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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Ago21

Que Forças Armadas queremos?

Talis Andrade

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por Cristina Serra

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Além de golpistas e vocacionados para o ridículo – como foi demonstrado no desfile de tanques fumacentos e no treinamento em Formosa (GO) – generais bolsonaristas são também rematados mentirosos. Braga Netto, ministro da Defesa, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria Geral da presidência, confirmaram isso mais uma vez em depoimentos na Câmara dos Deputados.

Ambos mentiram ao negar a ditadura instaurada em 1964. O primeiro disse que houve um “regime forte”. “Se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui”. Braga Netto não consegue articular um raciocínio sem que esteja embutida uma ameaça. É um golpista raíz. 

Ramos disse que houve um “regime militar de exceção, muito forte” e que tudo é uma questão “semântica”. 

A ditadura matou, torturou, escondeu corpos, estuprou, perseguiu opositores, cassou mandatos, fechou o Congresso. Negar que houve ditadura ofende a honra e a memória de quem lutou pela democracia, os que sobreviveram e os que foram assassinados. Isso não é “semântica” nem “narrativa”. São fatos. É verdade histórica.  

Completa o trio de mitômanos o general Augusto Heleno, da Segurança Institucional, pregoeiro do “papel moderador” das Forças Armadas em situação de crise entre os poderes, como disse em entrevista. Papel moderador é outra mentira que só existe nas mentes delirantes desses generais que exalam naftalina de seus ternos mal-ajambrados. 

O general disse ainda outra frase, mais preocupante, ao comentar o ferro-velho apresentado na Esplanada: “Para atuar na garantia da lei e da ordem é um material perfeitamente compatível”. Ou seja, o equipamento é para ser usado internamente, nas controversas GLOs, pois o inimigo está aqui dentro. Declarações como essa reafirmam a origem, tradição e síndrome de capataz do exército brasileiro. Mais de trinta anos depois do fim da ditadura, os fardados não encontraram seu lugar na democracia. Essa reflexão precisa ser feita pelo poder civil: que Forças Armadas queremos?

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11
Ago21

Ameaça golpista: vamos rir do ridículo. Mas sem deixar a vigilância jamais!

Talis Andrade

 

 
Fabiano Leitão Duarte, conhecido como "tromPetista", foi preso na manhã desta terça, depois de tentar impedir o desfile de veículos blindados da Marinha, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Foi liberado depois de assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência Imagem: Evaristo Sá/AFP
As redes sociais não perdoam o desfile do golpismo barnabé em Brasília. A tônica é o sarcasmo. E os brasileiros fazem muito bem em recorrer à piada. Perder o humor é sofrer duas vezes. Eu mesmo afirmei no Twitter que o maior risco, até agora, diz respeito ao desequilíbrio climático, né? Nunca se emitiu tanto carbono por nada. Tome fumaça preta em Brasília! Que o humor nos livre do sofrimento adicional. Mas sem perder a esperteza jamais.
 
Ocorre que o que se deu em Brasília nesta terça-feira está longe de ser uma brincadeira. Ainda que a coreografia e a mímica sejam patéticas, estamos falando de joguinhos perigosos, protagonizados por irresponsáveis espalhados em várias áreas do Estado Brasileiro.
 
O NÚMERO UM
 
O maior de todos os irresponsáveis, por óbvio, é o presidente da República, este ser politicamente repugnante, que combina as muitas faces distintas do atraso. Não representa apenas a ignorância em sentido lato -- é impressionante não se conseguir coligir, sei lá, cinco frases decentes de um político que está na vida púbica há 30 anos. Ele é também a expressão da estupidez em sentido estrito. Foquemos um assunto qualquer, colhido ao acaso, e o submetamos a seu escrutínio. Ao ser judicioso, ele dará um jeito de afirmar o que sabe de antemão ser repugnante, obscurantista, detestável.
 
Temos um presidente que, visivelmente, sente prazer em afrontar o que desconfia ser o consenso civilizatório sobre qualquer tema. Explica-se: muitas vezes, tal consenso nasce de variáveis complexas, aparentemente contraditórias, que não oferecem uma resposta imediata.
 
Querem um exemplo? Tomemos o caso da violência urbana. Numa primeira mirada, parece razoável supor que se elimina a violência eliminando-se os violentos. E pronto! O salto imediato é passar a defender grupos de extermínio, como Bolsonaro já fez quando deputado. Daí a descarada simpatia das milícias do Rio — e de toda parte — por esse governo. Explicar que a repressão ao crime é a reação imediata, mas que é preciso atacar as causas estruturais da violência restringe em muito a audiência. E o populismo vai sempre optar, como faz o "Mito", pela resposta simples e errada para problemas difíceis, na equação celebrizada pelo jornalista americano H. L. Mencken.
 
NÃO ESTÁ SÓ
 
Mas, como resta evidente, ele não está só nessa marcha do atraso. Braga Netto, o ministro da Defesa, é o homem que saiu da chefia do Estado-Maior do Exército para a Casa Civil, permanecendo um tempo como general da ativa, migrando dali para o posto atual. Na pasta anterior -- e, às vezes, esquecemo-nos disto --, foi o homem que comandou os, digamos assim, esforços do governo federal no combate à Covid-19. É triste e constrangedor constatar, eu sei, mas ele era considerado um membro da nossa elite militar. E se nossa elite militar for essa?
 
Nada disso, em suma, é brincadeira. Podemos não ter, e acho que não teremos, um golpe à moda do antigo gorilismo latino-americano — uma das raízes do notável atraso político, econômico e social da região —, mas não se duvide de que Bolsonaro tem ao menos uma serventia: evidencia um problema que ainda não enfrentamos. O Brasil é hoje a única democracia do mundo em que os militares reivindicam abertamente a tutela sobre a sociedade civil.
 
