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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

16
Nov20

1 em cada 5 prefeitos eleitos no 1º turno é milionário

Talis Andrade

Airton Garcia (PSL) é reeleito prefeito em São Carlos — Foto: Divulgação

Airton Garcia (PSL) é reeleito prefeito em São Carlos — Foto: Divulgação

Por Thaís Matos /G1

Entre os mais de 5,4 mil prefeitos eleitos no primeiro turno nas eleições municipais deste domingo (15), 1.158 são milionários, segundo levantamento do G1 junto aos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A proporção é a mesma registrada após as eleições de 2016, quando mais de 1,1 mil prefeitos, dos 5,5 mil eleitos, tinham declarado este patrimônio.

Assim, um em cada cinco eleitos (21,4%) para as prefeituras a partir de 2021 tem patrimônio declarado igual ou superior a R$ 1 milhão. Destes, 1.075 são homens e 83 são mulheres.

Minas Gerais é o estado que mais elegeu prefeitos milionários: 170. Em seguida, estão o Rio Grande do Sul, com 125; a Bahia, com 102; São Paulo, com 98; e Goiás, com 80. Roraima é o único estado que não elegeu milionários para as prefeituras.

Mais ricos entre milionários

Os sete eleitos mais ricos têm mais de R$ 100 milhões. O dono do maior patrimônio é Ailton Garcia (PSL), de São Carlos (SP), que declara mais de R$ 440 milhões. A lista de bens é extensa e tem desde fazendas e terrenos a cotas de shopping e investimentos.

Em seguida está Vittorio Medioli (PSD), de Betim (MG), com mais de R$ 351,7 milhões. A maior parte de seu patrimônio consiste de cotas de empresas. Antidio Lunelli (MDB), de Jaraguá do Sul, completa o top 3 dos milionários, com R$ 351 milhões distribuídos entre aplicações e fundos de ações.

Os outros são: João Gualberto (PSDB), de Mata de São João (BA); Miguel Vaz (Cidadania), de Lucas do Rio Verde (MT), Lara (PSC), de Japaratuba (SE); e Carlos Alberto Capeletti (PSD), de Tapurah (MT).

Os sete estão entre os 35 eleitos com mais de R$ 20 milhões declarados e os 81 eleitos com mais de R$ 10 milhões declarados.

Capitais

Entre as sete capitais que já elegeram seus prefeitos, cinco declaram patrimônio milionário:

04
Out20

A batalha pela Bíblia

Talis Andrade

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Teóloga americana analisa como movimento reacionário faz leitura deturpada do cristianismo para justificar retrocessos e aponta urgência em devolver à Bíblia seu caráter emancipador

 

Por Liz Theoharis

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Em 26 de agosto, durante a Convenção Nacional Republicana, o vice-presidente Mike Pence encerrou seu discurso parafraseando a Bíblia. Diante de uma multidão reunida na área externa do Forte McHenry, em Baltimore, ele exclamou: “Olhemos para a Old Glory e tudo o que ela representa. Olhemos para nesta terra de heróis e deixar que sua coragem nos inspire”. Basicamente, ele reescreveu uma passagem do livro de Hebreus do Novo Testamento: “Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz”.

Não há nada de novo, é claro, no fato de um político americano juntar religião e política em sua campanha. Ainda assim, a decisão de Pence de substituir Jesus pela bandeira americana causou surpresa em algumas tendências religiosas e políticas. A fusão da bandeira com Cristo foi o sinal mais recente da crescente influência do nacionalismo cristão na era Trump.

Não é difícil encontrar provas de quão profundamente o nacionalismo cristão influencia nossa política. Durante a pandemia, a Bíblia foi usada (e distorcida) repetidamente para justificar o negacionismo em relação ao Covid-19 e a inação do governo, para não falar da repressão pura e simples. No fim de março, quando as cidades estavam confinadas e as autoridades de saúde pública recomendavam medidas rigorosas de quarentena, um dos primeiros atos de Donald Trump foi reunir seus seguidores na Casa Branca para o "Dia Nacional de Oração" para dar força aos americanos para seguir em frente apesar da morte e das dificuldades.

Em seguida, ainda na primavera, protestos contra os fechamentos causados pela pandemia – financiados com dinheiro obscuro de organizações como a dos irmãos Koch – exigiram que os estados reabrissem as atividades econômicas e que as diretrizes de distanciamento social fossem afrouxadas. (Esqueça qualquer tipo de máscara). Nestas manifestações, cartazes diziam coisas como: "Até o Faraó libertou escravos durante uma peste" e "O Texas não carregará a marca da besta." E mesmo com as comunidades religiosas admiravelmente se virando para se adaptar aos cultos por zoom, bem como aos cuidados pastorais e velórios remotos, Trump continuou a atiçar as chamas da discórdia religiosa, declarando que o culto presencial era "essencial", levando juristas a questionar sua autoridade para dar tal declaração.

Por falar em sua versão do nacionalismo cristão, ninguém deve esquecer o espetáculo de junho, na Lafayette Square, perto da Casa Branca, quando Trump fez com que manifestantes por justiça racial fossem afastados com gás lacrimogêneo para que ele pudesse caminhar até a Igreja St. John e posar em seus degraus, exibindo orgulhosamente uma Bíblia emprestada. Embora tenha exibido o livro aos fotógrafos, ninguém apostaria que Trump o tenha sequer folheado. (A operação de comunicação pode ser duplamente lucrativa: uma Bíblia que ele assinou após o evento da Lafayette Square está à venda por quase 40 mil dólares).

A batalha pela Bíblia na história americana

Para entender como o poder é exercido na América por políticos ricos e seus círculos de extremistas em 2020, é preciso levar em conta o papel da religião na vida nacional. Uma batalha épica pela Bíblia está em curso em um país que foi, em larga medida, entregue a evangélicos brancos nacionalistas. Por meio de uma rede endinheirada de igrejas e organizações, universidades e think tanks, e com linhas diretas para os mais altos cargos políticos do país, obtiveram carta branca para definir os termos do que deve ser o debate religioso no país e ditar até o significado de moralidade em nossa sociedade.

Com Trump, esse nacionalismo religioso atingiu o auge quando um movimento reacionário – que inclui tecnocratas bilionários, televangelistas e milícias armadas – fincou raízes através de uma mensagem bem simples: Deus ama a América cristã branca, favorece o estado mínimo e as grandes empresas e recompensa o individualismo e empreendedorismo. Enquanto isso, os pobres, os negros e os imigrantes são os culpados pelos problemas da sociedade, mesmo no momento em que os ricos ficam ainda mais ricos naquele que ainda é o país mais rico da história.

Os perigos representados pelos nacionalistas cristãos de hoje são bem reais, mas a batalha pela Bíblia não é nova nos EUA. Nos anos 1700 e 1800, proprietários de escravizados citavam o livro de Filemon e passagens das epístolas de São Paulo para defender que a escravidão era uma ordem de Deus. Eles também arrancavam as páginas do Êxodo das bíblias que davam aos escravizados. Durante a Era dourada do século 19, tanto igrejas quanto políticos pregavam um “evangelho da prosperidade” que exaltava as virtudes do capitalismo industrial.

Décadas mais tarde, os segregacionistas continuaram a usar versos bíblicos soltos para legitimar as práticas de Jim Crow, enquanto no fim dos anos 1970 a Maioria Moral ajudou a integrar uma nova geração de extremistas cristãos na política nacional. Em minha juventude, lembro-me de políticos citando as cartas aos Tessalonicenses na campanha pela aprovação da Reforma do Estado de Bem-Estar Social de 1996 como prova de que Deus acredita que se deve procurar um trabalho para ter acesso aos programas de assistência pública.

Estudantes de religião e história sabem que, embora essas batalhas teológicas tenham muitas vezes descambado desastrosamente para o uso de violência, privação e ódio, o pensamento religioso cristão também tem sido um ingrediente importante para a mudança social positiva no país. A escravizada fugitiva Harriet “Moses” Tubman via a Underground Railroad como um projeto cristão de libertação, enquanto o escravizado fugitivo Frederick Douglass lutou pela abolição através de igrejas em todo o norte do país nos anos que precederam a Guerra Civil. Um século depois, perto do fim de sua vida, Martin Luther King Jr explicou como, para realizar seu sonho de justiça universal, seria construída uma comunidade de Deus por meio de uma "igreja da liberdade dos pobres".

