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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

24
Jun19

CHANCELER ALEMÃ DIZ QUE NEONAZISTAS DEVEM SER COMBATIDOS “SEM NENHUM TABU”

Talis Andrade

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A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu neste sábado (22) que se lute contra os neonazistas “sem nenhum tabu”, dias depois do assassinato de um político pró-imigração por um suposto simpatizante deste movimento. O país teme um surto do terrorismo de extrema direita.

Os neonazistas violentos “têm que ser combatidos desde o princípio e sem nenhum tabu”, afirmou a dirigente, convidada em Dortmund com motivo do Dia da Igreja Protestante na Alemanha.

“Por isso o Estado é solicitado em todos os níveis, e o governo federal leva isto muito, muito a sério”, acrescentou.

A chanceler alemã faz estas declarações após o assassinato, no início de junho, de Walter Lübcke, um político da CDU, o partido conservador de Merkel, em seu domicílio no oeste do país.

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Um suspeito de 45 anos, vinculado ao movimento neonazista, foi detido no fim de semana passado. Este drama comoveu o país.

“Não se trata apenas de um ato terrível, mas de um grande desafio para nós, para examinar todos os níveis onde existem tendências de extrema direita”, explicou Merkel.

De manhã, o ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, afirmou no Twitter que a “Alemanha tem um problema com o terrorismo”.

“Temos mais de 12.000 extremistas de direita violentos em nosso país”, afirmou, acrescentando que 450 deles conseguiram passar à clandestinidade apesar das ordens de prisão.

“Temos que nos defender mais: nem mais um milímetro para os inimigos da liberdade”, alertou.

Fonte: RFI

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23
Jun19

MARCHA PARA JESUS EM SÃO PAULO CAPITAL COM MAIS DE CEM MIL MORADORES DE RUA

Talis Andrade

O JAZIGO

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por Fernando Brito

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Não surpreendem a ninguém os números publicados pela Folha, com base em levantamento da prefeitura paulistana, que reveram ter quase dobrado a população de rua no centro de São Paulo.

Mais de 100 mil, ou muito mais, porque os próprios recenseadores admitem que não há como chegar a cada vão de viaduto.

O número de indivíduos abordados não representa a quantidade de pessoas que vive de fato nas ruas. (…) há, por exemplo, moradores da periferia que passam dias e noites vivendo nas calçadas da região central em busca de doações, mas em parte do mês retornam a suas casas, pessoas que estão de passagem pela cidade, entre outras situações”.

Não é diferente no Rio e nem deve ser na maioria das grandes cidades brasileiras.

Qualquer um que passe pelas calçadas da Zona Sul carioca percebe que explodiu o número de pessoas deitadas sobre caixas de papelão e cobertas com trapos.

Mães com crianças, implorando aos passantes que lhes comprem um pacote de balas, homens pedindo que se lhes ajude a comprar uma refeição.

Não é novidade, não mesmo, mas era uma imensa e feia ferida deste país que vinha cicatrizando lentamente, como sempre é com as grandes chagas.

De alguma forma, timidamente, a sociedade, através do Estado – e, mesmo eu não sendo seu fã, admito, das ONGs – dava-lhes o remédio do trabalho e da consciência de que, sim, imundos, maltrapilhos, miseráveis, e, ainda que, como escreveu Drummond, estejam “vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem”,  continuam sendo seres humanos.

Desde o inverno da selvageria, já não são. São, oficialmente, va-ga-bun-dos, suspeitos da droga e do furto, quando não apenas incômodos a nos pedir um cigarro ou uma moeda.

Para prová-lo, dizem que só querem dinheiro, comida, sexo e bebida. Tudo o que nós, os “normais”, afinal, queremos, é o seu pecado.

Inclinam-se em ângulos as soleiras, para impedir que se sentem junto as vitrines do comércio, espetam-se com pedras ou tapam-se com blocos as pontes, para que não se deitem. Nem isso, o descanso precário e duro do cimento, podem ter.

Inútil, eles estão por aí, e por aí mais numerosos estarão a cada dia em que continuarem a dizer que este país precisa empobrecer para crescer, precisa viver pior para poder, num imaginário dia distante, viver melhor, precisa ser selvagem para ser seguro.