Se, nos EUA, Mark Milley, o general mais poderoso da Terra, disse ao golpista um "Opa! Não ultrapasse a linha", por aqui, um capitão arruaceiro, banido do Exército — que chegou a especular sobre ações terroristas contra a própria Força —, seduz oficiais de alta patente intelectualmente despreparados. Misturam bolor ideológico — polarizações herdadas do século passado, transformadas em taras neste século — com interesses meramente corporativos, que se impõem a um país de miseráveis, dependentes ainda da distribuição de migalhas. E, sim, elas são necessárias porque podem representar a diferença entre uma dieta pobre e a fome.
 
Não se comportaram de maneira muito melhor setores consideráveis dos nossos endinheirados. Imaginaram que o ogro poderia, no poder, se comportar como um príncipe. Digo e repito: bem-aventurados todos os arrependidos da besteira que fizeram. Só não vale alegar ignorância. Devemos ser cordatos com todos os arrependidos — sem eles, Bolsonaro se elege de novo. Em nome do avanço civilizatório, porém, não podemos aceitar o argumento da ignorância: "Ah, eu não sabia que ele era assim..." Se, nas camadas oprimidas pela pobreza e pela ignorância, isso pode ser até aceitável, não venham as frações da elite que apoiaram um troglodita alegar desconhecimento de causa. E, claro, registre-se à margem: há quem o tenha escolhido para que fizesse rigorosamente o que está fazendo.
 
A NATUREZA DO PERIGO
 
É cômico aquilo a que se assistiu em Brasília? A palavra "tragicômico" define com mais precisão. Tem uma graça literalmente mórbida. Seria o caso de perguntar se a exibição de força estava, por exemplo, celebrando os quase 564 mil mortos por Covid-19, segundo os dados consolidados até esta segunda. Nenhuma potência estrangeira nos ameaça. Os nossos males estão aqui mesmo. Ainda que alguns lunáticos dessem um golpe, a aventura teria curta duração. O dinheiro grosso quebraria as pernas dos patetas. O perigo maior é mesmo a renitência do atraso.
 
O desfile desta terça foi liderado pela Marinha, que desenvolve o navio a propulsão nuclear com recursos que foram destravados pelo então presidente Lula, hoje a Nêmesis para parte considerável dos fardados, o que é absolutamente inexplicável a não ser em razão do mais odiento preconceito. Em muitas décadas, incluindo parte da ditadura militar, não há presidente que tenha sido tão generoso com as Forças Armadas.
 
O capitão que já evidenciou vocação terrorista quando no Exército e que hoje está na Presidência chegou a ter uma ideia: usar o caça Gripen para dar um rasante na Praça dos Três Poderes, o que quebraria os vidros do STF — e não só — para dar um susto nos ministros. Também os caças começaram a ser comprados na gestão Lula, e a operação foi concluída no governo Dilma, sob supervisão da Aeronáutica, a quem coube dar a palavra final.
 
A parada desta terça foi, sim, meio mequetrefe. Mas o Brasil está longe de ser um exemplo internacional de força miliar sucateada.Pode não ter condições de enfrentar os grandes na área bélica, mas é uma potência regional, convém não se enganar. O que torna o evento particularmente lastimável é que a exibição não buscava servir de advertência a forças estrangeiras: quis intimidar os nativos.
 
Em síntese, o PT — em último caso, era o que se estava esconjurando ali — deu às Forças Armadas o que elas têm hoje de mais moderno em termos tecnológicos.
 
Ocorre que o nosso maior atraso, aquele que realmente se expôs em Brasília nesta terça, é de natureza política, moral e ideológica. Deem uma calculadora que realiza apenas as quatro operações a um gênio, e ele realizará prodígios. Entreguem tecnologia de última geração a um ogro, e ele produzirá atraso.
 
Como se viu.
 
Vamos, sim, rir do ridículo. Mas sem deixar a vigilância jamais.
 

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01
Ago21

Convém perguntar-nos se não estamos já no estado de golpe

Talis Andrade

 

por Janio de Freitas 

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O desvario de Bolsonaro se propagou. Vive-se uma situação de maluquice institucional em que os juízes do Supremo Tribunal Federal passam a acusados, quem venceu a principal eleição condena-a por fraudulenta, o maior falsário de verdades no país tem o cargo de presidente, o general encarregado da Saúde dá condições para a morte prematura de centenas de milhares, a grande questão nacional é a derrubada ou permanência do sistema que encerrou mais de um século de roubalheira eleitoral.

Confrontam-se agora os adeptos e os críticos das máximas criadas por ninguém menos do que o ministro do nazismo Joseph Goebbels. Haja desatino.

Os inúmeros protagonistas dessa situação maluca, ou a impulsionam, ou se mantêm na inércia dos dementes dopados de velhos hospícios. Aos que veem o mundo de baixo para cima, é prudente não procurar nos poderes amalucados onde se encontram os sensos de vergonha, ridículo, dever e compromisso, presente e futuro.

Os conluios do autoritarismo ambicioso e do imobilismo acovardado ou interesseiro chegam, sempre, a pontos de ruptura decorrentes dos seus próprios excessos. É o que faz a rebelde CPI da Covid no Senado. De início desacreditada por muitos, hoje com saldo admirável de desnudamentos da farsa bolsonarista-militar, a CPI tem induzido muito da correção informativa visível nas sondagens eleitorais. Algo semelhante é a resistência à volta do voto impresso.