Em cada capítulo da história americana, abolicionistas, trabalhadores, líderes sindicais, militantes de direitos civis e outros representantes dos oprimidos lutaram por um país melhor não apenas nas ruas e locais de trabalho, mas também no púlpito. Nos destroços do atual momento trumpiano, com um ascendente nacionalismo branco fascista, as pessoas de consciência fariam bem em seguir o exemplo.

O “pássaro psicológico” da má religião

No meu livro Always with Us? What Jesus Really Said About the Poor (Sempre conosco? O que Jesus realmente disse sobre os pobres, sem tradução no Brasil), concentro-me em um fenômeno que há muito me preocupa: como, neste país, a Bíblia tem sido tantas vezes manipulada para apagar seu potencial de emancipação; e particularmente, a maneira como aquela que o teólogo Jim Wallis chamou de a mais famosa passagem bíblica sobre os pobres (do Evangelho de Mateus) – “os pobres estarão sempre conosco” – foi distorcida.

Desde que eu era menina, não passei uma semana sem ouvir alguém citar Mateus como uma explicação de por que a pobreza é eterna e sua mitigação é função, na melhor das hipóteses, de obras de caridade e da filantropia (certamente não do governo). Este raciocínio atravessa muitas de nossas instituições religiosas, inclusive o que é hoje conhecido como "cristianismo evangélico", mas também nossas casas legislativas, nossos tribunais, forças armadas, escolas e muito mais. Esta lógica não apenas fez a cabeça de jovens cristãos, mas ajudou a espiritualizar (e cristalizar) a pobreza, justificando implícita ou explicitamente uma desigualdade cada vez maior.

Hoje, a ideia de que a pobreza é o resultado de mau comportamento, preguiça ou pecado, e não de decisões dos poderosos, nitidamente ganha espaço na Washington de Donald Trump e Mitch McConnell. Passagens bíblicas, como a de Mateus, se tornaram mais uma ferramenta ideológica brandida por reacionários e pelos ricos para desviar a atenção das falhas sistêmicas do país.

Consideremos, por exemplo, o desenvolvimento histórico da região conhecida como o "Cinturão da Bíblia" (ou o "Cinturão da Pobreza"). Ele atravessa todo o Sul, da Carolina do Norte ao Mississippi, do Tennessee ao Alabama, onde vivem pessoas pobres de todas as raças. Trata-se da região americana onde a pobreza é mais profunda e numa área contígua, fenômeno em parte possibilitado por uma teologia herética, pela má interpretação bíblica e pelo nacionalismo cristão.

A convergência de pobreza e religião no Cinturão da Bíblia tem uma longa história, que remonta aos primeiros colonos no tempo da escravidão. Manteve-se no tempo das leis de Jim Crow, que vigeu na região até os anos dos Direitos Civis, e sobrevive no que se passou a chamar, na política, de “Sul sólido” (antes democrata, hoje republicano). Dentro de seus limites sobrevive um legado brutal do método de dividir para conquistar que, até hoje, politiza a Bíblia ao afirmar que a pobreza resulta de pecados contra Deus e ensina aos pobres, em particular aos brancos, que, embora tenham pouco ou nada, pelo menos estão “melhor” do que os negros.

No fim da marcha sangrenta entre Selma e Montgomery, no Alabama, em 1965, Martin Luther King explicou a política milenar de divisão na região:

“Se pode-se dizer, sobre o período de escravidão, que o branco conquistou o mundo e ofereceu Jesus ao negro, deve-se dizer, sobre o período da Reconstrução, que a aristocracia sulista conquistou o mundo e ofereceu Jim Crow ao branco pobre... E quando o seu estômago vazio gritava pela comida que os seus bolsos vazios não podiam pagar, devorou Jim Crow, um pássaro psicológico que lhe contava que, na pior das circunstâncias, ao menos tinha a sorte de ser branco, e não negro. E, assim, ela devorou Jim Crow... E também os seus filhos aprenderam a se alimentar de Jim Crow, o estágio mais avançado do esquecimento psicológico”.

Esse “pássaro psicológico” foi temperado e cozido em uma mistura volátil de pseudociência racista, ortodoxia econômica e má religião. Na verdade, manteve seu enorme poder em grande parte usando a Bíblia e uma versão do cristianismo para validar a pilhagem e o sofrimento humano em uma escala impressionante. Pela lei, Jim Crow pode não existir mais, mas sua história assombra os EUA até hoje, e a Bíblia continua a ser usada como arma para validar um poder político branco, racista e antipobre.

À medida que empregos e oportunidades desaparecem nos EUA do século 21 e as igrejas estão, em muitas comunidades, entre as últimas instituições verdadeiramente funcionais, a Bíblia, independentemente de sua interpretação, ainda influencia a vida cotidiana de milhões de pessoas. A forma como ela é compreendida e pregada afeta os rumos políticos e morais do país. Lembremos que esses estados do Cinturão da Bíblia – onde o nacionalismo cristão (que muitas vezes se utiliza de sua própria versão distorcida da Bíblia) reina supremo – respondem por mais de 193 votos do colégio eleitoral e terão, portanto, um papel fundamental para decidir o destino de Donald Trump e Mike Pence em novembro.

Tive uma experiência com essa interpretação bíblica e teológica e seu papel crescente em nossa política nacional em junho de 2019, durante uma audiência do Comitê de Orçamento da Câmara dos Representantes. O tema era a pobreza nos EUA e as realidades econômicas de famílias em dificuldades. Um grupo racial e geograficamente diverso de líderes da Poor People’s Campaign (Campanha dos Pobres), da qual sou codiretora, foi convidado a falar sobre essas realidades. Naquele dia estavam também presentes dois pastores negros convidados por congressistas republicanos como exemplos de como a fé e o trabalho árduo são a única receita para uma vida boa e estável para os pobres.

Viemos apresentar o que chamamos de Orçamento Moral dos Pobres, um estudo que mostra que os Estados Unidos têm dinheiro para acabar com a pobreza, a fome, a falta de moradia e muito mais, o que falta é vontade política para isso. Em resposta, os membros do comitê recorreram a estereótipos batidos sobre por que, em um país tão rico, tantos somos pobres. Alguns citaram o suposto fracasso da Guerra contra a Pobreza dos anos 1960 como prova de que os programas de ascensão social simplesmente não funcionam, ignorando a forma dramática como os políticos minaram essas iniciativas nos anos seguintes. Assim como os pastores, outros testemunharam como foram bem-sucedidos, saindo de situações de dificuldade econômica através de esforço individual, defendendo que a caridade cristã como forma de aliviar a pobreza. Ouvi a todos enquanto promoviam uma teologia herética que afirma que as pessoas sofrem com a pobreza principalmente por estarem afastadas de Deus e por não terem suficiente fé em Jesus.

Naquele dia, as paredes da sala do comitê da Câmara ecoaram palavras vazias que distorciam o que a Bíblia realmente diz sobre os pobres. Um representante republicano chegou a comentar que, embora tivesse familiaridade com a Bíblia, nunca havia encontrado nenhuma passagem “onde Jesus diga a César para cuidar dos pobres”. Outro, previsivelmente, sugeriu que a caridade cristã – e não os programas patrocinados pelo governo – é a chave para aliviar a pobreza.

Alguém menos familiarizado com os argumentos destes políticos poderia ter ficado surpreso ao ouvi-los buscando justificativas teológicas. Como estudiosa da Bíblia e da história dos movimentos sociais, sei bem como os textos religiosos nos orientam a cuidar dos pobres e despossuídos. Como líder sindical, aprendi que aqueles que estão no poder hoje, sempre – e muitas vezes desesperadamente – procuram corromper e distorcer o potencial de libertação de nossas tradições religiosas.

Em resposta àquele deputado, o reverendo William Barber, meu codiretor na Campanha dos Pobres, e eu mostramos o quão interessante era o fato de ele se identificar com César (não necessariamente a comparação mais lisonjeira que se possa imaginar, especialmente porque o cristianismo bíblico diverge de César e do Império Romano). Em seguida, detalhei muitas das passagens e mandamentos da Bíblia que nos exortam a organizar a sociedade em torno das necessidades dos pobres, a perdoar dívidas, pagar aos trabalhadores um salário digno, em vez de favorecer os ricos ou "César". Essa, está claro, é a fórmula da era Trump (onde, nos últimos seis meses pandêmicos, os 643 americanos mais ricos ganharam 845 bilhões de dólares extras, aumentando em 29% sua riqueza combinada). Também apontei que os programas de redução da pobreza mais eficazes, como o Head Start, são financiados pelo governo federal, não por entidades filantrópicas ou pela caridade cristã.

