm o conflito. Como na vida fora da escrita.

Nos livros, falo do que vi em minha juventude, tão perto de mim, como eu gostaria de crer. Neles falo da repressão da ditadura, de pessoas heroicas, covardes e loucas, ou em profundo desespero, que eu vi. Falo da minha infância em um subúrbio periférico do Recife, que tem o nome de Água Fria, que não se pronuncia em boa conversa, porque seria o mesmo que falar um palavrão. O melhor de mim está quando volto os olhos para esse mundo sem nome, de pessoas que desaparecem sem nome, cujo sepultamento é apenas um alternativa precária da carniça para os abutres. É para esse imortal escárnio que me volto. Essa gente, gentinha gentalha da minha genética é que me sustenta. Antes, durante suas vidas e depois.

A literatura é a terra da democracia. Ela permite a um filho do povo escrever e por isso ser recebido com tapete vermelho em qualquer palácio. E a honra será dos palácios. Essa democracia da literatura, esta literatura que me permitiu ser menos insignificante, é a minha terra e o meu destino. Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo.

 

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Retiro de um texto que escrevi sobre Joaquim Nabuco: 

No Brasil, e no exterior também, há uma corrente de liberais que separa o cultural do político. E de maneira quase unânime, separa a literatura da política. Isso não é bom nem fecundo para a política ou para a literatura. Na política, assim separada do mundo literário, procura-se amesquinhar, rebaixar o seu nível à discussão apressada, ignorante e mal pensada. Ou seja, a prática ausente do conhecimento literário, que se fez presente nos clássicos há muito, essa ausência não é normal nem é a norma. Penso em Marx, Lênin, Gramsci, José Marti. E no Brasil, penso nos clássicos Astrojildo Pereira, Pedro Pomar, Nelson Werneck Sodré, Miguel Arraes, e outros que minhas limitações não permitiram alcançar. Nesta altura, lembro aqueles versos de Camões citados por Diógenes de Arruda Câmara, numa peça de acusação contra a ditadura no Brasil:

“Metida tenho a mão na consciência,

E não falo senão verdades puras

Que me ensinou a viva experiência”.

Por outro lado, ou pelo mesmo lado, na literatura separada da política me ocorre a imagem de cortinas que se abrem para as trevas. E nesse escuro, o abismo não é pequeno. Seria o mesmo que um mundo sem os gregos, e não só os trágicos, mas um mundo sem Platão, esse grande escritor que criou o personagem Sócrates, e a maioria só o nota como filósofo. Mas de modo mais óbvio, a literatura sem política seria um mundo sem Shakespeare, Dante, Cervantes, Tolstói, Balzac… e se querem exemplos mais próximos de nós, pelo tempo e pelo idioma, teríamos um mundo triste mundo sem Castro Alves, Lima Barreto, Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José Saramago. Um mundo tão medíocre quanto mutilado em suas melhores forças.

Mas isso ainda não é dizer tudo dessa literatura que ficaria tão desfigurada. Num rápido avanço, e tão rápido que não me afaste do título acima desenhado, uma das maiores incompreensões é a que retira do mundo da literatura a obra de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere. Uma negação estética que vem a ser estúpida, maldosa e desonesta. Em outro ataque, mais recente, desconhece-se a leitura literária nas crônicas de Dom Hélder Câmara, de textos altíssimos no rádio, que ele chamava de Um Olhar sobre a Cidade. E agora chego mais perto do que me trouxe até aqui. Separar o literário do político e o político do literário seria o mesmo que não ver em Joaquim Nabuco um dos nossos mais geniais escritores. O que isso quer dizer? – Simples, digamos: o seu pensamento político, abolicionista, possuía uma forma de expressão que se não for literatura será literatura sob transparentes véus. Eu me refiro, por exemplo, a estas iluminações:

“A raça negra fundou, para outros, uma pátria que ela pode, com muito mais direito, chamar sua. Suprima-se mentalmente essa raça e o seu trabalho, e o Brasil não será, na sua maior parte, senão um território deserto…

Os escravos, em geral, não sabem ler, não precisam, porém, soletrar a palavra liberdade para sentir a dureza da sua condição”.

 

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Respondo com o meu romance “A mais longa duração da juventude” em um trecho: 

“E se a revolução não vier, como vamos fazer? eu lhe pergunto, e a pergunta é tão sincera que só poderia fazê-la bêbado. Estamos os dois no cais, ele bem entende o significado do ‘fazer’, que substitui o verbo ‘viver’. Como vamos viver se a revolução não chegar? 

‘Não tem como ela não vir. Eu tenho a certeza’. Eu, não, lhe digo, mas quero dizer não sei, não sei se o que desejamos virá. O que significa: amor, trabalho, justiça, felicidade coletiva, sociedade sem opressão, liberdade, isso tudo é possível, Luiz? Mas aí ele se volta para mim e pergunta, direto: ‘Você acredita na revolução?’. Meu passo imediato é responder eu não tenho a certeza, mas respondo ‘Sim, claro, se eu não acreditasse, não cumpria tarefas’. Ao que ele ergue a voz para o oceano: ‘Você é meu companheiro’. E nos apertamos as mãos. E saímos da praça para o Gambrinus, onde pretendemos tomar a última. Quando vem a cerveja, eu lhe falo: ‘Olhe, eu acredito na literatura’, quando ia lhe falar ‘Eu acredito na literatura, mas a revolução é meu horizonte’. No entanto, só tenho 20 anos e não estou tão bêbado para tal franqueza. Luiz do Carmo entende o que desejei dizer, me põe os olhos grados e pergunta: ‘Sério? Para você o que é a literatura?’. 

E eu: ‘É tudo’ ”. 

