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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Set21

Ao sequestrar o Sete de Setembro, Bolsonaro certamente desagradou à caserna

Talis Andrade

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por Ricardo Bruno

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Após se apropriar do verde e amarelo e da bandeira nacional, Jair Bolsonaro conseguiu ofuscar as comemorações da Independência Brasileira. Reduziu o Sete de Setembro a um espetáculo grotesco, beligerante, um revide público às instituições com viés profundamente antidemocrático.  O fez movido exclusivamente por interesses pessoais, num movimento em que sobrepôs as questões que o afligem – entre elas a possibilidade de prisão – aos valores de bravura e coragem historicamente evocados neste dia pelas Forças Armadas. 

A irresponsável subordinação dos grandes temas nacionais à pauta estreita do bolsonarismo certamente não agradou aos comandantes das tropas. A fala do general Carlos Alberto Santos Cruz de que o 7 de setembro foi sequestrado por interesses políticos não foi fortuita, fruto de um arrobo verbal disparado ao acaso. Ao contrário, representa com clareza a posição de setores importantes da caserna.

Em 199 anos de independência, pela primeira vez, um presidente da República - logo um ex -oficial do Exército Brasileiro - se coloca acima da Nação. Trata as questões penais que o adormentam com mais importância do que o conjunto de valores que dignificam a história das Forças Armadas e, de resto, do povo brasileiro. 

Historicamente, o Sete de Setembro é o momento em que as Forças Armadas exaltam a essência do patriotismo dos brasileiros, dada a importância do fato para a construção da identidade nacional. Os conceitos que fundamentam a independência constituem a base de nossa formação cívica. Nesta terça-feira, contudo, os compromissos inarredáveis de devoção pública à pátria e a seus símbolos  foram substituídos por achincalhes do presidente da República à Suprema Corte.  Assim,  valores cívicos basilares da Nação, os quais as Forças Armadas tradicionalmente exaltam e dos quais se orgulham em datas simbólicas, foram obnubilados pela fanfarronice presidencial. 

Ressalvadas as diferenças ideológicas e de caráter de seus protagonistas, a mobilização de Jair Bolsonaro para o Sete Setembro poderia ensejar a apresentação de medidas estruturais para a transformação do País, a exemplo do que fizera João Goulart com as reformas de base no comício da Central do Brasil. 

Ao juntar em praça pública a sua base de sustentação política, Bolsonaro poderia estar criando, hipoteticamente, as condições objetivas para apresentação de um conjunto de metas e diretrizes governamentais num ato altissonante em que supostamente obteria o aval popular para seus planos. Ainda que se discordasse de tudo que ele propusesse, seria inegavelmente um momento afirmativo do governo.

Nada disto aconteceu. É esperar demais de Bolsonaro. Minúsculo em tudo que faz, ele se ocupou apenas de uma contraofensiva retórica às investigações do STF que podem eventualmente levá-lo à cadeia. Capturou o sentimento pátrio do Sete de Setembro para promover uma patuscada cívica. Sequestrou valores nobres num movimento que, por baixo, malbaratou a história de bravura e coragem das tropas na construção da identidade nacional.

Ao fazê-lo, praticou crimes de responsabilidade aos borbotões numa cena pública deplorável para um país da importância e da dimensão do Brasil.

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05
Jun21

Delação contra Bretas é apenas a ponta do iceberg da Lava Jato do Rio

Talis Andrade

Marcelo Bretas e Almirante Othon

247 - O advogado Fernando Augusto Fernandes comentou nesse sábado (4) as acusações de que o juiz federal Marcelo Bretas, da Lava Jato do Rio de Janeiro, negociou penas, combinou estratégias com o Ministério Público e direcionou acordos, feitas em delação premiada pelo advogado Nythalmar Dias Ferreira

Fernandes é advogado do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear, que foi condenado por Bretas a 43 anos de prisão, em 2016, para apavorar outros investigados na Lava Jato. "Esta matéria de hoje, me parece que é a ponta de um iceberg. Temos muitas coisas, provavelmente, para vir à tona. O principal relator da Lava Jato carioca, Abel Gomes, pediu aposentadoria. Isso logo após o segundo desembargador, Fausto de Sanctis, ter se declarado suspeito para julgar todos os casos da Lava Jato. Isso já é decorrência destas revelações do Nythalmar, e do que está por vir ainda", afirmou.

