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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

05
Jun22

Recorrência de catástrofes naturais no Brasil impõe reflexões sobre injustiça ambiental

Talis Andrade

Veja fotos do deslizamento de terra que matou sete pessoas em Recife -  Fotos - R7 Brasil

 

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Vista aérea dos deslizamentos de terra ocorridos no Jardim Monte Verde, na divisa do Recife com Jaboatão dos Guararapes, após as chuvas torrenciais que atigiram a região na última semana de maio. 28/05/2022 via REUTERS - DIEGO NIGRO/PREFEITURA DO RECIFE
 

 

Especialistas apontam a pressão humana sobre o meio ambiente e dizem que a população preta e pobre é sempre a mais atingida pelas catástrofes naturais no Brasil

 

Raquel Miura /RFI

Não se chegou nem à metade do ano e 2022 já tem a marca de tragédias ambientais no Brasil. Desmoronamentos de terra e inundações no Rio de Janeiro e na Bahia, no início do ano e, agora, a água que destruiu casas e matou moradores também em Pernambuco. Num ano de ciclone no sul e frio congelante em boa parte do país no outono, muitos se perguntam qual o peso da ação humana nesses fenômenos.

Osvaldo Girão, do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diz que as chuvas caíram na época prevista, porém chama a atenção o volume de precipitação e a repetição de eventos de tamanha intensidade.

“Foi um evento normal para o período, porém a intensidade é que está sendo muito forte, bem como a recorrência desses eventos, que estão se repetindo num curto espaço de tempo, o que não acontecia antes. Pode ser um reflexo das mudanças climáticas”, disse Girão à RFI.

Segundo o geógrafo, há vários fatores que entram nessa análise. “Por exemplo, estamos desmatando demais nos últimos anos, nos últimos séculos. A ampliação do plantio, das atividades agropecuárias, tudo isso repercute no sistema atmosférico e oceânico, provocando uma mudança na dinâmica de vento, da umidade, da temperatura”.

Mais de 380 pessoas morreram soterradas ou arrastadas pelas chuvas neste ano no país. O pesquisador Gustavo de Mello Baptista, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), afirma que é preciso pelo menos 30 anos de coleta de dados para analisar um evento da natureza e atestar uma mudança climática. No Brasil, esses estudos são relativamente novos, começaram na década de 1930. Por outro lado, Baptista diz que o lockdown do começo da pandemia do coronavírus  evidenciou a pressão do homem sobre o meio ambiente.

“Algumas agências espaciais da Europa,  do Japão e a Nasa, nos Estados Unidos, fizeram um levantamento no início da pandemia, quando muitas pessoas em vários locais do mundo estavam trancadas em casa, e mostraram que os índices ambientais melhoraram. O ar ficou melhor, a poluição caiu. Isso mostra que é preciso repensar o que estamos fazendo, o que estamos destruindo, desmatando”, defendeu à RFI o professor da UnB.

Ausência de políticas públicas

Para os especialistas, mais do que quantificar o peso da ação humana nessas catástrofes, é preciso agir para impedir novas tragédias. “Recife tem um déficit habitacional muito grande, há uma ausência de políticas públicas, de avaliação de risco. É preciso levar isso em conta urgentemente porque, do contrário, teremos todo ano muitas mortes”, alertou Girão.

A expressão-chave diante de tantas vidas perdidas é justiça ambiental, na opinião de Gustavo de Mello Baptista. “É preciso se atentar para a distribuição de renda, para a política ambiental, para a justiça ambiental. Quando a gente pensa nessas tragédias anunciadas, vemos que a população preta e pobre é sempre a mais atingida", adverte o geógrafo. 

“A gente viu que um vírus pode gerar uma pandemia que atinge todo o mundo, mas até nisso os países pobres tiveram mais dificuldade para ter acesso à vacina. É preciso repensar tudo isso, é imperial uma reflexão pós-Estocolmo para se avaliar situações de risco e combater a injustiça ambiental”, conclui o professor do Instituto de Geociências da UnB.

