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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Out21

Os mil dias de Bolsonaro presidente. Não há o que comemorar

Talis Andrade

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por Ricardo Noblat

Celebrar o quê hoje? Se vivo fosse, os 100 anos que completaria Carlos Zéfiro, autor de livretos com desenhos eróticos chamados de catecismos e que marcaram o despertar sexual de adolescentes entre os anos 1940 e 1980? Ou os 1.000 dias de desgoverno de Jair Bolsonaro, o pior presidente da história do Brasil?

Zéfiro era do bem, como podem testemunhar os que desfrutaram de sua arte. Bolsonaro, do mal, como admitem 59% dos brasileiros ouvidos pela mais recente pesquisa Datafolha que disseram que de jeito nenhum votarão nele nas próximas eleições. Que Zéfiro descanse em paz! Que Bolsonaro não tenha descanso!

Foram 1.000 dias com pelo menos três crises por mês, segundo o jornal O Globo. No 48º dia, 30% dos entrevistados pelo Datafolha avaliaram que seu governo era péssimo ou ruim. Há 10 dias, eram 53%. A Câmara dos Deputados coleciona 132 pedidos de impeachment contra ele, e em breve receberá mais.

A cada 52 dias, um ministro foi demitido ou pediu demissão. Um deles, Ricardo Salles, cunhou a frase “passar a boiada” quando aconselhou Bolsonaro a aproveitar a pandemia para revogar leis de proteção ao meio ambiente. Sob a pressão do governo americano, Salles saiu do governo por meter-se com contrabando de madeira.

Outro, Abraham Weintraub, da Educação, referiu-se aos ministros do Supremo Tribunal Federal como “vagabundos” que deveriam ser presos. Perdeu o emprego, evadiu-se do país e ganhou como prêmio de consolação uma diretoria do Banco Mundial, em Washington, com direito a salário pago em dólar.

Em um ano de pandemia, o governo trocou quatro vezes de ministro da Saúde. O terceiro, o general Eduardo Pazuello, tornou-se famoso com a frase exemplar: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Seu sucessor, o médico Marcelo Queiroga, por dar o dedo em Nova Iorque e levar o vírus para as Nações Unidas.

Ao se eleger, Bolsonaro prometeu “destruir o sistema” para pôr outro em seu lugar. O sistema venceu e está à procura de um presidente para pôr no lugar dele. O que Bolsonaro conseguiu foi destruir o combate à corrupção e contribuir para a morte de quase 600 mil pessoas ao dar passe livre à Covid-19,

Nunca antes um presidente da República participou de manifestações de rua em que seus devotos cobrassem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal – Bolsonaro estrelou duas delas, uma à porta do Quartel-General do Exército em Brasília, a outra no 7 de Setembro na Avenida Paulista.

Brigou com o presidente da França, chamando sua mulher de feia; deslocou tropas para a fronteira com a Venezuela, mas só um caminhão a atravessou; declarou seu apoio a candidatos a presidente derrotados na Argentina e nos Estados Unidos; insultou a China, o maior parceiro comercial do Brasil no mundo.

Onde já se viu um presidente ser incapaz de não conquistar o partido pelo qual se elegeu e simplesmente abandoná-lo? Anunciar a criação de um partido para chamar de seu e não conseguir? E a 12 meses da eleição, estar sem partido porque muitos querem vê-lo pelas costas? Mas isso é nada se comparado com seu legado.

O voto impresso foi para o lixo. A inflação, antes sob controle, disparou. O número de desempregados aumentou de 13,3 milhões para 14 milhões, e ele não tem uma só grande obra para mostrar. Viajará nesta semana à Bahia para inaugurar com pompa e muito barulho 10 quilômetros de uma estrada asfaltada.

Ganhou uma vizinha incômoda em Brasília – sua ex-mulher Ana Cristina do Valle, nitroglicerina pura, um arquivo vivo que o derrubaria se resolvesse falar. Bolsonaro está agora às voltas com três filhos zero investigados por corrupção. Agradeça a Deus porque o quarto zero ainda está em fase de testes.

De saúde, não vai bem. Imaginou que daria uma boa notícia ao país quando afirmou no último fim de semana que não haverá golpe. Só não haverá porque o Exército, que batizou de seu, não parece tão empolgado com a ideia de jogar fora das quatro linhas da Constituição em socorro a um presidente sem futuro.