Boas novas dos pobres

Na Campanha dos Pobres, muitas vezes começamos nossas reuniões de organização mostrando uma série de mapas do país com códigos de cores. O primeiro inclui os estados que aprovaram leis de supressão de eleitores desde 2013; o próximo, aqueles com as maiores taxas de pobreza; em seguida, aqueles que não expandiram o Medicaid e aprovaram leis anti-LGBTQ. E por aí vai. Nosso último mapa exibe os estados com maior densidade de evangélicos autodeclarados.

Tenho certeza de que você não se surpreenderá ao saber que esses mapas se sobrepõem quase perfeitamente, principalmente no Cinturão da Bíblia, mas também no meio-oeste, nos estados do meio-Atlântico e até mesmo em partes do Nordeste e do Oeste. O objetivo é mostrar como a batalha pelo direito ao voto, pelo acesso à saúde e por outros recursos essenciais está intrinsecamente ligada à batalha pela Bíblia. O que está em jogo é a saúde de todo o país, porque os mesmos políticos que manipulam a Bíblia e o direito ao voto para ganhar as eleições, aprovam, quando eleitos, orçamentos e políticas imorais.

Quando o vice-presidente Pence alterou aquela frase do Livro de Hebreus, ele estava entrando de cabeça neste campo de batalha ensanguentado, com uma Bíblia profanada nas mãos. A questão é: por que ele e outros nacionalistas cristãos têm o poder de definir o cristianismo? Se eles estão tão decididos a "fixar os olhos na Old Glory", não deveriam também fixar os olhos no que Jesus realmente disse?

A palavra grega evangelia, de onde vem “evangélico”, significa levar boas novas aos que foram empobrecidos pelos sistemas de exploração. As boas novas da Bíblia, também definidas como evangelho, falam repetidamente sobre cativos sendo soltos, escravizados libertos e todos os oprimidos sendo cuidados. Diz-se que se você cortar todas as páginas que falam de pobreza, a Bíblia desapareceria. E quando você lê realmente as palavras naquelas páginas, vê que o evangelho não fala sobre a inevitabilidade da pobreza ou a necessidade de caridade, mas sobre a responsabilidade das autoridades para com todas as pessoas e a possibilidade de abundância para todos.

Em um momento em que 43,5% dos americanos são pobres ou sofrem com incêndios, tempestades, crise de saúde, pandemia, despejo ou perda de empregos por causa da pobreza, não poderia ser mais importante para os americanos começarem a lidar com essa realidade e nossa obrigação moral de mudá-la. Em vez disso, os políticos aprovam leis de supressão de títulos de eleitores, excluem crianças de programas de alimentação e permitem o envenenamento da água, do ar e da terra, com a benção dos líderes religiosos nacionalistas cristãos, que escolhem versículos bíblicos para justificar tais políticas. Não se trata somente de uma crise religiosa. É também uma crise política, econômica e moral que, em meio a uma pandemia, está empurrando este país para cada vez mais perto da morte espiritual.

Se ainda valer a pena salvar os EUA, estamos diante de uma batalha da qual ninguém deve ficar de fora.

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Liz Theoharis é teóloga, codiretora da Poor People’s Campaign e diretora do Kairos Center por Religiões, Direitos e Justiça Social do Union Theological Seminary.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Clarisse Meireles para Carta Maior

 

22
Ago20

As raízes autoritárias, machistas e racistas de nossa sociedade que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro

Talis Andrade

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III - Governo Bolsonaro é "estado de golpe"

Giulia Afiune entrevista Lilia Schwarcz

 

Em “Brasil: uma biografia“, você fala de vários traços que definem o Brasil: o familismo (quando questões privadas se sobrepõem às públicas), o autoritarismo, o patrimonialismo. O Bolsonaro encarna muitos desses traços. Você acha que ele simboliza o Brasil?

Ele simboliza um certo Brasil. Eu sinto que minha geração falhou: eu sou de uma geração que acreditou que, depois da Constituição de 1988, esse era o nosso Brasil e agora era importante a gente investir na educação, investir na cultura, sanear a economia e por aí vamos. 

O que muitos analistas não viram é esse outro Brasil que é contrário às pautas identitárias, aos novos agentes – nisso eu me refiro às populações negras, às mulheres, à população LGBTQI+, aos ribeirinhos. Há um Brasil que acredita piamente na questão da hierarquia, do patrimonialismo, do familismo, ou seja, acredita na ideia de que a política se ganha nas urnas, mas também entre e nas famílias. Basta ver a quantidade de estados em que o familismo é vigente. Jair Bolsonaro representa sim um tipo de Brasil: que ficou na Revolução Militar, que faz um elogio ao golpe de Estado e aos anos de ditadura e que não concorda com esse Brasil mais plural e generoso.

 

Você estudou a história do D. Pedro II no livro “As barbas do Imperador“. Há semelhanças entre as grandes figuras da política brasileira com D. Pedro II? Existe algum arquétipo de líder que vive no imaginário brasileiro?

Sim, e eu acho que ele explica o Bolsonaro também. Os brasileiros carregam esse arquétipo de que o presidente não é igual a você: o presidente é um grande pai, e, como todo pai, ele é bondoso, mas também muito austero quando precisa. Basta a gente ver a figura do Getúlio Vargas, a figura de D.Pedro II, a figura que o Lula também foi construindo para si. E também a figura de Jair Bolsonaro, que é esse modelo de um pai muito autoritário, muito severo, mas ao mesmo tempo bondoso. Veja como ele está se vinculando ao Bolsa Família, como ele está tentando recriar um projeto nessas bases para 2022. Eu acredito que sim, é um arquétipo do pai, e não da mãe. A gente viu a quantidade de preconceito e discriminação contra a Dilma Rousseff. A ideia de que as mulheres são fracas, que gaguejam. É impressionante como esses discursos são particularmente violentos contra as mulheres. 

 

Por que a grande maioria dos governantes no Brasil continua sendo homens brancos, ricos, e conservadores, sendo que o povo brasileiro é muito mais diverso que isso? É claro que esse “grupo” detém muitos dos recursos financeiros e políticos para ganhar uma eleição e se manter no poder. Mas porque não votamos em quem realmente nos representa?

Existem vários elementos. O primeiro elemento é esse que já falamos, do arquétipo do pai. Outra questão fundamental que eu trato no livro é o machismo que reina na sociedade brasileira, a ideia de que são os homens que devem governar. Quando Heloísa Starling e eu publicamos “Brasil: Uma biografia“, mais de um jornalista falou, “como você se sente, enquanto mulher, escrevendo uma história do Brasil?”. Eu adoro o historiador Boris Fausto, é o meu mestre querido, mas eu duvido que tenham perguntado pra ele: “como você se sente como homem escrevendo uma história do Brasil?” Quer dizer, isso é um machismo atroz, a ideia de que quem pode dar uma grande interpretação ou ser o presidente do país, não pode ser uma mulher, tem que ser um homem.

Há também a questão do nosso pensamento colonial, ou seja, nossa história é eminentemente branca, europeia e masculina. A maior parte dos nossos personagens públicos são homens. Isabel é filha de D.Pedro II, a sua identidade vem do fato de ser filha. 

E tem uma questão que é preciso discutir, que é a questão da branquitude. A gente fala muito de racismo, mas é como no discurso do Vieira: falar do pássaro e não falar da sombra, ou seja, é preciso falar dos dois. É preciso falar do racismo, mas é preciso falar de quem produz o racismo, que é essa sociedade branca, é a branquitude.

Nós naturalizamos o homem branco de classe média alta ou rico como o nosso presidente por causa da união de todos esses elementos.

 

Você enfrentou fortes críticas na semana passada depois da publicação do seu texto na Folha sobre a nova obra da Beyoncé, “Black is King”. Você poderia explicar melhor qual foi a sua crítica à obra e quais foram os pontos positivos que você observou?

Eu gosto muito da Beyoncé, não é a primeira vez que eu escrevo sobre ela. O que era muito positivo era o fato da Beyoncé pegar uma história clássica do Ocidente, Hamlet, e ler essa história a partir das realidades negras. Ou seja, o que seria traição, o que seria ético, dentro de uma história negra, que é profundamente diversa. Há um grande elogio a essa questão.