 

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Não, a literatura não é uma “extensão da realidade”. Assim posta, poderiam confundi-la com um braço, uma perna, ou mesmo um apêndice de tese acadêmica ou mesmo como um curso de extensão na universidade. Não, ainda, mesmo fora da caricatura da frase anterior. Não, ainda, se a isolarmos no substantivo “extensão”. Isso porque a literatura é arte, a mais desenvolvida forma de arte que o homem já inventou. Ou seja, ela é uma prova da nossa humanidade, e de tal maneira, que deveríamos ter deixado em Marte um volume do Dom Quixote. Mas em 1997 os cientistas da Nasa escolheram para o robô em Marte o samba Coisinha do Pai, na voz da cantora Beth Carvalho. 

Assim, essa “extensão” nos faz crescer como deuses humanos, porque fala do pior e melhor de nós mesmos, como se fôssemos um homem editado. Enfim, talvez venha a ser um “mundo paralelo”, se com isso queremos dizer o mundo que ilumina o ambiente de trevas em que estamos, do lado de cá. 

 

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem? 

Os sentimentos e sensações vêm antes, bem antes dos dias de começo. É meio como se fôssemos almas penadas que fingem ser normais e comer e beber e falar para que não nos tomem como anormais ou loucos. Mas o que sentimos enquanto andamos por aí ou vagamos é aquela maravilhosa expressão de Camões nestes versos que destaco em um soneto: 

“Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei por quê”

Mas em seu começo, sei o “assunto”, o personagem ou personagens, o destino para onde posso ir, mas as surpresas e obstáculos são tamanhos, que o destino se altera, e autor e personagens também. É como iniciar um novo amor. Há um ponto de partida, mas não se sabe para que inferno ou céu estão nos levando. 

 

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita? 

Dos dois, e não sei como sair dessa, assim como na pergunta do ovo ou da galinha quem nasceu primeiro. Copio de uma entrevista minha ao poeta Natanael Lima Jr: 

Comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa
 

“Muito embora as estrelas do Infinito

Lá de cima me acenem carinhosas

E desça das esferas luminosas

A doce graça de um clarão bendito;

 

Embora o mar, como um revel proscrito,

Chame por mim nas vagas ondulosas

E o vento venha em cóleras medrosas

O meu destino proclamar num grito,
 

 

Neste mundo tão trágico, tamanho,

Como eu me sinto fundamente estranho

E o amor e tudo para mim avaro...

 

Ah! como eu sinto compungidamente,

Por entre tanto horror indiferente,

Um frio sepulcral de desamparo!”

 

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem  estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido? 

Escrevo para entender melhor o que conheço. E até mesmo para entender o que pensava conhecer e de nada sabia, até o ponto em que escrevi. 

 

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores....etc? 

Tudo. Mas o problema a ser narrado vem antes. Depois, personagens, cena, cenário, tempo, narrador, nessa ordem. 

 

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim? 

Para mim, há uma contradição no personagem bem construído em um texto ruim. No romance, no conto, é quase impossível. Grandes personagens se encontram em grandes narrações. Imensos romances são de imensos personagens. As criaturas - mais que personagens – de Andersen estão em contos imortais, de todos os tempos. Mas entendo ser natural que personagens inesquecíveis não se encontrem na maioria dos romances de José de Alencar. Aqueles índios que encarnam a nobreza idealizada são de doer. Por outro lado, penso que é possível encontrar personagens indigestos em poemas narrativos.  

 

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir? 

A verdade. A verdade do problema, do personagem, do autor, do tempo narrado. 

 

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Toda e total. A boa literatura é fonte de enriquecimento destas horas de angústia e pesadelo. Não importa em que meio: em livro físico, em ebook, na internet, em áudio. E adianto aqui uma notícia, que a ninguém anunciei ainda: “Soledad no Recife” será acessível em áudio, no próximo mês.                      

 

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno? 

Retiro de um texto de Celso Marconi que o Vermelho publicou há pouco:

“Quem trabalha com a mente e tenta criar algo, de forma geral é considerado fora da normalidade. O ‘normal’, desde que a sociedade estabeleceu critérios para julgar o ser humano, é quem trabalha para ganhar a sobrevivência sua e de sua família. Quase sempre quem pensa em trabalhar para criar é considerado, principalmente pelos que mandam no mundo, como malucos malditos”. 

Ao que acrescento: o passatempo da humanidade é fingir que a morte não existe. Que a vida não importa. Que o amor é bobagem. E que portanto são fracassados os que pensam, refletem e criam sobre essas coisas inúteis. 

 

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso? 

E quem doma? São indomáveis. O autor no máximo se acostuma ao imprevisível que traz dentro de si. 

 

O inconsciente, o acaso, a dúvida...o que mais faz parte da rotina do criador?

Tudo faz parte. Também o trauma e o beijo impossível que não se pôde dar. 

 

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Eu não sei. Ah, se soubesse!

 

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento? 

Quando o escritor toca na sua alma. Aquilo de Goethe: "Tudo quanto se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair." 

 

O leitor ideal existe?

Sim, aquele que o texto alcança e atinge. É um ideal sem idealismo. Um leitor de todas as classes, gêneros e raças, mas fundamentalmente os que se solidarizam pela sorte dos marginalizados.  Ou que sentem a sua dor. 

 

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos? 

O simples é que é a maior sofisticação. Penso no samba de Paulinho da Viola, nas composições de Caymmi, nos poemas de Manuel Bandeira, nos contos de Machado de Assis, nas crônicas de Antônio Maria. 

