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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

14
Jan24

Djalma Maranhão

Talis Andrade
Ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão foi deposto em 1964 pelo regime militar (Foto: Roberto Monte/www.dhnet.org.br)
Djalma Maranhão com o ex-presidente Café Filho.
Foto Roberto Monte
 
 
por Woden Madruga
 
 

Lembrando que amanhã, 27, segunda-feira, noite de lua cheia, é o aniversário de nascimento de Djalma Maranhão (Natal, 1915), um grande potiguar, um grande brasileiro. Professor de Educação Física, jornalista, político, deputado estadual e federal, prefeito de Natal por dois mandatos, realizando uma das administrações mais importantes da história natalense[CdM1] [CdM2] [CdM3] , investindo principalmente em Educação (“De pé no chão também se aprende a ler”) e Cultura, destaque para os terreiros do folclore. Como jornalista fundou vários jornais, entre eles o Diário de Natal, idos de 1939, quando tinha 24 anos.

Na ditadura militar de 1964 Djalma teve o seu mandato de prefeito cassado. Foi deposto e preso. Posto em liberdade por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, Djalma exilou-se no Uruguai, onde faleceria em 30 de julho de 1971, aos 56 anos de idade. Seu corpo foi transportado para Natal e sepultado no Cemitério do Alecrim.

Na estante pego o livro-álbum “Djalma Maranhão 100 Anos – Uma Fotografia”, organizado por Giovanni Sérgio Rêgo e Adriano de Souza. São 268 páginas, contendo 237 fotos. Uma obra importante que permite se fazer um rico passeio pela história potiguar, principalmente pelos caminhos da aldeia natalense. Fiquei todo ancho quando me vi numa dessas fotos. Foi numa solenidade (todos de paletó e gravata) no palco do Aero Clube: Djalma Maranhão discursando diante do microfone, ao lado o dr. Gentil Ferreira de Souza, presidente do clube (também ex-prefeito de Natal), e o seu famoso mordomo Boquinha. Do outro lado, o jurista dr. João Medeiros Filho e este escriba, que à época, final dos anos 50 começo dos 60, fazia parte da diretoria do Aero. Faz tempo e dá muitas saudades daqueles tempos.

Volto à estante e pego o livro “Cartas de um exilado”, publicado pela Editora Clima, em 1984. Além das cartas de Djalma endereçadas a familiares e amigos, tem um poema (não concluído) que ele escreveu no exílio com o título “Evocação de Natal”, que deveria ser lido em todas as escolas e lembrado em todas as rodas natalense. Em homenagem à sua memória, transcrevo alguns versos:

“Não te esquecerei, Natal,/ Os olhos do sol transpondo as dunas/ Iluminando a cidade,/ Que dormiu embalada/ Pelo sussurro das águas do Potengi./ Jerônimo, o que plantou o marco de tua fundação;/ Poti, o teu guerreiro nativista,/ Que nasceu ali em Igapó, antiga Aldeia Velha, / Brasil Colônia, Brasil Império./ Pedro Velho, teu grande chefe republicano.”

“Não te esquecerei Natal! / No lirismo dos teus poetas;/ O quase bárbaro Itajubá/ E o quase gênio Otoniel/ E também o alucinado Milton Siqueira,/ Jorge Fernandes esbanjando poesia/ Na mesa de um bar/ Era a imagem viva de um Verlaine./ A projeção dos teus intelectuais, / Que tem em Câmara Cascudo / Um nome regional com ressonância internacional;/ A tradição literária dos Wanderley, / Revivendo a tua boemia./ O saxofone de Tibiro./ Os violões de Heronides, Macrino, os irmãos Lucas./ Tuas modinhas – “Praieira dos Meus Amores” – / Deolindo, Cavalcanti Grande, Ávila, Carlos Siqueira, / Vitoriano, Jaime, Pedrinho, Saturnino,/ Jaime declamando sua poesia./ Tuas serenatas e Evaristo de Souza,/ O teu último grande boêmio.”

“Não te esquecerei, Natal! / Na tradição de tua Igreja, / A humildade de João Maria/ E a bondade do monsenhor Pegado,/ A cultura do Padre Monte/ E os sermões de Luís Wanderley, / A vocação social das irmãs Vitória, Gonzaga, Rosali,/ E também os ingênuos poemas de Dom Marcolino;/ Dom José Pereira, o célebre fundador do teu Arcebispado./ Anoto para o futuro as lutas de hoje/ Dos jovens sacerdotes/ Plasmados por Dom Eugênio e Dom Nivaldo, / Para os duros embates sociais,/ Na fidelidade às Encíclicas de João XXIII,/ Herdeiros do sacrifício de Frei Miguelinho.”