Os bolsonaristas precisaram de uma tramoia para adiar a votação preliminar. Ficou para 5 de agosto, sendo o motivo básico da repentina substituição do general Luiz Eduardo Ramos, na Casa Civil da Presidência, pelo senador Ciro Nogueira. Aí está o primeiro teste, na nova função, desse presidente do PP e político de natureza camaleônica. Há pouco mais de um mês, seu partido integrou as 11 siglas que se coordenaram em defesa da urna eletrônica.

No STF e TSE, repousam opções diante de olhos que as conhecem e não as querem ver

saraivada de mentiras e agressões verbais de Bolsonaro ao Supremo, ao Tribunal Superior Eleitoral e a magistrados, na noite de quinta-feira (29), está em suspense para definir-se como ponto de ruptura ou não. Por mais aborrecido que lhes pareça, esses ministros judiciais foram postos agora, por Bolsonaro, em situação: tudo indica que chegaram ao último espaço antes da desmoralização indelével. Sabem disso. Bolsonaro espera.

Está previsto para esta segunda-feira (2) um pronunciamento do Judiciário. Se para mais considerações, o Supremo menos perderia com o silêncio. O ridículo já mudou de lado, dos bolsonaristas para o Congresso, onde só a CPI da Covid tem sido leal à Constituição, e para os tribunais curvados às agressões de Bolsonaro. E já há o trânsito do ridículo para o vergonhoso.

Toda expectativa de conduta aceitável em Bolsonaro é gerada por demência filiada à dele ou por ganância e avareza em níveis também demenciais –o que é a mais perceptível contribuição para os 48% de aprovação a Bolsonaro no empresariado. Não há possibilidade de que alguma lucidez, algum bom senso, alguma boa qualidade humana e cívica tolere a desgraça que é imposta ao país. O de hoje, tão cruel com a maioria, e o que será vivido por nossos filhos e netos.

As portas abertas do Congresso não significam que lá dentro vigore o exercício real das responsabilidades com a preservação do regime constitucional democrático. No Supremo e no TSE, guardiães de amarelecidos recursos contra o cerco de Bolsonaro às instituições da democracia, repousam possibilidades diante de olhos que as conhecem e não as querem ver, por comodismo ou por temor.

Convém perguntar-nos se não estamos já no estado de golpe.

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15
Nov20

Custo que o Exército viria a pagar para ter Bolsonaro foi previsto, dito e escrito

Talis Andrade

 

Por Janio de Freitas

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Os níveis mais altos de militares do Exército, incluídos os reformados-mas-não-muito, estão sob interrogações sem respostas e, por isso, possíveis inquietações mal definidas. Nada indica, no entanto, o sentido adverso a Bolsonaro que exala dos comentários sobre contrariedade de altos estrelados com seu capitão-comandante. Na falta de indícios resistentes, a onda parece seguir a mesma pressa dedutiva que há pouco criou um Bolsonaro aderido à moderação.

​Não há sinais de insatisfação no Exército com o governo. Nisso se tem confirmado a comunhão de visões entre Bolsonaro e os referidos militares do Exército. Mesmo nas práticas que mais choquem o mundo da cidadania, como a entrega da Saúde e da vigilância farmacológica a militares sem a formação específica. Ou a destruição da riqueza natural, sobre ela recaindo a recente advertência aprovadora do general-vice Hamilton Mourão: “A eleição [nos EUA] não muda a política ambiental”.

O eventual desagrado é com os transbordamentos de cretinismos, haja ou não discordância. O Exército, que formou esse capitão hoje mais representativo que qualquer general, tem pago caro em desprestígio por cada asnice de Bolsonaro. E lá é natural que se perguntem o que fazer.

O desgaste já é em nível de ridículo. Quem, no grupo de militares palacianos, tentou conter um pouco a produção bestial, teve como resultado a demissão grosseira, caso dos generais Santos Cruz e Rêgo Barros. Ou rompeu relações, como o indemissível Mourão. Os demais conduzem-se como acovardados. Para essas pessoas que se pensam admiráveis, poderosas, distinguidas pela força da arma, responsáveis pelo país que nem entendem, verem-se até em anedótico desafio a militares de verdade, convenhamos, há de doer. Mourão nem percebeu que seu remendo usual também ficou grotesco: a pólvora contra os EUA “foi retórica”. Não, foi mesmo insuficiência mental.

Nenhum dos incomodados sabe como deter a corrosão. E todos sabem que vai continuar. Com risco de chegar ao paroxismo de um impeachment atrasado, o capitão-comandante e seus subordinados generais, almirantes e coronéis a sair, ou melhor, marchar pela porta da cozinha. Todos pisando na imagem do Exército.

O Exército, que formou esse capitão, tem pago caro em desprestígio por cada asnice do presidente

O vice Mourão tenta transferir as responsabilidades: ”Política não pode entrar no quartel”O Exército não foi buscado por político algum, nenhum partido, por ninguém. A política, sim, foi invadida pelo Exército na pessoa do seu então comandante, Eduardo Villas Boas, que interveio no processo eleitoral, com disposição ostensiva, por ao menos duas vias. Uma, a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal, para o impedimento eleitoral de Lula. Outra, ao patrocinar, na condição de comandante do Exército e sempre no cenário do seu gabinete, a candidatura presidencial, a violência e a desordem mental de um excluído das Forças Armadas, elevado a símbolo político dos militares. O custo que o Exército viria a pagar para ter Bolsonaro, com um governo militarizado por generais e coronéis, foi previsto, dito e escrito. Por civis. Quem não previu o óbvio, muito menos preverá o desfecho.