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Assim como não os matarão, não matarão o sentimento que nos civiliza, o da solidariedade e o de sermos capazes de sofrer com o sofrimento alheio, como sofreu o adolescente que tirou o agasalho que usava num junho como este, há mais de 40 anos, para dar a um homem velho que tiritava de frio tendo apenas um muro frio proteger-lhe as costas. Perdeu a única vaidade de roupa que já teve, mas ganhou o que lhe aqueceria o peito por toda a vida.

Olhem a foto da Folha, que reproduzo.  São como corpos jazidos de uma guerra, de uma chacina.

Para muitos, com o defeito de estarem vivos, pois mortos atrapalhariam menos o  sossego público.

Mas não estão.

Um dia, deixaremos de ser maus e brutos, e meu país dará, de novo, a mão para que seus filhos se levantem.

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21
Jun19

Filho da deputada Flordelis diz que irmã ofereceu R$ 10 mil para outro irmão matar o pai

Talis Andrade

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Na marcha para Jesus, ninguém rezou pelo pastor Anderson Carmo, morto com diversos tiros, pouco tempo após chegar em casa, em Pendotiba, Niterói, na madrugada de domingo, por volta das 4 horas. 

Sensação de estar sendo seguida


Segundo os primeiros relatos das testemunhas para os PMS, Anderson e a esposa, deputada federal Flordelis (PSD), quando voltavam de uma confraternização, tiveram a sensação de estar sendo seguidos por duas motos. Quando já estavam dentro da residência, Anderson teria voltado na garagem dizendo que ia buscar algo que havia esquecido no carro.


Familiares relataram ainda que, logo em seguida, foram ouvidos os tiros. E que, logo após os disparos, familiares desceram e encontraram Anderson baleado próximo ao carro.

 

Nova versão: Crime passional

Um dos filhos da deputada Flordelis (PSD) contou nesta quinta-feira (20) à Polícia Civil que suspeita do envolvimento da mãe e de três irmãs na morte do pai, o pastor Anderson Carmo, morto a tiros no último domingo. Segundo o jovem, uma delas ofereceu R$ 10 mil ao irmão Lucas dos Santos para matar o pastor.

Procurada, a deputada afirmou por meio da assessoria que não irá se pronunciar sobre o assunto.

O jovem afirmou ainda que o irmão Lucas recebeu proposta de R$ 10 mil de uma das irmãs para matar Anderson. Lucas não estava na casa no momento do crime, mas teria comprado a arma usada no assassinato.

A deputada Flordelis é favorável ao pacote anticrime e política armamentista de Sergio Moro e Bolsonaro. 

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Deputada Federal Flordelis é fervorosa defensora da política armamentista de Bolsonaro e Sergio Moro

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10
Jun19

DALLAGNOL DIZ TER SENTIDO TESÃO COM MATÉRIA DO GLOBO USADA PARA FRAUDE CONTRA LULA

Talis Andrade

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247 – O procurador Deltan Dallagnol sentiu tesão ao golpear a democracia brasileira. “tesao demais essa matéria de O Globo de 2010. Vou dar um beijo em quem de vocês achou isso”, escreveu o procurador Deltan Dallagnol, que fraudou uma acusação judicial contra o ex-presidente Lula.

 

A reportagem mencionada por Dallagnol (aqui) tinha como título "Caso Bancoop: triplex do casal Lula está atrasado" e havia sido publicada em 10 de março de 2010. Para a Lava Jato, a reportagem, muito antes das investigações, seria como que uma "prova definitiva" de que o apartamento do Guarujá pertenceria a Lula. No entanto, na própria reportagem informou que "na declaração de bens feita para a candidatura à reeleição, em 2006, o presidente informou sobre o imóvel, afirmando ter participação na cooperativa habitacional para o apartamento em construção" - o que de fato foi o que Lula afirmou durante todo o processo, mas a informação foi ignorada pela Lava Jato.

Dallagnol, apesar do pecado da tesão, também revelou que rezou e fez jejum para Deus prender Lula. Por essa brasfêmia ganhou o apelido de beato Salu. 

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23
Mar19

A minha Bíblia jamais será laranja

Talis Andrade

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Por José Barbosa Junior

no Blog do Miro e Jornalistas Livres

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“Ai de vocês que fazem leis injustas, leis para explorar o povo!”

(Isaías 10.1)

 

E não é que na República Pornô Gospel Miliciana do Brasil a Bíblia voltou a ser tema de mais uma bravata ministerial? A já descartada pastora Iolene Lima, que seria a segunda pessoa mais poderosa no MEC, defendia um ensino todo “embasado na Bíblia”, segundo ela.