06
Abr22

A arma que o povo precisa: o revólver de Flaira, o fuzil de Bolsonaro

Talis Andrade

www.brasil247.com - Aroeira: remando com fuzis, Bolsonaro quer flexibilizar armas

O presidente vem repetindo que “o povo armado” representa um obstáculo para o surgimento de um “ditador"

Propaga Bolsonaro:

Os bandidos estão armados, você não tem paz nem dentro de casa. Eu não consigo dormir, apesar de uma segurança enorme aqui no Alvorada, sem ter uma arma do meu lado.

Quem não quer ter arma, é só não comprar. Não tem problema nenhum. Agora, se estiver sofrendo uma invasão, até pegar o telefone e ligar, muitas vezes a polícia leva horas. Uma arma é sua defesa, ou será que você não se garante? Arma protege a sua vida, sua família. Arma não mata; quem mata é o elemento que está atrás dela.

Eu tenho 2 [fuzis] em casa. Se a mulher sair do quarto, tudo bem. Mas o fuzil fica lá. Tá certo? Ele não sai. E para chegar no meu quarto tem duas portas […] E sempre foi assim a minha vida. Meu tempo de tenente, capitão do Exército, deputado federal. Nunca deixei de dormir com arma em casa.

Dificilmente alguém invade ou rouba uma casa em que há uma arma. A pessoa armada é uma segurança para sua família.  

A arma é inerente à defesa da sua vida e à liberdade de um país. Meus filhos todos atiraram com cinco anos de idade, real, não é de ficção nem de espoleta não, tá ok?

Não há nada de errado em ensinar valores e disciplina aos nossos filhos, pelo contrário, é fundamental e edificante. A bronca de parte da imprensa agora é que não vesti meus filhos de menina, nem incentivei o ensino de sexo para crianças na escola.

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Canta e encanta Flaira: 

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O meu revólver
É um estado de espírito
E o pessimismo
É luxo de quem tem dinheiro
 
A covardia
Impera sob a ignorância
Mas a esperança
É substância pra mudar (é substância pra mudar)
Mudar as coisas de lugar (mudar as coisas de lugar)
 
Uma cidade triste
É fácil de ser corrompida (é fácil de ser corrompida)
Uma cidade triste
É fácil ser manipulada
 
No contra-ataque da guerra, arte!
Pra não viver dando murro em ponta de faca.
No contra-ataque da guerra, arte!
Ninguém nessa terra vai comer farinata
 
Eu quero ver você dizer que
Não vai ter mais frevo
Eu quero ver você dizer que
Não tem frevo mais
 
Eu quero ver você dizer que
Não vai ter mais frevo
Eu quero ver você dizer
Eu quero ver quem vai
 
O frevo é um ser humano
O frevo é o nosso Rock
O frevo é a luta armada
De Zenaide, de Capiba e de Spok
 
Meu corpo é uma cidade
Com pernadas de aço
Pra furar um buraco
Na rocha do egoísmo
A revolta do passo
 
Ferrolho, tramela
Rojão, abre alas
Tesoura, martelo
Espalhando brasa
 
Ferrolho, tramela
Rojão, abre alas
Tesoura, martelo
Espalhando brasa
 
Eu quero ver você dizer que não vai ter mais frevo
Eu quero ver você dizer que não tem frevo mais
 
Uma cidade triste
É fácil de ser corrompida
Uma cidade triste
É fácil ser manipulada
 
No contra-ataque da guerra, arte!
Um corpo liberto deixa a mente afiada
No contra-ataque da guerra, arte!Flaira Ferro | Cifra Club
 

 
 
 
10
Fev22

Poetisa recifense Carol Braga pede ajuda para custear ida à Copa do Mundo de Slam, na França

Talis Andrade

 

Ela venceu o festival nacional de Portugal e agora precisa de ajuda para garantir sua passagem para o mundial

 
por Maria Lígia Barros /Brasil de Fato

 

Dois anos foi o tempo que passou entre o momento em que a recifense Carol Braga, de 29 anos, declamou um poema seu pela primeira vez e a sua vitória no campeonato nacional português de slam poetry - na tradução livre, batalha de poesia. Agora, com vaga garantida na Grand Poetry Slam Coupe du Monde - a Copa do Mundo da Poesia Slam -, ela parte para um novo e maior desafio, competindo com outros países e outros idiomas. Mas, para chegar na França, onde o evento será realizado em maio, a poeta precisa de ajuda.