O que é o que é Luciano Huck reapareceu. Era presença permanente nos jornais até que Bolsonaro começou a mostrar a que veio. Huck preferiu sumir. Não teve nem uma só palavra a dizer sobre as barbaridades sucessivas de formação e ação do governo. Vieram a pandemia, as demissões na Saúde, a propaganda de Bolsonaro contra a prevenção, o confinamento, o lockdown, os encerramentos no comércio e na indústria, a penúria da falta de trabalho — Huck não teve nem uma só palavra a dizer. Agora, maré mais tranquila, reaparece. Sem uma só palavra sobre o que a população passou e passa ainda. Isso é um pretendente à Presidência? Huck acha que é. Mas, na verdade, é apenas um oportunista.

Em tempo

O carioca desta vez parece decidir-se pelo senso prático. Não quer voto ideológico nem sequer partidário, deduz-se das pesquisas. Quer votar pela cidade, no ex-prefeito que lhe deu muitas realizações importantes, sem se ocupar de política, ou na delegada séria, determinada, deputada alheia à politicagem que é a ocupação no ramo. Bem, entre eles está o prefeito Crivella, mas aí o assunto é mais de igrejas e fiéis que de urnas e eleitores. Se confirmar a aparente intenção, a cidade pode salvar-se. Do contrário, paciência.

O crime

Estudo do IBGE: o Brasil ocupa o nono lugar entre os países mais desiguais do mundo.

14
Nov20

A pólvora do Brasil e Stanislaw Ponte Preta

Talis Andrade

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O diário do ridículo brasileiro para todo o mundo registrou esta semana a fala do capitão na presidência: “Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”.

Ora, essa fala se viu desmentida e desmoralizada em notícia da Folha de São Paulo: segundo dados levantados pela IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão ligado ao Senado, foram investidos R$ 12,8 bilhões em defesa no ano passado, de um orçamento total de R$ 116 bilhões da pasta. O resto do orçamento foi R$ 50 bilhões de pagamento de militares inativos e pensionistas. E mais R$ 28,6 bilhões para salários dos militares na ativa.

Notem que para investimento em armas houve pouco mais que 10% do orçamento. E não exatamente para pólvora, porque o dinheiro foi diluído em compra de helicópteros, investimentos na estatal Empresa Gerencial de Projetos Navais, projeto de compra de caças e sistema de monitoramento de fronteiras. Ou seja, pólvora mesmo que é bom, o que temos mais é saliva.

O mais curioso é que a vergonha nacional no poder foi antecipada há mais de 50 anos pelo gênio de Stanislaw Ponte Preta. Nosso trabalho agora é lembrar o gênio de Stanislaw nas linhas a seguir:

“Esta historinha ocorreu no Recife, onde o número de boateiros, desde o movimento militar de 1.° de abril, cresceu assustadoramente.

Falam que havia um sujeito tão boateiro, que chegava a arrepiar. Onde houvesse um grupinho conversando, ele entrava na conversa e, em pouco tempo, estava informando: “Já prenderam o novo Presidente”, “Na Bahia os comunistas estão incendiando as igrejas”, “Mataram agorinha o Cardeal”, enfim, essas bossas.

O boateiro encheu tanto, que um coronel resolveu dar-lhe uma lição. Mandou prender o sujeito e, no quartel, levou-o até um paredão, colocou um pelotão de fuzilamento na frente, vendou-lhe os olhos e berrou:

– Fogoooo!!!

Ouviu-se aquele barulho de tiros e o boateiro caiu desmaiado.

Sim, caiu desmaiado porque o coronel queria apenas dar-lhe um susto. Quando o boateiro acordou, na enfermaria do quartel, o coronel falou pra ele:

— Olhe, seu pilantra. Isto foi apenas para lhe dar uma lição. Fica espalhando mais boato idiota por aí, que eu lhe mando prender outra vez e aí não vou fuzilar com bala de festim não.

Vai daí o coronel soltou o cara, que saiu meio escaldado pela rua e logo na primeira esquina encontrou uns conhecidos:

— Quais são as novidades? — perguntaram os conhecidos.

O boateiro olhou pros lados, tomou um ar de cumplicidade e disse baixinho:

— O nosso Exército está completamente sem munição”.

Como veem, além de gênio, Stanislaw Ponte Preta era um profeta.

 

14
Nov20

“Canalhas”, diz Cristina Serra a quem contribuiu para que Bolsonaro chegasse ao poder

Talis Andrade

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247 - A jornalista Cristina Serra observa que muitos dos que apoiaram a chegada de Jair Bolsonaro ao poder “agora fingem espanto cada vez que ele aumenta a voltagem das barbaridades que despeja de sua boca pestilenta. Teve até general escrevendo cartinha lamuriosa. Sentem-se traídos? Bem feito”.

“Bolsonaro arrasta o país ao ridículo mundial junto com sua figura grotesca, capaz de comemorar a interrupção dos testes da vacina contra a Covid e de lançar suspeitas infundadas sobre a imunização; aparelhar a Anvisa e destruir o que resta da credibilidade do órgão regulador, num momento em que a pandemia está longe de ser controlada. Isso é um crime contra o país”, diz a jornalista em sua coluna deste sábado (14) na Folha de S. Paulo.

“No Amapá, o clima é de convulsão social em consequência do apagão de energia. Há mais de dez dias, a população se tornou refém da inépcia da empresa transmissora e das autoridades, em todos os níveis. Abandono não é novidade nos confins da Amazônia. E qual o plano dos fardados para a região ? Controlar ONGs e levar embaixadores para um passeio”, destaca.