E segundo a Bíblia dela. Laranja.

A Bíblia laranja de Iolene “explica” tudo, mas não responde nada. Por ela, as meninas ainda vestem rosa e os meninos azul, homossexuais devem ser mortos, as tragédias da humanidade são “vontade de Deus”, mulheres devem ser submissas e fazer arminha com as mãos é quase um equivalente ao “erguei as mãos e dai glória a deus”.

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A Bíblia laranja é a mesma de Bolsonaro, de Malafaia, de Feliciano, Valadões… é aquela que acha natural mentir para ganhar a eleição, que não vê problema algum no machismo, vê o feminismo como ameaça, acredita em kits gays e mamadeiras fálicas, quer o “cidadão de bem” armado e prega a violência como o fim de todas as coisas.

Pois a minha Bíblia, ainda que a capa seja preta, é vermelha! Sim, vermelha! Para o bem ou para o mal, vermelha.

Vermelha do sangue que jorra das páginas muitas vezes violentas, principalmente do Primeiro Testamento (ou Antigo Testamento para alguns), quando inocentes e povos “inimigos” morrem aqui e ali pela força dos povos em guerra e por conta de seus deuses sanguinários (inclusive Javé, Deus das tribos que se juntam e formam o povo hebreu). Vermelha do sangue dos profetas que se levantam contra reis tiranos, ainda que muitos desses reis fossem “ungidos do Senhor”. Vermelha do sangue de Abel, que até hoje clama da terra por conta da banalização do mal…

Mas, principalmente, vermelha por conta do sangue de Jesus, o pobre periférico não-branco, tido por muitos como um marginal, que andava rodeado por gente excluída da “sociedade”, filho de exilados políticos e, mais tarde, ele mesmo um preso nas mãos do império e morto como um qualquer. Sangue que denuncia o imperialismo. Sangue que grita contra o preconceito. Sangue vermelho, pisado pelos poderosos e acolhido pelos pobres. Sangue que salva, não por sacrifício, mas por prova contundente de que a vida que se vive para o outro, ninguém é capaz de deter. Nem a morte!

Marielle, presente, confirma isso!

A Bíblia vermelha é a que denuncia a exploração dos mais velhos e das viúvas, como os que já são e serão mais ainda maltratados caso essa Reforma maldita da Previdência seja aprovada: “Tratem os outros com justiça; socorram os que são explorados, defendam os direitos dos órfãos e protejam as viúvas.” (Isaías 1.17)

A Bíblia vermelha denuncia os juízes corruptos, que fazem do seu juízo forma de opressão e apoio aos poderosos: “Até quando dareis sentenças injustas, favorecendo os ímpios? Sede juízes para o desvalido e órfão, fazei justiça ao mísero e ao indigente; libertai o fraco e o pobre, livrai-os das garras dos ímpios!” (Salmo 82.2-4), juízes que mantém inocentes presos: “os quais com uma palavra fazem réu o inocente, no tribunal negociam e trapaceiam contra o defensor, e com testemunho falso e outras mentiras evitam que se faça justiça ao homem íntegro e sem culpa.” (Isaías 29.21)

A Bíblia vermelha condena o acúmulo de capital e a má distribuição de renda: ““Ai de vocês que adquirem casas e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra!” (Isaías 5.8)

A Bíblia vermelha condena o lucro absurdo dos bancos em detrimento da população mais pobre, extorquida: “Você empresta a juros, visando lucro, e obtém ganhos injustos, extorquindo o próximo… Mas você me verá batendo as minhas mãos uma na outra contra os ganhos injustos que você obteve e contra o sangue que você derramou” (Ezequiel 22.12,13).

Por fim, a Bíblia vermelha aponta para Jesus, que vive com e para os pobres, tomando suas dores, lutando por seus direitos, desafiando um perverso sistema que coliga o império à religião, provocando césares e sacerdotes… e deixando vivo o seu exemplo: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (João 13.15).

As Bíblias estão aí… aos montes. A minha, jamais será laranja!