A organização do campeonato irá custear sua passagem de Lisboa até Paris; no entanto, Carol está no Brasil desde setembro do ano passado. Por conta disso, precisa custear sua ida de Recife a Portugal. A poeta abriu uma vaquinha online para conseguir pagar a viagem através de financiamento coletivo, e os interessados podem contribuir através deste link.

“Vi que todas as pessoas eram voltadas para a poesia – eu nunca tinha tido tanto contato com gente que escrevia e performava poesia. Nunca tinha lido um poema meu em voz alta até março de 2020. Estava todo mundo lendo e eu me senti confortável de ler pela primeira vez, e as pessoas ficaram super emocionadas”, relembrou.

Carol já conhecia a arte do slam antes mesmo de se mudar, de assistir pela internet a também pernambucana Bell Puã, do Slam das Minas, declamar seus textos. “Eu fiquei chocada. Pensei: ‘nossa, mas isso é lindo, é muito forte’. Quando vi pela primeira vez em Portugal, pessoas angolanas inclusive, eu me identifiquei muito. Foi uma descoberta de mim mesma, de como a poesia pulsava, e de que falar sobre determinados assuntos também pode ser poesia”, contou.

Formada em Jornalismo e em História, Carol Braga sempre teve o hábito de escrever. O gosto pela poesia e pela sua interpretação foi descoberto há dois anosmaria, quando migrou para Portugal para fazer doutorado na Universidade de Coimbra. Recém-chegada em outro país e sem conhecer ninguém, ela procurou na cidade atividades em que tinha interesse. Foi assim que encontrou um grupo de ativismo literário, a Secção de Escrita e Leitura da Secção Académica de Coimbra (Sesla), e resolveu participar de uma reunião. 

 contou.

Em outubro de 2020, só sete meses depois desta primeira experiência, Carol estava ganhando o festival local da cidade de Leiria. Em razão da vivência da época, o tema que mais permeia sua produção é a experiência de ser imigrante. Foi com um poema sobre esse assunto, o ‘Despejo’, que Carol ganhou o 7º Festival Nacional de Poesia e Performance Portugal SLAM, em junho de 2021. “Agora mesmo estou sem margens / muito estrangeira para voltar para casa / mestiça demais para estar aqui / Mas é tão ruim assim não pertencer / No final a gente cria essa ilusão globalizada de que não pertencemos porque não temos terra / E quem não tem terra para morar não é fértil”, recitou ela na final do evento.

Com esse texto e a vitória, Carol garantiu não só o acesso à Coupe du Monde, como também a publicação do seu primeiro livro: o ‘Minha raiva com uma poesia que só piora’, lançado em dezembro do ano passado pela editora Urutau. “Eu já tinha publicado [minhas poesias] em antologias, mas nunca tinha publicado um livro só meu. Todos os meus poemas de slam estão nele, então ele tem o ritmo de slam”, disse.

07
Fev22

Modos de acabar com uma raça

Talis Andrade

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Por Urariano Mota

- - -

Existem vários modos de acabar com os negros.

No primeiro deles, o mais cruel, é sob tortura e espancamento de ódio. Um linchamento público, com assistência sob o sol, chope e passividade. Se um negro está sendo morto a porrada, alguma ele fez. Aliás, os negros sempre estão fazendo qualquer coisa de errado.

Assim foi com Moïse Kabagambe, que trabalhava no Rio de Janeiro em um quiosque da praia. O seu erro, a sua petulância. a sua loucura foi não reconhecer o seu lugar, quando cobrou dois dias de pagamento por seu trabalho. Para quê? Foi brutalizado por cinco bárbaros que o destruíram com pedaços de madeira e um taco de beisebol. Um dos assassinos falou que "resolveu extravasar a raiva que estava sentindo" e que, por isso, bateu no congolês com um taco de beisebol.Image

Mas hoje mesmo, em qualquer cidade brasileira, jovens são amarrados em postes, numa recuperação dos velhos pelourinhos. Os novos escravos são espancados, enquanto comunicadores na televisão aprovam e ganham dinheiro e fama por açular a massa para o linchamento de marginais. Alguma coisa eles fizeram.

