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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

11
Jul21

O fascismo das redes

Talis Andrade

 

por Miguel Paiva

- - -

Desde que a internet e as redes sociais tomaram conta das relações e da informação muita coisa mudou, para o bem e sobretudo, para o mal. Mas como não há mal que não possa piorar, vamos prestar atenção no poder de sedução das redes. A primeira coisa que se nota é a demonização da política. Todos os políticos são corruptos, eles dizem, não me representam e o que eu quero eu digo diretamente na internet. Só que não é bem assim. A sociedade organizada não é e nem deve ser a casa da mãe joana. Se acabarmos com a política em troca da chamada política direta através de referendum a primeira consequência seria o esmagamento das minorias, é claro. A democracia, política de todos, visa justamente igualar essas forças, pelo menos na teoria. Não é o ideal, mas é o melhor que temos para hoje.

O lado bom é que a informação foi democratizada, a vigilância aumentou e cada um é capaz de cumprir o papel de defensor da democracia publicando as denúncias das ameaças à ela. Mas tudo que é publicado deve ser comprovado. A internet não facilita essas confirmações. Por isso precisamos sempre desconfiar. Ouvir, mas tentar comprovar.

Até aí, tudo bem, mas não é isso que essa direita perversa e violenta deseja para o país e com isso acaba iludindo a população com suas teorias fascistas de liquidação. Chamando todos os políticos de corruptos e a corrupção, o roubo, é o maior pecado de todos, fica fácil estabelecer outras regras ilusórias de fazer valer a voz das pessoas. A meritocracia vem diretamente ligada a esta ideia. Não tendo mais democracia como a conhecemos fica estabelecido então que só os mais fortes terão vez e voz. Quer vencer na vida? Faça o que puder e o que conseguir mesmo que você não tenha nascido com condições, não tenha estudado numa escola decente, tenha comido e se cuidado. Problema é seu, diriam eles como diziam os fascistas.

Para isso é importante antes de tudo controlar a imprensa, fortalecer a polícia e criar uma propaganda oficial que alimente esta imagem. Parece com o que estamos vivendo? Vocês acham? Imagina! Este governo é democrático, foi eleito legalmente. Esta é a primeira das mensagens enganosas que o departamento de propaganda quer passar. Inicialmente, as eleições passam longe de terem sido justas. Tivemos infinitas informações sobre o modus operandi dos eleitos no encaminhar da eleição. Notícias falsas disparadas ilegalmente, compra de votos, propaganda enganosa e outras mumunhas. 

Chegando ao governo o trabalho é só estabelecer as novas regras. Propaganda sempre comendo solta começam a interferências. Combate às minorias, desmonte da cultura e das conquistas sociais, fortalecimento das forças repressivas, criação de uma imagem imaculada de honestidade e sobretudo uma moral ilibada e religiosa que seduz a população carente de ideias mais nobres. 

A corrupção é uma peça chave nessa propaganda. Não roubar é o mandamento mais respeitado dos dez que a igreja católica estabeleceu e que acabaram sendo as “regras de convivência” da nossa sociedade. Mexer com a propriedade privada, tirar o que é do outro pelo outro é o pecado maior. Você até pode tirar o seu, meter a mão na cumbuca, tirar vantagem, pegar escondido. Mas o outro tirar do outro é pecado mortal. Político tirar da população é moralmente o crime maior. E é mesmo, diria eu, mas não só este crime é pecado mortal. Os outros que o fascismo carrega também são. Perseguir minorias, criar e alimentar preconceitos, favorecer privilégios, acabar com a cultura, a informação e a liberdade também. Mas isso parece que não conta muito para a população desinformada. 

Cultura é coisa de artista dizem eles, equivocadamente, esquecendo que tudo o que fazemos vem da cultura que consumimos. Minorias que se cuidem que por mais que eu tolere os gays, diriam eles, prefiro que meu filho seja um bandido. Esse é o pensamento que cola, que vinga e a democracia, com seu sistema eleitoral que aqui no Brasil conseguiu se aprimorar com o voto eletrônico, passa a ser uma ameaça para esse pensamento. Mas, por enquanto, os ameaçados somos nós que acreditamos na democracia e no voto, no caso, eletrônico. 

Querer voltar ao voto impresso é o primeiro passo para acabar com as eleições. Tudo que é impresso, assim como os livros, é passível de ser rasgado ou queimado como gostam os fascistas e nazistas.

Vamos prestar atenção nessa falsa democracia que eles querem estabelecer. O voto existe justamente para tentar equilibrar as forças. Nada mais democrático.

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03
Set19

Saída para números em queda de Bolsonaro pode estar em bancada do Roda-Viva

Talis Andrade

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por Denise Assis 

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As manchetes, claro, giram em torno do número principal: 38% avaliam mal o presidente Jair Bolsonaro, reprovando o conjunto de sua “obra”, e tornando-o historicamente o proprietário do pior índice de avaliação na vigência do primeiro mandato, desde a redemocratização do país.  Um aspecto, porém, o difere dos demais. O motivo que o joga ladeira abaixo. Direcionando a lupa para os itens que medem as opiniões sobre o seu comportamento, vê-se que o seu desempenho despenca, apontando para um aspecto que todos já sabiam, mas 57 milhões fizeram questão de ignorar. O seu despreparo para o cargo.

Subiu de 25% para 32% os que o consideram inadequado para a função. Do mesmo modo, dos 22% entusiastas com o seu comportamento, 7% já recolheram as bandeirolas da torcida e 44% dizem não confiar em nada do que o presidente fala. Apenas uma parcela ínfima: 19%, lhe dão crédito e, 88% dos 2.878 entrevistados em 175 cidades, não acharam graça nenhuma em sua escatologia explícita. Há sempre aquela turma de 2% que não têm opinião formada sobre nada. Apenas toca a vida, como se governo fosse algo para ser comentado apenas por repórteres de TV engravatados e não influísse decisivamente em suas vidas.

O ponto a se observar, no entanto, é que Bolsonaro, tal como fez com os números do INPE, que acabaram por torrar a sua popularidade na crise das queimadas amazônicas, prevista pela Instituição que ele teimou em desmentir, o quesito responsável pelos números em queda e com viés de mais queda, só pode ser alterado por ele mesmo. E, mais uma vez, num espetáculo de fuga da realidade, arrogância e prepotência, Bolsonaro, na impossibilidade de sopapear os responsáveis pela publicação dos números, distribui murros contra os números que ele próprio produziu.

Nesta hora, o seu maior sonho era ter em torno de si a bancada de entrevistadores do Glenn Greenwald, do programa da TV Cultura, o “Roda-Viva”, a lhe afagar o ego e defender a sua imagem. (Ainda que no dia seguinte, como de costume, ele pusesse tudo a perder, com alguma frase de efeito dita na jaulinha reservada aos repórteres de plantão no Planalto). Bolsonaro deveria começar a pensar em contratar aquele conjunto de “jornalistas” para compor a sua assessoria. Ele não precisaria cair em si, e mudar suas atitudes. Com eles sua vida – e seu clipping - seriam “só festa”.

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