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25
Fev19

Laicidade e Escola sem Partido: concepção do movimento é equivocada

Talis Andrade

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Por Paulo Gustavo Guedes Fontes

ConJur - A laicidade do Estado, isto é, sua neutralidade em termos religiosos, deriva da própria liberdade de religião e da necessidade de convivência pacífica e igualitária entre todos os credos e entre os que não professam religião ou adotam crenças religiosas. A laicidade é como que a outra face da moeda em relação à liberdade de religião[1].

A Constituição traz ainda dispositivo específico, o artigo 19, I, que veda aos entes federativos estabelecer cultos ou igrejas, subsidiá-los ou com eles manter aliança, o que seria nosso correspondente da establishment clause do Direito Constitucional norte-americano, constante da Primeira Emenda da Constituição daquele país.

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Pretendo debater neste artigo concepção presente nos textos e declarações dos líderes do movimento Escola sem Partido a respeito do princípio da laicidade. A assertiva do movimento é de que a laicidade estatal abrangeria não apenas a neutralidade do Estado diante das religiões, mas também o respeito pelo Estado à moralidade decorrente da religião, ou de determinada religião, e adotada por seus adeptos, considerando que a moralidade derivada de uma religião seria indissociável dela própria.

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Tal concepção fundamentaria a vedação, defendida pelo movimento, no âmbito do ensino fundamental e médio, de temáticas como a ideologia de gênero e a educação sexual, que poderiam contrapor-se à moralidade religiosa. O movimento defende ainda a precedência dos valores familiares em temas morais, invocando o artigo 12, IV, da Convenção Americana de Direitos Humanos.

Concede-se sem dificuldade que as religiões possuem sempre uma metafísica e uma ética, como afirmou Clifford Geertz[2]; isto é, além de uma compreensão sobre a divindade e a natureza do mundo, toda religião postula preceitos éticos ou de moralidade, fixando um modo de vida e regras para as relações sociais.

No entanto, estender a noção de laicidade como desejado parece-nos um equívoco teórico, capaz de levar, ao contrário, à ofensa desse mesmo princípio.

O princípio da laicidade impede que o Estado e seus agentes, no exercício de suas funções, privilegiem uma religião em detrimento de outras, prejudiquem determinada confissão e, em geral, adotem manifestações explicitamente religiosas. Refere-se, pois, à exigência de neutralidade por parte do Estado em termos religiosos. Mas tal princípio não inclui o dever suplementar do Estado de abster-se de atos e manifestações que possam de alguma forma contrapor-se ou ofender determinada moralidade religiosa.

Com efeito, se assim fosse, a legislação e a atuação estatal como um todo deveriam sempre coadunar-se com os preceitos religiosos. A rigor, o Estado não poderia permitir o divórcio, pois isso feriria a moralidade das religiões que não o admitem; não poderia reconhecer as uniões homoafetivas, como fez o STF na ADPF 132; ou, nos EUA, não poderia admitir o aborto, como fez a Suprema Corte na decisão Roe x Wade de 1973.

O Estado estaria completamente manietado em sua ação, impedido de aplicar suas próprias regras e princípios jurídicos, para evitar contrapor-se às éticas ou moralidades religiosas.

Sabe-se que os filósofos do Direito divergem sobre as relações entre Direito e moral. Alguns, como os jusnaturalistas, defendem a existência de uma conexão conceitual entre essas realidades, isto é, em algum ponto da reflexão o Direito e a moral se confundiriam. Já os positivistas adotam a tese da separação entre Direito e moral; mas, mesmo eles, e queremos destacar esse aspecto, admitem a existência de uma conexão histórica ou contingente entre os conceitos. Isto quer dizer que o Direito efetivamente abriga boa parte da moral social e, nas mãos do Estado, preceitos morais tornam-se normas jurídicas, de observância obrigatória para todos os cidadãos. Não matar é uma regra moral e também jurídica, e de certa forma toda norma jurídica alberga um valor moral[3]. Dissente-se sobre a amplitude com que os juízes podem lançar mão de argumentos morais, mas parece pacífico que os legisladores podem tranquilamente adotar pontos de vista morais na elaboração das leis, desde que não ofendam princípios e regras constitucionais.

Sendo assim, o Estado, por meio do Direito, consagra posições morais, selecionando-as entre as concepções morais, frequentemente divergentes, existentes no meio social. Quando adota normas civis, penais, trabalhistas, ambientais, admite ou não as uniões homoafetivas etc., o Estado está fazendo escolhas morais.