“Bolsonaro nos legará um farrapo de país. Na mesma cerimônia, disse: "Não estou preocupado com minha biografia, se é que tenho biografia". Nisso, ele tem razão. Bolsonaro e família não têm biografia. Sua história será contada nos arquivos policiais”, diz Cristina no texto.

“Aos que contribuíram para o estado de coisas que levou à sua eleição, aos que o naturalizam como figura normal do jogo democrático, aos que lhe dão sustentação política, evoco Tancredo Neves em 1964. Canalhas, canalhas, canalhas!”, finaliza. 

 
01
Nov20

Firmeza de Mourão não é a de opinião pessoal

Talis Andrade

Entrada repentina do vice nos temas da vacina e do 5G indica a voz que fala mais grosso

 

por Janio de Freitas /Folha 

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O firme pronunciamento do vice Hamilton Mourão, contraposto a afirmações incisivas de Bolsonaro, suscita duas interpretações, mas é provável que as duas sejam uma só, com duas roupagens. E, como preliminar, note-se que o dito pelo vice tem mais do que o sentido de confronto, estendendo-se a importante inversão nas relações externas.

Bolsonaro vetou a compra, em qualquer tempo, de vacina chinesa contra a Covid-19: “Não vai haver compra, ponto final”. Antes, usou do mesmo tom definitivo a propósito do sistema 5G, que revolucionará as possibilidades de comunicações. Atrasados na criação do seu sistema, os Estados Unidos de Trump não admitem que o Brasil adote o sistema chinês, o qual, além da vantagem em tempo, evitaria custosas mudanças nos equipamentos de telecomunicações usados aqui, com muitos componentes chineses.

No seu estilo sucinto e de uso das entrelinhas, Mourão antecipa-se a novidades prenunciadas na campanha eleitoral americana. Joe Biden já indicou mais de uma vez que, se eleito, esvaziará a tutela imposta pelos Estados Unidos na América Latina. Com isso, aos países e só a eles caberia a escolha de suas relações comerciais e políticas. Não é o desejado por Bolsonaro, servil a Trump: “Quem vai escolher sou eu. Sem palpite por aí”.

O general-vice, porém, é claro: desde que asseguradas “soberania, privacidade e economia”, qualquer produtor de sistema 5G estará apto a disputar a adoção brasileira. O que, é claro, incluirá o sistema chinês indesejado por Bolsonaro.

A firmeza de Mourão não é a de opinião pessoal. Também não é a do vice de um governo que tem posição pública oposta.

Na competição política com João Doria em torno da vacina Sinovac, chinesa, a irracionalidade natural de Bolsonaro está perdendo. Mourão tanto parece dar-lhe um socorro, como parece aplicar-lhe um safanão excludente: “É lógico que o Brasil vai comprar o imunizante. O governo não vai fugir disso aí”, dos 46 milhões de doses previstos de início.

O passado guarda vários casos de divergência embaraçosa entre Bolsonaro e Mourão. As diferenças na comparação com as atuais começam no ambiente. O que lá atrás eram previsões, hoje é o notório desgaste do Exército, com os papéis deploráveis de vários do seus generais instalados no governo.

São exibições ora de arrogância e desatino, ora de ignorância e servilismo, diversas vezes de pusilanimidade sob ofensa e desmoralização. Isso tudo como personagens de um governo imbecilizado, destruidor, ridículo no fanatismo, negocista com o patrimônio nacional, sem projeto e sem rumo, antissocial e mortífero.

A interpretação de que Hamilton Mourão veio fortalecer as críticas dos generais Santos Cruz, mais diretas, e Rêgo Barros é cabível. Até óbvia. Mas a entrada repentina de Mourão em dois temas de grande relevância atual, em ambos levando Bolsonaro à beira do abismo, não é voz de decepções, arrependimento ou ressentimento. É voz mais grossa.

De modo diferente do planejado sob indução e orientação do general Eduardo Villas Bôas —quando, apesar de quase invalidado por doença neuromuscular, comandava o Exército porque visto como democrata—, estamos vendo os passos iniciais de um governo mais sob decisões e comando de militares do Exército do que de Bolsonaro e seu grupo.

O títere do plano, o presidente-laranja, fracassa. Se deterá os passos adversários, logo se verá. Enquanto isso, é justo reconhecer que o tropeção dessa aventura antidemocrática se deve tanto a Bolsonaro quanto aos generais ineptos que o circundam.

Dois coadjuvantes

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A reunião de Bolsonaro com advogados de seu filho Flávio, no crime das “rachadinhas”, contou com duas presenças inadmissíveis: Augusto Heleno Pereira e Alexandre Ramagem. O general do Gabinete de Segurança Institucional e o delegado da Polícia Federal que dirige a Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Dois cargos que proporcionam meios múltiplos de interferências em investigações policiais, em conduta de envolvidos e em ação do Ministério Público.

O procurador Lucas Furtado, frequente condutor de questões importantes no Tribunal de Contas da União, pediu que o tribunal investigue o uso de meios governamentais para favorecer o complicado Flávio Bolsonaro. Mas são necessárias providências também em outros âmbitos.

Bolsonaro não chamou assistentes jurídicos. Logo, Augusto Heleno e Ramagem estiveram na reunião em razão dos seus cargos, usando-os em ato contra a comprovação de crimes graves como o de corrupção para apropriação de dinheiro público.

rachadinhas metade fica com os sabidos bolsonaro .

 

 

08
Out20

Moro agora vê o mito como 'criatura do pântano'

Talis Andrade

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por Josias de Souza

Sergio Moro migrou do pró-bolsonarismo inocente para o antibolsonarismo primário. Na primeira posição, o ex-juiz da Lava Jato aceitou todas as presunções de Bolsonaro a seu próprio respeito, inclusive a de que seria um protótipo dos bons costumes. No segundo papel, o ex-ministro da Justiça simula espanto com a perversão do ex-chefe sem se dar conta de que flerta com o ridículo.