Para este blog, não será surpresa se Bolsonaro, mais à frente, desistir de concorrer à reeleição. Está aí uma boa notícia que certamente seria comemorada.

01
Out21

A resposta do senador Contarato ao ataque homofóbico de Fakhoury

Talis Andrade

 

Empresário bolsonarista, financiador de fake news, é confrontado por sua vítima na CPI da Covid-19

 
 
- - -
Ao balançar a cabeça em sinal de nervosismo e cercado de advogados aflitos que se consultavam o tempo todo, o empresário Otávio Fakhoury, bolsonarista de raiz, recebeu do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) a mais dura e comovente resposta que jamais ouviu até aqui quem já depôs na CPI da Covid-19.
 

Foi um discurso histórico de quase 10 minutos. Nas redes sociais, Fakhoury havia atacado o senador por ele ser casado com um homem. Ao referir-se a um post de Contarato, que continha um erro de digitação, o empresário investigado pelo Supremo Tribunal Federal escreveu em tom de deboche:

“O delegado, homossexual assumido, talvez estivesse pensando no perfume de alguma pessoa ali daquele plenário. Quem seria o ‘perfumado’ que lhe cativou?”.

 

27
Set21

Vírus carregado para dentro da ONU é mais uma coisa só nossa

Talis Andrade

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Plano engenhoso irá para os anais da história do terrorismo mundial

 
 
 

Um terrorista com grande imaginação não faria melhor. Que grande ideia, invadir a sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, pela porta da frente, cercado de atenções e com direito às louvaminhas reservadas a chefes de Estado.

E, uma vez por lá, depois de defender o tratamento precoce com drogas ineficazes contra a doença e de lamentar que outros países não o tenham adotado, soltar o vírus letal. Enquanto seu discurso provocava espanto e indignação, o mal se espalhava em silêncio.

Como todos, no plenário da Assembleia Geral da ONU, usavam máscara e haviam sido vacinados, não há notícia até aqui de contaminados. De resto, Deus é grande e zela pelos que se acautelam e respeitam as boas regras de convivência social.

O Brasil de Jair Messias Bolsonaro, vulgo O Mito, mostrou que os tanques da Marinha que soltaram fumaça na Praça dos Três Poderes, em Brasília, durante o enterro no Congresso do voto impresso, eram apenas uma manobra diversionista.

Assim também como o golpe do dia 7 de setembro, mero recurso de contrainformação. O golpe, mesmo, foi contra as Nações Unidas, de repente ameaçada pela Covid-19 de bolso, método Made in Brazil de guerra moderna que já está sendo estudado.

Destaque-se o primor de execução: o vírus estava na lapela do ministro da Saúde, aquele que deu o dedo para manifestantes, e não na lapela de qualquer outro membro da gigantesca comitiva do ilustre visitante, um apreciador de pizza comida em calçada.

Coisa de gênio!

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22
Set21

Bolsonaro acertou em cheio ao falar na ONU para seu rebanho

Talis Andrade

 

Queriam o quê? Que ele se revelasse o que nunca foi?

 
 
Se um povo faz por merecer o governo que tem, o do Brasil é um governo de cafajestes, velhacos, farsantes e medíocres. Uma escória reunida em torno de um ex-capitão expulso do Exército por ser mal militar a ponto de planejar atentados terroristas a quartéis.
 

Supor que ele seria capaz de comportar-se como um estadista ou discursar como se fosse um na abertura da 76ª Assembleia Geral da ONU, é o mesmo que, há dois anos, ter considerado difícil a escolha entre o charlatão e Fernando Haddad no segundo turno.

Equivale também a dizer, como tantos já dizem, que daqui a 12 meses, se nenhum outro candidato se impuser até lá, a Presidência da República estará ao alcance de dois conhecidos extremistas – Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

Há motivos bastantes para que 38% dos brasileiros digam hoje que não votarão em Lula de jeito nenhum, e 59% digam o mesmo de Bolsonaro, segundo a mais recente pesquisa Datafolha. Mas Lula nunca foi um extremista nem governou como extremista.

Os mais afortunados deste país sabem muito bem disso e beijaram sua mão em apelo para que voltasse a se candidatar em 2014 no lugar de Dilma. Lamentaram porque isso não aconteceu. Os defeitos de Lula comprovadamente são outros, não esse.