Portanto, na sua função legislativa, e em geral, o Estado faz escolhas morais e valorativas e não tem qualquer obrigação de fazê-las sempre em conformidade com os preceitos de qualquer moralidade religiosa, ou se abstendo de não as ofender. O contrário é que está vedado: o Estado não pode fazer escolhas que sejam inspiradas de forma direta e exclusiva na moralidade religiosa, justamente para não ferir o princípio da laicidade. Uma lei contra o aborto que se inspirasse explicitamente em preceito de moralidade religiosa incorreria em inconstitucionalidade.

Nesse sentido, a atuação estatal deve orientar-se pelo que já se chamou de “razão pública”, argumentos que buscam ser válidos para a generalidade dos cidadãos, independentemente de suas crenças religiosas, filosóficas, políticas etc. Ainda que o fundamento de determinada lei resida na moralidade, esta há de ser a moralidade comum, capaz de ser defendida sem o recurso a concepções religiosas. Nesse sentido, de afastarem-se razões ou fundamentos religiosos das políticas públicas, foi o voto do ministro Marco Aurélio na ADPF 54 que autorizou o aborto do feto anencéfalo.

Diga-se, também, que a política e os programas e posições dos variados partidos e seus adeptos estão sempre impregnados de concepções morais, mais uma razão pela qual o Estado, nas suas diversas formas de manifestação, acabará veiculando posições morais. Cite-se como exemplo a recente campanha do governo francês contra a homofobia nas escolas públicas[4]. E, como dito, o Estado não está nisso limitado por concepções ou moralidades religiosas.

Ainda que o suposto dever de “respeitar a moralidade religiosa” fosse restrito à postura do professor em sala de aula, tal concepção não se mostra viável. Tomemos a proposição: “os homossexuais têm o direito de se casar”. Segundo a assertiva em debate, o professor não poderia dizer isso em sala de aula, se tal afirmação for capaz de contradizer ou ofender a moralidade de alguma religião. Mas a proposição é chancelada pelo Estado brasileiro, por meio da decisão do Supremo que a reconheceu como decorrente do princípio constitucional da isonomia. Estaria o professor, pois, tolhido de repassar aos alunos uma informação relevante sobre a sociedade e o ordenamento jurídico para não ferir preceitos religiosos?

A concepção em discussão acaba por conferir à liberdade de religião posição de supremacia diante de outros direitos fundamentais. O direito à educação, a liberdade de expressão e científica, todo e qualquer direito deveria recuar diante dos óbices impostos pela religiosidade. E, como sabemos, é característica dos direitos fundamentais não estabelecerem entre si uma hierarquia prévia; do ponto de vista abstrato, dois princípios colidentes obrigam da mesma forma, isto é, não guardam qualquer relação de precedência um sobre o outro, o que vem a ser justamente o que Robert Alexy definiu como o caráter prima facie dos princípios[5].

Por fim, concluindo o raciocínio, fica claro que essa pretendida capitulação do Estado diante da moralidade religiosa é, sim, capaz de configurar ofensa ao princípio constitucional da laicidade, trazendo as considerações religiosas do âmbito privado, onde devem permanecer, para a esfera pública.

Deixaremos para outro escrito a refutação do argumento segundo o qual o artigo 12, 4, da Convenção Americana de Direitos Humanos imporia, por sua vez, a abstenção do Estado diante das convicções morais dos alunos e de seus familiares.

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[1] FONTES, Paulo Gustavo Guedes. Laicidade e proibição do véu islâmico na França. Revista Direito Mackenzie, v. 10, n. 1, 2016, p. 180-187.
[2] GEERTZ, Clifford. The interpretation of cultures. New York: Basic Books, Inc, Publishers, 1973, pp. 126/127.
[3] FONTES, Paulo Gustavo Guedes. Filosofia do Direito. São Paulo: Método, 2014, 158 p.
[4] http://br.rfi.fr/franca/20190128-franca-governo-lanca-campanha-contra-transfobia-nas-escolas
[5] ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2ª edição. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 96.

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08
Jan19

Bolsonaro, religião e Estado laico: o que esperar do futuro governo

Talis Andrade

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por Débora Melo

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Bolsonaro tem sinalizado que o combate à discussão de gênero e sexualidade nas escolas será uma das prioridades de seu governo e da base aliada no Congresso Nacional. Ao criticar questão do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2018 sobre linguagem LGBT, o presidente eleito disse, no mesmo pronunciamento, que vai buscar para o Ministério da Educação "alguém que entenda que nós somos um País conservador".