Por outro lado, ao final, há uma crítica aos essencialismos, que também está sendo feita nos Estados Unidos e em outros lugares. Ou seja, se nós somos contra essencializar a história ocidental, há de se perguntar, pelo menos, se é importante essencializar a história africana. Mas eu eu concordo que essa crítica não foi bem feita – como disse no meu vídeo de desculpas de forma absolutamente sincera. Eu não deveria ter aceitado fazer um artigo tão rápido, eu não sou jornalista, não tenho a capacidade de escrever rápido, tudo na minha vida demora, cada livro demora uns 9, 10 anos. São todas culpas minhas.

As críticas que eu gostei e que me fizeram pensar, me chamaram bastante atenção sobre o afrofuturismo: como você pode imaginar uma outra possibilidade, uma outra literatura, uma outra cultura e inverte dessa maneira também. Essas foram as críticas procedentes e eu acho que há um diálogo que pode ser feito.

Mas, eu repito que eu não imaginava essa reação. Teve também a questão de ter sido prejudicada pelo título, a própria ombudsman da Folha reconheceu que há uma discrepância entre o título e o que eu digo no texto. No artigo eu não fico dando lição de moral, e nem digo que a Beyoncé erra, como sugere o título. São termos e truques que o editor colocou para atrair o leitor. Não é que eu queira me valer do erro da Folha, mas eu acho que a Folha também deveria pegar para si, como fez agora, a parte que é dela. Eu quero viver em um país que a gente pode errar e sair melhor do erro, e foi isso que eu tentei fazer naquele momento.

É claro que a gente lamenta aquele diálogo que não foi bom e que foi mais violento, à sua maneira muito autoritário. Mas eu tentei da minha parte ver qual era o meu lugar naquele latifúndio. Eu acho que se o racismo é, de fato, estrutural, todos estão sujeitos a ele e todo mundo tem que lidar com essa parte da questão da sociabilidade brasileira. (Continua)

 

 

15
Jul20

"Coronavírus mata mais pobres e negros - não porque são negros, mas porque são pobres"

Talis Andrade

 

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II - Por que o coronavírus mata mais as pessoas negras e pobres no Brasil e no mundo

Os pobres são atingidos de forma "muito violenta" em relação aos "remediados e ricos", afirma o médico sanitarista e professor de saúde pública da USP Gonzalo Vecina Neto.

Resultados de um estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio, confirmam que pretos e pardos morreram por covid-19 mais do que brancos no Brasil. O grupo analisou a variação da taxa de letalidade da doença no Brasil de acordo com variáveis demográficas e socioeconômicas da população. Cerca de 30 mil casos de notificações de covid-19 até 18 de maio disponibilizados pelo Ministério da Saúde foram levados em conta.

Considerando esses casos, quase 55% de pretos e pardos morreram, enquanto, entre pessoas brancas, esse valor ficou em 38%. A porcentagem foi maior entre pessoas negras do que entre brancas em todas as faixas etárias e também comparando todos os níveis de escolaridade.

O estudo também concluiu que, quanto maior a escolaridade, menor a letalidade da covid-19 nos pacientes. Pessoas sem escolaridade tiveram taxas três vezes superiores (71,3%) às pessoas com nível superior (22,5%).

Cruzando escolaridade com raça, então, a coisa piora: pretos e pardos sem escolaridade tiveram 80,35% de taxas de morte, contra 19,65% dos brancos com nível superior.

"A desigualdade social tem impacto direto nos óbitos entre os mais pobres e com menor escolaridade", diz, por e-mail, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, Paula Maçaira, pesquisadora do Departamento de Engenharia Industrial do CTC/PUC-Rio e integrante do NOIS. "Quanto mais desfavorável a situação do paciente, mais chances ele tem de falecer."

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, dados levantados pelo APM Research Lab mostra que negros morreram a uma taxa de 50,3 por 100 mil pessoas, comparado com 20,7 para pessoas brancas. Mais que o dobro.

No Reino Unido, números do Office of National Statistics mostraram que homens negros da Inglaterra e de Gales têm três vezes mais chance de morrer por covid-19 do que homens brancos.

"É um fenômeno mundial. Esse vírus mata mais pobres e negros - não porque são negros, mas porque são pobres", diz Vecina Neto. Para Góes, os contexto são semelhantes. "As pessoas negras nos EUA e no Reino Unido também são as que vivem em locais periféricos de menos acesso, menos fornecimento de serviços e com maior prevalência de comorbidades. O que muda são os sistemas de saúde."

Mas por que isso acontece?

Góes e Vecina Neto citam algumas razões para as taxas de mortalidade maiores para a população negra e pobre - no Brasil e no mundo.

A primeira, segundo Góes, é o acesso a serviços de saúde. "Pessoas negras em geral estão nas regiões mais marginalizadas, mais periféricas e esses lugares em geral são lugares que têm baixa oferta de serviço de saúde", diz a pesquisadora. "Elas precisam se deslocar para o centro, onde ficam os serviços de saúde públicos e privados."

Um segundo motivo são as condições de vida da população mais pobre. Vecina Neto diz que "pessoas pobres moram em lugares piores, com pior acesso às condições de moradia mais decente" e que, com um número maior de pessoas por metro quadrado, a propagação da doença é facilitada.

A terceira explicação é a falta de acesso a saneamento básico. "No caso do Brasil, principalmente em São Paulo, a periferia não tem oferta de saneamento semelhante às zonas residenciais com distribuição de renda maior", diz Vecina Neto. "A falta de acesso à água é uma coisa muito grave nessa epidemia."

Um quarto motivo possível: a fome, ou necessidade de trabalhar para ganhar o dinheiro para a comida do dia. "Quem mora na periferia em grande medida faz parte do mercado de trabalho informal, portanto ganha o dinheiro do dia para comer a comida do dia. Se o sujeito não sair todo dia para ganhar alguma coisa para levar dinheiro para casa, vai ter fome na casa dele", afirma.

Mesmo com a ajuda do governo federal de R$ 600 mensais para trabalhadores informais, que considera "insuficiente", "as pessoas têm que sair para arrumar comida, e ao sair, se contaminam mais facilmente". A realidade é completamente distinta à situação de quem pode ficar isolado ou trabalhando de casa.

"Essas pessoas negras e pobres são as pessoas inseridas mais informalmente no mercado de trabalho, e que estão no front na área de saúde, enfermagem, serviços gerais, do trabalho doméstico", afirma Góes. "Esse cenário só agudiza a situação."

Por fim, a pesquisadora sobre acesso desigual a sistemas de saúde destaca condições relacionadas ao bem-estar, como alimentação, exercícios físicos, lazer. Uma população mais pobre tem menos acesso a boa alimentação e consome mais alimentos industrializados. Também está sujeita a mais estresse pela "falta de estrutura da cidade, transporte, moradia", diz ela. "São fatores modificáveis, que poderiam ser alterados para dar melhores condições de vida às pessoas."

Isso leva a mais um fator, e um fator grave no contexto da covid-19: a prevalência de comorbidades, como hipertensão e diabetes, que também afetam negros e pobres desproporcionalmente, nessa população. Essas comorbidades contribuem para a mortalidade por covid-19, e estão mais presentes na população negra e pobre "não por uma questão hereditária, mas porque ela está mais exposta a situações precárias", diz Góes.

O que fazer?

Para resolver esse problema, os especialistas dizem ser preciso endereçar o problema da desigualdade no Brasil em geral, enfrentar o racismo e investir no SUS, o sistema universal de saúde brasileiro.

"O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. A sociedade brasileira considera a desigualdade um problema? Eu acredito que grande parte da população não acha que a desigualdade é um problema", diz Vecino Neto. Mas, para ele, essa é a "patologia social" mais importante que se tem. "É um quadro que a sociedade tem que buscar corrigir. Não dá pra conseguir se defender de epidemia como essa com nossa desigualdade."

Para ele, é necessário "melhorar o SUS". "Estamos colocando o SUS à prova e ele está respondendo de maneira mais ou menos adequada. Vamos sair dessa epidemia com uma lição importante que é buscar melhorar o funcionamento do SUS."

Já Góes diz que a solução deve passar por "repensar e refazer estratégias colocando a questão do enfrentamento ao racismo no centro do debate", para que pessoas negras tenham o mesmo acesso ao mercado de trabalho e serviços de educação e saúde.

"Enquanto não refletirmos sobre isso e não tivermos uma sociedade preparada para reconhecer o racismo como estrutural e reconhecer as desigualdades, será bem difícil fazer mudanças estruturais."

