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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

09
Set22

Delegado bolsonarista é preso por envolvimento com o jogo do bicho

Talis Andrade

www.brasil247.com -

 

Preso pela suspeita de envolvimento com o jogo do bicho, Allan Turnowski, fazia parte do grupo de candidatos vip do PL no Rio de Janeiro. Junto com Daniel Silveira, Gabriel Monteiro, defensores de chacinas e jogos de azar

 

247 -  Foi preso nesta sexta-feira (9), na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, o delegado bolsonarista e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Allan Turnowski . Segundo o Ministério Público, o delegado é suspeito de envolvimento com o jogo do bicho e por organização criminosa. As informações são do G1.

De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), Turnowski recebia propina do jogo do bicho e estaria envolvido em um plano para assassinar o bicheiro Rogério Andrade.

O delegado se afastou de suas atividades em março deste ano para se candidatar a uma vaga de deputado federal pelo PL.

A  investigação faz parte da operação Carta de Corso, que prendeu o delegado Maurício Demétrio, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), em junho do ano passado, acusado de cobrar propina de comerciantes.

De acordo com a coluna do jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles, "o delegado foi considerado pelo PL como um dos candidatos mais fortes do estado à Câmara dos Deputados nestas eleições. Turnowski era também o candidato para quem o governador Cláudio Castro estava pedindo votos".
 
Turnowski é parceiro de Cláudio Castro nas chacinas.
Blog do Noblat
@BlogdoNoblat
Enquanto isso, no Rio de Janeiro...
Pedro Abramovay
@pedroabramovay
O da esquerda, na foto, foi preso hoje. Era o chefe da polícia do da direita. O da direita que ser reeleito governador antes de ser preso.Image
Bruna Lima
@blimag_
Allan Turnowski, preso na manhã desta sexta-feira, tinha uma relação de "respeito pra caramba" com o assassino de Marielle. Ronnie Lessa era informante do ex-chefe de Polícia de Mais detalhes na coluna
@Metropoles

Ex-chefe de polícia do RJ tinha relação próxima com assassino de Marielle

Ronnie Lessa, assassino de Marielle, era informante de Allan Turnowski

09
Dez21

Série Pistoleiros: os sucessores do Escritório do Crime e a guerra sem fim do jogo do bicho

Talis Andrade

Leonardo Gouveia da Silva, o Mad ou Paraíba, preso em Vila Valqueire — Foto: Reprodução/TV Globo

Leonardo Gouveia da Silva, o Mad ou Paraíba, preso em Vila Valqueire — Foto: Reprodução/TV Globo

 
Por Rafael Soares /Extra

- - -

A Praça Miguel Osório, no Recreio, Zona Oeste do Rio, estava vazia quando o PM reformado Anderson Cláudio da Silva, o Andinho, abriu a porta de seu BMW preto. Era noite de 10 de abril de 2018, e Andinho, que era dono de uma empresa de segurança, tinha acabado de sair de uma reunião de negócios que teve com sua sócia num prédio próximo. Ele não conseguiu dar a partida no veículo para ir para casa: seu carro foi alvo de dezenas de disparos de fuzil e pistola, e o PM morreu na hora.

A primeira linha de investigação apontava para uma cena de execução: homens encapuzados teriam passado num carro atirando na vítima. No entanto, provas coletadas no local causaram uma reviravolta no inquérito. Peritos da Delegacia de Homicídios (DH) concluíram que ali também aconteceu um tiroteio: dois grupos diferentes de pistoleiros foram executar Andinho ao mesmo tempo, no mesmo local. E, como um bando não sabia do outro, os dois acabaram trocando tiros entre si.

Série Pistoleiros: a caminhada em busca das histórias de assassinos

Um dos grupos foi descoberto e teve seus integrantes presos: o Escritório do Crime. Já o outro não foi identificado até hoje. O quinto e último episódio de Pistoleiros, um podcast original Globoplay produzido pelo GLOBO, mostra que, após prisões e mortes de todos os chefes do Escritório do Crime, novos grupos especializados em matar seguem sendo recrutados. Ao longo de cinco capítulos diários, a série — resultado de um trabalho de um ano e meio de apuração — revelou histórias inéditas sobre o submundo da pistolagem carioca. O primeiro episódio conta a história de Ronnie Lessa, principal suspeito de assassinato de Marielle Franco. Já o segundo, fala sobre o capitão Adriano, chefe do Escritório do Crime. O terceiro, conta a história de Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano, e o quarto, a de Mad, sucessor de Batoré no cargo de principal matador do Escritório do Crime.