Para Ivone Gebara, Bolsonaro representa uma ameaça ao Estado laico e os sinais desse risco foram emitidos antes mesmo do resultado da eleição. Ela cita como exemplo uma passagem bíblica à qual o então candidato recorria com frequência.

"Durante a campanha ele tomou uma palavra do Evangelho de João: 'Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará'. Mas qual verdade? A verdade dele", diz. "Não há problema no fato de Bolsonaro ser cristão, mas as convicções pessoais não podem ser impostas ao Estado. O governo é uma parte do Estado, e o Estado brasileiro é maior que o governo brasileiro", afirma a teóloga.

Evangelho de João: 'Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará'. Mas qual verdade? A verdade dele.Ivone Gebara, freira católica, filósofa e teóloga

Ivone Gebara, freira católica, filósofa e teóloga

 

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A proximidade do presidente eleito com empresários de conglomerados de comunicação ligados às igrejas também é vista com preocupação. Dono da Record e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Edir Macedo declarou apoio a Bolsonaro e ainda no primeiro turno tomou medidas que de certa forma beneficiaram a candidatura do capitão da reserva. Enquanto os demais candidatos se enfrentavam em debate na TV Globo, por exemplo, a Record exibia uma entrevista exclusiva com Bolsonaro.

Na avaliação de Helena Martins, professora do curso de publicidade da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do coletivo Intervozes, o cenário que se desenha é o de crescimento da presença de igrejas na mídia.

"Ele pode fazer isso distribuindo verbas publicitárias, beneficiando esses setores com concessões e autorizações e mesmo com práticas cotidianas de favorecimento, como entrevistas exclusivas", afirma Martins.

"A gente tem observado que, junto ao crescimento desses grupos na comunicação cresce também o discurso conservador, porque são veículos pautados pela agenda conservadora", diz. Ela afirma se preocupar com a possibilidade de que "uma plataforma extremamente importante para a difusão de ideias e informação que é a mídia seja dominada por um segmento conservador que não está aberto à circulação de opiniões diferentes". "Podemos ter um cenário cada vez mais fechado e menos plural de comunicação." Transcrevi trechos. Leia mais

08
Jan19

O Deus obsessivo e politicamente incorreto de Bolsonaro

Talis Andrade

A ideia de Deus começa a se tornar, como nas piores teocracias, um curinga para encobrir políticas de obscurantismo

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Apoiadora de Bolsonaro durante a posse, em 1 de janeiro. SILVIA IZQUIERDO AP
 

 

por Juan Arias

No discurso de posse do novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a palavra mais usada foi Deus, fazendo honra ao seu lema de campanha, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Dá a impressão de que o Brasil deseja ser governado sob o amparo divino, mais do que sob as leis e a Constituição.

E não só o presidente, mas também seu recém-estreado ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que Deus estará “na diplomacia, na política, em todas as partes”. E chegou a individualizar essa presença forte de Deus em dois personagens emblemáticos do mundo atual: os presidentes dos Estados UnidosDonald Trump, e do Brasil, Bolsonaro. São eles dois que, segundo o diplomata, devolverão a Deus a uma civilização que o tinha perdido.

Trata-se, entretanto, de um Deus ambíguo e politicamente incorreto, já que apresentado como representante da civilização cristão-judaica. Não é o Deus que deve libertar os escravos da pobreza e da injustiça, o Deus dos que sofrem por serem diferentes, o dos excluídos dos privilégios, e sim o que adoram os satisfeitos, o vingador mais que o pacificador. O Deus da violência mais que o desarmado das bem-aventuranças.

Não acredito que o sonho dos brasileiros, até dos mais pobres, seja o Deus militarizado que impõe uma obediência cega. Eu os vejo mais como seguidores do Deus dos limpos de coração, como aqueles que, mais que a justiça divina, temeram sempre a violência arbitrária dos que os escravizam. Sempre em nome desse Deus, curinga para justificar todas as opressões. O Deus dos escravos nunca será o Deus com o qual o poder mercadeja. Transcrevi trechos. Leia mais 

 
 

 

08
Jan19

MENTIROSO CONTUMAZ, BARRIGONA, LAVAGEM CEREBRAL

Talis Andrade

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por Mirson  Murad

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O prefeito ausente, Marcelo Crivella, mentiroso contumaz, que já assassinou muita gente por desprezo e abandonada dentro e às portas dos hospitais municipais. Que não paga os salários devidos aos funcionários da prefeitura, que não dá colégio para as criancinhas que ousam morar na ex-Cidade Maravilhosa, agora em campanha para sua reeleição... ha!ha!ha, declarou que vai fazer 25 operações ortopédicas diariamente e finaliza a declaração afirmando ter acabado de receber a informação de terem sido feitas nesse dia 45 operações dessas.

