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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

05
Fev24

Anacronismo e redenção em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ de Glauber Rocha

Talis Andrade

 

Por Ben Hur Nogueira 

 

Diferentemente de seus trabalhos pretéritos, em “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” Glauber Rocha tenta solidificar uma mensagem possivelmente nunca vista no cinema nacional sobre o folclore brasileiro amplificando debates sobre justiça social, redenção, genocídio, imperialismo, miséria e religião colocando elementos do folclore nacional como prioridade e transformando o sertão brasileiro em um western (ou faroeste para os íntimos) recheado de referências populares e por que não, um misticismo que ocorre no terceiro mundo.

Glauber Rocha por si só era bastante inventivo. Trabalhava o realismo com o misticismo. O real e o imaginário se cruzavam constantemente em suas obras. Em “Terra em transe”, por exemplo, temos um país do terceiro mundo imaginário onde crises políticas ocorrem influenciando o poder e a democracia. Glauber podia facilmente fazer deste um filme cuja mera referência fílmica virasse um thriller com referências noir dos anos 1940 ou 1950, mas ele transforma o que era pra ser um suposto noir, em uma fábula realista repleta de metáforas, diálogos longos e uma edição que não seguia regras cinematográficas impostas pelo cinema comercial. 

Glauber por sua vez, gostava de utilizar diálogos longos com palavras eruditas como uma forma de estabelecer um paralelo entre o filme e o telespectador. Por um lado, temos a consciência daquilo ser uma experiência fílmica, mas pelo outro, através da linguagem revolucionária com movimentações abruptamente randômicas de câmera (o que davam uma sensação de metalinguagem), tínhamos um espectro de ousadia cinematográfica onde haviam repetições de cenas já passadas, trilha sonoras focalizadas na própria ambientação e por fim, a maneira volumosa de trabalhar com personagens vivendo situações caóticas onde o caos decerto impera. Isso tudo faz-nos lembrar que estamos vendo uma película, o que faz a experiência de assistir qualquer um de seus filmes, ser a experiência similar de assistir películas de caras como Pasolini ou de Ousmane Sembene, onde os personagens não participam da famigerada jornada do herói e não são nem mocinhos ou vilões, mas vítimas de uma complexidade humana, complexidade que essa favorece o espectro de “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” onde temos vários volumes de personagens complexos e o filme por si só não estabelece necessariamente um heroísmo dos personagens principais, mas humaniza os personagens através das vivências obtidas por estes em suas ambientações.

Em “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” temos Antônio das Mortes, um matador de aluguel que é contratado para assassinar o suposto último cangaceiro vivo de uma pacata cidade sertaneja. Logo ao perceber as injustiças do povo, ele busca sua redenção tanto pessoalmente quanto religiosamente se rebelando contra as próprias autoridades que o contrataram e buscando justiça contras as injustiças que cada vida passou ali.

Antônio das Mortes não chega ser nem de perto, o arquétipo heroico dessa estória, já que como a própria canção-tema do filme diz que o próprio Antônio das Mortes não tem permissão para entrar em uma igreja sendo jurado em mais de dez igrejas e não tem nenhum santo que o protege, trazendo para a própria persona de Antônio, um sentimento ambíguo de desprezo por si próprio e por uma complexidade ampla sobre seu personagem.

Por um lado, nós membros da audiência interpretamos Antônio como um ser malevolente nos momentos primevos da película, mas ao longo do filme temos a ciência de que suas ações são movidas por um espécime de desprezo que Antônio tem por si próprio. Uma cena onde ilustra bem a complexidade desse personagem, é logo no início onde Antônio revela em uma conversa, que foi convidado por Lampião para integrar o grupo de cangaceiros, e mesmo sentindo um desejo endógeno de se tornar um desses, acaba se mantendo como matador de aluguel sendo condecorado por coronéis regionais que não aceitam direitos trabalhistas e melhorias para os povos limítrofes que coabitam as regiões onde eles imperam. Apesar de curta, essa cena humaniza Antônio e o coloca não como vítima de suas ações, mas vítima da naturalização da violência local, onde ao perceber que a violência é comum naquele ambiente, a oportunidade monetária de erradicar justiceiros sociais poderia tornar-se lucrativa.

Tida como uma continuação de “Deus e o diabo na terra do sol” (do mesmo diretor lançado em 1964), “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” utiliza o antagonista do filme predecessor (o próprio Antônio das mortes) como a figura a ser protagonizada. “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” é um tipo de filme que requer atenção nos mínimos detalhes, desde diálogos até sequências com ampla duração. Isso demonstra a natural habilidade de Glauber Rocha em prender sua audiência em eventualidades que ocorrem gradualmente nos seus filmes. 

Esteticamente, temos elementos que fazem desta experiência fílmica algo a ser ponderado, a começar por seu roteiro que traz tantos elementos culturais que tangem a influência afro-brasileira no catolicismo através das personificações de santos populares brasileiros vividos por Santa Bárbara (Rosa Maria Penna) e Ogum (Mário Gusmão), dois personagens extremamente significativos para a obra já que servem como mentores espirituais dos habitantes da pacata cidade onde o filme se passa. Tanto Santa Bárbara quanto Ogum (ou Antão como se chama no filme) estão sempre próximos ao cangaceiro Coirana, um cangaceiro local que desafia autoridades buscando justiça social e igualdade aos sertanejos. 

Uma cena onde isso é exemplificado é uma cena onde podemos ver Coirana entre Ogum e Santa Bárbara durante um comício popular onde Coirana busca defender o vilarejo ao mesmo tempo que refere-se à Lampião como sua maior referência. Logo nessa cena ao ver estes dois entre um homem tomado pela violência local, passamos a ressignificar a presença destes como se fossem um escudo protetor do vilarejo, como se o próprio Coirana fosse um arauto da justiça e eles seus mentores que são tratados como figuras espirituais protetoras. 

A espiritualidade aliás, é um forte sujeito na película, já que vemos como a religião torna-se um subterfúgio emocional dos habitantes da cidade onde o filme se passa, ao mesmo tempo que coabitamos com figuras místicas como Ogum e Santa Bárbara, demonstrando como que religiosa e mística a ambientação da estória é.

É neste cenário onde somos testemunhas de duelos sangrentos onde muito sangue é derramado. De um lado temos os habitantes cujo o líder é Coirana, que promete justiça e proteção ao povo tendo consigo a proteção de Santa Bárbara e Ogum simultaneamente, do outro, temos Coronel Horácio (interpretado por Jofre Soares), que teme a chegada do povo ao poder e por isso passa as responsabilidades ao seu mandante Mattos (Hugo Carvana) que resolve contratar Antônio das Mortes para derrotar Coirana e passar a ter o controle fixo da cidade para si mesmo. Logo no começo da película, Coirana se refere durante um comício popular ao Dragão da Maldade como um ser orgulhoso e ao mesmo tempo rico, logo, passamos a interpretar Antônio das Mortes como o dragão da maldade ou o vilão do filme, mas é a partir desta premissa que temos uma inversão poderosa no roteiro de Glauber Rocha onde vemos Antônio das Mortes duelando em um duelo de espadas contra Coirana onde Antônio sai como vencedor. Após vencer o cangaceiro, percebemos que Antônio das Mortes torna-se subjetivo para as atividades imperialistas que ocorrem na região sertaneja, onde o colonialismo cultural volta a imperar e o povo torna-se aquém das atividades dos coronéis. Logo vemos que não é Antônio o dragão da maldade, mas sim os fazendeiros ricos da região que são os seres reais a serem desafiados e eventualmente batidos. 