No segundo e frequente modo, acaba-se com negros, com crianças negras de preferência, pelo terrorismo mais elementar das “balas perdidas” nas favelas e comunidades mais pobres. Meninos e meninas negros, negríssimos, negros claros, negras mestiças, mas sempre negros. Esses são crimes sem criminosos, de mortes sem investigação, porque é o natural morrer em razão da natureza da cor e lugar. Alguma coisa essas crianças fizeram.

No terceiro modo, com aparência suave, mas igualmente infame, negros morrem por desprezo, por descaso, ou pela mais simples desconsideração. Assim foi o caso do menininho Miguel, filho da empregada doméstica Mirtes. Ali, tivemos a revelação do horror da injustiça de classes no Brasil. E no seu crime, o costume em vigor de acabar com os negros entre brasileiros. Dessa morte típica não podemos nem falar em tragédia, tamanha é a vulgarização de como se anula a vida negra.

Minutos antes da queda da criança Miguel, madame estava pintando as unhas em casa. Havia ficado com o filhinho Miguel da empregada Mirtes, que saíra para a rua com a cadela da patroa. A criança ficou a brincar com a filha da madame. Mas a desgraça de Miguel foi ter amor demais por sua mãe. Quando ela se ausentou, ele se pôs a chorar, a pedir por seu abrigo e colo. Mas por que o menininho, além de amar a mãe, de repente sentiu tanta falta do seu carinho? Alguma ele fez! O fato é que o menino, teimoso, rebelde, “cheio de vontades” – como se não fosse filho de negra – incomodou tanto, que outro jeito não teve a patroa a não ser deixá-lo à própria sorte. Azar, azar, azar, azar. Ou seja: quer sua mãe? Nas imagens do vídeo, a madame aparece levando o condenado a seu destino de menininho negro. Deixa-o sozinho no elevador do arranha-céu no Recife. E volta para as belas unhas. Súbito, um baque, um pequeno estrondo. Ossos quando batem no chão, descidos de boa altura, soam como bombas.

Um terceiro modo de se acabar com negro é confundi-los com assaltantes. Eles não precisam estar armados ou com um objeto furtados. Mas alguma eles fazem, sempre. Porque eles furtam mais que valores materiais: furtam a paciência de quem vê aquela cor. Então não perguntem por que um homem honesto, trabalhador, é confundido com um ladrão sem nunca ter roubado. Pois não veem que é negro? Se não roubou, vai roubar. Se não foi ele, foi um seu comparsa, Portanto, é preciso acabar com a sua raça.

Escrevi lá em cima que existem vários modos de acabar com uma raça. Depois, no primeiro parágrafo, disse que existem vários modos de acabar com os negros. Mas aqui devo fazer uma ressalva: existem vários modos de acabar com as pessoas de pele preta. No Brasil, negro é uma cor. Se alguém descende de negros, mas possui uma pele clara, não é negro. Pode até ser promovido a papel de espancador e assassino da sua raça. Para um cão danado, todos a ele. Até mesmo os cães moreninhos vão pra cima, porque não possuem o mal de ser negro. Apenas possuem a raiva raivosa e ruim de acabar com um negro legítimo. Acabando-se, assim, na própria alma que entregam ao inferno. Pois todo fogo é pouco para os racistas.

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02
Jan22

O Papa-Figo no Alvorada

Talis Andrade

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Dizem que no Palácio da Alvorada mora um lobisomem. Não acredita nos avanços da ciência. Nem precisa

 

por Gustavo Krause

- - -

Gilberto Freyre enxergou com insuperável acuidade os fatos sociais. No livro Assombrações do Recife velho, explorou personagens sobrenaturais que povoam a vocação mística da cidade e seus efeitos sobre o imaginário popular.