Num dia em que a hashtag #JairCalheirosBolsonaro escalou o rol das mais citadas do Twitter, o presidente da República declarou, em solenidade no Planalto: "É um orgulho, uma satisfação que eu tenho, dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo."

Horas depois, o ex-símbolo da República de Curitiba plugou-se à internet para postar uma resposta no Twitter. Sem citar Bolsonaro, anotou: As tentativas de acabar com a Lava Jato representam a volta da corrupção. É o triunfo da velha política e dos esquemas que destroem o Brasil e fragilizam a economia e a democracia. Esse filme é conhecido. Valerá a pena se transformar em uma criatura do pântano pelo poder?"

Moro não chegou a soar original. Apenas ecoou o ex-colega Paulo Guedes, que costuma definir o Estado brasileiro como um lugar "onde piratas privados, burocratas corruptos e criaturas do pântano político se associaram contra o povo brasileiro." A apropriação não é casual. Foi Guedes quem procurou Moro, em 2018, para sondar o seu interesse em assumir o Ministério da Justiça.

Sergio Moro
@SF_Moro
As tentativas de acabar com a Lava Jato representam a volta da corrupção. É o triunfo da velha política e dos esquemas que destroem o Brasil e fragilizam a economia e a democracia. Esse filme é conhecido. Valerá a pena se transformar em uma criatura do pântano pelo poder?

 

Em dezembro de 2018, dias antes de se acomodar na cadeira de ministro, Moro viu o caso da rachadinha chegar ao noticiário. Assistiu ao esforço de Bolsonaro, ainda como presidente eleito, para explicar um depósito de R$ 24 mil feito pelo faz-tudo Fabrício Queiroz na conta de sua mulher. Alegou que o dinheiro tinha relação com uma dívida de R$ 40 mil de Queiroz com ele. Não exibiu documentos.

Nessa mesma época, Flávio Bolsonaro veio à ribalta para declarar que havia conversado com seu operador de rachadinha. Dera-se por satisfeito: "Ele me relatou uma história bastante plausível e me garantiu que não há nenhuma ilegalidade." O filho Zero Um do presidente recusou-se a reproduzir para os jornalistas o enredo "plausível". Ficou no ar a impressão de que a história de Queiroz era uma fábula, do tipo que começa assim: "Era uma vez..."

A despeito do cheiro de enxofre, Moro manteve inalterado o plano de trocar 22 anos de magistratura pelo cargo de ministro da Justiça. Ralou um longo processo de desmoralização. Saiu do governo chutando a porta e denunciando uma trama de Bolsonaro para converter a Polícia Federal num aparelho de proteção da primeira-família e dos seus amigos.

Moro demorou um ano e quatro meses para perceber que Bolsonaro era Bolsonaro. Hoje, os depósitos da família Queiroz na conta da primeira-dama Michelle já somam R$ 89 mil. E nada de explicação.

Não é a hipocrisia de Bolsonaro e o seu sucesso entre os pró-bolsonaristas ingênuos que espantam. A hipocrisia pelo menos é uma perversão planejada. No caso de Bolsonaro, o disfarce ético era armadilha para capturar a indignação nacional contra a corrupção. O que assusta mesmo é a impressão de que os adoradores do personagem não estão sendo cínicos. 

Espanta ainda mais que Sergio Moro não perceba o ridículo a que se expõe ao potencializar a suspeita de que, por algum tempo, embarcou na caravana dos que acreditam mesmo que a missão especial de Bolsonaro na Terra lhe concede uma isenção tácita para exercer o ineditismo de ser sistema e antissistema ao mesmo tempo. É no mínimo constrangedor que, depois de enviar para cadeia o pedaço apodrecido do status, Moro tenha se aliado ao quo.

O risco da pessoa que se engalfinha com uma criatura do pântano depois de viver com ela no brejo é a plateia não conseguir distinguir quem é quem. 

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Nota deste correspondente: Paulo Guedes foi parar em Curitiba, para negociar os cargos de ministro da Justiça e ministro do STF para Moro, e fez parte do trato que a Lava Jato ficaria longe das negociatas de Paulo Guedes (fundos de pensão)  e da família Bolsonaro. Ninguém vira intocável de graça. 

 

31
Jul20

Ninguém está acima da lei. Ninguém?

Talis Andrade

 

por Antônio Carlos de Almeida Castro

- - -

“A casa que eu amei foi destroçada
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se
não é minha”
Sophia de Mello Breyner

 

Em 17 de março de 2014, quando foi deflagrada a operação Lava Jato, fui procurado por Alberto Youssef para advogar para ele. Estive em Curitiba e acabei desenvolvendo uma relação de respeito com ele. E tomei a decisão de deixar o caso quando a Procuradoria, de maneira vulgar e arbitrária, exigiu que Alberto Youssef desistisse de um habeas corpus que eu impetrara no Superior Tribunal de Justiça.

Era desistir do HC ou ele não conseguiria assinar a delação e obter seus benefícios. Eu estava em Paris quando recebi a notícia da exigência da troca. Senti náusea ao me deparar com a ousadia e arrogância desta força-tarefa que já se anunciava autoritária. Desci ao Café de Flore e desisti, em uma dura petição, do HC e do cliente.

Lembrei-me de Mia Couto, no Versos de Prisioneiro 3:

“Não me quero fugitivo.
Fugidio me basta.
(…)
Eu falo da tristeza do voo:
A asa é maior que o inteiro firmamento.
Quando abrirem as portas
eu serei, enfim,
o meu único carcereiro.”