Logo após a vitória contra Coirana, Antônio das Mortes passa a ser perseguido por fantasmas do passado. Primeiro temos uma demonstração de fraqueza humana sua, onde temos o personagem tendo um contato direto com Santa Bárbara onde ela o informa para se afastar da cidade o quanto antes como se fosse um aviso prévio, em seguida, o Coronel Horácio contrata jagunços para assassinar seus opositores em uma sequência reminiscente da Guerra de Canudos, onde quase todos os habitantes participam de um hecatombe regional. É neste momento onde passamos a enxergar a natureza humana de Antônio e por fim sua redenção.

A redenção de Antônio não significa o perdão por suas ações, mas uma tentativa sua de mudar estigmas sobre sua pessoa. Para entender melhor seus estigmas, é preciso voltar no filme predecessor de “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”: “Deus e o Diabo na terra do sol”, onde Antônio não é tão explorado como sua sequel, mas temos aqui Antônio como um matador de cangaceiros contratado tanto pela igreja quanto por fazendeiros para assassinar pessoas que são tidas como subversivas às relações de poder e seus proponentes. Aqui sabemos muito pouco sobre seu passado e sobre suas motivações, só sabemos que suas ações são todas demonstradas por um sentimento de desprezo próprio por si mesmo e uma espécime de obsessão à procura de cangaceiros como um parâmetro pessoal. Aqui Antônio não é tão explorado como no próximo filme, mas aqui vemos ele favorecendo o lado mais poderoso: o lado hierárquico dos poderosos na região simplesmente por desejo próprio. 

No fim de “Deus e o diabo na terra do sol” vemos ele assassinando o cangaceiro Corisco (Othon Bastos) mas antes de morrer Corisco exclama: ”Mais forte são os poderes do povo”, algo que tem um impacto profundo na continuação da obra em “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, onde a vida de Antônio e sua trajetória como matador de aluguel é mais explorada. Em “O dragão da maldade”, Antônio das Mortes passa a ter um sentimento de culpa ao notar que suas ações influenciaram na chegada dos coronéis ao poder, e a partir deste pretexto vemos Antônio se unindo com as forças oprimidas da cidade, uma união que outrora ele não faria, mas em busca de sua redenção pessoal, ele passa a se unir com o Professor da cidade (Othon Bastos) para combater os jagunços contratados pelas forças mais poderosas da cidade para erradicar de vez qualquer espécime de justiça social que pondera imperar por lá e é desta forma que chegamos ao clímax do filme, onde Antônio das Mortes junto do Professor lutam contra os jagunços contratados pelo Coronel e seus vassalos na praça da cidade. Por um lado, tal cena é reminiscente de faroestes norte-americanos clássicos ao mesmo molde que Glauber intercala pitadas de uma montagem neo-realista não sequencial onde personagens são colocados em cena e em seguida temos um plano que não havia sido estabelecido preteritamente. Isso implica e demonstra a facilidade de Glauber em contar estórias nunca antes contadas em um jeito próprio recheado de referências vanguardistas.

O duelo por fim tem seu clímax com Ogum encima de um cavalos carregando consigo uma lança (reminiscente do conto católico de São Jorge derrotando o dragão) e eventualmente lançando ela contra o Coronel da cidade e derrotando de vez o dragão da maldade. Aqui Glauber nos mostra sua versatilidade cinematográfica em subverter nossas expectativas enquanto audiência [continua]

03
Fev24

Censo 2022: Brasil tem mais igrejas e templos do que escolas e hospitais somados

Talis Andrade

 

Dados do Censo 2022 divulgados nesta sexta-feira mostraram que o país tem mais templos religiosos do que escolas e hospitais somados. De acordo com a análise, são 580 mil locais de devoção a diferentes tipos de religião ante 264 mil instituições de ensino e 264 mil unidades de saúde, que juntos totalizam 512 estabelecimentos.

Entre os estados que lideram a lista de "mais religiosos" estão em primeiro o Amazonas, com aproximadamente um templo religioso para cada 68 domicílios; depois o Acre, com 69 na mesma proporção; e o Amapá aparece em terceiro, com cerca de 79.

Pela primeira vez na história do levantamento, o IBGE mapeou todos os tipos de edificações que compões o Brasil. 

Ao todo são 579,7 mil estabelecimentos religiosos de todos os tipos, como igrejas, templos, sinagogas e terreiros. Uma média de 286 locais de fé para cada 100 mil habitantes. 

O levantamento ainda mapeou que o Brasil possui 264,4 mil unidades de ensino, como escolas, creches e universidades. Uma média de 130 unidade para cada 100 mil habitantes. 

Ainda há menos unidades de saúde. Entre hospitais, clínicas e pronto-socorros, foram registrados 247,5 mil edificações, uma média de 122 unidades para cada 100 mil habitantes. 

19
Ago23

Luto entre os quilombolas

Talis Andrade

 

As comunidades remanescentes de diferentes povos africanos, reconhecidas como quilombolas, têm sido desprezadas, assim como os indígenas. Entram e saem governos e o mandamento constitucional, que garante a demarcação das terras que ocupam, não é respeitado. Nos últimos 10 anos, pelo menos 30 líderes quilombolas foram mortos, por resistirem à pressão de especuladores ou de latifundiários que ambicionam as terras que ocupam. É assim com os indígenas, estejam eles em áreas demarcadas, ou não.

Nesta quinta-feira, a líder da comunidade Pitanga de Palmares, na Bahia, Bernadete Pacífico, 72 anos, foi executada com 14 tiros, em casa, por dois homens de capacete, ainda não identificados. Jurandir, filho de Mãe Bernadete, como ela era conhecida, por ser uma ialorixá (dirigente de uma casa de candomblé), atribui o assassinato à especulação imobiliária. Segundo ele, a mãe havia recebido várias ameaças. Em 2017, o irmão Flávio Gabriel Pacífico foi morto diante da escola da mesma comunidade. Ambos os casos serão investigados pela Polícia Federal.

Os quilombolas somam 1.327.802 pessoas, ou 0,65% da população brasileira, espalhadas por 1.696 municípios, segundo o Censo de 2022. Depois da Bahia, onde vivem 397.059 quilombolas (29,90% da população recenseada) e o Maranhão, com 269.074 pessoas, Minas Gerais tem a terceira maior população de remanescentes dos quilombos — 135.310 pessoas, distribuídas em 392 comunidades oficialmente reconhecidas. Desde a Constituição de 1988,o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) titulou menos de 60 quilombos, dos 3 mil existentes no país, de acordo com levantamento da Fundação Palmares, que não tem a atribuição de regularizar os territórios. Nos cálculos de especialistas, mantido o atual ritmo de identificação e titulação dos territórios, provavelmente, o Brasil levará 2.188 anos para concluir a legalização dessas áreas.

Os quilombolas, bem como os povos originários, vivem da produção agropecuária. Mas, como os indígenas, têm relevante importância na preservação do patrimônio ambiental. Esse costume tem estreita relação com a afrorreligiosidade praticada pelos afrodescendentes. Os cuidados com a flora e com as nascentes fazem parte das tradições desses povos. Preservar a natureza vai além dos conceitos de sustentabilidade ambiental. É uma expressão religiosa, legada pelos seus ancestrais.