O Papa-Figo, figura tenebrosa, tratava a doença do soturno lobisomem com fígados de criancinhas. Dizem que, atualmente, o lobisomem mora no Palácio da Alvorada e o Papa-Figo é o mais eficiente formulador e executor dos programas de governo.

Controverso e polêmico é dizer quase nada de Gilberto Freyre e da obra monumental que mudou e segue influindo a perspectiva de pensar o Brasil. A atração dialética do autor pelos “antagonismos em equilíbrio”, permite que, sobre ele, tudo possa ser dito e sentido: a emoção dos afetos e desafetos; admiração dos discípulos e a ira dos contrários; etiquetas das demências ideológicas. Tudo, menos indiferença ao patrimônio que legou aos saberes universais.

Não cabe em rigores metodológicos: ao da prosa científica, aliviava com a leveza da construção poética; não se submetia a pré-conceitos: versátil e plural reinventava e religava conhecimentos, criando uma espécie de ecossabedoria. Confessadamente vaidoso, reconhecia, segundo testemunho de Edson Nery da Fonseca, que “a verdadeira ciência é humilde”.

Ninguém olhou e enxergou o fato social com tanta acuidade: desde descrever a relação do senhor do engenho com a rede, até lançar luzes sobre as possibilidades de uma civilização tropical mestiça.

Nada escapava à percepção e aos significados freyrianos: o poder do patriarca, o recato oprimido das sinhás, o odor sensual da mucama, a imponência da arquitetura e do mobiliário, a mancha melânica, o jenipapo na bunda dos meninos brancos, marca da ancestralidade negra, o hábito indígena dos banhos diários e a culinária com o sabor especial dos temperos raciais no reinado do açúcar.

Em Assombrações do Recife Velho (1955, várias edições, Global, 2012, formato ePup), reencontro meus primeiros medos. A matéria-prima vem do imaginário popular, contadores de histórias e cantigas de ninar (boi da cara preta). O sobrenatural assustador é um traço da vocação mística e histórica do Recife, repleta de revoluções, fantasmas de padres executados, casas e sobrados mal-assombrados (Teatro Santa Isabel) nome de bairros e ruas que guardavam relatos aterradores (Afogados, Chora-Menino, Encruzilhada, Encanta-Moça).

Dentre as 27 histórias, a que mais apavorava às crianças, era a lenda do Papa-Figo. Conta-se que um sujeito rico estava com uma doença desconhecida e incurável: à noite virava lobisomem de quem todo mundo tinha medo. Procurou um misterioso negro velho que receitou: “Ioiô, somente fica bom comendo “figo” (corruptela de Fígado) de menino corado e gordo”. O curandeiro pegava os meninos, enfiava num saco pendurado nas costas e servia ao “paciente”.

O homem ficou bom. A história ainda me dá arrepios. Dizem que no Palácio da Alvorada mora um lobisomem. Não acredita nos avanços da ciência. Nem precisa. O Papa-Figo é um consultor eclético que define as políticas do governo.Nenhuma descrição de foto disponível.

 

21
Dez21

Perdão, Doralice

Talis Andrade

Ilustração: Rafael Schwab

 

Talvez pense que está tudo certo, que é assim mesmo, que essa é a vontade de Deus e que se você não chegou lá é porque não se esforçou o bastante. Mas não, Doralice. Isso não é coisa de Deus, isso é do homem. A ganância, a ambição, a podridão. A fome, a sede, a humilhação

19
Dez21

CENAS DO RECIFE ANTIGO

Talis Andrade

Por Talis AndradeCícero Dias - Moças na Janela – Serigrafia

 

Na Cidade Antiga o recifense

sentava na calçada

para ver o tempo passar

puxava uma cadeira

para uma confidência

parava um conhecido

para uma conversa amiga

 

Todos se davam as mãos

nas cirandas e passeatas

Os amantes cantavam nas ruas

românticas serenatas

O povo possuía a doçura no coração

como se todos fossem irmãos

2

Porque se cultivava a amizade

permanecia aberta

a porta das casas

- terno convite

para o fraterno

sagrado abrigo

 