Extremista sempre foi Bolsonaro desde que descobriu a política como um meio de vida para sustentar-se, e à sua família, rachando com ela dinheiro público desviado por meio de brechas oferecidas pelas leis, ou simplesmente ignorando as leis.

Jamais passou pela cabeça dele eleger-se presidente. Candidatou-se por estar cansado de sua insignificância como deputado. Seu propósito era garantir a reeleição dos seus três filhos zero, dedicando-se depois a desfrutar de uma gorda aposentadoria.

Deu azar. E, para azar do país, e aí a culpa não é só dele, elegeu-se acidentalmente. Acima de tudo é o medo de ser preso, de os seus filhos serem presos, que o move a tentar reeleger-se. Cada vez mais um presidente anão de jardim, só lhe cabe fazer o que fez na ONU.

Do púlpito mais reverenciado por chefes de Estado, em transmissão direta para a maior parte do planeta, falou aos poucos eleitores que lhe restam com o objetivo de reforçar sua fidelidade. E, desse ponto de vista, saiu-se muito bem e acertou em cheio.

Ao discorrer sobre a política ambiental, distorceu números, mas e daí? São péssimos os números do seu governo. Destacou o avanço da vacinação no país, escondendo que sabotou o combate à pandemia dando passe livre para que o vírus circulasse. E daí?

Voltou a defender o tratamento precoce da Covid-19 apesar de ele ter se revelado um fracasso – e daí? Culpou governadores e prefeitos pela fome, o desemprego e o descontrole da inflação, mas seria louco se assumisse a responsabilidade por eles.

Com a economia capengando, disse que não há no mundo um país mais seguro para investidores do que o Brasil. Por fim, afirmou que milhões de pessoas foram às ruas no 7 de Setembro nas maiores manifestações de apoio que um governo já teve.

Mentiu, mentiu em profusão, inventou um país que não existe, mas se não o fizesse se arriscaria a perder apoiadores. Eles não gostaram do golpe abortado ou que ficou para o futuro, nem da versão Jairzinho paz e amor patrocinada por Temer.

Certamente amaram a reencarnação de Bolsonaro. O falso rebelde vive – o indicado por Deus para salvar o Brasil do comunismo, proteger os valores da família tradicional, resgatar o voto impresso e zelar pela democracia, fechando o Supremo Tribunal Federal.

Algo como 11% dos brasileiros ainda creem nisso. Eram 17% em pesquisas anteriores do Datafolha. A eles poderão juntar-se os que não estão nem aí para discursos na ONU se puderem receber mais alguns trocados para pelo menos alimentar-se.

Uma coisa de cada vez. Apascentadas as ovelhas inquietas, a repartição de migalhas se fará em hora oportuna.

09
Set21

STF impediu golpe de Bolsonaro

Talis Andrade

 

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Por Fernando Horta e Gustavo Conde

Os protestos convocados por Jair Bolsonaro serviram para mobilizar a classe política para o impeachment. Bolsonaro se expôs sem filtro ao país, dissipando qualquer dúvida sobre suas intenções golpistas e messiânicas. Na tarde de 7 de setembro, as redações já operavam incrédulas diante do mergulho suicida de um presidente disposto a tudo.

Mas os acontecimentos foram mais complexos do que isto. Houve uma tentativa clássica de golpe frustrada pela Suprema Corte em madrugada de altíssima tensão. 

Aos fatos e perguntas prévias. 

O que teria dado errado para que Bolsonaro não concretizasse seu tão sonhado golpe? O que efetivamente aconteceu para que os planos golpistas fossem frustrados? Seria apenas um erro de cálculo de Bolsonaro? Seria o fato de o Brasil ter “instituições fortes”?

É consenso que o que ocorreu no dia 7 de setembro foi uma tentativa de golpe. É em função desta fatalidade que jornais e partidos enunciaram o “fim” de Bolsonaro – a tentativa fracassada, no entanto, não freou nem freará o ex-capitão.

Esse problema é de Arthur Lira.

Para entender o que de fato ocorreu, a rigor, é preciso olhar para a noite de 6 de setembro. O que se sabe até aqui permite ligar alguns pontos. 

Desde o início da semana, os hotéis de Brasília foram sendo tomados – especialmente os mais baratos. Isso indicou o deslocamento antecipado de número razoável de pessoas com alguma capacidade financeira – ou contempladas com algum financiamento.

No dia 6, quase todos os hotéis mais baratos de Brasília estavam lotados. Esse movimento não passou despercebido pelo STF e por todo o aparato de inteligência por ele montado – já que PF e a ABIN foram sequestradas por Bolsonaro.