Série PistoleirosTranscrição do Episódio 5

Dois carros na cena do crime

As marcas de tiro encontradas no BMW de Andinho e nos outros carros que estavam estacionados na praça na noite da execução levantaram a suspeita dos peritos: havia marcas em várias direções — um sinal de que havia acontecido um confronto. Só que a pistola que Andinho portava estava travada e municiada, o que levou a perícia a concluir que o PM não teve tempo para reagir. Como ele havia ido sozinho à reunião, a polícia começou a acreditar que o crime envolvia dois grupos de atiradores.

A suspeita virou certeza quando os agentes da DH descobriram que havia dois carros na cena do crime. Um deles era um HB20 vermelho, que foi abandonado por um dos grupos de pistoleiros na mesma noite a 1 km de distância. O veículo foi deixado no local porque um dos atiradores havia sido baleado: o ex-PM David Soares Batista, que foi preso em flagrante naquela noite porque portava ilegalmente uma pistola 9mm. Após abandonarem o carro e o ferido, os outros quatro homens renderam um motorista que passava, roubaram outro carro e fugiram. A vítima do roubo afirmou que todos os homens portavam fuzis.

Série Pistoleiros: Conheça a Patamo 500, patrulha que formou Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle Franco

Já o carro usado pelo outro bando era um Honda Fit prata. O veículo foi descoberto depois que os peritos levaram para análise um fragmento de vidro, quebrado no tiroteio e apreendido no local do crime. O código FZ201308 impresso no vidro levou a polícia a concluir que ele pertencia a um Honda Fit que havia sido roubado meses antes do crime. Para o Ministério Público, esse foi o carro usado pelo Escritório do Crime para executar Andinho.

Grupo ainda não descoberto

As provas contra o consórcio de matadores chefiado pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega foram encontradas pelos promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na internet. Nas contas de e-mail de um dos integrantes do grupo, o MP encontrou um dossiê sobre Andinho, com dados pessoais, endereços da casa e de trabalho, informações sobre suas empresas, referências aos filhos, veículos, e fotos do PM e de fachadas de imóveis relacionados a ele.

Série Pistoleiros: Adriano, o prodígio da turma de galáticos do Bope que virou matador de aluguel

Dados das contas também revelaram que os pistoleiros sob comando de Adriano seguiram os passos de Andinho nos meses anteriores ao crime e chegaram até a filmar a fachada de sua casa. Além disso, a presença do Escritório do Crime na praça foi comprovada por uma prova pericial: cartuchos encontrados no local foram disparados pelo mesmo fuzil usado pelo grupo em outro homicídio um mês antes: o assassinato do bicheiro Marcelo Diotti.

Essas provas foram apresentadas pelo MP à Justiça em junho de 2020, quando Leonardo Gouvêa da Silva, o Mad, teve a prisão decretada. Mad era braço direito de Adriano e o sucedeu na chefia da quadrilha de matadores, depois que o ex-capitão foi morto na Bahia, em fevereiro de 2020. Hoje, Mad está preso e responde pelo homicídio de Andinho. Já o outro grupo, integrado pelo ex-PM David Batista e que usou o HB20 vermelho para o ataque, ainda não foi descoberto. Nenhum dos outros integrantes foi identificado e não há informação sobre outros crimes que eles tenham cometido.