Havia o quarto de hóspede

- a cama forrada

com colcha de rendas

Para festivos ágapes

brilhavam louças pratarias

brilhavam os olhos das meninas

que o mundo está nos olhos

 

Aceso o fogão de carvão aceso

o coração da casa

da cozinha emanavam

as conversas

as cantorias das pretas-velhas

mucamas sinhazinhas

o cheiro gostoso

de maravilhosas iguarias

 

Era tudo do bom

do melhor

Serviam compotas

e suculentos sucos

de saborosas frutas

fatias de macios bolos

a água friinha

dormida no pote

O café quentinho

coado na hora

biscoitos de manteiga

derretendo na boca

 

3

Os convivas conversavam nas varandas

as crianças corriam pelos jardins floridos

os namorados fugiam pelos terraços abertos

buscando escuros esconderijos nos quintais

 

Havia o médico da família e o padre confessor

os padrinhos de formatura e casamento

os compadres de batismo crisma e fogueira

Havia os vizinhos os amigos dos vizinhos

Ninguém vivia sozinho

todos tinham nomes

emprego e moradia

No Recife antigamente

compartilhava-se a dor

e o pão de cada dia

 

- - -

Talis Andrade. O Sonhador Adormecido. Livro Rápido. Recife, 2004

Ilustração Cícero Dias /Moças na janela /Serigrafia

23
Nov21

Surto de lesões na pele que causam coceira: Paulista é terceira cidade do Grande Recife a notificar casos

Talis Andrade

Primeiros casos foram registrados em moradores do Recife — Foto: Arquivo pessoal

 

Por g1 PE

O município de Paulista é o terceiro da Região Metropolitana do Recife a registrar casos de pessoas com lesões na pele que provocam coceira, com três notificações. Até então, esse problema havia sido notificado no Recife, com 117 casos, e em Camaragibe, com 62 ocorrências. As prefeituras investigam essas ocorrências, que chegam a 182 nas três cidades.

Em 19 de novembro, o governo do estado emitiu uma nota técnica, recomendando a notificação emergencial de casos suspeitos. A prefeitura do Recife expediu um alerta epidemiológico, em 17 de novembro.

Desde então, trata o casos como surto de lesões cutâneas. De acordo com a prefeitura, essa denominação foi adotada "por causa do número de registros em série, em um determinado espaço de tempo".

Nesta segunda (22), a prefeitura de Paulista confirmou que registrou três casos na cidade. Todos eles são de homens, sendo um adolescente de 17 anos e dois adultos de 26 anos, que foram atendidos na Prontoclínica Torres Galvão.

Eles apresentaram sintomas na primeira quinzena de novembro. Os pacientes não apresentaram outros sinais além das lesões na pele e da coceira, de acordo com a gestão municipal.

Casos no Recife e em CamaragibeImage

Subiu de 88 para 117 no Recife e de 60 para 62 em Camaragibe, na Região Metropolitana, o total de notificações de pessoas com "lesões cutâneas a esclarecer". As duas cidades, que realizam investigação para identificar as possíveis causas do problema, atualizaram os números nesta segunda-feira (22).

Em ambos os municípios, os pacientes relataram ter muita coceira e "caroços" vermelhos na pele. A orientação para as pessoas que apresentem sintomas é procurar uma unidade de saúde.

Na capital pernambucana, os primeiros casos foram identificados em cinco crianças no Córrego da Fortuna e no Sítio dos Macacos, na Zona Norte do Recife. A cidade notificou moradores que relataram sintomas desde o dia 1º de outubro.

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde do Recife explicou que esperava o aumento de notificações após o alerta epidemiológico emitido no dia 17 de novembro para que as unidades de saúde das redes pública e privada notifiquem, imediatamente, o Cievs, ao atender um caso suspeito.

Bairros com registros de casos

Recife: Guabiraba, Dois Irmãos, Várzea, Boa Viagem, Córrego do Jenipapo, Bomba do Hemetério, Encruzilhada, Torre, Graças, Morro da Conceição, Brejo da Guabiraba, Passarinho, Linha do Tiro, Boa Vista, Sítio dos Pintos e Imbiribeira.