 

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

No livro “É isto um homem?”, de Primo Levi: 

“Agora, todo o mundo está raspando com a colher o fundo da gamela para aproveitar as últimas partículas de sopa; daí, uma barulheira metálica indicando que o dia acabou. Pouco a pouco faz-se silêncio. Do meu beliche, no terceiro andar, vejo e ouço o velho Kuhn rezando em voz alta, com o boné na mão, meneando o busto violentamente. Kuhn agradece a Deus porque não foi escolhido para a morte. Insensato! Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem 20 anos e depois de amanhã irá para o gás e bem sabe disso, e fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem falar, sem pensar? Não sabe, Kuhn, que da próxima vez será a sua vez? Não compreende que aconteceu, hoje, uma abominação que nenhuma reza propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação, nada que o homem possa fazer, chegará nunca a reparar?
Se eu fosse Deus, cuspiria fora a reza de Kuhn.” 

 

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria? 

Dom Quixote. 

 

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

Qual a sua angústia criadora? 

Não poder evitar a morte de quem muito amei. 

*Angústia Criadora https://www.angustiacriadora.com/urariano-mota-eu-nao-sei-atirar-esmurrar-e-assim-nao-posso-combater-e-matar-a-injustica-com-as-maos-cheias-de-bombas-balas-e-misseis-como-nao-posso-escrevo/ 

24
Ago20

“Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”

Talis Andrade

Urariano Mota.jpg

 

 

Natanael Lima Jr entrevista Urariano Mota

Urariano Mota é escritor e jornalista, nascido em Água Fria, subúrbio do Recife. Autor de Soledad no Recife, que reconstrói a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife em 1973, e a traição que levou à sua prisão, tortura e morte pelo governo militar. Publicou ainda O filho renegado de Deus (Prêmio Guavira de Romance 2014), Dicionário Amoroso do Recife e A mais longa duração da juventude, que narra o amor, política e sexo em uma viagem de memória no Recife de 1970 a 2017. Atualmente, é colunista do Vermelho, Brasil 247 e Jornal GGN.


Natanael Lima Jr. - Meu caro Urariano Mota, um prazer grande entrevistá-lo e podermos conhecer um pouco da sua vasta trajetória como jornalista e escritor. Quem é Urariano Mota?

Urariano Mota - Sou fundamentalmente escritor. Meus textos jornalísticos têm, ao mesmo tempo, rebeldia às normas dos jornais e realização literária de outra maneira. Neles sempre está presente a voz do escritor. Sou filho de João e Maria, em um bairro popular, cuja formação possui traumas dos quais às paredes confesso. De outros traumas, nem às paredes falo de viva voz. Meu crescimento intelectual se deu à força de uma persistente autoeducação, porque desejava falar desse mundo submerso.

 

NLJ - Quando você começou a se interessar pelo jornalismo e a literatura?

UM - Por jornalismo, porque eu desejava trabalhar em algo que exigisse de mim o texto escrito. Nem adivinhava que a liberdade estética, para ganhar dinheiro com jornalismo, eu não teria. Mas comecei a me interessar por literatura bem antes, quando ainda não sabia que a expressão da gente é arte. Lembro que esse remoto aconteceu no dia em que li o soneto Só! de Cruz e Sousa:

“Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito,

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro...

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

Quando eu li esse poema, senti que Cruz e Sousa parecia falar para mim, e no entanto falava da própria dor. Eu era adolescente e esses versos chegaram com força em um momento de profunda revolta, mais revolta que desalento. Então ali começou o meu longo e infindável aprendizado. Hoje sei que falamos do mundo quando falamos do mundo que vai dentro da gente.

Depois, esse poema me voltou em momentos da juventude. Quando sozinho, estávamos eu e o poeta iguais no frio sepulcral de desamparo, mas sem estrelas do infinito acenando carinhosas. Negro igual a Cruz e Sousa, eu sentia a desesperança do soneto igual, mas o que me amarrava nu e chagado era o desencontro entre a minha tendência e o que exigiam de mim. A minha tendência era a literatura. E com muito trabalho, às vezes com algum sucesso da expressão da palavra, eu compreendo que a felicidade é o outro nome da literatura.

 

NLJ - Para você escrever é dom ou consequência de trabalho, leitura e transpiração?

UM - A resposta já foi esboçada antes. Escrever é, em primeiro lugar, uma necessidade. E se pensamos na semelhança que pode guardar com outra expressão de humanidade, é como o amor. Ninguém pergunta se o amor é dom, trabalho, leitura ou transpiração. É tudo. E guarda semelhança também com as formas da escrita. Ela se faz de todas as maneiras, do certo, do errado, dionisíaca, apolínea, sucinta, seca ou larga, barroca. Não há formas superiores, únicas, Há formas diversas e infinitas, todas dignas do seu nome. Mas se quer uma resposta sintética, eu digo: necessidade, talento, leitura, trabalho.

 

NLJ - De onde vem o caráter político das suas obras?

UM - Natanael, o escritor e crítico literário Flávio Aguiar assim escreveu na apresentação do livro Soledad no Recife: “Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece verdade”. Com efeito, essa tem sido uma fala dos mais diversos leitores sobre o que tenho publicado. E não há truque, não há “técnica”, efeitos especiais de circo para essa manifestação. Trata-se, apenas, ou melhor, um apenas entre aspas, trata-se “apenas” de que reflito, penso e medito sobre a memória do que vivi e tenho vivido. Às vezes, ou quase sempre, lembrança do mergulho da mais funda angústia. Quando escrevo sobre a esquerda no Recife, quando publico páginas sobre os militantes contra a ditadura, quando retomo um trauma antigo, do século passado, eu não invento. Ou melhor, procuro não inventar, na medida da minha consciência. Aos companheiros mortos e vivos, eu dedico sempre o que escrevo. Sem eles, eu sou nada, ou menos que nada, se isso for possível.