Série Pistoleiros: Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano

Para o MP, Andinho foi assassinado em meio a uma guerra entre herdeiros do espólio criminoso do capo Castor de Andrade. Uma testemunha revelou à polícia que o PM era segurança do genro de Castor, Fernando Iggnácio, um dos postulantes aos pontos de jogo. De acordo com o depoimento, Andinho sabia que estava com a cabeça a prêmio porque cumpriu uma ordem de Iggnácio para “quebrar máquinas caça-níqueis na comunidade de Vila Vintém, as quais seriam pertencentes ao contraventor Rogério Andrade”, sobrinho de Castor e rival de Iggnácio.Juíza que soltou Rogério Andrade manda bicheiro comprovar trabalho lícito |  Rio de Janeiro | O DiaSTF suspende prisão preventiva do bicheiro Rogério Andrade

Ainda de acordo com o depoimento, a quebra das máquinas “deixou Rogério Andrade furioso, a ponto de elaborar uma emboscada para tentar matar Anderson”. O mandante do crime, entretanto, ainda não foi denunciado à Justiça. Policiais que investigaram o crime acreditam que o mesmo mandante enviou dois grupos diferentes ao local, sem avisá-los da existência um do outro.

Série Pistoleiros: Mad e a execução de Haylton Escafura num hotel na Barra da Tijuca

Sete meses depois do segurança, o chefe foi executado: Fernando Iggnácio foi morto num heliponto na Barra da Tijuca, em novembro de 2020. Com o Escritório do Crime fora do mapa, um novo bando de pistoleiros foi recrutado a jato para a missão. Seus integrantes foram identificados, e todos eles estavam fora do radar da polícia; nunca haviam sido apontados como matadores. Hoje, Rogério Andrade responde pelo crime.

Image

08
Dez21

Série Pistoleiros: Batoré, o assassino de confiança do capitão Adriano

Talis Andrade

policial-militar-antonio-eugenio-de-souza-freitas-

Antônio Eugenio, o Batoré

por Rafael Soares /Extra

Há cinco anos, a execução do presidente da Portela, subtenente aposentado da PM e candidato a vereador Marcos Vieira de Souza, o Falcon, chocou o Rio. O policial foi assassinado a tiros dentro de seu comitê de campanha, em Oswaldo Cruz, na Zona Norte. Na tarde de 29 de setembro de 2016, dois homens desembarcaram de um carro, apontaram fuzis para dentro do imóvel, atiraram e fugiram. Foram cerca de 30 tiros, e sete acertaram Falcon, nas costas, rosto, braços e pernas.

O lugar estava cheio de funcionários, mas só o candidato foi atingido. Apesar de geralmente circular cercado de seguranças, naquele dia não havia nenhum no comitê. No dia seguinte, compareceram ao velório de Falcon, na quadra da Portela, baluartes do mundo do samba, oficiais da cúpula da PM do Rio, e personalidades da política carioca.

A comoção não teve efeito no inquérito que investigou o crime. O homicídio segue sem esclarecimento até hoje. No entanto, um depoimento prestado em setembro de 2018, durante a investigação de outro crime, o que vitimou a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, ajuda a jogar luz sobre o que está por trás da morte de Falcon. No Penitenciária federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, expôs a trilha que liga o Escritório do Crime, consórcio de matadores chefiado pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, ao assassinato em Oswaldo Cruz.

O terceiro episódio de Pistoleiros, um podcast original Globoplay produzido pelo GLOBO, revela detalhes inéditos sobre dois homicídios que chocaram o Rio em 2016 e causaram mudanças profundas na geopolítica do crime na cidade: os assassinatos à luz do dia de Falcon e o do sargento PM e bicheiro Geraldo Pereira, no Recreio. Ao longo de cinco capítulos diários, a série — resultado de um trabalho de um ano e meio de apuração — vai revelar histórias inéditas sobre o submundo da pistolagem carioca. O primeiro episódio conta a história de Ronnie Lessa, principal suspeito de assassinato de Marielle Franco. Já o segundo, fala sobre o capitão Adriano, chefe do Escritório do Crime.

Série PistoleirosTranscrição do episodio 3

A delação

No segundo semestre de 2018, Curicica achava que seria condenado por um crime que não cometeu. O miliciano havia sido apontado, por uma testemunha plantada para prejudicar a investigação, como um dos mentores do assassinato de Marielle Franco. Meses depois, uma investigação da Polícia Federal comprovaria que ele não havia participado do crime. Mas, no dia 29 de setembro daquele ano, quando as promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile, então responsáveis pelo inquérito, foram ouvi-lo no Rio Grande do Norte, Curicica estava desesperado. E, para convencer o Ministério Público de que ele não havia cometido o crime, resolveu falar o que sabia sobre o submundo do crime no Rio.