“Não te esquecerei, Natal! / A tua jovem Universidade, / Herdeira das tradições do velho Ateneu:/ João Tibúrcio, Torres, Celestino,/ Severino Bezerra, Clementino, Seu Emídio./ A tua Escola Doméstica/ Iniciativa inesquecível de Henrique Castriciano./ Centro altamente refinado de ensino./ E a Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler/ Ferramenta indestrutível de uma geração/ Que teima, deseja e atingirá/ As fontes do saber e da cultura,/ Quando um dia o ensino não for um privilégio.”

“Não te esquecerei, Natal! / O austero Forte dos Reis Magos/ Com os velhos canhões de fogo morto,/ A ponte metálica de Igapó,/ A alegre pensão de Maria Boa, / Onde uma geração se iniciou nos segredos do amor./ A Peixada da Comadre, no Canto do Mangue,/ E a Caranguejada do Arnaldo, / A Feira do Alecrim e o seu Clube do Sarapatel,/Os cegos tocando viola,/ A Carne Assada do Lira e do Marinho,/ Batidas de Maracujá nas baiucas da Quarentena,/ Cerveja bem geladinha no Carneirinho de Ouro/ E o café sempre requentado no Bar Quitandinha.”

“Não te esquecerei, Natal! ” [publicado in 25 nov 2023]

29
Ago23

Ditadura brasileira: procura-se justiça histórica. O caso Eloá Guimarães

Talis Andrade

 

Como foi que você chegou aqui ao Recife?
Elizabeth: Cheguei aqui por um motivo muito importante, e foi uma viagem espontânea, a partir do momento que foi iniciado com um artigo seu “Tércia, memória da ditadura”, que eu li no Brasil 247, no dia 30 de junho. Nesse artigo o senhor mencionava que o funeral de Tércia em Minas Gerais, e estava ali mencionado pela primeira vez, para os meus olhos, o nome de Mércia Albuquerque. E eu entrei em pânico e em regozijo. O nome de Mércia Albuquerque tem estado em minha memória, na minha vida, no meu coração, muitos e muitos anos. 

 

Por que o nome de Mércia Albuquerque lhe trazia regozijo e pânico?
Sim, porque em 1969 foi o ano em que eu fui para o Canadá. Então poucos dias depois, minha irmã Eloá, quatro anos mais nova que eu, veio ao Recife visitar a amiga Stela, que estava em Londres e veio rever a mãe. Minha irmã Eloá não pôde se conter de rever Stela, e veio aqui passar uns dias. Então, quando Stela voltou para Londres, Eloá ficou aqui no Recife, porque tinha outros amigos que também estavam aqui. No Rio, ela estudava Sociologia e Teatro. Ela veio em agosto para ver Stela. Antes de vir, o meu pai disse a ela: “se você precisar de algum dinheiro no Recife, você procure o senhor fulano de tal, com quem eu tenho negócios, depois eu me acerto com ele. Isso foi em agosto de 1969. Pois bem: a partir do momento em que ela foi encontrar esse senhor que tinha negócio com meu pai, a vida dela se complicou. 

 

Por quê? 
Eu acho que eles almoçaram juntos, ele devia ser um representante de produtos farmacêuticos, e quando minha irmã saiu de lá esqueceu os óculos. Os óculos dela eram necessários, porque ela possuía uma séria infecção de toxoplasmose no olho direito, e estava tomando altíssimas doses de corticoide. Então ela não podia ficar sem os óculos escuros. Então, depois que ela saiu de lá, ligou pra esse senhor e disse “por favor, eu preciso dos meus óculos, mande entregar no endereço assim, assim, porque eu não posso ficar sem eles”. Nessa mesma noite, muito tarde, às 11 e tantas da noite, bateram na porta, ela imediatamente pensou “é o rapaz trazendo os óculos”. Abriu a porta, entraram quatro policiais armados e dali a levaram para a prisão. Isso foi na época em que havia a negociação da troca do embaixador americano Elbrick, sequestrado, por prisioneiros políticos.  

 

Eloá estava com quantos anos na época?

Vinte e dois anos. 

 

Ela foi acusada de quê?
Oficialmente, ela não foi acusada de nada. Ela não pertencia a grupo armado, ela não estava aqui fazendo política. Antes da sua prisão, ela havia visitado um lugar histórico do Recife, comprou livros didáticos, que depois os policiais viram e disseram que aquilo só podia ser coisa política. 