Agora noto que sou de esquerda antes de ser de esquerda. Não é um paradoxo, porque pretendo dizer: sou de esquerda desde a morte precoce da minha mãe, quando eu era um ser em crescimento aos 8 anos de idade. A revolta foi a mais funda que um homem pode ter, revolta que com os anos só veio crescendo. Aquilo me pôs num caso pessoal com Deus. Caso de raiva permanente contra um absoluto que permitia a negação da vida de modo mais absoluto. Mas para expressar, escrever sobre esse mundo, desde a infância ao tempo de juventude, eu tive e tenho que estudar muito. Ler, reler, apanhar para aprender, apanhar para refletir sobre o fracasso. Porque com revolta só não se faz literatura. Além dela, é preciso conhecer, trabalhar e trabalhar, ler e estudar. Só assim o sentimento íntimo se torna sentimento do mundo.

A literatura é uma atividade sobre a qual sempre estamos aprendendo, não importa a idade do escritor, ou quantos cabelos brancos tomem conta da sua cabeça. Todos os dias fracassamos. E como um Sísifo todos os dias tentamos erguer a dura rocha da felicidade para o alto. Mas ela volta a rolar até os nossos pés, todos os dias. Então recomeçamos.

 

NLJ - Para você, qual o valor da literatura?

UM- Caro Natanael, tento responder com uma reflexão sobre a minha experiência: sempre procurei falar para jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Aqui e ali, eu era obrigado a ouvir:

“O que eu ganho com a literatura, professor?”

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas. E ficava a gaguejar coisas absurdas, do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

Mas quando a pergunta era feita por jovens da periferia, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta; porque não me via em suas condições e rostos. Mas dos periféricos, era demais. Então eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência.

Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa; algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Que importa? Que se dane o nome, vencia a literatura. Vencia a qualidade maior da literatura: libertar nos brutos que somos o nosso melhor humano. É algo muito mais precioso, e eterno enquanto houver humanidade, do que tirar uma nota 1.000 na redação do Enem. Ou, se quiserem, pode ser criado até um anúncio prático de comercial: com a literatura virem humanos, e ganhem uma nota mil para toda a vida.

 

NLJ - Entre as suas obras publicadas, destacam-se Soledad no Recife (2009), O filho renegado de Deus (2013) e A mais longa duração da juventude (2017). Fale-nos um pouco sobre cada uma dessas obras?

UM - Eu prefiro falar com trechos curtos de cada uma. Assim, talvez eu consiga algum distanciamento, digamos.

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Soledad no Recife – “ 'Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério.... em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto'. O depoimento da advogada Mércia Albuquerque sobre o corpo de Soledad é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. 'A boca de Soledad estava entreaberta' ”

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O filho renegado de Deus – Agora entendo, mãe, o quanto odeio a miséria, no mesmo passo em que amo os miseráveis. Eu, que sou filho do teu leite, eu que sou filho de Filadelfo, sei agora que também sou filho da miséria, e assim em terror quero extirpá-la de mim, com força, vigor, violência: Maldita, o teu nome é crime. Naquela hora sei que havia movimentos no teu ventre, e depois vinha uma breve quietação, que parecia opressa, porque respondia com pequenas pontadas laterais, à semelhança de pequenos braços em convulsão. (Por Deus, eu não queria ter esta memória. Por Deus!)

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A mais longa duração da juventude - “- Eu penso ás vezes que a pílula é uma caricatura de Goethe - digo.

- Por quê, rapaz?

- Aquele conceito de Puberdade Tardia, entende? Goethe falava que certas pessoas têm uma natureza que não se curva à idade. E recebem então uma puberdade tardia.

- Mas essa idealização de Goethe a ciência fez real. – Luiz do Carmo me responde. – Por que não usá-la, se a temos a nosso alcance? O sonho de antes agora está na farmácia.

- Eu sei. Mas é um artifício, caricatural.

- Você se nega à sua idade?

- Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos.

- Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”

 

NLJ - O romance O filho renegado de Deus lhe deu o primeiro lugar do Prêmio Guavira 2014, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O que representou essa premiação para a sua trajetória literária?

UM - Foi a segunda vez em que ganhei dinheiro com a literatura. Na primeira, com o conto “Uma noite na Bahiana”, na antologia de humor da Revista Ficção, transformei o dinheiro em galeto e cerveja no Savoy. No segundo, paguei o IPTU atrasado da casa. Mas, falando sério, o prêmio apenas confirmou o que eu tinha consciência: o romance estava à altura de cantar uma mulher do povo, desprezada nos becos do Recife.

 

NLJ - W. H. Auden, escritor e poeta inglês naturalizado norte-americano, afirmara que “a mera criação de uma obra de arte é em si um ato político”. Você concorda?

UM - Sim, concordo. O que realiza o político na obra de arte não é o tema. É a sua criação como uma voz alta de humanidade. E, portanto, uma voz de protesto contra todo tipo de canalhice ou injustiça. A literatura vai sempre contra a corrente. Ou será aquilo que Manuel Bandeira falava: “contabilidade tabela de cossenos secretário dos amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres”

 

NLJ - Na sociedade de consumo irrestrito em que vivemos a literatura ainda sobrevive, isso não é pouca coisa. Em sua opinião, pode-se viver de literatura no Brasil?

UM – De literatura mesmo, é difícil, raro ou impossível. O que se ganha com livros no Brasil é aquele samba de Pedro Caetano:


“O que se leva dessa vida
É o que se come,
É o que se bebe,
É o que se brinca, ai, ai...
O que tenho nessa vida
São as ruas pra andar”

 

NLJ - Como sabemos, a internet possibilitou novas formas de comunicação com pessoas do mundo inteiro. No caso específico da literatura, a internet contribuiu para a sua difusão?