Mentiroso contumaz, o "bispo" não pode aprovar nenhuma dessas ditas cirurgias. Aí fica a pergunta: - Será que existe,ainda, algum imbecil que pretenda dar seu voto para essa ignóbil criatura? Quem viver,verá!

A TV Bandeirante insiste em sua barriga que, pelo tempo de gestação, já virou barrigona, com "anúncio cultural" onde afirma que quase 200 milhões de pessoas falam o idioma português tendo entre mais outros 8 países o Brasil e Portugal. Ora bem, senhores da BAND, só no território brasileiro somos 206 milhões de pessoas portanto, provavelmente somos 250 milhões e não apenas 200 milhões.

A TV Globo faz lavagem cerebral do povo brasileiro com as vinhetas "agro e pop tá na Globo" iludindo a população de que o Brasil não precisa, não depende de um vigoroso parque industrial. Que a vocação, o futuro do nosso Brasil continental está nos agronegócios apenas. Isso fica bem claro, subliminarmente. Ou não? Me engana que gosto. Como gosto!

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04
Jan19

CONTINUOU A GLORIFICAÇÃO DE BOLSONARO, NÃO COMO PRESIDENTE E SIM COMO ENVIADO DE DEUS

Talis Andrade

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por Helio Fernandes

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Ele mesmo comanda essa exaltação, quase canonização. Mesmo nos seus discursos disparatados e estapafúrdios, não esquece: "Deus me enviou e o povo me elegeu". Um grupo não majoritário, insiste em identifica-lo como mito. O Chefe da Casa Civil, interrompeu seu próprio discurso de posse, pediu uma salva de palma para Bolsonaro.

Quem se salvou ontem, foi Paulo Guedes. Falou durante 49 minutos, interrompido varias vezes por aplausos. Deixou marcas, que se executadas deixarão resultados positivos. Vejamos.

A prioridade absoluta é a reforma da Previdência. Se conseguirmos aprová-la, teremos 10 anos de economia consolidada.

Para isso, precisamos do apoio do Congresso e recorreremos a todos para essa aprovação. Se não conseguirmos aprovar no plenário, faremos a reforma através de emenda constitucional.

Mas ganhou mais aplausos ao falar sobre DESIGUALDADE. Foi taxativo, incisivo, definitivo. Como foi o ponto mais importante (o próprio Bolsonaro não deve ter gostado) vou usar aspas para que fique bem claro que a constatação é dele, e a afirmação do fim da desigualdade também.

"Os representantes dos Três Poderes recebem as mais altas aposentadorias. O povo não recebe nada. Essa desigualdade será eliminada".

 

RODRIGO MAIA CONFIRMA O REPÓRTER

Ha mais de 1 mês, revelei: sua reeleição está garantida, no dia 1 de fevereiro, será eleito para mais 2 anos como presidente da Câmara. Vem tratando disso e coordenando seu novo mandato, quando estávamos em plena campanha eleitoral. Ninguém imaginava quem seria o presidente da Republica.

Maia planejava 2 anos na presidência da Câmara até 2020.

A partir daí, tentaria completar seu plano, se candidatando a presidente da Republica em 2022. Depois de muita hesitação, o PSL (Bolsonaro) decidiu reforçar a vitoria de Rodrigo Maia. Mas tudo termina aí, ninguém está tão longe da presidência da Republica quanto Maia, sem a menor chance.

Haja o que houver, quem está mais perto da presidência, é o vice, general Mourão. Mas isso é outra historia.

 

O EXIBICIONISMO DO CHANCELER

Tomou posse discursando em grego, latim e Tupy Guarany. Ninguém entendeu nada. Em matéria de diplomacia propriamente dita, total exclusão. Encampou a posição do próprio Bolsonaro, de total submissão e subserviência aos EUA e Israel.

Vergonhoso, perigoso, ruinoso.

 

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