O GLOBO teve acesso à íntegra da transcrição do depoimento de Curicica. Ao longo de 98 páginas, o miliciano conta que o Escritório do Crime, criado por Adriano da Nóbrega, é responsável por vários crimes de repercussão no Rio na última década. Segundo Curicica, o ex-capitão criou o grupo quando passou a trabalhar como segurança de bicheiros. Mas, depois que cresceu na hierarquia da contravenção, Adriano virou uma espécie de “agenciador”: era contratado, recebia as missões e passava para seus “funcionários”. O principal deles, segundo Curicica, era o ex-PM Antônio Eugênio de Souza Freitas, o Batoré: “O Capitão Adriano meio que se afasta dessas coisas de matar, ele até recebe as missões, mas passa pro Batoré. Quem desenrola, quem resolve, quem vê, quem vai é o Batoré”, disse o miliciano.

Batoré é um personagem central no relato de Curicica. Segundo ele, o ex-PM é um dos pistoleiros responsáveis pelos disparos que mataram o bicheiro Geraldo Pereira, em maio de 2016, e o presidente da Portela Marcos Falcon, quatro meses depois. O miliciano afirma que os dois crimes estão relacionados e que sabe detalhes sobre ambos porque era amigo íntimo da primeira vítima. Pereira é uma espécie de mentor de Curicica: o miliciano começou sua trajetória no crime como segurança do bicheiro. Com o tempo, eles viraram sócios e passaram a dividir o poder em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio: Curicica era o chefe da milícia, explorava taxas de segurança e serviços como gás, gatonet e transporte alternativo; já Pereira controlava o jogo ilegal (bingos, máquinas caça-níquel e o bicho).

'Vão te matar na academia'

De acordo com o depoimento de Curicica, Pereira arrendava o jogo na região. Ou seja, ele explorava mediante o pagamento de um aluguel a um dos capos do jogo na cidade, Rogério Andrade, sobrinho de Castor de Andrade. No entanto, os dois racharam pouco antes do homicídio porque Pereira descumpriu o acordo depois de apreensões de máquinas pela PF que causaram prejuízos na quadrilha.

“O Rogério ficou insatisfeito porque a Polícia Federal deu uns baques muito grandes na área de Jacarepaguá e Recreio. Pegou máquinas e bingo. Então o Pereira descontou do valor arrendado da área, o prejuízo. E o Rogério Andrade não ficou satisfeito, devolveu o dinheiro e falou: ‘Ou vem o que tem que vir ou não manda nada!’. Aquilo revoltou o Pereira, virou um estresse, uma guerra verbal né, entre um e outro”, contou Curicica às promotoras.

Logo depois da briga, o miliciano começou a ouvir um comentário de que seu amigo seria morto e que o Escritório do Crime teria sido contratado para o homicídio. O local do crime até já tinha sido escolhido: a academia que Pereira mantinha no Recreio dos Bandeirantes. Ele afirma que alertou o bicheiro: “Eu tive com ele duas vezes pessoalmente e falei: 'Vão te matar na academia', mas ele não acreditava. Ele achava que não... E acabou acontecendo, ele acabou sendo morto na academia, mataram ele lá”.

Pereira de fato foi executado quando chegava à academia por homens que o aguardavam dentro de um carro estacionado em frente ao local. Os atiradores foram flagrados por câmeras de segurança da academia, e parentes do bicheiro mostraram as imagens a Curicica. Ele identificou um dos pistoleiros: “O Batoré, entendeu? Ele é o atirador, é ele que, que desce atirando no Pereira, entendeu?”, disse o miliciano no depoimento.

Ex-PMs

Em outro momento de seu relato, Curicica relaciona o homicídio de Pereira com o crime o sucedeu: “O homicídio do Pereira, eu reconheço o assassino, o cara que desembarca do carro com fuzil atirando, eu sei quem é. É o mesmo cara que matou o Falcon”. Segundo Curicica, Batoré também foi um dos homens que fez disparos para dentro do comitê de campanha do então presidente da Portela. E o miliciano ainda vai além. Quando questionado se o mandante dos dois crimes foi o mesmo, ele confirma: “Mesmo mandante, por motivos diferentes”. Em seguida, as promotoras perguntam quem ordenou as execuções. Curicica pergunta se está sendo gravado e, em seguida, a gravação é interrompida.