Fernandes defendeu ainda que Bretas fez política utilizando o cargo de juiz e irá pedir à Justiça Federal a suspeição do magistrado, nos moldes do que fez a defesa do ex-presidente Lula contra o ex-juiz Sérgio Moro. "Não é mais possível admitir juiz utilizar processo para fazer política. Não é só o general Pazuello que não pode ir para o palanque", acrescentou.

O jornalista Ricardo Bruno, que também participou do Boa Noite 247, afirmou que o juiz Bretas interferiu nas eleições estaduais de 2018 no Rio de Janeiro, beneficiando o ex-juiz e então candidato apoiado por Jair Bolsonaro, Wilson Witzel.

"Bretas convocou um ex-assessor de Eduardo Paes para um quarto depoimento, às vésperas das eleições de 2018, e divulgou depois este conteúdo, com acusações a Paes. Naquele momento, todo mundo suspeitou daquela atitude. Mas agora, o Nythalmar disse, de maneira clara, que tudo foi calculado para interferir no processo eleitoral", afirmou Ricardo Bruno, editor do site Agenda do Poder.

06
Out20

Bolsonaro está desmontando o estado policial ingenuamente construído pelo PT

Talis Andrade

 

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por Ricardo Bruno

- - -

Em que pese a aversão visceral ao estilo autocrático de Bolsonaro, seus últimos movimentos revelam algumas surpresas positivas. A escolha do desembargador Kassio Marques para o STF está certamente entre elas.  O presidente driblou o fundamentalismo evangélico para se fixar num nome moderado, aparentemente garantista.  

Bolsonaro jamais deixará de ser Bolsonaro, mas acerta quando resolve decidir através da política, pela negociação, sem arroubos individualistas e um pouco mais distante dos grupos radicais de sua base.

Por mais contraditório que pareça, seus primeiros acertos decorrem da aliança com setores fisiológicos do congresso. A centro-direita aglutinada no centrão é conservadora, mas não fundamentalista como as frações neo-pentecostais que capturaram o governo em seus primeiros meses. 

Com o centrão, negocia-se, faz-se política - ainda que haja risco de fisiologismo. Com os fundamentalistas, o tomá-la-da-ca é ainda mais despudorado pois perigosamente revestido de uma suposta infalibilidade divina. De resto, é sempre melhor decidir pela política do que por influência de falsos profetas. 

A escolha de Kassio Marques não é um movimento isolado, resultante de uma negociação aleatória.  Aos poucos, o presidente está desmontando o estado policial ingenuamente montado pelo PT – que, logo depois, se transformaria em sua principal vítima.

Ao abandonar o politicamente correto e assumir posições de risco, Bolsonaro rompeu a crescente influência das corporações nos rumos da administração. Pôs freio ao poder paralelo - criado por setores do Judiciário e do Ministério Público, com participação ativa de lideranças da Polícia Federal - que impunha rédeas e diretrizes ao governo numa inaceitável substituição ao poder político legitimado pelo voto.  Por algum tempo, o Brasil parecia governado por Moro, Dallagnol e sequazes.  Todos os demais poderes lhe eram obedientes. Esta lógica parece rompida. 

 Inicialmente, o presidente contrariou a lista tríplice do MP e indicou Augusto Aras para PGR.  O novo Procurador-Geral exerce o cargo em lógica contrária ao personalismo lavajatista, que criou falsos redentores da moral pública.  Fez ver que a instituição é mais importante do que a ação de uns poucos missionários que operavam ao arrepio da lei para supostamente recuperar padrões éticos de governança. 

Há poucos anos era inimaginável menosprezar a lista tríplice numa indicação desta natureza. Dilma Roussef, ao reconduzir Rodrigo Janot, o mais votado, disse à época que sua decisão deveria ser interpretada como um absoluto aval à independência do Ministério Público. 

O politicamente correto impedia sequer o debate sobre a possibilidade de um outro nome cujas ideias se aproximassem dos eixos centrais de atuação do governo eleito. Não se fala em cooptação tampouco em subserviência – apenas em afinidades, em visões próximas.