A morosidade do poder público em questões de interesse dos indígenas e dos negros é, entre tantas outras, uma manifestação de desprezo e desrespeito a esses segmentos da sociedade. Favorece aos conflitos, que resultam em perdas de vidas e prejuízos aos dois grupos, que não contam com influentes representantes nos espaços de poder político.

Intolerância e racismo andam juntas no Brasil — e alimentam-se mutuamente. Desde o início do século 16, quando chegaram os primeiras grupos de negros sequestrados, para serem escravos nas terras Santa Cruz, que a sociedade brasileira estabeleceu uma divisão desumana entre pretos e brancos. Os negros eram, na concepção dos cristãos, indivíduos sem alma, sem sentimento e, portanto, não eram humanos, mas, sim, as criaturas inferiores em relação aos eurocentristas. Esse entendimento ainda prevalece em diferentes camadas da sociedade, o que explica as renitentes e cruéis expressões de racismo, em pleno século 21. Explicam também o descuido das instâncias de poder com essas parcelas sociedade.

18
Ago23

Presidente Lula promete investigação rigorosa do assassinato de Mãe Bernadete líder quilombola

Talis Andrade

247 - O presidente Lula usou a sua conta no Twitter para demonstrar seu pesar e  indignação diante da morte brutal da líder quilombola Mãe Bernadete Pacífico, assassinada nesta quinta-feira no município de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, na Bahia. 

Na quinta-feira (17), Mãe Bernadete foi morta a tiros dentro de seu terreiro, um local sagrado que ela liderava com comprometimento e dedicação. Sua partida deixou não apenas a comunidade quilombola, mas também a luta por igualdade, justiça e diversidade profundamente abaladas.

Lula não apenas lamentou a morte da líder religiosa, mas também destacou sua atuação como defensora dos direitos e igualdade racial, e a notável coragem que ela demonstrou ao exigir justiça pelo assassinato de seu próprio filho, que também era uma figura de destaque na comunidade quilombola e foi assassinado há 6 anos.

“Com pesar e preocupação soube do assassinato de Mãe Bernadete, liderança quilombola assassinada a tiros em Salvador. Bernadete Pacífico foi secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial na cidade de Simões Filho e cobrava justiça pelo assassinato do seu filho, também um líder quilombola. O governo federal, por meio dos ministérios da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e Cidadania, mandou representantes e aguardamos a investigação rigorosa do caso. Meus sentimentos aos familiares e amigos de Mãe Bernadete”, escreveu o presidente. 

A TV Justiça resgata parte da história do Brasil com o documentário Quilombos do Século XXI, que estreia neste domingo (17). Líderes do movimento negro e historiadores afro-brasileiros discutem a questão do racismo estrutural que vigora no país desde o fim da escravatura, em 1888. Leis que foram publicadas ainda no Império impediram a emancipação dos descendentes diretos dos grupos escravizados pelos portugueses.

15
Mai23

O nascimento do narcopentecostalismo

Talis Andrade

Traficantes, paramilitares e igrejas se unificaram em uma "guerra santa" contra grupos rivais e religiões afro-brasileiras

 

ENGLISH

 

ESPAÑOL

 
por Kristina Hinz, Doriam Borges, Aline Coutinho & Thiago Cury Andries
 
 
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Desde os anos 80, as igrejas evangélicas têm expandido suas atividades de missionários para prisões e outros estabelecimentos penitenciários. Atualmente, o número de reclusos convertidos ao neopentecostalismo nas prisões brasileiras é significativo.

As prisões sempre representaram um espaço chave para a formação de organizações criminosas. De fato, todas as grandes facções de narcotráfico, tais como o Comando Vermelho, Terceiro Comando e o Primeiro Comando da Capital, foram fundadas em prisões.

Ocasionalmente, a abundante presença evangélica em estabelecimentos penitenciários tem se traduzido na conversão de traficantes. Este foi especialmente o caso do Terceiro Comando Puro, o principal rival do Comando Vermelho. Enquanto cumpriam sentenças em prisões estaduais, vários líderes foram convertidos para a religião neopentecostal.

Pouco tempo depois, o primeiro grupo narcopentecostal conhecido foi fundado como uma subfacção do Terceiro Comando Puro: o Bonde de Jesus. Além de controlar o tráfico no bairro do Parque Paulista no Estado de Rio de Janeiro, os Soldados de Jesus atacaram e vandalizaram vários templos de Candomblé e de Umbanda, expulsando os sacerdotes dos seus territórios. Desde então, a perseguição não só das religiões afro-brasileiras, mas também de padres católicos, tem sido relatada em várias favelas dominadas pelo Terceiro Comando Puro.

A ascensão das milícias e novas alianças

Outra força importante no equilíbrio de poder no Rio de Janeiro são as chamadas "milícias". Desde a ditadura militar, os grupos de extermínio formados por forças paramilitares e parapoliciais assumiram o controle de bairros inteiros. Muitas vezes comparada à máfia italiana, a milícia obtém as suas principais receitas da “gestão da violência” nos territórios sob o seu controle, coagindo a população local ao pagamento de taxas de proteção para as suas residências ou empresas. Em alguns bairros, milicianos também controlam outros ramos de infraestrutura, tais como a distribuição de gás, TV por cabo e transporte alternativo.

No ano passado, ao menos 57% da área da cidade do Rio de Janeiro era dominada por grupos milicianos, colocando 5,7 milhões de habitantes da cidade sob a mercê de organizações paramilitares

Compreendendo a milícia como um aliado estratégico no combate ao narcotráfico, diversos representantes do Estado apoiaram abertamente esses grupos paramilitares. O atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, por exemplo, declarou no passado que as "forças de autodefesa" formadas por policiais e bombeiros coibiam os narcotraficantes e traziam paz para certos bairros. É comum também nas fileiras policiais a percepção da milícia como uma extensão das suas próprias corporações, uma vez que são formadas por uma grande parte de ex-policiais e soldados do exército.

Contrariando esta reputação, associações entre grupos de milicianos e traficantes ligados ao Terceiro Comando Puro foram expostas. Para fortalecer sua posição em relação ao seu inimigo comum, o Comando Vermelho, os grupos criminosos lançaram uma nova joint-venture: nos territórios recém-conquistados, o Terceiro Comando Puro é responsável pelo tráfico de drogas, enquanto a milícia continua administrando e cobrando pela TV a cabo e pelo gás. As igrejas evangélicas, por sua vez, não fornecem apenas a justificativa ideológica para a guerra contra o demoníaco Comando Vermelho, mas também têm sido utilizadas para a lavagem de dinheiro. Como as igrejas são isentas do pagamento de impostos, fundos ilegais são facilmente canalizados por meio delas, tornando impossível rastrear a origem desse dinheiro.

A narcomilícia neopentecostal

Apesar da abordagem perigosa, a tripla aliança entre os traficantes do Terceiro Comando Puro, a milícia e igrejas evangélicas parece funcionar bem. Em janeiro deste ano, o Complexo de Israel expandiu o seu territóriopara outros bairros do Rio de Janeiro, a convite dos próprios traficantes locais. A Polícia Civil do Rio também está investigando uma suposta aproximação com criminosos de outras regiões.