 

Camaragibe: Alberto Maia, Aldeia, Alto Santo Antônio, Areeiro, Bairro dos Estados, Bairro Novo, Céu Azul, Estação Nova, Jardim Primavera, Nazaré/Inabi, Santa Mônica, Santana, Tabatinga, Timbi e Vale das Pedreiras.

Paulista: Vila Torres Galvão, Maranguape 2, Janga e Pau Amarelo.Sete pessoas da mesma casa tiveram os sintomas no bairro da Guabiraba, na Zona Norte do Recife — Foto: Reprodução/WhatsApp

 
22
Nov21

Zumbi

Talis Andrade

 

Por Urariano Mota 

Na língua portuguesa, o nome Zumbi significa alma que vagueia a horas mortas, ou fantasma de animal morto, ou tem o sentido último de ser o título do chefe de um quilombo, zambi. Estranho, não? Ou melhor, faz um sentido histórico, porque alma de assombração ou fantasma de animal morto lembra mais uma vingança à memória de um herói na luta contra a escravidão. Mas isso — essa transição raivosa de significados — não é somente uma hipótese deste autor, como veremos.  

Quando buscamos a etimologia do nome Zumbi, o conflito continua. São duas visões de mundo. Segundo o Dicionário Houaiss, que registra sem comentar qual a mais precisa, a origem vem do “quimbundo nzumbi'espírito; espírito atormentado' ou quicongo mvumbi'alma errante', segundo Castro; Nei Lopes registra que ‘em quimbundo, a raiz nzumbse liga à ideia de imortalidade; e a essa ideia parece estar ligado o nome do Herói de Palmares’". Esse é o registro no Dicionário Houaiss. E quanto ao bairro de nome Zumbi no Recife??  

Os dados históricos mais recentes apontam que o bairro Zumbi veio de um sítio de Constâncio Maranhão, que nos anos de 1920 o arrendou ao major Agenor Pessoa. O arrendatário, esperto, passou a alugar o chão a operários e pessoas sem casa ou de salário pequeno. Mas como o lugar recebeu o nome de Zumbi? Por que o bairro entre o Cordeiro, Prado e Madalena recebeu o nome de Zumbi? Não foi por acaso, pois em história o acaso é uma desculpa para o desconhecimento.  

Na pesquisa, vem a primeira razão. O bairro foi terra de senhores de engenho, conforme este registro:  

“Localizado no atual bairro do Zumbi, o Engenho de Ambrósio Machado, assim chamado em alusão a seu proprietário, situava-se na margem direita do Rio Capibaribe. Durante a ocupação holandesa, o engenho foi abandonado, tendo seu proprietário se refugiado na Bahia, em 1635. Uma parte das terras do engenho foi, então, incorporada aos bens da Companhia das Índias Ocidentais. A outra parte, após 1654, foi ocupada por João Cordeiro de Mendanha, ajudante de ordens do Governador João Fernandes Vieira”.  

Esse João Cordeiro Mendanha, por sua vez, foi dono do Engenho Cordeiro, cujo domínio incluía parte das terras de Ambrósio Machado, o dono do que viria ser o Zumbi. Na verdade, ao longo e em torno do que hoje chamamos de Avenida Caxangá, existia uma vasta indústria escravocrata: Engenho de Ambrósio Machado, Engenho da Madalena, Engenho do Cordeiro, Engenho da Torre, Engenho Casa Forte, Engenho de Apipucos, Engenho de São Pantaleão Monteiro, Engenho Dois Irmãos, Engenho Brum-Brum, Engenho do Meio, Engenho Poeta, Engenho Santo Antonio, Engenho São João. Esse último, desde o século dezenove pertencente à família Brennand.  