Tal era a pressão das corporações que a presidência da república sequer podia exercer a prerrogativa constitucional de escolher livremente o Procurador-Geral. O cumprimento da lei era tomado como afronta ou tentativa de aparelhamento da máquina. O aceite tácito desta regra não escrita produziu um aparelhamento às avessas. As corporações capturaram o governo, fragilizando-o, incialmente, para depois derrubá-lo, com a ajuda do congresso, no golpe contra Dilma Roussef.

Ingenuamente, antes, Dilma Roussef sancionou a lei das delações premiadas sem uma tipificação minuciosa de sua aplicação, deixando brechas para se transformar num instrumento de arbítrio. O estado policial teria agora um poderoso e moderno mecanismo para obter a fórceps delações forjadas de réus, em desespero, no cárcere. 

Inflado por manifestações populares, o poder dos estamentos corporativos passou a concorrer com poder político. Bolsonaro parece estar tentando inverter novamente esta lógica, fruto de uma deletéria distorção da Lava Jato que, em nome de uma suposta recuperação ética do poder público, pôs-se acima das instituições republicanas. 

Tosco, despreparado para o cargo, o presidente contudo consegue acertar quando dobra-se ao diálogo e se permite exercer o poder através da negociação. Ao fazer política, ainda que de forma um tanto destrambelhada, cresce naturalmente a chance de alguma coisa dar certo em seu governo. Negociar é sempre melhor do que sucumbir às orientações de bruxos e de pastores que pregam um retrocesso à moral medieval.

 
29
Ago20

Lavajatismo, nunca mais

Talis Andrade

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por Ricardo Bruno

- - -

Que a política nacional foi contaminada pela corrupção, sabemos. Que houve avanço desmedido e criminoso sobre a rés pública, temos certeza. Que é necessário punição rigorosa para os envolvidos, concordamos sem restrições.

Posto isto, é necessário dizer que fazer política não é, em tese, atividade criminosa. É necessário apartar uma coisa da outra. O que a Lava Jato fez sem limite e a operação Tris in Idem repete é a criminalização da política, pura e simples.

Nas 403 páginas da denúncia do Ministério Público Federal atos próprios da atividade parlamentar são distorcidos, interpretados, e apresentados como evidências de crimes. Não se pretende aqui qualquer defesa de ato irregular ou criminoso, que certamente existiu na aplicação de recursos para o combate a pandemia. Contudo, não se pode tomar como natural a transmutação dos fatos, de modo revesti-los de suspeição dolosa.

Na Alerj, certamente deve haver deputados mal intencionados, desprovidos de zelo ético. Entretanto, o Ministério Público Federal não foi capaz de fazer uma acusação consistente de que receberam vantagens pessoais ou propinas. Genérica e imprecisa, a peça é tão somente um libelo contra a atividade política. Os deputados foram acusados de pedir recursos para os municípios de suas bases eleitorais. E isto, segundo o MP, poderia propiciar desvios e ganho político.

É estarrecedor como algo trivial na política, a defesa dos interesses legítimos de determinada região onde atua o parlamentar, é apresentado como prova cabal de pratica criminosa.

Leiam:

“O repasse de recursos para os municípios, mais do que propiciar desvio em retorno para ao deputados, funciona como verdadeira forma de cacifá-los junto aos eleitores locais e não menos relevante de fazer de seus aliados prefeitos e vereadores. O apoio econômico de deputados a municípios é ferramenta de criação de currais eleitorais, haja vista que obras e serviços prestados repercutem na população, que os atrela à figura pública que conseguiu os recursos”.

Em nenhuma linha há sequer vestígio de que o presidente da Alerj ou qualquer outro deputado tenha se beneficiado, ou auferido vantagem pessoal indevida, com liberação de recursos para as prefeituras. São apenas ilações lastreadas na imaginação dos procuradores. Longe de qualquer dado comprobatório, lançaram suspeições genéricas - mas com enorme efeito danoso à imagem pública de seus alvos.