UM - Sim, e digo mais: a internet é capaz de estabelecer ligações e conquistas antes inimagináveis. Por exemplo, todos os meus romances foram publicados com o envio de originais por email. Esse é um procedimento que não se recomenda. Há editoras que até rejeitam. Mas comigo tem sido assim.

 

NLJ - A sobrevivência do interesse por literatura nestes tempos de informações frenéticas, contudo descartáveis, seria em sua opinião, um estágio cultural já superado ou não?

UM – É claro que não. As informações descartáveis são a antiliteratura. Onde os jovens, homens e mulheres encontrarão a expressão máxima do amor e da morte? A não ser que estejam satisfeitos com a existência de robôs. E logo, logo, os robôs viram sucata, enquanto a vida se vai e esvai.

 

NLJ - O que você deixaria como mensagem neste momento de distanciamento social provocado pelo Coronavírus?

UM – Leiam os clássicos. Ouçam Bach. E Pixinguinha também.

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21
Ago20

Celso Marconi, 90 anos de rebeldia e cinema

Talis Andrade

O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica 

 

por Urariano Mota

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Entre os grandes personagens de 23 de agosto, a Wikipédia indica Gene Kelly, Nelson Rodrigues, Tônia Carrero, Rita Pavone, Rodolfo Valentino, Vicente Celestino e Alberto Cavalcanti. Mas não registra, em uma só linha, um dos mais importantes críticos de cinema do Brasil, o recifense Celso Marconi. Essa ausência na enciclopédia é, ao mesmo  tempo, injusta e descuidada, para dizer o mínimo. Então, em breves linhas, tento um curta dos seus 90 anos.

Sobre o aniversariante desse domingo já publiquei o texto “Celso Marconi, uma vida de cinema”, https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/urariano-mota-celso-marconi-uma-vida-de-cinema/ . Por sinal, esse artigo circula no sábado entre amigos do mestre de português Diógenes Afonso no WhatsApp.

Nesse texto, eu lembrei que Celso Marconi vinha sendo o crítico brasileiro de cinema com maior longevidade. Nos seus 90 anos agora, tenho a certeza de que ele é o jornalista com mais tempo de crítica de cinema não só no Brasil, mas em todo o mundo. O paradoxo, ou paradoxal, é que na sua idade ele é o mais jovem crítico de cinema, pela expressão maravilhosa, que nos desconcerta, em meio a um texto como aqui: 

Face a Face é melhor ser visto num aparelho individual, numa TV grande, mas de maneira que você possa parar quando estiver cansado, prostrado, e sair para comer um chocolate ou tomar um café antes de continuar. Penso que, se estivesse vendo esse filme de Ernst Ingmar Bergman hoje numa sala de cinema, eu gritaria para que parassem pra gente descansar um pouco… 

Certamente hoje são poucas as pessoas que conhecem o cinema de Ingmar Bergman e isso se justifica pelo fato de que o atual presidente do País não tem a menor noção do que é Cultura, e sem dúvida nunca viu nem um filme de Ingrid Bergman – quanto mais de Ingmar! É uma pena. Com tantos elementos novos e fundamentais para mudarmos a nossa vida e podermos conhecer melhor o que é uma vida amadurecida, é lamentável que estejamos vivendo esse dilema de moralismos inúteis”

Nele, o que não é reflexão mais profunda é rebeldia, que não se contém nem se contenta. E com ele temos crescido, desde os anos 1970, quando Celso Marconi já era um crítico consagrado, guru de nossa estética de cinema. Lembro, de modo claro, que nós corríamos para aquelas críticas no Jornal do Commercio que nos revelavam o valor da programação do Cine de Arte Coliseu e de outros cinemas. Que oásis! Bebíamos o que ele nos revelava naquele deserto da ditadura. Eram linhas que faziam a cabeça de estudantes contra a ditadura e das novas gerações no Recife. Era uma alegria imensa, nos fins de semana, saber o que o Coliseu nos reservava, a partir do texto de Celso Marconi. Foi com ele que descobrimos Buñuel, artista que nos deixava tontos antes do bar, como destaco no começo do livro Soledad no Recife:

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente”.

Lá no início deste artigo, eu escrevi que Celso Marconi é um jovem. E não só na sua expressão de crítico, esclareço agora. O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica no Face, porque o seu desejo de vida é permanente. Como aqui:

A PUTA E O POETA

Sonhei que era um poeta russo
E vivia nos tempos dos soviéticos
Com uma bela puta também russa
E tinha muito prazer em trepar com ela
Que era linda e branca azulada
Tinha um ar de tristeza que ameaçava
Qualquer um que trepava com ela
Mas o seu corpo era perfeito para a função
E ela adorava que eu lesse minhas poesias
O que nem sempre era aceito pelos soviéticos
Que implicavam com um sujeito mesmo poeta
Viver comendo por conta de uma puta
Pois nós comíamos e sempre tínhamos
Borsht, solyanka, blini, frango à Kiev,
Pilmeni ou salada olivier à mesa
Que a puta fazia com todo gosto
E não tinha estória de não comer
Só porque era puta ou era poeta
E fomos vivendo com muita alegria
O pior porém era quando queríamos mudar de cidade
Sair de Vladivostoki para Irkutski na Sibéria
Pois os guardas dos aeroportos ou rodoviárias
Mesmo que achassem a gente bonitos
Não aceitavam que o poeta não trabalhasse e
Ficasse comendo com o que a puta ganhava

 

EU QUERO O PRAZER

As religiões condenam o prazer
E inclusive não querem o desejo
Você tem que sentar e esperar
Que todo o desejo se esvoace
Se a religião não quer o desejo
Por que então nascemos com essa
Possibilidade?
O desejo de prazer fujamos
Carnaval dos carnavais
Como vamos fingir o não desejo?
A natureza nos pune
Mas ao contrário nos alegra
Quando concretizamos um desejo

 

 
 
02
Fev20

Morre em Recife o jornalista Nagib Jorge Neto

Talis Andrade

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247 - O jornalista e escritor Nagib Jorge Neto, ex-preso político e autor de “Onde está meu filho?” — sobre o desaparecimento de Fernando Santa Cruz, durante a ditadura militar — do romance “A Fantasia da Redenção” e “A Literatura em Pernambuco”, entre outras obras, morreu na manhã deste domingo no Recife, aos 83 anos, vítima de câncer. Ele deixa a mulher Eunice Sobral.