24
Mai20

Gana de Bolsonaro armar ‘todo mundo’ vem da sua propensão obsessiva para a morte alheia

Talis Andrade

 

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Vídeo mostrou reunião de loucos, impostores, fanáticos, aproveitadores, militares sectários, e uns poucos estarrecidos

por Janio de Freitas

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Ninguém, nem o próprio Bolsonaro, sabia que nele se escondia, até agora, uma vontade stalinista de exterminar fisicamente os ricos e os bem remediados. Sabê-lo foi, a meu ver, o mais importante efeito do vídeo —liberado em decisão retilínea do decano Celso de Mello no Supremo— da reunião de gente do governo. Como ato, a reunião está acima e abaixo de qualquer qualificativo.

A exibição justificou a expectativa, mas não pelo pretendido esclarecimento entre as versões de Bolsonaro e Moro sobre manipulações do primeiro na Polícia Federal. Tivemos o privilégio de ver e ouvir um fato, mais do que sem precedente, sem sequer algo assemelhado no que se sabe dos 520 anos brasileiros.

Foi a reunião de loucos, impostores, fanáticos, aproveitadores, militares sectários, e uns poucos estarrecidos como o então ministro Nelson Teich. E alguém que se divertiu, sem dar descanso ao ríctus irônico, às vezes insuficiente para deter o sorriso —o vice Mourão, um general, ora veja, com senso de humor.

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A exibição do ambiente de alta cafajestada, enfeitado pelo idioma doméstico de Bolsonaro, seguiu-se a uma sessão preparatória, da lavra do general Augusto Heleno e convalidada pelos generais palacianos. Resumido de corpo e ressentido típico, Augusto Heleno é dos que não falham: onde esteja, sua soma de arrogância e agressividade frutificará em problemas.

Exemplo definitivo: sua única missão propriamente militar levou a ONU ao ato inédito de pedir ao governo brasileiro a sua retirada do Haiti, onde manchou com operações desastradas e numerosas mortes o comando brasileiro de uma força internacional contra a violência local.

nota de Augusto Heleno contra Celso de Mello e o Supremo é uma dupla consagração da ignorância que nunca deveria estar no generalato. Nesse nível, tomar uma tramitação judicial corriqueira por uma medida “inaceitável e inacreditável”, de “consequências imprevisíveis” sobre a “estabilidade nacional”, é ameaça criminosa. Essas consequências silenciadas por covardia resumem-se a uma, que conhecemos. Por um acaso preciso, apenas horas antes da nota obtusa e ameaçadora a Folha trazia este título: “Militares não vão dar golpe no país”. Nota e declaração do general Augusto Heleno.

O vídeo não nega, nem reforça, a intenção de manipular a PF, já clara em fatos anteriores e posteriores à reunião. Mas o confessado propósito de proteção policial também para amigos, além de familiares, não é bondade ilegal de Bolsonaro. É necessidade e recado.

Com dois balaços, o capitão PM Adriano Nóbrega deixou de ser amizade preocupante, mas para o sumido Fabrício Queiroz, e sabe-se lá para quantos outros, continua a preocupação protetora e mútua. Isso vale vidas, em meios peculiares como milícias, gangues e tráficos.

As vidas que nada valem são outras. “Eu quero todo mundo com arma!”, “eu quero todo brasileiro armado!”, “eu quero o povo armado!”, berrou o chefe aos seus generais impassíveis e paisanos desossados.

Bolsonaro sabe que o povão maltratado, humilhado, explorado e roubado em todos os seus direitos, no dia em que também tivesse ou tiver armas, não teria dúvida sobre o alvo do fogo de sua dor secular. Adeus ricos, adeus classe média alta.

Em quase três décadas no Congresso e ano e meio com o título de presidente, Bolsonaro só teve atos e posições prejudiciais aos assalariados, aos trabalhadores aposentados, aos que sobrevivem do trabalho informal —à larga maioria brasileira, ao povo.

Para isso tem Paulo Guedes na orientação do que pode fazer para destruir os ralos programas sociais, a educação, o arremedo de assistência à saúde. A gana de armar “todo mundo” não vem de insuspeitada e extremada revolta de Bolsonaro com a desumanidade dominante no Brasil. Vem da sua propensão obsessiva para a morte alheia, até mesmo por meio de um vírus.

O desespero de Bolsonaro por certo corresponde à gravidade do que teme, se levadas com decência as investigações que o envolvam e a seus filhos maiores. Daí que a figura de Bolsonaro no vídeo seja a de quem não está longe da implosão.​

 

 

10
Abr20

Com medo da penúria e da morte? Bem-vindos ao mundo real

Talis Andrade

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A pandemia de covid-19 democratizou a insegurança e o receio do futuro que já afligia milhões de brasileiros. Resta saber se os abastados aprenderão alguma coisa com isso

 

por J.P. Cuenca

DW Deutsche Welle   

1.

Você vai até a janela, olha para o céu, estica o braço apontando o telefone para cima, fecha o olho esquerdo, olha o céu no quadro do telefone – é o mesmo. Você tira uma fotografia, a examina, volta a olhar para o céu: as nuvens desembestaram a mudar de lugar, o sol talvez agora lhe cegue um pouco.

Mas você estava lá, e por isso publica um instantâneo daquele céu onde não havia nada de especial, apenas o panorama difuso do círculo solar por trás de nuvens em contraluz, visto por uma nesga entre edifícios e antenas de São Paulo. As pessoas vão olhar sua fotografia, cada uma dentro de cada apartamento, e ler seu nome impresso no canto esquerdo sobre a imagem do céu nos cristais dos telefones, e pensar em você, talvez olhando pela janela – talvez sentindo o mesmo pavor.

Andamos assim, silenciando no meio das frases.

Especialmente, os privilegiados que hoje podem isolar-se em cápsulas domésticas. Nas últimas semanas, nossas horas foram ocupadas por tentativas de trabalho remoto, aulas online, ativismo de internet, drinks via zoom e houseparty – e uma enevoada sensação de luto antecipado. Até que percamos o emprego, enterremos nossos mortos ou, na melhor das hipóteses, tenhamos que nos confrontar com um mundo que ainda desconhecemos do outro lado desta quarentena.

São tempos estranhos? Talvez não mais que há três semanas – a diferença é que agora todos sabemos disso.

2.

Nas últimas décadas, o capitalismo tardio promoveu mudanças climáticas irreversíveis e um aumento exponencial na concentração de renda mundial. Pouco importava aos detentores dos meios de produção e do capital financeiro – e às classes médias que votam nos representantes daqueles no governo – que a política econômica de seus países causasse desigualdade, doenças e morte aos menos favorecidos.

No Brasil, o 1% mais rico hoje concentra 28,3% da renda total do país, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU divulgado em dezembro do ano passado. É a segunda maior concentração de renda do mundo, apenas atrás do Catar, um emirado absolutista sem eleições legislativas desde os anos 1970 que usa a charia como sistema legal, onde mulheres supostamente adúlteras são punidas com chibatadas e relações homossexuais, com a pena de morte.

Essa combinação nefasta de concentração de renda e ameaças aos direitos humanos também encontra-se por aqui.

Ainda que, durante o recente ciclo do Partido dos Trabalhadores no poder, tal desigualdade tenha sido mitigada via programas de distribuição de renda e uma economia aquecida, os brasileiros moradores de periferias e favelas seguiram tendo direitos desrespeitados pelas polícias militares de todo o país, assim como os povos indígenas originários ameaçados por ruralistas, grileiros, milícias e superfaturadas obras de infraestrutura. E, se nossas favelas são guetificadas pelo Estado, o que dizer dos presídios brasileiros, verdadeiros campos de concentração para negros e pobres?

Abrindo o panorama, pesquisas do IBGE em 2017 e 2018 apontaram que 64,9% da população brasileira não têm pelo menos um dos seguintes direitos garantidos: educação, proteção social, moradia adequada, serviços de saneamento básico e comunicação (internet). A realidade é certamente pior: o relatório usa o conceito de autodeclaração e só inclui os brasileiros que tenham domicílios, excluindo moradores de rua. Entre mulheres negras ou pardas, sozinhas, e com filhos pequenos, o número é ainda maior: 81,3% . Entre idosos, são 80%.

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O Estado Democrático de Direito, garantido pela Constituição de 1988 e ameaçado pelo bolsonarismo, nunca foi democratizado no Brasil pós abertura – jamais chegou plenamente aos cantos menos favorecidos do país, mesmo sob governos supostamente de esquerda. E, com a guinada abertamente fascista da política brasileira depois do golpe de 2016, a situação, que já era trágica, piorou.