Com essa origem, começamos a ter pistas de onde vem o nome Zumbi.  Para melhor compreender de onde veio, e não escrever por hipótese, ouvimos um depoimento vivo, original e inédito. Acompanhem as palavras do sociólogo e jornalista José Amaro Correia, ex-morador do bairro:  

“Diziam para as crianças: ‘Zumbi vai te pegar’. O medo que havia nos senhores de engenho foi transferido para os explorados. O explorado repetia à sua maneira a consciência do explorador. Até os meus 14 anos de idade, para mim e para todos os meninos, o Zumbi não era coisa boa. Esse nome era associado ao bairro. Para as pessoas de fora, nós dizíamos que morávamos na Madalena.  

Em um Sítio perto, havia uma árvore. Debaixo dela se enterravam os escravos. Para os lados da Torre, havia um tronco para a tortura. Havia postes fixos onde os escravos eram amarrados com correntes. Esses postes estavam lá até 1953. O povo dizia que Zumbi morou ali. Diziam que Zumbi ia voltar, como se fosse uma ameaça. Que Zumbi, quando morou lá, era protegido de um padre abolicionista na Torre. Era o comentário, era o aviso na infância: ‘Zumbi vai voltar’. As mães do bairro diziam para os filhos: ‘não volte tarde, porque Zumbi pode te pegar’”.  

Creio que assim vai explicada a origem histórica do bairro e do seu nome. De lugar de escravos, de terras de senhor de engenho, a lugar onde voltava Zumbi, desta vez como uma ameaça aos proprietários, e para os descendentes dos explorados, até hoje, como uma assombração, no registro dos dicionários.  

No entanto, Joaquim Cardozo, o grande poeta e calculista de Brasília, nasceu ali. E de tal modo possuía orgulho dessa origem, que na maioria dos resumos biográficos do poeta aparece “Recife, bairro do Zumbi, 1897”. Outro brasileiro ilustre é o próprio José Amaro Correia, Maro, ou Mário, como os amigos o chamamos. O Zumbi se tornou para ele a origem de militância política, nos terríveis anos da ditadura. No texto “Final de Copa do Mundo” me referi a esse bairro, porque lá comemoramos o tricampeonato da seleção brasileira em 1970.  

O que foi uma história cruel, depois se tornou motivo de festa para nós. Penso, ao fim, que cabe aos moradores do Zumbi, e a todos os brasileiros, o orgulho sereno dessa história.   

(Publicado no Dicionário Amoroso do Recife)

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

13
Out21

Mar vai 'engolir' Recife? Entenda por que cidade é a capital brasileira mais ameaçada pelas mudanças climáticas

Talis Andrade

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Recife é uma cidade no nível do mar e cortada por rios; na foto, vista da região central da capital, com mar ao fundo e rio em primeiro plano — Foto: Reprodução/TV Globo

 

 

Por Pedro Alves e Luna Markman, g1

O Recife é a capital brasileira mais ameaçada pelo avanço do nível do mar, de acordo com o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU). O relatório também aponta a "Veneza brasileira" na 16ª posição entre as cidades do planeta que correm mais risco e o g1 explica os fatores que contribuem para isso

Entre as conclusões do relatório mais recente do IPCC, divulgadas em agosto, está a estimativa de que os seres humanos tenham sido responsáveis por um aumento de 1,07°C na temperatura do planeta. O aumento do nível do mar é apenas um dos efeitos das constantes mudanças climáticas apontadas pelos especialistas.

Diversos aspectos fazem com que o Recife seja a cidade mais afetada pelo avanço marítimo, como a geografia, a densidade demográfica e até mesmo a desigualdade social, segundo especialistas. Não quer dizer que a capital vai ser 'engolida' pelo oceano, mas sim que tem muitos desafios a enfrentar.

Em 2019, a prefeitura publicou um decreto reconhecendo a emergência climática na capital e anunciou que incluiria o tema no currículo das escolas.

Para discutir os efeitos e possíveis ações para minimizá-los, ocorre na cidade, até a sexta-feira (15), o Fórum Internacional Recife Exchange Netherlands (RXN), que tem como tema "águas como patrimônio: visões e estratégias sobre o aumento do nível do mar no Recife e Países Baixos". A inscrição é gratuita.

 

 

 

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