Colaborador do Brasil 247, Nagib começou a vida profissional como repórter em São Luís, na Rádio Timbira, em 1958. E atuava na área desde 1956, ano em que – juntamente com Brandão Monteiro, jornalista, advogado, ex-deputado federal e secretário de Estado no Rio – redigia, editava e vendia o jornal "Tribuna Estudantil". 

Em 1959 entra no "Jornal do Dia", colabora com o "Jornal Pequeno", o "Tribuna Estudantil", órgão da União Maranhense dos Estudantes Secundários, que presidiu entre 1958 e 1959. Entre 1961 e 1963 assume a Secretaria de Redação do "Jornal do Povo", de propriedade do jornalista Neiva Moreira e dirigido pelo poeta Bandeira Tribuzzi. 

Nessa fase foi presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito e Secretário Geral da UME, entidade universitária. No Golpe de 64, com o "Jornal do Povo" fechado, deixa São Luís e passa a integrar, com ajuda do poeta Lago Burnett, a equipe do "Jornal do Brasil", na sucursal do Recife. Então decide ficar na capital pernambucana  e passa a atuar no JB como repórter, chefe de Redação e sub-chefe da Sucursal Nordeste. 

Nessa época, também colabora com as revistas "Realidade" e "Veja", "Jornal da Tarde", "Jornal do Commercio" e Jornal da Semana, do qual foi editor chefe. 

Em 1968, com o texto “O Progresso Do Nordeste e A Difícil Vez De José”, publicado no JB e no "Jornal do Commercio", ganha o Prêmio Esso Nacional de Informação Econômica. 

Como jornalista, publicou os livros "Longe do País dos Sonhos" (reportagens, histórias, 1981); "Que Zorra, Camarada!" (textos políticos, 1991) e participou da elaboração do livro "Onde Está Meu Filho?" (1982), fazendo o texto final do trabalho que enfoca o desaparecimento de Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier. 

Ainda nessa  área publicou "Elogio da Resistência" (CEPE, 2001), na coleção “Perfil Parlamentar, Século XX”, da Assembleia Legislativa de Pernambuco. O trabalho evoca as idéias e lutas do advogado, escritor, político e militante comunista Paulo Cavalcanti. 

Na área de ficção publicou "O Presidente de Esporas", "As Três Princesas Perderam o Encanto na Boca da Noite", e "O Cordeiro Zomba do Lobo", todos de contos. Em 2002 publica "A Fantasia da Redenção", romance, e em 2003 o trabalho "A Literatura em Pernambuco", na coleção “Ícones Pernambucanos”, da Assembleia Legislativa, revista e ampliada entre 2007/2009.

 

12
Jan20

Tudo pode ser escrito

Talis Andrade

Romance publicado em 1799 tem tradução lançada no Brasil

 

O filósofo, crítico literário, poeta e tradutor alemão Friedrich Schlegel escreveu, em 1799, seu único romance, Lucinde, que só agora chega por aqui em tradução acurada de Constantino Luz de Medeiros.  

Na época do lançamento a crítica foi negativa, pois “a aparente ausência de enredo, o jogo inusitado de vozes narrativas, a mistura de formas literárias, a profusão de imagens alegóricas advindas da tradição literária, assim como uma espécie de sensualidade espiritual (ou espiritualidade sensual) na relação conjugal entre mulher e homem […]”, como afirma Medeiros, no prefácio de sua tradução, rompiam com os paradigmas literários de seu tempo.
 

Lucinde é um romance epistolar heterogêneo, pois se oferece ao leitor também como uma forma de confissão polifônica, atribuída ora a Julius ora a um narrador desconhecido. Em razão desse hibridismo (cartas e dois diários), Schlegel o considerava um texto único em seu gênero, sem precedentes literários.

No romance, Julius pede que sua musa seja “insaciável” e revela que ele próprio perdeu as “regras da razão e da moralidade”. No depoimento seguinte, diz que a amada não deve esperar “a moral gentil do amor” e, à sua pergunta, “Como se pode escrever o que mal é permitido dizer, aquilo que só se deveria sentir?”, ele responde: “o que se sente é preciso querer dizer, e o que se quer dizer deve-se também poder escrever”. Schlegel defendia o espírito livre, assumindo que tudo pode ser dito e escrito. Mas “do mais elevado, por ser inexprimível, só se pode falar de maneira alegórica”, em forma de parábola, como ele afirma em seu ensaio clássico Conversa sobre poesia.

A alegoria é usada em Lucinde não só para falar do “inexprimível”, mas para se aproximar de outras questões importantes, como a “opinião pública”, comparada pelo filósofo a um monstro que de repente salta diante dele “inchado de veneno”, “os intestinos retorcendo-se feito vermes” e rastejando “com a mobilidade asquerosa de seus inúmeros pequenos pés”. De perto, entretanto, esse mostro não passava de um “sapo comum”.