Em tempos de pandemia, talvez um pouco – apenas um pouco – do pesadelo distópico no qual já viviam milhões de brasileiros pareça agora democratizado. Insegurança financeira e ameaça constante à vida: antes tão normalizados quando no andar de baixo, agora motivos para ansiedade generalizada.

3.

A grande novidade não é a pandemia. É o fato de que as classes mais abastadas brasileiras possam enfrentar, pela primeira vez em gerações, circunstâncias em que sua casta superior não lhes oferece grande vantagem de sobrevivência.

No Brasil, hospitais particulares já sofrem estrangulamento semelhante ao SUS – e mal começamos a escalar a curva de casos e mortes. Tragédia com horizontalidade semelhante, talvez apenas durante guerras, sob bombardeio. O que nunca tivemos por aqui.

Quando isso tudo acabar, talvez a espera e o testemunho da catástrofe, a implosão do que entendíamos como vida normal, faça os abastados da Zona Sul do Rio de Janeiro e da Zona Oeste de São Paulo mais empáticos com quem convive com o medo de ver o chão abrindo sob seus pés desde que nasceu.

Mas não sei se eu apostaria nisso.

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17
Out19

Desigualdade entre ricos e pobres é a mais alta registrada no Brasil

Talis Andrade

Em 2018, rendimento da fatia mais rica da população subiu 8,4%, enquanto os mais pobres sofreram uma redução de 3,2%. Brasileiros que estão no 1% mais rico ganharam 33,8 vezes mais que o total dos 50% mais pobres.

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DW - O rendimento médio mensal real do 1% da fatia mais rica da população brasileira atingiu em 2018 o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pelos 50% mais pobres do país, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (16/10).

Segundo o instituto, os números mostram que a desigualdade de renda no país alcançou patamar recorde dentro da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC), iniciada em 2012.

O 1% da população mais rica – grupo que reúne apenas 2,1 milhões de cidadãos – teve rendimento médio mensal de 27.744 reais, enquanto os 50% mais pobres – mais de 100 milhões – só ganharam 820 reais por mês.

Os números da pesquisa indicam que os pobres ficaram mais pobres e os ricos, mais ricos. Os 30% mais pobres do país, cerca de 60 milhões, tiveram seu rendimento médio mensal reduzido, em alguns casos em até 3,2%. Os 5% mais pobres – cerca de 10 milhões –, por exemplo, tiveram ganhos mensais de apenas 153 reais em 2018, contra 158 reais em 2017. Já o 1% mais rico viu seu rendimento aumentar 8,4%, de 25.593 para 27.744 reais, entre 2017 e 2018.

O PNADC informa que o rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que foi de 264,9 bilhões reais em 2017, alcançou 277,7 bilhões de reais em 2018. Os 10% da população com os menores rendimentos detinham 0,8% da massa, enquanto os 10% com os maiores rendimentos concentravam 43,1%.

De acordo com o IBGE, com base na série histórica, esse aumento da desigualdade coincidiu com uma diminuição do número de domicílios que contam com bolsa família: se em 2012 eram 15,9% em todo o país, em 2018 a proporção caiu para 13,7%.

O IBGE aponta ainda que o aumento da desigualdade em 2018 tem relação com a crise do mercado de trabalho: em 2018, 35,42 milhões de pessoas estavam no mercado informal, um recorde da série histórica do IBGE. Os novos dados revelam que o índice Gini – que mede a desigualdade numa escala de zero (igualdade) a um (grau máximo de desigualdade) – aumentou em todas as regiões brasileiras, chegando a 0,509, o maior índice desde 2012.

Segundo o IBGE, entre 2012 e 2015 houve uma tendência de redução do índice Gini do rendimento domiciliar per capita (de 0,540 para 0,524), mas ela foi revertida a partir de 2016, quando aumentou para 0,537, chegando a 0,545 em 2018.

A pesquisa enfatiza os contrastes regionais no país: o Sudeste, que concentra 40% da população nacional, apresenta uma massa de rendimentos de 143,7 bilhões de reais, maior do que todas as demais regiões somadas.

As regiões Norte e Nordeste apresentaram os menores valores de rendimento médio mensal real domiciliar per capita: 886 e 815 reais, respectivamente, enquanto o Sudeste registrou 1.639 reais, pouco mais do que o dobro do Nordeste.

O índice Gini também apontou contrastes regionais. No Norte, chegou a 0,551, seguido pelo Nordeste, 0,545, e Sudeste, 0,533. No Centro-Oeste, o resultado foi de 0,513. O menor valor foi registrado no Sul: 0,473. O estado com maior desigualdade foi o Sergipe, com 0,575. A menor disparidade entre ricos e pobres, 0,417, foi registrada em Santa Catarina.

19
Jun19

Os “me dei bem” da Odebrecht

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Segunda feira, este blog chamou a atenção para os mais de 200 mil desempregados que ficaram na rua com a destruição operada pela Lava Jato sobre a Odebrecht, enquanto os seus donos, executivos e dirigentes saiam com uma belíssima grana.

Na noite desta terça-feira, Lauro Jardim publica em O Globo a lista, tirada do processo de recuperação judicial, dos “capa pretas” da empreiteira que ainda tem boladas a receber da empresa:

Marcelo Odebrecht, ex-presidente: R$ 16,2 milhões.
Claudio Mello Filho, ex-lobista: R$ 9 milhões.
Hilberto Mascarenhas, responsável pelo departamento de propinas: R$ 24,7 milhões.
Newton de Souza, ex-presidente: R$ 285 milhões
Henrique Valadares, ex-diretor: R$ 8,5 milhões
Euzenando Azeredo, ex-diretor: R$ 42,5 milhões.
Fernando Miggliacio, ex-diretor: R$ 49 milhões
Carlos Fadigas, ex-presidente da Braskem: R$ 5,9 milhões.
Luciano Guidolin, atual presidente da Odebrecht e integrante do conselho: R$ 1,67 milhão.
Outros estão mais tranquilos. Estão na classe das “dívidas trabalhistas” da Odebrecht. Ou seja, tem garantia e prioridade quando os débitos da empreiteira forem pagos. Entre eles, o casal abaixo:
Maurício Ferro, ex-vice-jurídico e genro de Emilio Odebrecht: R$ 5,1 milhões.
Mônica Odebrecht: R$ 1,6 milhões (a filha de Emílio Odebrecht tem mais R$ 1,9 milhão a receber, mas não são dívidas trabalhistas).

Garanto que qualquer dos leitores, como eu, não tem a menor ideia do que podem ser estes valores na vida real.

Nem nós, nem os milhares de trabalhadores que perderam o emprego com a destruição da empresa.

27
Out18

AS RAÍZES DO RACISMO E DA HOMOFOBIA. Como vai votar a cidade da infância e adolescência de Bolsonaro?

Talis Andrade

 

Uma visita à cidade onde o candidato de extrema-direita cresceu e a uma colônia próxima fundada por descendentes de escravos reflete a enorme divisão racial e social

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O preferido das muitas raças, menos dos pretos

 

 

Eldorado Paulista / São Paulo 
 
 
A praça central de Eldorado, uma cidade rural de 15.000 habitantes, se pode ver a escola de paredes descascadas onde Jair Messias Bolsonaro fez o Ensino Médio. E as ruas, cheias de pequenos negócios de letreiros pintados à mão hoje desbotados, em que brincou. O populista de extrema-direita que, se as pesquisas se confirmarem, presidirá o Brasil depois da eleição de domingo, continua presente em Eldorado, a 190 quilômetros ao sul de São Paulo, mas de outra maneira. Muitos carros têm adesivos com seu retrato. E seu nome é ouvido repetidamente na boca dos que cresceram com ele, que competem para ver quem o canoniza primeiro. (...) Mas é uma imagem enganosa.
 
 

Tirço, um corpulento empregado negro de um dos dois postos de gasolina de Eldorado, avisa: “Daqui para lá, ninguém vai te dizer nada de ruim sobre Bolsonaro”, apontando para o centro. “Mas de lá para cá, ninguém vai te dizer nada de bom”, indicando outro bairro, muito mais precário e distante, Vila Nova Esperança, de maioria negra.

 

Nesse país tão desigual e multirracial (8% dos brasileiros se declaram pretos e 45%, pardos), o apoio a um ou outro candidato varia consideravelmente em função da raça em que o eleitor se enquadra. Bolsonaro vence entre os brancos; o candidato do PT, Fernando Haddad, entre os pretos. À medida que a pele do eleitor escurece, o militar reformado perde apoio. (...)