 

Material subversivo, como eles diziam. 
Ah, mas eram livros didáticos, do curso secundário. Então ela ficou na prisão vários dias, e meus pais já estavam preocupadíssimos em Minas. Quando meu pai recebeu uma carta, que eu encontrei muitos anos depois. Essa carta chegou a meus pais, com endereço certo, avisando por exemplo, “não sei se está certo o seu nome e endereço, mas se por acaso for sua filha, tome providência”. E depois, a carta disse: “ela se acha sem finanças, sofrendo assim as piores humilhações. 

 

Ela ficou presa e torturada?
Ela era psicologicamente torturada, porque muitas vezes ela disse que era levada para um pântano, colocavam capuz e botavam revólver na cabeça, ameaçando explodir o seu crânio. E havia também outros momentos em que ela ouviu as falas dos policiais: “mas não é essa moça, a outra loura, e essa é morena”. E isso durou dias e dias. Ela esteve presa na Secretaria de Segurança Pública, no Dops. Presa incomunicável. E o remédio que ela precisava tomar para os olhos foi suspenso bruscamente. A cortisona tomada não podia parar. Então ela acumulou água no corpo. Ficou enorme de gorda, porque o remédio teria que ser diminuído paulatinamente. 

 

Ela passou quantos dias presa?
Eu sei que a carta de uma pessoa avisando a prisão para o meu pai, chegou em setembro. Então, demorou pelo menos um mês. 

 

Quando ela saiu da prisão, houve alguma justificativa? 
Não, Quando recebeu essa carta. meu pai saiu do interior de Minas, foi para o Rio de Janeiro, de lá veio para o Recife. E foi na prisão visitá-la. Agora, eu tenho que mostrar para o senhor trechos do diário do meu pai, onde eu consegui a informação. Nesse diário, ele conta que veio, encontrou com esse senhor com quem mantinha negócios de produtos farmacêuticos, visitaram a Secretaria e num momento depois, ele recebeu a notícia do chefe da Secretaria de Segurança Pública dizendo que a minha irmã havia desmaiado. Então depois disso, o meu pai conseguiu tirá-la e levou-a para um hotel. Um dia depois, ele a levou para o Rio. 

 

Onde foi que Mércia Albuquerque cruza o caminho da sua irmã? 
Nas anotações que eu fiz, a minha irmã descreve que estavam todos os presos numa sala enorme, com as janelas fechadas, incomunicáveis, e aí ela ficava sempre paralisada numa cama de lona, e Mércia chegou depois. Mas a presença dela foi carinhosa, foi uma presença amiga, foi uma presença que impactou a minha irmã. Mércia foi uma pessoa com quem ela podia ter confiança, E minha irmã muitas vezes falava muito de Mércia, quando escrevia. Então Mércia nunca saiu da minha memória, e o seu texto confirmou. 

 

Desde que defendeu Gregório Bezerra em 64, Mércia era a primeira pessoa que os perseguidos ou familiares de presos políticos procurava no Recife. 
Então quando eu vi o nome de Mércia, eu me disse “é agora!”. Eu tenho que continuar a pesquisar na internet. Escrevi para os editores do Brasil 247 e do Vermelho, mas eles não sabiam o seu endereço físico. Então o tempo passou, e um dia estou lá de novo no Canadá, e aparece Mércia Albuquerque Ferreira. Eu falei “o quê?”. Era o Roberto Monte, no primeiro dia em que ele lançou a informação os livros dos diários dela. Então eu passei uma mensagem pra ele e ele respondeu no dia seguinte, emocionado, emocionadíssimo. Então ele confirmou que em 1969 Mércia esteve presa várias vezes. E minha irmã foi na época em que esteve aqui também. Então a única lembrança, a única pista disso tudo era o nome Mércia. Depois, apresentado o sobrenome. 

 

E você chegou a ela a partir daquele texto que escrevi sobre Tércia. 
Sim. Foi o artigo sobre Tércia.

 

O seu trabalho, a sua pesquisa está a meio caminho, Elizabeth. Mais do que começou. 
Sim, graças a toda essa informação. Nesse trabalho agora eu estou tentando apresentá-lo à Comissão da Verdade, porque antes, eu vou lhe dizer: quando houve um movimento acerca dos mortos, desaparecidos e mutilados da ditadura, eu estava no Brasil, eu e minha irmã vimos a notícia no jornal, e olhamos uma para a outra. Ela estava fora da lista.  Ela estava viva, apesar da cabeça estar num sobe e desce. Então foi uma coisa muito triste, ninguém sabia do que havia acontecido com ela. Então eu fiz uma promessa a ela e a mim mesma: de algum dia fazer o possível para o reconhecimento do terror que ela sofreu. (continua)

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