Também fora do Complexo de Israel, o poder desta joint-venture está aumentando: O Terceiro Comando Puro conseguiu expandir significativamente o seu território, conquistando importantes bastiões do Comando Vermelho na cidade.

O maior vencedor, talvez, desta nova aliança poderá ser a milícia: no ano passado, ao menos 57% da área da cidade do Rio de Janeiro era dominada por grupos milicianos, colocando 5,7 milhões de habitantes da cidade sob a mercê de organizações paramilitares. As autoridades não são inocentes neste desenvolvimento. Territórios controlados pela milícia raramente são alvo de operações policiais: desde 2018, apenas 3% das operações militares e policiais foram lançadas em territórios ocupados pela milícia.

Apesar de algumas detenções ocasionais, estas organizações criminosas altamente lucrativas e profissionais não podem ser seriamente confrontadas sem visar suas estruturas políticas e fontes de financiamento. Isto inclui rever a estrutura de transporte público e distribuição de gás e de TV a cabo - a principais fontes de rendimento das milícias - bem como a atual legislação sobre drogas e impostos para igrejas, muitas vezes utilizadas para lavagem de dinheiro.

Embora isto possa parecer uma discussão difícil, o preço atualmente pago pela população do Rio, tomada como refém pela narcomilícia neopentecostal é muito mais elevado: ao terror propagado pelos grupos armados acrescenta-se a perda da liberdade de fé e a perseguição das religiões afro-brasileiras e dos seus praticantes

NarcoEvangélicos: um conto não tão distópico sobre o Brasil

A partir da notícia divulgada na imprensa que traficantes de drogas do Rio de Janeiro estão unindo cinco favelas que dominam para expandir o seu poder, … Continue lendo

 
 
21
Out22

Jornalistas fazem ato em defesa da democracia e debate sobre voto evangélico (charges curralzinho)

Talis Andrade

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A relevância nestas eleições do voto evangélico e a defesa do jornalismo e da democracia são temas de dois eventos, organizados por entidades de jornalistas relacionados às eleições. O primeiro deles, pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, avaliará em que proporção a população evangélica está no centro do debate eleitoral deste ano. Isso em razão da sua relevância numérica e, principalmente, por ser por ela que a extrema direita se aproveita da chamada pauta de costumes para implementar sua agenda ultraconservadora.

A organização do debate avalia que as eleições deste ano podem ser definidas como “um plebiscito entre a civilização e a barbárie”. “(A população evangélica foi) decisiva em 2018, na eleição que alçou o fascista Jair Bolsonaro ao poder impulsionada por uma impiedosa máquina de mentiras e desinformação fortemente calcada em temas como costumes e religião, a escolha eleitoral de milhões de brasileiros pode não estar selada como antes”, afirma o Barão, em nota.

Três especialistas participaram do debate sobre o voto evangélico: A pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), Romi Bencke; o sociólogo e líder ecumênico metodista Anivaldo Padilha; e o repórter autor do livro O Reino – A história de Edir Macedo e uma biografia da Igreja Universal, vencedor de 10 prêmios de jornalismo pelo conjunto de sua obra, Gilberto Nascimento

 

O reino: A história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal  (Portuguese Edition) eBook : Nascimento, Gilberto: Amazon.de: Kindle-Shop

 

Jornalismo e democracia

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Entidades jornalísticas e organizações que defendem a liberdade de imprensa e os direitos humanos, entre elas a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), realizaram, na noite desta terça-feira (27/09), um ato em defesa das e dos profissionais de imprensa e da Democracia, na Pontifícia Universidade Católica (PUC), na zona oeste de São Paulo.

“Estamos reunidos aqui hoje porque o jornalismo e a própria democracia estão sob forte ataque nos últimos anos. E essa gravíssima situação chegou agora ao ápice. Estamos aqui juntos para dizer que basta!”, afirmou Paulo Zocchi, vice-presidente da FENAJ, que discursou em nome das 16 entidades organizadores do evento.

“Em situações normais, o jornalismo não é, nem poderia ser, uma profissão de risco. Mas no Brasil, nos últimos anos, a violência contra profissionais é preocupação constante e crescente de nossa categoria”, disse Zocchi.

Segundo Zocchi, os profissionais são agredidos pelo poder de Estado, notadamente pela Polícia Militar; são perseguidos judicialmente, e aí se inclui infelizmente até mesmo o Supremo Tribunal Federal; e também são agredidos, em grande medida, por Bolsonaro e por apoiadores incentivados pelas ações do presidente.

O dirigente sindical citou levantamento da FENAJ de acordo com o qual, em 2018, foram registrados 135 casos de agressões a jornalistas, contra 430 em 2021. “Com Bolsonaro no governo, há três vezes mais agressões a jornalistas do que havia antes. É mais do que uma por dia! Desde que chegou à Presidência, ele é o principal agressor: em 2021, Bolsonaro realizou 147 agressões a jornalistas, 34% do total nacional”, destacou.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 353 ataques a jornalistas entre o início deste ano e a semana passada. Outra entidade do setor, a Repórteres Sem Fronteiras, contabilizou no primeiro mês de campanha eleitoral mais de 2,8 milhões postagens com conteúdos ofensivos a jornalistas brasileiros.

 

A repórter da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, participou do evento e fez relatos sobre as agressões que tem sofrido nos últimos anos. Ela foi vítima de ataques sexistas de Bolsonaro.

Patrícia é autora de uma série de reportagens que revelou um esquema de contratação de empresas para realizar disparos em massa durante as eleições de 2018, que fizeram dela alvo preferencial de bolsonaristas nas redes sociais.

“É muito estranho que, desde 2018, nós jornalistas, nós repórteres, tenhamo-nos transformado em alvo. Em um país democrático, supostamente democrático, que tem um governo eleito democraticamente, mas que a imprensa se transformou em um alvo, especialmente as mulheres”, disse Patrícia.

Ela lembrou os ataques que recebeu, entre eles, ligações, e ameaças de agressão física. Ela também recebeu muitas mensagens com conteúdo pornográfico.

O Negócio do Jair - Juliana Dal Piva - Grupo Companhia das Letras

Além de Patrícia, Bianca Santana, Juliana dal Piva, Flávia Oliveira, Carla Vilhena e outras jornalistas de diversos veículos de todo o Brasil participaram do evento com depoimentos em vídeo.

As profissionais contaram alguns dos casos de ataques sofridos e falaram sobre as consequências das agressões. Medo de exercer a profissão, depressão, e danos a saúde mental, foram alguns dos efeitos relatados.

Daniela Cristóvão, da Comissão de Liberdade de Imprensa da OAB, também esteve no evento e afirmou que quando um jornalista é ameaçado no desenvolvimento da sua profissão a cidadania de todos está ameaçada.

Na mesma linha ocorreu a participação de Ana Amélia, advogada e membro do grupo Prerrogativas. “A liberdade de imprensa é essencial ao jornalismo. Não existe democracia sem a liberdade de imprensa e sem o papel essencial, sério, informativo do jornalista”, disse.

“A principal aliada é a imprensa na luta pelos direitos humanos”, disse Ariel de Castro, do Tortura Nunca Mais. “Imagina o que acontece com os jornalistas que estão na periferia, no interior, que não estão em grandes órgãos de imprensa. E o assédio judicial?”, questiona.