Ressaltei posteriormente a ele, Youssef, mas pessoalmente, que ele tinha, óbvio, o direito de fazer a delação e que quem estava abusando dele eram os procuradores. O fato de exigirem que um preso desistisse de um habeas corpus que tratava da liberdade para conseguir a delação atingia, profundamente, tudo o que eu entendia e entendo sobre direito, sobre ética, sobre Justiça. E isso já anunciava quem era o grupo de Curitiba.

Como dizia Rainer Maria Rilke, que certamente os integrantes desse grupo nunca leram:

“Mas a escuridão tudo abriga
figuras e chamas, animais e a mim,
e ela também retém
seres e poderes.
E pode ser uma força grande
que perto de mim se expande.
Eu creio em noites”.

Uma força-tarefa coordenada por um juiz sem escrúpulos e com um projeto de poder político.

Ao longo dos anos tive 25 clientes na operação Lava Jato. E fui acompanhando os acúmulos de abusos, de arbitrariedades, de absurdos e de indignidades que este pessoal de Curitiba fazia em nome de um pretenso combate à corrupção.

Resolvi correr o país para discutir os excessos do grupo político da Lava Jato. Fui a todos os cantos, falei para todas as plateias, expus-me a todos os debates. Durante anos, algumas vezes por mês, eu me dispus a enfrentar o que eu considerava ser uma hipótese de instrumentalização do Judiciário e do Ministério Público para um objetivo político.

Recorro ao meu amigo Boaventura Souza Santos:

“Quando a escuridão é espessa
e não se escapa entre os dedos
gosto de apanhar uma mancheia
e levar até à luz para ver melhor

regresso feliz de mãos vazias
a escuridão afinal não é a tempestade fatal
o abismo medonho a avalanche final
é apenas o que não se pode ver”

Sempre, e sempre, fiz questão de começar minhas críticas aos excessos com um forte reconhecimento aos enormes êxitos alcançados pela operação Lava Jato, no seu início. O desnudar de uma corrupção capilarizada era uma vitória e um avanço.

A politização e a completa perda de objeto em nome de um projeto de poder, porém, tinha que ser devidamente enfrentado. Em janeiro de 2015, escrevi na Folha de S.Paulo um artigo: “Que país queremos?”, no qual eu já alertava que o combate à corrupção só poderia ser feito dentro dos limites das garantias constitucionais. E o poder da Lava Jato foi crescendo proporcionalmente aos seus abusos.

Com o apoio da grande mídia, e se sentindo semideuses, perderam o pudor. Já não mais se escondiam. Os membros da força-tarefa agiam como delinquentes juvenis a rir de todos. Pueris. Mesquinhos. Banais.

Envergonhavam a todos que têm alguma noção de ridículo; mas quem é ridículo não sabe que é ridículo ou, às vezes, nem o que é ser ridículo. Bregas incultos com outdoor de promoção pessoal, power point, palestras em cultos, pregações moralistas, viagens para Disney à custa do erário. Enfim, um show de horrores de corar mesmo os mais adeptos da República de Curitiba que ousasse ter uma mínima noção de vida em sociedade.

Só nosso Castro Alves para nos representar:

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?
[…]
Astros! Noites! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!”

O projeto de poder se sofisticou. Com a chegada do chefe no Ministério da Justiça o plano ia de vento em popa. O grupo que tinha gestado o governo autoritário e genocida do atual presidente estava no poder. Mas, claro, faltava ser o poder. Não depender do lunático que haviam elegido.

Mesmo sem nenhuma preocupação em elaborar projetos para o país, o bando avançava. Mas os abusos foram saindo de controle. E os absurdos se avolumando. E o bando se mostrando absolutamente fora de si, dando uma clara sensação de que haviam sido pegos em flagrante. Um desespero começou a se cristalizar. Típico de quem sabe bem o que fez nos verões passados.

Agora, recentemente, em uma live no canal do Youtube promovida pelo Grupo Prerrogativas, o atual procurador-geral expôs, com segurança e sem ódio, uma série de questões gravíssimas, inclusive afirmando que "A hora é de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure". 

E como exemplos desse combate à corrupção desenfreado, que vem sendo feito fora dos ditames legais e constitucionais, o procurador-geral da República trouxe dados e informações estarrecedores:

- a força-tarefa de Curitiba possui 350 terabytes em arquivos contendo dados pessoais de 38.000 pessoas. Isso equivale a um arquivo com tamanho 8 vezes maior que o arquivo geral do Ministério Público Federal, que tem 40 terabytes. Neste ponto, como não se sabe como foram escolhidas essas milhares de pessoas, os dados acabam formando uma grande “caixa de segredos” usada para “chantagem e extorsão” pelos membros da força-tarefa. Daí a necessidade de compartilhar os dados de uma unidade institucional com a Procuradoria Geral da República, como defendido pelo Dr. Augusto Aras;

- existem cerca de 50.000 documentos “invisíveis” que foram enviados à corregedoria para apurar o trabalho dos integrantes do Ministério Público Federal. Foi apurado que havia uma “metodologia de distribuição personalizada” em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo, onde os membros escolhiam os processos. O procurador-geral ainda ressaltou que “é um estado em que o PGR não tem acesso aos processos, tampouco os órgãos superiores, e isso é incompreensível”;

- as listas-tríplices que eram elaboradas com os nomes dos candidatos à PGR escolhidos após votação pelos procuradores eram fraudáveis e, segundo o procurador-geral, já existem @ relatórios de perícia que confirmam tal fato.