Outras discussões atuais vêm à tona no livro, como a do “homem moderno” que, bocejando e indo embora, saúda os presentes dizendo: “Vós sois verdadeiramente medíocres, e eu estou entediado”.

Lucinde faz também um elogio ao silêncio, que seria a verdadeira passividade: “falar e dar forma são apenas questões secundárias em todas as artes e ciência, pois o essencial é pensar e poetizar, o que só é possível através da passividade”.

Schlegel teria colocado em pé de igualdade homens e mulheres ao enaltecer o espírito feminino que, graças a sua ousadia inata, estaria “acima de todos os preconceitos da cultura e das convenções burguesas”. Hoje, contudo, são questionáveis afirmações que relacionam a “coerência das mulheres” a algo que não seria “fria e rígida concordância de princípios ou preconceitos calculados, mas a fidelidade perseverante de um coração materno”.

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05
Mar19

A MAIS LONGA DURAÇÃO DA JUVENTUDE, por Celso Marconi Lins

Talis Andrade

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Terminei minha tarefa de carnaval agora às 23 horas da segunda-feira e estou encantado. Li todo, li as 318 páginas do livro de Urariano Mota, “A mais longa duração da juventude”. A primeira coisa que quero dizer é que Abdias Moura tem que ampliar o seu livro sobre livros que falam do Recife e deverá fazer um novo capítulo inclusive porque – quero dizer – eu que já não gostava mais do Recife voltei a admira-lo intensamente.

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Soledad Barrett

 

Eu fiquei sabendo com profundidade que durante os anos da ditadura haviam organizações bem junto d’agente lutando contra a ditadura. Eu então pensava numa esquerda muito menos ativa e mais burocrática. E mesmo quando aconteceu a traição de Cabo Anselmo e a morte de Soledad Barrett e outros companheiros mesmo assim senti como se fosse algo no interior.

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Urariano Mota

 

Urariano não nos contou simplesmente uma estória mas montou um grande painel – e jogou com duas épocas indo dos anos 1970 até 2016 – que mostrou toda a força de um Recife revolucionário. Embora tudo aconteça de maneira bem alegre. Inclusive naquela época a gente que fazia parte do Tropicalismo tínhamos a ideia de que éramos considerados alienados e com a discussão que está no livro vemos como um dos participantes – Vargas – comenta de forma corretíssima a música e poesia de Caetano. Esse painel que temos – concordo totalmente – daria um grande filme num estilo como o do italiano Luchino Visconti e no Recife tem vários cineastas que poderiam fazê-lo mas eu sugeria a Camilo Cavalcante e sugiro a ele que procure Urariano e busque adquirir os direitos autorais, antes de outros. Embora não conte uma estória conta várias estórias e várias sequências fortíssimas como a de Vargas desesperado quando sabe da traição de Daniel e a de Joana indo a pé do bar Pérola até um espaço na Imbiribeira com o base e lá se juntarem amasiarem. Pra mim foi uma leitura de certa forma muito íntima pois minha vida profissional é praticamente toda nesse espaço central e lugares do Recife. Certamente eu convivi com essas pessoas mesmo anonimamente e até tive uma vez na casa do Daniel \ Cabo Anselmo.

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Celso Marconi

 

Eu trabalhava na Guararapes no INPS de manhã e de tarde no Jornal do Commércio e ia muito no bairro do Recife marcar filmes para o Teatro do Parque e ia a bares como a Portuguesa embora raramente ficava em bar até de manhã. “A mais longa duração da juventude” além de tudo não é só um romance político mas um romance muito bem realizado tecnicamente e uma leitura fundamental mesmo para quem gosta de literatura com profundidade.

27
Jul18

Você tem um encontro com Urariano Mota neste sábado 28 na rua da União no Recife

Talis Andrade

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Escreveu a jornalista e escritora Christiane Brito no jornal português Tornado:

 

“Urariano Mota é um grande escritor do Recife (Pernambuco). É autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil.

 

Aqui ele apresenta seu novo livro, belíssimo A mais longa juventude.

 

Fala de política, amor e sexo, num tempo que flui na ilógica da memória da ditadura e no resgate da força de uma juventude eternamente indignada contra a opressão.

 

Bom, Urariano é um brasileiro de Olinda e Recife, tem outra riqueza cultural, linguajar, fiquei muito feliz quando ele quis colaborar com o Tornado”.

 

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No Tornado, escreveu Urariano Mota:

 

"Sobre o meu mais difícil romance ainda não posso falar. Ele fala por si, desde o título. Creio que dele falarão melhor alguns trechos, que copio a seguir:

 

'Há um pensamento de Goethe, registrado por Eckermann , que fala da puberdade repetida. É um conceito luminoso, sem dúvida. Mas essa juventude ampliada ainda não seria uma ambição desmedida, pois mais adiante, ainda segundo Eckermann, o poeta de gênio insaciável expressou uma crença na imortalidade com estas palavras:

 

A crença em nossa imortalidade vem do conceito de atividade, pois se eu me conservo ativo ininterruptamente até a morte, a natureza vê-se obrigada a conceder-me uma nova forma de existência logo que o meu espírito não possa suportar mais a minha atual forma corpórea.

 

Narro com os olhos que não se negam a ver. Atravessamos o tempo como uma flecha cujo alvo é o que canto e conto.

 

Acompanho os fios brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, é certo, mas mantiveram a permanência do ser da juventude. Como? Não sou um filósofo, e assim não posso escrever uma análise concreta de uma história concreta, para usar frase dos anos de 1970, que parecem vir de longe. São anos de outro século, de outras vidas, de outros costumes, de outro país. Até de outra humanidade, eu diria. Para os mais jovens, seria como entrar em uma sala do cinema para ver um encantador filme em preto e branco. Eles eram assim? Meu Deus, que doidos. E como não sou um filósofo, tenho que falar desses companheiros de jornada como um escritor. E por isso as minhas mãos tremem. Em lugar de gelo ou de as amarrar, livro-as pela crueldade, que pode ser remédio para a ternura que me embaraça. Mas como ser cruel com o objeto que nos assalta e se revela como uma perseguição? Então que sejamos verdadeiros, apenas. Isso é o máximo dos máximos que poderei sonhar.