A partir das 12h do dia 6, a PM do Distrito Federal iniciou os planos de isolamento da região central da cidade (a Esplanada dos Ministérios) como parte do plano de segurança que é imposto compulsoriamente em dia de manifestações.

Nota: Brasília, sabemos, é uma cidade planejada. E da forma como foi planejada, o ‘fechamento’ à entrada do povo nas fachadas de poder é das tarefas mais fáceis e elementares (apesar de ser planejada por um comunista, essa é uma característica urbana de Brasília propícia a ditadores – basta que a PM coloque barreiras para que o povo seja excluído do protagonismo social).

Por volta das 18h, numa ação claramente planejada em moldes militares, bolsonaristas resolveram “testar a água”. Um grupo de cerca de 600 pessoas passou a retirar as barreiras e abrir espaço para que os grandes caminhões, que já estavam na cidade, rompessem o bloqueio.

Esse “destacamento avançado”, com missão de reconhecimento, foi abrindo espaço sem a resistência da PM do Distrito Federal – uma das polícias mais bolsonaristas do país.

Do lado ‘de cima’, o governador do DF, Ibaneis Rocha Junior (MDB) – bolsonarista e supostamente envolvido com as ilegalidades do Ministério da Saúde juntamente com a Precisa e Ricardo Barros – convenientemente não estava presente no DF. 

Ou seja: estava tudo armado para uma “pequena” indisciplina da PM de Brasília, pretexto para que se incendiasse o país inteiro. Tudo passaria como uma azarada “falta de ordenamento” em função da ausência do governador. 

Brasília, pela manhã, daria o tom do golpe.

Caso as mobilizações prometidas em número chegassem a Brasília, Bolsonaro faria da Paulista apenas seu palco de completo sucesso. O presidente contava com pelo menos um milhão de pessoas em Brasília e, com isso, a pressão sobre as outras polícias dos Estados seria insustentável.

Para entender o que deu errado, é preciso voltar novamente à madrugada do dia 6. 

Percebendo a fúria com que os bolsonaristas progrediam destruindo as barreiras na esplanada, seguidos da complacência inicial da PM, vários atores políticos – como o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e o jornalista Ricardo Noblat – passaram a ligar incessamente para o governador Ibaneis, e a usar as redes sociais para denunciar o estopim do golpe. 

Essa “grita” inicial chegou ao presidente do Supremo, Luiz Fux, que, com a corte em uníssono, entrou em contato direto com a PM do DF exigindo providências.

A resposta inicial da PM foi protocolar. O STF não é a autoridade imediata a quem a PM seria obrigada a responder. A Constituição, por sua vez, diz que as PM’s estão subordinadas ao Exército. 

Eis o ‘golpe de mestre’ do STF. 

Fux ligou direto para os comandantes militares, ainda durante a madrugada, avisando que caso as PM’s seguissem o comportamento leniente, ele (Fux) chamaria a GLO e convocaria as Forças Armadas para deter os manifestantes. 

O que o STF fez foi adiantar uma tomada de decisão do Exército Brasileiro. As Forças Armadas esperavam primeiro a mobilização popular prometida, para então apoiarem o levante. Estavam naquela madrugada, portanto, aguardando. O STF, contudo, exigiu uma posição imediata do Exército.

Do ponto de vista do STF, a ação era simples. Negasse o exército a ordem de Fux e o golpe estava consumado. Não haveria necessidade da pantomima do 7 de setembro. Por outro lado, ao adiantar a tomada de decisão, o STF elevava exponencialmente o custo desta ação para os militares.

Na prática, tivessem os militares desobedecido Fux e no dia 7 as manifestações “flopassem”, os comandantes militares seriam processados por insubordinação e sairiam culpados de sedição. O preço era alto demais. A exigência da decisão ainda no dia 6 quebrava o plano bolsonarista

No meio desse imbróglio, duas figuras trabalhavam. De um lado, Alexandre de Morais, de posse das informações de inteligência, mapeava o financiamento dos movimentos e bloqueava as contas certas e as chave-pix, asfixiando os financiadores de Bolsonaro.

Muitas “caravanas” de locais perto de Brasília não puderam sair por conta da falta de dinheiro. O resultado foi o número reduzido de apoiadores. 