Assim passa a ser evidente o motivo do sentimento de pânico que assomou este grupo estranho.

Não é engraçado imaginar que dentre estes 38.000 devem existir vários dos comparsas ou cúmplices? Que dentre os protegidos vários podem ser agora expostos? Será que eles vão pagar 1.000 outdoors para publicar pedidos de desculpas? E quando forem processados, vão querer um juiz como o chefe deles? Se condenados, vão se entregar para serem presos assim que o Tribunal de 2ª Instância confirmar a condenação? E vão querer serem expostos, com as famílias, nesta mídia que os incensou? E vão se sentir pequenos quando as filhas e mães forem denunciadas para eles se fragilizarem? E a caixa de segredos, será aberta em praça pública com a cobertura das grandes redes de comunicação?

E enfim, massacrados, violentados, aterrorizados, difamados, estrangulados financeiramente e em suas liberdades, fariam delações premiadas de verdades e mentiras bem contadas e combinadas.

Ou seja, terei que recorrer de novo a Pessoa na pessoa de Álvaro de Campos no Poema em linha reta: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”. Estes medíocres, óbvios, fazem-me até repetir o poema…

20
Nov19

A "marcha" diante da estátua da Havan

Talis Andrade

mulheres fardadas.png

 

Igreja evangélica faz culto com mulheres vestidas com "farda" em homenagem a Bolsonaro. A cena grotesca faz parte da campanha para buscar assinaturas para legalizar o partido que o presidente tenta criar, para estreiar nas eleições municipais do próximo ano. Usar, indevidamente, uniforme militar é crime.

Informa Kiko Nogueira: A 1ª Igreja Evangélica Luz do Mundo, empresa do pastor Albertino Alves de Sá e sua mulher pastora Uelida Borges, é sediada em Lages, Santa Catarina.

No início desta semana, Albertino mandou os fieis orarem “pelas autoridades que governam o país”, numa demonstração plena de amor à pátria.

Uelida ainda ordenou que as seguidoras vestissem trajes militares para as apresentações.

Albertino já expandiu seu ministério para outras cidades de Santa Catarina e está hoje em 10 municípios.

Fica explicado porquê existem mais de duzentos associações nazistas em Santa Catarina.

estátua da havan.jpg

 

Outra cena rídicula bolsonarista foi a marcha diante da estátua da Havan.Escreve Ricardo Kotscho, em seu blog:

A melhor imagem da demência que tomou conta do Brasil desde a chegada dos bolsominions ao poder, ao som de uma marcha militar, foi o desfile de um bando de patos amarelos diante da estátua da Havan, em Araçatuba, neste final de semana.

Batendo continência e pisando firme no chão, como se estivessem num quartel do recruta zero, dezenas de aloprados de todas as idades deram um espetáculo grotesco de falta de noção durante um protesto contra o STF em que pediam a cabeça do ministro Gilmar Mendes.

De que toca saiu essa gente estranha, um gado humano perdido no tempo e no espaço?

Acho que nunca a seita macabra do Hospício Brasil tinha chegado a tanto nestes quase 11 meses de destruição do país.

O lugar escolhido foi simbólico, pois Araçatuba é a terra do gado e dos agroboys e agroolds dos latifúndios, onde Jair Bolsonaro obteve uma das maiores votações em São Paulo.

Foi lá que o Véio da Havan, o enlouquecido empresário-simbolo da nova ordem, instalou uma das réplicas bizarras da Estátua da Liberdade diante da sua loja.

Se não fossem tão grotescos, eu diria que eles lembravam as tropas da SS nazista, que ocupou a Alemanha hitlerista, em guerra contra o mundo, na década de 30 do século passado.

“A marcha das loucas soltando as frangas”: esta foi a perfeita definição dada pelo internauta Dias, um dos mais antigos e fiéis comentaristas deste Balaio.

Um dos organizadores da manifestação fascista foi o movimento Nas Ruas, criado pela deputada federal Carla Zambelli, do PSL paulista.

É esse tipo de gente que foi eleita na onda da “nova política” que varreu o país no ano passado, depois de Lula ser impedido de disputar a eleição.

“Essa é pra você, Gilmar Mendes!”, gritava um alucinado no carro de som, dando o tom marcial daquela pantomina.

Devem ter achado bonito, porque eles mesmos divulgaram vídeos nas redes sociais no domingo, que viralizaram como dengue.

Na mesma hora, outro bando similar, com o mesmo objetivo, se concentrava em frente à Fiesp do Paulo Skaf, o criador dos patos amarelos, para marchar pela avenida Paulista.

Mas eram tão poucos que nem saíram do lugar.

Enquanto isso, no Recife, desde o meio dia, uma multidão se concentrava diante do palanque do Lula Livre, onde mais de 50 artistas celebravam a libertação do ex-presidente,

Claro que os canais de notícias ignoraram solenemente uma das maiores manifestações populares dos últimos tempos, mas tive a sorte de assistir tudo ao vivo pela TVT, o canal dos trabalhadores no Youtube. Foram oito horas de festa, sem parar.

Mais de 200 mil pernambucanos acorreram ao centro velho da cidade num show emocionante, onde repentistas contaram a saga de Lula, que falou apenas 20 minutos, para aproveitar melhor a homenagem dos artistas pernambucanos.

Araçatuba e Recife fazem parte do mesmo país, mas as imagens mostraram dois povos bem diferentes - um, miscigenado, na maior alegria, cantando e dançando; outro, da elite branca, o retrato da nostalgia militarista de chanchada.

Só vendo para acreditar no que estou dizendo.

Vida que segue.

 

 

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