 

Há uma raiz que brota e não a cultivamos. Ela é maior que as nossas forças para soterrá-la, vem, cresce e rebenta. É a nossa cara de infância. É a nossa cara de juventude. Nós não somos esses senhores que andam por aí sérios, graves, portadores de condecorações e votos de louvor. Não. Nós somos os anteriores. Nós somos os filhos de Maria, Dagmar, Ana Rita. Não passamos de filhos sem mãe que nos metemos nessa cara de importantes senhores na superfície. Essas roupas, bens, cargos, lustres e lixos não nos dizem respeito. Falamos grosso e somos frágeis. Levantamos cacetes, falos, coxas e seios, mas não passamos de crianças que perderam seu colo e remédio. O melhor de nós é o que sobrevive a essa pele de rugas. E volta à tona em irrupção súbita, vulcão silencioso e ativo. Ainda que sentimento, não é sentimental. É alma fina alma, que sempre houve e se ocultava. E retorna em ataque vitorioso de guerrilha. Em lugar de derrotados, aqui nos subjugamos para melhor honra.

 

Pergunto ao novo dono do prédio onde morei se existe acima de nós uma água-furtada. Ele me olha como os cidadãos saudáveis olham os assaltantes ou loucos. Corre sobre mim, de alto a baixo, a sua diferença e me responde: Eu não sei. E não posso nem devo lhe dizer que procuro Selene, Zacarelli, Batráquio, Luiz do Carmo e o jovem que fui ali.

 

'Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente’

Assim escreveu Manuel Bandeira ao evocar a casa do avô na Rua da União, que fica na esquina. Mas isto não é o poema de Bandeira. Isto é uma narração de revolta, que exige o retorno do que fomos. E por isso desço e procuro a água-furtada onde um dia me escondi. O lugar onde à noite ouvi Ella Fitzgerald sem vitrola. Aquele, onde ouvi Ella somente ao alisar a capa do disco, que girava em mim. E por isso vou ao muro do Parque 13 de Maio e nele subo, eu, este senhor que não pula mais de qualquer altura, eu, este senhor que deseja a vida de antes retornada, com esforço vou à grade sobre o muro e busco o pássaro da juventude. E o encontro numa pequena elevação do telhado, oculto da vista do público, das pessoas que na calçada estranham um senhor obeso arfando. Eu te achei, nós te achamos, pássaro...

 

- Nós estamos no XXI. Temos informações que antes não existiam. Isso quer dizer, por exemplo: a ciência caminha para a descoberta da imortalidade. É claro, é tudo muito rudimentar ainda. Mas pode ser alcançada ainda em nossa geração – Zacarelli me fala.

 

Mas o que faremos da imortalidade? O que plantaremos no lugar do que é efêmero, que retira do próximo fim o seu gozo? Como teremos a saciedade sem a fome? Seria a imortalidade o paraíso sem o seu contrário, uma duração eterna do que é fluido e fugaz?

 

O que não é mais Luiz do Carmo está entre flores. O que foi, eu sei. O que não é, é este sobre o qual os amigos têm os olhos com lágrimas. Então, não sei de onde me vêm palavras que digo a ele me dirigindo a seus filhos. Não sei bem o que falei, apenas possuo imagens que destaquei sobre o escritor. O jornalista. O homem de partido. Mas acima de tudo o companheiro de geração. Olho para o corpo de Luiz do Carmo, olho para os filhos, e só me vem o mais íntimo, o que não posso falar. Eu sei e não posso, não devo, para não cair no mais lamentável espetáculo que um homem pode cair. “Como escutar Ella Fitzgerald? Você não tem vitrola”, ele me disse. O mais nu e mais íntimo, que fala da entrega da alma ao melhor, à fruição da arte, ao espírito mais belo e rebelde da juventude. Engasgo, e por estar engasgado sei que devo sair do velório. A minha mulher me dá o braço. Me atormenta, mas não falo a pergunta que escrevo agora:

 

- Para onde vamos?

Saio carregado'.

 

O personagem sai carregado. Mas assim não acabo o livro. Até mesmo a cópia do fim me dói no peito. Eu só espero que o romance A mais longa juventude alcance o coração de todo humano, porque do meu ele saiu.

 

19
Jul18

A mais longa duração da juventude

Talis Andrade

juventude revolução urariano.jpg

 

É na ação que vislumbramos
“A Mais longa duração da Juventude”

A emocionante narrativa de Urariano Mota envolve o leitor, não importa a idade, basta ter espírito jovem e o sonho de um amanhã melhor.


Nas páginas deste romance de combate é contada a verdade íntima que atingiu em cheio os jovens que atravessaram a ditadura brasileira, ou como descrito na obra:

“E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência ao fugaz.

O escritor faz uma intersecção precisa e emocionante do tempo literário e político: o amor, a militância e o sexo em uma memória histórica que vai de 1970 a 2017, onde a imortalidade é construída na rebeldia que resiste.

“Nós só vivemos enquanto resistimos”


Características do Livro:
Livro: A Mais Longa Duração da Juventude
Autor: Urariano Mota
Prefácio: José Carlos Ruy
Categoria: Romance / História / Política
Editora: LiteraRUA
Páginas: 320
Dimensões: 16X23 cm.
ISBN: 978-85-66892-13-0
Ano: 2017

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