O outro ator que agia em silêncio era o vice-governador do DF, Paco Britto (Avante) que atuou diretamente com as PM’s. Na falta de Ibaneis, a desculpa das PM’s para a inação não seria mais possível. O comportamento ambíguo do governo do DF (ora apoiando Bolsonaro ora obedecendo ao STF) já tensionava o ambiente. 

Britto, no entanto, compreendeu que recairia sobre ele toda a culpa de uma malfadada sedição que ocorresse nas PM’s de Brasília. Novamente, o STF aumentava o custo da tomada de decisão e o vice precisou garantir as PM’s “na linha”.

Com a recomposição das linhas hierárquicas do Exército – a partir da cobrança do STF na madrugada do dia 6 – e com a lealdade das PM’s (ainda que a contragosto) garantidas, a margem de sucesso do golpe de Bolsonaro ficou pequena.

No final do dia 6, percebendo os planos naufragarem, os filhos do presidente foram até os manifestantes que faziam a “frente” para o movimento na tentativa de insuflar o apoio necessário para a sedição no dia seguinte e também impactar a PM

Não funcionou. Tirando os apoiadores mais exaltados, o restante dos apoiadores de Bolsonaro – aqueles que chamamos de “atores racionais” – fizeram um cálculo de custo/benefício de suas ações. 

A tensa madrugada do dia 06 de setembro, que virou com fogos de artifício o tempo todo, determinou o fracasso do golpe do dia 7. O STF subiu o custo das ações políticas dos outros agentes e diminuiu o acesso destes agentes às informações que precisavam para a tomada de decisão.

As ações não foram coordenadas entre os atores políticos que saíram denunciando a posição claudicante da PM no dia 6 e o STF que colocou “a faca nos peitos” dos comandantes militares, mas, de alguma forma, elas foram complementares.  

O golpe naufragou.

Não podemos, contudo, achar simplesmente que ele não foi dado (que Bolsonaro não cometeu crime porque “o resultado não foi alcançado” como é o argumento dos defensores do governo na CPI). 

Se deixarem Bolsonaro solto, ele tem mais um 7 de setembro para tentar. E mais um ano para planejar – agora, sem os erros cometidos nessa intentada.

caminhoneiro 7 setembro bolsonaro golpe.jpeg

 

20
Ago21

O que o 7 de setembro bolsonarista reserva aos que comparecerem

Talis Andrade

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Comida farta e um kit

 
 
Pão e mortadela, o lanche servido no passado a manifestantes que atendessem aos chamados do PT, é comida de pobre. Os pobres que se dispuserem a comparecer ao próximo 7 de setembro bolsonarista terão direito a três refeições completas, segundo os organizadores do ato que acontecerá em Brasília e em São Paulo.
 

Os mais abastados, pelo menos no caso de Brasília, terão também direito a estacionamento exclusivo, gratuito e a salvo de pivetes, e a um kit-Bolsonaro que inclui um copo com a foto do presidente, boton com a imagem do presidente, chaveiro com a imagem do presidente, máscara e fitas com o nome do presidente.

Bolsonaro, em pessoa, será a grande atração do ato, em Brasília de manhã, em São Paulo à tarde. Ainda lhe falta o dom da onisciência para estar presente ao mesmo tempo em vários lugares.

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- - -

Nota deste correspondente: O uso de máscara e de álcool em gel será considerado um ato hostil . Para o general de pijama, ainda lúcido, Augusto Heleno: será o 'Dia do Foda-se'. Quando Sete de Setembro é o Dia da Independência, da Liberdade do Brasil

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18
Ago21

Procuradoria-Geral da República põe Bolsonaro acima da lei

Talis Andrade

 

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Parecer leviano e cínico da sub-procuradora Lindôra Araújo assegura ao presidente o direito de ir e de vir livremente, sem máscara

 

 
Por lei, o uso de máscara contra a Covid-19 é obrigatório em quase todos os Estados brasileiros e também no Distrito Federal. Em São Paulo e no Maranhão, o presidente Jair Bolsonaro já foi multado por não usar máscara e provocar aglomerações.
 

A Organização Mundial da Saúde recomendou o uso da máscara em todo o planeta. Há 21 estudos científicos que registraram o impacto benéfico do uso das máscaras na população em geral. E nenhum que conclua que ela faça mal ou que seja inútil.