O evento foi organizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), FENAJ, Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Abraji, Associação de Jornalismo Digital (Ajor), Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Repórteres sem Fronteiras (RSF), Instituto Vladimir Herzog, Associação Profissão Jornalista (ApJor), Barão de Itararé, Intervozes, Fotógrafas e Fotógrafos Pela Democracia, Associação Paulista dos Jornalistas Veteranos, Centro Acadêmico Vladimir Herzog e Centro Acadêmico Benevides Paixão.

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17
Out22

VÍDEO: Bolsonarista discute em Aparecida e diz que "Bolsonaro é Deus"; veja momento

Talis Andrade

 

VÍDEO: Bolsonarista discute em Aparecida e diz que "Bolsonaro é Deus"; veja  momentoImageImage

Bolsonaristas discutindo com jornalista da TV Aparecida, durante festividades no santuário 
 

 

O homem manda que o cinegrafista o filme, enquanto outros apoiadores do presidente gritam "é Bolsonaro" ao fundo; apoiadores do presidente fizeram confusão no Santuário Nacional de Aparecida

 

 

Antônio Gois
Cadastrado por
Antônio Gois

Nesta quarta-feira (12), durante as celebrações no dia de Nossa Senhora Aparecida, no Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL)discutiram com jornalistas e fizeram confusões durante a celebração.

Em um momento, um homem que discutia com jornalistas da TV Aparecida, canal de conteúdo religioso, mostrou uma caneca com a foto de Bolsonaro e gritou "Deus está aqui, olha!", apontando para a imagem do presidente.

O homem manda que o cinegrafista o filme, enquanto outros apoiadores do presidente gritam "é Bolsonaro" ao fundo.

 

Reprodução / Twitter

  • Bolsonaristas hostilizam imprensa no Santuário Nacional de Aparecida - Reprodução / Twitter

     

    CONFIRA VÍDEO DO MOMENTO EM QUE HOMEM DIZ QUE BOLSONARO É DEUS confira aqui

Sleeping Giants Brasil
@slpng_giants_pt
Padres estão sendo hostilizados por apoiadores do presidente Bolsonaro após pregarem contra o ódio nas eleições Cardeal Dom Odilo teve que vir às redes sociais explicar que sua roupa vermelha não significava "comunismo" e sim uma roupa tradicionalmente usada por cardiais.
 
 
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Histerismo fanatismo

Dom Odilo Scherer sofre ataques após reflexão sobre brigas políticas

Dom Odilo Scherer, cardeal e arcebispo metropolitano de São Paulo, usou o Twitter para publicar uma reflexão sobre conflitos políticos entre amigos e familiares nesse domingo (16), e foi alvo de críticas. Ele chegou a ser chamado de “comunista” por usar roupas vermelhas, e precisou explicar que trata-se da liturgia da Igreja Católica.

14
Out22

O discurso pedófilo de Damares Alves

Talis Andrade

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Os pais das crianças presentes em igrejas onde Damares fala, devem deixar as igrejas e buscar acompanhamento psicológico para si mesmos e seus filhos

 

por Marcia Tiburi

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Diferentemente de um discurso “sobre” a pedofilia, em que se trata de um objeto de investigação ou de análise, seja no âmbito da produção da opinião, seja no âmbito da ciência, o discurso pedófilo é o discurso que tem uma função de gozo. 

Um gozo necessariamente perverso que realiza e satisfaz quem o profere. Abusadores são pessoas perversas que se satisfazem também através da fala, pois falar é fazer em vários sentidos. 

Dentre as características da perversão está o apagamento do outro como um sujeito que merece respeito. 

Damares fez seu discurso diante de famílias, inclusive crianças. Perversos falam de sexo diante de outros porque gozam com o medo no olhar do outro. Portanto, não é de qualquer sexo que falam, mas de um sexo bizarro e torturante. 

O objetivo é sequestrar a capacidade de pensar do outro e a sua capacidade de discernir. 

O outro é reduzido à objeto, à coisa, à presa no discurso do perverso, ele mesmo um predador psíquico e moral. 

Não é à toa que as pessoas estejam sendo capturadas por discursos expressos em espaços religiosos, pois o perverso se especializa em manipular a faculdade de crer de alguém.

O discurso de Damares produz efeitos que vão além do seu prazer com a retórica sexual que ela criou. 

Ele choca os ouvintes maduros, mas ao mesmo tempo, ele coloca pânico em crianças e pode as traumatizar. 

Não é à toa que as pessoas estejam sendo capturadas por discursos expressos em espaços religiosos, pois o perverso se especializa em manipular a faculdade de crer de alguém.

O discurso de Damares produz efeitos que vão além do seu prazer com a retórica sexual que ela criou. 

Ele choca os ouvintes maduros, mas ao mesmo tempo, ele coloca pânico em crianças e pode as traumatizar. 

Os pais das crianças presentes em igrejas onde Damares fala, devem deixar as igrejas e buscar acompanhamento psicológico para si mesmos e seus filhos. 

As pessoas precisam discernir entre igreja e seita, pois suas almas estão sendo devoradas por pessoas e projetos de poder que contradizem a própria lógica cristã, de amor e respeito ao próximo. 

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09
Ago22

Michelle Bolsonaro diz em culto que Planalto já foi 'consagrado a demônios'

Talis Andrade

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A primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou hoje, em um culto evangélico em Belo Horizonte, que o Planalto já foi "consagrado a demônios".

Pareceu um ataque a um aliado de Bolsonaro: Rosane Collor conta que o marido, "para se defender de inimigos políticos, o então presidente Fernando Collor participava de sessões de magia negra".  Leia reportagem de Renata Ceribelli.

"Podem me chamar de louca, podem me chamar de fanática, eu vou continuar louvando nosso Deus, vou continuar orando", disse Michelle, ao lado do presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), na Igreja Batista Lagoinha, na capital mineira, em um evento em comemoração ao Jubileu de Ouro do pastor Márcio Valadão.

Michelle disse ainda estar em um momento de guerra. "É um momento muito difícil, não tem sido fácil. É uma guerra do bem contra o mal, mas creio que nós vamos vencer".

Esse dualismo é demonstrado in Reportagem do Metrópoles: "Michele do Bolsonaro. A face de um Brasil de extremos. 

Como a história familiar da primeira-dama ajuda a explicar a realidade do país. Ela superou a pobreza, escapou da violência e de um ambiente de criminalidade. Em movimento improvável, ascendeu ao topo do poder. Muitos de seus parentes, no entanto, se somam a milhares de brasileiros presentes nas estatísticas dos marginalizados"

Nesta terça-feira (9), a primeira-dama Michelle Bolsonaro usou seu perfil no Instagram para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e religiões de matriz africana como o Candomblé.

Michelle compartilhou um vídeo em que Lula recebe um banho de pipoca de uma religiosa. As imagens foram filmadas no ano passado em um evento que ocorreu na Assembleia Legislativa da Bahia, em Salvador.

“Isso pode, né! Eu falar de Deus, não”, escreveu a primeira-dama. A publicação original foi feita por uma vereadora bolsonarista de São Paulo.

“Lula já entregou a sua alma para vencer essa eleição. Não lutamos contra a carne e nem o sangue, mas contra os principados e potestades das trevas. O cristão tem que ter a coragem de falar de política hoje para não ser proibido de falar de Jesus amanhã”, diz a legenda da postagem.