Comportamento próprio de quem deliberadamente faz agravar os fatos numa tentativa de atenuar a sua própria responsabilidade, o ex-secretário Edmar Santos apresentou como crime todos os pedidos que lhe foram encaminhados. Em sua delação, disse que André Ceciliano fez gestões para a liberação de recursos para a prefeitura de São João de Meriti; que Rodrigo Bacellar pediu verbas para a saúde de Carapebus, São Fidelis, Bom Jesus e Campos dos Goytacazes e que Márcio Canella interveio em favor de Belford Roxo, sua base eleitoral.

Em seguida, saltam-se etapas comprobatórias essenciais, para concluir que “as transferências são compatíveis com a estratégia desenhada por André Ceciliano, Wilson Witzel e Claudio Castro, com a finalidade de manter o pode político nas regiões, por consequência o próprio poder da organização criminosa no estado”.

Por inconsistente e improvável, este parágrafo revela a flagrante tentativa de contaminar toda linha sucessória do governo do estado. Houve um notório e exagerado esforço do MP para obter este resultado, não acolhido integralmente pelo STJ.

Há ainda outros fatos pouco críveis na acusação, quase bisonhos. Para supostamente comprovar a existência de dolo na liberação dos recursos, os procuradores compararam os valores liberados com as populações dos municípios. Contrastam Bom Jesus (36 mil habitantes) com Angra dos Reis (200 mil) e induzem a crer que o fato de o município do Norte Fluminense ter recebido mais recursos do que da Costa Verde sugere pratica criminosa. Como se não pudesse ter havido, como de fato parece, uma atuação política mais incisiva em favor de um do que de outro. Coisas absolutamente triviais na rotina política do país.

Na redes sociais, todos os dias deputados federais e senadores postam fotos ao lado de ministros e até do presidente da república comemorando a obtenção verbas orçamentárias para suas bases. Não há pudor nestes fatos porque eles fazem parte da rotina institucional da atividade parlamentar. Tanto é que os deputados federais têm direito a emendas orçamentárias e os estaduais, a fazer projetos autorizativos ou indicações para a liberação de verba pública para determinado projeto.

A se tomar como verdade absoluta o arrazoado do Ministério Público a política estará interditada. E em seu lugar surgirão os aventureiros, falso redentores da moral judaico cristã, como o próprio Wilson Witzel se apresentou em 2018.

Combater a corrupção é atitude exemplar. Mas há que se respeitar a forma, os limites da lei. Sem o que, os esforços se perdem. E o estado democrático de direito se fragiliza. Lavajatismo, nunca mais!

 

20
Fev20

A barbárie já começou

Talis Andrade

 

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por Ricardo Bruno

Em que pese o destempero flagrante na tentativa de resolver uma greve na marra e na força de uma retroescavadeira, o tiro disparado contra senador Cid Gomes é o sintoma mais eloquente da perigosa ruptura do tecido social do país, esgarçado pelos ataques frequentes e imoderados do presidente Bolsonaro. A cada dia, descemos um degrau em direção à absoluta falta de limite no trato das naturais diferenças da sociedade brasileira. O insulto ignóbil, a palavra torpe, a vilania abusiva da autoridade máxima da República contribuem para firmar no inconsciente coletivo da sociedade a certeza de que tudo pode e deve ser feito contra aqueles que se antepõe à nossa visão de mundo.

Assim, multiplicam-se as ofensas a comunistas e esquerdistas em geral; disparam as agressões a lésbicas e gays; proclamam-se mortes decorrentes da  ação policial como troféu; difundem  a difamação  como método; confrontam o adversário não para vencê-lo. mas para eliminá-lo. Neste torvelinho de ódio, ergue-se, por fim, a versão caluniosa que, exposta nas redes sociais por falanges robotizadas, substitui a verdade, obtendo mais força do que o próprio fato. Às avessas, confirma-se o vaticínio de Nietzche: “Já não há fatos, apenas versões”.  A história do país está se tornando uma fábula, construída na deliberada distorção da verdade a partir da presidência da república e de seus acólitos.

As agressões misóginas à repórter da Folha são uma página desta fábula tenebrosa em que tentam transformar nossa história. Por mais repugnante, o ato não é isolado. Não resulta de um deslize ocasional; é parte de um enredo cujo epílogo é a demolição dos alicerces democráticos do país.