Pereira e Falcon eram dois personagens bem próximos do submundo do Rio. Os dois tiveram carreiras semelhantes na Polícia Militar: eram policiais operacionais que acabaram passando a maior parte de suas carreiras trabalhando em delegacias, cedidos para a Polícia Civil. Eles eram amigos e trabalharam juntos no início dos anos 2000 na Delegacia de Antissequestro (DAS). Após se aposentarem, ambos foram acusados de ligação com o crime. Falcon chegou a ser preso acusado de integrar uma milícia na Zona Norte, e Pereira acabou fazendo carreira na contravenção.

Além do depoimento de Curicica, o Ministério Público tem outra prova de que as duas execuções estão relacionadas. Testemunhas ligadas a Falcon contaram, em depoimento, que, após a morte de Pereira, o presidente da Portela teria dito a amigos próximos: “O próximo sou eu”. A polícia trabalha com a hipótese de que, antes do homicídio na academia, Falcon e Pereira estariam tramando, juntos, o homicídio do bicheiro Rogério Andrade. Os inquéritos que investigam os dois crimes seguem em aberto.

08
Mai21

Xadrez de como Bolsonaro pode ter convocado a polícia do Rio para enfrentar o STF

Talis Andrade

 

por Luis Nassif

- - -

Na coletiva, o comandante da força tarefa que executou 28 pessoas em Jacarezinho atribui a tragédia ao supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, ao impedir novas operações durante a pandemia, o STF – através de decisão do Ministro Luiz Edson Fachin – teria permitido às facções se armarem.

Na CNN, o principal porta-voz do bolsonarismo no jornalismo, Alexandre Garcia, repete os mesmos argumentos e as mesmas acusações ao Supremo.

Vamos juntar algumas peças:

 

Peça 1 – Bolsonaro e a Segurança do Rio de Janeiro

Desde o início de governo, Bolsonaro se imiscuiu na segurança do Rio de Janeiro. A seu pedido, em maio de 2020 o então Ministro da Justiça Sérgio Moro afastou o delegado Ricardo Saadi, alegando problemas de “produtividade”. Conferiu-se, depois, que, sob Saadi, a Superintendência do Rio ostentou os melhores índices de produtividade de todo o país.

Ao mesmo tempo, investiu contra a fiscalização da Receta Federal no porto de Itaguaí, no Rio, porta de entrada do contrabando de armas no país.

Em Xadrez dos Bolsonaro e da expansão das milícias para Angra, relatamos os movimentos dúbios dos Bolsonaro em relação às milícias.

 

Peça 2 – os Secretários de Castro e as milícias

Ao iniciar sua política de genocídio, o ex-governador Wilson Witzel desmontou a Secretaria de Segurança e transformou a Polícia Civil e a Militar em Secretarias. Ou seja, sem nenhuma intermediação política e definindo, de moto próprio, as ações de repressão.

Com a queda de Witzel, o sucessor Cláudio Castro nomeou os novos Secretários em acordo direto com Jair Bolsonaro. Para a Secretaria de Polícia Civil foi nomeado o Delegado de Polícia Allan Turnowski; para a Secretaria de Polícia Militar, o coronel da PM Rogério Figueredo de Lacerda (Figueredo é sem i mesmo).

Em depoimento ao Ministério Público Federal, o miliciano Orlando Oliveira Araújo, conhecido como Orlando Curicica, denunciou ambos como ligados às milícias, de acordo com reportagem da Revista Piauí de julho de 2020.

Segundo a revista,

  • O secretário da Polícia Militar, coronel Rogério Figueredo de Lacerda, ganhava um mensalão do próprio Orlando Curicica quando comandava o 18º Batalhão da PM em Jacarepaguá. Na época, Figueredo de Lacerda recorria à ajuda de milicianos para combater o tráfico na área.
  • Allan Turnowski, segundo na hierarquia da Polícia Civil, recebeu propina do bicheiro Rogério Andrade.
  • O secretário da Polícia Civil, Marcus Vinicius Braga, que deixou o cargo no final de maio, pediu ajuda da milícia para prender traficantes na Zona Oeste.