Michelle sabe ser terrivelmente evangélica, terrivelmente fria e distante dos parentes que não são chamados por Deus, não são convidados da primeira-dama para orar no Palácio do Planalto de madrugada, acompanhados de cantores e pastores.

Nas imagens que divulga, Michelle anda pelos principais pontos do Palácio espantando os demônios.

 

Michelle Bolsonaro: A face de um Brasil de extremos

 

Em 15 de agosto de 2019, Ary Filgueira e Mirelle Pinheiro escreveram no Metrópoles: Sábado 10 de agosto de 2019, "o Brasil tomou conhecimento de que a avó materna da primeira-dama Michelle Bolsonaro aguardava cirurgia acomodada em um corredor do Hospital Regional de Ceilândia (HRC), na periferia do Distrito Federal. A notícia correu rapidamente pelas redes sociais. Em poucas horas, a idosa foi transferida e operada em outra unidade do governo, desta vez com toda assistência.

Para os tribunais do senso comum, no entanto, o desfecho médico não encerra o assunto. Desde que Michelle subiu a rampa do Planalto ao lado do marido, Jair Bolsonaro (PSL), muitos brasileiros passaram a reparar na distância que a primeira-dama mantém de alguns de seus consanguíneos.

Embora esteja a meia hora do gabinete presidencial, boa parte do núcleo familiar de Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro não testemunhou o dia em que o marido dela tomou posse na Praça dos Três Poderes.

Desde então, as pessoas levantam hipóteses, julgam e, por vezes, condenam a atitude da primeira-dama. No último fim de semana, as redes sociais exibiram milhares de veredictos dos que se valem das aparências para sentenciar.

Qualquer família guarda seus segredos, tem suas graças e desgraças. A de Michelle não é diferente. Por ser pessoa pública, a curiosidade pelas origens dessa mulher é inevitável. A patrulha aumenta por causa da retórica de valorização da família, presente nas falas de Bolsonaro.

O que, até agora, não foi noticiado é a complexidade da história de Michelle. Ao sair de Ceilândia, ela deixou para trás um cenário de violência, sofrimento e criminalidade.

Dois tios maternos da primeira-dama do Brasil enfrentam problemas com a polícia. Um dos irmãos de sua mãe foi condenado por estupro, em 2018, a 14 anos de prisão. O outro encontra-se preso preventivamente por suposto envolvimento com a milícia.

Na década de 1980, a mãe de Michelle foi indiciada por falsificação de documento. Atualmente, está inscrita em programa habitacional do Governo do Distrito Federal com um RG emitido em Goiás que contém informações adulteradas.

Já nos anos de 1990, a avó materna da mulher de Bolsonaro cumpriu pena por tráfico de drogas – a mesma idosa que há alguns dias foi internada em hospital público do DF.

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Foram duas sobrinhas do tio de Michelle que o denunciaram por estupro sofrido quando ainda eram crianças. Em 2015, o avô materno da primeira-dama morreu assassinado de forma brutal, fato que os investigadores concluíram ter sido latrocínio.

Vivendo em um contexto de carências, a família de Michelle também se tornou vítima da violência, um resumo do que é a realidade nas periferias desassistidas do Brasil.

Em Brasília, o descaso do governador bolsonarista Ibaneis Rocha, e a carência de políticas públicas do governo federal, o governo que é "o negócio do Jair",  considerado o pior presidente do Brasil. 

AVÓ:

POBREZA, CADEIA E SOLIDÃO

 

A avó materna de Michelle Bolsonaro se acidentou em 8 de agosto e está internada no Hospital de Base

 

Maria Aparecida Firmo Ferreira, 78 anos, costumava tomar banho de sol na esquina da Chácara 85 do Setor Habitacional Sol Nascente sempre por volta das 15h. Junto à comunidade do Pôr do Sol, a região reúne 140 mil habitantes e ostenta a qualificação de maior favela da América Latina, já quase na divisa com Águas Lindas de Goiás.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região fica abaixo da linha da pobreza. Lá concentra-se boa parte de todos os problemas sociais de Ceilândia. Apenas 24% das ruas têm rede de águas pluviais e somente 30% são asfaltadas. Mas os moradores se queixam principalmente da violência. O tipo de crime mais comum na região administrativa é o tráfico de drogas. Em 2018, foram realizadas 1,2 mil apreensões pelas polícias Militar e Civil.

Deficiente física, Aparecida caminha com dificuldade e precisa de muletas. Passa muitas horas do dia na porta de casa observando quem entra e quem sai de uma das localidades mais perigosas de Ceilândia. Para os vizinhos, a rotina é motivada pela expectativa de receber visitas.

 

Maria Aparecida foi condenada por tráfico de drogas e passou dois anos na cadeia, no fim dos anos 1990

 

A aposentada se desequilibrou em 8 de agosto e caiu de costas no chão. Maria Aparecida fraturou o quadril e acabou sendo internada no Hospital Regional de Ceilândia. Depois de dois dias aguardando por uma cirurgia em maca improvisada nos corredores da instituição, ela foi transferida para o Hospital de Base e realizou o procedimento no dia 11 de agosto. A idosa recebeu alta da unidade de terapia intensiva (UTI), na terça-feira (13/08/2019), e foi encaminhada para a enfermaria.

Maria Aparecida é avó de Michelle e tem oito filhos. Mora apenas com Gilberto Firmo Ferreira, que é surdo. Por causa da perda de audição do tio, a primeira-dama especializou-se na Linguagem Brasileira de Sinais.

Mãe e filho residem em uma casa simples, localizada em rua de terra batida paralela e a 10 metros de distância da via principal, asfaltada. O imóvel foi adquirido depois da venda de uma propriedade no centro de Ceilândia.

Fachada da casa de Maria Aparecida, ela mora apenas com um de seus filhos, Gilberto Firmo Ferreira, que é surdo
Fachada da casa de Maria Aparecida, ela mora apenas com um de seus filhos, Gilberto Firmo Ferreira, que é surdo (que ensinou a língua de Libras à Michelle
 
 

Com o dinheiro, a avó de Michelle comprou uma chácara de 15 hectares e a repartiu em frações para cada um dos filhos. O terreno não possui escritura, como todos os do Sol Nascente. Alguns venderam as terras presenteadas pela mãe, outros perderam as parcelas para invasores.

No passado, Maria Aparecida esteve confinada na Colmeia – penitenciária feminina de Brasília – por tráfico de drogas. O caso ocorreu em 1997. Aos 57 anos, ela já tinha netos. Michelle, na época, estava com 15 anos.

Maria Aparecida era dona de casa quando foi flagrada com entorpecentes. Sustentou que a droga não a pertencia. Segundo a versão que contou, um vizinho teria pedido para ela guardar alguns pertences.

A explicação não convenceu os policiais da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), responsáveis pela prisão. Aparecida foi julgada e condenada. Ficou presa durante dois anos. Em 1999 ganhou liberdade.

 

O terreno onde Maria Aparecida mora não possui escritura, como todos os do Sol Nascente

O terreno onde Maria Aparecida mora não possui escritura, como todos os do Sol Nascente. O que comprova que na maior favela da América Latina não existe Deus nem governo. 

 

MÃE:

MARIA DAS GRAÇAS OU 

MIRELE DAS GRAÇAS?