Mas, se depender da Procuradoria-Geral da República – e depende unicamente dela – Bolsonaro jamais será investigado por não usar máscara, promover aglomerações e pôr em risco a saúde de outras pessoas. Partidos políticos pediram que ele fosse investigado, sim.

Em seu parecer, a subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, rejeitou os pedidos alegando que “em relação ao uso de máscara de proteção, inexistem trabalhos científicos com alto grau de confiabilidade em torno do nível de efetividade da prevenção”.

Oi! Não é justamente o contrário? Bolsonarista assumida, Lindôra teve o cinismo de escrever que “não é possível realizar testes rigorosos, que comprovem a medida exata da eficácia da máscara de proteção como meio de prevenir a propagação do vírus.”

E afirmou que “o presidente da República, ao participar dos eventos referidos pelos noticiantes, não havia sido notificado para se sujeitar a qualquer das medidas mencionadas acima, mesmo porque não estava doente, nem apresentava sintomas”.

Quer dizer: Bolsonaro não havia sido avisado que leis estaduais e pelo menos uma federal aprovada pelo Congresso, tornava obrigatório o uso de máscara e proibia aglomerações. E desconhecia que um assintomático pode transmitir a doença.

É para o que serve a Procuradoria-Geral da República desde que Augusto Aras foi nomeado para chefiá-la e cercou-se de gente de sua confiança. Só o Procurador-Geral pode investigar ou denunciar o presidente por eventuais crimes que cometeu.

Bolsonaro está liberado para cometer os crimes que quiser, pois Aras e a sua turma lhe garantem impunidade. Como Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, garante que por ele não passará nenhum pedido de impeachment dos centenas que ali chegaram.

O Brasil ganhou, enfim, um presidente da República acima da lei. Ou fora da lei.

14
Ago21

Prisão de Jefferson é sinal dos tempos infames que o país vive

Talis Andrade

Charge do Amarildo

 

Governo e Congresso descem a ladeira sob o comando de Bolsonaro e do $entrão. A Justiça ainda resiste

 
 
Verdade que Luiz Eduardo Ramos não é um jurista. Não se cobre dele, portanto, que entenda o mínimo de lei e que seja capaz de aplicá-la. Mas se alcançou o posto de general quatro estrelas, cume da carreira, não pode de todo ser completamente ignorante.
 

Chamar Roberto Jefferson de “soldado da democracia”, como ele o fez, não é liberdade de expressão. No mínimo significa que Ramos não entende de democracia nem de soldado. Jefferson só obedece aos próprios interesses. Um soldado, às ordens de cima.

Ramos, hoje, é ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, desalojado da chefia da Casa Civil com a entrada no governo do senador Ciro Nogueira (PI), o principal líder do $entrão. O general está sempre pronto a servir a Jair Bolsonaro.

Jefferson, hoje, amanheceu preso no Rio, acusado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de atentar contra a democracia, de calúnia, injúria e difamação, e de integrar uma organização criminosa. Cadeia não é algo estranho a ele.

Tampouco é ficar do lado errado da história. O ex-deputado foi da tropa de choque do presidente Fernando Collor, cassado por corrupção. Em 1993, escapou de ser citado no relatório final da CPI que investigou desvio de dinheiro do Orçamento da União.

Por não ter recebido, em 2005, dinheiro sujo prometido ao seu partido, o PTB, denunciou o mensalão do PT, o pagamento a deputados para que votassem como mandava o governo, teve o mandato cassado, foi condenado e preso.

Uma vez solto e recuperado de um câncer, reassumiu o comando do PTB, e como quer voltar à Câmara, tornou-se um bolsonarista mais radical do que o presidente da República. Seu partido está em decomposição, mas isso não lhe importa nem um pouco.

Agosto no Brasil é marcado por acontecimentos políticos trágicos. Em 1954, ameaçado por um golpe militar, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se. Em 1961, com apenas seis meses de mandato, o presidente Jânio Quadros renunciou para dar um golpe.

O tiro no peito de Vargas adiou o golpe que se consumou 10 anos depois. A renúncia de Quadros abriu caminho para a entrada em cena da ditadura de 64, que durou 21 anos, produziu mais de 400 mortos e desaparecidos e atrasou o desenvolvimento do país.

A prisão de Jefferson não está à altura da má fama que tem agosto por aqui. É produto de um período medíocre da nossa história, do pior governo que o país já conheceu e de um Congresso que envergonha seu passado. Só a Justiça ainda resiste à degradação.