Mais do que um crime isolado, a bala alojada no pulmão do senador Cid Gomes é o sintoma mais contundente de que já não vivemos somente a irremediável discórdia; a abominável intolerância; a repugnante truculência emanada pelo poder.  A barbárie já começou. E só será contida pela ação enérgica do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Se as instituições, neste momento, não puserem freios a esta degradação de métodos e princípios, a Nação mergulhará numa crise sem precedentes, levando de roldão a maior conquista da sociedade brasileira: a democracia - construída na luta dos que ofereceram a vida contra o arbítrio de 64 e edificada na Constituição cidadã de 88.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, tem-se mostrado preocupado com atual escalada de gestos e ações que comprometem o regime democrático. Não será improvável que, a curto prazo, proclame posições duras de oposição aos arroubos autoritários presidenciais. Na mesma linha, espera-se uma nítida tomada de posição dos ministros do Supremo – guardiões finais dos princípios democráticos liberais de Tocqueville, pilares da Constituição Brasileira.

Neste momento, os democratas de todos os matizem precisam estar juntos. Para além das batalhas eleitorais, a unidade é essencial para derrotar a barbárie e garantir a integridade da democracia brasileira. Churchil, Roosevelt e Stalin já nos ensinaram que é necessário grandeza quando se tem pela frente um adversário ardiloso. A gravidade do momento não permite erros tampouco vaidades. Exige ação!

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20
Fev20

Assessores de Damares na greve dos PMs do Ceará. Pode?

Talis Andrade

A ordem unida de fechar o comércio. Os policiais militares amotinados em Sobral, Ceará, parecem bandidos em ação

por Marcelo Auler

Na insurreição dos policiais militares do Ceará, que são facilmente associados a milicianos, há um movimento insuflando a insubordinação. Isto é público. O que pode parecer estranho, porém, é a participação de assessores diretos do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH) na defesa de tais manifestantes. Dois deles estavam, na quarta-feira (20/02), ao lado do deputado federal e pré-candidato a prefeito de Fortaleza, Capitão Wagner (Pros), na tentativa frustrada de uma audiência com o governador Camilo Santana (PT), para “mediar os interesses da categoria”, como noticiou o jornal cearense O Povo. O governador não recebeu o grupo.

 

A notícia da presença destes dois assessores de Damares Alves aparece perdida no meio de uma reportagem do mesmo jornal na qual o Capitão Wagner tenta sustentar o insustentável. Alega que os tiros dado no senador Cid Gomes (PDT) foram legítima defesa – Wagner diz que tiros em Cid foram “legítima defesa” e pretende registrar B.O contra senador. Na reportagem consta o que destacamos na ilustração abaixo.

“Estavam com Wagner o secretário nacional de Proteção Global, Sérgio Queiroz, o diretor de Proteção e Defesa de Direitos Humanos, Herbert Barros, ambos vinculados ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e os deputados federais Capitão Alberto Neto (Republicanos-AM) e Major Fabiana (PSL-RJ)”.

Já soa estranho a presença, em Fortaleza, de uma deputada do PSL do Rio de Janeiro, Major Fabiana, em pleno dia de funcionamento do Congresso Nacional. Estava ali para defender policiais militares como ela. Apesar de eles estarem amotinados, promovendo a insegurança pública e descumprindo a Constituição que impede movimentos grevistas dos servidores que recebem armas do governo para defender a população. Porém, parece mais inexplicável a participação nesta movimentação de dois servidores públicos federais, cujas funções, aparentemente, são de defender os Direitos Humanos.

Certamente alegarão que estavam negociando uma solução pacífica. Defendendo o Direito Humano dos policiais militares amotinados e seus familiares. Alegação que dificilmente fará sentido quando se percebe que ambos acompanhavam o deputado Capitão Wagner.

Sérgio Queiroz e Damares AlvesAfinal, o passado deste capitão registra outros atos de insubordinação da polícia militar. Foi o líder do movimento de paralisação da Polícia Militar e Bombeiros no Ceará, no final de 2011 e início de 2012. Na época, já tinha concorrido a deputado estadual pelo Partido da República. Sem falar que, como todo o povo cearense sabe, está em campanha aberta pela prefeitura de Fortaleza.