 

Jair  Bolsonaro é denunciado pelo crime de racism

 

 

Em Eldorado, onde havia clubes sociais apenas para brancos até quase o final da década de sessenta, uma moradora diz abertamente que “os negros são vagabundos dependentes das ajudas do Estado”. Há também outra condição: aqui havia muitos escravos até o século XIX e agora existem dezenas de quilombos, comunidades que estes fundaram depois terem sido libertados. São assentamentos muito pobres no meio do mato que recebem discretas subvenções do Governo e seus moradores se dedicam a cultivos artesanais; também são a obsessão da cultura racista brasileira, que não vê sua utilidade. Depois de visitar um em 2017, Bolsonaro disse que “o afrodescendente mais magro” pesava sete arrobas” e “nem para procriar servia mais”.

 

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Ernesto (nome fictício), um vizinho que acusa ao pai de Jair Bolsonaro de ser racista. VICTOR MORIYAMA
 

Ditão, de 63 anos, grisalho de olhos cinzentos por causa da catarata, líder do maior quilombo da região, o de Ivaporunduva, está em seu bananal com sandálias Havaianas bem afundadas no barro. “Eldorado segue a mentalidade colonial: você manda, eu obedeço”. Muitos acreditam que as pessoas dos quilombos não conseguem pensar, não conseguem administrar um negócio, não conseguem entrar na política. Nós só existimos para obedecer. Ouvir e obedecer.

 

A fratura racial é menos brutal em uma cidade como São Paulo. E um passeio por um shopping center em um bairro misto mostra que a rejeição a Bolsonaro diminui entre os mestiços que prosperaram. Celia Reis, de 72 anos, e sua filha votarão nele para expulsar o Partido dos Trabalhadores de Lula. Os temores que a provável presidência de Bolsonaro desperta são diferentes em função da raça, como mostram a assessora jurídica de direitos humanos Flávia Julião, de 39 anos, e sua amiga. O maior medo da ativista, negra, é “um retorno a 64, à ditadura”. A professora Patricia Alonso, de 40 anos, branca, aponta para outra época: “O meu, de voltar a Collor (Fernando Collor de Mello)”, ou seja, à hiperinflação.

 

 

A advogada Julião está convencida de que o enorme apoio a Bolsonaro se deve, embora não se explicite, a uma rejeição às conquistas esquerdistas dos últimos anos para reduzir a abismal desigualdade. “Votam nele não porque gostem de Bolsonaro, mas para deter essa melhora ou até mesmo revertê-la”, diz. Elisana Santos é uma amostra de como milhões de brasileiros não-brancos prosperaram nos últimos anos. Filha de uma empregada doméstica e de um ferreiro, aos 19 anos acaba de terminar o Ensino Médio. Quer ir para a universidade, então está olhando os cursos enquanto faz orçamentos. Provavelmente ela poderá se beneficiar das cotas que Bolsonaro tanto detesta, mas, enfatiza, “para essas vagas também existe muita competição”. Ela está entre as três pessoas que mais estudaram em sua família.

 

Mas a universidade e São Paulo estão muito longe de Ditão e de sua plantação de bananas, onde vive com preocupação pelo futuro do país. Ele não tem a menor dúvida de que com Bolsonaro a ditadura voltará de uma forma ou de outra, implícita ou explicitamente. “Liberdade é que quando um policial bate seu carro no carro de um negro, a culpa é do policial; ditadura é quando a mesma coisa acontece e o negro acaba na cadeia”, sentencia. “E esse é um problema que não queremos que volte". Transcrevi trechos

 

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Ditão, em sua plantação de bananas no 'quilombo' de Ivaporunduva, ao lado de Eldorado. VICTOR MORIYAMA
 

Vida e ascensão do capitão Bolsonaro

 

 

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Saído de Eldorado, interior paulista, aos 18 anos, o deputado que está a um passo de ser presidente foi um lobo solitário que navegou na insatisfação exposta pelas jornadas de 2013, e foi se ajustando para sua corrida ao Planalto

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Ambicioso, ultradireitista, misógino e nostálgico da ditadura. O capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro é o candidato com mais probabilidade de se tornar o futuro presidente do Brasil após o segundo turno eleitoral, no dia 28 de outubro. Uma equipe do EL PAÍS investigou a trajetória do aspirante: onde se criou, como entrou no Exército e no mundo da política, como começou do nada e foi, pouco a pouco, tecendo apoios dos principais setores.

 

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A INFÂNCIA

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Dona Narcisa, de 63 anos, aponta a escola de paredes azuis. “Foi aí”, conta. “Estávamos todos os alunos aí quando de repente: pum, pum, pum.” Era 8 de maio de 1970. Carlos Lamarca, um guerrilheiro que lutava contra a ditadura brasileira (1964-1985), refugiou-se nesta cidade de 15.000 habitantes, a 180 quilômetros ao sul de São Paulo. Houve um tiroteio. Um policial morto. Estradas fechadas pela polícia, revistas generalizadas. Ao final, o guerrilheiro conseguiu fugir e levou sua luta para outro lugar. Mas aquela sexta-feira ficou na memória dos habitantes da cidade como um dos mais emocionantes na história de Eldorado Paulista. Impressionou a todos seus habitantes, sobretudo as crianças. Mais do que a ninguém, a um adolescente teimoso, ambicioso e desengonçado chamado Jair Bolsonaro.

 

Até esse dia, Bolsonaro, que tinha então 15 anos, destacava-se na cidadezinha por ser turrão e astuto. (...) 

 

Para cumprir sua obsessão e entrar no Exército, o jovem Bolsonaro necessitava de duas coisas que não possuía na época: dinheiro e estudos. Para o primeiro, contava com um sócio: seu melhor amigo, Gilmar Alves. “Compramos uma vara e fomos pescar para vender: todo dia a gente ia para o rio, com frio ou calor”, recorda Alves, hoje com o cabelo completamente grisalho, sentado num bar de Registro, cidade próxima a Eldorado, onde vive.

 

“E enquanto isso, estudávamos. Precisávamos nos esforçar muito porque naquela época Eldorado não tinha bons professores: o de História dava aulas de Química, sem saber muito”, afirma. “Mas o Jair é uma das pessoas mais obstinadas que conheci. Estudava 24 horas por dia. Todo mundo ia aos bailes dos clubes e nós ficávamos estudando. Ele me dizia para que eu fosse para o Exército com ele, porque os presidentes eram todos militares e ele iria ser presidente”.

 

O plano deu certo. Gilmar chegou a estudar Agronomia em Curitiba, e Jair entrou no Exército. Durante anos, os dois amigos mantiveram o contato. “Ele me ligava de vez em quando para pedir minha opinião”, lembra. “Escuta Gilmar, o que achamos da prostituição?’ ‘Olha Jair, é a profissão mais antiga do mundo e é preciso apoiar as trabalhadoras. É preciso repudiar os que exploram a mulher’. ‘Tá, tá. Mas é que eu estou me aproximando dos evangélicos e isso não fica bem”.

 

A amizade acabou se rompendo. Em abril de 2015, cada vez mais convencido de que poderia se tornar presidente, durante uma entrevista televisionada, Bolsonaro falou de seu amigo de infância, de seu companheiro de pesca. Após décadas falando bobagens homofóbicas e racistas, talvez para contrastar, dessa vez disse algo diferente: “Eu tenho um amigo gay, Gilmar, que vive em Registro”. Gilmar ficou atônito ao escutá-lo. “Eu não sou gay”, diz. A suposta revelação teve como consequência uma campanha de assédio: por WhatsApp, nos bares, na rua. “Não importa onde, alguém se aproximava e me dizia com um sorriso: ‘Como você escondeu bem isso, frutinha’, e: ‘Bom, onde tem fumaça, tem fogo”. “Eu telefonei para ele para que me desse explicações”, lembra Alves. “E ele me respondeu: ‘Mas eu não te chamei de gay”. Gilmar sabe muito bem como definir seu antigo amigo: “É um desequilibrado, que não pensa antes de falar. Primeiro faz e depois conserta, se puder. É assim que quer chegar à presidência, mas não de um sindicato e sim de um país. Revelou um caráter que eu não conhecia. O de um mentiroso”.

 

A aparência de Eldorado mudou desde os anos setenta. Onde existiam casas de barro e madeira, agora se erguem casas de concreto e tijolo. Surgiram parabólicas sobre os telhados. Mas continua sendo um pequeno pedaço de urbe no meio da mata. A rotina é a mesma: trabalhar, o bar, a casa. E os problemas também: um deles, como no restante do Brasil, é a desigualdade. O dono do maior restaurante do local é partidário de Bolsonaro; as duas funcionárias de sua cozinha (negras), não.