11
Ago21

Presidente deu mais um tiro no pé – desta vez no dos militares

Talis Andrade

Orlando Brito

Parada bélica e inócua fora de hora vira motivo de chacota

 

- - -

O que foi mais vexaminoso em Brasília? Uma minúscula parada militar não prevista em nenhum calendário para a entrega de um convite ao presidente da República? Ou o estado deplorável de parte dos equipamentos bélicos exibidos com a intenção de meter medo nos deputados prestes a decidir sobre o voto impresso?

A exibição de 40 veículos da Marinha, entre blindados, caminhões e jipes, provocou riso e foi motivo de deboche nas redes sociais. Ali, segundo levantamento da Quaest Pesquisa, dos 2,3 milhões de posts publicados, 93% foram de chacota ou crítica ao governo federal. Mais um tiro no pé, e desta vez no das Forças Armadas.

Na época da ditadura militar, essas coisas eram feitas com mais cuidado. Foi montado em um cavalo branco, com a farda impecável e um chicote na mão, que o general Newton Cruz, notório pelos maus bofes, reprimiu manifestantes que esperavam defronte ao Congresso a aprovação da emenda das Diretas, já.

Verdade que não faltou um toque de ridículo. O Exército depois distribuiu fotos do saque a um supermercado onde aparecia um homem carregando um suposto explosivo que não chegou a ser detonado. O Jornal do Brasil descobriu que o explosivo não passava de uma lata de Nescau. O guerrilheiro Nescau.

Faltou gente na rua para observar a entrega pelo comandante da Marinha do convite ao presidente Jair Bolsonaro que ostentava seu sorriso de plástico ao lado do ministro Braga Neto, da Defesa, e dos chefes do Exército e da Força Aérea. Desperdiçou-se combustível com um ato que se revelou inócuo.

Uma militante do PT, vestida com uma blusa onde pedia o impeachment de Bolsonaro, ainda tentou salvar as aparências oferecendo flores ao piloto de um dos blindados. Quando nada, lembrava vagamente uma cena da Revolução dos Cravos, em Portugal, que inspirou uma música de Chico Buarque de Holanda.

O esforço valeu, mas as aparências não foram salvas. Vozes em off tentaram salvar a face do comandante do Exército ao soprar que ele estava ali visivelmente constrangido. Se Bolsonaro alcançar seu objetivo de dar um golpe caso não se reeleja, só faltará que digam que os militares o apoiaram por puro constrangimento.Charge mostra um sucateiro com sua carrocinha diante de uma tanque de guerra velho e sucateado. Ao fundo se vê o Palácio do Planalto. O sucateiro pergunta ao soldado que está no tanque de guerra velho: "Quer vender?"

 
17
Jul21

Artistas lançam clipe em ato por impeachment de Bolsonaro (vídeo)

Talis Andrade

 

Para marcar a manifestação na entrega de 30 mil assinaturas pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, artistas lançaram o clipe “Desgoverno"

 

 

Nesta quinta-feira (15), conhecidos nomes da classe artística brasileira participaram de uma transmissão ao vivo, com parlamentares da oposição, que marcou a entrega de um manifesto de artistas pelo impeachment de Jair Bolsonaro, que reúne mais de 30 mil assinaturas de artistas de vários segmentos, representantes de movimentos ligados à cultura e setores da sociedade civil.

Para marcar a manifestação, aconteceu o lançamento oficial do clipe “Desgoverno".

Confira a lista de artistas que participaram do clipe: Aílton Graça, André Abujamra, Andrea Horta, Bárbara Paz, Camila Pitanga, Chico Salem, Dani Nega, Denise Fraga, Dira Paes, Danilo Grangheia, Ellen Oléria, Elisa Lucinda, Fabiana Cozza, Julia Lemmertz, Letícia Sabatella, Luís Miranda, Gero Camilo, Malu Galli, Marco Ricca, Matheus Nachtergaele, Sandra Nanayna, Zahy Guajajara, Zeca Baleiro e Zélia Duncan

Blog do Noblat
Artistas lançam clipe em ato por impeachment de Bolsonaro
CONGRESSO EM FOCO - Desgoverno
Desgoverno - Zeca Baleiro e Joãozinho Gomes ARTISTAS CONTRA BOLSONARO. Confira o clipe "Desgoverno", composição de Zeca Baleiro e Joãozinho Gomes

 

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  63. O
  64. N
  65. D
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