Não se tratava de caça pequena. Preso por envolvimento com milícias, Curicica foi o primeiro a delatar o Escritório do Crime, do qual fazia parte.  

Turnowski tem histórico de combate aos que combatem as milícias.

Em 2011 foi nomeado para o Departamento Geral de Polícia da Capital. Na mesma ocasião, o chefe do Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) era  delegado Cláudio Ferraz, com um amplo histórico de combate às milícias: chegou a prender 200 milicianos.

Em 2011 foi decretada pela Polícia Federal a Operação Guilhotina. Nela foi detido o delegado Carlos Oliveira, sub chefe da Polícia Civil e braço direito de Turnowski, acusado de vender armas para traficantes.

A reação de Turnowski foi atacar o delegado Cláudio Ferraz, e acusá-lo de corrupção. A “prova”, segundo ele, teria sido um inquérito que investigava supostos desvios no município de Rio das Ostras, que durou dois dias.  Com base nesse fato, Turnovski chegou a lacrar a Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado)

Logo depois, Turnowski foi indiciado pela Polícia Federal, acusado de ter alertado seu subordinado sobre Operação Guilhotina. Na época ele negou a acusação, mas foi exonerado do Departamento Geral de Polícia da Capital.

 

Peça 3 – reunião com Bolsonaro

No dia 5 de maio, Bolsonaro iniciou o dia com ataques ao Supremo. Deu declarações de enfrentamento nítido ao Supremo, sustentando que editaria uma medida contra os governadores que “não vai ser contestado por nenhum tribunal, porque será cumprido”.

A bazófia foi repercutida pela mídia e e interpretada como uma auto-defesa em relação à CPI do Covid.

Na sequência, Bolsonaro rumou para o Rio de Janeiro e reuniu-se com o governador Cláudio Castro. Chegou no Palácio Laranjeiras às 16:45 e teve reunião a portas fechadas. Na saída do encontro, a imprensa foi informada de que a conversa foi sobre parceria entre o Estado e a União. Nada mais foi dito.

No dia seguinte, explode a Operação que massacrou 29 pessoas.

Na coletiva, o chefe da operação acusa diretamente o Supremo pela tragédia. Segundo ele, a decisão do Ministro Luiz Edson Fachin, de impedir operações durante a pandemia, permitiu o fortalecimento do tráfico, levando ao confronto.

Esse mesmo discurso seria repetido no dia seguinte pelo principal porta-voz de Bolsonaro, jornalista Alexandre Garcia.

 

Peça 4 – a narrativa provável

A hipótese mais provável é a seguinte:

1. O desastre na frente econômica e sanitária erodiram a popularidade e o poder político de Bolsonaro.

2. Bolsonaro tentou envolver as Forças Armadas e falhou. O ápice foi a demissão do Ministro da Defesa e a reação interna, que obrigou Bolsonaro a cumprir o regulamento da nomeação dos novos chefes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

3. Sem respaldo das FFAAs para o golpe, era óbvio que partiria para a radicalização.

4. Com a ordem para que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, autorizasse a abertura da CPI do Covid, o Supremo torna-se seu alvo preferencial.

5. Não tendo condições de afrontar o STF pessoalmente, Bolsonaro recorre ao governador Castro para o enfrentamento. Basta pegar uma investigação em andamento e, a partir dela, promover o massacre, tendo no comando da segurança do Rio dois secretários identificados com o bolsonarismo e suspeitos de envolvimento com as milícias.

A operação afronta diretamente decisão do Supremo.

 

Peça 5 – o Brasil contra o crime

Como o STF e as instituições reagirão à rebelião das milícias fluminenses, eis a questão.

Houvesse um Ministro como Alexandre de Moraes à frente, certamente teria sido ordenada a demissão imediata do Secretário da Polícia Civil.

Luiz Edson Fachin não dispõe da mesma têmpera. Jogou o caso para plenário. Mas, se não adotar uma atitude drástica contra a rebelião criminosa da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a autoridade do Supremo estará comprometida.

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