Mais estranha ainda a presença em Fortaleza de Queiroz, um pastor evangélico e procurador da Fazenda Nacional licenciado desde que assumiu o cargo no MDH. Pois, na mesma quarta-feira em que ele se juntava ao deputado Capitão Wagner, anunciou-se que não mais atuará no ministério em que se encontra. Como registrou Eduardo Barreto, na Revista Época, o passe” do servidor foi requisitado por Onyx Lorenzoni, para lhe auxiliar no Ministério da Cidadania.

Queiram ou não, a presença, em Fortaleza, na quarta-feira, destes dois servidores federais – Queiroz e seu subordinado, Barros -, junto a políticos que defendem policiais militares que estavam praticando atos contrários à Constituição e relacionados às atividades de milicianos, só aumenta a convicção de muitos que o  governo de Bolsonaro insufla as milícias. Tal e qual fez no Rio de janeiro ao longo de sua carreira parlamentar. Inclusive com seu filho, o hoje senador Flavio Bolsonaro, empregando parentes de milicianos em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – ALERJ. Mais ainda, visitando milicianos presos, como ocorreu com o ex-capitão Adriano Nóbrega e foi noticiado pelo O Globo, nesta quinta-feira (20/02) – Flávio Bolsonaro visitou ex-PM Adriano Nóbrega na prisão, diz vereador.

Enfrentamento necessário

Não se deve perder de perspectiva que os policiais militares insubordinados que foram enfrentados pelo senador Cid Gomes (PDT, em Sobral, município distante 230 quilômetros de Fortaleza, promoveram o tumulto típico de traficantes e milicianos.

Ameaçaram comerciantes, obrigando-os a fecharem suas lojas. Como noticiou o G1-Ceará, na tarde de quarta-feira – Homens encapuzados em carro da PM ordenam, e comerciantes fecham as portas em Sobral. Levaram o pânico à cidade de 147 mil habitantes.

Todos encapuzados, como encapuzados estavam os policiais amotinados no quartel usando seus familiares como escudo. Velha e conhecida tática que Bolsonaro já usou quando promovia protestos de familiares de militares por aumentos salariais. Mas o movimento dos policiais militares no Ceará, por tudo o que se viu, não era apenas reivindicatório. Soou como atentatório à ordem.

Pode-se criticar a atitude de Cid Gomes e até classificá-la de tresloucada, insana. Mas não deixa de ter sua boa dose de coragem. Afinal, de peito aberto e desarmado, ele enfrentou a insubordinação antes que as milícias dominem a polícia cearense.

Como ocorreu no Rio de Janeiro e foi muito bem lembrado por seu irmão, o também ex-governador Ciro Gomes, ao responder às críticas do deputado Eduardo Bolsonaro: “Será necessário que nos matem mesmo antes de permitirmos que milícias controlem o Estado do Ceará como os canalhas de sua família fizeram com o Rio de Janeiro”, escreveu Ciro nas redes sociais.

Um enfrentamento que a sociedade brasileira precisará promover, caso não queira ser totalmente dominada. Não necessariamente pegando em armas. Mas há que se descobrir formas de evitar que a democracia brasileira descambe para a barbárie, como pregam os Bolsonaros e foi muito bem lembrado por Ricardo Bruno, no Brasil 247 – A barbárie já começou.

A necessidade do enfrentamento ficou patente nos tiros disparados pelos policiais militares insubordinados dentro do quartel contra Cid Gomes. Demonstram o tipo de movimento que ali nascia e acabou de certa forma abortado, ou paralisado. Nem se alegue que foi legítima defesa, como tenta vender em seu discurso o deputado Capitão Wagner, com a explicação de que o senador iria atropelas mulheres, crianças e militares. Algo que se torna apenas hipótese, sem que se possa dizer que aconteceria.

Hipótese por hipótese, pode-se alegar que se todos sentassem e cruzassem os braços, em atitude ensinada por Mahatma Gandhi, o senador jamais aceleraria a retroescavadeira.

Mas, assim como soa estranho explicar a presença dos assessores da ministra Damares em Fortaleza, também parece ridículo esperar de milicianos atitudes pacíficas. Isso passa longe dos objetivos deles e, pelo que temos visto, ainda mais nos exemplos dos últimos dias, é o que demonstra também o governo Bolsonaro.

 

 

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