 

“Se esse homem vencer, os primeiros a sentir seremos nós”, diz Ditão, um homem gigante, negro, de óculos de metal. Está na plantação de bananas que é seu ganha-pão. “Nós pobres somos os mais expostos à opressão militar. Eu tinha nove anos quando a ditadura começou em 1964; um dia a polícia prendeu meu pai sem nenhum motivo. Nenhum. Sabe por que ele não foi liberado? Porque não era o dono da terra em que trabalhava. O branco”. Transcrevi trechos. Informação elaborada por Afonso Benites, Felipe Betim, Fernanda Becker, Regiane Oliveira, Talita Bedinelli e Tom C. Avendaño/ El País

 

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07
Out18

O radicalismo que move bolsonaristas

Talis Andrade

 

Em conversas com o EL PAÍS, eleitores do candidato de ultradireita demonstram frustração com a política e acreditam que soluções extremas resolvam problemas como violência e corrupção

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Apoiadoras de Bolsonaro em Brasília. ADRIANO MACHADO REUTERS 

 

 

por Felipe Betim

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Bolsonaro lidera isolado as pesquisas de intenção de voto. No Datafolha, divulgado na noite de quinta-feira, aparece com 35% dos votos, mas entre pessoas como Flora, que ganham mais de dez salários mínimos e possuem ensino superior completo, o deputado de extrema direita fica acima da média: apresenta 53% e 44%, respectivamente. Na faixa que vai de cinco a dez salários mínimos, o ultradireitista chega a marcar 42% na pesquisa. Ainda que rejeitado por aproximadamente metade do eleitorado feminino, o candidato vai melhor entre as que possuem renda alta. O casal Robson e Thamires Bertochi, por exemplo, não são apenas eleitores convictos de Bolsonaro há mais de um ano. São fãs. Não hesitam em abraçar tanto suas vagas ideias ultraliberais para a economia como seu radicalismo para resolver questões sensíveis como segurança e corrupção, temas estes que se conectam diretamente a esta faixa do eleitorado. "Eu no lugar dele seria pior. O pessoal acha ele radical, mas ele é tranquilo. Eu seria mais radical em todos os sentidos", explica Robson, de 41 anos, e antipetista ferrenho. "O plano A era matar Bolsonaro. Não tenho dúvida de que foi o PT", afirma, contrariando, as investigações policiais que afirmam que o agressor agiu sozinho e por motivações pessoais. "Agora o plano B são as urnas. Tenho pavor do PT. Corruptos, acabaram com o país."

 

Querem leis mais duras, que um assassino não deixe a prisão no dia dos pais, mas não só isso. "Se o cara assaltou e matou um ente querido seu, ele deveria ser punido no mesmo nível. Não tem que ter audiência de custódia, todos esses negócios tem que acabar", argumenta ele, defensor da pena de morte. Sua esposa Thamires, de 33 anos, explica o motivo: "Não é que ele vai sair matando todo mundo. Mas em casos extremos, como nos Estados Unidos, acho que vale sim. Querendo ou não, faz o cara pensar duas vezes antes de cometer um assalto ou uma matança". A única discordância é em relação a liberação do porte de armas, já que, para o casal, o brasileiro ainda não está preparado para este passo.

 

Donos de restaurantes no interior de São Paulo, estão na Oscar Freire à passeio na tarde de uma segunda-feira. Sentem-se esmagados por uma alta carga tributária que, opinam, impede a geração de empregos. Por isso, mostram-se contrários tanto a direitos trabalhistas como a programas sociais —os quais colocam no mesmo pacote, como se fossem a mesma coisa. "É melhor ter gente trabalhando do que em casa usufruindo de direitos que o PT constituiu, isso não é saudável para o país. Criou-se um rombo com seguro desemprego, Bolsa Família, cheio de bolsas... Alguém paga essa conta. Tem que colocar os caras para trabalhar e acabar com essas coisas", argumenta Robson. Thamires tenta colocar panos quentes na fala do marido e pondera: "Entendemos que tem que ter um lado social. Milhares de pessoas que vivem no extremo sofrem muito, acho que vale olhar pra essas outras pessoas. Mas isso deve ser mais alinhado. Existem pessoas que participam dessas bolsas sem haver necessidade. São acomodadas". O fato é que coincidem com o general Hamilton Mourão, vice na chapa de Bolsonaro, e também são contra direitos como 13º salário ou férias remuneradas. Isso porque, explica Thamires, nos EUA "você trabalha, recebe seu salário e acabou aí". "Veja bem", continua ela, "quando um cliente vai na nossa empresa, ele paga pelo que está comprando. Ele não me dá mais nada. Mas ao meu funcionário tenho que dar aquilo que ele trabalha mais milhares de benefícios que atrapalham a contratação".

 

Outro ponto sensível para o casal é a família e a educação: "Estamos muito desunidos. Quando vamos para um lado mais afetivo, familiar, a gente consegue juntar mais o país. Ele fala de uma forma mais afetiva, de cuidar das famílias e das crianças", explica a mulher. "Quando ele diz que vai trazer mais essa parte militar, significa vai trazer mais respeito para a sala de aula", continua. "Ele não é homofóbico, mas entendo o lado dele quando diz que as crianças não devem aprender na escola a parte de LGBT. Tá certo. Uma criança de 6 anos não tá preparada para ouvir e ver esse tipo de coisa", opina ela, convencida de esse ensinamento de fato acontece nas salas de aula.

 

Que a elite e a classe média tradicional brasileira majoritariamente se identifiquem com o candidato de extrema direita e seu viés autoritário é apenas parte da história. Bolsonaro vem conquistando uma imensa massa difusa de eleitores, muitos dos quais melhoraram de vida durante os governos petistas e, hoje, pertencem a faixas de renda intermediária —a chamada classe C. Muitos são evangélicos e pertencentes a uma classe trabalhadora que, além de estarem indignados com a corrupção e a violência, também são conservadores nos costumes. De alguma forma, encontram no candidato de extrema direita uma forma de reagir a liberalização da vida, assim como aos discursos de movimentos como o LGBTI e o feminista.

 

"Voto nele porque acredito que sua administração vai preservar as famílias, que estão muito bagunçadas, e os bons costumes. Ver criança xingando pai e mãe, e pai e mãe rindo e achando bonitinho não faz parte da minha educação", argumenta o taxista Lincoln Gebonato, 57 anos. Ele também parece se identificar com o discurso de Bolsonaro que ofende minorias sociais. "O que ele defende é que não tenha homossexualidade para crianças em idade de inicio escolar. Ideologia de gênero cada um escolhe o que quer, e ele não interfere nisso. Ele só acha que nas escolas não tem que ter uma educação visando ideologia de gênero. Mas infelizmente os movimentos homossexuais acham que não, acham que desde criancinha tem que ensinar a ser veado, lésbica, homem ou mulher", argumenta.

 

— Acha que isso acontece nas escolas?

— Lógico que acontece, está visível para todo mundo ver. Você vê na rua dois homens barbados se beijando sem se preocupar, está evidente.

 

—  Defende uma lei proibindo esse tipo de conduta nas ruas?

— Não tem que ter lei, tem que ter bom senso. Um dia chegará o momento que isso será normal, mas devagar. Não queira enfiar goela abaixo.

 

— Mas tem pessoa que só aprende com pancada, não vai com diálogo. O cara quer ser veado, que seja em quatro paredes. A vida pessoal é de cada um. Mas a sociedade não é obrigada a viver com essa falta de moralidade — interrompe um colega taxista, que prefere não se identificar.

 

Gebonato também acredita que as leis brasileiras "são mais brandas com o infrator do que com o cidadão de bem", que, para ele, começa a pagar um novo imposto no dia seguinte de sua criação. Ele se mostra contrário a um conceito básico de direitos humanos, uma vez que, para ele, "bandido é pior que animal irracional". "Quando se cria uma lei para punir um infrator, vem os direitos humanos dizendo que isso não pode, aquilo não pode, que o sujeito é um humano... Mas quando um bandido te aborda e te dá um tiro na cabeça, aí você não teve chance. Ele te condenou a morte sem julgamento", explica. E acrescenta: "Acho que quem deve ter direitos humanos é o cidadão de bem, trabalhador e pagador de impostos". [Transcrevi trechos]

 

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