 

Michelle não mantém contato frequente com a mãe, Maria das Graças

Michelle não mantém contato frequente com a mãe, Maria das Graças

 

Em 1988, o delegado Durval Barbosa, que naquela época chefiava a Delegacia de Falsificações e Defraudações, indiciou Maria das Graças Firmo Ferreira, a mãe de Michelle, pela tentativa de tirar documento com o uso de uma certidão falsa. Duas décadas depois, Durval ficaria conhecido em todo o país ao se tornar o delator da Caixa de Pandora, maior esquema de corrupção já desvelado na capital da República. O escândalo, de 2009, desmantelou o governo de José Roberto Arruda.

No inquérito, Barbosa relata que a Certidão de Nascimento nº 10.751 expedida em Planaltina de Goiás e apresentada por Maria das Graças continha dado inverídico. O documento informava que a mulher era 9 anos mais nova do que sua idade biológica. Além disso, omitia o nome do pai dela, Ibraim Firmo Ferreira.

Segundo a polícia, a farsa foi descoberta quando os peritos encontraram uma homônima de Maria das Graças no banco de dados do Instituto de Identificação do DF. Ao comparar a foto recente dela com a antiga, desconfiaram que se tratava da mesma pessoa.

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Maria das Graças foi conduzida coercitivamente para a delegacia, onde confessou a fraude que caracteriza o crime de falsidade ideológica. O processo, no entanto, acabou prescrevendo em 11 de março de 1994. Na ocasião, o juiz substituto Sandoval Gomes de Oliveira, ao analisar o caso, concluiu que a ação do Estado seria inócua em razão do tempo transcorrido.arte

 

Mas Maria das Graças não desistiu. Em Goiás, conseguiu registrar nova identidade com dados falsos. Na carteira adulterada, trocou de nome: Mirele das Graças Firmo Ferreira. Manteve o nome do pai, Ibraim Firmo Ferreira, e voltou a informar idade com defasagem. Desta vez de 11 anos. Maria das Graças nasceu em 11 de junho de 1959, em Presidente Olegário, Minas Gerais. O Metrópoles teve acesso ao RG alterado. A reportagem, no entanto, não vai expor a documentação para preservar o sigilo da fonte.

Segundo familiares, a mãe de Michelle teria mudado o ano de nascimento por vaidade. Com o documento modificado, registrou os três irmãos de Michelle: Suyane Lanuze Ferreira Lima, 27 anos, Geovanna Kathleen Ferreira Lima, 20 anos, e Yuri Daniel Ferreira Lima, 15 anos. Na certidão de nascimento de Michelle, no entanto, consta o nome de batismo da mãe, Maria das Graças.

 

Certidão Michelle

 

O surpreendente é que, usando uma identidade com dados forjados, “Mirele”, a Maria das Graças, mãe da hoje primeira-dama conseguiu se tornar beneficiária do programa habitacional Morar Bem, inaugurado na gestão do petista Agnelo Queiroz. O auxílio prevê a candidatos de baixa renda condições facilitadas de pagamento da casa própria

 

 

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Na visão de alguns dos familiares de Michelle Bolsonaro, esse passado problemático seria um dos motivos para ela não manter uma convivência mais frequente com a mãe. No caso dos irmãos, no entanto, a primeira-dama cultiva boa relação.

 

Além do documento com o nome de batismo, a mãe de Michelle Bolsonaro tem um RG em nome de Mirele
Além do documento com o nome de batismo, a mãe de Michelle Bolsonaro tem um RG em nome de Mirele

 

Em nome de Mirele das Graças Firmo Ferreira, consta uma ocorrência de lesão corporal registrada em 2007. O documento descreve que ela teria desferido vários golpes com uma pedra na cabeça de José Ribamar dos Santos, à época um senhor de 62 anos. Questionada pela polícia, “Mirele” (a Maria das Graças) contou que era inquilina do homem e estava com aluguel atrasado. Saiu de carro com o locador para tentar encontrar um parente que emprestaria dinheiro para ela quitar a dívida.

Porém, no caminho, Ribamar teria desviado o veículo para um matagal e tentado violentá-la. Nessas circunstâncias, “Mirele” o teria agredido. No local, a polícia chegou a encontrar pertences do homem em um saco plástico com gasolina. Mas a pista não chegou a ser investigada e, por isso, a situação não foi esclarecida.

 

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A sogra do presidente da República leva uma vida humilde. Tem o hábito de passar as manhãs em casa e à tarde sai para para tomar sol e conversar com os vizinhos. Na época das eleições de 2018, ela foi vista fazendo campanha para Bolsonaro, apesar do distanciamento que mantém do genro.

No programa eleitoral de Jair Bolsonaro transmitido pela TV no dia 25 de outubro de 2018, as vésperas do segundo turno, Michelle revelou que a influência para fazer caridade começou com o tio materno e a mãe. “Ela sempre me ensinou que a gente não deve negar água nem comida para ninguém”, disse. Em seguida, falou sobre a convivência com Gilberto, que é surdo: “Ele plantou uma sementinha na minha vida e despertou meu amor pela Libras”, concluiu. Na época, essas declarações não chamaram atenção.

“Mirele”, Maria das Graças, Gracinha, mãe da primeira-dama e sogra do presidente da República do Brasil é uma típica brasileira marginalizada. Nem os supostos crimes que cometeu, nem as violências que sofreu foram enxergadas pelas instituições. [É uma cidadã abandonada, uma sofredora no pior país para o trabalhador. Transcrevi trechos. Leia mais]

09
Ago22

Tradição, Família e Propriedade: TFP está em alta e exporta ultraconservadorismo, diz analista

Talis Andrade

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O poder do dinheiro e da religião: Bolsonaro tem o apoio dos evangélicos e católicos da extrema direita para uma possível intervenção militar nazi-fascista 

 

 

por Ana Livia Esteves /Sputnik

 

Muitos brasileiros acreditam que a organização ultraconservadora Tradição, Família e Propriedade (TFP), que teve papel relevante na década de 60, está morta. Mas especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil revelam que o grupo continua firme e atua não só no Brasil, mas também no exterior.

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A organização ultraconservadora católica Tradição, Família e Propriedade (TFP) é conhecida pelos brasileiros através dos livros didáticos, que apontam o grupo como apoiador da implementação da ditadura militar no país, nos idos da década de 60.

Mas o que muitos brasileiros não sabem é que a organização continua bastante ativa na política nacional e internacional, mas sob outro nome: Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO).

"A organização vive o que deve ser um dos seus melhores momentos dos últimos 30 anos", disse o mestre em Ciência Política pela UFSCar Moacir Pereira Alencar Júnior à Sputnik Brasil. "Basta ver a agenda de palestras e eventos que promovem, inclusive em prefeituras."

A professora da Universidade de Passo Fundo (UPF) e coorganizadora do livro "O pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira e a atuação transnacional da TFP" Gizele Zanotto explica que, após o fim do regime militar, a organização se reestruturou.

"Embora hoje a TFP ainda exista no país, desde a morte do fundador nos anos 1990, outro grupo a controla e as antigas bandeiras de luta foram então assumidas pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO)", revelou Zanotto à Sputnik Brasil.

Segundo ela, o grupo, alinhado ao movimento chamado integrismo católico, foca suas atividades na "formação de elites e de mobilização dessas para atuação no campo político-partidário e social".

"Os membros em si não operam diretamente no âmbito político, exceto com ações de pressão e lobby, sobretudo quanto ao aborto, defesa do armamentismo, defesa do agronegócio, contrariedade a movimentos sociais com destaque aos sem-teto e sem-terra, enfim, pautas conservadoras relidas com a base doutrinária católica", disse a especialista.

 

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O grupo investe na realização de eventos para promover as suas pautas, sem focar necessariamente no aumento do número de seus membros diretos.

"É um grupo restrito em relação a número de filiados, que não tem necessariamente a intenção de crescer", disse Alencar Júnior.

Zanotto nota que "não é fácil encontrar uma lista pública com a nominata e cargos dos membros, então qualquer lista é parcial, construída com vestígios de informações que nos são possíveis de acessar via Internet".

A pesquisadora, no entanto, lista alguns nomes da cúpula da organização, como Mario Navarro da Costa, Léo Danielli, Luiz Moreira Duncan, Paulo Brito, Luiz Gonzada, Sérgio Brotero e Antonio Marcelino Pereira de Almeida.

Apesar da organização continuar enxuta, as pautas defendidas pela antiga TFP, atual IPCO, voltaram com força ao debate público brasileiro.

"As ideias da TFP estão mais difundidas, sim", disse Alencar Júnior. "Agendas [da organização] que há alguns anos eram consideradas marginais foram normalizadas com a chegada de Bolsonaro ao poder."Image

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Quem financia?

 

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As fontes de financiamento do grupo são tão obscuras quanto a sua lista de membros efetivos. Porém, através dos anos a organização encontrou diversas maneiras heterodoxas de manter o seu fluxo de caixa.

"Desde os tempos da TFP antiga, o financiamento se dá por diferentes meios como doações de membros e simpatizantes, venda de materiais doutrinários (livros, revistas, objetos votivos), repasses de entidades afins do exterior, arrecadações para campanhas fatimistas, entre outras ações", disse Zanotto.

A pesquisadora enfatiza as campanhas vinculadas à divulgação da Mensagem de Nossa Senhora de Fátima, que financiaram o grupo por muitos anos.

Segundo Alencar Júnior, "promoção de eventos, campanhas, venda de terços, calendários e livros" relacionados à Nossa Senhora de Fátima "angariavam um bom capital em um país com forte presença católica como Brasil".

Mas as fontes de financiamento se expandiram, e atualmente a organização também conta com o apoio de grupos alinhados às suas pautas.

"A partir da Constituinte, a TFP passa a defender agendas afeitas a fazendeiros mais conservadores, como o direito à posse de armas no campo e o combate contundente ao Movimento Sem-Terra (MST)", disse Alencar Júnior.

Mais recentemente, a associação nutre laços com grupos que promovem a agenda armamentista, inclusive com militares ligados ao governo Bolsonaro.

"Antes mesmo de Bolsonaro se eleger, a TFP promovia eventos com a participação dos filhos do presidente, principalmente para defender pautas como a do armamentismo e contra as causas LGBTQI+", revelou o especialista.

 

Ligações com Bolsonaro

 

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As pautas ultraconservadoras defendidas pelo grupo, como o armamento de civis, combate ao ambientalismo, à ideologia de gênero e ao aborto, são muitas vezes associadas às de grupos bolsonaristas.

"Não tem figura mais convergente com a TFP do que Bolsonaro, que concorda com a organização em questões que vão desde o tratamento conferido a indígenas e quilombolas até a agenda armamentista", argumentou Alencar Júnior.

Apesar da convergência com pautas bolsonaristas, Zanotto nota que "a entidade em si não se manifesta publicamente em prol de algum candidato, prefere fazer análises panorâmicas da situação apontando quem são os 'perigos' para sua concepção de país".

Segundo ela, evitar alianças político-partidárias claras "se traduz numa eficiente estratégia de proteção da antes TFP, hoje IPCO, de vinculações que podem trazer mais prejuízos do que ganhos à causa político-cultural que defendem".

"O IPCO atua independente de partidos e coligações partidárias, e se aproxima de quem defende bandeiras comuns às suas propostas e campanhas. São afinidades pontuais e não formalizadas como aliança", disse Zanotto. "Neste sentido, é precipitado pensar que o IPCO se alinha com o governo."

A especialista alerta que, como a associação não atua de forma direta nas estruturas partidárias, não é possível identificar uma suposta "bancada tefepista" no Congresso Nacional.

"O IPCO tem afinidades com políticos conservadores, lhes dá espaço para manifestar suas ideias, e muitas vezes usam de seus cargos, quando eleitos, para defender a entidade e suas causas nos plenários em que atuam", disse Zanotto. "Essa proximidade não é partidária em si, é muito mais pessoal, por questões doutrinárias e político-culturais."

 

Alcance internacional

 

A TFP aposta na sua projeção internacional desde a sua origem, na década de 60. Após apoiar ativamente o golpe militar de 1964, a instituição exportou sua agenda e experiência para países sul-americanos.

"A organização não se restringiu ao apoio à ditadura militar brasileira, mas também apoiou movimentos similares em países como a Argentina, o Chile e Uruguai", disse Alencar Júnior. "A organização começa a criar raízes e associações coirmãs, que não necessariamente levavam o mesmo nome, mas defendiam a agenda tefepista."

No Chile, a organização combateu lideranças católicas que questionavam a ditadura de Pinochet, como o cardeal Raúl Henríquez. Na Argentina, a TFP atuou para marginalizar membros da Igreja Católica que considerava ligados à esquerda.

A organização também possui forte presença na Europa, considerada um bastião para a promoção da agenda monárquica. Um dos principais líderes da organização é Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que se considera o herdeiro legítimo da Casa Imperial brasileira.

"A TFP é uma das principais mantenedoras do movimento monarquista brasileiro e o elo com a Europa é considerado fundamental para essa bandeira", explicou Alencar Júnior.

Atualmente, a agenda da TFP e organizações coirmãs no velho continente abarca não só a defesa da monarquia, mas também a promoção do liberalismo econômico e conservadorismo nos costumes.

"A organização tem afiliações muito fortes na Polônia, onde promove uma agenda conservadora no costume e contrária à ideologia de gênero", revelou Alencar Júnior. "São associações que argumentam contra a igualdade entre os sexos, e mesmo contra instituições como a união estável entre homens e mulheres."

No dia 30 de julho, o jornal polonês Gazeta Wyborcza expôs as ligações entre a TFP brasileira e a organização ultraconservadora local Ordo Iuris. Segundo a reportagem, a Ordo Iuris "deriva diretamente de uma organização brasileira de extrema direita [...] chamada TFP".

O jornal ainda nota que, "curiosamente, um fragmento do logotipo da TFP (cabeça de leão com a língua de fora) também pode ser encontrado no logotipo da Ordo Iuris".

Ao contrário do que muitos pensam, a organização brasileira não é um membro passivo do movimento internacional ultraconservador, mas sim ativo, que organiza e apoia movimentos no exterior.

"A TFP não é objeto do movimento transnacional, mas ela é quem o leva adiante. A organização tem uma agenda bem delimitada e não hesita em promovê-la internacionalmente", concluiu Alencar Júnior.

A organização Tradição, Família e Propriedade (TFP) foi criada em 1960 no Brasil pelo professor e militante católico Plínio Corrêa de Oliveira. Após a sua morte, em 1995, a organização se reestruturou, dividindo-se em diversos grupos, entre eles o Arauto do Evangelho e o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO), fundado em 2006.

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